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quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Favorita das Nove Musas*

Em 18 de outubro de 1773, Phillis Wheatley, poetisa e escrava, recebeu a alforria.

Phillis Wheatley nasceu na África ocidental (talvez no Senegal, mas a origem é incerta), e foi vendida por um chefe tribal aos 7 anos a um comerciante de escravos. A menina, ainda sem nome, foi trazida num navio negreiro chamado Phillis ao mercado de escravos no porto de Boston em 1761. Ali, a sorte que havia lhe faltado sorriu: ela foi adquirida pelo alfaiate John Wheatley, para servir de companhia e ajudante à sua esposa Susannah. Wheatley era reconhecidamente um progressista notável que, embora mantivesse escravos domésticos a seu serviço, os tratava e mantinha com dignidade. A menina, batizada Phillis (em lembrança ao navio que a trouxe à América), e Wheatley (como de costume, para assinalar a propriedade da família que a comprou), ficou sob a tutoria da filha mais velha do casal, Mary, que a alfabetizou.

Mary, contudo, percebeu a facilidade de aprendizado e uma habilidade notável no uso e na expressão de línguas, não apenas do inglês - aos 12 anos, Phillis lia grego e latim, e interpretava passagens da Bíblia. Estava familiarizada com os poemas de Pope, Milton, Virgílio, Homero. Phillis começou a escrever aos 14 anos. Seu primeiro poema, "To the University of Cambridge, in New England" começa assim (e eu traduzo livremente):

"Enquanto um intrínseco ardor induz a escrever,
As musas prometem assistir a minha caneta;
Não faz muito tempo desde que deixei minha costa nativa
A terra de erros, e melancolia egípcia:
Pai de misericórdia, foi tua mão graciosa
Que me trouxe em segurança daquelas escuras moradias."

Impressionados pelo talento de Phillis, os Wheatley dispensaram-na dos serviços domésticos e investiram integralmente em sua educação. Quando completou 20 anos, Phillis foi enviada a Londres sob recomendação médica. Susannah Wheatley incentivou a viagem porque acreditava que Phillis teria mais facilidade para publicar seus poemas lá do que em Boston. De fato, em 1772, antes de partir para Londres, uma comissão de cidadãos de Boston abriu processo contra Phillis, questionando que uma escrava africana pudesse escrever poesia de qualidade, e precisou que ela se submetesse a uma corte, na presença de intelectuais locais (entre eles, John Hancock, um dos signatários da Declaração de Independência), para atestar a autoria dos seus poemas. Em 1773, em Londres, publicou seu livro "Poemas Sobre Vários Assuntos, Religiosos e Morais" (o documento produzido pelos intelectuais de Boston no ato do julgamento foi incluído no prefácio da primeira edição), e caiu nas graças da nobreza britânica. Já editores na América se recusaram a publicá-lo. Foi logo após a publicação em Londres e seu retorno que John Wheatley (talvez por pressão dos influentes amigos de Phillis) concedeu-lhe a alforria:

"Desde meu retorno à América meu Mestre, segundo o desejo de meus amigos na Inglaterra, deu-me a liberdade".

A vida de Phillis Wheatley depois da escravidão, contudo, não foi fácil. Seus antigos mestres e protetores faleceram, Susannah em 1774 e John em 1778. A poetisa não gozava de boa saúde, o que atrapalhava seu trabalho. Em 1778 casou-se com John Peters, um negro livre que tinha uma quitanda, e com ele viveu anos de pobreza, perdendo dois bebês. Ela tentou publicar um segundo volume de poesias, mas já na época da Revolução Americana havia pouco interesse e recursos para isso. Peters foi preso por dívidas em 1784, e poucos meses depois, ela morreu enquanto trabalhava como assistente de cozinha de uma estalagem. Seu terceiro filho morreu na mesma época, e os dois foram enterrados juntos numa cova comum.

Phillis Wheatley tornou-se a primeira escrava negra na América a publicar uma obra literária. Em Londres, onde o estigma da escravidão não lhe tomava a liberdade de expressão, relatava experiências e opiniões diversas nos círculos de intelectuais que frequentava. Porém o corpo da sua poesia, finamente ritmado e essencialmente devocional, religioso, raramente toca nas suas experiências pessoais. De fato, ela expressava, por exemplo, sentimentos ambíguos quanto à escravidão, devido à benfeitoria dos Wheatley em sua vida, o que levou autores negros contemporâneos, e estudiosos posteriores a criticar a postura (o uso progressivo de símbolos classicistas nos seus poemas, uma provável adaptação ao que ainda guardava da sua cultura ancestral, levou o escritor e escravo Jupiter Hammon a criticar seu "paganismo", dedicando a ela um poema composto por versículos bíblicos). No poema "Sobre Ter Sido Trazida da África para a América", ela louva a sua condição de escrava por ter permitido que conhecesse o Cristianismo, mas firma o pé na contestação do senso comum da época de que negros tinham uma linhagem e um destino espiritual distintos dos brancos:

"Foi misericórdia que me trouxe de minha terra Pagã,
Ensinou minha alma ignorante a entender
Que há um Deus, que há um Salvador também:
Uma vez que a redenção não procurei nem conhecia.
Alguns veem nossa negra raça com olhos desdenhosos,
'Sua cor é uma tintura diabólica.'
Lembrem-se, Cristãos, Negros, pretos como Caim
Podem ser refinados e juntar-se ao seu cortejo de anjos."

Em 1775, já durante a Revolução, época em que os poemas de Phillis Wheatley tomavam ares heroicos frequentando temas patrióticos e elogiando figuras públicas, ela escreveu uma carta ao recém nomeado comandante-em-chefe do Exército Continental, George Washington. O poema terminava nos versos:

"Continua, grande chefe, com virtude ao teu lado,
Todas as tuas ações deixa que a deusa guie.
Uma coroa, uma mansão, e um trono que brilhe,
Com ouro inalterável, WASHINGTON! Sejam teus."

Washington respondeu a carta, endereçando-se a "Senhorita Phillis", desculpando-se pela demora (5 meses entre o envio da carta de Phillis e a resposta de Washington), elogiando as "linhas elegantes" e seu "marcante talento poético". Ele diz ainda que teria arranjado sua publicação, se isso não parecesse um ato de vaidade e auto-promoção da sua parte (mas compartilhou-o com o tenente-coronel Joseph Reed, que teria encaminhado-o para o jornal The Pennsylvania Magazine em 1776), convidando-a a encontrá-lo em Cambridge. Por fim, dedica a carta à ex-escrava como "seu obediente e humilde servo".

Em Boston foi erigido em 2003 um monumento homenageando três mulheres importantes da história americana: Abigail Adams, esposa e conselheira do "Founding Father" John Adams e mãe do presidente John Quincy Adams; Lucy Stone, abolicionista, feminista e sufragista; e Phillis Wheatley.

*O almirante escocês-americano John Paul Jones pediu que um subordinado enviasse seus próprios escritos a "Phillis a Africana, favorita das Nove e Apolo".

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Agripina, A Velha

Em 17 de outubro de 33 d.C. faleceu de desnutrição a romana Agripina ("A Velha", porque tinha uma filha homônima, conhecida como "A Jovem"), adversária do imperador Tibério e mãe do seu sucessor, Calígula.

Na sociedade romana, à época da dinastia Júlio-Claudiana, os homens eram os executores da vida pública, ocupantes exclusivos dos cargos de cônsul, senador, pretor, general, pontífice. Eram maridos, cabeças de suas famílias, provedores do lar. Das mulheres era esperado o recato, a modéstia, a obediência, e um útero fértil. Quaisquer mulheres que não se enquadrassem nesse modelo, independente da sua sagacidade, capacidade produtiva, caráter, eram mal vistas pelos romanos. Porém, como toda boa sociedade fortemente patriarcal, a vida política romana sempre teve, nos seus bastidores, a influência das esposas e amantes dos seus figurões mais ilustres. Agripina, quem o historiador Tácito, sob o ponto de vista do homem romano, a descreve como alguém "intolerante na rivalidade, sedenta de poder, (ela) tinha as preocupações de um homem", era uma mulher cuja virtude extrapolava o que se esperava de uma romana, enquadrando-se tanto no espectro da matrona virtuosa e recatada, quanto da leoa que se imiscuía nos negócios públicos em busca de justiça.

Vipsania Agripina, nascida em 14 a.C., era filha de Marcus Vipsanio Agripa, amigo de longa data do imperador Otaviano, e da única filha biológica deste, Júlia. Entre os patrícios romanos os casamentos eram arranjados e desfeitos para fortalecer alianças ou aproximar inimigos, e havia muito pouco que os noivos pudessem fazer. Depois de anos de casamento feliz com Agripa, quando este morreu Júlia foi oferecida em casamento ao herdeiro legal de Otaviano, Tibério, um homem soberbo e emocionalmente instável, com quem viveu miseravelmente; não foi surpresa, embora tenha sido um escândalo, quando Otaviano puniu Júlia com o exílio por adultério. Como resultado, a jovem Agripina, então adolescente, ficou sob a guarda da atual esposa de Otaviano, Lívia.

Lívia era uma verdadeira arquiteta política. Seu marido (a quem arrebatara quando era casado e ainda compartilhava o poder com os rivais Marco Antonio e Marco Lépido) era o imperador; embora Otaviano adotasse legalmente alguns jovens promissores, ela arranjara para que Tibério, seu filho de um casamento anterior, se tornasse seu herdeiro, enquanto seus possíveis rivais caíam um a um, provavelmente envenenados sob suas ordens (bem como o próprio Otaviano, que gozava de boa saúde na velhice); com Tibério pavoneando-se no poder, trabalhava como uma das principais articuladoras políticas do seu reinado.

Já Otaviano era um homem astuto, que conhecia as artimanhas e a capacidade de realização de Lívia e procurava direcioná-las para benefício comum. No entanto, seu ímpeto frequentemente entrava em conflito com os planos da esposa. Quando Júlia foi exilada e Agripina trazida para o seu convívio, Otaviano se afeiçoou a ela e a protegeu, oferecendo-a em casamento a Germânico, um jovem e charmoso neto de Marco Antonio e parente de Lívia, da influente família dos Cláudios. Germânico, além de bem apessoado e gentil, era um militar capaz. Suas vitórias na Germânia e na Gália (notadamente, o resgate da última das três Águias Perdidas) o tornavam imensamente popular. A modéstia e a frugalidade de Agripina, sua devoção por Germânico (com quem viveu um casamento verdadeiramente feliz, se confiarmos nas fontes contemporâneas, acompanhando-o em campanha e mesmo atuando como diplomata) a tornaram uma favorita do povo. O casal deu à luz nove filhos, com seis deles chegando à idade adulta.

Otaviano já havia designado Tibério seu sucessor, mas exigiu que o enteado fizesse o mesmo com Germânico. Quando Otaviano morreu, as coisas mudaram. Tibério, que não gozava das virtudes nem da popularidade de Germânico, o via como uma ameaça. Germânico foi então enviado para o oriente (para longe de Roma), para comandar a Síria. Em seu auxílio foi designado o general Calpúrnio Piso, com quem Tibério mantinha estreitas relações, supostamente para mantê-lo sob controle. Piso e Germânico se desentenderam publicamente em pelo menos uma ocasião (após retornar do Egito, Germânico teria constatado que Piso ignorara instruções suas acerca das tropas na Síria). Ali, Lívia talvez tenha sido solicitada para ajudar Piso a resolver a questão, porque, logo em seguida, Germânico passara mal, acusando o colega de tê-lo envenenado. Germânico morreu no ano 19, deixando Piso no comando da província.

Agripina retornou a Roma com as cinzas do seu marido. Ao receber a notícia do falecimento de Germânicos, o povo romano entrou em luto antes mesmo do senado o declarar oficialmente, e diante da urna com suas cinzas, discursos e homenagens eram prestadas por figuras públicas, incluindo o próprio Tibério. Mas Agripina não se contentaria com demonstrações públicas de afeto. Ela compartilhava da convicção de Germânico de que teria sido envenenado, e que o responsável era Piso (isso não está expresso nas fontes, mas sua mente não deve ter ido muito longe para ligar a atuação de Piso a Tibério). De fato foi aberto processo e Piso foi indiciado, não por assassinato, mas por traição e desacato. Ele se suicidou antes da condenação.

A queda de Piso não satisfez o senso de justiça de Agripina. Ela exigia de Tibério que ele nomeasse um dos seus filhos seu herdeiro, em substituição a Germânico (Tibério tinha um filho Tibério Gemelo, que despontava como seu favorito). Lívia e a sogra, Antonia, mantinham os filhos de Agripina o mais longe possível da mãe. Ela se tornava cada vez mais solitária, e sua relação com Tibério cada vez mais amarga, chegando ao ponto de enfrentá-lo em particular algumas vezes, acusando-o de perseguir, através dela e de seus filhos, o sangue de Otaviano.

Senadores, preocupados com a crescente influência do prefeito pretoriano Sejano (a quem Tibério delegava muitas das suas atribuições quando, em crises emocionais, exilava-se em inacreditáveis orgias na ilha de Capri), buscaram apoio na boa reputação de Agripina, que abraçou a causa. Tibério passou a desconfiar dela, e, num jantar privado, ofereceu-lhe uma maçã para testá-la. Agripina recusou-se a comer, acreditando estar envenenada. Pouco depois ela foi presa com dois de seus filhos, acusada de conspiração (Tibério temia que ela buscasse apoio das legiões leais a Germânico, usando a reputação do marido e o parentesco do avô Otaviano a seu favor).

Agripina e os filhos acabaram banidos para a ilha de Pandataria (atualmente Ventotene), o mesmo local para onde sua mãe Júlia havia sido exilada. Seus protestos constantes eram punidos com castigos físicos (algo raramente aplicado em condenações deste tipo), e ela acabou cega de um olho. Depois de quatro anos do exílio, morreu de inanição (segundo Tácito por greve de fome, mas talvez por ter sido deliberadamente privada de comida, não se sabe), mesmo destino de seu filho Druso, enquanto o outro filho, Nero, se suicidou aguardando julgamento. Ironicamente, Sejano encontrou seu fim antes de Agripina, quando Tibério mandou executá-lo por conspiração. Quando soube da morte de Agripina, Tibério declarou o dia do seu nascimento uma data de mau agouro.

O último filho homem vivo de Agripina, Caligula, criado sob a vigilância de Lívia, sucedeu Tibério como imperador no ano 37. Ele revertera a condenação de Tibério e suas ordens para que o nome de sua mãe fosse riscado da história, e depositou suas cinzas no Mausoléu de Augusto, declarando um dia anual para que os romanos lhe prestassem homenagens. Calígula acabaria assassinado e sucedido pelo primo de sua mãe, Cláudio, e este, por sua vez, substituído pelo seu neto Nero.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

As Aventuras (reais ou não) do Barão Munchausen

Em 11 de maio de 1720 nasceu Hyeronymus Karl Friedrich von Münchhausen, que viria a se tornar célebre através da sua versão satirizada na literatura na forma do mentiroso Barão Munchausen.

Münchhausen nasceu no seio de uma família nobre do norte da Alemanha, e ainda adolescente, serviu como pagem ao jovem duque Ulrich II de Brunswick. Este Ulrich era sobrinho da imperatriz consorte do Sacro Império Romano, e através dela teve seu casamento arranjado com uma princesa russa. Em 1733 ele seguiu acompanhado de Münchhausen para a Rússia para conhecer melhor a noiva.

Em 1735 eclodiu a confusa Guerra Russo-Turca (que começou com uma guerra entre o Império Otomano e a Pérsia, e envolveu a Rússia por força de tratados com os persas, que apoiavam um herdeiro favorável aos russos ao trono polonês, contra o favorito da França... além da possibilidade da Rússia abrir caminho sobre território Otomano em direção ao Mar Negro). Sob influência do seu suserano, Münchhausen foi nomeado corneteiro de uma unidade de cavalaria alemã a serviço da Rússia, no fim da guerra em 1739. O futuro barão seguiu carreira militar, tendo sido nomeado tenente e participado superficialmente de duas campanhas russas contra os turcos.

Em 1760, tomou posse das terras da família em Bodenwerder e decidiu "aposentar-se" como barão (em alemão, "Freiherr", ou "Senhor livre"), ou seja, viver das rendas da sua propriedade. Ali ele promovia encontros festivos com aristocratas alemães, onde entretinha os convidados com sua própria versão de suas aventuras no exército russo. Suas histórias, tão espúrias e espetaculares, passaram a atrair a curiosidade de nobres e viajantes da Europa, que vinham visitá-lo para ouvi-lo contar de como suas peripécias inacreditáveis determinaram os acontecimentos históricos nas quais estavam inseridas. Um observador ponderou que Münchhausen exagerava seus feitos não para enganar ou vangloriar-se, mas para ridicularizar a credulidade de seus amigos. Münchhausen morreu em meio a um processo de divórcio com sua segunda esposa, 57 anos mais jovem, que tivera um filho exatamente 9 meses depois de se retirar a um spa na Saxônia, em 1797.

O barão teria sido esquecido como uma figura menor da história alemã, não fosse pelo escritor alemão Rudolf Erich Raspe. Raspe estudou na Universidade de Göttingen, fundada por um primo de Münchhausen, e através dele conheceu Münchhausen ali antes da sua aposentadoria. Convidado a participar de uma de suas reuniões em Bodenwerder, ele guardou para si lembranças de alguns dos contos que ouviu e a eles adicionou outros mais antigos presentes na literatura alemã para criar o personagem quase homônimo, o Barão Munchausen. Publicados anonimamente e escritos em primeira pessoa (identificada originalmente apenas como "M-h-s-n"), os contos foram publicados pontualmente em revistas e inseridos em almanaques alemães. Foi em 1785, enquanto trabalhava em uma empresa mineradora na Inglaterra, que Raspe compilou (anonimamente) pela primeira vez as aventuras do Barão Munchausen (sem o segundo "H", para que fosse lido com mais facilidade em inglês). Com títulos enormes que variavam de uma edição para outra, o livro é comumente conhecido como Viagens do Barão Munchausen.

Na obra, Munchausen é um nobre veterano de guerra narrando a seus amigos, de forma exagerada, suas aventuras originalmente contextualizadas no cenário da Guerra Russo-Turca - como no prefácio o próprio personagem reconhece ao leitor a dificuldade de se afirmar a veracidade dos fatos, ele consegue uma declaração de confiança subscrita por ninguém menos que Gulliver, Simbad, e Alladin. Colocado frequentemente em situações inacreditáveis, o Barão contorna seus problemas usando de astúcia e habilidades super humanas.

,Entre seus feitos, ele livra-se de um leão fazendo-o atirar-se na boca de um crocodilo, matando ambos; depois de tirar seu cavalo do telhado de uma igreja, este é devorado por um lobo, que o barão atrela e faz puxar seu trenó; abate quase 100 aves em um lago disparando com o fogo que saía de seus olhos; explode um urso com uma pederneira, vira um lobo do avesso, e, depois de fugir de um cão raivoso, seu próprio casaco de pele enlouquece e ataca as outras roupas de seu armário; escapa do estômago de um peixe gigante dançando à moda escocesa dentro dele; acerta os pescoços de 17 inimigos com apenas um tiro de canhão; relata como seu pai viajou da Inglaterra para a Holanda num cavalo marinho; conhece o próprio deus Vulcano no interior do Monte Etna, indo parar em seguida em uma ilha (maior que a Europa, que ele sobrevoara nas costas de uma águia) feita de queijo cercada por um mar de leite; cavalga uma bala atirada de um canhão.

Uma das cenas mais famosas começa quando os turcos o capturam e o vendem ao sultão como escravo. Enquanto cuidava das suas abelhas gigantes, dois ursos atacam a colmeia. Ele tenta espantar os ursos com uma machadinha de prata usada pelos jardineiros, mas o arremesso é tão forte e tão errado, que a machadinha vai parar na lua. Ele planta um pé de feijão que cresce até se agarrar numa das "pontas" da lua e sobe por ele. Ao recuperar a machadinha (perdida num lugar onde tudo reluzia a prata), ele percebe que o pé de feijão secara. Então ele corta um pedaço do pé seco e faz uma corda; conforme se pendura nela, ele vai cortando outros pedaços do pé de feijão para alongar a corda. Porém a corda resulta curta demais, e ele despenca de uma altura de 8 km, caindo como um prego, enterrando-se no solo. Ele se livra cavando com as próprias unhas, que deixara crescer por 14 anos.

Em outra ocasião, o barão montava um cavalo lituano muito especial, que tivera a metade de trás do corpo arrancada enquanto passavam por um portão que descera às suas costas, mas ele só percebera que o animal caminhava apenas com as patas dianteiras quando, ao parar para beber água, ela passava pelo seu corpo e derramava no chão pelo buraco; o barão resolvera o problema costurando as duas metades com ramos de louro, que não só curaram o animal, como cresceram para fazer sombra sobre seu ginete.

O verdadeiro Barão Münchhausen, quando soube da publicação do livro, não ficou nada satisfeito. Sentindo-se insultado, ameaçou processar o editor (um certo Smith, já que Raspe permanecia anônimo), mas isso não impediu que a obra fosse traduzida para alemão e francês antes da virada do século. Ironicamente, o próprio Raspe inspiraria um personagem de O Antiquário, de Walter Scott, um trambiqueiro alemão trabalhando em uma mina escocesa - o Raspe verdadeiro teria enganado um dono de terras escocês sobre a riqueza na sua propriedade mostrando a ele gemas e pedras preciosas que ele mesmo havia "plantado" no chão previamente. Reeditado muitas vezes ao longo do século XIX, ganhou o cinema pela primeira vez com a produção de 1911 dirigida por George Méliès. A última versão importante das histórias do barão foi o filme As Aventuras do Barão Munchausen de 1989, dirigido por Terry Gillian.

Uma desordem psiquiátrica chamada Síndrome de Munchausen compreende um quadro onde o paciente deliberadamente mente sobre sintomas que não está sentindo, forjando-os se for necessário, para conseguir atenção médica (diferente da hipocondria, onde o paciente realmente acredita estar sentindo os sintomas que descreve). Inspirado pelo conto em que o barão salva a si próprio do afogamento puxando-se para fora de um pântano pelos cabelos, filósofo Hans Albert definiu o Trilema de Munchausen, que discute a impossibilidade de se provar definitivamente qualquer verdade porque o argumentador tem três vias argumentativas possíveis: justificar sua conclusão a partir de um método que precisa justificar-se logicamente com base em premissas que precisam ser justificadas, assim indefinidamente; um argumento circular (fundamentado nele mesmo ou nas suas próprias motivações) pode ser usado, porém sacrificando sua validade; pode-se usar o princípio da autoridade, ou da razão suficiente, fundamentado na palavra de um "expert" ou no que "está escrito" (esta tríade está presente abundantemente na narrativa do barão, que apresenta os fatos como se fossem naturais e lógicos; na falta de lógica, apela para o argumento circular; e quando tudo mais falha, alega a veracidade colocando em jogo sua própria palavra de honra).

Em Bodenwerder existe hoje uma fonte esculpida no formato de um meio-cavalo, montado pelo barão, com a água jorrando da metade cortada do seu corpo.

P.S.: Se me permitem, antes de conhecer o barão e suas histórias, minha avó contava sua própria versão delas, substituindo o barão por um "príncipe" anônimo, que reunira personagens com habilidades extraordinárias para participar de uma competição pela mão de uma princesa (o personagem-título era um deles, chamado Come Tudo, Bebe Tudo, e Nada Chega). Quando o filme de 1989 chegou ao cinema, reconheci nele quase todos os personagens e eventos do "ciclo mitológico" da minha avó.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Phillibert e Jeanne

Em 18 de novembro de 1727 nasceu Phillibert Commerson (ou Commerçon) em Châtillon les Dombes, na França, na base dos Alpes. Ele seria um dos primeiros botânicos europeus a se aventurar numa viagem de volta ao mundo, e suas coletas no Brasil são alguns dos exemplares mais antigos da flora brasileira a serem amostrados e conservados em herbários até hoje.

Filho de um notário a serviço de um nobre local, seu pai esperava que ele aprendesse apenas a ler e escrever para seguir a sua profissão. Mas na escola, um professor o levou a um passeio no campo, despertando seu entusiasmo pela botânica. Estudou medicina e botânica (duas ciências que frequentemente andavam juntas, alternadamente com a farmácia e a química) em Montpellier, até hoje um dos principais centros universitários daquele país. Sua fixação por botânica o levava a coletar amostras clandestinamente no jardim botânico local, até o ponto de ser proibido de entrar nele. Entre 1754 e 1758 dedicou-se à coleta de plantas no Languedoc francês e à composição de jardins botânicos. Neste período conheceu o filósofo Voltaire, que, encantado com a acuidade do pensamento do jovem botânico, o convidou a ser seu assistente. Commerson recusou, alegando depois ter tido a impressão de que Voltaire era um velhaco, propenso a terrores noturnos (não obstante, sua carreira seria guiada pelos princípios do Iluminismo).

Nessa mesma época, Carl von Linnaeus estava trabalhando a pleno vapor nos seus novos sistemas de classificação dos seres vivos, e a ele interessava todo tipo de trabalho em ciências naturais que lhe fornecesse descrições precisas de espécies conhecidas com as quais pudesse posicionar os organismos em seus reinos, classes e ordens e formalizar seus nomes para uso de toda a comunidade científica. A Commerson ele encomendou uma monografia sobre peixes do Mediterrâneo. Commerson coletou e escreveu profusamente, mas nunca chegou a publicá-la (sua coleção de peixes ainda está preservada no Museu de Estocolmo).

Em 1760 ele se casou com Antoinette Beau e abriu um consultório médico numa aldeia. Sua vida parecia estabelecida, quando Antoinette faleceu enquanto dava à luz o filho do casal, François. Arrasado, Commerson caiu em depressão, e passou a se dedicar obcecadamente ao trabalho. Seu irmão, também François, dizia que Phillibert passara vários anos seguidos coletando plantas e insetos nos Alpes e nos Pirineus, subindo e descendo as mesmas montanhas várias vezes, vivendo de pão, leite e queijo que comprava de pastores locais e dormindo como hóspede em suas choupanas. Um amigo seu de infância, o astrônomo Jerôme Lalande, alertado pelo irmão de Phillibert, o convenceu a ir a Paris para expandir a mente, deixando o pequeno François aos cuidados de um tio, que era padre.

Em Paris, enquanto Commerson se entrosava com os principais nomes da botânica do seu tempo, como os irmãos Jussieu (Antoine, Bernard e Joseph) e Michel Adanson, quem tomava conta da sua casa era uma jovem órfã da Burgundia chamada Jeanne Barret (ou Baré). Com seus novos contatos, Commerson acabaria sendo recomendado ao almirante Louis Antoine de Boungainville como cirurgião-naturalista do seu navio, o Etoile, com o qual realizaria a primeira expedição francesa de circunavegação do globo, e a primeira expedição científica ultramarina da França.

Bougainville era um capitão experiente. Havia participado da Guerra Franco-Indígena na América do Norte. Em seguida, comandou o projeto colonial francês nas Ilhas Malvinas. O próprio Bougainville, às suas custas, levou colonos canadenses ao arquipélago para que a França o reclamasse formalmente à Espanha, que o deixara vago até então. Porém, por razões diplomáticas e econômicas, o rei Luis XV achou por bem devolver as Malvinas aos espanhóis (vendê-las, na verdade), ordenando a evacuação da colônia. Bougainville foi indenizado em 700 mil francos. Com esse dinheiro e a permissão do rei, ele armou dois navios, o Boudese e o Etoile, e contratou uma grande equipe de cientistas, entre geólogos, físicos, historiadores, cartógrafos, meteorologistas, botânicos, zoólogos e linguistas, que somavam, com a tripulação, 330 pessoas. Commerson estava entre eles, e fez questão de trazer a bordo Jeanne Barret, supostamente para auxiliá-lo com suas coletas. Porém, era comum que marinheiros se recusassem a trabalhar a bordo com uma mulher na tripulação. Na marinha francesa, o emprego de mulheres era expressamente proibido. Sabendo disso, Jeanne se apresentou ao capitão do Etoile como Jean, vestida como um rapaz. Commerson fez questão de viajar no Etoile, que era o menor dos navios, porque, com menos gente por perto, as chances de se descobrir o sexo de sua assistente seriam menores. O próprio comandante do navio, capitão Giraudais, cedeu sua cabine (que convenientemente tinha um banheiro exclusivo) para os dois acomodarem-se e a e seus equipamentos.

A missão de Bougainville zarpou de Nantes em novembro de 1766 e chegou ao Rio de Janeiro em 1767. Foi a primeira expedição científica européia a aportar na colônia portuguesa. Porém, o Rio não era a vistosa capital imperial inspirada em Lisboa ou Paris do século XIX, mas ainda uma cidade portuária provinciana e perigosa (o capelão do Etoile foi assassinado enquanto o navio esteve ancorado), então Commerson nunca se arriscou muito longe do porto, coletando espécimes na cidade e arredores, enquanto os seus colegas realizavam todo tipo de experimento científico. A taxonomia era uma ciência que ainda estava em seu período formativo (Linnaeus ainda era vivo), e como nada havia sido coletado ainda no Brasil com o objetivo de ser classificado e entrar na coleção de um herbário como testemunho, praticamente tudo era novidade. Commerson coletou e produziu descrições (nunca publicadas) de centenas de novas espécies. Uma planta ornamental, que já era muito conhecida e cultivada por aqui mas ainda era desconhecida da ciência européia, recebeu de Commerson o nome de Bougainvillea spectabilis Willd. (alguns a conhecerão como "primavera" ou "buganvílea"), em homenagem ao almirante, que também era fascinado pelas ciências naturais. As coletas de Commerson, que duraram até julho de 1767 (com uma pausa entre fevereiro e junho, quando Bougainville seguiu para as Malvinas para formalizar a entrega da colônia à Espanha), são as mais antigas que se tem notícia no Brasil, ainda preservadas em herbários europeus como o do Jardim Botânico Real, em Kew, e do Museu Nacional de História Natural, em Paris.

Commerson tinha uma ferida na perna, que nunca cicatrizava, adquiria possivelmente nas suas andanças pelas montanhas na Europa. A bordo, Jeanne cuidava dele, e em terra, o auxiliava em suas coletas (as coletas no Rio de Janeiro talvez tenham sido feitas quase todas por ela, e na Patagônia, seu vigor no campo foi elogiado pelo próprio Bougainville em seu diário). Sua proximidade era evidente. François Vives, cirurgião do Etoile que não gostava do colega, insinuava em seu diário que os dois eram gays, especulando que Barret era um eunuco. A expedição seguiu para Montevideo, descendo pela Patagônia, e, do Estreito de Magalhães, partiu para o Taiti. Bougainville acreditava ter descoberto aquele arquipélago (reclamando a ilha de Otaheite para a França), tendo notícia apenas mais tarde de que o inglês Samuel Wallis havia passado por ali meses antes. Apenas no Taiti, em abril de 1768, um ano e meio depois do início da viagem, o disfarce de Jeanne foi descoberto: aparentemente Jeanne teria sido apontada inequivocadamente por um taitiano trazido a bordo como uma mulher (ou um travesti). A história seria reproduzida pelos taitianos quando o capitão James Cook chegou nas ilhas no ano seguinte, dando a entender que eles sabiam do seu sexo, mas que os europeus ainda nem desconfiavam. Depois que a tripulação finalmente descobriu (aparentemente atacando e despindo-a à força), Jeanne foi levada à presença de Bougainville, que se divertiu com a história e decidiu não punir nem a ela, nem a Commerson.

A expedição foi atacada por nativos na ilha da Nova Irlanda, a nordeste da Nova Guiné, e fez uma parada na colônia holandesa da Batávia (atual Jacarta, na Indonésia) para reabastecer. De lá seguiu pelo Oceano Índico até as Ilhas Maurício. Commerson ficou surpreso e satisfeito ao saber que um amigo seu, o também botânico Pierre Poivre, servia como governador daquela colônia francesa. Como Poivre o convidou a se hospedar em sua casa (possivelmente, também, a conselho de Boungainville, para evitar complicações com a lei francesa), Commerson e Jeanne se despediram da expedição, que seguiu de volta para a França. Commerson usou Maurício como base para uma expedição em Madagascar, mas a sua saúde se deteriorava. Sua sorte também virou: Poivre foi chamado de volta à França em 1772, e o novo governador retirou os privilégios e a própria hospedagem da dupla, deixando Commerson e Jeanne em situação precária. Commerson faleceu em 13 de março de 1773. Sem suporte na ilha Maurício, Jeanne regressou à França (tornando-se a primeira mulher a circunavegar o planeta), onde reclamou uma modesta herança deixada pelo seu patrão (e possível amante), levando consigo todo o material coletado ao longo dos últimos anos, e que Commerson não tivera tempo de organizar. Coube a Jussieu (Antoine Laurent, sobrinho dos Jussieu que Commerson conheceu em Paris) e a Pierre Lamarck descrever e publicar formalmente as espécies descobertas pelo colega.

sábado, 24 de outubro de 2015

Baibars, o mameluco

Em 24 de outubro de 1260, após o assassinato do sultão Qutuz, o ex-escravo turco Baibars tornou-se sultão do Egito.

Baibars era um turco do povo Kipchak, nascido provavelmente na Rússia ou na Ucrânia durante as conquistas mongólicas, em 1223. Seu nome significa no idioma kipchak "Senhor das Panteras", ou "Rei Pantera". Ele teria sido capturado ainda criança e vendido como escravo. De alguma forma fora parar na Síria onde, dizia, passara a infância fugindo pelas montanhas. Eventualmente, acabaria vendido a um oficial mameluco (elite multiétnica turca que, à época, consistia na elite militar do Sultanato Aiúbida) e enviado ao Egito, onde foi treinado e escalado para a segurança pessoal do sultão aiúbida As-Salih - sua sagacidade e sua aparência física destacada (era loiro de olhos claros) possivelmente compensavam a visão prejudicada por um olho com catarata. Conquistando postos de comando no exército aiúbida, teria participado das últimas batalhas do período da Sexta Cruzada, que anularam qualquer possibilidade do reino cristão de Outremer, na Terra Santa, de retomar a iniciativa contra os muçulmanos por conta própria.

Em 1260, Baibars estava no apogeu da sua carreira militar. Um mês e meio antes do golpe, liderara o exército egípcio no que talvez tenha sido a batalha mais significativa daquele século, em Ain Jalut, no Líbano. Ali, Baibars derrotou os mongóis.

Em 1260, mensageiros sob as ordens de Hulagu, comandante mongol no Oriente Médio, entregaram ao sultão mameluco Qutuz a seguinte mensagem:

"Do Rei dos Reis do Leste e do Oeste, o Grande Khan. A Qutuz o Mameluco, que fugiu para escapar às nossas espadas. Deverias pensar no que aconteceu aos outros países e te submeter a nós. Ouviste sobre como conquistamos um vasto império a purificamos a terra das desordens que a maculavam. Nós conquistamos vastas áreas, massacrando todos os povos. Não podes escapar do terror de nossos exércitos. Para onde fugirias? Que estrada usarias para escapar de nós? Nossos cavalos são velozes, nossas flechas afiadas, nossas espadas como relâmpagos, nossos corações duros como as montanhas, nossos soldados numerosos como grãos de areia. Fortalezas não nos deterão, nem exércitos nos pararão. Tuas preces a Deus não servirão contra nós. Não somos comovidos por lágrimas nem tocados por lamentações. Apenas aqueles que imploram por nossa proteção estarão a salvo. Apressa a tua resposta antes que o fogo da guerra queime. Resiste e sofrerás as mais terríveis catástrofes. Nós esmigalharemos tuas mesquitas e revelaremos a fraqueza de teu Deus, e então mataremos tuas crianças e teus velhos juntos. No momento és o único inimigo contra quem temos que marchar."

Provavelmente Qutuz já sabia que a mensagem era verdadeira. O avanço mongol sob Mongke Khan, neto de Genghis Khan, em direção ao Oriente Médio alterou drasticamente o equilíbrio de poder na região. As entidades geopolíticas que disputavam a supremacia entre a Mesopotâmia, a Síria e a Palestina (o Império de Kwarizm, no Irã, o Califado de Bagdá, no Iraque, e o próprio Sultanato Aiúbida, concentrado na Síria mas abrangendo também o Egito) na época da Sexta Cruzada simplesmente deixaram de existir. Os mongóis obliteraram Kwarizm, conquistaram Bagdá (causando uma devastação tamanha em toda Mesopotâmia que a agricultura da região até hoje, mesmo com toda a tecnologia moderna, ainda não recuperou sua produtividade), e semanas depois Damasco, levando o Sultanato Aiúbida ao caos. Os generais mamelucos rapidamente preencheram o vácuo de poder causado pela perda da Síria e instauraram no Egito um sultanato próprio (embora os governadores de Aleppo continuassem a governar localmente pretendendo serem sultões aiúbidas legítimos). Desde 1259, reinava no Cairo o sultão Qutuz (outro ex-escravo capturado por mongóis, possivelmente em Kwarizm). Na ocasião da sua ascensão, ele não foi capaz de salvar a Síria da repentina invasão mongol, apesar do pedido desesperado do governador de Aleppo, que recebera mensagem semelhante. Qutuz, no entanto, respondeu assassinando os mensageiros e espetando suas cabeças em espigões nos portões do Cairo. Como acontecera em ocasiões semelhantes, de forma especialmente trágica em Merv (a maior cidade do mundo no seu tempo, reduzida a escombros e cadáveres) e Bagdá, o desafio provocou a ira mongol.

A morte repentina de Mongke Khan foi um golpe de sorte para Qutuz e todos os reinos que esperavam, apreensivos, o inexorável ataque mongol. Hulagu tivera que recuar da Síria com a maior parte das suas forças em agosto de 1259 para participar da assembléia que elegeria o novo Grande Khan (ele era um dos candidatos, mas seu irmão Kublai foi eleito). Hulagu havia deixado algo próximo a 10 mil homens no oeste do Eufrates para prosseguir com as conquistas no Oriente Médio, visando Jerusalém, ponto de apoio para uma campanha no norte da África. Qutuz reunira um grande exército no Egito e marchara para a Palestina. Kitbuqa, general encarregado por Hulagu nesta campanha, marchou para o sul a partir do Líbano, reforçado por exércitos de reinos cristãos que se submeteram pacificamente aos mongóis, como a Geórgia e a Armênia Cilícia. Os cristãos de maneira geral apostavam nos mongóis contra os muçulmanos. Os cruzados remanescentes na Terra Santa, contudo, estavam proibidos pelo Papa de se aliarem aos mongóis, o que os colocava em situação perigosa. Mesmo assim, eles proibiram os mamelucos de marcharem pacificamente pelo seu território, forçando-os na direção do Vale de Jezreel. Em 3 de setembro, perto de Ain Jalut, no Líbano, os dois exércitos se encontraram.

Baibars volta à cena neste momento. Trazendo consigo algumas forças da Síria, se uniu a Qutuz e participou da definição da estratégia para esta batalha. Suas peripécias na juventude lhe deram um conhecimento de terreno que ninguém, entre mamelucos e mongóis, tinha, o que lhe deu uma posição de grande proeminência na movimentação egípcia. Ele distribuíra as forças egípcias nas montanhas e florestas, e lideraria um modesto destacamento de cavalaria rápida. Era Baibars quem se apresentava para a batalha diante dos mongóis. Kitbuqa despachou seus aliados cristãos à frente. Os dois lados combateram longamente, Baibars evitando expor demais suas forças, recuando sempre que podia, e contra-atacando à longa distância. Kitbuqa perdia a paciência, e enviou um ataque massivo ao pequeno exército mameluco. Mesmo com a cavalaria mais veloz do mundo, os mongóis não os alcançavam pelas trilhas, permitindo que Baibars os fustigasse e fugisse repetidamente, atraindo os mongóis cada vez mais para longe da planície. Kitbuqa não desconfiou de uma armadilha, e continuou pressionando. Quando chegaram às terras altas, Baibars fez o sinal, e milhares de mamelucos saíram de seus esconderijos e se abateram sobre os mongóis em todas as direções. Ao invés de se renderem, os mongóis lutaram com mais ferocidade para tentar romper o cerco, mas os mamelucos tinham como corpo principal do seu exército uma cavalaria pesada armada com longas lanças e espadas que, no combate à curta distância, não deram margem de manobra para os arqueiros leves da estepe asiática. Na retaguarda haviam canhoneiros, armados com canhões portáteis que serviam para assustar os cavalos inimigos, impedindo um movimento coordenado. Ao final do dia, quase todos os mongóis estavam mortos. Kitbuqa teria se retirado com ferimentos, e morrido ao se recusar a receber tratamento médico típico da hospitalidade muçulmana (ele era cristão).

Baibars caiu nas graças dos emires egípcios. Após a batalha, a caminho do Damasco, ele teria requisitado ao sultão o governorado de Aleppo para si, mas Qutuz nomeou o emir de Mosul para o cargo. Qutuz assegurou o controle sobre Damasco e a autoridade efetiva sobre a maior parte da Síria, e retornou para o Cairo. Nesse caminho, Baibars teria conspirado com os emires, agora seus aliados, e no dia 24 de outubro, pelo menos três deles apunhalaram o sultão. Como Qutuz não tinha filhos, os emires elegeram Baibars seu sucessor.

Baibars faria juz à fama nos anos seguintes debelando a Sétima Cruzada e mantendo a Nona em cheque (a Oitava Cruzada teve a Tunísia como alvo), além de conquistar o antigo reino cristão de Makuria, no Sudão, e infligir mais derrotas aos Mongóis no leste da Turquia. Também investiu pesadamente em infraestrutura para comunicação, transporte, produção agrícola e distribuição de alimentos, que ajudaram o sultanato mameluco a ter uma vida relativamente longa.

Mas seu maior feito, pelo qual seu nome seria lembrado, foi a vitória em Ain Jalut. Foi a primeira derrota mongol desde que começara o avanço sobre o mundo islâmico. O mito da invencibilidade mongol caiu, e na região, tanto os turcos mamelucos do Egito quanto seus vizinhos seljúcidas ao norte mantiveram os mongóis sob controle, impedindo seu avanço até o Mediterrâneo e ao sul da Europa e África, com consequências imprevisíveis para os mundos islâmico e cristão. Como sultão, ele também estabeleceu relações próximas com o Khanato da Horda Dourada, cujo khan Berke era também muçulmano. Em 1262, Hulagu em pessoa voltara ao Oriente Médio para esmagar os mamelucos, mas Berke iniciara uma série de ataques ao norte do seu território, distraindo sua atenção e impedindo uma campanha com força total no Levante. Baibars morreu em Damasco em 1277, possivelmente envenenado.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Cláudio, imperador

Em 13 de outubro de 54 d.C., o imperador romano Cláudio sucumbiu a um envenenamento.

Cláudio nasceu no seio da família mais poderosa de Roma do seu tempo. De fato, no núcleo da primeira dinastia reinante do Império Romano, a dinastia Júlio-Claudiana formada a partir de Otaviano, filho adotivo de Júlio César, e seguida pelo tio de Cláudio, Tibério. Roma fora governada pelos dois por um total de 63 anos, vivendo um período de expansão, estabilidade interna e institucional, e prosperidade como os mais velhos nunca haviam visto.

Apesar da estabilidade política, garantida pela habilidade de Otaviano e Tibério na condução da coisa pública, a questão dinástica que conduziria Cláudio ao poder não é nada simples.

Otaviano fora escolhido em testamento por Júlio César antes de morrer como seu sucessor legal, o que lhe dava prestígio para assumir, apesar de ter apenas 19 anos, um lugar entre os veteranos generais Marco Antonio e Lépido no triunvirato que governou Roma durante a guerra civil que se seguiu. A guerra, que começou contra os assassinos de César, terminou com a vitória de Otaviano sobre Antonio e sua coroação no ano 27 a.C.. Otaviano reinou por 40 anos, tempo no qual transformou a si mesmo numa figura monárquica (Imperator, incorporando ao seu nome os títulos de Augustus Caesar), gradualmente enfraquecendo as instituições republicanas do consulado e do senado. A República Romana, virulentamente anti-monarquista, viria a aceitar a ideia de ter um cidadão sobre os demais, a ser sucedido por herdeiros de sangue ou adoção.

Durante a guerra civil entra em cena uma jovem chamada Lívia. Da antiga e prestigiosa família (gens) dos Cláudios, Lívia parece ter persuadido Otaviano a se divorciar de sua segunda esposa, Scribonia, para ficar consigo (Otaviano se divorciou no dia em que Scribonia dava à luz sua única filha Júlia). De família de origem plebeia, a união de Otaviano com Lívia trouxe benefícios para ambos. A astúcia de Lívia era infernal, e com ela protegia o marido das intrigas palacianas, ao mesmo tempo em que Otaviano, igualmente sagaz, mantinha suas maquinações permanentemente em cheque. Os dois viveram juntos por 43 anos, mas não tiveram filhos. Lívia trazia de seu casamento anterior com seu primo Tibério Cláudio Nero (nomes que se repetem muito na família) dois filhos, Tibério (igualmente Tibério Cláudio Nero) e Druso.

No entanto, Otaviano tinha como favorito um sobrinho seu chamado Marcelo, com quem casou a filha Júlia tendo em vistas legitimá-lo como sucessor. Lívia, por sua vez, também tinha seu favorito, o mais velho Tibério - político e militar hábil, mas emocionalmente inseguro e influenciável. Marcelo morreu dois anos depois do seu casamento, e cronistas antigos como Cassio Dio sugeriam que teria sido envenenado por Lívia. Talvez pressentindo alguma armação da esposa, Otaviano voltou-se ao seu amigo Agripa (com quem também casou Júlia), veterano da guerra civil, nomeando-lhe para importantes cargos administrativos. Seus filhos Gaio e Lúcio também figuravam entre os favoritos à sua sucessão. Os dois também morreram no auge do vigor físico de doenças misteriosas com dois anos de intervalo entre si (Tácito também sugere a participação de Lívia). Com os dois fora do caminho, finalmente Tibério caíra nas graças do imperador. Seu irmão Druso morrera pouco antes dos dois rapazes, supostamente devido à queda de um cavalo (dessa vez, a suspeita recai sobre Otaviano, alvo de críticas suas escritas em carta entre a queda do cavalo e sua morte).

Druso era um militar competente de quem Otaviano gostava muito. Estava encarregado da principal frente de combate nas fronteiras do império, na Germania Inferior. Os legionários sob seu comando também o adoravam (após a sua morte eles erigiram uma torre de tijolos em sua homenagem, que existe até hoje em Mainz, na Alemanha). Druso se casara com Antonia, filha de Marco Antonio, e teve com ela três filhos: Germânico, Livilla, e Cláudio. Germânico era um militar tão competente e carismático quanto Druso, em parte herdando seu prestígio, e em grande parte construindo sua própria carreira com vitórias decisivas contra os germânicos no norte. Livilla era o oposto do ideal de modéstia e austeridade da mulher romana. E Cláudio, o mais novo, era visto como uma aberração.

As descrições de Cláudio, do seu temperamento, comportamento, características físicas, nos levam a supor que ele teve algum problema congênito ao nascer. Ele tinha dificuldades de fala e locomoção ("claudius", coincidentemente, significa "manco"), tinha crises de gagueira, tiques nervosos ou espasmos que pioravam quando sob stress, especialmente quando se pronunciava em público. Seu quadro se parece com paralisia cerebral. Era intelectualmente saudável, dedicando sua vida aos livros, mas seu aspecto físico o levava a ser tratado pela própria família como um retardado, e mantido longe dos olhos do público, embora Otaviano se interessasse pelos seus estudos (Cláudio escreveu uma História dos Etruscos, que seria possivelmente a fonte mais valiosa sobre aquele povo se o livro tivesse sobrevivido até o nosso tempo). Suas limitações físicas talvez o tenham mantido em "segurança" enquanto as cabeças caíam à sua volta.

As maquinações de Lívia levaram Tibério ao poder (foi nos primeiros anos de Tibério que Germânico foi morto), e ela continuou desempenhando um papel central na política romana até seus últimos anos. A harmonia entre os dois desapareceu à medida em que aumentava o ressentimento de Tibério pela mãe, a quem devia seu próprio posto. Quando ela morreu, Tibério mandou seu sobrinho-neto Calígula (filho de Germânico) em seu lugar para lhe prestar as últimas homenagens. Tibério passou os seus últimos anos isolado na ilha de Capri, entregue a orgias sexuais e bebedeiras (sua paranóia devido a uma tentativa de golpe armado pelo prefeito pretoriano Sejano, cria de Lívia e com quem Livilla tinha um caso, o tornou ainda mais recluso). No final, Tibério era tão impopular que, ao receber a notícia da sua morte, o povo celebrou nas ruas, apenas para ficar em silêncio quando se soube que ele estava se recuperando, e voltar a festejar quando se soube da sua morte pelas mãos do próprio sobrinho-neto. Sem Lívia para regular o ambiente em torno do trono, Tibério, cujo único filho já estava morto, entregou em testamento seu cargo para Calígula e seu neto Gemelo.

O primeiro ato de Calígula foi anular o testamento de Tibério e mandar executar Gemelo.

Depois de mais de 60 anos de estabilidade, Calígula governou Roma como um louco. Apesar de ter tentado manter uma aparência republicana nos primeiros meses e promovendo o bem público, ele tomou rapidamente outro rumo depois de uma suposta tentativa de envenenamento. Empreendeu perseguições e execuções sem julgamento, não poupando sequer suas irmãs, que também eram suas amantes. Seu tio Cláudio, com suas deficiências, era mantido por perto para a sua diversão, como uma espécie de bobo, em quem convidados dos banquetes eram encorajados a atirarem caroços de frutas. Patrocinando eventos teatrais e jogos de proporções gigantescas, levou o império à sua primeira crise econômica (houve um ponto em que a fome afetou o império porque Calígula havia requisitado todos os navios disponíveis para construir uma ponte de mais de 3 quilômetros perto de Puteoli, simulando a ponte de Xerxes sobre o Estreito de Bósforo, sobre a qual cavalgou sozinho em seu cavalo Incitato usando a armadura de Alexandre, o Grande). No final, o senado, os patrícios e os cavaleiros queriam se ver livres dele. Calígula foi assassinado durante um festival de teatro por Cassio Querea, prefeito pretoriano constantemente humilhado em público pelo imperador.

Além de Calígula, vários nobres ligados a ele e familiares (incluindo sua esposa "oficial" Cesonia e sua filha de dois anos) também foram assassinados. Cláudio, que estava no palácio, entendeu que mesmo estando fora da cena política ele poderia ser o próximo, e se escondeu. Um guarda pretoriano o encontrou atrás de uma cortina e o chamou, talvez em tom sarcástico, de "princeps". Enquanto tudo estava confuso, o guarda o escoltou para o acampamento da guarda pretoriana, talvez para discutir o seu preço, ou, talvez ainda, usá-lo como títere. Os senadores, incluindo os conspiradores, se reuniram às pressas, e rapidamente se dividiram em facções, incapazes de concordar com o nome do próximo imperador. O único nome seguro e com alguma legitimidade que ainda tinham era o pobre Cláudio (que, por segurança, se recusou a atender à reunião em pessoa).

Aos 50 anos, de aberração e bobo da corte a imperador de Roma. Cláudio procurou assegurar sua posição perdoando os senadores envolvidos no assassinato de Calígula, assim como perdoando certas dívidas e distribuindo subornos (como, por exemplo, na forma de um aumento substancial no soldo da guarda pretoriana), ao mesmo tempo em que reafirmava aos que não o conheciam que ele era da linhagem de Augusto, até mesmo de Júlio César (alterou seu nome para Tibério Cláudio César Augusto Germânico, nomes de todos os notáveis que o precederam). Também lançou uma ambiciosa e bem sucedida invasão à Grã-Bretanha, usando-se de quatro legiões, elefantes de guerra, incontáveis navios, efetivamente submetendo várias tribos célticas que habitavam a ilha e assegurando uma nova posição romana por lá, pavimentando o caminho para a sua subsequente colonização. Por causa disso, foi consagrado com um desfile em triunfo pelas ruas de Roma e aclamado como deus vivo. Cláudio também cativava o povo com seu gosto pelos jogos, promovendo certa vez uma encenação de uma batalha naval, colocando dois navios autênticos dentro de um estádio inundado, com marinheiros e soldados a bordo, simulando a Batalha do Lago Fucino. Também era um legislador razoável, com uma paixão particular pela função de magistrado.

Cláudio não teve sorte com as mulheres. Depois de dois noivados cancelados (o primeiro por problemas políticos, o segundo pela morte súbita da noiva no dia do casamento), casou-se quatro vezes com mulheres que lhe eram indiferentes, abusivas ou manipuladoras. A terceira esposa, Messalina, tomou vários amantes a ponto de competir com uma prostituta conhecida para saber quem conseguiria ter mais relações com homens diferentes durante uma noite, pelo que "messalina" se tornou sinônimo de prostituta, e foi executada por conspiração e adultério (Messalina se casou em público com um amante enquanto Cláudio supervisionava a chegada de navios de grãos no porto de Ostia). A última esposa, sua sobrinha Agripina, tinha um filho, que também era neto de Germânico, chamado Lúcio Domício, ou Nero (o último e mais famoso Nero da dinastia Júlio-Claudiana).

Nero já tinha 12 anos, era 4 anos mais velho que o jovem Britânico, filho de Cláudio e Messalina. Agripina convenceu Cláudio a adotar Nero, para assegurar uma sucessão segura ao trono. A exemplo de Tibério, deixou em testamento o seu posto para Nero e Britânico, sendo o primeiro encarregado dos negócios públicos até o segundo atingir a maioridade. Em certo momento, Agripina, cujo casamento era meramente por interesse, e Cláudio, que entrara no negócio atraído pela sua beleza física, passaram a brigar constantemente, e nos seus lamentos, Cláudio teria lembrado que Britânico chegaria à maioridade e traria novo brilho à sua família. Com a posição de Nero ameaçada, Agripina teria planejado sua morte por envenenamento, possivelmente fazendo-o comer cogumelos tóxicos. A dose teria sido mal calculada, de modo que a agonia teria demorado horas, e requerido uma outra dose. Meses depois de um funeral com honras divinas, seu filho Britânico foi morto pelo próprio Nero, que se tornou o último imperador da sua dinastia.

Os dois romances de Robert Graves - "Eu, Claudius, Imperador", e "Claudius, o Deus, e Messalina" - narrados em primeira pessoa, são as principais recriações e as obras literárias modernas mais completas sobre a vida de Cláudio e a crueldade dos bastidores da política romana que o conduziram ao poder e levaram à sua queda.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Justo entre as nações

Em 9 de outubro de 1974 faleceu Oskar Schindler, empresário membro do Partido Nazista, responsável direto pela sobrevivência de 1200 judeus, muitos dos quais já haviam sido encaminhados para a morte na câmara de gás em Auschwitz.

A história de Oskar Schindler é uma das mais célebres do período da Segunda Guerra Mundial. Jovem problemático (expulso da escola, preso após bebedeiras, filhos fora do casamento), membro do Partido Alemão dos Sudetos (braço do Partido Nazista na Tchecoslováquia), espião da inteligência alemã na Tchecoslováquia e na Polônia (onde contribuiu com informações para as invasões alemãs a estes países), constituiu riqueza com o mercado negro de comida, bebida, cigarros e artigos de luxo, e investiu em uma indústria de armas e munições nesse país, a serviço da Wehrmacht. Na sua fábrica, empregava muitos judeus poloneses que trabalhavam quase de graça, dando-lhe lucros formidáveis.

Como esses mesmos judeus eram visados pela polícia polonesa e pelos agentes alemães, ele procurava escondê-los, ou intervia em seu favor, não porque se importasse particularmente com eles de início, mas porque sua mão de obra era muito mais barata do que as de operários poloneses não-judeus. Em muitos casos, essas intervenções vinham na forma de subornos (usando sua rede de mercado negro para oferecer produtos estrangeiros ou objetos de valor expropriados pelos nazistas). Em uma ocasião, um agente da SS veio buscar uma família de trabalhadores judeus com documentos falsos. Ele ordenou ao chefe da família que arriasse as calças e andasse por ali para a sua diversão. Schindler argumentou que aquilo quebrava a disciplina da fábrica e prejudicaria o andamento da produção. Quando o oficial apontou a arma para o homem, Schindler gritou "não atire, e eu lhe dou uma bebida!". Os dois entraram no escritório e saíram abraçados e bêbados. A importância estratégica do seu negócio para os alemães dava-lhe uma vantagem nas negociações em torno dos seus empregados judeus.

Com o tempo, Schindler começou a abrigar as famílias dos seus empregados, dando-lhes empregos de fachada (inclusive para as crianças), para colocá-los sob sua proteção. Também recorria a seus homens de confiança (também judeus, que trabalhavam na parte administrativa da fábrica) para lhe indicarem judeus em campos de concentração que pudessem ser empregados. Como Schindler tinha conhecimento do funcionamento da Wehrmacht pela sua experiência como espião, e pelos contratos da sua fábrica, ele deduziu em algum momento em 1943 que os judeus estavam sendo presos para trabalhar em campos de trabalhos forçados, e os que não tinham condições, estavam sendo enviados para campos de extermínio. Foi essa realização do que os nazistas estavam fazendo com os judeus que o fizeram virar a mesa e tomar uma atitude irredutível de proteção aos judeus. Os repetidos subornos de oficiais nazistas, o emprego de crianças e mulheres que, na verdade, pouco produziam, e a própria manutenção dos seus empregados (alimentados e medicados na própria fábrica) começaram a drenar seus recursos rapidamente. Em um dos casos, o diretor do campo de concentração de Plaszow, um oficial da SS chamado Amon Göth, com uma fama de sádico que mantinha seus internos nas piores condições possíveis e os executava aleatoriamente exigiu que as fábricas da região fossem transportadas para dentro do campo. Schindler teve que suborná-lo não apenas para manter suas operações fora do campo, mas também para convencê-lo a mandar 450 trabalhadores judeus das outras fábricas próximas para a sua. O caso lhe rendeu uma semana na prisão, em decorrência de uma investigação de abuso de poder e corrupção contra Goth.

Quando os soviéticos começaram a avançar pela fronteira polonesa, os nazistas começaram a recuar e a fechar as operações, inclusive dos campos de prisioneiros. Os internos passaram a ser transportados para outros campos convertidos para funcionarem como campos de extermínio. A fábrica de Schindler também estava fadada a ser fechada. Oskar conseguiu convencer Berlim a manter a fábrica funcionando na Tchecoslováquia, com um projeto de produção de munição anti-tanques, garantindo que os judeus sob sua jurisdição seriam poupados. Além dos cerca de 1000 funcionários que já abrigava, Schindler acrescentou mais 200 nomes (funcionários de uma fábrica de tecidos que seria fechada) à sua lista de judeus que seriam encaminhados às novas instalações em Brunnlitz. O transporte deste contingente seria feito pelos trens que levavam demais judeus aos campos de Auschwitz e Gross-Rosen (então operando como campos de extermínio). Trezentas mulheres da lista de Schindler acabaram encaminhadas para o extermínio em Auschwitz, e foi graças a um pesado suborno que ele conseguiu a sua liberação. Além delas, outras 3000 mulheres foram reencaminhadas para fábricas nos Sudetos. No inverno de 1945, um trem com 250 judeus doentes demais para trabalhar (havia 20 mortos nos vagões) chegou a Brunnlitz, e Emilie, a esposa de Oskar, os encaminhou à fábrica, onde lhes deu abrigo e cuidados. A fábrica em si não produzia coisa alguma, e as suspeitas de que os Schindler estavam apenas abrigando judeus (o que os colocava em risco de pena de morte) os obrigava a distribuir propinas regularmente para evitar a sua prisão.

Toda esta carreira é belissimamente retratada em filmes (A Lista de Schindler, para quem ainda não assistiu), mas ela geralmente para por aí. A sua biografia segue, e não tem um final muito feliz. Sua vida foi atribulada depois da guerra.

Com a rendição da Alemanha, os judeus sob os cuidados de Schindler estava relativamente a salvo. Porém, o próprio Schindler corria o risco de ser capturado pelos soviéticos, que ocupavam a Tchecoslováquia, e julgado por crimes de guerra pela sua atividade como espião. Vários dos judeus que trabalhavam para ele redigiram uma carta a ser apresentada aos americanos atestando o seu papel em salvar as suas vidas. Com a carta, os Schindler reuniram tudo que lhes restava e fugiram para o oeste. Oficiais russos no caminho confiscaram o seu carro (e ficaram com um diamante escondido sob o banco), e eles continuaram a pé até a cidade fronteiriça de Lenora. Através de um oficial judeu americano, conseguiram passar à Suíça. No final do ano, conseguiram retornar à Alemanha. Mas os gastos com a manutenção de funcionários judeus numa fábrica que não fabricava nada, e as constantes propinas os deixaram completamente falidos. Oskar passou a ser sustentado com a ajuda vinda de organizações judaicas (às vezes, a ajuda consistia apenas em alimentos e cigarros, mas Schindler se constrangia em pedir mais). Judeus americanos criaram um fundo para recompensar o patrimônio confiscado de judeus na Europa, e gastos empreendidos à assistência de judeus durante a Guerra, e através dele Schindler resgatou cerca de 15 mil dólares. Não era o suficiente para tentar um novo negócio, mas o suficiente para emigrar à Argentina e tentar uma nova vida criando galinhas e nútrias (roedores de grande porte valorizados pela sua pele). Em 1958, depois de se divorciar de Emilie, ele fechou sua fazenda. Retornou à Alemanha, onde tentou abrir novos negócios que também fracassaram.

Entre 1963 (quando recebeu do governo de Israel o título honorífico de "Justo entre as nações") e a sua morte em 1974, Oskar viveu exclusivamente do dinheiro vindo de doações angariadas pelos sobreviventes da sua fábrica, a maioria vivendo em Israel e nos Estados Unidos. Nos seus últimos dias, viveu de favor no apartamento do amigo Heinrich Staehr, carregando consigo apenas uma maleta com fotos, cartas e recordações do tempo da guerra, inclusive uma cópia da sua lista de 1200 nomes. Com a saúde fragilizada por conta de um infarto, faleceu aos 66 anos em Hildesheim, na Baixa Saxônia. Seu desejo era ser enterrado em Jerusalém, porque "meus filhos estão lá". É o único membro do Partido Nazista sepultado em Israel.

Antes de fugir da Tchecoslováquia, seus funcionários lhe confeccionaram um anel, feito de um dente de ouro, onde gravaram: "Aquele que salva uma vida, salva o mundo inteiro".

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Rapidinhas, ou "Somos todos Plutarco"

Dia 23 de setembro é data de nascimento de dois formadores de impérios, Otaviano Augusto, de Roma (63 a.C.) e Kublai Khan, da China (1215).

Eu não sou Plutarco e não vou me atrever a escrever algo na linha de seu Vidas Paralelas. A ascenção de Otaviano ao poder tomou vias incrivelmente convolutas, que envolveu casamentos feitos e desfeitos, conquistas e assassinatos de seu patrono e "pai adotivo" Júlio César (possivelmente, alguma adulteração do seu testamento também), uma guerra civil que começou com uma aliança com seu maior rival, e terminou com a morte deste, e, uma vez no poder, a transformação gradual do seu status para se tornar o primeiro imperador de Roma. Kublai Khan, por outro lado, era neto de Genghis Khan, conquistador que espalhou o domínio mongol por toda a Eurásia. Após a sua morte, seus herdeiros mais capazes foram eleitos para o seu lugar, e Kublai, educado por chineses, foi o último Grande Khan reconhecido universalmente por 1/5 de todas as terras do planeta - às quais ele adicionaria o norte e o sul da China, fundando a dinastia Yuan. O império de Augusto durou mais tempo do que a dinastia Yuan.

Qualquer um dos dois personagens oferece uma vastíssima gama de assuntos que poderiam ser tratados, e eu realmente não tenho tido muito tempo para me dedicar com profundidade a temas tão abertos. Por essa razão, eu evitei escrever sobre Marco Polo em duas oportunidades nas últimas semanas, quando chegaram as datas em que ele ditou suas aventuras na prisão, e a de sua morte - as vidas de Marco Polo e de Kublai Khan se cruzaram de maneira indelével na sua estada na China, trazendo para o Ocidente as primeiras notícias detalhadas do extremo oriente. É muita história para ser escrita durante um dia, nos intervalos do trabalho.

Mas isso não é desculpa para inatividade! Então aí vão outras rapidinhas... no irresistível estilo de Plutarco:

Por coincidência, 23 de setembro também é a data em que Noruega e Suécia se tornaram países independentes de maneira pacífica em 1905 (anteriormente unidos sob a coroa sueca), e a data oficial de incorporação dos reinos árabes de Nejd e Hijaz (conquistado na década anterior) em 1932, sob o sultão Abdulaziz ibn Saud, de Nejd, formando a Arábia Saudita.

É o dia em que um negro americano é condenado vai a julgamento (e será o único condenado dos oito acusados) por atos de vandalismo e incitação à violência em um protesto contra a Guerra do Vietnã em Chicago (Bobby Seale, em 1969), e o dia em que um branco se torna o primeiro boxeador africano a se tornar campeão mundial dos pesos pesados (Gerrie Coetzee, em 1983, vencendo Michael Dokes).

É a data em que falecem o criador da psicanálise Sigmund Freud (1939), o poeta chileno Pablo Neruda (1973).

Edward Lee Howard, agente da CIA, é preso como espião na União Soviética em 1985, enquanto, durante a Revolução Americana, foi o militar britânico John André que os revolucionários prenderam por espionagem em 1779.

Em 1911, o americano Earle Ovington, pilotando um Blériot XI, conseguiu entregar a primeira encomenda aérea da História, e em 1999, a NASA perdeu contato com a sonda Mars Climate Orbiter, projetada para se tornar um satélite meteorológico no planeta vermelho e destruída durante uma entrada acidental em sua atmosfera.

De acordo com alguns teoristas, o dia 23 de setembro também é o dia em que o mundo será destruído por um evento cataclísmico global. Ou ao menos é em que acredita o ministro do exterior da França, monsieur Laurent Fabius.

Então, até amanhã.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Mundo microscópico revelado

Em 17 de setembro de 1683, o comerciante holandês Antonie van Leeuwenhoek ("Lêuehuk", se você, como eu, verbaliza o texto mentalmente enquanto lê) escreveu uma nota à Royal Society fornecendo a primeira notícia para a ciência da existência de pequenos animais se locomovendo na água - protozoários - observados em um de seus microscópios.

Antonie van Leeuwenhoek nasceu de uma família modesta em Delft, na Holanda, em 1632. Sua educação foi breve, e aos 16 anos estava trabalhando como aprendiz em um armarinho. Pouco depois ele abriria seu próprio negócio no ramo. Enquanto era dono do seu armarinho, Leeuwenhoek usava lentes de aumento para avaliar a qualidade da trama dos tecidos que comprava e vendia. Sua atenção pelos pormenores dos tecidos e da estrutura dos fios desviou seu interesse para a fabricação de lentes. Com algum conhecimento em vidraria, ele desenvolveu um conjunto de pequenas lentes que aumentavam as imagens assombrosamente. Ele passou a observar, além de fios e linhas, tudo que fosse pequeno demais para a vista humanas: insetos, ácaros, estruturas vegetais, animais e minerais, investigava amostras de solo, gotas de água, fluidos corporais e secreções, descrevendo-as e ilustrando-as.

Sem contato com o meio acadêmico, Leeuwenhoek mostrou seu trabalho a um médico, Reinier de Graaf. Foi ele quem escreveu à Royal Society, em Londres, recomendando a qualidade dos microscópios construídos por Leeuwenhoek. Ele então passou a se corresponder com a comunidade científica, mas foi após alguma insistência que suas descobertas foram reveladas para a ciência (ele via a si mesmo como um comerciante sem conhecimento científico ou artístico dignos, e só passou a divulgar suas descobertas após os 40 anos, apenas em comunicações pessoais à Royal Society, e sempre em holandês). Algumas delas espantaram a ciência: a descoberta de "animáculos" que se moviam na água (a primeira descrição de protozoários), pequenos seres que habitavam a saliva humana (que mais tarde seriam classificados como bactérias), a descrição dos arranjos em feixes das fibras musculares, a presença de pequenos seres no esperma (os espermatozoides). Além de descrever a estrutura interna de um grão de café, ele percebeu que os animáculos da saliva (as bactérias) desapareciam das amostras retiradas depois que ele tomava café. Ele ainda sugeriu que os microrganismos se multiplicavam por reprodução, como os animais macroscópicos, ao contrário do consenso da época de que surgiriam espontaneamente das impurezas do meio.

Um contemporâneo seu, Robert Hooke, um naturalista e polímata que também explorava o mundo em seus próprios microscópios e havia descrito as células como unidades formadoras de todo ser vivo conhecido com base na sua observação de uma lâmina de cortiça, se ressentia do crescente prestígio do comerciante de tecidos (e depois camareiro oficial da Câmara Municipal e encarregado de controlar a qualidade de vinhos de Delft) no meio acadêmico. É possível que o holandês não desse muita atenção às críticas de Hooke, reconhecido no meio como ranzinza e propenso a disputas ideológicas com seus pares (ele entrou em conflito com outro gênio de temperamento difícil, Isaac Newton, pela autoria da teoria da gravidade). De fato, Leeuwenhoek obteve fama e prestígio suficientes para receber a visita de várias autoridades internacionais, entre as quais o Czar da Rússia Pedro, o Grande (a quem presenteou com uma lente de aumento e demonstrou a circulação sanguínea de uma enguia), o filósofo e matemático Gottfried Leibniz, os príncipes de Orange e a Rainha Ana do Reino Unido. A esses visitantes curiosos, Leeuwenhoek mostrava apenas suas lentes de mais baixa qualidade, mas suficiente para impressioná-los. Como bom comerciante, temia que sua técnica para a fabricação de lentes pequenas, que era incrivelmente simples (ele derretia finíssimos tubos de vidro em pequenas gotas que apenas esperava se solidificarem, ao invés de polir peças maiores até ficarem pequenas o suficiente e com o formato e curvatura ideais), fosse descoberta por observadores mais sagazes. Poucos dos seus aparelhos óticos sobreviveram aos dias atuais. Estima-se pela qualidade das suas ilustrações que seus melhores microscópios podiam produzir imagens aumentadas 500 vezes com apenas uma lente. Os microscópios óticos atuais possuem pelo menos um par de lentes, tipicamente dois pares, chegando a aumentos de até 1000 vezes, embora o aumento de um microscópio comum ou um estereoscópico, com um par de lentes, normalmente chegue a apenas de 50 a 100 vezes, suficiente para ver com algum detalhe o corpo de uma pulga, o formato geral de grãos de pólen, ou o movimento de alguns protozoários maiores.

As descobertas de Leeuwenhoek abriram um leque grande de novos conhecimentos a serem explorados que tem impacto no conhecimento produzido mesmo neste exato momento - das inovações técnicas na confecção de lentes cada vez mais precisas e nítidas, ao advento dos microscópios eletrônicos atuais capazes de detectar com nitidez ultraestruturas em nível molecular, à evolução do conhecimento das interações entre microrganismos e vírus (descobertos no final do século XIX e "invisíveis" até meados do século XX) e o corpo humano, a identificação de agentes infecciosos e comensais, o desenvolvimento de vacinas, antibióticos, sintetização e transformação de substâncias com atividades biológicas diversas direcionadas a funções e tratamentos específicos, seu subsequente uso na genética, na agricultura, na fermentação, na produção de vitaminas, na remediação ecológica. A inclusão de um mundo invisível ao olho nu ao universo do pensamento humano proporcionou uma nova noção de escala O universo microscópico, antes desconhecido, deu à humanidade os subsídios para os avanços meteóricos da medicina, da anatomia e da microbiologia nos séculos seguintes.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Serial killer

Em 15 de setembro de 1440, o Barão de Rais, Gilles de Montmorency-Laval, foi preso sob a acusação heresia e por ter cometido vários assassinatos. Foi o início do processo que levou uma das primeiras condenações conhecidas de um assassino em série.

Gilles de Rais veio de família nobre do oeste da França, e conquistou renome aos 16 anos, ao ajudar na fuga do duque João VI da prisão na Bretanha por seus rivais da família Blois. Com isso, obteve a honra de participar da cerimônia de coroação do rei Carlos VII da França, ganhou o direito de usar a flor-de-lis dourada sobre azul (as cores do rei da França) em volta do brasão da sua família e foi nomeado marechal.

Gilles viveu no contexto da Guerra dos Cem Anos. Nesse contexto, ele viria a conhecer Joana D'Arc, uma jovem camponesa cuja liderança entusiasmada e a alegação de inspiração divina a elevou ao status de uma das principais comandantes do exército francês nos estágios finais da guerra e uma figura de enorme apelo popular. Aparentemente, Joana escolheu Gilles como um de seus companheiros mais próximos, com a permissão do rei, antes de lhe ser concedido o marechalato. Ao lado de Joana, ele foi reconhecido por ter enfrentado "grandes perigos" e realizados inúmeros "atos de bravura".

Joana estava sob sua proteção nominal quando, em 1430, ela foi capturada por tropas burgúndias, aliados dos ingleses na França. Os ingleses pagaram 10 mil libras para transferi-la à sua custódia. Os franceses não fizeram muitos esforços para reavê-la. Gilles, que era um homem rico, tampouco (seu avô, em sinal de desaprovação a Gilles por dispender grandes fortunas em futilidades, passou para seu neto mais novo René sua armadura e sua espada). Quando ela foi condenada à fogueira e queimada em público, em Rouen, ele não estava presente. Na época, Gilles estava escrevendo O Mistério do Sítio a Orléans, peça grandiosa em que ele narrava em tintas religiosas a participação decisiva de Joana na batalha. Talvez a sua morte promovesse a sua peça mais do que qualquer coisa - Gilles vendeu quase todas as suas propriedades para promover a peça.

Seus parentes começaram a ficar alarmados com os gastos de Gilles, que incluía, além da peça (encenada por 650 pessoas que usavam roupas confeccionadas especialmente para cada apresentação e depois descartadas, com comida e bebida oferecidas sem restrição aos espectadores) a construção de uma capela. Eles conseguiram que Carlos VII publicasse um edito proibindo que Gilles vendesse mais propriedades da família, o que o levou a emprestar somas fabulosas de dinheiro para manter seu estilo de vida.

Entre o fim de sua aliança com Joana D'Arc, em 1431, e 1440, a vida de Gilles de Rais é recontada a partir das suas confissões no processo que levou à sua condenação. Aparentemente, Gilles começou a se interessar por garotos por volta de 1432. Ele os seduzia com demonstrações de riqueza ou oferecendo-lhes comida, os levava a algum local de sua propriedade (como seu castelo em Champtocé-sur-Loire). Com a ajuda de cúmplices, os vestia com as melhores roupas, os embebedava e os sedava. Então, eles eram levados a um quarto, onde Gilles e seus companheiros os prendiam, os violentavam, torturavam e matavam. Durante a agonia, o barão podia se sentar sobre a barriga da vítima e rir enquanto ela morria, ou violentava-a mais uma vez. Uma vez mortas, eram esquartejadas ou dissecadas, a visão de suas vísceras expostas produzindo em Gilles um prazer comparável ao do sexo, e seus corpos enfim queimados numa lareira e enterrados. Ele teria sequestrado, violentado e matado "um grande" número de crianças, meninos e meninas. De Rais foi acusado também de alquimia e conjurar o demônio, segundo testemunhado por um padre que teria tomado parte na obtenção de "livros mágicos" de um clérigo florentino. Ele teria tentado entrar em contato com um demônio chamado Barron após a oferenda de partes do corpo de uma criança, sem sucesso.

Se era tudo verdade, ou apenas a confissão obtida sob coerção (Gilles confessou espontaneamente, evitando a inquisição sob tortura que faria parte do processo), é questão de debate. A virtual falência de Gilles, além de irritar seus credores, fez cessar os seus generosos favores à Igreja francesa. Em maio de 1440, uma desavença com a paróquia de Saint-Étienne-de-Mer-Morte o levou a manter sob custódia um clérigo local. O Bispo de Nantes então conduziu a investigação sobre sua vida, que levou ao processo, sob a bênção do Duque da Bretanha (o mesmo João VI que Gilles ajudara a fugir), que tinha interesse em repartir as propriedades de Gilles na Bretanha entre seus próprios vassalos, o que ele de fato fez. Os inquisidores também eram todos religiosos. A prisão ocorreu no dia 15 de setembro, e a confissão em 21 de outubro. No período, vários aldeões levavam novas acusação de rapto e morte de seus filhos por Gilles de Rais, sem provas. No final de outubro, Gilles e dois colaboradores foram condenados à morte por enforcamento e subsequente imolação. Seu corpo foi retirado da fogueira antes de ser consumido, e enterrado em Nantes. O tal padre Blanche, que testemunhou a favor da acusação de heresia, não foi processado como cúmplice. Um julgamento simulado em 1992, com participação de políticos, maçons e experts em direitos humanos, reexaminando os autos do processo, consideraram Gilles de Rais inocente, uma vez que, apesar da confissão e dos testemunhos muito detalhados, não foram reunidas quaisquer provas materiais dos crimes imputados - nem dos "livros mágicos", nem quaisquer vestígios dos corpos das crianças que ele confessara ter matado e enterrado. Sob a lei moderna de muitos países ocidentais, a confissão espontânea de um crime é considerada nula se não forem apresentadas provas materiais.

De qualquer forma, foi uma das primeiras vezes na História em que foi levado a cabo um processo penal resultando em condenação formal de um assassino em série. Embora houvessem outros assassinos em série notórios no passado - os milhares de empalamentos de Vlad Tepes, por exemplo, ocorridos menos de duas décadas depois - eles não foram julgados como tais, dentro de seus contextos históricos: eram atos de guerra, ou estavam licenciados pela lei vigente. Ou então, sob suspeita, eram perseguidos e mortos antes de serem levados a julgamento (não raro, eram confundidos com vampiros, lobisomens, ou bruxos que se alimentavam de carne humana ou a usavam em rituais demoníacos). No máximo, os assassinatos em série promovidos por nobres eram encarados como decorrências de caprichos, e resultavam em banimentos e na perda de títulos (como ocorreu com um príncipe chinês no século II a.C. que "caçava" seus próprios escravos). A partir do caso de Gilles de Rais, o processo penal na Europa passou a tratar do assassinato em série com mais objetividade. Uma das principais de estudos logo nos primeiros anos da psicanálise foi a tentativa de compreender a mente dos assassinos em série.

A fama de Gilles de Rais como um assassino de crianças e um bruxo perpassou o seu tempo - alguns praticantes de ocultismo contemporâneos acreditam que sua mãe era uma fada, que ele era um devoto da deusa lunar Diana ou praticante de uma "nova religião" da qual presidia um conciliábulo de bruxos, e que isso teria levado à desavença com a Igreja Católica. Na cultura popular, os personagens inspirados em Gilles são frequentemente antagonistas, assassinos, bruxos ou demônios. No anime Fate/Zero, ele é um espírito maligno evocado em tempos modernos, que obtém prazer na matança desenfreada de mulheres e crianças, enquanto busca reencontrar obsessivamente sua "amada" Joana D'Arc.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

O homem sem sombra

Em 21 de agosto de 1838 faleceu de tuberculose Adelbert von Chamisso, escritor e naturalista franco-alemão que viria a ser bem sucedido nas duas carreiras.

Chamisso nasceu na França (seu sobrenome era grafado originalmente "Chamissot"), mas devido à Revolução, sua família emigrou para Berlim. Seguindo carreira militar na Prússia, ele permaneceu ali quando sua família recebeu permissão para retornar à França. Enquanto servia, estudava ciências naturais e arriscava uns versos. Dispensado do exército em 1807 e desempregado, recusou um emprego como professor para seguir Madame de Staël, uma socialite francesa, patrocinadora de escritores e poetas diversos, para seu exílio na Suíça. Convivia permanentemente com a dualidade de ser um francês em terra alemã (e em 1810, em visita a Paris, um alemão em terra francesa), tendo que lidar com o idioma alemão escrito enquanto pensava em francês e sonhava com as terras de seus pais. Sua dualidade também era vivida nos seus campos de interesse: simultaneamente a literatura e a botânica. Aos 35 anos embarcou numa expedição científica russa de volta ao mundo, onde coletou abundantemente espécimes minerais, vegetais e animais, realizou observações geológicas, meteorológicas e etnológicas. Se tornou um naturalista altamente respeitável. Além de um poeta de renome.

Sua vida e sua carreira foram estranhamente sumarizadas de forma profética no seu primeiro livro, Peter Schlemihl, de 1813.

O personagem-título era um infeliz (Chamisso o descrevia como alguém que é capaz de cair de costas e fraturar o nariz) que encontra o Diabo. O Diabo estava de posse de uma bolsa, a Bolsa de Fortunato, uma bolsa sem fundo de onde sempre se podia tirar dinheiro. Em troca dela, ele queria a sua sombra. Peter gostou da barganha e fez a troca. O Diabo prometeu que retornaria dentro de um ano. Embora agora se tornasse fabulosamente rico, o fato de não ter uma sombra alarmava as pessoas. Ele era visto pelas costas, excluído dos círculos sociais, destratado até por quem não tinha nada. Ele foge com dois empregados para uma pequena cidade, onde ele procura cativar os locais com demonstrações de generosidade, tomando cuidado para não revelar seu segredo. Ele se apaixona por Minna, filha de um notável local. Um dia antes de pedir sua mão em casamento, um dos seus empregados ameaça contar seu segredo (ou o segredo que ele acredita saber, que Schlemihl seria na verdade um rei... mas Peter não sabe disso, e a ameaça o deixa desesperado). Neste momento surge novamente o Diabo, que se oferece para devolver sua sombra em troca de sua alma. Ele lhe oferece uma visão do pai de Minna se recusando a dar a mão da filha a um homem sem sombra. Com seu segredo de fato revelado, Peter resiste e decide fugir novamente (deixando grande quantidade de ouro para o outro criado que lhe foi fiel).

O Diabo insiste em persegui-lo e assediá-lo, mas Peter resiste obstinadamente, até que ele joga a bolsa mágica num precipício e abre mão do benefício do primeiro contrato. O vínculo é desfeito e o Diabo desaparece. Perambulando sozinho até gastarem-se completamente as suas botas, ele acaba comprando um par de "botas de sete léguas", que lhe permitem viajar rapidamente, transpor montanhas e mares, e atravessar oceanos e continentes. Escolhendo o Egito como morada, ele decide aproveitar a nova habilidade para estudar a flora e a fauna de todo o mundo. Durante uma longa travessia, caiu doente no mar da Noruega, e despertou num hospital. Ele repara que o hospital levava o seu nome, e descobre que o seu fundador é o seu antigo criado fiel e sua antiga noiva, agora viúva, passa seus dias cuidando dos doentes. Nenhum deles sabe que Peter está internado ali. Ele entreouve uma conversa entre os dois, em que falam da infelicidade e da redenção e que, como eles, seu "velho amigo" devia também estar vivendo dias melhores. Quando se recupera, ele retorna ao Egito, deixando uma carta de agradecimento no seu leito: "Seu velho amigo está vivendo dias melhores do que antes, e embora ele tenha que pagar um preço, é o preço da conciliação".

"Schlemihl" provém do ídiche, quer dizer algo como "azarado", ou "tolo" no sentido de alguém que faz um mal negócio. Peter se livra da sua sombra, de algo inerente à sua existência física, em troca de riquezas infinitas, e a ausência dessa sombra torna o homem, mesmo rico, um estranho onde quer que vá. Chamisso deixara a França quando criança, mas nunca se sentira totalmente integrado à sociedade alemã (alguns dos seus primeiros poemas foram criticados pelo uso rude da língua alemã, que ele ainda estava tentando aprender), tampouco se sentia à vontade no seu país natal, vivendo como um alemão. Peter é o Eu de Chamisso, em cujos momentos de fraqueza surge um diabo para tentá-lo, cede às ânsias de um ego inflado e de uma carência afetiva que nunca é suprida - seus dois criados são o seu "bom" e o seu "mal", e ambos, a seu tempo, assumem o papel de uma figura paterna, terna e temida (Chamisso mal conheceu seu pai, mas projetava esse papel em seus mentores, como Humboldt e seu amigo Julius Hitzig). A melancolia do personagem solitário, e a própria melancolia que assombrava o naturalista/poeta refletem, segundo Sigmund Freud, a idealização da infância, do passado (com sombra), do tempo que o narcisismo infantil considerava perfeito - o mesmo narcisismo que levou Peter a trocar a sombra por riqueza infinita. E em um momento de confusão total, foge, corre o mundo até encontrar a paz, curiosamente rodando o mundo, estudando sua natureza, como viria a fazer no futuro - o livro é de 1813, e a expedição russa zarpou em 1815.

Peter Schlemihl foi traduzido para o francês e se tornou por um longo período um dos livros mais populares da Europa. Ele foi comentado por diversos autores (como Freud), e sobreviveu no século XX em peças de teatro e filmes (um deles estrelado por DeForest Kelley, o Doutor McCoy de Jornada nas Estrelas) em várias línguas. O tema também inspirou a obra de autores como Hans Christian Andersen. Frauenliebe und -liebe, uma coletânea de poemas líricos de Chamisso, foi musicado pelos compositores alemães contemporâneos Schumann, Loewe e Lachner. O legado do naturalista está em seus tratados minunciosamente bem escritos sobre floras locais e as descrições de suas espécies, bem como exemplares preservados em herbários do mundo, e inúmeras espécies e dois gêneros batizados em sua homenagem. Uma ilha no Alaska, descoberta durante a expedição russa, é conhecida como Ilha Chamisso.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Um cardeal a menos

Em 17 de agosto de 1498, Cesare Borgia renunciou ao cardinalato em Roma. Foi a primeira vez na História em que um cardeal renunciou espontaneamente ao cargo.

No século XV, o Papado era, como hoje, uma instituição religiosa, a liderança espiritual do catolicismo, cujo alcance e influência, em termos proporcionais, eram muito mais abrangentes do que a atualidade na Europa. Além disso, o Papado também era uma instituição política importante: como hoje, o Papa também é o chefe de Estado de uma monarquia eletiva, que hoje é a pequena cidade-estado do Vaticano, mas que, naquele tempo, compreendia uma faixa de terra que atravessava a Itália de costa a costa (e alguns enclaves feudais aqui e ali), com capital em Roma, os Estados Papais. Como senhor de terras, as relações seculares entre o Papa e os demais reis, duques, doges e etc. podia chegar facilmente às vias de fato, e não poucas vezes o Papa teve que liderar exércitos para defender seu território contra invasores, ou confirmar sua autoridade, sempre contra outros católicos.

A confusão entre as relações institucionais talvez tenha sido, se não a causa, um veículo para o estado de coisas em que o Papado se encontrava no final do século XV: membros do clero, a quem o celibato era obrigatório, tinham suas amantes e seus filhos, e essas relações pessoais e familiares influenciavam pesadamente na ordenação, na indicação de cargos, e na própria eleição do Papa - apenas 4 dos 27 cardeais aptos a votar no Conclave eram clérigos de carreira quando Alexandre VI foi eleito, sendo os demais indicados ao cardinalato por relações de parentesco, por indicação de algum nobre (ou eles mesmos nobres), ou em reconhecimento pelos serviços de suas famílias à Igreja. Além disso, uma grande parte da verba arrecadada com impostos sobre as atividades econômicas das terras submetidas ao Papado sustentava, como em qualquer outro reino europeu, luxos incompatíveis com o que se esperava dos mensageiros de Cristo. Reformistas se levantaram dentro da Igreja repetidas vezes, e estes foram alguns dos fatores que finalmente levaram ao movimento da Reforma Protestante.

Nesses meandros emergiu a família Borgia (originalmente, "Borja"), cujo patriarca, Alfonso, filho de um nobre espanhol, foi apoiador do Papa de Roma durante o Cisma da Igreja em 1429, sendo eleito mais tarde Papa Calixto III. Calixto era tio de Rodrigo Borgia, cuja carreira na Igreja avançou rapidamente após a eleição do tio, chegando a vice-chanceler apostólico aos 26 anos. Rodrigo também "herdara" o bispado de Valência, deixado vago por Alfonso, e poucos dias antes da morte de um de seus sucessores, Inocente VIII, ele conseguiu transformá-la em uma sé metropolitana, tornando-o arcebispo.

Rodrigo Borgia acabaria eleito Papa, sucedendo Inocente VIII como Alexandre VI em 1492. Acontecia que Alexandre, desde pelo menos 1470, quando já era cardeal, tinha um caso notório com Giovanna de Cattanei, com quem teve pelo menos 4 filhos (os quatro reconhecidos por Alexandre como seus). Cesare era o segundo deles, nascido em 1475. Apesar do escândalo (além de tudo, Giovanna era casada), Alexandre VI não tinha embaraços para lidar com o assunto. Ao ser eleito, ele criou 12 novos cardeais, nomeando seus filhos Giovanni (o mais velho) e Cesare, além de Alessandro Farnese, irmão de outra amante, Giulia, e futuro Papa Paulo III. Cesare tinha 18 anos. Assim mantinha a cúria sob controle, o que lhe foi de grande utilidade quando tanto Milão quanto a França ameaçaram intervir contra ele (ambos tinham outros candidatos a Papa em mente).

Cesare crescia à sobra do irmão Giovanni, nomeado Duque de Gandia e Condestável do reino de Nápoles, um jovem e capaz comandante militar. Cesare mesmo demonstrava potencial, de modo que cronistas contemporâneos e historiadores posteriores conjecturavam uma rivalidade entre os dois. Os dois compartilhavam da mesma amante, que também era esposa de seu irmão mais novo Gioffre. Um dia, Giovanni saiu para cavalgar, mas o cavalo retornou sozinho com um estribo cortado, e seu corpo foi resgatado do rio Tibre com a garganta cortada. Rumores insinuavam o envolvimento de Cesare, mas investigações na época indicavam roubo (embora uma bolsa com moedas de ouro tenha sido encontrada com o corpo). É mais provável que Gioffre tenha sido o mandante do crime. De qualquer maneira, com o caminho aberto para sua carreira militar, Cesare optou por renunciar ao cardinalato para servir no norte da Itália, no recém conquistado Ducado de Milão (o rei da França, seu aliado, lhe concedeu o título nobiliárquico de Duque de Valentinois, em referência à sua ascendência valenciana, embora isso não lhe concedesse direito a terras, já que Valência não pertencia à França). Ele atuou com muito sucesso em várias campanhas das guerras italianas do seu tempo, em Milão e em Nápoles. Seu prestígio atraiu os serviços de Leonardo da Vinci, de quem foi patrono durante alguns anos.

Cesare ainda se envolveria em outro caso de assassinato, desta vez de Perotto, um camarista, amante de sua irmã Lucrécia. Seu corpo também foi resgatado sem vida do rio Tibre depois que Cesare descobriu que ela estava grávida. Ele também teria planejado a morte por envenenamento do cardeal Adriano de Corneto, mas teria envenenado acidentalmente seu próprio pai, causando sua morte em 1503 (ele mesmo se envenenara na mesma ocasião, mas se recuperara meses depois). A morte de Alexandre e do seu sucessor Pio III (eleito enquanto mercenários leais a Cesare ocupavam o Conclave) tirou o apoio político do qual gozava. O Papa Júlio II e o rei Fernando II de Aragão conspiraram de todas as formas contra ele. Cesare foi preso, se tornou um fugitivo, e terminou morto em uma emboscada aos 29 anos.

Embora continuassem perseguidos pela nobreza italiana (que via os Borgia, de origem espanhola, com desdém e invejava sua influência) os Borgia continuariam, nominalmente, ou através de seus casamentos, parentes e afilhados, como membros da nobreza européia e atores da alta política e dos negócios durante todo o Renascimento e a Era dos Descobrimentos

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Vida e lenda de Dom Sebastião

Em 4 de agosto de 1578, Dom Sebastião I de Portugal tombou na Batalha do Alcácer Quibir.

Sebastião ascendeu ao trono aos três anos de idade. Durante o período de regência de sua avó, a Imperatriz Catarina da Áustria, e do Cardeal Henrique de Évora, cunhado de Catarina, o Império Português interrompeu sua expansão colonial e entrou na defensiva. Com a proeminência do cardeal no governo, e a educação religiosa do jovem Sebastião entre os jesuítas, o governo português se deteve em assuntos religiosos ao invés de aprimorar a administração das suas colônias. Com Portugal na defensiva, outra potência marítima da época, o Império Otomano (que disputava o domínio do Mediterrâneo com Veneza, mas pouco se aventurava fora dele) arriscava ataques diretos, ou por meio de piratas, aos navios portugueses próximos à costa do Marrocos. Portugal já possuía algumas fortalezas na costa marroquina, porém era muito custoso mantê-las, já que as fontes de recursos mais próximas estavam de posse dos mouros.

Surgem aí, portanto, três motivos que convergiram para um plano geral de conquista do Marrocos - a expansão do cristianismo para o vizinho muçulmano mais próximo, a erradicação da pirataria muçulmana em águas portuguesas, e a viabilização da presença portuguesa já existente no norte da África. Dois eventos ainda estavam por vir que mergulhariam Portugal numa guerra afoita contra o reino africano.

Em 1562, uma enorme força marroquina liderada por Mulei Mohammed cercou a fortaleza portuguesa de Mazagão, na costa marroquina. Nos três meses de cerco, 25 mil soldados marroquinos pereceram, contra 17 defensores portugueses. A resistência insuflou a moral portuguesa e o ego de Sebastião, que ainda era uma criança.

O jovem rei, que assumiria o cargo em 1568 aos 14 anos, crescera convencido de que estava destinado a realizar grandes proezas como rei e em nome da cristandade. Ele advogava uma cruzada católica contra os mouros, e iniciou imediatamente preparativos para tal campanha. Ele próprio havia aceitado prontamente um pedido do Papa para uma cruzada contra os turcos no oriente (ele já havia mesmo articulado uma estratégia com seus aliados persas para um ataque em duas frentes), mas acabou sendo dissuadido com muito esforço. No entanto, por conta própria, acompanhado apenas por alguns fidalgos e poucos soldados, e sem qualquer planejamento, Sebastião navegou secretamente até as cidades marroquinas de Ceuta e Tânger (possessões portuguesas na época), com o espírito de usá-las como ponte para conquistar o país, fosse como fosse. Em Tânger, as defesas marroquinas, à visão do rei de Portugal em pessoa, recuaram pensando que ele estivesse acompanhado de um exército. Sebastião regressou frustrado, com a ideia fixa de conquistar o Marrocos. Contudo, para esta causa não encontrou apoio - Filipe II, rei da Espanha e seu primo, em conferência privada, não só não quis participar da campanha, como preferiu adiar o casamento de uma de suas filhas com o rei português, com medo de que ele realmente seguisse seu plano e a deixasse viúva.

Por fim, em 1576, o sultão Mulei Mohammed (o mesmo comandante do cerco a Mazagão) foi deposto por seu tio, com apoio de um exército turco, e fez um pedido de ajuda a Dom Sebastião, prometendo-lhe mais concessões de terras no seu país, entregando-lhe, de pronto, a fortaleza de Arzila, que o rei anterior, João III, abandonara. Foi o pretexto para o rei português lançar sua tão sonhada cruzada que vinha preparando havia pelo menos 10 anos - a despeito da reação negativa de toda sua côrte, seus ministros, do clero, e de sua avó. Suas reuniões com ministros, contudo, não eram sobre a viabilidade de uma expedição ao Marrocos, mas para resolver os detalhes de como realizá-la de maneira eficiente.

Dom Sebastião partiu à frente de uma grande frota, com mais de 23 mil soldados (12 mil portugueses, os demais estrangeiros comandados por amigos seus e mercenários) e 40 peças de artilharia. O exército desembarcou em Tânger, onde juntou-se a Mohammed e 6 mil mouros, e seguiu por terra, passando por Arzila, em direção a Alcácer Quibir. A costa marroquina é árida, e a marcha por terra desgastou as tropas. De fato, Sebastião não se dera ao trabalho de dar ouvidos aos conselhos do aliado marroquino, e não fazia sequer ideia do tamanho do exército do seu inimigo, o sultão Mulei el-Malek. Perto de Alcácer Quibir, el-Malek surgiu um exército pelo menos duas vezes maior. Embora conseguisse avançar pelo centro, as linhas portuguesas foram cercadas pelos flancos pela numerosa cavalaria moura, e em 4 horas a batalha terminou com metade do exército português morto, e a outra metade capturada (cujos resgates custaram a ruína econômica da coroa portuguesa). Mulei el-Malek, que estava doente, morreu enquanto tentava montar seu cavalo. Mulei Mohammed se afogou enquanto tentava fugir cruzando o rio. Já Dom Sebastião foi visto pela última vez com seus amigos avançando com a espada em punho em direção ao inimigo.

Cerca de 100 sobreviventes conseguiram regressar a Portugal. Nenhum deles, nem os soldados resgatados posteriormente, contudo, produziu algum relato confiável do paradeiro de Dom Sebastião. Seu desaparecimento deixou o trono português vago, pois não tinha filhos (seria sucedido pelo velho cardeal Henrique, antes de passar para Filipe II da Espanha, que promoveria a União Ibérica). Logo se espalhou o boato, na própria côrte, de que Sebastião estava vivo e retornaria para governar o país. Mesmo que isso demorasse, o boato, transformado em mito, se tornou um motivo nacionalista na população durante a União Ibérica (embora Filipe tenha tentado mitigar o movimento alegando ter recebido dos marroquinos os restos mortais de Sebastião e os enterrado no Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa). Os trovadores João de Castro e Gonçalo Annes Bandarra deram ares místicos ao retorno de Sebastião, como a profetização de um Messias. O personagem tomou contornos similares aos do Rei Arthur, o rei-herói que deixou a Inglaterra para a misteriosa ilha de Avalon, mas voltaria para salvar seu país. No fim da União Ibérica, quando João de Bragança aparecia como o favorito ao trono português, era corrente a crença de que ele lutaria com Dom Sebastião ao seu lado para livrar Portugal do domínio espanhol (se tornando efetivamente Dom João IV). Dom Sebastião seguiu até pelo menos o século XX como um símbolo patriótico português, presente na literatura e na música. No Brasil, o mito de que Dom Sebastião retornaria para reclamar a coroa inspirou os movimentos populares de Canudos (Antonio Conselheiro via na monarquia brasileira, a única forma de governo legítima pela vontade divina, e que Dom Sebastião viria para restaurá-la) e do Contestado (corria a lenda de que Dom Sebastião lutava entre os revoltosos). Mais recentemente, o mito de Dom Sebastião foi evocado na novela brasileira Mandacaru, como figura que legitima a pretensão meio louca do cangaceiro Zebedeu a tornar-se rei da cidade de Jatobá.