quinta-feira, 28 de maio de 2015

O eclipse de Tales

Em 28 de maio de 585 a.C., um eclipse solar interrompeu a Batalha de Halys entre os reis Ciaxares, da Média, e Aliates, da Lídia, levando-os a concordarem com uma trégua. Embora os antigos considerassem o eclipse um sinal de mal agouro - o que teria levado os dois exércitos a desistirem da batalha - este eclipse teria sido predito com precisão e antecedência por Tales de Mileto, possivelmente a primeira previsão de um eclipse na História.

A importância do registro dos eclipses solares na antiguidade, quando cada pedacinho do mundo possuía seu próprio critério de contagem do tempo em meses e anos (geralmente medido segundo os anos de reinado de alguém, ou em ciclos olímpicos, ou ancorado em alguma outra data importante de um acontecimento anterior real ou mitológico, e não raro alterados, substituídos ou "zerados" sem aviso) é crucial para se precisar as datas de acontecimentos naqueles tempos, pois, sabendo-se a velocidade do movimento dos astros, seus ciclos e a periodicidade em que ocorrem os alinhamentos, é possível determinar até os minutos em que um eclipse ocorreu em dada época e lugar. Este eclipse solar, por exemplo, ocorreu no final da tarde sobre o sul da Anatólia, local da batalha. Com todo nosso arcabouço teórico moderno isso é relativamente simples, mas como Tales de Mileto fez para prever o tal fenômeno é um mistério, já que a observação sistemática de eclipses solares só tomou ares científicos lá pelo século XVIII.

Heródoto, o primeiro historiador no sentido estrito, é a fonte sobre a batalha e o eclipse que teria ocorrido. Há quem argumente que talvez, por Heródoto estar escrevendo sobre um evento que não presenciou, tenha confundido os fatos ou negligenciado fontes (como ele costumava fazer conforme a sua narrativa se afastava do seu tempo presente ou do seu conhecimento prático) e o eclipse relatado tenha sido um eclipse lunar, que teria aterrorizado os exércitos se eles estivessem se preparando para lutar sob a lua cheia que deveria estar brilhando naquela noite. Os eclipses lunares também podem servir como pontos de referência para a marcação de datas, o que levaria a data em que ocorreu a batalha para poucos anos antes ou depois.

De qualquer forma, outros eclipses ajudam os historiadores a compreenderem a datação de eventos passados. Por exemplo, Heródoto registra o que era ponto pacífico no seu tempo sobre a partida da expedição de Xerxes da cidade lídia de Sardis contra a Grécia. Ela teria sido marcada por um eclipse solar. Um eclipse parcial ocorreu na Pérsia (distante de Sardis, mas poderia ter sido um sinal que seria transmitido ao rei pelo estupendo sistema de comunicação do Império Persa) em 2 de outubro de 480 a.C.. Os gregos posteriormente se referem à partida de Xerxes, ou datas com referências a ela (a travessia do Bósforo, a chegada à Macedônia, as batalhas das Guerras Pérsicas, etc.), para marcar seu tempo, eventualmente cruzando-as com seus próprios sistemas de medidas (com base nos anos de realização dos seus jogos em Olímpia, Delfos, Nemeia, ou Corinto), e por isso é relativamente fácil lidar com a cronologia da História helênica, depois romana, e por fim dar alguma precisão ao calendário cristão (embora aí até mesmo teólogos cristãos discordem sobre o nascimento de Jesus em cerca de 7 anos).

Outro eclipse registrado na Antiguidade que nos oferece uma âncora para entender a cronologia dos eventos, desta vez no Oriente Médio, é o eclipse de 15 de julho de 763 a.C. observado na Assíria, no "nono ano" do reinado de Assurdam III. Como se sabe que o eclipse ocorreu em julho, e o registro diz que ocorreu no mês "SIMANU", tem-se aí também a ferramenta para se fazer a correspondência entre os meses do calendário assírio e os do calendário gregoriano e interpretá-los com alguma precisão toda vez que aparecerem. Esse eclipse é citado numa lista de reis assírios, e com ele é possível localizar todos os seus reinados com bastante precisão.

Da mesma forma, os hititas - cuja civilização era quase legendária até ser redescoberta arqueologicamente no século XIX - têm a sua cronologia baseada na informação de um eclipse solar sobre Hatti, no centro da Turquia, durante o "décimo ano" do reinado de Mursilis II, o que, com todos os cruzamentos possíveis, situa o evento depois do meio dia de 24 de junho de 1312, ou em 13 de abril de 1308, datas relativamente próximas. Porém, na segunda data, a região de Hatti teria ficado apenas na penumbra, e isso durante as primeiras horas da manhã, e seria pouco notado. Assumindo a primeira data como a mais provável, sabe-se quando Mursilis começou a reinar, e quando reinaram seus antecessores, sucessores, e todas as campanhas militares promovidas pelos hititas, inclusive seus confrontos com os egípcios.

Quanto a Ciaxares e Aliates, o eclipse interrompeu a longa guerra entre seus dois reinos. Ciaxares morreu logo depois. Seu bisneto pela linhagem materna seria Ciro II, rei da Pérsia, e ele se encarregaria de dominar a Lídia cerca de 40 anos mais tarde.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Fogo debaixo da terra

Em 27 de maio de 1962, o carvão de uma mina sob a cidade americana de Centralia começou a pegar fogo. Ninguém tem certeza de como o incêndio se propagou, mas ele arde na cidade desde que um monte de lixo foi incendiado, e o fogo atingiu os veios de carvão mineral nos túneis de minas abandonadas sob o solo.

A cidade se preparava para as comemorações do Memorial Day, e uma das ações da prefeitura foi limpar os aterros irregulares e depositar todo o lixo em uma área de mineração na superfície abandonada desde 1935, criar um aterro lá, e botar fogo em tudo. Esse procedimento era ilegal, e não constava nos autos do conselho municipal, mas foi o que aconteceu.

Naquele dia, 5 voluntários do corpo de bombeiros locais foram designados para supervisionar o fogo, usando água para controlar a fumaça e assegurar que ele não se espalharia pelas redondezas, caso atingisse algum veio de carvão mineral exposto por acaso. Isso era previsto, tanto que uma lei estadual proibia aterros sanitários sobre minas superficiais de carvão. No dia 29, quando o fogo já deveria ter se extinguido, chamas ainda eram observadas no local, novamente controladas. Na semana seguinte, o fogo voltou a arder no mesmo lugar, e fumaça era detectada em outros pontos da cidade, enquanto a prefeitura continuava despejando lixo no aterro. Os bombeiros então revolveram os detritos para tentar localizar algum foco de incêndio entre as camadas de lixo, quando descobriram uma fenda de mais de 4 metros de largura no chão e alguns metros de profundidade. Essa abertura dava acesso às antigas minas sob a cidade, e por ele as chamas na superfície teriam atingido os antigos depósitos de carvão.

Técnicos compareceram ao local e detectaram presença de monóxido de carbono na fumaça do aterro, indicando que o fogo havia se espalhado pelos veios de carvão. No entanto, a causa do incêndio foi ocultada pelas autoridades locais, por causa das irregularidades cometidas no processo. Enquanto se decidia o que fazer, técnicos continuavam as medições de monóxido de carbono, e no dia 9 de agosto, foram detectadas concentrações letais, e todas as minas ativas da região foram evacuadas.

Ficou decidido que uma escavadeira retiraria terra 60 metros além do perímetro do aterro para tentar isolar o incêndio. Na primeira escavada, o ar rico em oxigênio entrou pelo buraco e causou uma labareda, deixando claro que o fogo subterrâneo havia se espalhado por uma área maior do que o imaginado. A escavação continuou lentamente tentando cercar a área, mas não adiantaria nada.

Uma segunda tentativa incluiu o bombeamento de uma mistura de pedriscos e água nos túneis à frente do que se acreditava ser a direção e o limite do fogo naquele momento, mas o inverno impediu a operabilidade do projeto. Em abril do ano seguinte, fumaça emergia do solo a mais de 200 metros do aterro, na direção da rua principal de Centralia.

A vida continuou. O abandono das minas locais forçou a saída de algumas famílias em busca de emprego em outros lugares. Até que em 1979, o prefeito local, dono de um posto de gasolina, estava medindo o nível de combustível no seu reservatório, e achou que a vara usada estava muito quente. Ele mergulhou um termômetro e descobriu que a gasolina estava a 77ºC. Os cidadãos locais ficaram atentos. Quando, em 1981, um garoto caiu num buraco que se abriu no quintal de casa, e dese buraco emanava um vapor quente com doses letais de monóxido de carbono (o garoto foi salvo), ficou claro o perigo que a cidade corria. O governo americano interviu desapropriando as terras e indenizando as famílias. As construções desabitadas foram demolidas. O serviço postal americano cancelou o CEP de Centralia. A cidade vizinha de Byrnesville, ao sul, também foi afetada e abandonada.

O fogo no subsolo de Centralia continua ardendo até hoje numa área de 1,6 km², e ainda em expansão. O sinal da queima são emissões de fumaça tóxica em fissuras no solo espalhadas pela cidade. Na época do início do incêndio, viviam cerca de 1400 pessoas ali. Dez atualmente se recusam a abandonar o local e continuam vivendo ali nas 5 casas que não foram demolidas. Além delas, dos cemitérios, da igreja (localizada num morro afastado do incêndio), do edifício da prefeitura (onde os poucos moradores ainda se reúnem) e das ruas, só há mato. Estima-se que, no ritmo atual, o fogo continue queimando por pelo menos 250 anos. A cidade-fantasma fictícia de Silent Hill é baseada em Centralia.

terça-feira, 26 de maio de 2015

A Coroa de Ferro da Lombardia

No dia 26 de maio de 1805, Napoleão coroou a si mesmo rei da Itália em Milão, colocando sobre sua cabeça a Coroa de Ferro da Lombardia.

Essa coroa, hoje guardada e exibida na Catedral de Monza, é uma das relíquias cristãs mais antigas das quais se tem registro que sobreviveram até o nosso tempo. Trata-se de uma banda circular de ferro, sobre a qual foi montado um aro composto por seis folhas batidas de ouro adornadas com pedras preciosas. É uma coroa pequena demais para ser encaixada em uma cabeça como imaginamos ao pensar em uma coroa.

Ela é uma relíquia cristã valiosa não por causa do ouro ou da pedraria, mas por causa do seu "esqueleto" de ferro. As diferentes versões da lenda convergem para a mãe do imperador romano Constantino I, Helena. Ela teria trazido pessoalmente os remanescentes da cruz em que Jesus foi crucificado de uma viagem à Palestina entre os anos de 326 e 328. Ela era cristã, e teria fundado várias igrejas e obras de caridade na região, e nesses caminhos teria descoberto três cruzes, e uma visão a levou a identificar as três como aquelas erigidas no Gólgota naquele dia, e qual delas era a cruz de Jesus.

Desde antes, os relicários de Cristo e dos apóstolos que circulavam pela Europa e Oriente Próximo tinham a reputação de possuírem propriedades sobrenaturais. Helena então trouxe pedaços da cruz, e ofereceu os cravos a Constantino. Um dos cravos foi martelado na parte de dentro do seu elmo; outro usado para ferrar o seu cavalo; outros foram enviados como presentes a cristãos proeminentes dentro e fora do Império. Dessa forma, um desses cravos chegou a Monza, no século VII, sede do reino dos lombardos. A princesa Theodelinda, a quem se atribui a evangelização daquela tribo germânica, teria encomendado a coroa montada sobre o aro obtido do cravo batido. Outra tradição diz que, após a morte de Constantino, seu elmo teria ficado em Constantinopla. Quando o rei visigodo Teodorico invadiu a Itália, os bizantinos teriam removido o aro do interior do elmo e enviado ao mesmo, que o teria usado como coroa. Mais tarde, os visigodos o passariam ao lombardos quando estes conquistaram o nordeste da Itália. Uma terceira hipótese mais recente é de que a coroa de ferro, com esse significado, teria chegado à Itália através dos francos, pois um dos netos do rei Luis, o Piedoso, teria recebido a relíquia de sua mãe e doado à igreja de Monza, da qual era benfeitor.

De qualquer maneira, a Coroa de Ferro é registrada oficialmente pela primeira vez na coroação de Henrique VII como rei da Itália - futuramente, sacro imperador romano - em 1311, mas ela pode ter sido usada antes, a começar por Carlos Magno. A própria Igreja, apesar de considerar a coroa um tesouro, teve ao longo dos séculos atitudes diferentes em relação à sua venerabilidade, e à autenticidade da sua origem, de maneira que a coroa nem sempre foi usada para legitimar o poder de um soberano sobre a Itália. Investigações conduzidas pela Igreja concluíram que, embora seja possível que ela tenha sido um dia montada sobre uma banda de ferro (testes de radiocarbono sobre as placas de ouro apontam para em torno do século VI, época aproximada estimada pelas tradições para a chegada da coroa à Itália), a que está lá hoje é constituída por 99% de prata - é possível que ela tenha sido substituída durante uma restauração feita no século XVI.

Numa atitude calculada para cimentar seu poder após a conquista da Itália, Napoleão rumou para Milão para ser coroado rei daquele país. Numa cerimônia grandiosa, sentado sobre um trono magnífico, ele foi homenageado e a ele foram investidas as insígnias reais pelo cardeal arcebispo de Milão. Ele subiu ao altar, pegou a Coroa de Ferro e a colocou sobre a cabeça, declarando "Deus a tem me dado, cuidado a qualquer um que a tocar", um gesto parecido com o que teve na sua coroação como Imperador da França, quando tomou a coroa das mãos do próprio Papa e a enterrou na cabeça antes que o mesmo terminasse seu discurso cerimonial.

Apresentação

Não vou me apresentar. Tem meu blog pessoal ali do lado caso alguém se interesse. Mas vale uma nota. Uma nota bem longa.

De muitos hábitos, eu tenho dois em particular: um é a necessidade de aprender pelo menos uma coisa nova todo dia, para que o dia valha a pena; outro é a necessidade de registrar esse aprendizado escrevendo sobre ele. Profusamente.

Além disso, eu tenho a habilidade de me lembrar de quase tudo que eu leio. Ironicamente para alguém que se propõe a escrever sobre História, eu tenho extrema dificuldade de me lembrar de autores, títulos e anos de publicação, o que me obriga, na minha profissão - biólogo - a anotar toda referência que eu considero importante ou útil, com um resumo do motivo de eu ter anotado aquela referência, para eventuais usos no futuro. Mas o conteúdo, disso eu lembro. E isso resulta numa memória pontilhada de fatos e anedotas que, quando surge a mais tênue referência, ativa toda uma cadeia de lembranças que me obriga a pesquisar mais extensivamente sobre aquilo, e, não raro, expandir minha pesquisa para assuntos relacionados. E escrever, para fixar de vez aquilo na cabeça.

Compreendo a História não como uma sequência linear de fatos passados, mas como um processo dinâmico com múltiplas causas e consequências, e cuja interpretação varia de acordo com o background cultural do sujeito, levando a diferentes narrativas para os mesmos eventos em diferentes momentos da História e diferentes visões sobre as mesmas fontes. Quem estuda e trabalha com História minimiza ao máximo o relativismo com metodologias de tratamento das fontes e cuidados com suas conclusões para evitar juízos de valor, transformando-a formidavelmente em uma ciência. Eu não sou historiador - grifo novamente, biólogo - mas conheci de perto o trabalho de profissionais da área durante um bom tempo, além de ter grande influência familiar no gosto pela coisa, de maneira que eu lido naturalmente com o assunto, enquanto principiante.

O facebook é o meio pernicioso para a superficialidade do conhecimento, que se materializa na forma de boatos, mentiras, construções e informações sem conexão com a realidade, confeccionadas e propagadas por desconhecimento ou mal caratismo. Não é o único, nem o principal - existem carreiras inteiras na mídia corporativa e na internet construídas sobre esse tipo de alicerce, de maneira que "blogueiro" hoje é como uma profissão - mas é o mais longe que eu consigo ir em termos de redes sociais, e onde ainda existe espaço e público para coisas mais construtivas.

Tudo isso me levou, na minha página do facebook, a escrever frequentemente sobre acontecimentos históricos relacionados a cada dia, as efemérides. Uma forma de mostrar às pessoas que o mundo é feito por pessoas e acontecimentos extraordinários, e que não precisamos de falácias, mitos e desinformação para vislumbrar e compreender o espetáculo que é o mundo em que vivemos e construímos - e destruímos também. Por questões práticas de organização, decidi transpor esse costume para o formato de blog, já que é difícil recuperar o que é escrito no meio da zona que é aquela plataforma depois de um tempo. Até incluí um mecanismo de busca. Eu sei que será útil para mim.

Então, aí está. Pretendo fazer aqui as efemérides, de maneira simples, mas tentando não ser simplório, como entretenimento, mas sem frivolidade. Espero que alguém se divirta tanto lendo quanto eu me divirto escrevendo.