Em 1202, soldados e cavaleiros partiram de vários reinos europeus atendendo ao chamado do Papa Inocente III, com o objetivo de destruir o Sultanato Aiúbida. No entanto, em 17 de julho de 1203, a maior parte desse exército entregou-se ao saque de Constantinopla, causando o desmantelamento do outrora poderoso (e aliado) Império Bizantino.
Como isso foi acontecer?
As Cruzadas foram campanhas militares organizadas inicialmente pelo papado romano, em parte como resposta às dificuldades que os bizantinos estavam tendo para conter o avanço das nações islâmicas na Ásia. A Primeira Cruzada, em 1095, tinha como objetivo ajudar militarmente o Império Bizantino a recuperar terras perdidas para os turcos seljúcidas no leste da Anatólia, mas resultou na conquista de Jerusalém e no estabelecimento de reinos cristãos na região da Terra Santa. A tomada daquela cidade sagrada para o Islã foi uma demonstração de força da Europa cristã diante de mais de 300 anos de avanço muçulmano, que, contudo, tornou a região instável, disputada nos séculos seguintes por cristãos europeus, muçulmanos sírios, egípcios, e eventualmente mongóis. De fato, em 1187, o Sultanato Aiúbida, comandado pelo brilhante general Saladino, retomou a Cidade Santa, e a Terceira Cruzada, enviada em resposta, retomou algumas fortalezas perdidas (Jafa e Acre, por exemplo), mas não conseguiu reconquistá-la.
Da Europa Central para a Palestina, os Cruzados podiam seguir a perigosa rota pelo Mediterrâneo, ou seguir as estradas que iam para o leste, em direção a Constantinopla, pelos Bálcãs e Cárpatos, e de lá pelas confusas estradas da Anatólia. A passagem quase obrigatória pelo Império Bizantino, apesar de cristão, era um problema tanto para os católicos como para os bizantinos ortodoxos. Havia, de longa data, uma animosidade entre as duas interpretações do cristianismo, mas havia, sobretudo, um vão cultural entre a emergente sociedade feudal do ocidente, de matriz germânica, e da antiga e tradicional civilização oriental, de matriz grega mas que assimilava elementos asiáticos. A desconfiança levou o Sacro Imperador Romano Frederico Barbarossa, um dos comandantes da Terceira Cruzada, a planejar, com dissidentes sérvios e búlgaros, um ataque aos bizantinos, cuja política de tolerância e assimilação das culturas árabe e persa era vista como sacrílega; quando a ilha de Chipre, antiga possessão bizantina, foi reconquistada das mãos de rebeldes gregos, ao invés de ser devolvida, foi vendida pelo conquistador, o rei inglês Ricardo Coração de Leão, à Ordem dos Cavaleiros Templários.
Desde que Inocente III foi eleito Papa, em 1198, seu objetivo maior era organizar uma nova cruzada para retomar Jerusalém. No entanto, o cenário político não era favorável, já que as três principais potências, o Sacro Império Romano (em crise política com o papado), a França e a Inglaterra (em guerra um contra o outro) enfrentavam seus problemas. No entanto, um padre de Neuilly-Sur-Marne chamado Fulco conseguiu convencer alguns dos senhores mais poderosos da França a recrutarem exércitos contra a maior ameaça à cristandade, sobretudo à Terra Santa, o Sultanato Aiúbida. O líder da expedição seria o italiano Bonifácio de Montferrat. Sabendo das dificuldades da marcha por terra pela Anatólia (onde os cruzados, mesmo sob proteção bizantina, enfrentavam assaltos e hostilidades das populações locais nas cruzadas anteriores), Bonifácio buscou viabilizar uma frota marítima junto às potências comerciais de Gênova e Veneza. Venezianos concordaram em construir navios e transportar até 33 mil soldados (contando com 4500 cavalos) diretamente para o Egito.
Mas os cruzados, como havia sido antes, não compunham um exército coeso sob uma única liderança. Eram homens arregimentados e armados por senhores feudais principalmente na França (mas também alemães, belgas, e italianos), que os tinham como capitães. Embora houvesse a facilidade de transporte oferecida por Veneza, muitos optaram por embarcar em outros portos, como Marselha e Gênova. O embarque e o transporte eram feitos mediante pagamento dos senhores aos donos dos navios por cada homem embarcado. O problema é que dessa forma, apenas um terço dos homens esperados chegaram ao porto de Veneza, e os venezianos, que já haviam cumprido sua parte do trato, esperavam pelo pagamento total. Os cruzados reunidos ali foram dispostos de quase tudo que tinham para reunir menos do que Veneza esperava (o que contabilizava os prejuízos comerciais durante os anos de preparação e investimento na nova frota). Eventualmente, Enrico Dandolo, o Doge (ou duque, o cabeça da República local), propôs aos cruzados resgatar o montante devido achacando as cidades no leste do Adriático, então sob proteção sérvia ou húngara.
Apesar de uma ordem de Inocente III que proibia os cruzados de atacarem qualquer indivíduo, cidade ou reino cristão sob risco de excomungação, em novembro de 1201, a cidade croata (e católica) de Zara, atual Zardar, então uma ambição veneziana, foi sitiada. A cidade ostentava bandeiras com uma cruz sobre as muralhas, caso os invasores tivessem se esquecido de que a cidade era cristã, e alguns dos comandantes cruzados, como Simon de Montfort se recusavam a participar do cerco. Mas os soldados, já quase sem posses além de suas armas, viam, como Dandolo, a possibilidade de butim, e a cidade caiu em duas semanas. O Papa realmente excomungou todo o exército e a cidade de Veneza, mas como tanto cruzados como venezianos ainda precisavam se ressarcir dos prejuízos, seus líderes não informaram os soldados, com medo de que eles se dispersassem (Inocente voltou atrás três meses depois). Dandolo e os cruzados passaram o inverno em Zara, planejando o próximo passo.
Veneza cresceu graças ao comércio marítimo e à vigorosa e ágil economia local, impondo-se, mesmo com um território limitado à cidade, a portos aliados ou conquistados e colônias espalhadas pelo Mediterrâneo, frente a antigas potências tradicionais, como o Egito e o próprio Império Bizantino. Constantinopla era, pela sua localização geográfica, o principal entrave à expansão veneziana em direção às cobiçadas rotas que levavam à China e à Índia, e, apesar de inicialmente oferecer aos comerciantes venezianos privilégios, os irritava com novos acordos com rivais italianos de Pisa, Gênova e Amalfi. Em 1171, venezianos atacaram as posses de genoveses em Constantinopla, e em resposta o imperador Manuel I Komnenos mandou prender todos os venezianos na cidade e confiscar suas posses. Reforços vindos do mar tentaram vingar e forçar a libertação dos presos, mas fracassaram. Na confusão, rebeldes sérvios, instigados pelos venezianos, tomaram Ancona, a última possessão do Império Romano do Oriente na Itália. Embora a situação se normalizasse com o tempo, conflitos palacianos levaram à ascensão de Andrônico I Komnenos ao trono bizantino, e este imperador, que reinara por apenas dois anos, incitou a violência contra os que via como detentores do poder no Império - aristocratas e comerciantes latinos.
Enquanto isso, Bonifácio de Montferrat havia deixado os venezianos para visitar seu primo, Filipe, então rei da Alemanha (o que corresponderia ao cargo de Sacro Imperador Romano, caso tivesse a anuência do Papa). Ali encontrou-se com o príncipe Alexios Komnenos, cujo pai, Isaque II, havia sido deposto em Constantinopla por seu irmão Alexios III. Alexios prometeu a Bonifácio saudar a sua dívida com Veneza, além de ceder 10 mil soldados profissionais à sua expedição ao Egito, bem como colocar uma frota à disposição e, até mesmo, submeter o credo ortodoxo à autoridade do Papa, caso os cruzados o ajudassem a recuperar o trono bizantino. Tal proposta chegou aos cruzados em Zara, e foi abraçada com fervor por Dandolo. O Doge veneziano participara da expedição marítima de 1171, e teria sido cegado pelos bizantinos como punição. E agora ele navegava com uma frota de guerra e 12 mil cruzados em direção a Constantinopla.
Os cruzados, agora acompanhados por Bonifácio e Alexios, chegaram a Constantinopla em atitude hostil. As defesas da cidade, confusas e compostas apenas por um pequeno corpo de elite por conta das convulsões internas causadas pelos sucessivos golpes de Estado sofridos nas últimas décadas, foram pegas de surpresa. Ataques múltiplos foram desferidos nos subúrbios da cidade, fora das muralhas, enquanto a torre de Gálatas (onde se prendia a poderosa corrente de ferro que impedia o acesso ao Corno de Ouro, rio largo que dava acesso ao interior e à face norte das muralhas) era dominada. Mas para surpresa dos ocidentais (que, acostumados com a sacralidade da sucessão de seus tronos de pai para filho, imaginavam que o filho de um imperador deposto seria recebido com festa pelos seus pares), a embarcação onde se apresentava Alexios era ostensivamente hostilizada pelos cidadãos por cima das muralhas. Em 17 de julho, enquanto cruzados atacavam a muralha por terra, os venezianos tomavam parte da muralha pelo Corno de Ouro. Um grande incêndio causado com propósito de manter os invasores afastados destruiu quase 500 mil metros quadrados da cidade. O próprio usurpador, o imperador Alexios III (tio do pretendente), liderou um ataque em maior número contra os sitiadores no portão de São Romano, mas teria recuado em pânico antes do primeiro golpe. Ele fugiu para a Trácia, fazendo com que os comandantes locais restaurassem Isaque II imperador.
O retorno de Isaque ao trono frustrou as pretensões de um ataque direto dos venezianos aos tesouros bizantinos. Também colocava em cheque as promessas de Alexios, que só poderia cumpri-las se fosse ele o imperador. Sob pressão e alguma ameaça, Isaque concordou em coroar o filho Alexios IV coimperador.
Mas as coisas ainda não iam bem para nenhum dos lados. Alexios III fugira com boa parte dos tesouros em ouro e jóias. Alexios IV, desesperado para reunir logo algum dinheiro, ordenou a destruição de antigos ícones romanos para a cunhagem de moedas, mas nunca se chegava ao valor prometido. Alexios conseguiu um adiamento de seis meses para o pagamento, nos quais pretendia empregar os cruzados contra seu tio, encastelado em Adrianópolis. Mas o povo via o desespero do imperador como sinal de fraqueza diante de estrangeiros (hereges, além de tudo), e se rebelou na sua ausência. Na confusão, latinos eram atacados, e venezianos revidavam destruindo o que podiam. Um quinto da cidade teria sido arrasada por incêndios. Quando Isaque II morreu, em janeiro de 1204, o senado bizantino (descendente direto daquela instituição romana) nomeou Nicolau Canabus imperador, mas o jovem preferiu renunciar e se esconder numa igreja. Sem um líder formal (Alexios IV, voltando do estrangeiro, já não tinha mais sua autoridade reconhecida), Bizâncio estava sob comando de Alexios Doukas, que liderou uma rebelião contra os latinos, recusando-se a assumir as dívidas de seu suserano (que seria preso e executado semanas depois, dando espaço para Doukas ser coroado Alexios V).
Novamente a cidade foi atacada, e como sempre resistiu. Para estimular a coragem dos cruzados, clérigos insistiam na tese de que Deus os estava testando, e que a punição aos bizantinos era certa, pois haviam assassinado seu legítimo senhor; "os gregos são piores do que os judeus", pregavam. Em 13 de abril de 1204, os invasores tomaram a cidade, saqueando-a por três dias. Tesouros e obras de arte seculares foram destruídos, civis roubados ou assassinados, igrejas violadas, freiras estupradas. A grande catedral de Santa Sofia foi desgraçada e seus ícones e livros destruídos, e os cruzados bêbados colocaram uma prostituta sentada no trono do Patriarca. Imediatamente, o antigo Império Bizantino se fragmentou em 5 partes, ficando a sua parte européia centrada em Constantinopla sob o comando do nobre belga Balduíno - coroado Balduíno I, Imperador Latino. O Império Latino resistiu por 57 anos a ataques de pretendentes gregos por todos os lados, bem como de búlgaros recém-unificados se aproveitando do tumulto vindos do norte. O Império Bizantino foi restaurado em 1261 por Miguel VIII Paleólogo.
As consequências do saque de Constantinopla foram profundas. O Império Bizantino - o que restava do Império Romano, da milenar cultura grega, e da autoridade cristã no oriente - jamais se recuperou da crise, e foi suplantado pelos turcos, que avançariam inexoravelmente sobre a rica Anatólia até chegar a Constantinopla no século XV, expandindo uma influência duradoura sobre o sudeste da Europa. O cisma que existia entre catolicismo e ortodoxia grega se tornou um abismo tão profundo e duradouro que em 2001 o Papa João Paulo II reconheceu e expressou pesar pelo que os cruzados fizeram a Constantinopla, ao que o contemporâneo Patriarca Bartolomeu I aceitou como desculpas. A aproximação ainda é um trabalho político muito delicado, trabalhoso, e lento.
Poucos homens chegaram à Terra Santa na Quarta Cruzada, apenas reforçando posições já asseguradas então. Nenhum desembarcou no Egito.
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terça-feira, 17 de julho de 2018
quarta-feira, 13 de janeiro de 2016
Espanha visigótica
Em 13 de janeiro de 587, o rei da Espanha visigótica, Recaredo, até então um cristão ariano, converteu-se ao catolicismo.
Os visigodos, depois de séculos forçando as fronteiras do Império Romano no Reno e no Danúbio (e obtendo sucesso em algumas dessas tentativas de invasão), configurando-se numa das principais forças "bárbaras" em oposição ao mundo romano, finalmente assentaram-se na Espanha no começo do século V. Foi uma invasão massiva e coordenada entre vândalos, alanos e suevos, que atravessaram o Reno congelado e cruzaram a Gália em direção à Espanha. Os Visigodos, então no meio do caminho, saquearam Roma em 410. O enfraquecido Império Romano do Ocidente não teve o que fazer além de conceder-lhes terras e recrutá-los nos seus exércitos como foederati. Com suas terras, os visigodos passaram a recolher impostos dos seus arrendatários romanos, sem contudo repassá-los ao Império. Com a crescente fortuna, e sem impedimentos da autoridade central, os visigodos expandiram-se a partir do sudoeste da França para o sul, abocanhando quase toda a Espanha e os Pirineus (alanos e suevos já estavam lá, ocupando a metade norte de Portugal e a Galícia, enquanto Vândalos passavam para a África), e, na prática, formaram um reino independente em 418. Alguns conflitos com o crescente poder dos seus "primos" ostrogodos, então com o esfacelado Império Romano nas mãos, e os francos, senhores da Gália, empurraram o reino visigótico mais para o sul, guardando apenas uma faixa de território na França. A capital se moveu para a romana Toletum, atual Toledo.
A impressão que se tem quando se fala do fim do Império Romano é que os cidadãos romanos - aqueles que viviam de acordo com as leis e costumes romanos, pagavam tributos a Roma e falavam o latim - subitamente sumiram, ou pelo êxodo (como se todos os romanos tivessem fugido para a Itália, por exemplo, quando francos, saxões, burgúndios, etc. tomaram posse do seu território), ou, talvez, pelo extermínio. Antes, assim como os romanos fizeram com as populações locais quando expandiram-se Itália afora, eles próprios foram lentamente assimilados pelos seus novos conquistadores. A Espanha era romanizada desde o século I a.C. (com a exceção dos bascos, que notavelmente nunca foram romanizados ou se submeteram a qualquer outro invasor da Península Ibérica), e logo cedo produziu expoentes do pensamento e da política, como Sêneca, Lucano, e os imperadores Trajano, Adriano e Teodósio, assumindo uma posição central na dinâmica do Império. Em 418, esses mesmos romanos agora deviam obediência a um rei germânico. Todo conquistador tem a opção de governar o povo conquistado, ou substituí-lo por colonos do seu próprio povo. Para sorte dos romanos espanhóis, eles preferiram governá-los.
Por causa da própria origem do assentamento visigótico da Espanha - o rei Ataulfo obteve do imperador romano Honório o direito de assentar seus homens ali se expulsassem os vândalos, alanos e outros - e da longa convivência, principalmente entre os visigodos foederati a serviço de Roma, os visigodos estabeleceram na Espanha romanizada uma espécie de continuação da sociedade romana pré-existente; embora ali o trono passasse de pai para filho (ao contrário de Roma, que, mesmo no fim, de uma forma ou de outra, elegia seus imperadores com o aval do senado), os romanos continuaram cultivando a terra, comerciando, e conduzindo a burocracia estatal, usando o latim como língua oficial. Os visigodos assumiram ali o papel dos patrícios, a classe mais alta da sociedade romana, donos de terras, preferidos para ocupar cargos de comando e obter favores do Estado. Para o plebeu ibero-romano, muito pouco mudou.
Ainda assim, havia um ponto de atrito entre conquistadores e conquistados, um que punha em risco a estabilidade do domínio germânico: religião.
Os visigodos eram adeptos históricos e entusiasmados do arianismo, corrente do cristianismo que defendia que Jesus, enquanto filho de Deus, não era o próprio Deus, mas subordinado ao Pai, e que o Espírito Santo, igualmente, era uma entidade independente, que obedecia ao Pai ou servia-lhe de intermediário (como um anjo). A tese era defendida por um presbítero de Alexandria chamado Ário (daí arianismo) com base em versículos do Evangelho que permitem esta interpretação (João 14:28 por exemplo), e considerada herética no Concílio de Nicéia, em 325. Ário e seguidores foram excomungados, e, embora fossem mal quistos em Roma, os arianos continuaram a pregar Europa afora. Um godo ariano chamado Ulfilas partiu como missionário de Constantinopla e cruzou o Danúbio. Ele foi espetacularmente bem sucedido em converter germânicos pagãos em cristãos arianos, e em questão de décadas, a maior parte das tribos germânicas convertidas eram arianas, incluindo os visigodos. Por mais que o arianismo continuasse herético, houve pouco que as igrejas de Roma ou Constantinopla pudessem fazer para mudar isso, mesmo quando esses arianos mudaram-se para dentro das fronteiras romanas.
Os ibero-romanos, no entanto, eram católicos. Quando a elite guerreira germânica, já em grande medida romanizada, chegou à Ibéria, uma maneira de estabelecer uma unidade cultural que os diferenciasse dos nativos era pela fé no trinitarismo ariano. Nem foi o caso de tentar impor o arianismo à população, pois isso os "misturaria"; à exceção dos vândalos, que perseguiriam católicos na África, os arianos ostentavam sua religião como símbolo do seu novo status social. Eles assim conservavam este estado de coisas. Os visigodos tomaram o cuidado de manter, paralelamente, estruturas clericais distintas para atender simultaneamente a elite ariana e a plebe católica sem que uma interferisse nos negócios da outra. De fato, o avanço do Império Bizantino sobre o sul da Espanha no século VI era uma ameaça maior ao catolicismo espanhol do que a heresia ariana da sua elite governante.
Em meados do século VI, um monge beneditino chamado Leandro, que se tornaria arcebispo de Sevilha, surgiu em cena. Ele se tornou próximo da princesa franca Ingunda, católica e esposa do príncipe visigodo Hermenegildo, filho mais velho do rei Liuvigildo. Leandro e Ingunda converteram o príncipe com sucesso, mas Hermenegildo foi adiante e declarou guerra contra o seu pai, de quem já era co-regente. A situação expôs Leandro como um conspirador, e ele precisou fugir para Constantinopla. Hermenegildo foi executado pela sua traição em 585 (e se tornou o mártir São Hermenegildo), e seu pai morreu no ano seguinte, tendo unificado toda a Península Ibérica sob sua coroa (os nativos bascos e cantábrios aceitaram o jugo visigótico, mas mantiveram-se autônomos).
Leandro retornou a Toledo e começou a trabalhar junto ao herdeiro sobrevivente, Recaredo. Em janeiro de 587, Recaredo renunciou ao arianismo e converteu-se ao catolicismo. Embora parte do seu círculo o seguisse logo em seguida, a nobreza e o clero arianos não aceitariam isso tão facilmente. O bispo Atáloco, ariano fervoroso, congregou uma resistência no norte com dois comandantes locais. Mesmo com apoio dos francos, eles foram derrotados (Atáloco, no entanto, não foi punido, e nem renunciou à sua fé). Outras duas conspirações arianas foram suprimidas. Em 589 Recaredo reforçou oficialmente sua posição no Terceiro Concílio de Toledo, denunciando o arianismo como heresia. De carona, também empreendeu uma perseguição aos judeus, embora a sua severidade seja matéria de debate entre historiadores (ele teria lhes tomado vários direitos, mas abolido a pena de morte para judeus que pregassem aos cristãos). A piedade de Recaredo foi recompensada pelo Papa Gregório I com um pedaço da Cruz Verdadeira, as correntes que prenderam São Pedro, e cabelos de João Batista.
A conversão de Recaredo representou um ponto axial na história da Península Ibérica. Os visigodos, convertidos ao catolicismo, agora não tinham mais qualquer barreira que os diferenciasse do povo que governavam: a língua visigótica, que sub-existia na tradição da liturgia ariana, caiu finalmente em desuso em favor do latim. Ou seja, qualquer identidade étnica visigótica desapareceu rapidamente. Contudo, embora o reino visigótico emulasse Roma, os visigodos que compunham a sua elite nunca tiveram o domínio sobre o sistema político-administrativo que lhes garantissem o controle sobre o Estado; o cargo de Imperador em Roma era mais uma maldição do que uma dádiva, mas a despeito de repetidos golpes de Estado e períodos de turbulência que perduravam por décadas, a estrutura administrativa continuava funcionando sem interrupções, o que lhe garantiu notável longevidade. Os visigodos não conseguiram implementar isto. A elite visigótica estava presa à tradição germânica de dividir entre os filhos, sem favorecimento pré-determinado, a herança do pai, o que resultava em revoltas fratricidas. De tempos em tempos, o reino entrava em convulsão porque um príncipe marchava contra outro pelo direito de governar.
As contínuas guerras civis deixaram a Espanha vulnerável quando os mouros iniciaram sua invasão em 711 - neste momento, o rei Rodrigo acabava de afirmar-se no trono após uma guerra civil contra Áquila II, e os derrotados teriam solicitado o auxílio dos mouros para punir o usurpador. Os mouros muçulmanos controlariam a Península Ibérica por séculos e redefiniriam a demografia da Península Ibérica de maneira mais efetiva do que os germânicos.
Embora os visigodos controlassem toda a Península Ibérica no momento da conversão de Recaredo, a união religiosa entre eles e os ibero-romanos representou a primeira vez em que houve uma unificação ibérica de fato. Este evento seria uma das inspirações para o prosseguimento da Reconquista entre os séculos XII e XV (outra de mesma origem seria uma alegada raiz católica do povo ibérico, em relação à qual os muçulmanos eram estrangeiros e invasores), e um motivo nacionalista, particularmente na Espanha.
O arianismo também sumiria do mapa depois que o último rei ariano, o lombardo Garibaldo, foi deposto, embora aspectos da sua doutrina possam ser identificados em diferentes correntes atuais do cristianismo.
Neste dia também: A Primeira Guerra da Abissínia
Os visigodos, depois de séculos forçando as fronteiras do Império Romano no Reno e no Danúbio (e obtendo sucesso em algumas dessas tentativas de invasão), configurando-se numa das principais forças "bárbaras" em oposição ao mundo romano, finalmente assentaram-se na Espanha no começo do século V. Foi uma invasão massiva e coordenada entre vândalos, alanos e suevos, que atravessaram o Reno congelado e cruzaram a Gália em direção à Espanha. Os Visigodos, então no meio do caminho, saquearam Roma em 410. O enfraquecido Império Romano do Ocidente não teve o que fazer além de conceder-lhes terras e recrutá-los nos seus exércitos como foederati. Com suas terras, os visigodos passaram a recolher impostos dos seus arrendatários romanos, sem contudo repassá-los ao Império. Com a crescente fortuna, e sem impedimentos da autoridade central, os visigodos expandiram-se a partir do sudoeste da França para o sul, abocanhando quase toda a Espanha e os Pirineus (alanos e suevos já estavam lá, ocupando a metade norte de Portugal e a Galícia, enquanto Vândalos passavam para a África), e, na prática, formaram um reino independente em 418. Alguns conflitos com o crescente poder dos seus "primos" ostrogodos, então com o esfacelado Império Romano nas mãos, e os francos, senhores da Gália, empurraram o reino visigótico mais para o sul, guardando apenas uma faixa de território na França. A capital se moveu para a romana Toletum, atual Toledo.
A impressão que se tem quando se fala do fim do Império Romano é que os cidadãos romanos - aqueles que viviam de acordo com as leis e costumes romanos, pagavam tributos a Roma e falavam o latim - subitamente sumiram, ou pelo êxodo (como se todos os romanos tivessem fugido para a Itália, por exemplo, quando francos, saxões, burgúndios, etc. tomaram posse do seu território), ou, talvez, pelo extermínio. Antes, assim como os romanos fizeram com as populações locais quando expandiram-se Itália afora, eles próprios foram lentamente assimilados pelos seus novos conquistadores. A Espanha era romanizada desde o século I a.C. (com a exceção dos bascos, que notavelmente nunca foram romanizados ou se submeteram a qualquer outro invasor da Península Ibérica), e logo cedo produziu expoentes do pensamento e da política, como Sêneca, Lucano, e os imperadores Trajano, Adriano e Teodósio, assumindo uma posição central na dinâmica do Império. Em 418, esses mesmos romanos agora deviam obediência a um rei germânico. Todo conquistador tem a opção de governar o povo conquistado, ou substituí-lo por colonos do seu próprio povo. Para sorte dos romanos espanhóis, eles preferiram governá-los.
Por causa da própria origem do assentamento visigótico da Espanha - o rei Ataulfo obteve do imperador romano Honório o direito de assentar seus homens ali se expulsassem os vândalos, alanos e outros - e da longa convivência, principalmente entre os visigodos foederati a serviço de Roma, os visigodos estabeleceram na Espanha romanizada uma espécie de continuação da sociedade romana pré-existente; embora ali o trono passasse de pai para filho (ao contrário de Roma, que, mesmo no fim, de uma forma ou de outra, elegia seus imperadores com o aval do senado), os romanos continuaram cultivando a terra, comerciando, e conduzindo a burocracia estatal, usando o latim como língua oficial. Os visigodos assumiram ali o papel dos patrícios, a classe mais alta da sociedade romana, donos de terras, preferidos para ocupar cargos de comando e obter favores do Estado. Para o plebeu ibero-romano, muito pouco mudou.
Ainda assim, havia um ponto de atrito entre conquistadores e conquistados, um que punha em risco a estabilidade do domínio germânico: religião.
Os visigodos eram adeptos históricos e entusiasmados do arianismo, corrente do cristianismo que defendia que Jesus, enquanto filho de Deus, não era o próprio Deus, mas subordinado ao Pai, e que o Espírito Santo, igualmente, era uma entidade independente, que obedecia ao Pai ou servia-lhe de intermediário (como um anjo). A tese era defendida por um presbítero de Alexandria chamado Ário (daí arianismo) com base em versículos do Evangelho que permitem esta interpretação (João 14:28 por exemplo), e considerada herética no Concílio de Nicéia, em 325. Ário e seguidores foram excomungados, e, embora fossem mal quistos em Roma, os arianos continuaram a pregar Europa afora. Um godo ariano chamado Ulfilas partiu como missionário de Constantinopla e cruzou o Danúbio. Ele foi espetacularmente bem sucedido em converter germânicos pagãos em cristãos arianos, e em questão de décadas, a maior parte das tribos germânicas convertidas eram arianas, incluindo os visigodos. Por mais que o arianismo continuasse herético, houve pouco que as igrejas de Roma ou Constantinopla pudessem fazer para mudar isso, mesmo quando esses arianos mudaram-se para dentro das fronteiras romanas.
Os ibero-romanos, no entanto, eram católicos. Quando a elite guerreira germânica, já em grande medida romanizada, chegou à Ibéria, uma maneira de estabelecer uma unidade cultural que os diferenciasse dos nativos era pela fé no trinitarismo ariano. Nem foi o caso de tentar impor o arianismo à população, pois isso os "misturaria"; à exceção dos vândalos, que perseguiriam católicos na África, os arianos ostentavam sua religião como símbolo do seu novo status social. Eles assim conservavam este estado de coisas. Os visigodos tomaram o cuidado de manter, paralelamente, estruturas clericais distintas para atender simultaneamente a elite ariana e a plebe católica sem que uma interferisse nos negócios da outra. De fato, o avanço do Império Bizantino sobre o sul da Espanha no século VI era uma ameaça maior ao catolicismo espanhol do que a heresia ariana da sua elite governante.
Em meados do século VI, um monge beneditino chamado Leandro, que se tornaria arcebispo de Sevilha, surgiu em cena. Ele se tornou próximo da princesa franca Ingunda, católica e esposa do príncipe visigodo Hermenegildo, filho mais velho do rei Liuvigildo. Leandro e Ingunda converteram o príncipe com sucesso, mas Hermenegildo foi adiante e declarou guerra contra o seu pai, de quem já era co-regente. A situação expôs Leandro como um conspirador, e ele precisou fugir para Constantinopla. Hermenegildo foi executado pela sua traição em 585 (e se tornou o mártir São Hermenegildo), e seu pai morreu no ano seguinte, tendo unificado toda a Península Ibérica sob sua coroa (os nativos bascos e cantábrios aceitaram o jugo visigótico, mas mantiveram-se autônomos).
Leandro retornou a Toledo e começou a trabalhar junto ao herdeiro sobrevivente, Recaredo. Em janeiro de 587, Recaredo renunciou ao arianismo e converteu-se ao catolicismo. Embora parte do seu círculo o seguisse logo em seguida, a nobreza e o clero arianos não aceitariam isso tão facilmente. O bispo Atáloco, ariano fervoroso, congregou uma resistência no norte com dois comandantes locais. Mesmo com apoio dos francos, eles foram derrotados (Atáloco, no entanto, não foi punido, e nem renunciou à sua fé). Outras duas conspirações arianas foram suprimidas. Em 589 Recaredo reforçou oficialmente sua posição no Terceiro Concílio de Toledo, denunciando o arianismo como heresia. De carona, também empreendeu uma perseguição aos judeus, embora a sua severidade seja matéria de debate entre historiadores (ele teria lhes tomado vários direitos, mas abolido a pena de morte para judeus que pregassem aos cristãos). A piedade de Recaredo foi recompensada pelo Papa Gregório I com um pedaço da Cruz Verdadeira, as correntes que prenderam São Pedro, e cabelos de João Batista.
A conversão de Recaredo representou um ponto axial na história da Península Ibérica. Os visigodos, convertidos ao catolicismo, agora não tinham mais qualquer barreira que os diferenciasse do povo que governavam: a língua visigótica, que sub-existia na tradição da liturgia ariana, caiu finalmente em desuso em favor do latim. Ou seja, qualquer identidade étnica visigótica desapareceu rapidamente. Contudo, embora o reino visigótico emulasse Roma, os visigodos que compunham a sua elite nunca tiveram o domínio sobre o sistema político-administrativo que lhes garantissem o controle sobre o Estado; o cargo de Imperador em Roma era mais uma maldição do que uma dádiva, mas a despeito de repetidos golpes de Estado e períodos de turbulência que perduravam por décadas, a estrutura administrativa continuava funcionando sem interrupções, o que lhe garantiu notável longevidade. Os visigodos não conseguiram implementar isto. A elite visigótica estava presa à tradição germânica de dividir entre os filhos, sem favorecimento pré-determinado, a herança do pai, o que resultava em revoltas fratricidas. De tempos em tempos, o reino entrava em convulsão porque um príncipe marchava contra outro pelo direito de governar.
As contínuas guerras civis deixaram a Espanha vulnerável quando os mouros iniciaram sua invasão em 711 - neste momento, o rei Rodrigo acabava de afirmar-se no trono após uma guerra civil contra Áquila II, e os derrotados teriam solicitado o auxílio dos mouros para punir o usurpador. Os mouros muçulmanos controlariam a Península Ibérica por séculos e redefiniriam a demografia da Península Ibérica de maneira mais efetiva do que os germânicos.
Embora os visigodos controlassem toda a Península Ibérica no momento da conversão de Recaredo, a união religiosa entre eles e os ibero-romanos representou a primeira vez em que houve uma unificação ibérica de fato. Este evento seria uma das inspirações para o prosseguimento da Reconquista entre os séculos XII e XV (outra de mesma origem seria uma alegada raiz católica do povo ibérico, em relação à qual os muçulmanos eram estrangeiros e invasores), e um motivo nacionalista, particularmente na Espanha.
O arianismo também sumiria do mapa depois que o último rei ariano, o lombardo Garibaldo, foi deposto, embora aspectos da sua doutrina possam ser identificados em diferentes correntes atuais do cristianismo.
Neste dia também: A Primeira Guerra da Abissínia
quarta-feira, 28 de outubro de 2015
In hoc signo vinces
Em 28 de outubro de 312, o imperador romano Constantino venceu seu concorrente Maxêncio na Batalha da Ponte Milvia, a noroeste de Roma, abrindo o caminho para a unificação do império dividido anos mais tarde sob Constantino. No dia que antecedeu esta batalha, Constantino teve uma visão tida pelos cristãos como reveladora, e que o teria levado, ao final da vida, a se converter ao Cristianismo.
O Império Romano estava dividido oficialmente em duas metades - Ocidente e Oriente - administradas em quatro setores - o primeiro incluía Itália, Espanha, e África; o segundo França e Grã-Bretanha; o terceiro os Bálcãs e a Grécia; o quarto a Ásia e o Egito. Cada metade era dirigida por um co-imperador sob o título de Augusto, e afora os setores onde estavam as capitais imperiais (Milão, no Ocidente, Nicomédia, no Oriente), os Augustos eram auxiliados por administradores com alto grau de autonomia, também co-imperadores, sob o título de Césares. Esta divisão foi uma ideia desenvolvida pelo Imperador Diocleciano menos de 20 anos antes que deu maravilhosamente certo, dando fim à longa e destrutiva crise política que assolava Roma desde o século II. Diocleciano foi tão bem sucedido que foi um dos únicos imperadores que viveram o suficiente para se aposentarem e morrerem de causas naturais - em 305 deixou o cargo para plantar verduras na sua vila na atual cidade de Split, na Croácia.
O equilíbrio da tetrarquia de Diocleciano dependia do respeito e reverência à precedência dos Augustos sobre os Césares, e entre os Augustos, do mais antigo sobre o mais recente. Era função do Augusto mais antigo nomear novos Césares, tanto do Oriente quanto do Ocidente, e eleger, entre os Césares, qual seria o próximo Augusto. Quando Diocleciano deixou o trono (ele assumira a metade oriental do império), seu colega Maximiano, Augusto do Ocidente, também se retirou da vida pública. Não havia mais nada que impedisse a ambição dos novos Augustos e Césares. Galério, novo Augusto do Oriente, "usurpou" a prioridade sobre Constâncio Cloro, do Ocidente, e nomeou os novos Césares, duas "crias" suas, esperando com isso garantir sua supremacia política naquele momento. Constâncio morreu em 306, e suas tropas na Grã-Bretanha elevaram seu filho Constantino ao lugar do pai. Galério, confuso, engoliu a raiva e regularizou a situação, nomeando-o César, dando-lhe controle sobre a Bretanha e a Gália. Em Milão, mais tarde naquele ano, Maxêncio, filho do antigo Augusto Maximiano, também foi aclamado imperador pela Guarda Pretoriana, sob rumores de que Galério pretendia taxar as propriedades na Itália (tradicionalmente isenta de impostos sobre a terra), precipitando uma guerra civil.
Embora a guerra civil tenha se iniciado entre Galério e Maxêncio, este tinha como rival Constantino - se Constantino podia ser imperador por ser filho de um, então ele também podia. Constantino, no entanto, preferiu se manter à margem do conflito, movendo-se com diplomacia. Entre 307 e 308, manteve-se na Gália, combatendo invasores germânicos ao longo do Rio Reno. Em 308 Galério convocou uma reunião em Carnutum, nos Alpes austríacos, reunindo inclusive Diocleciano e Maximiano (que, no meio disso tudo, retornara à ativa, mas fora impedido de tomar para si o título de Augusto pelo próprio filho) para resolver o impasse sobre quem era o que. Galério promoveu um antigo companheiro seu a Augusto do Ocidente, causando revolta em vários dos candidatos, inclusive Constantino.
Em 310, o império estava repartido, e eram todos contra todos, e Maxêncio ainda tinha controle sobre a Itália. Maximiano passou a servir sob Constantino na Gália, e o traiu, espalhando boatos da sua morte, esperando ser ele mesmo aclamado imperador - mas as tropas se mantiveram leais, e Maximiano teve que fugir, cometendo suicídio após ser capturado e exposto publicamente. Maxêncio, a despeito da rivalidade com o próprio pai, preparou-se para uma campanha contra Constantino para vingá-lo. Ao mesmo tempo, Constantino, que devia seu direito ao trono ao seu pai, e este a Maximiano, agora reivindicava a ancestralidade de um certo Cláudio II, imperador entre 268 e 270. Agora, por ter sangue real que precedia a todos, tinha mais direito ao trono do que o próprio Galério. Ele também passou a associar a si uma antiga previsão registrada pelo poeta Virgílio de que Apolo herdaria o mundo de seu pai Júpiter - seu deus de adoração deixou de ser o velho Marte, deus da guerra, para ser Sol Invictus, deidade cada vez mais popular em Roma associada a Apolo, também um deus solar.
Qualquer esperança de ordem da tetrarquia foi liquidada quando Galério morreu em 311, provavelmente de uma terrível gangrena abdominal. Os mandatários romanos do momento estavam todos ocupados uns contra os outros - Licínio, da Europa oriental, marchava contra Maximino Daia, baseado na Ásia. Maxêncio perdia apoio na Itália, porque apesar de alegar seu direito à púrpura imperial, sua administração era desastrada, bancada por altos impostos comerciais, de maneira que até os cristãos, que sob Maxêncio tinham liberdade até para eleger seu Papa, não o toleravam mais. Diante da postura hostil de Maxêncio na fronteira com a Gália, Constantino firmou uma aliança com Licínio e invadiu a Itália, vencendo batalhas com pouca resistência e sendo recebido de portões abertos na capital administrativa de Milão. Outras cidades chaves também se renderam - Verona, Modena, Ravena, e até a inexpugnável fortaleza de Aquiléia. Reforçado por legiões que se uniram à sua causa pelo caminho, em outubro de 312 ele se aproximou de Roma.
Maxêncio estava esperando em Roma com o grosso do seu exército, e suprimentos suficientes para sobreviver a um longo cerco. Em 27 de outubro, ao ouvir dos adivinhos que se marchasse para a batalha, o "inimigo de Roma cairá", Maxêncio atravessou o rio Tibre ao norte de encontro a Constantino.
Ali aconteceu um evento que se tornaria uma pedra angular na história do Cristianismo. Constantino estava acampado ao norte de Roma, quando, ao entardecer do dia 27, ele teve uma visão. A descrição desta visão varia de fonte para fonte. A versão que ficou popular no mundo romano da época é de que ele olhou para o céu, e viu o sol assumir a forma de uma cruz, e ele teria visto ou ouvido uma mensagem em grego ("Εν Τούτῳ Νίκα", em latim "in hoc signo vinces", em português "com este símbolo conquistarás"). À noite, ele teria sonhado com o "deus cristão" (Jesus Cristo), que mostrou a ele um símbolo específico que deveria ser pintado nos escudos dos seus soldados, para sua proteção. Outra versão inclui a aparição do signo e da mensagem de Jesus durante a visão. O tal símbolo é um monograma que combina as letras gregas Chi e Rho (X e P), que são as duas primeiras letras de "ΧΡΙΣΤΟΣ", "Christos", Cristo em grego.
Se Constantino pintou ou não o monograma nos escudos dos soldados ou o levou no seu estandarte, é debatível. A natureza cristã da visão é uma construção posterior feita pelos seus biógrafos, um deles o bispo Eusébio de Cesaréia, que alegava ter ouvido sobre a visão do próprio Constantino; é possível que a visão de natureza solar tenha sido tomada pelos romanos pagãos como um sinal de Sol Invictus ao seu favorito. De fato, Constantino continuou cunhando moedas associando a sua imagem ao deus solar até bem tarde na sua carreira. De qualquer forma, o episódio todo ajudou a elevar a moral das tropas e a confiança do seu general.
A batalha se desenrolou no dia 28 de outubro diante da Ponte Milvia (que pode ser atravessada a pé até hoje), que liga Roma à Via Flamínia, que vem do norte da Itália, e por onde marchava Constantino. Aparentemente, Maxêncio, que tinha um exército maior, posicionou seus soldados numa ampla linha, com o Tibre às costas, porém muito próximos ao rio, de modo que não tinham muito espaço para manobrar em caso de recuo. O ataque de Constantino sobre as relutantes tropas inimigas foi decisivo, provocando este recuo e fazendo muitos caírem no rio. Maxêncio tentou recuar para Roma e organizar uma resistência dentro de suas muralhas, mas grande parte de seus homens fugiam pela Ponte Milvia ou pelos campos, e o pontilhão de madeira construído para auxiliar no movimento das tropas da cidade para o campo de batalha colapsou sob os soldados em fuga. Maxêncio morreu afogado no Tibre tentando atravessá-lo a nado.
Constantino então tomou efetivamente o controle sobre toda a metade ocidental do império. Enquanto co-imperador com Licínio, Constantino, cuja mãe era cristã (ela teria lhe oferecido cravos retirados da cruz verdadeira, um dos quais teria sido incorporado ao seu elmo), assinou com o colega o Edito de Milão, reconhecendo o Cristianismo como uma religião tolerada dentro do Império Romano e restaurando a propriedade a romanos cristãos, tomadas por Diocleciano durante um período de perseguições religiosas do seu reinado. Eventualmente Licínio venceria Maximino Daia e tentaria assassinar Constantino, o que levou os dois a uma longa guerra, vencida pelo último em 325, restaurando provisoriamente a unidade do Império. Ele o expandiu sobre a Dácia (na Romênia, província perdida no século III) e o Cáucaso, o defendeu com sucesso de francos e godos vindos da Alemanha e estava preparando uma grande campanha contra os persas quando morreu. Ao longo do seu reinado, reformulou a antiga cidade grega de Bizâncio e a transformou na nova capital imperial, Constantinopla, e promoveu discussões religiosas entre as diferentes correntes do cristianismo, como o Concílio de Nicéia.
Embora tenham sido esculpidos estátuas e bustos, e erigido monumentos em honra a Constantino incluindo neles referências ao deus solar durante toda a sua vida (incluindo o magnífico Arco de Constantino, próximo ao Coliseu), sua proteção aos cristãos e promoção do Cristianismo não passaram despercebidas. Mesmo sendo oficialmente pagão (como de costume entre os imperadores desde o início, desempenhava concomitantemente o cargo de Pontifex Maximus, ou sumo-sacerdote da Roma pagã), o lábaro que ia à frente do seu exército durante a guerra com Licínio ostentava o monograma Chi-Rho. O símbolo era um dos vários usados por cristãos primitivos para denotar a sua fé, mas após Constantino passou a ser largamente associado ao Cristianismo e usado amplamente, antes da popularização da cruz romana como símbolo. No seu leito de morte, em Nicomédia, convocou bispos locais para batizá-lo, prometendo viver uma vida cristã caso fosse salvo. Na sua morte, Constantino deixou a igreja cristã extraordinariamente fortalecida e com peso político considerável. Depois de Constantino, o único imperador pagão no Ocidente ou no Oriente foi seu sobrinho Juliano (por causa das suas perseguições aos cristãos, conhecido como Juliano, o Apóstata), cimentando uma relação entre o poder secular e o poder eclesiástico que seria típico da Europa e alhures (interferindo, em maior ou menor grau, na laicidade dos Estados Nacionais modernos), abrindo caminho para o Cristianismo se tornar a religião hegemônica do mundo ocidental.
O Império Romano estava dividido oficialmente em duas metades - Ocidente e Oriente - administradas em quatro setores - o primeiro incluía Itália, Espanha, e África; o segundo França e Grã-Bretanha; o terceiro os Bálcãs e a Grécia; o quarto a Ásia e o Egito. Cada metade era dirigida por um co-imperador sob o título de Augusto, e afora os setores onde estavam as capitais imperiais (Milão, no Ocidente, Nicomédia, no Oriente), os Augustos eram auxiliados por administradores com alto grau de autonomia, também co-imperadores, sob o título de Césares. Esta divisão foi uma ideia desenvolvida pelo Imperador Diocleciano menos de 20 anos antes que deu maravilhosamente certo, dando fim à longa e destrutiva crise política que assolava Roma desde o século II. Diocleciano foi tão bem sucedido que foi um dos únicos imperadores que viveram o suficiente para se aposentarem e morrerem de causas naturais - em 305 deixou o cargo para plantar verduras na sua vila na atual cidade de Split, na Croácia.
O equilíbrio da tetrarquia de Diocleciano dependia do respeito e reverência à precedência dos Augustos sobre os Césares, e entre os Augustos, do mais antigo sobre o mais recente. Era função do Augusto mais antigo nomear novos Césares, tanto do Oriente quanto do Ocidente, e eleger, entre os Césares, qual seria o próximo Augusto. Quando Diocleciano deixou o trono (ele assumira a metade oriental do império), seu colega Maximiano, Augusto do Ocidente, também se retirou da vida pública. Não havia mais nada que impedisse a ambição dos novos Augustos e Césares. Galério, novo Augusto do Oriente, "usurpou" a prioridade sobre Constâncio Cloro, do Ocidente, e nomeou os novos Césares, duas "crias" suas, esperando com isso garantir sua supremacia política naquele momento. Constâncio morreu em 306, e suas tropas na Grã-Bretanha elevaram seu filho Constantino ao lugar do pai. Galério, confuso, engoliu a raiva e regularizou a situação, nomeando-o César, dando-lhe controle sobre a Bretanha e a Gália. Em Milão, mais tarde naquele ano, Maxêncio, filho do antigo Augusto Maximiano, também foi aclamado imperador pela Guarda Pretoriana, sob rumores de que Galério pretendia taxar as propriedades na Itália (tradicionalmente isenta de impostos sobre a terra), precipitando uma guerra civil.
Embora a guerra civil tenha se iniciado entre Galério e Maxêncio, este tinha como rival Constantino - se Constantino podia ser imperador por ser filho de um, então ele também podia. Constantino, no entanto, preferiu se manter à margem do conflito, movendo-se com diplomacia. Entre 307 e 308, manteve-se na Gália, combatendo invasores germânicos ao longo do Rio Reno. Em 308 Galério convocou uma reunião em Carnutum, nos Alpes austríacos, reunindo inclusive Diocleciano e Maximiano (que, no meio disso tudo, retornara à ativa, mas fora impedido de tomar para si o título de Augusto pelo próprio filho) para resolver o impasse sobre quem era o que. Galério promoveu um antigo companheiro seu a Augusto do Ocidente, causando revolta em vários dos candidatos, inclusive Constantino.
Em 310, o império estava repartido, e eram todos contra todos, e Maxêncio ainda tinha controle sobre a Itália. Maximiano passou a servir sob Constantino na Gália, e o traiu, espalhando boatos da sua morte, esperando ser ele mesmo aclamado imperador - mas as tropas se mantiveram leais, e Maximiano teve que fugir, cometendo suicídio após ser capturado e exposto publicamente. Maxêncio, a despeito da rivalidade com o próprio pai, preparou-se para uma campanha contra Constantino para vingá-lo. Ao mesmo tempo, Constantino, que devia seu direito ao trono ao seu pai, e este a Maximiano, agora reivindicava a ancestralidade de um certo Cláudio II, imperador entre 268 e 270. Agora, por ter sangue real que precedia a todos, tinha mais direito ao trono do que o próprio Galério. Ele também passou a associar a si uma antiga previsão registrada pelo poeta Virgílio de que Apolo herdaria o mundo de seu pai Júpiter - seu deus de adoração deixou de ser o velho Marte, deus da guerra, para ser Sol Invictus, deidade cada vez mais popular em Roma associada a Apolo, também um deus solar.
Qualquer esperança de ordem da tetrarquia foi liquidada quando Galério morreu em 311, provavelmente de uma terrível gangrena abdominal. Os mandatários romanos do momento estavam todos ocupados uns contra os outros - Licínio, da Europa oriental, marchava contra Maximino Daia, baseado na Ásia. Maxêncio perdia apoio na Itália, porque apesar de alegar seu direito à púrpura imperial, sua administração era desastrada, bancada por altos impostos comerciais, de maneira que até os cristãos, que sob Maxêncio tinham liberdade até para eleger seu Papa, não o toleravam mais. Diante da postura hostil de Maxêncio na fronteira com a Gália, Constantino firmou uma aliança com Licínio e invadiu a Itália, vencendo batalhas com pouca resistência e sendo recebido de portões abertos na capital administrativa de Milão. Outras cidades chaves também se renderam - Verona, Modena, Ravena, e até a inexpugnável fortaleza de Aquiléia. Reforçado por legiões que se uniram à sua causa pelo caminho, em outubro de 312 ele se aproximou de Roma.
Maxêncio estava esperando em Roma com o grosso do seu exército, e suprimentos suficientes para sobreviver a um longo cerco. Em 27 de outubro, ao ouvir dos adivinhos que se marchasse para a batalha, o "inimigo de Roma cairá", Maxêncio atravessou o rio Tibre ao norte de encontro a Constantino.
Ali aconteceu um evento que se tornaria uma pedra angular na história do Cristianismo. Constantino estava acampado ao norte de Roma, quando, ao entardecer do dia 27, ele teve uma visão. A descrição desta visão varia de fonte para fonte. A versão que ficou popular no mundo romano da época é de que ele olhou para o céu, e viu o sol assumir a forma de uma cruz, e ele teria visto ou ouvido uma mensagem em grego ("Εν Τούτῳ Νίκα", em latim "in hoc signo vinces", em português "com este símbolo conquistarás"). À noite, ele teria sonhado com o "deus cristão" (Jesus Cristo), que mostrou a ele um símbolo específico que deveria ser pintado nos escudos dos seus soldados, para sua proteção. Outra versão inclui a aparição do signo e da mensagem de Jesus durante a visão. O tal símbolo é um monograma que combina as letras gregas Chi e Rho (X e P), que são as duas primeiras letras de "ΧΡΙΣΤΟΣ", "Christos", Cristo em grego.
Se Constantino pintou ou não o monograma nos escudos dos soldados ou o levou no seu estandarte, é debatível. A natureza cristã da visão é uma construção posterior feita pelos seus biógrafos, um deles o bispo Eusébio de Cesaréia, que alegava ter ouvido sobre a visão do próprio Constantino; é possível que a visão de natureza solar tenha sido tomada pelos romanos pagãos como um sinal de Sol Invictus ao seu favorito. De fato, Constantino continuou cunhando moedas associando a sua imagem ao deus solar até bem tarde na sua carreira. De qualquer forma, o episódio todo ajudou a elevar a moral das tropas e a confiança do seu general.
A batalha se desenrolou no dia 28 de outubro diante da Ponte Milvia (que pode ser atravessada a pé até hoje), que liga Roma à Via Flamínia, que vem do norte da Itália, e por onde marchava Constantino. Aparentemente, Maxêncio, que tinha um exército maior, posicionou seus soldados numa ampla linha, com o Tibre às costas, porém muito próximos ao rio, de modo que não tinham muito espaço para manobrar em caso de recuo. O ataque de Constantino sobre as relutantes tropas inimigas foi decisivo, provocando este recuo e fazendo muitos caírem no rio. Maxêncio tentou recuar para Roma e organizar uma resistência dentro de suas muralhas, mas grande parte de seus homens fugiam pela Ponte Milvia ou pelos campos, e o pontilhão de madeira construído para auxiliar no movimento das tropas da cidade para o campo de batalha colapsou sob os soldados em fuga. Maxêncio morreu afogado no Tibre tentando atravessá-lo a nado.
Constantino então tomou efetivamente o controle sobre toda a metade ocidental do império. Enquanto co-imperador com Licínio, Constantino, cuja mãe era cristã (ela teria lhe oferecido cravos retirados da cruz verdadeira, um dos quais teria sido incorporado ao seu elmo), assinou com o colega o Edito de Milão, reconhecendo o Cristianismo como uma religião tolerada dentro do Império Romano e restaurando a propriedade a romanos cristãos, tomadas por Diocleciano durante um período de perseguições religiosas do seu reinado. Eventualmente Licínio venceria Maximino Daia e tentaria assassinar Constantino, o que levou os dois a uma longa guerra, vencida pelo último em 325, restaurando provisoriamente a unidade do Império. Ele o expandiu sobre a Dácia (na Romênia, província perdida no século III) e o Cáucaso, o defendeu com sucesso de francos e godos vindos da Alemanha e estava preparando uma grande campanha contra os persas quando morreu. Ao longo do seu reinado, reformulou a antiga cidade grega de Bizâncio e a transformou na nova capital imperial, Constantinopla, e promoveu discussões religiosas entre as diferentes correntes do cristianismo, como o Concílio de Nicéia.
Embora tenham sido esculpidos estátuas e bustos, e erigido monumentos em honra a Constantino incluindo neles referências ao deus solar durante toda a sua vida (incluindo o magnífico Arco de Constantino, próximo ao Coliseu), sua proteção aos cristãos e promoção do Cristianismo não passaram despercebidas. Mesmo sendo oficialmente pagão (como de costume entre os imperadores desde o início, desempenhava concomitantemente o cargo de Pontifex Maximus, ou sumo-sacerdote da Roma pagã), o lábaro que ia à frente do seu exército durante a guerra com Licínio ostentava o monograma Chi-Rho. O símbolo era um dos vários usados por cristãos primitivos para denotar a sua fé, mas após Constantino passou a ser largamente associado ao Cristianismo e usado amplamente, antes da popularização da cruz romana como símbolo. No seu leito de morte, em Nicomédia, convocou bispos locais para batizá-lo, prometendo viver uma vida cristã caso fosse salvo. Na sua morte, Constantino deixou a igreja cristã extraordinariamente fortalecida e com peso político considerável. Depois de Constantino, o único imperador pagão no Ocidente ou no Oriente foi seu sobrinho Juliano (por causa das suas perseguições aos cristãos, conhecido como Juliano, o Apóstata), cimentando uma relação entre o poder secular e o poder eclesiástico que seria típico da Europa e alhures (interferindo, em maior ou menor grau, na laicidade dos Estados Nacionais modernos), abrindo caminho para o Cristianismo se tornar a religião hegemônica do mundo ocidental.
quinta-feira, 30 de julho de 2015
A Defenestração de Praga
No dia 30 de julho de 1419, seguidores do pastor Jan Hus invadiram o prédio do Concelho Municipal de Praga e arremessaram para a morte sete de seus membros pela janela, no incidente que ficaria conhecido como a Primeira Defenestração de Praga.
A crise da Igreja Católica que levou à Reforma Protestante no século XVI começou bem antes. No século XIV o teólogo inglês John Wycliffe causou comoção com os seus discursos a respeito da necessidade de reformas centradas nas proposições bíblicas que atingiam diretamente a estrutura do clero e suas relações políticas (chegou ao ponto de atacar diretamente o Papa Gregório XI por não seguir o ideal cristão de pobreza material). Seus livros foram proibidos, Wycliffe considerado herético, e seus seguidores perseguidos. Contudo, um de seus livros, Trialogus, acabou nas mãos do padre Jan Hus, na Boêmia. As teses reformistas de Wycliffe o influenciariam, embora, inicialmente, ele as condenasse publicamente.
A Boêmia era um reino mais ou menos independente do Sacro Império Romano. Os últimos sacro imperadores era também reis da Boêmia. No final do século XIV, Venceslau IV da Boêmia era também o sacro imperador eleito, mas formalmente não governava o império porque a coroação dependia da bênção papal. Ele mesmo não fez muito esforço para procurar o Papa, uma vez que sua posição na Boêmia era frágil e mantida com dificuldade. Contudo, a crise na Igreja levou ao Cisma Ocidental, onde a liderança estava dividida entre o Papa em Roma, e um Antipapa em Avignon. Venceslau era simpático a Bento XIII, Antipapa em Avignon, e via o Papa romano Gregório XII como um obstáculo à sua coroação como sacro imperador. Venceslau também era simpático ao crescente movimento nacionalista tcheco, incorporado na Universidade de Praga, e com Jan Hus na sua liderança. Como Venceslau era visto como um reformista (antes de Bento, ele apoiara a eleição do reformista romano Urbano VI, e mais tarde apoiaria Alexandre V, Anti-antipapa, se isso fosse um título), Hus logo se sentiu seguro suficiente para tornar públicas suas críticas à Igreja. Suas quatro demandas eram:
-Liberdade de pregação da Palavra de Deus (na língua vernacular e por qualquer ministro, independente de ordenação; Wycliffe em pessoa trabalhou numa tradução da Vulgata para o inglês);
-Celebração da Comunhão dos dois tipos (o corpo e o sangue de Cristo, pão e vinho) tanto para os padres como para os fiéis;
-A abdicação de qualquer poder secular do clero;
-Punições iguais para pecados mortais, independente da posição social.
Hus traduziu o Trialogus para o tcheco, e a partir daí a obra circulou também na Polônia, na Hungria e na Áustria. Jan Hus se tornou extremamente popular entre os nacionalistas, que chegaram a declarar, enquanto queimavam as bulas papais que condenavam suas teses, que eles deveriam obedecer Hus, e não a Igreja. Três deles acabariam decapitados, o que geraria enfrentamentos entre católicos e hussitas. Cada vez mais Hus conquistava mais adeptos ao ponto de Venceslau defender publicamente Jan Hus contra a Igreja, enquanto os hussitas se revoltavam em crescente violência a cada condenação do papado de Roma e do Arcebispo de Praga contra suas reformas.
O impasse entre Venceslau e o Papa de Roma fez com que o eleitorado alemão votasse a sua deposição e elegesse para seu lugar seu irmão Sigismundo, Grão-Duque de Luxemburgo. Sigismundo também era herdeiro do trono da Boêmia, de maneira que era do seu interesse apaziguar os ânimos naquele país. Ele promoveu um concílio em Constança em 1414, na fronteira da Alemanha com a Suíça, para por fim às divergências entre católicos e hussitas. Jan Hus atendeu ao convite de bom grado. Mas boatos de que ele fugiria do debate enfureceram Sigismundo, responsável pelo seu convite e sua segurança (à boca miúda, foi aconselhado a não confiar num herético). O processo terminou com a sua prisão, condenação e execução em 1415.
Os hussitas na Boêmia e em seus núcleos nos países vizinhos, contudo, reagiram com violência. Muitos confrontos violentos entre hussitas e católicos resultaram em mortes e prisões por todos os lados. No fim de julho de 1419 alguns hussitas estavam presos em praga, e o padre reformista Jan Zelivsky, acompanhado de membros da sua paróquia, estava se dirigindo para o Concelho Municipal de Praga para tentar negociar sua libertação. O padre foi atingido por uma pedra vinda supostamente do prédio. A turba revoltada invadiu o Concelho, tomou o juiz local, o prefeito, e membros do Concelho, os levou ao alto da torre do edifício e os jogou pela janela.
A Defenestração de Praga foi o ponto final do debate entre o status quo católico e o reformismo hussita. O rei Venceslau morreu logo depois de saber do ocorrido (talvez tenha tido um infarto). Hussitas passaram a atacar alvos católicos, enquanto a nobreza nacionalista tcheca confiscava suas propriedades. Sigismundo, agora rei, recorreu às armas para assegurar sua ascensão ao trono, enquanto o Papa Martinho V convocava o Ocidente para uma Cruzada contra a heresia hussita. A guerra que se seguiu durou quase 15 anos, e chegou até Joana D'Arc (que enviou um ultimato aos hussitas ameaçando liderar pessoalmente uma cruzada caso eles não renunciassem à sua heresia, semanas antes de ser presa). A Igreja aceitaria com restrições as reformas a respeito da comunhão e da pregação da Palavra. Os radicais que se recusavam a aceitar o acordo foram mortos em batalha ou presos. Os demais se reorganizaram em partidos, praticando seus cultos clandestinamente, ou foram reabsorvidos pela Igreja.
O movimento reformista hussita expôs publicamente as contradições da Igreja, e a fagulha que restou do movimento ajudou a acender a chama da Revolta Protestante. O luteranismo acabaria absorvendo as fraternidades hussitas sobreviventes, enquanto a reação católica tomaria de assalto a Boêmia. A Europa seria envolvida em novas guerras religiosas entre católicos e protestantes, e em 1618, outro incidente em Praga terminaria com uma segunda defenestração de dignatários católicos do prédio da Chancelaria Boêmia por rebeldes protestantes.
A crise da Igreja Católica que levou à Reforma Protestante no século XVI começou bem antes. No século XIV o teólogo inglês John Wycliffe causou comoção com os seus discursos a respeito da necessidade de reformas centradas nas proposições bíblicas que atingiam diretamente a estrutura do clero e suas relações políticas (chegou ao ponto de atacar diretamente o Papa Gregório XI por não seguir o ideal cristão de pobreza material). Seus livros foram proibidos, Wycliffe considerado herético, e seus seguidores perseguidos. Contudo, um de seus livros, Trialogus, acabou nas mãos do padre Jan Hus, na Boêmia. As teses reformistas de Wycliffe o influenciariam, embora, inicialmente, ele as condenasse publicamente.
A Boêmia era um reino mais ou menos independente do Sacro Império Romano. Os últimos sacro imperadores era também reis da Boêmia. No final do século XIV, Venceslau IV da Boêmia era também o sacro imperador eleito, mas formalmente não governava o império porque a coroação dependia da bênção papal. Ele mesmo não fez muito esforço para procurar o Papa, uma vez que sua posição na Boêmia era frágil e mantida com dificuldade. Contudo, a crise na Igreja levou ao Cisma Ocidental, onde a liderança estava dividida entre o Papa em Roma, e um Antipapa em Avignon. Venceslau era simpático a Bento XIII, Antipapa em Avignon, e via o Papa romano Gregório XII como um obstáculo à sua coroação como sacro imperador. Venceslau também era simpático ao crescente movimento nacionalista tcheco, incorporado na Universidade de Praga, e com Jan Hus na sua liderança. Como Venceslau era visto como um reformista (antes de Bento, ele apoiara a eleição do reformista romano Urbano VI, e mais tarde apoiaria Alexandre V, Anti-antipapa, se isso fosse um título), Hus logo se sentiu seguro suficiente para tornar públicas suas críticas à Igreja. Suas quatro demandas eram:
-Liberdade de pregação da Palavra de Deus (na língua vernacular e por qualquer ministro, independente de ordenação; Wycliffe em pessoa trabalhou numa tradução da Vulgata para o inglês);
-Celebração da Comunhão dos dois tipos (o corpo e o sangue de Cristo, pão e vinho) tanto para os padres como para os fiéis;
-A abdicação de qualquer poder secular do clero;
-Punições iguais para pecados mortais, independente da posição social.
Hus traduziu o Trialogus para o tcheco, e a partir daí a obra circulou também na Polônia, na Hungria e na Áustria. Jan Hus se tornou extremamente popular entre os nacionalistas, que chegaram a declarar, enquanto queimavam as bulas papais que condenavam suas teses, que eles deveriam obedecer Hus, e não a Igreja. Três deles acabariam decapitados, o que geraria enfrentamentos entre católicos e hussitas. Cada vez mais Hus conquistava mais adeptos ao ponto de Venceslau defender publicamente Jan Hus contra a Igreja, enquanto os hussitas se revoltavam em crescente violência a cada condenação do papado de Roma e do Arcebispo de Praga contra suas reformas.
O impasse entre Venceslau e o Papa de Roma fez com que o eleitorado alemão votasse a sua deposição e elegesse para seu lugar seu irmão Sigismundo, Grão-Duque de Luxemburgo. Sigismundo também era herdeiro do trono da Boêmia, de maneira que era do seu interesse apaziguar os ânimos naquele país. Ele promoveu um concílio em Constança em 1414, na fronteira da Alemanha com a Suíça, para por fim às divergências entre católicos e hussitas. Jan Hus atendeu ao convite de bom grado. Mas boatos de que ele fugiria do debate enfureceram Sigismundo, responsável pelo seu convite e sua segurança (à boca miúda, foi aconselhado a não confiar num herético). O processo terminou com a sua prisão, condenação e execução em 1415.
Os hussitas na Boêmia e em seus núcleos nos países vizinhos, contudo, reagiram com violência. Muitos confrontos violentos entre hussitas e católicos resultaram em mortes e prisões por todos os lados. No fim de julho de 1419 alguns hussitas estavam presos em praga, e o padre reformista Jan Zelivsky, acompanhado de membros da sua paróquia, estava se dirigindo para o Concelho Municipal de Praga para tentar negociar sua libertação. O padre foi atingido por uma pedra vinda supostamente do prédio. A turba revoltada invadiu o Concelho, tomou o juiz local, o prefeito, e membros do Concelho, os levou ao alto da torre do edifício e os jogou pela janela.
A Defenestração de Praga foi o ponto final do debate entre o status quo católico e o reformismo hussita. O rei Venceslau morreu logo depois de saber do ocorrido (talvez tenha tido um infarto). Hussitas passaram a atacar alvos católicos, enquanto a nobreza nacionalista tcheca confiscava suas propriedades. Sigismundo, agora rei, recorreu às armas para assegurar sua ascensão ao trono, enquanto o Papa Martinho V convocava o Ocidente para uma Cruzada contra a heresia hussita. A guerra que se seguiu durou quase 15 anos, e chegou até Joana D'Arc (que enviou um ultimato aos hussitas ameaçando liderar pessoalmente uma cruzada caso eles não renunciassem à sua heresia, semanas antes de ser presa). A Igreja aceitaria com restrições as reformas a respeito da comunhão e da pregação da Palavra. Os radicais que se recusavam a aceitar o acordo foram mortos em batalha ou presos. Os demais se reorganizaram em partidos, praticando seus cultos clandestinamente, ou foram reabsorvidos pela Igreja.
O movimento reformista hussita expôs publicamente as contradições da Igreja, e a fagulha que restou do movimento ajudou a acender a chama da Revolta Protestante. O luteranismo acabaria absorvendo as fraternidades hussitas sobreviventes, enquanto a reação católica tomaria de assalto a Boêmia. A Europa seria envolvida em novas guerras religiosas entre católicos e protestantes, e em 1618, outro incidente em Praga terminaria com uma segunda defenestração de dignatários católicos do prédio da Chancelaria Boêmia por rebeldes protestantes.
segunda-feira, 27 de julho de 2015
O cristianismo chega ao Japão
Em 27 de julho de 1549, o missionário jesuíta, e futuro santo, Francisco Xavier chegou ao Japão. Foi a primeira missão cristã naquele país.
Francisco, cofundador da Companhia de Jesus, teve um papel muito significativo na expansão do catolicismo na Índia (especialmente Goa, principal cidade sob controle português na Ásia e sua base de operações), na China, e nas Filipinas, enquanto viajava sob a comenda do rei João III de Portugal. Em 1547, em Malacca, na atual Malásia, enquanto oficiava um casamento, ele foi apresentado a um samurai japonês exilado chamado Anjiro. Foi o primeiro japonês que se tem notícia a se converter ao cristianismo, e exerceu influência na decisão de Francisco de tomar o caminho do Japão. Xavier estudou avidamente tudo que se sabia sobre o Japão, usando também as informações trazidas por Anjiro.
O Japão só era conhecido dos europeus através dos relatos de mercadores portugueses que eventualmente passavam pela ilha de "Cipango". De fato, mercadores portugueses introduziram as armas de fogo no Japão em 1493 e continuariam a ser seus principais fornecedores de salitre para pólvora, o que se tornaria instrumental, uma geração depois, na guerra civil conhecida como Sengoku. A notícia que chegava a Francisco Xavier era de que o povo japonês era "razoável", e que o trabalho com eles seria muito mais produtivo do que com os "pagãos" na Índia. Acompanhado de Anjiro (batizado como Paulo de Santa Fé) e outros três jesuítas, munido de presentes ao "Rei do Japão", ele partiu de Guangzhou (antigamente conhecida como Cantão), na China.
Chegar ao Japão foi simples. Talvez tenha sido a parte mais simples da missão. Os problemas começaram quando o navio não obteve permissão para aportar, até que, em meados de agosto, eles desembarcaram em Kagoshima, na ilha de Kyushu. O daimyo local, Shimazu Takahisa, recebeu amistosamente Francisco como um dignatário do rei de Portugal e sua companhia, mas logo depois proibiu radicalmente a conversão do seu povo ao cristianismo sob pena de morte. Em Yamaguchi, Mori Motonari (personagem que inspirou Hidetora Ichimonji, personagem principal do filme Ran, de Akira Kurosawa), daimyo local, permitiu que Francisco pregasse ali. Mas isso não simplificou muito as coisas.
Francisco de Assis encontrou barreiras culturais que ele não havia encontrado na Índia, onde a evangelização vinha sendo feita de maneira acidentada. A primeira, a da língua, tornou a pregação direta da Palavra impossível. Francisco recorria a pinturas que trazia da Virgem Maria e do Menino Jesus para tentar explicar conceitos básicos. Vez ou outra, em pregações, ele lia textos das Escrituras traduzidos para o japonês (no alfabeto latino, tentando reproduzir os sons das palavras), sem qualquer fluência na língua. Imagine-se lendo um texto em romanji (o japonês escrito em alfabeto romano), sem ter como saber exatamente seu conteúdo, diante de uma plateia de japoneses nativos.
A segunda barreira era a própria base religiosa do Japão. Todos os japoneses eram adeptos do budismo ou do xintoísmo. Para eles, um Deus que tenha criado tudo, inclusive o mal, não podia ser um bom deus. A danação aos não conversos também perturbava os nativos, que combatiam a ideia de que seus antepassados estivessem sofrendo no inferno. Entre os japoneses ainda corriam o boato de que os cristãos comiam carne humana, provavelmente derivado do ato simbólico de se comer a hóstia representando o corpo de Cristo no ato da comunhão. Francisco tentou se adaptar ao vocabulário local traduzindo "Deus" para "Dainichi", que é o termo usado pela escola Shingon de budismo para designar o aspecto do vazio de Buda (Anjiro, budista de origem, teria sido responsável por isso). Embora isso lhe tenha rendido uma simpatia dos monges Shingon, assim que perceberam que a ideia do Dainichi pregado era diferente, e que a religião oferecida era uma concorrente, rapidamente retiraram esse apoio. O próprio Francisco, quando notou que Dainichi era uma "divindade local", optou por apresentar Deus como "Deuso", possivelmente o primeiro exemplo de transliteração de uma palavra estrangeira para o japonês. Logo "Deuso" foi distorcido para "Daiuso", que significa "grande mentira". A elite da cidade de Yamaguchi entendia que o que estava sendo pregado era uma nova forma de budismo.
A terceira barreira dizia respeito à própria apresentação visual de Francisco e seus auxiliares. A pobreza material ostentada pelos jesuítas era considerada vulgar pelos japoneses, dos quais mesmo os mais humildes seguiam regras de etiqueta e refinamento que não eram observadas na Europa ou na Índia. A humildade da sua aparência lhe fechou a porta mais importante: sua visita ao palácio imperial em Kyoto, para uma audiência com o Imperador, foi barrada por causa das suas vestimentas inadequadas. Para tentar ganhar a simpatia com demonstrações de poder, durante uma visita ao prefeito da cidade de Nagate, Francisco exibiu-se luxuosamente vestido, assistido afetadamente por cavalheiros e serviçais ricamente paramentados (representados por seus companheiros de missão), apresentando-se como representante do reino de Portugal e oferecendo a ele presentes do seu próprio tesouro, que recebera na Índia (muitos dos quais haviam sido destinados ao Imperador).
A quarta barreia era política. Sendo a política caracteristicamente fluída, essa barreira deixou de existir em alguns momentos. Francisco Xavier chegou ao Japão num momento tumultuado, onde o shogunato Ashikaga tinha sua autoridade questionada em várias partes do país, de modo que a instabilidade política nas províncias e as alternâncias das alianças podiam mudar as regras do jogo a qualquer momento. Os jesuítas entendiam a estrutura hierárquica do Japão feudal, e que portanto seria mais proveitoso tentar conquistar as elites, e deixar que elas se encarregassem de promover conversões em suas terras. Na verdade, fazia parte do plano inicial converter o Imperador, e, a partir da sua influência, converter todo o país em pouco tempo. Mas a delegação jesuíta nunca conseguiu contactá-lo. De qualquer maneira, alguns daimyos aceitaram a conversão e até encorajaram a conversão dos seus vassalos, mas visando apenas as vantagens que isso traria no comércio com os portugueses. Em Yamaguchi, a disputa interna pelo poder na família Shimazu pode ter levado a cordialidade inicial à hostilidade aberta nos poucos meses em que a missão esteve oficialmente na cidade (ou talvez tenham sido as agitações causadas pela sua pregação veemente contra a sodomia, na época amplamente aceita no Japão). Anos mais tarde, a influência da política japonesa sobre o cristianismo levaria a situações contraditórias, como a publicação de editos imperiais banindo a religião do país logo após a concessão de permissões do shogun, enquanto alguns daimyos (notadamente os rebeldes Oda Nobunaga e Date Masamune) faziam "corpo mole" para cumprir a lei contra os cristãos em suas terras.
Não obstante, a missão de Francisco Xavier terminou após dois anos com relativo sucesso. Depois de voltar à Índia em 1551, pelo menos três congregações cristãs continuaram a funcionar nas cidades de Hirado, Yamaguchi e Bungo de maneira independente e clandestina. Quando o padre jesuíta, Gaspar Vilela, chegou ao Japão em 1556, foi recebido por cristãos na atual cidade de Oita, onde permaneceu o companheiro de Xavier, padre Cosme de Torres. O daimyo Otomo Yoshishige, que conheceu Francisco em Oita, aceitou o batismo 27 anos depois, recebendo o nome do futuro santo. O Japão chegou a ter cerca de 130 mil convertidos durante o período Sengoku antes de um edito imperial de banimento total da religião. Ao longo da história os cristãos seriam intermitentemente protegidos ou violentamente reprimidos até que, durante a Restauração Meiji no começo do século XX a liberdade religiosa foi assegurada. Cerca de 2% da população japonesa atual é adepta do cristianismo, entre católicos, protestantes, e ortodoxos, a maioria entre imigrantes e seus descendentes.
Neste dia também: Forte Negro
Francisco, cofundador da Companhia de Jesus, teve um papel muito significativo na expansão do catolicismo na Índia (especialmente Goa, principal cidade sob controle português na Ásia e sua base de operações), na China, e nas Filipinas, enquanto viajava sob a comenda do rei João III de Portugal. Em 1547, em Malacca, na atual Malásia, enquanto oficiava um casamento, ele foi apresentado a um samurai japonês exilado chamado Anjiro. Foi o primeiro japonês que se tem notícia a se converter ao cristianismo, e exerceu influência na decisão de Francisco de tomar o caminho do Japão. Xavier estudou avidamente tudo que se sabia sobre o Japão, usando também as informações trazidas por Anjiro.
O Japão só era conhecido dos europeus através dos relatos de mercadores portugueses que eventualmente passavam pela ilha de "Cipango". De fato, mercadores portugueses introduziram as armas de fogo no Japão em 1493 e continuariam a ser seus principais fornecedores de salitre para pólvora, o que se tornaria instrumental, uma geração depois, na guerra civil conhecida como Sengoku. A notícia que chegava a Francisco Xavier era de que o povo japonês era "razoável", e que o trabalho com eles seria muito mais produtivo do que com os "pagãos" na Índia. Acompanhado de Anjiro (batizado como Paulo de Santa Fé) e outros três jesuítas, munido de presentes ao "Rei do Japão", ele partiu de Guangzhou (antigamente conhecida como Cantão), na China.
Chegar ao Japão foi simples. Talvez tenha sido a parte mais simples da missão. Os problemas começaram quando o navio não obteve permissão para aportar, até que, em meados de agosto, eles desembarcaram em Kagoshima, na ilha de Kyushu. O daimyo local, Shimazu Takahisa, recebeu amistosamente Francisco como um dignatário do rei de Portugal e sua companhia, mas logo depois proibiu radicalmente a conversão do seu povo ao cristianismo sob pena de morte. Em Yamaguchi, Mori Motonari (personagem que inspirou Hidetora Ichimonji, personagem principal do filme Ran, de Akira Kurosawa), daimyo local, permitiu que Francisco pregasse ali. Mas isso não simplificou muito as coisas.
Francisco de Assis encontrou barreiras culturais que ele não havia encontrado na Índia, onde a evangelização vinha sendo feita de maneira acidentada. A primeira, a da língua, tornou a pregação direta da Palavra impossível. Francisco recorria a pinturas que trazia da Virgem Maria e do Menino Jesus para tentar explicar conceitos básicos. Vez ou outra, em pregações, ele lia textos das Escrituras traduzidos para o japonês (no alfabeto latino, tentando reproduzir os sons das palavras), sem qualquer fluência na língua. Imagine-se lendo um texto em romanji (o japonês escrito em alfabeto romano), sem ter como saber exatamente seu conteúdo, diante de uma plateia de japoneses nativos.
A segunda barreira era a própria base religiosa do Japão. Todos os japoneses eram adeptos do budismo ou do xintoísmo. Para eles, um Deus que tenha criado tudo, inclusive o mal, não podia ser um bom deus. A danação aos não conversos também perturbava os nativos, que combatiam a ideia de que seus antepassados estivessem sofrendo no inferno. Entre os japoneses ainda corriam o boato de que os cristãos comiam carne humana, provavelmente derivado do ato simbólico de se comer a hóstia representando o corpo de Cristo no ato da comunhão. Francisco tentou se adaptar ao vocabulário local traduzindo "Deus" para "Dainichi", que é o termo usado pela escola Shingon de budismo para designar o aspecto do vazio de Buda (Anjiro, budista de origem, teria sido responsável por isso). Embora isso lhe tenha rendido uma simpatia dos monges Shingon, assim que perceberam que a ideia do Dainichi pregado era diferente, e que a religião oferecida era uma concorrente, rapidamente retiraram esse apoio. O próprio Francisco, quando notou que Dainichi era uma "divindade local", optou por apresentar Deus como "Deuso", possivelmente o primeiro exemplo de transliteração de uma palavra estrangeira para o japonês. Logo "Deuso" foi distorcido para "Daiuso", que significa "grande mentira". A elite da cidade de Yamaguchi entendia que o que estava sendo pregado era uma nova forma de budismo.
A terceira barreira dizia respeito à própria apresentação visual de Francisco e seus auxiliares. A pobreza material ostentada pelos jesuítas era considerada vulgar pelos japoneses, dos quais mesmo os mais humildes seguiam regras de etiqueta e refinamento que não eram observadas na Europa ou na Índia. A humildade da sua aparência lhe fechou a porta mais importante: sua visita ao palácio imperial em Kyoto, para uma audiência com o Imperador, foi barrada por causa das suas vestimentas inadequadas. Para tentar ganhar a simpatia com demonstrações de poder, durante uma visita ao prefeito da cidade de Nagate, Francisco exibiu-se luxuosamente vestido, assistido afetadamente por cavalheiros e serviçais ricamente paramentados (representados por seus companheiros de missão), apresentando-se como representante do reino de Portugal e oferecendo a ele presentes do seu próprio tesouro, que recebera na Índia (muitos dos quais haviam sido destinados ao Imperador).
A quarta barreia era política. Sendo a política caracteristicamente fluída, essa barreira deixou de existir em alguns momentos. Francisco Xavier chegou ao Japão num momento tumultuado, onde o shogunato Ashikaga tinha sua autoridade questionada em várias partes do país, de modo que a instabilidade política nas províncias e as alternâncias das alianças podiam mudar as regras do jogo a qualquer momento. Os jesuítas entendiam a estrutura hierárquica do Japão feudal, e que portanto seria mais proveitoso tentar conquistar as elites, e deixar que elas se encarregassem de promover conversões em suas terras. Na verdade, fazia parte do plano inicial converter o Imperador, e, a partir da sua influência, converter todo o país em pouco tempo. Mas a delegação jesuíta nunca conseguiu contactá-lo. De qualquer maneira, alguns daimyos aceitaram a conversão e até encorajaram a conversão dos seus vassalos, mas visando apenas as vantagens que isso traria no comércio com os portugueses. Em Yamaguchi, a disputa interna pelo poder na família Shimazu pode ter levado a cordialidade inicial à hostilidade aberta nos poucos meses em que a missão esteve oficialmente na cidade (ou talvez tenham sido as agitações causadas pela sua pregação veemente contra a sodomia, na época amplamente aceita no Japão). Anos mais tarde, a influência da política japonesa sobre o cristianismo levaria a situações contraditórias, como a publicação de editos imperiais banindo a religião do país logo após a concessão de permissões do shogun, enquanto alguns daimyos (notadamente os rebeldes Oda Nobunaga e Date Masamune) faziam "corpo mole" para cumprir a lei contra os cristãos em suas terras.
Não obstante, a missão de Francisco Xavier terminou após dois anos com relativo sucesso. Depois de voltar à Índia em 1551, pelo menos três congregações cristãs continuaram a funcionar nas cidades de Hirado, Yamaguchi e Bungo de maneira independente e clandestina. Quando o padre jesuíta, Gaspar Vilela, chegou ao Japão em 1556, foi recebido por cristãos na atual cidade de Oita, onde permaneceu o companheiro de Xavier, padre Cosme de Torres. O daimyo Otomo Yoshishige, que conheceu Francisco em Oita, aceitou o batismo 27 anos depois, recebendo o nome do futuro santo. O Japão chegou a ter cerca de 130 mil convertidos durante o período Sengoku antes de um edito imperial de banimento total da religião. Ao longo da história os cristãos seriam intermitentemente protegidos ou violentamente reprimidos até que, durante a Restauração Meiji no começo do século XX a liberdade religiosa foi assegurada. Cerca de 2% da população japonesa atual é adepta do cristianismo, entre católicos, protestantes, e ortodoxos, a maioria entre imigrantes e seus descendentes.
Neste dia também: Forte Negro
terça-feira, 26 de maio de 2015
A Coroa de Ferro da Lombardia
No dia 26 de maio de 1805, Napoleão coroou a si mesmo rei da Itália em Milão, colocando sobre sua cabeça a Coroa de Ferro da Lombardia.
Essa coroa, hoje guardada e exibida na Catedral de Monza, é uma das relíquias cristãs mais antigas das quais se tem registro que sobreviveram até o nosso tempo. Trata-se de uma banda circular de ferro, sobre a qual foi montado um aro composto por seis folhas batidas de ouro adornadas com pedras preciosas. É uma coroa pequena demais para ser encaixada em uma cabeça como imaginamos ao pensar em uma coroa.
Ela é uma relíquia cristã valiosa não por causa do ouro ou da pedraria, mas por causa do seu "esqueleto" de ferro. As diferentes versões da lenda convergem para a mãe do imperador romano Constantino I, Helena. Ela teria trazido pessoalmente os remanescentes da cruz em que Jesus foi crucificado de uma viagem à Palestina entre os anos de 326 e 328. Ela era cristã, e teria fundado várias igrejas e obras de caridade na região, e nesses caminhos teria descoberto três cruzes, e uma visão a levou a identificar as três como aquelas erigidas no Gólgota naquele dia, e qual delas era a cruz de Jesus.
Desde antes, os relicários de Cristo e dos apóstolos que circulavam pela Europa e Oriente Próximo tinham a reputação de possuírem propriedades sobrenaturais. Helena então trouxe pedaços da cruz, e ofereceu os cravos a Constantino. Um dos cravos foi martelado na parte de dentro do seu elmo; outro usado para ferrar o seu cavalo; outros foram enviados como presentes a cristãos proeminentes dentro e fora do Império. Dessa forma, um desses cravos chegou a Monza, no século VII, sede do reino dos lombardos. A princesa Theodelinda, a quem se atribui a evangelização daquela tribo germânica, teria encomendado a coroa montada sobre o aro obtido do cravo batido. Outra tradição diz que, após a morte de Constantino, seu elmo teria ficado em Constantinopla. Quando o rei visigodo Teodorico invadiu a Itália, os bizantinos teriam removido o aro do interior do elmo e enviado ao mesmo, que o teria usado como coroa. Mais tarde, os visigodos o passariam ao lombardos quando estes conquistaram o nordeste da Itália. Uma terceira hipótese mais recente é de que a coroa de ferro, com esse significado, teria chegado à Itália através dos francos, pois um dos netos do rei Luis, o Piedoso, teria recebido a relíquia de sua mãe e doado à igreja de Monza, da qual era benfeitor.
De qualquer maneira, a Coroa de Ferro é registrada oficialmente pela primeira vez na coroação de Henrique VII como rei da Itália - futuramente, sacro imperador romano - em 1311, mas ela pode ter sido usada antes, a começar por Carlos Magno. A própria Igreja, apesar de considerar a coroa um tesouro, teve ao longo dos séculos atitudes diferentes em relação à sua venerabilidade, e à autenticidade da sua origem, de maneira que a coroa nem sempre foi usada para legitimar o poder de um soberano sobre a Itália. Investigações conduzidas pela Igreja concluíram que, embora seja possível que ela tenha sido um dia montada sobre uma banda de ferro (testes de radiocarbono sobre as placas de ouro apontam para em torno do século VI, época aproximada estimada pelas tradições para a chegada da coroa à Itália), a que está lá hoje é constituída por 99% de prata - é possível que ela tenha sido substituída durante uma restauração feita no século XVI.
Numa atitude calculada para cimentar seu poder após a conquista da Itália, Napoleão rumou para Milão para ser coroado rei daquele país. Numa cerimônia grandiosa, sentado sobre um trono magnífico, ele foi homenageado e a ele foram investidas as insígnias reais pelo cardeal arcebispo de Milão. Ele subiu ao altar, pegou a Coroa de Ferro e a colocou sobre a cabeça, declarando "Deus a tem me dado, cuidado a qualquer um que a tocar", um gesto parecido com o que teve na sua coroação como Imperador da França, quando tomou a coroa das mãos do próprio Papa e a enterrou na cabeça antes que o mesmo terminasse seu discurso cerimonial.
Essa coroa, hoje guardada e exibida na Catedral de Monza, é uma das relíquias cristãs mais antigas das quais se tem registro que sobreviveram até o nosso tempo. Trata-se de uma banda circular de ferro, sobre a qual foi montado um aro composto por seis folhas batidas de ouro adornadas com pedras preciosas. É uma coroa pequena demais para ser encaixada em uma cabeça como imaginamos ao pensar em uma coroa.
Ela é uma relíquia cristã valiosa não por causa do ouro ou da pedraria, mas por causa do seu "esqueleto" de ferro. As diferentes versões da lenda convergem para a mãe do imperador romano Constantino I, Helena. Ela teria trazido pessoalmente os remanescentes da cruz em que Jesus foi crucificado de uma viagem à Palestina entre os anos de 326 e 328. Ela era cristã, e teria fundado várias igrejas e obras de caridade na região, e nesses caminhos teria descoberto três cruzes, e uma visão a levou a identificar as três como aquelas erigidas no Gólgota naquele dia, e qual delas era a cruz de Jesus.
Desde antes, os relicários de Cristo e dos apóstolos que circulavam pela Europa e Oriente Próximo tinham a reputação de possuírem propriedades sobrenaturais. Helena então trouxe pedaços da cruz, e ofereceu os cravos a Constantino. Um dos cravos foi martelado na parte de dentro do seu elmo; outro usado para ferrar o seu cavalo; outros foram enviados como presentes a cristãos proeminentes dentro e fora do Império. Dessa forma, um desses cravos chegou a Monza, no século VII, sede do reino dos lombardos. A princesa Theodelinda, a quem se atribui a evangelização daquela tribo germânica, teria encomendado a coroa montada sobre o aro obtido do cravo batido. Outra tradição diz que, após a morte de Constantino, seu elmo teria ficado em Constantinopla. Quando o rei visigodo Teodorico invadiu a Itália, os bizantinos teriam removido o aro do interior do elmo e enviado ao mesmo, que o teria usado como coroa. Mais tarde, os visigodos o passariam ao lombardos quando estes conquistaram o nordeste da Itália. Uma terceira hipótese mais recente é de que a coroa de ferro, com esse significado, teria chegado à Itália através dos francos, pois um dos netos do rei Luis, o Piedoso, teria recebido a relíquia de sua mãe e doado à igreja de Monza, da qual era benfeitor.
De qualquer maneira, a Coroa de Ferro é registrada oficialmente pela primeira vez na coroação de Henrique VII como rei da Itália - futuramente, sacro imperador romano - em 1311, mas ela pode ter sido usada antes, a começar por Carlos Magno. A própria Igreja, apesar de considerar a coroa um tesouro, teve ao longo dos séculos atitudes diferentes em relação à sua venerabilidade, e à autenticidade da sua origem, de maneira que a coroa nem sempre foi usada para legitimar o poder de um soberano sobre a Itália. Investigações conduzidas pela Igreja concluíram que, embora seja possível que ela tenha sido um dia montada sobre uma banda de ferro (testes de radiocarbono sobre as placas de ouro apontam para em torno do século VI, época aproximada estimada pelas tradições para a chegada da coroa à Itália), a que está lá hoje é constituída por 99% de prata - é possível que ela tenha sido substituída durante uma restauração feita no século XVI.
Numa atitude calculada para cimentar seu poder após a conquista da Itália, Napoleão rumou para Milão para ser coroado rei daquele país. Numa cerimônia grandiosa, sentado sobre um trono magnífico, ele foi homenageado e a ele foram investidas as insígnias reais pelo cardeal arcebispo de Milão. Ele subiu ao altar, pegou a Coroa de Ferro e a colocou sobre a cabeça, declarando "Deus a tem me dado, cuidado a qualquer um que a tocar", um gesto parecido com o que teve na sua coroação como Imperador da França, quando tomou a coroa das mãos do próprio Papa e a enterrou na cabeça antes que o mesmo terminasse seu discurso cerimonial.
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