Em 18 de outubro de 1773, Phillis Wheatley, poetisa e escrava, recebeu a alforria.
Phillis Wheatley nasceu na África ocidental (talvez no Senegal, mas a origem é incerta), e foi vendida por um chefe tribal aos 7 anos a um comerciante de escravos. A menina, ainda sem nome, foi trazida num navio negreiro chamado Phillis ao mercado de escravos no porto de Boston em 1761. Ali, a sorte que havia lhe faltado sorriu: ela foi adquirida pelo alfaiate John Wheatley, para servir de companhia e ajudante à sua esposa Susannah. Wheatley era reconhecidamente um progressista notável que, embora mantivesse escravos domésticos a seu serviço, os tratava e mantinha com dignidade. A menina, batizada Phillis (em lembrança ao navio que a trouxe à América), e Wheatley (como de costume, para assinalar a propriedade da família que a comprou), ficou sob a tutoria da filha mais velha do casal, Mary, que a alfabetizou.
Mary, contudo, percebeu a facilidade de aprendizado e uma habilidade notável no uso e na expressão de línguas, não apenas do inglês - aos 12 anos, Phillis lia grego e latim, e interpretava passagens da Bíblia. Estava familiarizada com os poemas de Pope, Milton, Virgílio, Homero. Phillis começou a escrever aos 14 anos. Seu primeiro poema, "To the University of Cambridge, in New England" começa assim (e eu traduzo livremente):
"Enquanto um intrínseco ardor induz a escrever,
As musas prometem assistir a minha caneta;
Não faz muito tempo desde que deixei minha costa nativa
A terra de erros, e melancolia egípcia:
Pai de misericórdia, foi tua mão graciosa
Que me trouxe em segurança daquelas escuras moradias."
Impressionados pelo talento de Phillis, os Wheatley dispensaram-na dos serviços domésticos e investiram integralmente em sua educação. Quando completou 20 anos, Phillis foi enviada a Londres sob recomendação médica. Susannah Wheatley incentivou a viagem porque acreditava que Phillis teria mais facilidade para publicar seus poemas lá do que em Boston. De fato, em 1772, antes de partir para Londres, uma comissão de cidadãos de Boston abriu processo contra Phillis, questionando que uma escrava africana pudesse escrever poesia de qualidade, e precisou que ela se submetesse a uma corte, na presença de intelectuais locais (entre eles, John Hancock, um dos signatários da Declaração de Independência), para atestar a autoria dos seus poemas. Em 1773, em Londres, publicou seu livro "Poemas Sobre Vários Assuntos, Religiosos e Morais" (o documento produzido pelos intelectuais de Boston no ato do julgamento foi incluído no prefácio da primeira edição), e caiu nas graças da nobreza britânica. Já editores na América se recusaram a publicá-lo. Foi logo após a publicação em Londres e seu retorno que John Wheatley (talvez por pressão dos influentes amigos de Phillis) concedeu-lhe a alforria:
"Desde meu retorno à América meu Mestre, segundo o desejo de meus amigos na Inglaterra, deu-me a liberdade".
A vida de Phillis Wheatley depois da escravidão, contudo, não foi fácil. Seus antigos mestres e protetores faleceram, Susannah em 1774 e John em 1778. A poetisa não gozava de boa saúde, o que atrapalhava seu trabalho. Em 1778 casou-se com John Peters, um negro livre que tinha uma quitanda, e com ele viveu anos de pobreza, perdendo dois bebês. Ela tentou publicar um segundo volume de poesias, mas já na época da Revolução Americana havia pouco interesse e recursos para isso. Peters foi preso por dívidas em 1784, e poucos meses depois, ela morreu enquanto trabalhava como assistente de cozinha de uma estalagem. Seu terceiro filho morreu na mesma época, e os dois foram enterrados juntos numa cova comum.
Phillis Wheatley tornou-se a primeira escrava negra na América a publicar uma obra literária. Em Londres, onde o estigma da escravidão não lhe tomava a liberdade de expressão, relatava experiências e opiniões diversas nos círculos de intelectuais que frequentava. Porém o corpo da sua poesia, finamente ritmado e essencialmente devocional, religioso, raramente toca nas suas experiências pessoais. De fato, ela expressava, por exemplo, sentimentos ambíguos quanto à escravidão, devido à benfeitoria dos Wheatley em sua vida, o que levou autores negros contemporâneos, e estudiosos posteriores a criticar a postura (o uso progressivo de símbolos classicistas nos seus poemas, uma provável adaptação ao que ainda guardava da sua cultura ancestral, levou o escritor e escravo Jupiter Hammon a criticar seu "paganismo", dedicando a ela um poema composto por versículos bíblicos). No poema "Sobre Ter Sido Trazida da África para a América", ela louva a sua condição de escrava por ter permitido que conhecesse o Cristianismo, mas firma o pé na contestação do senso comum da época de que negros tinham uma linhagem e um destino espiritual distintos dos brancos:
"Foi misericórdia que me trouxe de minha terra Pagã,
Ensinou minha alma ignorante a entender
Que há um Deus, que há um Salvador também:
Uma vez que a redenção não procurei nem conhecia.
Alguns veem nossa negra raça com olhos desdenhosos,
'Sua cor é uma tintura diabólica.'
Lembrem-se, Cristãos, Negros, pretos como Caim
Podem ser refinados e juntar-se ao seu cortejo de anjos."
Em 1775, já durante a Revolução, época em que os poemas de Phillis Wheatley tomavam ares heroicos frequentando temas patrióticos e elogiando figuras públicas, ela escreveu uma carta ao recém nomeado comandante-em-chefe do Exército Continental, George Washington. O poema terminava nos versos:
"Continua, grande chefe, com virtude ao teu lado,
Todas as tuas ações deixa que a deusa guie.
Uma coroa, uma mansão, e um trono que brilhe,
Com ouro inalterável, WASHINGTON! Sejam teus."
Washington respondeu a carta, endereçando-se a "Senhorita Phillis", desculpando-se pela demora (5 meses entre o envio da carta de Phillis e a resposta de Washington), elogiando as "linhas elegantes" e seu "marcante talento poético". Ele diz ainda que teria arranjado sua publicação, se isso não parecesse um ato de vaidade e auto-promoção da sua parte (mas compartilhou-o com o tenente-coronel Joseph Reed, que teria encaminhado-o para o jornal The Pennsylvania Magazine em 1776), convidando-a a encontrá-lo em Cambridge. Por fim, dedica a carta à ex-escrava como "seu obediente e humilde servo".
Em Boston foi erigido em 2003 um monumento homenageando três mulheres importantes da história americana: Abigail Adams, esposa e conselheira do "Founding Father" John Adams e mãe do presidente John Quincy Adams; Lucy Stone, abolicionista, feminista e sufragista; e Phillis Wheatley.
*O almirante escocês-americano John Paul Jones pediu que um subordinado enviasse seus próprios escritos a "Phillis a Africana, favorita das Nove e Apolo".
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quarta-feira, 18 de outubro de 2017
sexta-feira, 16 de outubro de 2015
Paz Porfiriana
Em 16 de outubro de 1909, agentes de segurança americanos desarmaram um suspeito de atentado contra a vida dos presidentes Porfírio Díaz do México e William Taft dos Estados Unidos durante uma reunião na cidade de El Paso, Texas.
Em 1909, o presidente Porfírio Díaz já governava o México havia sete mandatos consecutivos. Sua subida ao poder se deve, principalmente, à sua popularidade adquirida durante os anos de guerras que marcaram o fim da monarquia e a intervenção francesa no México (que apoiava a monarquia). Quando seu antigo conhecido Benito Juárez, já na presidência, foi reeleito em 1870, Díaz, que fora candidato derrotado, liderou uma sublevação mal sucedida em 1871. O reeleito Juárez faleceu e foi sucedido pelo vice, Lerdo de Tejada, que anistiou Díaz, mas logo teve que confrontá-lo em combate durante a Revolta de Tuxtepec - Díaz alegava que a presidência deveria ser ocupada por um presidente eleito. Depois da Batalha de Tecoac, Tejada fugiu do país, e Díaz tomou o seu gabinete, embora o presidente em exercício fosse o presidente da Suprema Corte, agora José Maria Iglesias. Díaz foi em frente para removê-lo também. Com Iglesias fugindo do país, novas eleições foram convocadas, e Porfírio Díaz foi eleito presidente com larga margem em 1877.
Quando assumiu a presidência, Díaz se deparou com um Estado cuja autoridade era extremamente precária fora das maiores cidades, de um país vastamente rural e subdesenvolvido, e arruinado desde a guerra contra os Estados Unidos em 1846, quando perdeu metade do seu território. Díaz subiu na carreira cercado de liberais radicais, mas era extremamente pragmático. Diante de tão grandes problemas, deixou de lado processos democráticos e tomou decisões personalistas para impor a ordem pública que passavam por cima de direitos civis - segundo ele mesmo, a política do "pão ou pau". Com sua rede de apoiadores entre os militares, implementou, com forte e disciplinada presença do exército e uma centralização crescente do controle sobre a polícia, a "Paz Porfiriana", que combateu bandoleiros, mas também esmagou movimentos populares anti-governistas. O reconhecimento oficial dos Estados Unidos, que oferecia asilo a Lerdo de Tejada, veio depois de um pagamento de 300 mil dólares. Díaz também cimentou sua posição na presidência beneficiando abertamente aliados políticos, apaziguando grupos em conflito concedendo-lhes privilégios específicos (dar um pouco a cada um passava uma falsa sensação de democracia), e alterando, ironicamente, a Constituição para permitir a reeleição. Exceto no mandato que o sucedeu em 1880, quando foi eleito presidente seu homem de confiança, Manuel González Flores, veterano que perdera um braço na guerra contra a França, Díaz (que foi ministro de Flores) governou inconteste o México até 1911.
Também fez um grande trabalho de propaganda em torno de sua imagem, e suprimiu as críticas da grande imprensa com a censura ou a troca de favores, de maneira que, depois de um tempo, poucos ainda se lembravam da sua cruzada contra a reeleição de Benito Juárez. A memória que existia era a dos dezesseis anos de caos político e social que se seguiram ao fim da Segunda República, de modo que a Paz Porfiriana representava um enorme progresso.
A posição de Porfírio Díaz era tão soberana que, em certo momento, se tornou, concomitantemente, líder da maçonaria mexicana, e conselheiro dos bispos católicos. Embora assegurasse o poder supremo e, de qualquer forma, atingisse consideravelmente seu objetivo de pacificar o país, a administração personalista de Porfírio Díaz estava na realidade fragilizando as instituições republicanas. Para neutralizar a oposição, escalou amigos próximos para todas as posições de poder, e estruturou os órgãos públicos para que respondessem diretamente a ele. Enfraqueceu o caráter federalista (que definiu o nome oficial do país, Estados Unidos Mexicanos), limitando a autonomia dos estados e suas legislaturas quanto às decisões da presidência. Com a vida pública centralizada nas decisões de um homem agindo conforme seus planos de momento, a população nunca sabia o que esperar. Menos ainda os homens de negócio. A pacificação do interior começou a atrair o interesse de investidores estrangeiros, visando investimentos na mineração, agricultura, em infraestrutura, indústria, e comércio. Para negócios agropecuários, promoveu desapropriações de terras pequenos proprietários e reservas indígenas, redefiniu seus limites, e as vendeu.
Em 1908, já idoso, Porfírio anunciou que se retiraria da política ao final do seu mandato. Talvez tenha se impressionado com a voracidade com que os políticos, então sob perfeito controle, começaram a se agitar para definir seus candidatos. Um deles, Bernardo Reyes, então governador de Nuevo León, foi preventivamente enviado em missão à Europa para que não estivesse no país. Eventualmente Díaz desistiu da aposentadoria e começou a investir em mais uma campanha eleitoral, aceitando a candidatura rival de Francisco Madero (eventualmente ele mandara prender Madero pouco antes do pleito). Sua popularidade, contudo, declinava à medida em que, aos 78 anos, já não tinha o mesmo vigor para conduzir a política do país.
Ao longo dos anos, investidores americanos haviam injetado bilhões na economia mexicana. Em 1909, havia investimentos no valor aproximado de 800 milhões de dólares em valores da época no México, e cerca de 70 mil cidadãos americanos morando no país. Mas a incerteza sobre a sucessão fez com que esses mesmos investidores se virassem ao seu governo para achar uma saída para a crise. Porfírio Díaz então convidou o presidente William Taft para um encontro em ambas as cidades de El Paso, no Texas, e Ciudad Juárez, em Chihuahua. Havia uma pendência entre os dois países com relação à fronteira que passava entre as duas cidades. Uma mudança numa curva do Rio Grande, por onde corria a fronteira original, levou à assimilação de território formalmente mexicano pelos americanos (incorporando-o à cidade de El Paso), gerando grande tensão na região. Mas Taft estava mesmo interessado nos planos de Díaz para a sucessão presidencial e em assegurar os investimentos americanos no país em longo prazo. Para Díaz era uma boa oportunidade de fazer uma aparição e renovar a sua popularidade naquele ponto importante da fronteira. O encontro entre Díaz e Taft seria o primeiro encontro entre presidentes do México e dos Estados Unidos.
Sob o clima tenso da região, Taft chegou escoltado por Patrulheiros do Texas (uma espécie de milícia sob jurisdição do governo texano), agentes do Serviço Secreto, FBI, e o corpo de segurança pessoal do presidente, além de 250 seguranças contratados por um empresário americano diretamente interessado nas discussões da ocasião. Díaz mobilizou 4 mil soldados mexicanos. O encontro aconteceu no dia 16 de outubro. Naquela manhã, Taft chegou a El Paso e tomou um café da manhã no Hotel St. Regis. Díaz chegou às 11:00, paramentado com uniforme militar e o peito coberto por medalhas. Foi apresentado formalmente a Taft, trajando um terno comum. Os dois se reuniram a sós por vinte minutos. Uma hora depois, passaram a Ciudad Juárez, a primeira vez que um presidente americano atravessou a fronteira mexicana, para outra reunião no prédio da câmara do comércio local (que havia sido redecorado de maneira a se parecer com o Palácio de Versailles), onde concederiam uma coletiva de imprensa, posariam para fotos, e em seguida participariam de um extravagante banquete. Ciudad Juárez foi decretada capital federal para o evento. No dia seguinte ambos os mandatários retornaram para seus países.
No mesmo dia 16, em Los Angeles, o jornal Herald reproduziu uma notícia publicada em Chicago de que havia sido descoberto (por uma carta anônima enviada ao jornal) um plano de anarquistas para assassinarem os presidentes Taft e Díaz em El Paso. Os envolvidos estariam se reunindo havia duas semanas para planejar o atentado. Jornais e agências governamentais nos Estados Unidos vinham recebendo cartas anônimas com ameaças, como "uma bomba está pronta para Díaz". É certo que o serviço de inteligência americano estivesse trabalhando com essa informação, e por isso tenha organizado um esquema de segurança tão forte. Mesmo assim, quando os dois presidentes deixavam El Paso, o chefe da segurança contratada e um dos patrulheiros texanos identificaram um homem parado com um pequeno revólver na mão em frente à câmara do comércio local, de onde o cortejo se aproximava. Os dois homens imobilizaram e desarmaram o suspeito a poucos metros dos dois presidentes, antes que pudesse disparar um tiro. Eu, pessoalmente, não consegui alguma fonte que confirmasse a identidade do suspeito, mas o serviço de inteligência americano estava procurando naquele momento por Alexander Berkman, escritor lituano e anarquista radicado em Nova Iorque que já havia cumprido 14 anos na prisão por uma tentativa de assassinato.
A carreira de Porfírio Díaz tomaria um novo rumo. Ele foi de fato reeleito em 1910 pela oitava vez, a sétima consecutiva, mas resistiria no poder por apenas alguns meses. Naquele ano explodiu a Revolução Mexicana. Seu concorrente à presidência Francisco Madero contestou o resultado das eleições e levantou apoiadores contra Díaz. Sua demanda pela devolução das terras dos pequenos agricultores trouxe as classes menos favorecidas para o seu lado. Em 1911 Ciudad Juárez caiu, e logo depois Porfírio Díaz se viu forçado a exilar-se na França, onde morreu em 1915. William Taft esperava sinceramente que o mandato de Díaz durasse mais do que o seu, porque considerava que uma revolução no México exigiria uma ação americana para proteger seus interesses, mas essa que intervenção seria extremamente complicada (Taft deixou a presidência em 1913, sem ter tomado qualquer ação). Voltando-se contra o próprio Madero logo no início, visto como "traidor" e "representante das elites" pelo movimento tornado vigorosamente popular, a guerrilha se prolongou por 10 anos com mais de um milhão de mortos. O interesse da imprensa americana elevou alguns dos seus líderes, como Pancho Villa e Emiliano Zapata à fama internacional.
A questão da fronteira foi resolvida com um tratado ratificado por ambas as partes em 1963.
Em 1909, o presidente Porfírio Díaz já governava o México havia sete mandatos consecutivos. Sua subida ao poder se deve, principalmente, à sua popularidade adquirida durante os anos de guerras que marcaram o fim da monarquia e a intervenção francesa no México (que apoiava a monarquia). Quando seu antigo conhecido Benito Juárez, já na presidência, foi reeleito em 1870, Díaz, que fora candidato derrotado, liderou uma sublevação mal sucedida em 1871. O reeleito Juárez faleceu e foi sucedido pelo vice, Lerdo de Tejada, que anistiou Díaz, mas logo teve que confrontá-lo em combate durante a Revolta de Tuxtepec - Díaz alegava que a presidência deveria ser ocupada por um presidente eleito. Depois da Batalha de Tecoac, Tejada fugiu do país, e Díaz tomou o seu gabinete, embora o presidente em exercício fosse o presidente da Suprema Corte, agora José Maria Iglesias. Díaz foi em frente para removê-lo também. Com Iglesias fugindo do país, novas eleições foram convocadas, e Porfírio Díaz foi eleito presidente com larga margem em 1877.
Quando assumiu a presidência, Díaz se deparou com um Estado cuja autoridade era extremamente precária fora das maiores cidades, de um país vastamente rural e subdesenvolvido, e arruinado desde a guerra contra os Estados Unidos em 1846, quando perdeu metade do seu território. Díaz subiu na carreira cercado de liberais radicais, mas era extremamente pragmático. Diante de tão grandes problemas, deixou de lado processos democráticos e tomou decisões personalistas para impor a ordem pública que passavam por cima de direitos civis - segundo ele mesmo, a política do "pão ou pau". Com sua rede de apoiadores entre os militares, implementou, com forte e disciplinada presença do exército e uma centralização crescente do controle sobre a polícia, a "Paz Porfiriana", que combateu bandoleiros, mas também esmagou movimentos populares anti-governistas. O reconhecimento oficial dos Estados Unidos, que oferecia asilo a Lerdo de Tejada, veio depois de um pagamento de 300 mil dólares. Díaz também cimentou sua posição na presidência beneficiando abertamente aliados políticos, apaziguando grupos em conflito concedendo-lhes privilégios específicos (dar um pouco a cada um passava uma falsa sensação de democracia), e alterando, ironicamente, a Constituição para permitir a reeleição. Exceto no mandato que o sucedeu em 1880, quando foi eleito presidente seu homem de confiança, Manuel González Flores, veterano que perdera um braço na guerra contra a França, Díaz (que foi ministro de Flores) governou inconteste o México até 1911.
Também fez um grande trabalho de propaganda em torno de sua imagem, e suprimiu as críticas da grande imprensa com a censura ou a troca de favores, de maneira que, depois de um tempo, poucos ainda se lembravam da sua cruzada contra a reeleição de Benito Juárez. A memória que existia era a dos dezesseis anos de caos político e social que se seguiram ao fim da Segunda República, de modo que a Paz Porfiriana representava um enorme progresso.
A posição de Porfírio Díaz era tão soberana que, em certo momento, se tornou, concomitantemente, líder da maçonaria mexicana, e conselheiro dos bispos católicos. Embora assegurasse o poder supremo e, de qualquer forma, atingisse consideravelmente seu objetivo de pacificar o país, a administração personalista de Porfírio Díaz estava na realidade fragilizando as instituições republicanas. Para neutralizar a oposição, escalou amigos próximos para todas as posições de poder, e estruturou os órgãos públicos para que respondessem diretamente a ele. Enfraqueceu o caráter federalista (que definiu o nome oficial do país, Estados Unidos Mexicanos), limitando a autonomia dos estados e suas legislaturas quanto às decisões da presidência. Com a vida pública centralizada nas decisões de um homem agindo conforme seus planos de momento, a população nunca sabia o que esperar. Menos ainda os homens de negócio. A pacificação do interior começou a atrair o interesse de investidores estrangeiros, visando investimentos na mineração, agricultura, em infraestrutura, indústria, e comércio. Para negócios agropecuários, promoveu desapropriações de terras pequenos proprietários e reservas indígenas, redefiniu seus limites, e as vendeu.
Em 1908, já idoso, Porfírio anunciou que se retiraria da política ao final do seu mandato. Talvez tenha se impressionado com a voracidade com que os políticos, então sob perfeito controle, começaram a se agitar para definir seus candidatos. Um deles, Bernardo Reyes, então governador de Nuevo León, foi preventivamente enviado em missão à Europa para que não estivesse no país. Eventualmente Díaz desistiu da aposentadoria e começou a investir em mais uma campanha eleitoral, aceitando a candidatura rival de Francisco Madero (eventualmente ele mandara prender Madero pouco antes do pleito). Sua popularidade, contudo, declinava à medida em que, aos 78 anos, já não tinha o mesmo vigor para conduzir a política do país.
Ao longo dos anos, investidores americanos haviam injetado bilhões na economia mexicana. Em 1909, havia investimentos no valor aproximado de 800 milhões de dólares em valores da época no México, e cerca de 70 mil cidadãos americanos morando no país. Mas a incerteza sobre a sucessão fez com que esses mesmos investidores se virassem ao seu governo para achar uma saída para a crise. Porfírio Díaz então convidou o presidente William Taft para um encontro em ambas as cidades de El Paso, no Texas, e Ciudad Juárez, em Chihuahua. Havia uma pendência entre os dois países com relação à fronteira que passava entre as duas cidades. Uma mudança numa curva do Rio Grande, por onde corria a fronteira original, levou à assimilação de território formalmente mexicano pelos americanos (incorporando-o à cidade de El Paso), gerando grande tensão na região. Mas Taft estava mesmo interessado nos planos de Díaz para a sucessão presidencial e em assegurar os investimentos americanos no país em longo prazo. Para Díaz era uma boa oportunidade de fazer uma aparição e renovar a sua popularidade naquele ponto importante da fronteira. O encontro entre Díaz e Taft seria o primeiro encontro entre presidentes do México e dos Estados Unidos.
Sob o clima tenso da região, Taft chegou escoltado por Patrulheiros do Texas (uma espécie de milícia sob jurisdição do governo texano), agentes do Serviço Secreto, FBI, e o corpo de segurança pessoal do presidente, além de 250 seguranças contratados por um empresário americano diretamente interessado nas discussões da ocasião. Díaz mobilizou 4 mil soldados mexicanos. O encontro aconteceu no dia 16 de outubro. Naquela manhã, Taft chegou a El Paso e tomou um café da manhã no Hotel St. Regis. Díaz chegou às 11:00, paramentado com uniforme militar e o peito coberto por medalhas. Foi apresentado formalmente a Taft, trajando um terno comum. Os dois se reuniram a sós por vinte minutos. Uma hora depois, passaram a Ciudad Juárez, a primeira vez que um presidente americano atravessou a fronteira mexicana, para outra reunião no prédio da câmara do comércio local (que havia sido redecorado de maneira a se parecer com o Palácio de Versailles), onde concederiam uma coletiva de imprensa, posariam para fotos, e em seguida participariam de um extravagante banquete. Ciudad Juárez foi decretada capital federal para o evento. No dia seguinte ambos os mandatários retornaram para seus países.
No mesmo dia 16, em Los Angeles, o jornal Herald reproduziu uma notícia publicada em Chicago de que havia sido descoberto (por uma carta anônima enviada ao jornal) um plano de anarquistas para assassinarem os presidentes Taft e Díaz em El Paso. Os envolvidos estariam se reunindo havia duas semanas para planejar o atentado. Jornais e agências governamentais nos Estados Unidos vinham recebendo cartas anônimas com ameaças, como "uma bomba está pronta para Díaz". É certo que o serviço de inteligência americano estivesse trabalhando com essa informação, e por isso tenha organizado um esquema de segurança tão forte. Mesmo assim, quando os dois presidentes deixavam El Paso, o chefe da segurança contratada e um dos patrulheiros texanos identificaram um homem parado com um pequeno revólver na mão em frente à câmara do comércio local, de onde o cortejo se aproximava. Os dois homens imobilizaram e desarmaram o suspeito a poucos metros dos dois presidentes, antes que pudesse disparar um tiro. Eu, pessoalmente, não consegui alguma fonte que confirmasse a identidade do suspeito, mas o serviço de inteligência americano estava procurando naquele momento por Alexander Berkman, escritor lituano e anarquista radicado em Nova Iorque que já havia cumprido 14 anos na prisão por uma tentativa de assassinato.
A carreira de Porfírio Díaz tomaria um novo rumo. Ele foi de fato reeleito em 1910 pela oitava vez, a sétima consecutiva, mas resistiria no poder por apenas alguns meses. Naquele ano explodiu a Revolução Mexicana. Seu concorrente à presidência Francisco Madero contestou o resultado das eleições e levantou apoiadores contra Díaz. Sua demanda pela devolução das terras dos pequenos agricultores trouxe as classes menos favorecidas para o seu lado. Em 1911 Ciudad Juárez caiu, e logo depois Porfírio Díaz se viu forçado a exilar-se na França, onde morreu em 1915. William Taft esperava sinceramente que o mandato de Díaz durasse mais do que o seu, porque considerava que uma revolução no México exigiria uma ação americana para proteger seus interesses, mas essa que intervenção seria extremamente complicada (Taft deixou a presidência em 1913, sem ter tomado qualquer ação). Voltando-se contra o próprio Madero logo no início, visto como "traidor" e "representante das elites" pelo movimento tornado vigorosamente popular, a guerrilha se prolongou por 10 anos com mais de um milhão de mortos. O interesse da imprensa americana elevou alguns dos seus líderes, como Pancho Villa e Emiliano Zapata à fama internacional.
A questão da fronteira foi resolvida com um tratado ratificado por ambas as partes em 1963.
sexta-feira, 18 de setembro de 2015
Fidel Castro nos Estados Unidos
Em 18 de setembro de 1960, Fidel Castro desembarcou em Nova Iorque à frente de uma delegação cubana para a Assembléia Geral da ONU.
Ao longo dos anos 50, Fidel esteve envolvido em movimentos guerrilheiros de orientação socialista contra o ditador cubano Fulgêncio Batista. Entocado em Sierra Maestra em 1956 com apenas 19 guerrilheiros, seu grupo angariou gradativamente apoio de vários setores da sociedade cubana, inclusive da classe média e de sua insipiente burguesia, que viam a administração Batista como nociva e personalista (de fato, Batista lucrava diretamente com o turismo da ilha, com redes de hotéis, cassinos, e bordéis, usados também para a lavagem de dinheiro da máfia americana, sem reverter os lucros em benefícios públicos). Com a ajuda mais ou menos sutil da sociedade como um todo (em 1958 houve uma greve geral coordenada pela oposição), e o apoio declarado de personalidades conhecidas internacionalmente (como o piloto argentino Juan Manuel Fangio), logo os próprios soldados de Batista começaram a desertar para o lado dos rebeldes. No fim de 1958 Batista foi deposto por um dos seus generais, e fugiu para a República Dominicana com mais de 300 milhões de dólares dos cofres cubanos.
O Movimento 26 de Julho, agora, compunha o governo do país. Normalmente, o momento mais difícil de uma revolução é quando ela se torna tão bem sucedida a ponto de assumir o poder local, porque muitos ideais revolucionários precisam dar espaço para o pragmatismo necessário para conduzir políticas públicas, administrar orçamentos de maneira responsável, estabelecer relações diplomáticas e comerciais saudáveis com os parceiros certos. E esse era o problema do grupo de Fidel, Che Guevara, Raúl Castro, Camilo Cienfuegos, Almeida Bosque e outros revolucionários: fazer o país funcionar.
Ainda em 1958, os Estados Unidos decidiram tomar uma posição em relação ao que estava acontecendo em Cuba. Temendo que os revolucionários fossem comunistas (isso ainda não estava claro nem para eles), os americanos residentes ou de passagem pela ilha foram evacuados às pressas. Os contatos comerciais foram cortados, o comércio foi fechado, e foi uma sugestão de Washington a deposição de Batista antes que Fidel pusesse suas mãos nele: o general responsável pela manobra, Eulogio Cantillo, foi orientado a negociar um cessar fogo com Castro para estabelecer um novo governo, na esperança de que este governo tivesse tempo, força e legitimidade para impedir a ascensão dos revolucionários ao poder (ele seria preso logo depois por simpatizantes no exército, ao não entregar o poder aos revolucionários). A retórica anti-capitalista e anti-americana de Castro, que incluía planos declarados de nacionalização de negócios estrangeiros, também assustava. Sua reforma agrária foi direta e radical, limitando a área máxima de propriedade para cada família, para isso, expropriando grandes propriedades e minando o poder da elite agrária e investidores estrangeiros; as famílias reassentadas nos novos loteamentos eram de classe mais baixa, o que causou surpresa e descontentamento na classe média urbana e em seus próprios familiares (as célebres discordâncias dos familiares dos Castro que emigraram para os Estados Unidos tem sua origem aí). Mesmo assim, Fidel declarava publicamente que o novo regime não era comunista, embora nomeasse companheiros comunistas para cargos do alto escalão.
De qualquer maneira, durante o primeiro ano de governo ainda como Primeiro Ministro, Fidel Castro ainda podia contar com um influxo de capital proveniente da venda de açúcar e tabaco para os Estados Unidos. Cuba não podia negar a importância dos Estados Unidos como seu principal parceiro comercial, ainda mais depois de Batista fugir do país com grande parte do tesouro nacional. A primeira viagem de Fidel ao exterior como comandante cubano foi para lá, a convite da Associação Americana dos Editores de Jornais. A despeito do tumulto causado aos interesses americanos em Cuba, Fidel foi recebido com entusiasmo pela juventude americana, em universidades, no estádio de baseball dos New York Yankees, até num zoológico, e pela imprensa com interesse (suas histórias de luta em Sierra Maestra, sua eloquência e desenvoltura em público, e seu rosto barbado eram um sucesso entre os leitores).
O mesmo não pode ser dito do seu encontro com o então vice-presidente Richard Nixon. Ele esperava "orientar" Castro a não adotar políticas "radicais", o que foi recebido com ouvidos moucos. Conta uma anedota que, enquanto esperava ser chamado para a reunião, um oficial americano entrou na sala para falar com a delegação cubana, apresentando-se como "encarregado dos assuntos cubanos", ao que Fidel murmurou: "Achei que eu era encarregado dos assuntos cubanos". Tampouco foi feliz em uma reunião com empresários e jornalistas, onde as insinuações de que Cuba precisaria pedir ajuda econômica internacional o fizeram deixar a conferência irritado, algo raro de ser visto em público. O novo ministro das finanças também não obteve sucesso em assegurar linhas de crédito junto aos bancos. O ressentimento dos Estados Unidos quanto ao seu novo status na política cubana foi enorme. Em depoimento ao senado em 1960, o ex-embaixador em Cuba, Earl T. Smith, avaliou que "até Castro, os Estados Unidos tinham tanta influência em Cuba que o embaixador americano era a segundo homem mais importante no país, algumas vezes mais do que o presidente cubano".
Seu tour à procura de investidores incluiu Canadá, Trinidad e Tobago, Brasil, Uruguai e Argentina. Em Buenos Aires, numa conferência, propôs aos Estados Unidos um "Plano Marshall" (o plano de recuperação econômica da Europa pós-guerra) para a América Latina de 30 bilhões de dólares. Não foi atendido. Fidel retornou a Cuba de mãos vazias. Acontece que, apesar do otimismo do discurso cubano, Cuba realmente precisava substituir uma das suas principais fontes de receitas, uma vez que o dinheiro do turismo americano deixou de ser despejado no país (houve até uma campanha fracassada do governo cubano de promover o turismo especificamente aos negros nos Estados Unidos, no alto da era das lutas contra a segregação racial, prometendo um paraíso tropical sem racismo), e os planos internos priorizavam o desenvolvimento social em detrimento do desenvolvimento econômico (razão pela qual, até hoje, a educação e a saúde em Cuba são modelos para países em desenvolvimento, enquanto há escassez e racionamento de produtos básicos do dia a dia).
Entre 1959 e 1960 entra em cena, então, a União Soviética. Mesmo que não se declarasse comunista, a afinidade ideológica de Castro com o leninismo-marxismo era óbvia, e essa convergência o colocou em contato com comunistas importantes da comunidade internacional. Ao saber das negociações infrutíferas com os Estados Unidos, os soviéticos ofereceram comprar toda a produção cubana de açúcar, frutas, fibras têxteis e couro, mais um empréstimo de 100 milhões de dólares, em troca do compromisso de Cuba comprar petróleo, fertilizantes e manufaturados soviéticos. Um excelente negócio num momento crucial para o sucesso do novo regime. Cuba compraria petróleo cru soviético e precisaria de refinarias para transformá-lo em combustíveis, gás, plástico e outros produtos. As refinarias que funcionavam no país pertenciam a empresas estrangeiras, como as americanas Esso e Standard Oil, e sob pressão do governo americano, elas se recusaram a participar do negócio. Fidel confiscou e nacionalizou as refinarias. Os Estados Unidos cancelaram todas as importações de açúcar cubano. Cuba respondeu nacionalizando todos os outros negócios geridos por empresas americanas na ilha, inclusive bancos. A temperatura começou a subir.
Em meio à tensão entre os dois países, Fidel Castro viajou aos Estados Unidos pela segunda vez à frente de uma delegação diplomática, para proferir um discurso na abertura da Assembléia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque. Sua recepção foi menos calorosa do que da última vez. Setores da imprensa, menos entusiasmada com o ex-guerrilheiro romântico, agora parceiro dos comunistas, consideraram a visita uma provocação. O gerente do Hotel Shelburne, em Manhattan, exigiu que os cubanos pagassem a estadia adiantado e em dinheiro, e, insultada, a delegação se hospedou no modesto Hotel Theresa, no centro da comunidade negra do Haarlen. Foi ali que os cubanos viram as principais manifestações a seu favor, recebendo, inclusive, a visita do ativista Malcolm X e o escritor Langston Hughes, e de autoridades internacionais, como o premier soviético Nikita Krushschev, o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, e o primeiro ministro indiano Jawaharlal Nehru. Seu discurso, proferido dez dias depois, começou com "Devemos ser breves", seguido de uma fala de quatro horas e meia, o mais longo feito na sede das Nações Unidas (ele foi transcrito em um documento de 30 páginas). Nele, Fidel denunciava a política agressiva e imperialista americana em Cuba, na América Latina, na África e na Ásia, e que os Estados Unidos já haviam declarado o fim da revolução cubana (de fato, o presidente Eisenhower, meses antes, ordenara à CIA o treinamento de cubanos exilados para operações na ilha, mais sobre isso adiante). Krushschev declarou que Fidel Castro era o "farol do socialismo na América Latina". A delegação ainda promoveu um encontro festivo no hotel com líderes comunistas do Pacto de Varsóvia, intelectuais e lideranças de esquerda.
A relação Cuba-Estados Unidos se deteriorou completamente nos meses seguintes. Eisenhower cancelou todos os acordos comerciais com Cuba (o tabaco cubano, então seu principal produto de exportação, passou a ser contrabandeado para os Estados Unidos), e no começo de 1961 a embaixada americana em Havana foi fechada. Fidel Castro se consolidou no poder (e confirmou o caráter socialista da sua revolução) após a vitória sobre uma brigada de 1400 soldados dissidentes treinados pela CIA na invasão à Baía dos Porcos. A vitória final, seguida um ano mais tarde pela tensa crise dos mísseis nucleares soviéticos posicionados na ilha, provocou um alerta nos Estados Unidos contra a ameaça de revoluções similares se propagarem pelo restante da América Latina. Era preferível a eles o estabelecimento de ditaduras antidemocráticas alinhadas aos seus interesses econômicos do que qualquer movimento popular de caráter socialista. Dessa forma, contribuíram para golpes militares e sua manutenção em quase todos os países latinoamericanos entre os anos 60 e 80 (agentes da CIA coordenaram a ação que levou ao assassinato de Salvador Allende no Chile, e a Operação Brother Sam previa operações de apoio aos militares que depuseram João Goulart em caso de resistência), quando finalmente o desgaste dos governos locais, as crises mundiais que abalavam suas frágeis economias, e o lento fim do poderio soviético levaram à abertura democrática em muitos deles.
O bloqueio comercial perdura há mais de 60 anos, e apenas recentemente os dois países sinalizaram uma aproximação, com a reabertura das suas embaixadas, e o projeto em tramitação no Congresso americano de restabelecimento de relações comerciais com a ilha.
Ao longo dos anos 50, Fidel esteve envolvido em movimentos guerrilheiros de orientação socialista contra o ditador cubano Fulgêncio Batista. Entocado em Sierra Maestra em 1956 com apenas 19 guerrilheiros, seu grupo angariou gradativamente apoio de vários setores da sociedade cubana, inclusive da classe média e de sua insipiente burguesia, que viam a administração Batista como nociva e personalista (de fato, Batista lucrava diretamente com o turismo da ilha, com redes de hotéis, cassinos, e bordéis, usados também para a lavagem de dinheiro da máfia americana, sem reverter os lucros em benefícios públicos). Com a ajuda mais ou menos sutil da sociedade como um todo (em 1958 houve uma greve geral coordenada pela oposição), e o apoio declarado de personalidades conhecidas internacionalmente (como o piloto argentino Juan Manuel Fangio), logo os próprios soldados de Batista começaram a desertar para o lado dos rebeldes. No fim de 1958 Batista foi deposto por um dos seus generais, e fugiu para a República Dominicana com mais de 300 milhões de dólares dos cofres cubanos.
O Movimento 26 de Julho, agora, compunha o governo do país. Normalmente, o momento mais difícil de uma revolução é quando ela se torna tão bem sucedida a ponto de assumir o poder local, porque muitos ideais revolucionários precisam dar espaço para o pragmatismo necessário para conduzir políticas públicas, administrar orçamentos de maneira responsável, estabelecer relações diplomáticas e comerciais saudáveis com os parceiros certos. E esse era o problema do grupo de Fidel, Che Guevara, Raúl Castro, Camilo Cienfuegos, Almeida Bosque e outros revolucionários: fazer o país funcionar.
Ainda em 1958, os Estados Unidos decidiram tomar uma posição em relação ao que estava acontecendo em Cuba. Temendo que os revolucionários fossem comunistas (isso ainda não estava claro nem para eles), os americanos residentes ou de passagem pela ilha foram evacuados às pressas. Os contatos comerciais foram cortados, o comércio foi fechado, e foi uma sugestão de Washington a deposição de Batista antes que Fidel pusesse suas mãos nele: o general responsável pela manobra, Eulogio Cantillo, foi orientado a negociar um cessar fogo com Castro para estabelecer um novo governo, na esperança de que este governo tivesse tempo, força e legitimidade para impedir a ascensão dos revolucionários ao poder (ele seria preso logo depois por simpatizantes no exército, ao não entregar o poder aos revolucionários). A retórica anti-capitalista e anti-americana de Castro, que incluía planos declarados de nacionalização de negócios estrangeiros, também assustava. Sua reforma agrária foi direta e radical, limitando a área máxima de propriedade para cada família, para isso, expropriando grandes propriedades e minando o poder da elite agrária e investidores estrangeiros; as famílias reassentadas nos novos loteamentos eram de classe mais baixa, o que causou surpresa e descontentamento na classe média urbana e em seus próprios familiares (as célebres discordâncias dos familiares dos Castro que emigraram para os Estados Unidos tem sua origem aí). Mesmo assim, Fidel declarava publicamente que o novo regime não era comunista, embora nomeasse companheiros comunistas para cargos do alto escalão.
De qualquer maneira, durante o primeiro ano de governo ainda como Primeiro Ministro, Fidel Castro ainda podia contar com um influxo de capital proveniente da venda de açúcar e tabaco para os Estados Unidos. Cuba não podia negar a importância dos Estados Unidos como seu principal parceiro comercial, ainda mais depois de Batista fugir do país com grande parte do tesouro nacional. A primeira viagem de Fidel ao exterior como comandante cubano foi para lá, a convite da Associação Americana dos Editores de Jornais. A despeito do tumulto causado aos interesses americanos em Cuba, Fidel foi recebido com entusiasmo pela juventude americana, em universidades, no estádio de baseball dos New York Yankees, até num zoológico, e pela imprensa com interesse (suas histórias de luta em Sierra Maestra, sua eloquência e desenvoltura em público, e seu rosto barbado eram um sucesso entre os leitores).
O mesmo não pode ser dito do seu encontro com o então vice-presidente Richard Nixon. Ele esperava "orientar" Castro a não adotar políticas "radicais", o que foi recebido com ouvidos moucos. Conta uma anedota que, enquanto esperava ser chamado para a reunião, um oficial americano entrou na sala para falar com a delegação cubana, apresentando-se como "encarregado dos assuntos cubanos", ao que Fidel murmurou: "Achei que eu era encarregado dos assuntos cubanos". Tampouco foi feliz em uma reunião com empresários e jornalistas, onde as insinuações de que Cuba precisaria pedir ajuda econômica internacional o fizeram deixar a conferência irritado, algo raro de ser visto em público. O novo ministro das finanças também não obteve sucesso em assegurar linhas de crédito junto aos bancos. O ressentimento dos Estados Unidos quanto ao seu novo status na política cubana foi enorme. Em depoimento ao senado em 1960, o ex-embaixador em Cuba, Earl T. Smith, avaliou que "até Castro, os Estados Unidos tinham tanta influência em Cuba que o embaixador americano era a segundo homem mais importante no país, algumas vezes mais do que o presidente cubano".
Seu tour à procura de investidores incluiu Canadá, Trinidad e Tobago, Brasil, Uruguai e Argentina. Em Buenos Aires, numa conferência, propôs aos Estados Unidos um "Plano Marshall" (o plano de recuperação econômica da Europa pós-guerra) para a América Latina de 30 bilhões de dólares. Não foi atendido. Fidel retornou a Cuba de mãos vazias. Acontece que, apesar do otimismo do discurso cubano, Cuba realmente precisava substituir uma das suas principais fontes de receitas, uma vez que o dinheiro do turismo americano deixou de ser despejado no país (houve até uma campanha fracassada do governo cubano de promover o turismo especificamente aos negros nos Estados Unidos, no alto da era das lutas contra a segregação racial, prometendo um paraíso tropical sem racismo), e os planos internos priorizavam o desenvolvimento social em detrimento do desenvolvimento econômico (razão pela qual, até hoje, a educação e a saúde em Cuba são modelos para países em desenvolvimento, enquanto há escassez e racionamento de produtos básicos do dia a dia).
Entre 1959 e 1960 entra em cena, então, a União Soviética. Mesmo que não se declarasse comunista, a afinidade ideológica de Castro com o leninismo-marxismo era óbvia, e essa convergência o colocou em contato com comunistas importantes da comunidade internacional. Ao saber das negociações infrutíferas com os Estados Unidos, os soviéticos ofereceram comprar toda a produção cubana de açúcar, frutas, fibras têxteis e couro, mais um empréstimo de 100 milhões de dólares, em troca do compromisso de Cuba comprar petróleo, fertilizantes e manufaturados soviéticos. Um excelente negócio num momento crucial para o sucesso do novo regime. Cuba compraria petróleo cru soviético e precisaria de refinarias para transformá-lo em combustíveis, gás, plástico e outros produtos. As refinarias que funcionavam no país pertenciam a empresas estrangeiras, como as americanas Esso e Standard Oil, e sob pressão do governo americano, elas se recusaram a participar do negócio. Fidel confiscou e nacionalizou as refinarias. Os Estados Unidos cancelaram todas as importações de açúcar cubano. Cuba respondeu nacionalizando todos os outros negócios geridos por empresas americanas na ilha, inclusive bancos. A temperatura começou a subir.
Em meio à tensão entre os dois países, Fidel Castro viajou aos Estados Unidos pela segunda vez à frente de uma delegação diplomática, para proferir um discurso na abertura da Assembléia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque. Sua recepção foi menos calorosa do que da última vez. Setores da imprensa, menos entusiasmada com o ex-guerrilheiro romântico, agora parceiro dos comunistas, consideraram a visita uma provocação. O gerente do Hotel Shelburne, em Manhattan, exigiu que os cubanos pagassem a estadia adiantado e em dinheiro, e, insultada, a delegação se hospedou no modesto Hotel Theresa, no centro da comunidade negra do Haarlen. Foi ali que os cubanos viram as principais manifestações a seu favor, recebendo, inclusive, a visita do ativista Malcolm X e o escritor Langston Hughes, e de autoridades internacionais, como o premier soviético Nikita Krushschev, o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, e o primeiro ministro indiano Jawaharlal Nehru. Seu discurso, proferido dez dias depois, começou com "Devemos ser breves", seguido de uma fala de quatro horas e meia, o mais longo feito na sede das Nações Unidas (ele foi transcrito em um documento de 30 páginas). Nele, Fidel denunciava a política agressiva e imperialista americana em Cuba, na América Latina, na África e na Ásia, e que os Estados Unidos já haviam declarado o fim da revolução cubana (de fato, o presidente Eisenhower, meses antes, ordenara à CIA o treinamento de cubanos exilados para operações na ilha, mais sobre isso adiante). Krushschev declarou que Fidel Castro era o "farol do socialismo na América Latina". A delegação ainda promoveu um encontro festivo no hotel com líderes comunistas do Pacto de Varsóvia, intelectuais e lideranças de esquerda.
A relação Cuba-Estados Unidos se deteriorou completamente nos meses seguintes. Eisenhower cancelou todos os acordos comerciais com Cuba (o tabaco cubano, então seu principal produto de exportação, passou a ser contrabandeado para os Estados Unidos), e no começo de 1961 a embaixada americana em Havana foi fechada. Fidel Castro se consolidou no poder (e confirmou o caráter socialista da sua revolução) após a vitória sobre uma brigada de 1400 soldados dissidentes treinados pela CIA na invasão à Baía dos Porcos. A vitória final, seguida um ano mais tarde pela tensa crise dos mísseis nucleares soviéticos posicionados na ilha, provocou um alerta nos Estados Unidos contra a ameaça de revoluções similares se propagarem pelo restante da América Latina. Era preferível a eles o estabelecimento de ditaduras antidemocráticas alinhadas aos seus interesses econômicos do que qualquer movimento popular de caráter socialista. Dessa forma, contribuíram para golpes militares e sua manutenção em quase todos os países latinoamericanos entre os anos 60 e 80 (agentes da CIA coordenaram a ação que levou ao assassinato de Salvador Allende no Chile, e a Operação Brother Sam previa operações de apoio aos militares que depuseram João Goulart em caso de resistência), quando finalmente o desgaste dos governos locais, as crises mundiais que abalavam suas frágeis economias, e o lento fim do poderio soviético levaram à abertura democrática em muitos deles.
O bloqueio comercial perdura há mais de 60 anos, e apenas recentemente os dois países sinalizaram uma aproximação, com a reabertura das suas embaixadas, e o projeto em tramitação no Congresso americano de restabelecimento de relações comerciais com a ilha.
sexta-feira, 26 de junho de 2015
Guerras esdrúxulas
Em 26 de junho de 1740, cerca de trezentos espanhóis (muitos não eram soldados) derrotaram 170 britânicos que defendiam o Forte Mose, na Florida. Esta batalha foi parte da Guerra da Orelha de Jenkins.
É, a História é pontilhada de conflitos assim. Pode-se dizer que muitas guerras de larga escala tiveram as mesmas motivações das menores escaramuças, a diferença aparecendo na configuração das redes diplomáticas e interesses globais em cada momento.
A Guerra da Orelha de Jenkins veio na esteira de décadas de conflitos em que Espanha e Inglaterra estiveram em lados opostos, embora, em 1713, a Espanha tenha assegurado à Inglaterra o monopólio ("asiento") do tráfico de escravos para suas colônias na América, com o privilégio adicional de transportarem 500 toneladas de mercadorias por ano. Essa relação de morde-e-assopra entre os dois países veio ao fim quando, pressionado por um sentimento geral anti-hispânico, a Inglaterra moveu suas tropas para as Índias Ocidentais e Gibraltar. A Espanha exigiu reparação financeira, e como a Inglaterra se negou, o rei Filipe V da Espanha rasgou o contrato de asiento. Em outubro de 1739 veio a declaração de guerra. Eventualmente este conflito, onde a Espanha se saiu melhor, foi tolhido pela guerra generalizada na Europa pela sucessão do trono austríaco (onde os dois países novamente se colocaram em lados opostos).
O nome desse conflito específico deriva de um incidente em 1731, quando um barco espanhol abordou um navio inglês perto da Florida, e o comandante espanhol cortou a orelha do capitão Robert Jenkins, acusando-o de contrabando. Jenkins foi convocado em 1738 pelo Parlamento inglês a testemunhar sobre o caso, e exibiu a todos a própria orelha decepada. Com todos os problemas diplomáticos com a Espanha naquele momento, a orelha do capitão Jenkins teria sido a gota d'água para os ingleses.
Houve muitas guerras motivadas por motivos banais, e várias dessas acabaram conhecidas por nomes curiosos. Eu selecionei dez:
1: A Guerra do Cão Perdido entre Grécia e Bulgária em 1925 começou quando um cachorro fugiu e seu dono grego o perseguiu através da fronteira, sendo morto por soldados búlgaros. A Grécia exigiu reparação e chegou a tomar uma cidade fronteiriça da Bulgária, e precisou da Liga das Nações intervir para resolver o caso.
2: A Guerra da Lagosta foi travada entre Brasil e França 1961 e 1963, quando a marinha brasileira resolveu impedir que barcos franceses pescassem lagostas fora do espaço marítimo brasileiro, alegando que as lagostas migram, de maneira que os franceses estariam lesando os pescadores brasileiros. O Brasil, acreditem, nunca perdeu uma guerra, e saiu vitorioso desta, ampliando suas águas territoriais.
3: A Guerra do Banco de Ouro de 1900 aconteceu quando o imperador de Ashanti, já irritado pela presença britânica na região do atual Gana, se sentiu ultrajado quando a autoridade britânica exigiu que ele devolvesse o tal banco de ouro, que ele usava como trono e que fora presenteado ao seu país pelos europeus. O imperador declarou guerra, e Ashanti terminaria incorporado à colônia da Costa do Ouro. A comandante maior do exército ashante era a irmã do imperador.
4: A Guerra do Porco de 1859 começou quando um fazendeiro americano vivendo na ilha de San Juan, um território disputado na fronteira do Oregon com a Colúmbia Britânica, viu um porco comendo suas batatas e atirou nele. O dono do porco, um irlandês empregado de uma companhia britânica, foi tirar satisfação. Ele recusou a oferta de 10 dólares pelo porco morto. O fazendeiro, ultrajado, disse que o irlandês é quem tinha que pagar pela invasão do seu porco. Autoridades britânicas interviram para prender o fazendeiro, e colonos americanos pediram por uma ação militar. A única ação militar no conflito, que perdurou por 13 anos, foram as trocas de insultos entre os soldados dos dois países e nenhum morto (exceto o porco). Ao final os EUA ganharam os direitos sobre a ilha.
5: A Guerra das Laranjas foi travada entre Espanha e Portugal em 1801 quando quando a França, aliada da Espanha, que estava em paz com Portugal, exigiu que Portugal se aliasse a ela contra a Inglaterra, de quem Portugal também era aliado. A diplomacia portuguesa se atrapalhou toda (com razão). Um diplomata português foi enviado a Madri para acertar um acordo com a França sem saber que a Espanha estava declarando guerra (a Espanha, por sua vez, precisava decidir rápido se declarava guerra a Portugal ou se sujeitava a uma invasão francesa). O próprio governo português só ficou sabendo da declaração de guerra 10 dias depois da primeira invasão. A Espanha acabou ocupando (até hoje) a cidade de Olivença, enquanto portugueses tomaram parte do território espanhol na América, onde hoje é o oeste do Rio Grande do Sul e uma porção do Mato Grosso. Manuel de Godoy, ministro espanhol à frente do exército, ao chegar a Olivença pegou uma laranja de um pé e a enviou para a rainha da Espanha, com a mensagem de que marcharia para Lisboa. Quando a laranja chegou, um segundo diplomata português já tinha acertado um acordo de paz com espanhóis e franceses.
6: A Guerra dos 335 anos foi travada entre a Holanda e o minúsculo arquipélago inglês das Ilhas Scilly. Aconteceu que em 1651 os parlamentaristas completaram seu domínio sobre a Grã-Bretanha, e os monarquistas da Cornuália se refugiaram em Scilly. Os holandeses, por sua vez, ofereceram aliança à Inglaterra - porém, especificamente, aos parlamentaristas, que estavam vencendo a guerra civil. Como resultado, navios holandeses eram atacados por embarcações monarquistas baseadas em Scilly. Um almirante holandês foi tirar satisfação, e como os representantes de Scilly se recusassem a atendê-lo, ele declarou guerra contra o arquipélago. Com o tempo, os monarquistas voltariam ao poder, e a Holanda confirmaria sua aliança com a Inglaterra... esquecendo-se completamente das ilhas Scilly. Como um tratado de paz nunca foi formalizado, essa guerra, que não teve um tiro disparado, durou 335 anos.
7: A Guerra do Futebol começou numa partida de desempate pelas eliminatórias da Copa do Mundo em 1969 entre El Salvador e Honduras. Os dois países viviam em tensão por causa de imigrações ilegais do primeiro para o segundo, e reformas agrárias do segundo para controlar o primeiro, e o sentimento nacionalista era calculadamente inflamado pelos dois governos. O primeiro jogo, em Tegucigalpa, resultou em violência generalizada, pelo qual o governo salvadorenho exigiu uma retratação. Como ela não viesse, no segundo jogo, em San Salvador, houve mais quebra-quebra. Ao final do terceiro jogo, na Cidade do México, El Salvador alegou que a violência do primeiro jogo contra torcedores do seu país constituía genocídio e declarou guerra. O exército salvadorenho invadiu Honduras e por pouco não chegou à capital. A OTAN precisou intervir para provocar um cessar-fogo.
8: A Guerra de Lijar começou quando o rei Alfonso XII da Espanha foi agredido por populares numa visita a Paris. Embora o incidente não tivesse causado grandes problemas diplomáticos, por algum motivo o prefeito da cidade espanhola de Lijar se sentiu ultrajado, e declarou guerra à França. Nem os lijarenses marcharam os 800 km até a fronteira, nem a França deu bola, mas a declaração de guerra formal persistiu até que na década de 1970 o prefeito local, convencido das boas intenções da França após o tratamento cordial cedido ao novo rei Juan Carlos II em visita oficial, convidou o embaixador francês para selar a paz. Diz uma anedota que quando o Juan Carlos visitou Lijar, teriam lhe dito que "uma hora esses franceses iam desistir".
9: A Guerra do Barril de Carvalho ocorreu em 1325, depois de um longo período de rivalidade entre as cidades italianas de Modena e Bolonha, quando alguns soldados de Modena entraram em Bolonha e roubaram um balde de madeira que ficava num poço no centro da cidade. Os bolonheses formaram um exército de 32 mil homens (uma quantidade respeitável para os padrões da época) para atacar os vizinhos, que contavam com 7000 soldados. Mas, na única batalha travada, em Zappolino, Modena saiu vitoriosa. O tal balde está exposto na Torre da Ghirlandina, na Catedral de Modena. As facções rivais que controlavam as duas cidades só fariam as pazes definitivamente em 1529.
10: As Guerras do Bacalhau tiveram motivo semelhante à Guerra da Lagosta: embarcações inglesas que pescavam bacalhau foram abordadas pela guarda costeira da Islândia, que alegava estarem operando em águas suas por direito. A resposta britânica foi mais incisiva do que a francesa no caso anterior: em três episódios, a marinha inglesa moveu dezenas de navios de guerra para assegurar a segurança de seus pesqueiros contra meia dúzia de barcos de patrulha islandeses. Nenhum tiro foi disparado, e o atrito se resumia às embarcações dos dois países tomando posições de batalha, e chegando tão perto umas das outras quanto possível (a única vítima foi engenheiro islandês eletrocutado na casa de máquinas de seu barco quando este se chocou contra uma fragata britânica). A OTAN atuou persuadindo os britânicos a recuarem algumas vezes, mas a coisa ficou séria quando a Islândia ameaçou deixar a organização e comprar navios militares soviéticos para lidar com o problema. No final, a Islândia ampliou suas águas territoriais.
É, a História é pontilhada de conflitos assim. Pode-se dizer que muitas guerras de larga escala tiveram as mesmas motivações das menores escaramuças, a diferença aparecendo na configuração das redes diplomáticas e interesses globais em cada momento.
A Guerra da Orelha de Jenkins veio na esteira de décadas de conflitos em que Espanha e Inglaterra estiveram em lados opostos, embora, em 1713, a Espanha tenha assegurado à Inglaterra o monopólio ("asiento") do tráfico de escravos para suas colônias na América, com o privilégio adicional de transportarem 500 toneladas de mercadorias por ano. Essa relação de morde-e-assopra entre os dois países veio ao fim quando, pressionado por um sentimento geral anti-hispânico, a Inglaterra moveu suas tropas para as Índias Ocidentais e Gibraltar. A Espanha exigiu reparação financeira, e como a Inglaterra se negou, o rei Filipe V da Espanha rasgou o contrato de asiento. Em outubro de 1739 veio a declaração de guerra. Eventualmente este conflito, onde a Espanha se saiu melhor, foi tolhido pela guerra generalizada na Europa pela sucessão do trono austríaco (onde os dois países novamente se colocaram em lados opostos).
O nome desse conflito específico deriva de um incidente em 1731, quando um barco espanhol abordou um navio inglês perto da Florida, e o comandante espanhol cortou a orelha do capitão Robert Jenkins, acusando-o de contrabando. Jenkins foi convocado em 1738 pelo Parlamento inglês a testemunhar sobre o caso, e exibiu a todos a própria orelha decepada. Com todos os problemas diplomáticos com a Espanha naquele momento, a orelha do capitão Jenkins teria sido a gota d'água para os ingleses.
Houve muitas guerras motivadas por motivos banais, e várias dessas acabaram conhecidas por nomes curiosos. Eu selecionei dez:
1: A Guerra do Cão Perdido entre Grécia e Bulgária em 1925 começou quando um cachorro fugiu e seu dono grego o perseguiu através da fronteira, sendo morto por soldados búlgaros. A Grécia exigiu reparação e chegou a tomar uma cidade fronteiriça da Bulgária, e precisou da Liga das Nações intervir para resolver o caso.
2: A Guerra da Lagosta foi travada entre Brasil e França 1961 e 1963, quando a marinha brasileira resolveu impedir que barcos franceses pescassem lagostas fora do espaço marítimo brasileiro, alegando que as lagostas migram, de maneira que os franceses estariam lesando os pescadores brasileiros. O Brasil, acreditem, nunca perdeu uma guerra, e saiu vitorioso desta, ampliando suas águas territoriais.
3: A Guerra do Banco de Ouro de 1900 aconteceu quando o imperador de Ashanti, já irritado pela presença britânica na região do atual Gana, se sentiu ultrajado quando a autoridade britânica exigiu que ele devolvesse o tal banco de ouro, que ele usava como trono e que fora presenteado ao seu país pelos europeus. O imperador declarou guerra, e Ashanti terminaria incorporado à colônia da Costa do Ouro. A comandante maior do exército ashante era a irmã do imperador.
4: A Guerra do Porco de 1859 começou quando um fazendeiro americano vivendo na ilha de San Juan, um território disputado na fronteira do Oregon com a Colúmbia Britânica, viu um porco comendo suas batatas e atirou nele. O dono do porco, um irlandês empregado de uma companhia britânica, foi tirar satisfação. Ele recusou a oferta de 10 dólares pelo porco morto. O fazendeiro, ultrajado, disse que o irlandês é quem tinha que pagar pela invasão do seu porco. Autoridades britânicas interviram para prender o fazendeiro, e colonos americanos pediram por uma ação militar. A única ação militar no conflito, que perdurou por 13 anos, foram as trocas de insultos entre os soldados dos dois países e nenhum morto (exceto o porco). Ao final os EUA ganharam os direitos sobre a ilha.
5: A Guerra das Laranjas foi travada entre Espanha e Portugal em 1801 quando quando a França, aliada da Espanha, que estava em paz com Portugal, exigiu que Portugal se aliasse a ela contra a Inglaterra, de quem Portugal também era aliado. A diplomacia portuguesa se atrapalhou toda (com razão). Um diplomata português foi enviado a Madri para acertar um acordo com a França sem saber que a Espanha estava declarando guerra (a Espanha, por sua vez, precisava decidir rápido se declarava guerra a Portugal ou se sujeitava a uma invasão francesa). O próprio governo português só ficou sabendo da declaração de guerra 10 dias depois da primeira invasão. A Espanha acabou ocupando (até hoje) a cidade de Olivença, enquanto portugueses tomaram parte do território espanhol na América, onde hoje é o oeste do Rio Grande do Sul e uma porção do Mato Grosso. Manuel de Godoy, ministro espanhol à frente do exército, ao chegar a Olivença pegou uma laranja de um pé e a enviou para a rainha da Espanha, com a mensagem de que marcharia para Lisboa. Quando a laranja chegou, um segundo diplomata português já tinha acertado um acordo de paz com espanhóis e franceses.
6: A Guerra dos 335 anos foi travada entre a Holanda e o minúsculo arquipélago inglês das Ilhas Scilly. Aconteceu que em 1651 os parlamentaristas completaram seu domínio sobre a Grã-Bretanha, e os monarquistas da Cornuália se refugiaram em Scilly. Os holandeses, por sua vez, ofereceram aliança à Inglaterra - porém, especificamente, aos parlamentaristas, que estavam vencendo a guerra civil. Como resultado, navios holandeses eram atacados por embarcações monarquistas baseadas em Scilly. Um almirante holandês foi tirar satisfação, e como os representantes de Scilly se recusassem a atendê-lo, ele declarou guerra contra o arquipélago. Com o tempo, os monarquistas voltariam ao poder, e a Holanda confirmaria sua aliança com a Inglaterra... esquecendo-se completamente das ilhas Scilly. Como um tratado de paz nunca foi formalizado, essa guerra, que não teve um tiro disparado, durou 335 anos.
7: A Guerra do Futebol começou numa partida de desempate pelas eliminatórias da Copa do Mundo em 1969 entre El Salvador e Honduras. Os dois países viviam em tensão por causa de imigrações ilegais do primeiro para o segundo, e reformas agrárias do segundo para controlar o primeiro, e o sentimento nacionalista era calculadamente inflamado pelos dois governos. O primeiro jogo, em Tegucigalpa, resultou em violência generalizada, pelo qual o governo salvadorenho exigiu uma retratação. Como ela não viesse, no segundo jogo, em San Salvador, houve mais quebra-quebra. Ao final do terceiro jogo, na Cidade do México, El Salvador alegou que a violência do primeiro jogo contra torcedores do seu país constituía genocídio e declarou guerra. O exército salvadorenho invadiu Honduras e por pouco não chegou à capital. A OTAN precisou intervir para provocar um cessar-fogo.
8: A Guerra de Lijar começou quando o rei Alfonso XII da Espanha foi agredido por populares numa visita a Paris. Embora o incidente não tivesse causado grandes problemas diplomáticos, por algum motivo o prefeito da cidade espanhola de Lijar se sentiu ultrajado, e declarou guerra à França. Nem os lijarenses marcharam os 800 km até a fronteira, nem a França deu bola, mas a declaração de guerra formal persistiu até que na década de 1970 o prefeito local, convencido das boas intenções da França após o tratamento cordial cedido ao novo rei Juan Carlos II em visita oficial, convidou o embaixador francês para selar a paz. Diz uma anedota que quando o Juan Carlos visitou Lijar, teriam lhe dito que "uma hora esses franceses iam desistir".
9: A Guerra do Barril de Carvalho ocorreu em 1325, depois de um longo período de rivalidade entre as cidades italianas de Modena e Bolonha, quando alguns soldados de Modena entraram em Bolonha e roubaram um balde de madeira que ficava num poço no centro da cidade. Os bolonheses formaram um exército de 32 mil homens (uma quantidade respeitável para os padrões da época) para atacar os vizinhos, que contavam com 7000 soldados. Mas, na única batalha travada, em Zappolino, Modena saiu vitoriosa. O tal balde está exposto na Torre da Ghirlandina, na Catedral de Modena. As facções rivais que controlavam as duas cidades só fariam as pazes definitivamente em 1529.
10: As Guerras do Bacalhau tiveram motivo semelhante à Guerra da Lagosta: embarcações inglesas que pescavam bacalhau foram abordadas pela guarda costeira da Islândia, que alegava estarem operando em águas suas por direito. A resposta britânica foi mais incisiva do que a francesa no caso anterior: em três episódios, a marinha inglesa moveu dezenas de navios de guerra para assegurar a segurança de seus pesqueiros contra meia dúzia de barcos de patrulha islandeses. Nenhum tiro foi disparado, e o atrito se resumia às embarcações dos dois países tomando posições de batalha, e chegando tão perto umas das outras quanto possível (a única vítima foi engenheiro islandês eletrocutado na casa de máquinas de seu barco quando este se chocou contra uma fragata britânica). A OTAN atuou persuadindo os britânicos a recuarem algumas vezes, mas a coisa ficou séria quando a Islândia ameaçou deixar a organização e comprar navios militares soviéticos para lidar com o problema. No final, a Islândia ampliou suas águas territoriais.
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