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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Batalha de Zama

Em 19 de outubro de 202 a.C. foi travada a Batalha de Zama. Foi o confronto final entre Roma e Cartago na Segunda Guerra Púnica, e o evento que determinou o domínio romano do Mar Mediterrâneo pelos séculos seguintes.

Entre 218 e 201 a.C., a emergente República Romana, que compreendia o centro e o sul da Itália e ilhas adjacentes, foi desafiada pelo império capitaneado pela antiga colônia fenícia de Cartago. Tratava-se da segunda guerra em larga escala entre os dois países pelo controle do comércio no Mediterrâneo. A primeira ocorreu quando Roma interviu nos conflitos entre gregos e cartagineses pelo controle da Sicília, resultando na aquisição desta ilha pela República.

A Segunda Guerra Púnica (assim lembrada pelos romanos, pois chamavam aos cartagineses "Poeni", corruptela do grego "phoenike", ou "púrpura", corante que era a principal mercadoria oferecida pelos fenícios, fundadores de Cartago) foi deflagrada após a invasão e conquista da cidade ibérica de Saguntum (atual Sagunto, na Espanha), com quem os romanos mantinham relações diplomáticas. O comandante da operação era Aníbal Barca, designado comandante supremo da Ibéria cartaginesa e filho de Amílcar Barca, o conquistador cartaginês daquele país. O cerco e a conquista desta cidade era o primeiro passo de um plano meticuloso e ambicioso de Aníbal para assegurar o controle sobre o Mediterrâneo, e o passo seguinte seria a invasão inesperada, por terra, da Itália. De maneira espetacular, Aníbal conduziu um exército africano, com elefantes de guerra, pelos Alpes, e obteve vitórias incríveis sobre Roma em seu próprio solo. No entanto, a campanha da Itália nunca chegou a um momento decisivo, e embora Aníbal resistisse no interior da península por mais de 10 anos, esta operação acabou num impasse.

Roma, que havia adaptado a engenharia fenícia na construção da sua própria armada de guerra, conseguiu efetivamente evitar que os fenícios enviassem reforços por mar à Itália, limitando as ações de Aníbal. Com o general invasor imobilizado, os romanos partiram para o contra-ataque na cabeça de ponte cartaginesa na Europa, a Espanha. Os irmãos Gneu e Públio Cipião comandaram uma campanha que começou em Massalia (antigo porto grego sob controle cartaginês, atual Marselha), e prosseguiu, por terra e mar, através dos Pirineus, até o Rio Ebro, onde venceram uma batalha naval que paralisou o esforço cartaginês na Espanha (e o possível envio de tropas a Aníbal ou aos celtas do norte da Itália), embora seu progresso também tenha ficado por aí. Em 211 a.C., os dois Cipiões reuniram reforços entre os celtiberos nativos e marcharam separadamente e quase simultaneamente contra os cartagineses no norte da Espanha, perto de Bétis, onde ambos foram aniquilados. O filho de Gneu, Públio (o mais famoso Cipião, por isso lembrado apenas pelo sobrenome), foi o único a se candidatar ao comando do exército naquela região.

Em 211 a.C. Cipião começou tomando a cidade de Carthago Nova (atual Cartagena). Com romanos e celtiberos sob seu comando, Cipião organizava suas tropas de maneira dinâmica para responder às inconstantes formações dos cartagineses (os comandantes locais, Asdrúbal Barca, Mago, e Asdrúbal Grisco não conseguiam coordenar esforços, e a resposta ao avanço de Cipião era confusa), e aos desafios do terreno acidentado da Ibéria. Em Illipa (próximo a Sevilha), Cipião se defrontou com Asdrúbal Barca, irmão de Aníbal. Recuando o centro do seu exército e avançando com as alas, Cipião envolveu os cartagineses e obteve a vitória final naquele cenário de guerra. Este resultado rendeu a Cipião o consulado em 205 e o controle de seus aliados pessoais da Sicília.

Cipião não tinha o apoio do senado para prosseguir com a guerra. Seu plano era a invasão da África e a submissão de Cartago. Os senadores resistiram ressaltando o perigo, mas a moção acabou aprovada. Contudo, ele partira para a Sicília somente com um corpo de voluntários, e apenas mais tarde ele seria autorizado a recrutar as legiões estacionadas na ilha - na maioria, sobreviventes exilados pela derrota "humilhante" na Batalha de Canas contra Aníbal dez anos antes. Em 203 desembarcou em Utica, na Tunísia, onde esmagou completamente a resistência cartaginesa sob Asdrúbal Grisco. Na ocasião recebeu reforços da cavalaria numídia sob o príncipe africano Masinissa, a quem Cipião conhecera na Espanha e aspirava, com apoio romano, depor o rei Sifax, aliado dos cartagineses (Masanissa ainda perseguiu a cavalaria comandada por Sifax até a capital numida, Cirta, na Argélia, onde foi capturado).

A perda de Utica e a presença hostil de romanos e numídios no coração do seu império levou os cartagineses a solicitarem um tratado. Cipião propôs termos relativamente "suaves"- Cartago abriria mão das suas possessões fora da África, a maioria delas já perdida, e teria que limitar a sua marinha de guerra. Masinissa também teria direito a ampliar seu território sobre as posses cartaginesas no interior da Argélia. O senado cartaginês ainda deliberava sobre os termos, quando Aníbal foi convocado de volta. Aníbal Barca continuava no sul da Itália com o apoio relativo de tribos locais, no comando de um exército muito experiente e leal. No outono de 203 embarcou com seus homens no porto de Crotona.

Com Aníbal de volta, Cartago se sentiu segura para abordar uma frota romana destinada a Cipião que havia encalhado no Golfo de Túnis, e confiscar sua mercadoria. Os romanos viram o ato como uma quebra do tratado, e Cipião marchou para Cartago. Aníbal saiu de encontro a ele na planície de Zama, perto da atual cidade de Siliana.

Os dois exércitos se equivaliam, com ligeira vantagem numérica para Aníbal. Além de infantaria e cavalaria (numídios que serviram com ele na campanha italiana), Aníbal ainda dispunha de 80 elefantes de guerra. Os romanos contavam com três corpos de cavalaria, dois deles de numídios comandados por Masinissa, e outro de romanos sob o comando do general Lélio.

Os dois generais também se equivaliam em perspicácia. Aníbal havia se inteirado das táticas de Cipião na Espanha, especialmente sua estratégia em Illipa de atrair o centro enquanto envolvia as alas do inimigo, e assim dispôs o exército em três fileiras, com a retaguarda mais recuada para dificultar o ataque pelos flancos. Já Cipião previu que Aníbal usaria elefantes, e sabia que os elefantes podiam ser direcionados para uma carga em linha reta, mas que não podiam ser manobrados. Assim, ele separou suas três linhas em blocos, que, ao avançar das feras, se separavam, abrindo corredores por onde os elefantes passavam sem causar prejuízo (para depois serem abatidos).

Com os elefantes fora do caminho, Cipião avançou com a cavalaria. Ele também sabia que Aníbal dependia da força e agilidade da cavalaria numídia (cujos cavalos eram menores do que os cavalos atuais) e se preocupou em levar um número maior dessas unidades para o campo. Como consequência da superioridade numérica romana, a cavalaria cartaginesa fugiu perseguida por Masinissa e Lélio para longe do campo de batalha.

As infantarias então se bateram violentamente, com ligeira vantagem para os romanos. Aníbal mantinha sua terceira fileira recuada, e à medida em que as fileiras em combate eram quebradas, ele as reorganizava integrando-as às alas da fileira anterior, mantendo a força das suas linhas e reforçando seus flancos. No momento em que Aníbal integrou a primeira e segunda linhas, a primeira linha romana (os hastati, ou lanceiros) foi aniquilada. Cipião então reproduziu a estratégia em suas próprias linhas e contra-atacou. A batalha no corpo a corpo seguiu ferrenha.

Num certo momento houve uma pausa, onde os dois generais reorganizaram suas tropas. Ambos formaram uma fileira única, mas Cipião colocou a sua retaguarda nas alas, os lanceiros no meio, e a segunda fila (os principes, aristocratas que possuíam equipamento de melhor qualidade) preenchendo os espaços entre eles. O combate foi violento, mas nenhum dos lados parecia obter vantagem.

Foi quando surgiram as cavalarias romana e numídia cavalgando pela retaguarda cartaginesa (Masinissa e Lélio haviam desbaratado a cavalaria inimiga). A batalha estava perdida para Aníbal, que conseguiu fugir. Mas metade dos seus homens tombou, e outra metade foi presa.

Cartago, sem forças, teve que se submeter a um novo tratado, muito mais duro. Ela teria que pagar um pesado tributo anual a Roma (que arruinaria a sua economia rapidamente) e limitar seu poderio militar a meros 10 navios de guerra. Também não poderia declarar guerra, envolver-se em atos hostis, ou sequer recrutar um exército sem a autorização de Roma. Da parte de Roma, muitos não se deram por satisfeitos: alguns defendiam que o fim da guerra desmobilizaria a população na Itália, fazendo-a retornar a um estado de indolência anterior; outros alertavam para o perigo de se manter um inimigo tão feroz em suas próprias terras e exigiam a destruição total de Cartago. O senador Catão, o Velho, sempre encerrava seus discursos com a frase "Carthago delenda est" ("Cartago deve ser destruída"), mesmo que fosse sobre qualquer assunto não relacionado. De fato, Cartago viria a ser destruída meio século depois quando, ao arregimentar um exército contra a vontade romana para se defender das contínuas incursões do velho Masinissa, provocou nova campanha militar de Roma, resultando na destruição da cidade, extermínio de grande parte da população, e sua terra salgada.

Depois de Zama, Cipião e Aníbal quase se encontraram em outra guerra. Aníbal, em exílio voluntário, colocou-se a serviço do rei Antíoco III na Síria, e temores de que ele preparava outra invasão à Itália (de fato ele recomendara especificamente isto a Antíoco, que preparava uma campanha contra os romanos na Grécia) levaram os romanos à guerra na Ásia. Na derrota, Antíoco deveria entregar Aníbal a Cipião, mas ele fugira a Bitínia, onde servira o rei local (numa das batalhas navais que comandara, bombardeara os navios inimigos com vasos cheios de cobras venenosas). O rei da Bitínia foi, também persuadido pelos romanos a entregar Aníbal, mas ele continuou a fugir. Antes de morrer, em algum ponto da costa oeste da Turquia entre 185 e 183 a.C, ele teria deixado uma carta que chegou a Roma, dizendo "Vamos aliviar os romanos da ansiedade que têm experimentado por tanto tempo, já que eles acham um teste de paciência muito grande esperar a morte de um velho".

E Cipião (cujo sucesso na Segunda Guerra Púnica lhe rendeu o apelido de "Africano") seria acusado por seus adversários, incluindo Catão, de aceitar suborno de Antíoco (ele havia defendido publicamente o irmão de tê-lo aceito, e, por causa disso, foi acusado também). Salvo pelos amigos de ser levado a julgamento, ele se retirou da vida pública em sua propriedade, próximo a Nápoles, onde morreu (à mesma época de Aníbal) e foi sepultado. Otaviano, o primeiro imperador romano, século e meio depois, visitou o local para prestar-lhe homenagens. Sua amargura pelo tratamento que recebera em Roma após os anos de serviço (pela primeira vez Roma conquistava territórios fora da Itália e das ilhas próximas) teriam-no feito ordenar a inscrição em seu túmulo: "Ingrata patria, ne ossa quidem habebis" ("Pátria ingrata, não terá sequer os meus ossos").

No filme O Gladiador, o personagem de Russell Crowe, Maximus, é escalado para um espetáculo no Coliseu onde se recriaria a Batalha de Zama. Maximus e seus colegas, representando as forças de Aníbal, rebelam-se vencendo a batalha e arruinando o espetáculo.

Neste dia também: Independência ou Morte no Piauí

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Agripina, A Velha

Em 17 de outubro de 33 d.C. faleceu de desnutrição a romana Agripina ("A Velha", porque tinha uma filha homônima, conhecida como "A Jovem"), adversária do imperador Tibério e mãe do seu sucessor, Calígula.

Na sociedade romana, à época da dinastia Júlio-Claudiana, os homens eram os executores da vida pública, ocupantes exclusivos dos cargos de cônsul, senador, pretor, general, pontífice. Eram maridos, cabeças de suas famílias, provedores do lar. Das mulheres era esperado o recato, a modéstia, a obediência, e um útero fértil. Quaisquer mulheres que não se enquadrassem nesse modelo, independente da sua sagacidade, capacidade produtiva, caráter, eram mal vistas pelos romanos. Porém, como toda boa sociedade fortemente patriarcal, a vida política romana sempre teve, nos seus bastidores, a influência das esposas e amantes dos seus figurões mais ilustres. Agripina, quem o historiador Tácito, sob o ponto de vista do homem romano, a descreve como alguém "intolerante na rivalidade, sedenta de poder, (ela) tinha as preocupações de um homem", era uma mulher cuja virtude extrapolava o que se esperava de uma romana, enquadrando-se tanto no espectro da matrona virtuosa e recatada, quanto da leoa que se imiscuía nos negócios públicos em busca de justiça.

Vipsania Agripina, nascida em 14 a.C., era filha de Marcus Vipsanio Agripa, amigo de longa data do imperador Otaviano, e da única filha biológica deste, Júlia. Entre os patrícios romanos os casamentos eram arranjados e desfeitos para fortalecer alianças ou aproximar inimigos, e havia muito pouco que os noivos pudessem fazer. Depois de anos de casamento feliz com Agripa, quando este morreu Júlia foi oferecida em casamento ao herdeiro legal de Otaviano, Tibério, um homem soberbo e emocionalmente instável, com quem viveu miseravelmente; não foi surpresa, embora tenha sido um escândalo, quando Otaviano puniu Júlia com o exílio por adultério. Como resultado, a jovem Agripina, então adolescente, ficou sob a guarda da atual esposa de Otaviano, Lívia.

Lívia era uma verdadeira arquiteta política. Seu marido (a quem arrebatara quando era casado e ainda compartilhava o poder com os rivais Marco Antonio e Marco Lépido) era o imperador; embora Otaviano adotasse legalmente alguns jovens promissores, ela arranjara para que Tibério, seu filho de um casamento anterior, se tornasse seu herdeiro, enquanto seus possíveis rivais caíam um a um, provavelmente envenenados sob suas ordens (bem como o próprio Otaviano, que gozava de boa saúde na velhice); com Tibério pavoneando-se no poder, trabalhava como uma das principais articuladoras políticas do seu reinado.

Já Otaviano era um homem astuto, que conhecia as artimanhas e a capacidade de realização de Lívia e procurava direcioná-las para benefício comum. No entanto, seu ímpeto frequentemente entrava em conflito com os planos da esposa. Quando Júlia foi exilada e Agripina trazida para o seu convívio, Otaviano se afeiçoou a ela e a protegeu, oferecendo-a em casamento a Germânico, um jovem e charmoso neto de Marco Antonio e parente de Lívia, da influente família dos Cláudios. Germânico, além de bem apessoado e gentil, era um militar capaz. Suas vitórias na Germânia e na Gália (notadamente, o resgate da última das três Águias Perdidas) o tornavam imensamente popular. A modéstia e a frugalidade de Agripina, sua devoção por Germânico (com quem viveu um casamento verdadeiramente feliz, se confiarmos nas fontes contemporâneas, acompanhando-o em campanha e mesmo atuando como diplomata) a tornaram uma favorita do povo. O casal deu à luz nove filhos, com seis deles chegando à idade adulta.

Otaviano já havia designado Tibério seu sucessor, mas exigiu que o enteado fizesse o mesmo com Germânico. Quando Otaviano morreu, as coisas mudaram. Tibério, que não gozava das virtudes nem da popularidade de Germânico, o via como uma ameaça. Germânico foi então enviado para o oriente (para longe de Roma), para comandar a Síria. Em seu auxílio foi designado o general Calpúrnio Piso, com quem Tibério mantinha estreitas relações, supostamente para mantê-lo sob controle. Piso e Germânico se desentenderam publicamente em pelo menos uma ocasião (após retornar do Egito, Germânico teria constatado que Piso ignorara instruções suas acerca das tropas na Síria). Ali, Lívia talvez tenha sido solicitada para ajudar Piso a resolver a questão, porque, logo em seguida, Germânico passara mal, acusando o colega de tê-lo envenenado. Germânico morreu no ano 19, deixando Piso no comando da província.

Agripina retornou a Roma com as cinzas do seu marido. Ao receber a notícia do falecimento de Germânicos, o povo romano entrou em luto antes mesmo do senado o declarar oficialmente, e diante da urna com suas cinzas, discursos e homenagens eram prestadas por figuras públicas, incluindo o próprio Tibério. Mas Agripina não se contentaria com demonstrações públicas de afeto. Ela compartilhava da convicção de Germânico de que teria sido envenenado, e que o responsável era Piso (isso não está expresso nas fontes, mas sua mente não deve ter ido muito longe para ligar a atuação de Piso a Tibério). De fato foi aberto processo e Piso foi indiciado, não por assassinato, mas por traição e desacato. Ele se suicidou antes da condenação.

A queda de Piso não satisfez o senso de justiça de Agripina. Ela exigia de Tibério que ele nomeasse um dos seus filhos seu herdeiro, em substituição a Germânico (Tibério tinha um filho Tibério Gemelo, que despontava como seu favorito). Lívia e a sogra, Antonia, mantinham os filhos de Agripina o mais longe possível da mãe. Ela se tornava cada vez mais solitária, e sua relação com Tibério cada vez mais amarga, chegando ao ponto de enfrentá-lo em particular algumas vezes, acusando-o de perseguir, através dela e de seus filhos, o sangue de Otaviano.

Senadores, preocupados com a crescente influência do prefeito pretoriano Sejano (a quem Tibério delegava muitas das suas atribuições quando, em crises emocionais, exilava-se em inacreditáveis orgias na ilha de Capri), buscaram apoio na boa reputação de Agripina, que abraçou a causa. Tibério passou a desconfiar dela, e, num jantar privado, ofereceu-lhe uma maçã para testá-la. Agripina recusou-se a comer, acreditando estar envenenada. Pouco depois ela foi presa com dois de seus filhos, acusada de conspiração (Tibério temia que ela buscasse apoio das legiões leais a Germânico, usando a reputação do marido e o parentesco do avô Otaviano a seu favor).

Agripina e os filhos acabaram banidos para a ilha de Pandataria (atualmente Ventotene), o mesmo local para onde sua mãe Júlia havia sido exilada. Seus protestos constantes eram punidos com castigos físicos (algo raramente aplicado em condenações deste tipo), e ela acabou cega de um olho. Depois de quatro anos do exílio, morreu de inanição (segundo Tácito por greve de fome, mas talvez por ter sido deliberadamente privada de comida, não se sabe), mesmo destino de seu filho Druso, enquanto o outro filho, Nero, se suicidou aguardando julgamento. Ironicamente, Sejano encontrou seu fim antes de Agripina, quando Tibério mandou executá-lo por conspiração. Quando soube da morte de Agripina, Tibério declarou o dia do seu nascimento uma data de mau agouro.

O último filho homem vivo de Agripina, Caligula, criado sob a vigilância de Lívia, sucedeu Tibério como imperador no ano 37. Ele revertera a condenação de Tibério e suas ordens para que o nome de sua mãe fosse riscado da história, e depositou suas cinzas no Mausoléu de Augusto, declarando um dia anual para que os romanos lhe prestassem homenagens. Calígula acabaria assassinado e sucedido pelo primo de sua mãe, Cláudio, e este, por sua vez, substituído pelo seu neto Nero.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Dois impérios, dois mundos

Em 8 de dezembro de 627, um exército bizantino esmagou outro bem menor do Império Sassânida, dando fim a mais de 650 anos de guerras entre os impérios Romano e Persa.

Os povos iranianos se estabeleceram como forças consideráveis no antigo Oriente Médio através do emergente reino Meda. Os persas propriamente ditos os sucederam como um poder central no Oriente Médio no século VI a.C. sob a dinastia Aquemênida, e assim prosseguiram até a sua conquista total pelos exércitos macedônios de Alexandre, O Grande, no século IV a.C.. Depois da sua morte prematura, seu vasto império foi repartido (não sem alguma violência) entre alguns dos seus principais generais. A maior parte da sua porção asiática, que correspondia ao território dominado anteriormente pelos persas, ficou nas mãos do general Seleuco, que fundaria sobre essas terras o Império Selêucida. Ali, os persas continuaram servindo como uma elite militar, administrativa e religiosa, conduzindo a predominante religião zoroastrista. Eventualmente, este novo império greco-asiático seria lentamente absorvido pelos partas (outra tribo iraniana, como os persas) no leste, e o emergente Império Romano no oeste. Durante o século I a.C., a tensão entre esses dois impérios iria crescer na região, com a instalação de Estados-satélites no Cáucaso e na Armênia, cujas lealdades flutuavam conforme a conveniência. Reis partas chegaram a tentar uma aliança com a República Romana, mas os romanos tinham suas pretensões. Roma invadiu a Armênia com auxílio dos partas, mas logo a fronteira ao longo do Eufrates se tornou uma zona de constante atrito. O controle sobre a Mesopotâmia - a região agrícola mais produtiva do mundo à época - era ambicionado por ambos os lados, e mudou de mãos com frequência.

Em 224 os persas recuperaram sua hegemonia sobre o mundo iraniano quando um persa, Ardashir I, depôs a dinastia parta, instituindo a dinastia Sassânida no poder. O Império Sassânida continuou a se opor ao Império Romano. Durante o século III, os romanos, em grave crise econômica e política, ainda entraram em uma guerra defensiva no oeste contra invasores germânicos, abrindo caminho para o avanço persa no oriente - em 260, os romanos foram derrotados em Edessa, e seu imperador, Valeriano, capturado, o que representou uma grande humilhação a Roma. Pouco mais de 20 anos depois, Roma chegou a saquear a capital Ctesifonte, mas seu imperador, Caro, morreu antes de dar prosseguimento à campanha. Em outra ofensiva romana em 363, o imperador Juliano chegou a bater os persas diante da sua capital novamente, mas não conseguiu capturá-la, e acabou emboscado e morto enquanto recuava.

A partir do final do século IV, tanto Roma como Pérsia tiveram problemas com invasores germânicos, iranianos e hunos (os hunos em especial, e seu ramo arianizado, os heftalitas, causaram considerável destruição no norte da Pérsia), o que diminuiu temporariamente as hostilidades entre os dois. Quando explodiu uma nova guerra, no começo do século VI, o Império Romano do Ocidente já não existia mais (esfacelado por invasores na Europa), e agora era o Império Bizantino, centrado em Constantinopla e construído sobre substrato helênico, quem antagonizava a Pérsia Sassânida. Novamente a região da Armênia e do Cáucaso eram os focos de disputa. Como ofensivas de ambos os lados eram constantemente repelidas, em 532 os dois impérios assinaram um "Tratado de Paz Eterna". Por alguns poucos anos, esse tratado permitiu aos bizantinos investirem na reconquista de antigos territórios romanos no ocidente, chegando a retomar grande parte da África, da Itália e da Espanha. Vendo o rival crescer, os persas logo violaram o tratado e retomaram a ofensiva na Síria. O competente general Belisário, sobrinho do imperador Juliano, responsável pela reconquista da Itália, deixou o front ocidental para lidar com os sassânidas, deixando o domínio bizantino no ocidente fatalmente mal consolidado.

As guerras continuaram de forma quase constante por todo o século VI e começo do século VII, sempre com avanços modestos, pontuais e efêmeros para um lado ou para o outro, tendo o rio Eufrates como a principal barreira geográfica impedindo a consolidação de poder de um lado sobre o outro. Uma crise política em 610 enfraqueceu a posição bizantina, e permitiu a conquista persa da Síria, da Palestina e do Egito, e ataques que arrasaram a Anatólia, a região economicamente mais importante para os bizantinos. Avaros e eslavos aproveitaram para invadir a Trácia e os Bálcãs, respectivamente, e em 626 os avaros, apoiados por forças persas, chegaram a cercar a capital bizantina. Enquanto isso, o imperador Heráclio (que tentara domar os eslavos pagãos enviando-lhes missionários ortodoxos) costurou uma aliança com as recém-chegadas tribos turcas, que arrasavam o Cáucaso e atacavam a Pérsia pelo norte (a tribo dos Khazares tinha estabelecido seu próprio império ao norte do Mar Cáspio, e aderiu à aliança). Tendo se livrado do cerco a Constantinopla graças à incapacidade dos invasores de romper as muralhas e impedir o abastecimento da cidade pelo mar, os bizantinos lançaram uma contra-ofensiva em pleno inverno, Mesopotâmia adentro (com apoio inicial dos turcos, que debandaram ao longo da expedição), chegando a Nínive, perto do coração do Império Sassânida.

As forças de Heráclio eram perseguidas pelo exército de Razates, um general armênio que decidira abandonar Tblisi, na Geórgia, no momento cercada por uma pequena força bizantina, para tentar impedir o avanço do exército principal do inimigo. No entanto, Razates só alcançou Heráclio quando se aproximavam de Nínive, já nas proximidades do Rio Tigre. Heráclio estava acampado junto às ruínas da antiga capital do Império Assírio. Seu exército constituía talvez o dobro do que dispunha o general armênio, mas haviam notícias de que pelo menos 3 mil persas estavam a caminho, e isso deve ter convencido o imperador a dar meia volta e oferecer combate.

O conhecimento superior do terreno de nada adiantou aos persas. Heráclio dispôs suas tropas em uma planície apropriada para seus lanceiros e cavaleiros pesados, e uma névoa que se erguia dos rios Tigre e Zab nas proximidades dificultava a ação dos exímios arqueiros persas. Razates, contudo, tentou um ataque massivo e decisivo. Após 8 horas de combate, as forças superiores dos bizantinos prevaleceram, e metade dos persas foram mortos, incluindo seu comandante: parece que Razates desafiou Heráclio para um combate mano-a-mano, e foi morto com apenas um golpe, a exemplo de outros dois ou três desafiantes. Triunfantes, os bizantinos continuaram a marchar, e tomaram o palácio de Dastagird, na atual Bagdá, residência favorita do imperador sassânida Cosroe II, que fugira dali. Diz-se que ali Heráclio recuperou a cruz original onde Jesus fora crucificado, capturada e mantida pelos persas como um tesouro, após uma negociação com o usurpador sassânida Cavades II, em troca da segurança de seu filho e herdeiro do trono, Ardashir. Impedido de prosseguir com a conquista da Pérsia por conta própria (as pontes sobre o canal de Haravan estavam destruídas, impedindo o avanço imediato do grosso do exército sobre o Tigre), Heráclio confirmou a aliança com o partido opositor de Cosroe, que seria assassinado logo depois. Os bizantinos retomaram o poder sobre a Síria, a Palestina e o Egito.

A guerra deixara ambos os impérios em frangalhos. A Anatólia arrasada representava um duro golpe na economia bizantina. A Pérsia mergulhou no caos político e não conseguiu reorganizar seus exércitos, nem a credibilidade de seus imperadores. A trégua após a Batalha de Nínive servia aos dois impérios. Mas enquanto ambas as potências se desgastavam infrutiferamente, um novo poder surgia ao sul: as tribos árabes estavam se unindo, pela persuasão ou pela força, em torno do profeta Maomé e sua nova fé e lei. Em 628, enquanto bizantinos e sassânidas lutavam no Rio Tigre, Maomé assegurava o domínio sobre Medina e começava a expandir em direção a Meca. A partir de 631, os muçulmanos avançariam com pouca resistência sobre a Palestina e a Mesopotâmia, conquistando vastos territórios tanto do Império Bizantino como do Sassânida. Enquanto os cristãos os freariam na Síria e resistiriam a dois novos cercos a Constantinopla (perdendo, porém, o controle sobre o Egito, o norte da África, a Espanha e algumas ilhas mediterrâneas), os sassânidas não teriam forças para impedir por muito tempo o avanço árabe e a queda de sua dinastia.

Para os bizantinos, os atritos com os persas custaram sua supremacia na Europa, e expuseram o império a sucessivas ondas de invasores, tanto árabes como turcos na Ásia, e búlgaros e húngaros na Europa, sujeitando-se também às novas potências católicas no ocidente, e dando início a um longo e agoniante declínio - de tudo que os representava, restou a ortodoxia cristã e a língua grega. Para os persas, as rachaduras deixadas pelos séculos de guerra contra o mundo romano abriram o caminho para a introdução da cultura árabe e da religião muçulmana no principal reduto do zoroastrismo, e novamente o fim do seu domínio sobre sua própria terra natal.

A perda da Palestina, tradicionalmente mantida sob domínio cristão, foi um golpe duro para a cristandade, e não demoraria muito até que esforços coordenados entre as potências cristãs na Europa (com participação restrita dos bizantinos) colocasse as duas religiões em oposição em sucessivas tentativas de retomar a Terra Santa. Os persas, por outro lado, assimilariam a cultura árabe, mas a transformariam em algo distinto - islamizado, mas não "arabificado", graças a um poderoso senso de identidade nacional e uma longuíssima e contínua tradição na língua (as línguas iranianas são indo-europeias, para quem o árabe semítico, mesmo considerado sagrado para a religião, é uma língua estranha), na escrita e no pensamento. De fato, à conquista árabe sucedeu a formação do Califado Abássida, centrado em Bagdá e administrado por califas árabes, mas baseando sua força em exércitos e comandantes iranianos, que garantiam para a Pérsia um status de semi-independência. Independente ou não, sob árabes, mongóis ou turcos, a Pérsia continuou a ser um centro de irradiação cultural do Oriente Médio, estendendo sua esfera de influência do oeste do Rio Indo até a Armênia, do Golfo Pérsico até o Mar de Aral (durante o domínio mongol na China, administradores persas eram recrutados em detrimento de chineses para exercer altos cargos administrativos da dinastia Yuan). O atual Irã, embora tenha uma participação modesta nas decisões globais, assume uma postura de contraponto às potências econômicas ocidentais, ao mesmo tempo em que, como principal centro da corrente xiita do Islã (ainda que minoritária), mantém uma posição proeminente no mundo islâmico e forte influência política no Oriente Médio.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Etruscos

Em 25 de novembro de 571 a.C., o etrusco Sérvio Túlio, rei de Roma, desfilou em triunfo por sua vitória contra outros reis etruscos. Sérvio Túlio é um personagem basicamente mitológico, mas os elementos mitológicos incorporados pelos historiadores romanos como parte da sua História dão pistas da enorme influência da civilização etrusca sobre a formação de Roma.

O poema épico Eneida, de Virgílio, uma espécie de continuação do poema homérico Odisseia, trata dos primórdios da fundação de Roma. Boa parte da "História" da Roma pré-republicana deriva dos relatos de historiadores notáveis, como Tito Lívio e Plutarco, entre outros. Ambos nos fornecem retratos coloridos da vida e da política romana do seu tempo, mas quando se alongam acerca das origens da cidade-Estado e suas instituições, chegam no pantanoso terreno da "pré-história" romana, delineada por mitos e tradições, e confundem-se com a poesia. Tito Lívio, por exemplo, como patriota, teria deliberadamente selecionado determinadas versões desses mitos para compor uma narrativa heroica e coerente com as tradições cultivadas pela alta sociedade, seu público alvo. Portanto, toda a História de Roma antes da consolidação das instituições republicanas e os seus metódicos registros escritos é um misto de lendas e fatos que apenas a arqueologia hoje em dia pode dar alguma substância.

Todos os sete reis de Roma são, a princípio, legendários, embora os seus ciclos narrativos possam rememorar alguns fatos históricos. Sérvio Túlio é o sexto rei de Roma. Ele era etrusco, não latino, o segundo dos três reis etruscos da Roma monárquica. Ascendeu ao trono vindo do nada (o mito "historificado" lhe dava uma biografia semelhante à dos heróis gregos, que tinham um deus como pai e uma desterrada de origem nobre como mãe, e viveram na servidão antes de se tornarem reis), e teria comandado os exércitos romanos em campanha contra os próprios etruscos, vencendo-os pelo menos três vezes (o triunfo celebrado em novembro de 571 a.C. teria sido o primeiro). Ele casou uma de suas filhas com Lúcio Tarquínio, filho homônimo do seu antecessor no trono, que acabaria conspirando e assassinando Sérvio.

A existência de três reis etruscos nos anais de Roma, embora não seja comprovada historicamente, resgata o contexto político da cidade nos séculos VII e VI a.C..

Os etruscos eram um povo provavelmente autóctone do centro e norte da Itália, ocupando aquela região ou algo próximo desde o fim da última glaciação, ao contrário dos latinos, úmbrios, faliscos, volscos, samnitas, e outros povos itálicos de língua indo-européia que migraram para lá apenas na primeira metade do primeiro milênio a.C.. Os etruscos, por consequência, desenvolveram sua própria língua, religião e sociedade. O intenso contato via comércio com os povos da Grécia, que lhes chamavam "tirrenos" ou "tirsênios", lhes trouxe o alfabeto, e com sua própria versão dele nos deixaram milhares de documentos escritos. Apesar da escrita ser perfeitamente legível, a língua etrusca, por ter se desenvolvido localmente, não tem qualquer paralelo com outra língua conhecida, o que a torna basicamente ininteligível (apenas algumas dezenas de palavras foram conjecturalmente decifradas, mas algumas delas parecem empréstimos de outras línguas, como o próprio grego). Uma obra que possivelmente nos auxiliaria nessa questão seria o livro que o imperador romano Cláudio, que falava etrusco, escreveu sobre a sua história, mas este livro se perdeu no tempo.

Portanto, apesar de tanta evidência escrita, muito pouco se sabe sobre sua origem. Mas os historiadores gregos e romanos, e a arqueologia, nos mostram que esses etruscos viviam em confederações de cidades-estado concentradas em três regiões da Itália (no vale do Rio Pó, na região da Toscana, e ao longo do litoral até a Campânia) que expandiram sua esfera de influência, incluindo aí os povos que acabavam de migrar para a Itália. Porém, nunca configuraram um império propriamente dito, pois cada cidade-estado tinha seu próprio rei (que, não raro, estava em guerra um com outro).

Roma foi fundada por volta de 750 a.C. por Rômulo - personagem igualmente mitológico, segundo Virgílio, descendia de Enéas, o herói troiano, e fora amamentado por uma loba com seu irmão gêmeo Remo, o qual assassinou. O provável é que Roma tenha sido mais uma das cidades fundadas pelos novos habitantes indo-europeus da região do Lácio (de onde "latino" deriva seu nome). Havia, inclusive, outro mito fundador para o povo latino, também retratado em Virgílio e em fontes gregas, como Heródoto, em que um certo Latino (ou Lavínio), filho de deuses, era o senhor daquela região, e ofereceu asilo a Enéas e seus companheiros.

É justamente após a época da fundação que os etruscos expandiram sua influência sobre o Lácio. Em Roma, segundo o que os antigos historiadores comentam, a influência etrusca aparece impondo-se como uma elite que se infiltra na estrutura do governo local, como o senado (a assembléia de anciãos que representavam as famílias mais tradicionais da cidade). Em 616 a.C., finalmente um etrusco, Lúcio Tarquínio Prisco, assumiu o trono convencendo o senado a elegê-lo, quando da morte do rei latino Anco Márcio. Os etruscos em poder de Roma teriam usado a cidade para expandir seu poder sobre os outros latinos, e sobre os próprios etruscos das cidades rivais, até que o terceiro rei etrusco, Lúcio Tarquínio Superbo, foi expulso da cidade, e a República foi instaurada. Este último rei teria pedido auxílio a outro rei etrusco, Lars Porsena, da cidade de Clusium (onde está a atual Chiusi), que foi rechaçado pelas forças republicanas. A partir daí Roma começou a criar sua própria zona de influência, primeiro conquistando e assimilando as outras cidades latinas, depois os outros povos itálicos e os próprios etruscos, e mesmo as colônias gregas no litoral sul, até dominar a Itália.

Mesmo que o período da monarquia romana seja uma reconstrução da memória coletiva infundida com um sentimento de identidade nacional, e os seus personagens provavelmente mais fantásticos do que reais, ainda assim podemos identificar na Roma histórica elementos que remetem àqueles tempos. Além do vocabulário, onde o latim tomou emprestado algumas palavras etruscas (o que ajuda no limitadíssimo conhecimento dessa língua), e do alfabeto (o alfabeto latino que usamos hoje deriva mais diretamente do alfabeto etrusco do que do seu primo mais velho, o grego), os romanos parecem ter compartilhado alguma parte da sua religião original com eles. Em inscrições etruscas é possível identificar referências a deuses e heróis comuns à mitologia romana e grega, com as quais também tinham contato e em certo nível influenciou ambas: Hércules-Hercle, Saturno-Satre, Apolo-Aplu, Proserpina-Phersipnai, Perseu-Perse, Netuno-Nethuns; o deus meteorológico que os etruscos chamavam de apa, "pai", era Tinia, que os romanos posteriormente associaram a um demônio, Tigna, que causava tempestades e trovoadas. A toga, vestimenta típica da elite romana, inclusive a toga púrpura típica dos cônsules, e, depois, dos imperadores romanos, eram heranças da nobreza etrusca, que assim se vestia. Na própria cidade de Roma, obras fundamentais, como o Circo Máximo e o Templo de Júpiter, teriam sido construídas pelos reis etruscos. Várias famílias de origem etrusca (os Lárcios, os Cecina, os Ceiônios) permaneceram influentes em Roma, onde se juntaram às famílias locais mais tradicionais na classe superior dos patrícios.

Os romanos, curiosamente, parece que guardavam rancor contra aqueles que os desafiavam. Depois de serem vencidos pelos celtas no século IV a.C., expandiram seu território na Europa especificamente sobre território céltico, culminando com a conquista da Gália e a prisão do chefe gaulês Vercingetorix; desafiados pelos cartagineses pelo controle do comércio no Mediterrâneo, empreenderam três campanhas punitivas a Cartago, e na terceira (provocada por um pagamento atrasado de tributo, imposto a Cartago) fizeram questão de salgar a terra para que nada mais pudesse crescer ali; depois de uma derrota na Germania, em que três legiões foram derrotadas e as águias de bronze dos seus estandartes levadas como troféus, os romanos passaram os 50 anos seguintes fazendo incursões nas florestas alemãs até que a última águia fosse recuperada.

Da mesma forma, os romanos guardaram enorme ressentimento contra a instituição da monarquia. Assim que a República foi proclamada, o cargo de "rei" foi extinto, substituído por dois cônsules (porque um só tinha ares de monarquia), eleitos anualmente. Uma função do rei, a nomeação ou demissão de senadores, que seria dos cônsules, foi passada aos censores. Essa supressão à figura monárquica se estendeu ao rex sacrorum (o "rei sagrado", sumo-sacerdote da cidade), que passou a ser subordinado ao sacerdote que, originalmente, vigiava os rituais de sacrifício (o pontifex maximus, o sumo-pontífice, que tinha esse nome porque era responsável pelos auspícios para a construção e manutenção das pontes sobre o rio Tibre, que era considerado um deus; o arcebispo católico de Roma, o Papa, herdou este título). Até o Regia, ou palácio real, habitado pelo rex sacrorum, passou a ser morada do pontifex maximus. Com exceção dos senadores, que eram designados pelos censores, e do próprios "reis sagrados" (que, contudo, continuaram existindo até o advento do cristianismo) quase todos os cargos da estrutura administrativa e religiosa romana passaram a ser eletivos e temporários, e todo aquele que, por ambição ou aclamação, arrogou-se a sentar-se por tempo demais no banco do cônsul, foi removido pelo senado, pelo exército, ou por demanda popular. Até o advento de Otaviano, o primeiro Imperador de Roma.

Os etruscos deixaram de existir como identidade étnica ainda durante a República, e a língua deixou de ser usada em meados do século II. O romancista finlandês Mika Waltari escreve apaixonadamente sobre os etruscos (na verdade, sobre a "periferia" do mundo mediterrâneo antigo, centrado num fictício personagem etrusco) no ocaso da sua civilização em seu livro O Etrusco.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

In hoc signo vinces

Em 28 de outubro de 312, o imperador romano Constantino venceu seu concorrente Maxêncio na Batalha da Ponte Milvia, a noroeste de Roma, abrindo o caminho para a unificação do império dividido anos mais tarde sob Constantino. No dia que antecedeu esta batalha, Constantino teve uma visão tida pelos cristãos como reveladora, e que o teria levado, ao final da vida, a se converter ao Cristianismo.

O Império Romano estava dividido oficialmente em duas metades - Ocidente e Oriente - administradas em quatro setores - o primeiro incluía Itália, Espanha, e África; o segundo França e Grã-Bretanha; o terceiro os Bálcãs e a Grécia; o quarto a Ásia e o Egito. Cada metade era dirigida por um co-imperador sob o título de Augusto, e afora os setores onde estavam as capitais imperiais (Milão, no Ocidente, Nicomédia, no Oriente), os Augustos eram auxiliados por administradores com alto grau de autonomia, também co-imperadores, sob o título de Césares. Esta divisão foi uma ideia desenvolvida pelo Imperador Diocleciano menos de 20 anos antes que deu maravilhosamente certo, dando fim à longa e destrutiva crise política que assolava Roma desde o século II. Diocleciano foi tão bem sucedido que foi um dos únicos imperadores que viveram o suficiente para se aposentarem e morrerem de causas naturais - em 305 deixou o cargo para plantar verduras na sua vila na atual cidade de Split, na Croácia.

O equilíbrio da tetrarquia de Diocleciano dependia do respeito e reverência à precedência dos Augustos sobre os Césares, e entre os Augustos, do mais antigo sobre o mais recente. Era função do Augusto mais antigo nomear novos Césares, tanto do Oriente quanto do Ocidente, e eleger, entre os Césares, qual seria o próximo Augusto. Quando Diocleciano deixou o trono (ele assumira a metade oriental do império), seu colega Maximiano, Augusto do Ocidente, também se retirou da vida pública. Não havia mais nada que impedisse a ambição dos novos Augustos e Césares. Galério, novo Augusto do Oriente, "usurpou" a prioridade sobre Constâncio Cloro, do Ocidente, e nomeou os novos Césares, duas "crias" suas, esperando com isso garantir sua supremacia política naquele momento. Constâncio morreu em 306, e suas tropas na Grã-Bretanha elevaram seu filho Constantino ao lugar do pai. Galério, confuso, engoliu a raiva e regularizou a situação, nomeando-o César, dando-lhe controle sobre a Bretanha e a Gália. Em Milão, mais tarde naquele ano, Maxêncio, filho do antigo Augusto Maximiano, também foi aclamado imperador pela Guarda Pretoriana, sob rumores de que Galério pretendia taxar as propriedades na Itália (tradicionalmente isenta de impostos sobre a terra), precipitando uma guerra civil.

Embora a guerra civil tenha se iniciado entre Galério e Maxêncio, este tinha como rival Constantino - se Constantino podia ser imperador por ser filho de um, então ele também podia. Constantino, no entanto, preferiu se manter à margem do conflito, movendo-se com diplomacia. Entre 307 e 308, manteve-se na Gália, combatendo invasores germânicos ao longo do Rio Reno. Em 308 Galério convocou uma reunião em Carnutum, nos Alpes austríacos, reunindo inclusive Diocleciano e Maximiano (que, no meio disso tudo, retornara à ativa, mas fora impedido de tomar para si o título de Augusto pelo próprio filho) para resolver o impasse sobre quem era o que. Galério promoveu um antigo companheiro seu a Augusto do Ocidente, causando revolta em vários dos candidatos, inclusive Constantino.

Em 310, o império estava repartido, e eram todos contra todos, e Maxêncio ainda tinha controle sobre a Itália. Maximiano passou a servir sob Constantino na Gália, e o traiu, espalhando boatos da sua morte, esperando ser ele mesmo aclamado imperador - mas as tropas se mantiveram leais, e Maximiano teve que fugir, cometendo suicídio após ser capturado e exposto publicamente. Maxêncio, a despeito da rivalidade com o próprio pai, preparou-se para uma campanha contra Constantino para vingá-lo. Ao mesmo tempo, Constantino, que devia seu direito ao trono ao seu pai, e este a Maximiano, agora reivindicava a ancestralidade de um certo Cláudio II, imperador entre 268 e 270. Agora, por ter sangue real que precedia a todos, tinha mais direito ao trono do que o próprio Galério. Ele também passou a associar a si uma antiga previsão registrada pelo poeta Virgílio de que Apolo herdaria o mundo de seu pai Júpiter - seu deus de adoração deixou de ser o velho Marte, deus da guerra, para ser Sol Invictus, deidade cada vez mais popular em Roma associada a Apolo, também um deus solar.

Qualquer esperança de ordem da tetrarquia foi liquidada quando Galério morreu em 311, provavelmente de uma terrível gangrena abdominal. Os mandatários romanos do momento estavam todos ocupados uns contra os outros - Licínio, da Europa oriental, marchava contra Maximino Daia, baseado na Ásia. Maxêncio perdia apoio na Itália, porque apesar de alegar seu direito à púrpura imperial, sua administração era desastrada, bancada por altos impostos comerciais, de maneira que até os cristãos, que sob Maxêncio tinham liberdade até para eleger seu Papa, não o toleravam mais. Diante da postura hostil de Maxêncio na fronteira com a Gália, Constantino firmou uma aliança com Licínio e invadiu a Itália, vencendo batalhas com pouca resistência e sendo recebido de portões abertos na capital administrativa de Milão. Outras cidades chaves também se renderam - Verona, Modena, Ravena, e até a inexpugnável fortaleza de Aquiléia. Reforçado por legiões que se uniram à sua causa pelo caminho, em outubro de 312 ele se aproximou de Roma.

Maxêncio estava esperando em Roma com o grosso do seu exército, e suprimentos suficientes para sobreviver a um longo cerco. Em 27 de outubro, ao ouvir dos adivinhos que se marchasse para a batalha, o "inimigo de Roma cairá", Maxêncio atravessou o rio Tibre ao norte de encontro a Constantino.

Ali aconteceu um evento que se tornaria uma pedra angular na história do Cristianismo. Constantino estava acampado ao norte de Roma, quando, ao entardecer do dia 27, ele teve uma visão. A descrição desta visão varia de fonte para fonte. A versão que ficou popular no mundo romano da época é de que ele olhou para o céu, e viu o sol assumir a forma de uma cruz, e ele teria visto ou ouvido uma mensagem em grego ("Εν Τούτῳ Νίκα", em latim "in hoc signo vinces", em português "com este símbolo conquistarás"). À noite, ele teria sonhado com o "deus cristão" (Jesus Cristo), que mostrou a ele um símbolo específico que deveria ser pintado nos escudos dos seus soldados, para sua proteção. Outra versão inclui a aparição do signo e da mensagem de Jesus durante a visão. O tal símbolo é um monograma que combina as letras gregas Chi e Rho (X e P), que são as duas primeiras letras de "ΧΡΙΣΤΟΣ", "Christos", Cristo em grego.

Se Constantino pintou ou não o monograma nos escudos dos soldados ou o levou no seu estandarte, é debatível. A natureza cristã da visão é uma construção posterior feita pelos seus biógrafos, um deles o bispo Eusébio de Cesaréia, que alegava ter ouvido sobre a visão do próprio Constantino; é possível que a visão de natureza solar tenha sido tomada pelos romanos pagãos como um sinal de Sol Invictus ao seu favorito. De fato, Constantino continuou cunhando moedas associando a sua imagem ao deus solar até bem tarde na sua carreira. De qualquer forma, o episódio todo ajudou a elevar a moral das tropas e a confiança do seu general.

A batalha se desenrolou no dia 28 de outubro diante da Ponte Milvia (que pode ser atravessada a pé até hoje), que liga Roma à Via Flamínia, que vem do norte da Itália, e por onde marchava Constantino. Aparentemente, Maxêncio, que tinha um exército maior, posicionou seus soldados numa ampla linha, com o Tibre às costas, porém muito próximos ao rio, de modo que não tinham muito espaço para manobrar em caso de recuo. O ataque de Constantino sobre as relutantes tropas inimigas foi decisivo, provocando este recuo e fazendo muitos caírem no rio. Maxêncio tentou recuar para Roma e organizar uma resistência dentro de suas muralhas, mas grande parte de seus homens fugiam pela Ponte Milvia ou pelos campos, e o pontilhão de madeira construído para auxiliar no movimento das tropas da cidade para o campo de batalha colapsou sob os soldados em fuga. Maxêncio morreu afogado no Tibre tentando atravessá-lo a nado.

Constantino então tomou efetivamente o controle sobre toda a metade ocidental do império. Enquanto co-imperador com Licínio, Constantino, cuja mãe era cristã (ela teria lhe oferecido cravos retirados da cruz verdadeira, um dos quais teria sido incorporado ao seu elmo), assinou com o colega o Edito de Milão, reconhecendo o Cristianismo como uma religião tolerada dentro do Império Romano e restaurando a propriedade a romanos cristãos, tomadas por Diocleciano durante um período de perseguições religiosas do seu reinado. Eventualmente Licínio venceria Maximino Daia e tentaria assassinar Constantino, o que levou os dois a uma longa guerra, vencida pelo último em 325, restaurando provisoriamente a unidade do Império. Ele o expandiu sobre a Dácia (na Romênia, província perdida no século III) e o Cáucaso, o defendeu com sucesso de francos e godos vindos da Alemanha e estava preparando uma grande campanha contra os persas quando morreu. Ao longo do seu reinado, reformulou a antiga cidade grega de Bizâncio e a transformou na nova capital imperial, Constantinopla, e promoveu discussões religiosas entre as diferentes correntes do cristianismo, como o Concílio de Nicéia.

Embora tenham sido esculpidos estátuas e bustos, e erigido monumentos em honra a Constantino incluindo neles referências ao deus solar durante toda a sua vida (incluindo o magnífico Arco de Constantino, próximo ao Coliseu), sua proteção aos cristãos e promoção do Cristianismo não passaram despercebidas. Mesmo sendo oficialmente pagão (como de costume entre os imperadores desde o início, desempenhava concomitantemente o cargo de Pontifex Maximus, ou sumo-sacerdote da Roma pagã), o lábaro que ia à frente do seu exército durante a guerra com Licínio ostentava o monograma Chi-Rho. O símbolo era um dos vários usados por cristãos primitivos para denotar a sua fé, mas após Constantino passou a ser largamente associado ao Cristianismo e usado amplamente, antes da popularização da cruz romana como símbolo. No seu leito de morte, em Nicomédia, convocou bispos locais para batizá-lo, prometendo viver uma vida cristã caso fosse salvo. Na sua morte, Constantino deixou a igreja cristã extraordinariamente fortalecida e com peso político considerável. Depois de Constantino, o único imperador pagão no Ocidente ou no Oriente foi seu sobrinho Juliano (por causa das suas perseguições aos cristãos, conhecido como Juliano, o Apóstata), cimentando uma relação entre o poder secular e o poder eclesiástico que seria típico da Europa e alhures (interferindo, em maior ou menor grau, na laicidade dos Estados Nacionais modernos), abrindo caminho para o Cristianismo se tornar a religião hegemônica do mundo ocidental.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Cláudio, imperador

Em 13 de outubro de 54 d.C., o imperador romano Cláudio sucumbiu a um envenenamento.

Cláudio nasceu no seio da família mais poderosa de Roma do seu tempo. De fato, no núcleo da primeira dinastia reinante do Império Romano, a dinastia Júlio-Claudiana formada a partir de Otaviano, filho adotivo de Júlio César, e seguida pelo tio de Cláudio, Tibério. Roma fora governada pelos dois por um total de 63 anos, vivendo um período de expansão, estabilidade interna e institucional, e prosperidade como os mais velhos nunca haviam visto.

Apesar da estabilidade política, garantida pela habilidade de Otaviano e Tibério na condução da coisa pública, a questão dinástica que conduziria Cláudio ao poder não é nada simples.

Otaviano fora escolhido em testamento por Júlio César antes de morrer como seu sucessor legal, o que lhe dava prestígio para assumir, apesar de ter apenas 19 anos, um lugar entre os veteranos generais Marco Antonio e Lépido no triunvirato que governou Roma durante a guerra civil que se seguiu. A guerra, que começou contra os assassinos de César, terminou com a vitória de Otaviano sobre Antonio e sua coroação no ano 27 a.C.. Otaviano reinou por 40 anos, tempo no qual transformou a si mesmo numa figura monárquica (Imperator, incorporando ao seu nome os títulos de Augustus Caesar), gradualmente enfraquecendo as instituições republicanas do consulado e do senado. A República Romana, virulentamente anti-monarquista, viria a aceitar a ideia de ter um cidadão sobre os demais, a ser sucedido por herdeiros de sangue ou adoção.

Durante a guerra civil entra em cena uma jovem chamada Lívia. Da antiga e prestigiosa família (gens) dos Cláudios, Lívia parece ter persuadido Otaviano a se divorciar de sua segunda esposa, Scribonia, para ficar consigo (Otaviano se divorciou no dia em que Scribonia dava à luz sua única filha Júlia). De família de origem plebeia, a união de Otaviano com Lívia trouxe benefícios para ambos. A astúcia de Lívia era infernal, e com ela protegia o marido das intrigas palacianas, ao mesmo tempo em que Otaviano, igualmente sagaz, mantinha suas maquinações permanentemente em cheque. Os dois viveram juntos por 43 anos, mas não tiveram filhos. Lívia trazia de seu casamento anterior com seu primo Tibério Cláudio Nero (nomes que se repetem muito na família) dois filhos, Tibério (igualmente Tibério Cláudio Nero) e Druso.

No entanto, Otaviano tinha como favorito um sobrinho seu chamado Marcelo, com quem casou a filha Júlia tendo em vistas legitimá-lo como sucessor. Lívia, por sua vez, também tinha seu favorito, o mais velho Tibério - político e militar hábil, mas emocionalmente inseguro e influenciável. Marcelo morreu dois anos depois do seu casamento, e cronistas antigos como Cassio Dio sugeriam que teria sido envenenado por Lívia. Talvez pressentindo alguma armação da esposa, Otaviano voltou-se ao seu amigo Agripa (com quem também casou Júlia), veterano da guerra civil, nomeando-lhe para importantes cargos administrativos. Seus filhos Gaio e Lúcio também figuravam entre os favoritos à sua sucessão. Os dois também morreram no auge do vigor físico de doenças misteriosas com dois anos de intervalo entre si (Tácito também sugere a participação de Lívia). Com os dois fora do caminho, finalmente Tibério caíra nas graças do imperador. Seu irmão Druso morrera pouco antes dos dois rapazes, supostamente devido à queda de um cavalo (dessa vez, a suspeita recai sobre Otaviano, alvo de críticas suas escritas em carta entre a queda do cavalo e sua morte).

Druso era um militar competente de quem Otaviano gostava muito. Estava encarregado da principal frente de combate nas fronteiras do império, na Germania Inferior. Os legionários sob seu comando também o adoravam (após a sua morte eles erigiram uma torre de tijolos em sua homenagem, que existe até hoje em Mainz, na Alemanha). Druso se casara com Antonia, filha de Marco Antonio, e teve com ela três filhos: Germânico, Livilla, e Cláudio. Germânico era um militar tão competente e carismático quanto Druso, em parte herdando seu prestígio, e em grande parte construindo sua própria carreira com vitórias decisivas contra os germânicos no norte. Livilla era o oposto do ideal de modéstia e austeridade da mulher romana. E Cláudio, o mais novo, era visto como uma aberração.

As descrições de Cláudio, do seu temperamento, comportamento, características físicas, nos levam a supor que ele teve algum problema congênito ao nascer. Ele tinha dificuldades de fala e locomoção ("claudius", coincidentemente, significa "manco"), tinha crises de gagueira, tiques nervosos ou espasmos que pioravam quando sob stress, especialmente quando se pronunciava em público. Seu quadro se parece com paralisia cerebral. Era intelectualmente saudável, dedicando sua vida aos livros, mas seu aspecto físico o levava a ser tratado pela própria família como um retardado, e mantido longe dos olhos do público, embora Otaviano se interessasse pelos seus estudos (Cláudio escreveu uma História dos Etruscos, que seria possivelmente a fonte mais valiosa sobre aquele povo se o livro tivesse sobrevivido até o nosso tempo). Suas limitações físicas talvez o tenham mantido em "segurança" enquanto as cabeças caíam à sua volta.

As maquinações de Lívia levaram Tibério ao poder (foi nos primeiros anos de Tibério que Germânico foi morto), e ela continuou desempenhando um papel central na política romana até seus últimos anos. A harmonia entre os dois desapareceu à medida em que aumentava o ressentimento de Tibério pela mãe, a quem devia seu próprio posto. Quando ela morreu, Tibério mandou seu sobrinho-neto Calígula (filho de Germânico) em seu lugar para lhe prestar as últimas homenagens. Tibério passou os seus últimos anos isolado na ilha de Capri, entregue a orgias sexuais e bebedeiras (sua paranóia devido a uma tentativa de golpe armado pelo prefeito pretoriano Sejano, cria de Lívia e com quem Livilla tinha um caso, o tornou ainda mais recluso). No final, Tibério era tão impopular que, ao receber a notícia da sua morte, o povo celebrou nas ruas, apenas para ficar em silêncio quando se soube que ele estava se recuperando, e voltar a festejar quando se soube da sua morte pelas mãos do próprio sobrinho-neto. Sem Lívia para regular o ambiente em torno do trono, Tibério, cujo único filho já estava morto, entregou em testamento seu cargo para Calígula e seu neto Gemelo.

O primeiro ato de Calígula foi anular o testamento de Tibério e mandar executar Gemelo.

Depois de mais de 60 anos de estabilidade, Calígula governou Roma como um louco. Apesar de ter tentado manter uma aparência republicana nos primeiros meses e promovendo o bem público, ele tomou rapidamente outro rumo depois de uma suposta tentativa de envenenamento. Empreendeu perseguições e execuções sem julgamento, não poupando sequer suas irmãs, que também eram suas amantes. Seu tio Cláudio, com suas deficiências, era mantido por perto para a sua diversão, como uma espécie de bobo, em quem convidados dos banquetes eram encorajados a atirarem caroços de frutas. Patrocinando eventos teatrais e jogos de proporções gigantescas, levou o império à sua primeira crise econômica (houve um ponto em que a fome afetou o império porque Calígula havia requisitado todos os navios disponíveis para construir uma ponte de mais de 3 quilômetros perto de Puteoli, simulando a ponte de Xerxes sobre o Estreito de Bósforo, sobre a qual cavalgou sozinho em seu cavalo Incitato usando a armadura de Alexandre, o Grande). No final, o senado, os patrícios e os cavaleiros queriam se ver livres dele. Calígula foi assassinado durante um festival de teatro por Cassio Querea, prefeito pretoriano constantemente humilhado em público pelo imperador.

Além de Calígula, vários nobres ligados a ele e familiares (incluindo sua esposa "oficial" Cesonia e sua filha de dois anos) também foram assassinados. Cláudio, que estava no palácio, entendeu que mesmo estando fora da cena política ele poderia ser o próximo, e se escondeu. Um guarda pretoriano o encontrou atrás de uma cortina e o chamou, talvez em tom sarcástico, de "princeps". Enquanto tudo estava confuso, o guarda o escoltou para o acampamento da guarda pretoriana, talvez para discutir o seu preço, ou, talvez ainda, usá-lo como títere. Os senadores, incluindo os conspiradores, se reuniram às pressas, e rapidamente se dividiram em facções, incapazes de concordar com o nome do próximo imperador. O único nome seguro e com alguma legitimidade que ainda tinham era o pobre Cláudio (que, por segurança, se recusou a atender à reunião em pessoa).

Aos 50 anos, de aberração e bobo da corte a imperador de Roma. Cláudio procurou assegurar sua posição perdoando os senadores envolvidos no assassinato de Calígula, assim como perdoando certas dívidas e distribuindo subornos (como, por exemplo, na forma de um aumento substancial no soldo da guarda pretoriana), ao mesmo tempo em que reafirmava aos que não o conheciam que ele era da linhagem de Augusto, até mesmo de Júlio César (alterou seu nome para Tibério Cláudio César Augusto Germânico, nomes de todos os notáveis que o precederam). Também lançou uma ambiciosa e bem sucedida invasão à Grã-Bretanha, usando-se de quatro legiões, elefantes de guerra, incontáveis navios, efetivamente submetendo várias tribos célticas que habitavam a ilha e assegurando uma nova posição romana por lá, pavimentando o caminho para a sua subsequente colonização. Por causa disso, foi consagrado com um desfile em triunfo pelas ruas de Roma e aclamado como deus vivo. Cláudio também cativava o povo com seu gosto pelos jogos, promovendo certa vez uma encenação de uma batalha naval, colocando dois navios autênticos dentro de um estádio inundado, com marinheiros e soldados a bordo, simulando a Batalha do Lago Fucino. Também era um legislador razoável, com uma paixão particular pela função de magistrado.

Cláudio não teve sorte com as mulheres. Depois de dois noivados cancelados (o primeiro por problemas políticos, o segundo pela morte súbita da noiva no dia do casamento), casou-se quatro vezes com mulheres que lhe eram indiferentes, abusivas ou manipuladoras. A terceira esposa, Messalina, tomou vários amantes a ponto de competir com uma prostituta conhecida para saber quem conseguiria ter mais relações com homens diferentes durante uma noite, pelo que "messalina" se tornou sinônimo de prostituta, e foi executada por conspiração e adultério (Messalina se casou em público com um amante enquanto Cláudio supervisionava a chegada de navios de grãos no porto de Ostia). A última esposa, sua sobrinha Agripina, tinha um filho, que também era neto de Germânico, chamado Lúcio Domício, ou Nero (o último e mais famoso Nero da dinastia Júlio-Claudiana).

Nero já tinha 12 anos, era 4 anos mais velho que o jovem Britânico, filho de Cláudio e Messalina. Agripina convenceu Cláudio a adotar Nero, para assegurar uma sucessão segura ao trono. A exemplo de Tibério, deixou em testamento o seu posto para Nero e Britânico, sendo o primeiro encarregado dos negócios públicos até o segundo atingir a maioridade. Em certo momento, Agripina, cujo casamento era meramente por interesse, e Cláudio, que entrara no negócio atraído pela sua beleza física, passaram a brigar constantemente, e nos seus lamentos, Cláudio teria lembrado que Britânico chegaria à maioridade e traria novo brilho à sua família. Com a posição de Nero ameaçada, Agripina teria planejado sua morte por envenenamento, possivelmente fazendo-o comer cogumelos tóxicos. A dose teria sido mal calculada, de modo que a agonia teria demorado horas, e requerido uma outra dose. Meses depois de um funeral com honras divinas, seu filho Britânico foi morto pelo próprio Nero, que se tornou o último imperador da sua dinastia.

Os dois romances de Robert Graves - "Eu, Claudius, Imperador", e "Claudius, o Deus, e Messalina" - narrados em primeira pessoa, são as principais recriações e as obras literárias modernas mais completas sobre a vida de Cláudio e a crueldade dos bastidores da política romana que o conduziram ao poder e levaram à sua queda.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Rapidinhas, ou "Somos todos Plutarco"

Dia 23 de setembro é data de nascimento de dois formadores de impérios, Otaviano Augusto, de Roma (63 a.C.) e Kublai Khan, da China (1215).

Eu não sou Plutarco e não vou me atrever a escrever algo na linha de seu Vidas Paralelas. A ascenção de Otaviano ao poder tomou vias incrivelmente convolutas, que envolveu casamentos feitos e desfeitos, conquistas e assassinatos de seu patrono e "pai adotivo" Júlio César (possivelmente, alguma adulteração do seu testamento também), uma guerra civil que começou com uma aliança com seu maior rival, e terminou com a morte deste, e, uma vez no poder, a transformação gradual do seu status para se tornar o primeiro imperador de Roma. Kublai Khan, por outro lado, era neto de Genghis Khan, conquistador que espalhou o domínio mongol por toda a Eurásia. Após a sua morte, seus herdeiros mais capazes foram eleitos para o seu lugar, e Kublai, educado por chineses, foi o último Grande Khan reconhecido universalmente por 1/5 de todas as terras do planeta - às quais ele adicionaria o norte e o sul da China, fundando a dinastia Yuan. O império de Augusto durou mais tempo do que a dinastia Yuan.

Qualquer um dos dois personagens oferece uma vastíssima gama de assuntos que poderiam ser tratados, e eu realmente não tenho tido muito tempo para me dedicar com profundidade a temas tão abertos. Por essa razão, eu evitei escrever sobre Marco Polo em duas oportunidades nas últimas semanas, quando chegaram as datas em que ele ditou suas aventuras na prisão, e a de sua morte - as vidas de Marco Polo e de Kublai Khan se cruzaram de maneira indelével na sua estada na China, trazendo para o Ocidente as primeiras notícias detalhadas do extremo oriente. É muita história para ser escrita durante um dia, nos intervalos do trabalho.

Mas isso não é desculpa para inatividade! Então aí vão outras rapidinhas... no irresistível estilo de Plutarco:

Por coincidência, 23 de setembro também é a data em que Noruega e Suécia se tornaram países independentes de maneira pacífica em 1905 (anteriormente unidos sob a coroa sueca), e a data oficial de incorporação dos reinos árabes de Nejd e Hijaz (conquistado na década anterior) em 1932, sob o sultão Abdulaziz ibn Saud, de Nejd, formando a Arábia Saudita.

É o dia em que um negro americano é condenado vai a julgamento (e será o único condenado dos oito acusados) por atos de vandalismo e incitação à violência em um protesto contra a Guerra do Vietnã em Chicago (Bobby Seale, em 1969), e o dia em que um branco se torna o primeiro boxeador africano a se tornar campeão mundial dos pesos pesados (Gerrie Coetzee, em 1983, vencendo Michael Dokes).

É a data em que falecem o criador da psicanálise Sigmund Freud (1939), o poeta chileno Pablo Neruda (1973).

Edward Lee Howard, agente da CIA, é preso como espião na União Soviética em 1985, enquanto, durante a Revolução Americana, foi o militar britânico John André que os revolucionários prenderam por espionagem em 1779.

Em 1911, o americano Earle Ovington, pilotando um Blériot XI, conseguiu entregar a primeira encomenda aérea da História, e em 1999, a NASA perdeu contato com a sonda Mars Climate Orbiter, projetada para se tornar um satélite meteorológico no planeta vermelho e destruída durante uma entrada acidental em sua atmosfera.

De acordo com alguns teoristas, o dia 23 de setembro também é o dia em que o mundo será destruído por um evento cataclísmico global. Ou ao menos é em que acredita o ministro do exterior da França, monsieur Laurent Fabius.

Então, até amanhã.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Águias perdidas na floresta de Teutoburgo

Em 9 de setembro do ano 9 d.C., três legiões romanas foram aniquiladas por uma coalizão de tribos germânicas na Batalha de Teutoburgo.

Nos seus últimos anos, a República Romana avançou suas fronteiras sobre a Gália, atual França, estabelecendo uma nova linha de fronteira ao longo do rio Reno. A Gália havia muito era habitada por povos celtas, que viviam assentados em vilas e aldeias e cultivavam a terra, de maneira que aquele novo território se tornou prontamente uma valiosa aquisição para a economia romana, ao mesmo tempo em que o modo de vida romano não pareceria tão estranho aos povos nativos, que continuariam vivendo e produzindo mais ou menos como já vinham fazendo. A conquista da Gália rendeu ao seu comandante, Júlio César, prestígio suficiente para se tornar a figura mais influente de todo aquele império "republicano", desencadeando uma série de eventos que levaria à transformação de Roma em um império de fato, sob seu herdeiro Otaviano Augusto.

A nova fronteira se mostrou bastante prática. Era possível navegar em vias fluviais do Mediterrâneo até a foz do Reno, na Holanda, com curtas passagens por terra, evitando a longa e perigosa volta pelo Atlântico. Além disso, como a Gália já possuía uma infraestrutura de abastecimento de homens e víveres, as fortalezas fronteiriças poderiam ser sustentadas sem grandes dispêndios. A nascente do Reno, nos Alpes, fica a poucos quilômetros de terreno montanhoso da nascente do rio Danúbio, que os romanos também controlavam em todo o seu curso. A linha Reno-Danúbio era tão eficaz que sustentou a fronteira do império na Europa, a despeito de todos os seus problemas e crises internas, até meados do século V. Quando consolidada a conquista da Gália, os romanos dividiram as terras ao longo do Reno em duas províncias, a Germania Superior e a Germania Inferior.

O nome Germania derivava da designação genérica que os romanos davam aos povos que habitavam o norte da Europa. De fato, foi o próprio Júlio César quem primeiro reportou os povos "bárbaros" das florestas do norte como "germanos", mais especificamente Germani Cisrhenani ("germanos d'além Reno"). Além do Reno, várias tribos de uma mesma família linguística, que hoje conhecemos como germânica, vinham migrando do norte, da Escandinávia e do norte da Alemanha e da Polônia desde pelo menos o século VIII a.C., deslocando os povos célticos que ali habitavam em direção à Gália ou à Grã-Bretanha. Foi esse movimento migratório de tribos germânicas em direção ao sul e à Gália (a Bélgica já era ocupada por tribos germânicas) que motivou a campanha de César. Esses povos migrantes ainda estavam completando o período formativo de sua própria civilização, habitando aldeias esparsas e praticando a agricultura e pastoreio rústicos em torno de suas vilas, deixando a maior parte das florestas intocadas. A visão de um observador romano olhando para o leste da nova fronteira, na Bélgica, seria de uma região assombrosamente selvagem e primitiva, e seus habitantes igualmente selvagens. Essa região inóspita para o estilo de vida romano ficou conhecida como Germania Magna.

César advogava que os germanos, a contrário dos celtas, eram violentos e incivilizados, representavam um perigo para os romanos, e por isso precisavam ser conquistados. Durante o governo de Otaviano, Roma fortificou sua fronteira ao longo do Reno. Apesar de todas as vantagens, Otaviano via com bons olhos o avanço da fronteira sobre a porção de terras cobertas por florestas da Germania Magna até o rio Elba, que corta o centro da atual Alemanha, reduzindo significativamente a extensão de fronteira a ser defendida, e absorvendo um grande contingente de germanos para o seu império. Na virada do milênio, uma confederação de tribos germânicas mais próximas à fronteira romana, "march men", "homens da fronteira", ou marcomanos, vinham fustigando as posições romanas na Germania Superior. Essa força súbita dos marcomanos se devia ao movimento causado pela campanha bem sucedida de Nero Cláudio Druso (pai do futuro imperador Cláudio) em 9 a.C., e outra liderada por Tibério (outro futuro imperador), chegando a atravessar o rio Wesser, que atravessa a atual cidade de Bremen (cuja foz está a cerca de 50 km da foz do Elba), que levou esses marcomanos a entrar em território ocupado por outras tribos e estabelecer alianças. O rei eleito entre eles, Maroboduo, ainda teve que suportar uma campanha ainda maior, com mais de 80 mil soldados romanos Germania adentro, no ano 6 d.C.. Ele conseguiu se sustentar porque Tibério teve que recuar para atender a uma rebelião na Ilíria.

Com os marcomanos acuados, Otaviano lançou mão de Públio Quntículo Varo, administrador experiente e impiedoso, para consolidar a ocupação romana na Germania, onde já contavam com pelo menos dois fortes. A seu serviço, apenas três legiões, a XVII, a XVIII e a XIX (as três legiões com experiência contra os germanos na campanha anterior), enquanto outras estavam mobilizadas na Ilíria. Foi neste momento em que Armínio entrou em cena.

A campanha de Druso trouxe para Roma como refém Armínio, jovem de família nobre da tribo germânica dos queruscos. Armínio foi educado e treinado nas artes militares, chegando a conseguir cidadania romana e uma posição na classe dos equites ("cavaleiros", geralmente funcionários públicos, donos de negócios, algo que se poderia comparar com uma classe burguesa). Sua posição e nascimento lhe garantiam influência sobre outros germanos dentro do império, e assim ele liderou um destacamento de queruscos a serviço dos romanos durante a conquista da Panonia (atual Hungria). No ano 7 d.C., ele retornou à Germania além do Reno, conquistando a lealdade das tribos recém subjugadas por Roma, tribos anteriormente inimigas entre si, ganhando a confiança de Públio Varo. Mas logo ele começou a conspirar contra os romanos.

Em 9 d.C., Armínio procurou Varo para denunciar uma rebelião no norte da Germania. Com a orientação de Armínio, Varo conduziu suas três legiões em direção à foz do Wesser, em terreno desconhecido. Em um certo momento, o chefe germânico deixou o destacamento sob pretexto de arregimentar as tribos locais para dar suporte à expedição. Mas assim que saiu das vistas de Varo, Armínio começou a comandar uma série de ataques às guarnições romanas deixadas para trás, cortando comunicações e linhas de suprimentos. Os romanos não marchavam em formação de combate, e enfrentavam um temporal, com terreno encharcado e estreito, estendendo a linha de marcha em talvez 20 quilômetros. Varo não mandara nenhum batedor à frente confiando nas direções de Armínio. Em 7 de setembro, na floresta de Teutoburgo, perto de Onasbrück, os germanos comandados por Armínio saíram em torrentes das florestas ao redor para combater o exército desorganizado. A reação de Varo e seus comandantes foi imediata, mas o conhecimento militar de Armínio foi decisivo, direcionando seus homens para responder às manobras defensivas romanas, concentrando-os em pontos específicos da linha inimiga onde pudesse impor alguma superioridade numérica.

Os romanos sustentaram o ataque até a noite, quando montaram um acampamento fortificado perto da atual Ostercappeln, de onde tentaram uma retirada organizada na manhã seguinte. Muitos dos que tentaram deixar o acampamento, contudo, foram abatidos pelos germanos que inundavam as florestas ao redor. Os que escaparam deveram sua sorte à chuva, que inutilizava as cordas dos arcos e encharcava os escudos dos agressores posicionados para impedir sua fuga. Na noite seguinte, os romanos arriscaram uma marcha pela passagem estreita entre a floresta e a colina de Kalkriese, em Onnasbrück. Ali, os germanos cavaram uma trincheira bloqueando o caminho, e na margem da floresta levantaram uma barreira de terra. Na manhã de 9 de setembro, os romanos foram emboscados e aniquilados. Os que não tombaram pelas espadas e dardos germânicos, suicidaram-se à maneira considerada digna pelos militares romanos, atirando-se sobre suas próprias espadas para evitar serem capturados. Cerca de 20 mil dos 30 mil legionários romanos foram mortos. Armínio enviou a cabeça de Varo a Maroboduo, que àquela altura estava atacando o Danúbio. As águias de bronze, que vinham sobre os estandartes de cada legião, se tornaram tesouros para os germanos.

A derrota de Varo foi recebida com assombro em Roma. A Germania Magna foi abandonada, e as guarnições de fronteira voltaram a reforçar as defesas ao longo do Reno. Ela significou o fim da expansão romana no norte da Europa continental, embora os romanos, eventualmente, enviassem expedições punitivas contra germanos quando estes atacavam a fronteira. A mais importante dessas expedições, liderada por um filho de Druso, Germânico, já sob o governo de seu tio Tibério, resgatou duas das três águias imperiais em poder de Armínio, o que fez de Germânico um herói em Roma e arruinou o poder de Armínio entre seus aliados. Uma campanha em 41 d.C. recuperou a terceira águia, e uma última nove anos depois derrotou um bando da tribo dos catos na outra margem do Reno e resgatou alguns prisioneiros romanos das legiões de Varo, mantidos em cativeiro havia 40 anos. Apesar das campanhas punitivas bem sucedidas - a campanha de Germânico arrasou as tribos locais durante dois anos - os romanos nunca mais tentaram povoar a região. É possível que, com o tempo, a ideia de avançar a fronteira até o Elba tenha sido vista com mais reservas, devido às dificuldades logísticas - as rotas de abastecimento teriam que ser feitas por terra, ou por navegação oceânica. A numeração das três legiões perdidas nunca mais foi utilizada.

A derrota em Teutoburgo poderia ter sido mais trágica para Roma se não fosse uma rivalidade repentina surgida entre Armínio e Maroboduo - o rei marcomano, ao receber a cabeça de Varo com uma proposta de aliança, recusou-a e a enviou de volta a Otaviano em sinal de respeito, e quando Germânico marchou contra o querusco, Maroboduo se manteve neutro. A união entre os dois chefes germânicos, atacando simultaneamente em dois pontos da fronteira, poderia ter comprometido o domínio romano no Danúbio e na própria Gália. Ao invés disso, eles entraram em guerra em 17 d.C.. Uma manobra romana devolveu aos marcomanos um nobre local sob sua tutela, e Maroboduo fugiu para a Itália, onde morreu após 18 anos na prisão. Armínio morreu em 21 d.C., assassinado por rivais queruscos.

A Germania Magna, da qual os romanos abriram mão após Teutoburgo, continuou a ser o caldeirão onde as tribos germânicas se desenvolviam e se moviam, e apoiavam seus eventuais ataques às fronteiras. Um surto de movimentos migratórios em cadeia, originados pela migração dos hunos vindos do norte do Mar Negro no século IV, empurraria as tribos germânicas furiosamente contra as fronteiras do império até que elas não resistissem mais. Sob essa perspectiva, Teutoburgo poderia representar a primeira grande derrota do Império Romano, uma com consequências fatais a longo prazo. Os povos germânicos que furaram o bloqueio e estabeleceram-se em território romano, e os que permaneceram no centro e no norte da Europa, contribuíram para a formação étnico-linguística e a reorganização política e social do continente (e do mundo afora) até os dias de hoje.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

O canto do cisne do Império Romano

O dia 4 de setembro de 476 é a data oficial da queda do Império Romano do Ocidente. Neste dia, o general Odoacer tomou Ravena, último bastião imperial na Itália, e depôs o jovem imperador Rômulo Augusto, proclamando a si mesmo Rei da Itália. Mas o que é tradicionalmente transmitido como marco de fronteira na linha histórica - o início da Idade Média - representou, na verdade, uma transição relativamente lenta e confusa.

Roma passou por um longo declínio que pode ser detectado a partir do século III, período de repetidas crises de produção, agitações sociais e tumultos políticos. Há quem diga que Roma não deixou de existir já naquela época porque, fora das suas fronteiras, os povos germânicos e o Império Parta também sofriam do mesmo mal (o século III também se manifestou em graves crises na China que levaram à dissolução do Império Han, fazendo crer que algum fator sistêmico afetou toda a Eurásia de alguma forma mais ou menos ao mesmo tempo). Sob a ampla reforma administrativa do Imperador Diocleciano, que dividiu a administração em Ocidente (centrado em Roma) e Oriente (com capital em Bizâncio/Constantinopla), o Império Romano conseguiu se reerguer por um tempo. Mas as crises não tardariam a enfraquecer o Império, sobretudo a metade ocidental, sob forte pressão de povos germânicos empurrados para suas fronteiras pelas hordas de hunos que vinham do leste. Os romanos cederam territórios para várias tribos germânicas, esperando conseguir incorporá-las a si mesmos e garantir sua pacificação.

O Império Romano que Rômulo Augusto herdou era meros fragmentos do que já fora um dia. Sob a autoridade imperial estavam apenas a Itália, a Dalmácia, a Sicília (nem toda), e a Neustria (grande parte do norte da Gália). Roma sequer era a capital administrativa do Império desde fins do século IV, tendo o imperador e o senado se transferido para Ravena. Em 476, a cidade de Roma era habitada por cerca de 50 mil habitantes, dez vezes menos do que fora 200 anos antes, ocupando esparsamente os edifícios mantidos em pé, cercados por ruínas, vinhas e praças abandonadas e cobertas de mato. O Império do Oriente, àquela altura, tratava o Ocidente como um Estado-cliente, cujos últimos imperadores haviam sido nomeados por Constantinopla. O pai de Rômulo, Orestes, que serviu entre os hunos como diplomata de Átila, foi nomeado comandante em chefe, Magister militum, pelo então imperador Júlio Nepos em 475, e logo depois comandou uma rebelião que capturou Ravena. Nepos fugiu para a Dalmácia. Orestes recusou o cargo para si, mas nomeou seu filho, de 14 anos, colocando-se como seu representante e guardião.

O exército romano estava sob o controle de antigos guerreiros germânicos. Odoacer, cuja origem étnica é incerta (poderia ser germânico, talvez huno ou proto-turco, mas certamente não era romano), era um general. O problema é que ele era leal a Júlio Nepos.

Quando Rômulo assumiu o trono, mercenários germânicos (foederati) exigiram que ele lhes entregasse um terço das terras da Itália. Com a recusa, esses foederati, liderador por Odoacer, capturaram e executaram Orestes em Piacenza, e marcharam para Ravena. Praticamente sem defesas, pois os soldados e guardas que restavam deviam pouca ou nenhuma lealdade a Rômulo, a cidade caiu com facilidade. Preso, o jovem imperador se vu forçado a entregar a coroa ao seu captor.

É neste ponto que os livros de História costumam terminar um capítulo. O problema todo é que Odoacer, ao contrário de tantos outros usurpadores antes dele, não queria ser Imperador.

O senado romano foi preservado. Odoacer não apenas o preservou, como também manteve ativas instituições senatoriais que há muito já não tinham função prática, como cargo de cônsul (há séculos uma relíquia da República Romana), e nomeava senadores romanos para este e outros cargos. Odoacer enviou senadores a Constantinopla para requisitar ao Imperador Zenon a unificação do Império ("Apenas um imperador basta para governar o mundo"). Talvez perplexo, Zenon concedeu a Odoacer o título de patrício (a classe mais alta da sociedade romana) e o governo da Itália, mas determinou que mantivesse sua lealdade a Júlio Nepos, que ainda estava vivo e governava uma boa faixa de terra na Dalmácia (onde hoje estão Croácia e Bósnia Herzegovina). Odoacer, contudo, não recolocou Nepos no trono e assumiu o reinado sobre a Itália, enquanto o imperador romano legítimo ainda governava uma das antigas províncias. Além deles, Flávio Siágrio, comandante militar da Gália, mantinha o que restava dela nominalmente sob controle romano, embora não necessariamente leal a Nepos. Na África, os mauros, povo nativo da Argélia e antigo cliente de Roma, mantinham um Estado organizado nos moldes romanos e independente do novo reino vândalo na região, e eventualmente solicitariam reconhecimento do Imperador bizantino Justiniano I como herdeiros legítimos do Império do Ocidente. O próprio Império Bizantino existiu como "Império Romano", tanto como autônimo, como também na diplomacia internacional, de maneira que, aos observadores medievais, o Império Romano, em última análise, nunca deixou de existir (de fato, "Império Bizantino" surge na literatura para se referir ao Império Romano do Oriente apenas no século XVI). Isso sem falar no Sacro Império Romano, que existiu desde o século X até o século XIX.

Quando Júlio Nepos foi assassinado em 480, Odoacer anexou a Dalmácia ao seu território enquanto perseguia os assassinos. Ninguém se importou em procurar Rômulo - cujo paradeiro depois de entregar a coroa a Odoacer é incerto, mas aparentemente foi mandado para seus parentes na Campânia - para suscitar uma rebelião contra o rei bárbaro. Nem sequer houve um movimento para restaurar Júlio Nepos enquanto este esteve vivo. De fato, Odoacer foi tão decidido e prático na administração da Itália, atento às demandas locais, que seu reinado pareceu satisfatório a quase todo ex-cidadão romano, cuja lembrança naquela altura era de imperadores fracos e vaidosos e de desleixo com a administração pública. Isso atraiu a atenção de Zenon, contra quem, aparentemente, Odoacer estaria conspirando.

Zenon convocou Teodorico, rei dos ostrogodos. Esses ostrogodos também eram empregados como foederati por Constantinopla, mas sua cultura guerreira e sua insubordinação estavam se tornando um problema. Zenon lhes prometeu a Itália em troca da cabeça de Odoacer. Durante cinco anos os ostrogodos arrasaram a península, mas não conseguiam chegar a Odoacer, e nem o rei conseguia expulsá-los. Em 493, enfim, Odoacer e Teodorico chegaram a um acordo em que reinariam conjuntamente. No banquete de celebração, os homens de Teodorico mataram Odoacer, e o próprio rei ostrogodo partiu seu corpo ao meio. Os ostrogodos estabeleceram seu poder na Itália, até que, na época de Justiniano, em 553, o Império Bizantino os esmagou. Roma, propriamente dita, voltou ao controle "romano", embora o poder na cidade fosse, na prática, exercido pela Igreja. Através de doações, o Papa se tornou o senhor de terras mais poderoso da Itália, e, à medida em que o poder bizantino na região foi diminuindo, estabeleceu para si um reino secular próprio, os Estados Papais (um corredor atravessando a península entre Roma e Ravena). O Estado do Vaticano é tudo que restou.

A queda de Rômulo (ironicamente, homônimo do fundador de Roma) não abalou o mundo como pode parecer. A passagem da Antiguidade para a Idade Média foi um processo mais prolongado, que começa bem antes e termina bem depois de 476, que passa por uma transformação organizacional e cultural do mundo romano para absorver o novo estrato germânico que se fixou no seu espaço. O longo declínio no padrão de vida e o estabelecimento do cristianismo como religião hegemônica começam no século III, a organização das cidades e a vida urbana - e a tendência à interiorização - também sofrem um gradual abandono a partir do século IV. A mudança de paradigmas para a organização dos exércitos (de corporações profissionais disciplinadas, organizadas em legiões numerosas com ênfase na infantaria, a corporações restritas a mercenários e nobres capazes de armar a si mesmos e a seus vassalos, com um núcleo de infantaria e cavalaria pesadas) começou no século III, com o aumento da importância da cavalaria, e no século seguinte, quando os alanos trouxeram as armaduras pesadas que eles desenvolveram para resistir aos arqueiros hunos. A fragmentação do poder começou no próprio Império Romano, com o enfraquecimento da figura do imperador e a ascensão dos senhores de terras (cada vez mais poderosos ao se apropriarem de propriedades de terceiros por causa de dívidas ou herança). A língua latina continuou a ser usada como língua dos documentos oficiais e da erudição fins do segundo milênio depois de Cristo (e a língua da liturgia católica até o século XX), mas ela já vinha se transformando inexoravelmente em cada região onde um povo bárbaro se estabelecesse dentro das antigas fronteiras. O quadro todo só vai se estabilizar bem mais adiante.

Por isso, para fins de classificação e organização do conhecimento, enquanto muitos marcam o fim do mundo antigo na queda do último imperador do ocidente, alguns avançam a data para a queda do Reino Ostrogodo, o advento do Islã no Oriente Médio, ou a coroação de Carlos Magno em Roma após derrotar os lombardos (como "Imperador Romano"!). É mais fácil pensar que, desde, talvez, Teodósio I, o último imperador romano a governar as duas metades do Império até 395, o Império Romano do Ocidente tenha se tornado um morto-vivo, cujo processo de decomposição foi muito longo, em que a queda do último imperador talvez nem tenha feito muita diferença.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Cesarion, o último faraó

Em 23 de junho de 47 a.C. nasceu Cesarion, filho de Cleópatra e Júlio César.

Cesarion nasceu após uma visita de Júlio César a Cleópatra, no Egito. A faraó havia assistido César durante a guerra civil contra os partidários de Pompeu, que terminaria assassinado enquanto buscava refúgio no Egito. Cleópatra sustentava que ele era filho de César - então cônsul e a figura mais proeminente de Roma, de quem o Egito se tornara um Estado-satélite. Nos seus primeiros dois anos de vida, ele e sua mãe viveram em Roma como convidados de César. O general romano, contudo, nunca assumiu a paternidade do menino, tendo já se comprometido em testamento com a adoção de seu sobrinho-neto Otaviano como seu herdeiro. Cesarion seria o primeiro e único filho biológico de César. Cleópatra retornou com ele rapidamente para o Egito, e o proclamou Faraó.

O assassinato de César em março de 44 a.C. fragilizou a posição de Cleópatra e a soberania do Egito. Se seguiu uma guerra civil, onde o Triunvirato de Otaviano, Marco Antonio e Marco Emílio Lépido saiu vitorioso. A República foi provisoriamente repartida entre os três, ficando Antonio encarregado da administração das províncias orientais. Enquanto visitava suas novas possessões, Antonio encontrou-se com Cleópatra em Tarso, onde participaram de um grande banquete. Os dois passaram o inverno juntos, e o romance resultou em um par de gêmeos.

Já casado com a irmã de Otaviano, Otávia, e sentindo-se negligenciado por Roma quanto à sua campanha contra o Império Parta, Antonio partiu para o Egito em 37 a.C. em busca de suporte financeiro. Nesse momento, Otaviano expandia seu controle sobre a parte ocidental de Roma, forçando a aposentadoria de Lépido, assumindo seus domínios na África, e reforçando, com sua presença, seu favor diante do senado. Embora entre os dois não houvesse ainda uma ruptura política formal, parece que Antonio começou a se mover no sentido de fortalecer sua posição no oriente para fazer frente ao poder de Otaviano, apoiando-se no Egito.

Ele começou a distribuir províncias para os filhos de Cleópatra (Cesario e os seus). Em uma dessas medidas, em 34 a.C., ele também reconheceu Cesarion como filho legítimo e herdeiro de César. Além de receber como doação terras públicas, seu novo status oficial de "deus" e "filho de um deus" (porque César fora proclamado deus em 42 a.C.) irritou demais Roma. O senado vetou as doações e considerou um ultraje à dignidade do cidadão romano a deificação de um estrangeiro. Mas foi o reconhecimento de Cesarion como herdeiro de César que mais preocupou Otaviano, pois toda a sua popularidade derivava do testamento em que o general romano o tornava herdeiro por adoção. Um filho legítimo, mesmo fora do testamento, poderia ter mais apoio popular do que um adotivo (e que Antonio acusava de ter forjado os documentos da adoção).

Como o acordo do Triunvirato não seria renovado em 33 a.C., a guerra foi inevitável. Otaviano declarou guerra ao Egito (uma medida aceitável pelo senado, ao invés de declarar guerra contra outro romano), mas Antonio logo mobilizou o que pôde para defender Cleópatra e seus filhos. A enorme popularidade do jovem Otaviano, a despeito do prestígio de Antonio servindo ao lado de Julio César na gália, fez com que grande parte das tropas sob este desertassem em favor do rival. Após uma derrota naval em Actium em 30 a.C., Antonio voltou ao Egito e cometeu suicídio. Antes de fazer o mesmo, a rainha tentou negociar com Otaviano pela vida de Cesarion. Com o Egito conquistado, essa era uma questão que ainda o incomodava.

Cleópatra teria enviado Cesarion para a Índia, possivelmente anos antes, com soldados e tesouros. Mas quando estava para embarcar em um porto da Etiópia, teria sido convencido por um de seus guardiões a retornar a Alexandria, pois Otaviano o teria convidado a assumir o trono do Egito (Cesarion já tinha 17 anos). Segundo Plutarco, Cesarion retornou apenas para ser executado. "Dois Césares são demais", teria sido a resposta de Otaviano à súplica de Cleópatra.

Com a morte de Cesarion, Otaviano se tornou o único herdeiro legítimo de César disponível. Seguindo a conquista do Egito, Otaviano, no posto de cônsul, baixou uma série de decretos que mantinham uma aparência de república a Roma, mas que lhe atribuía poderes inigualáveis. Ele criou as fundações do Império Romano, do qual seria declarado imperador em 27 a.C.

Já o Egito caiu sob jugo romano, como ocorreu outras vezes no passado sob persas e macedônios (de cujo general Ptolomeu Cesarion descendia), mas mesmo os monarcas persas e macedônios seriam entronizados e reconhecidos pelo Egito como faraós das 27ª, 31ª, 32ª, e 33ª dinastias. Após cerca de 3200 anos, o Egito não existia mais como entidade política. Embora uma única lista tardia incluísse imperadores romanos na lista de reis do Egito até o século III d.C., Cesarion, conhecido também como Ptolomeu XV, foi o último faraó nativo.

terça-feira, 9 de junho de 2015

A derrocada de Nero

O dia 9 de junho foi uma data auspiciosa na vida do imperador romano Nero. No ano 53 ele se casou com Claudia Octávia, uma prima e irmã adotiva, filha do seu tio-avô e antecessor Claudio. No ano 62, Claudia, exilada pelo próprio marido, foi levada ao suicídio. E em 68 foi a vez de Nero dar fim à própria vida.

Nero foi o último imperador da dinastia Júlio-Claudiana, que começa com o herdeiro legal de Júlio César, Augusto, que se casou com Lívia Drusila, da família Claudiana, e teve como herdeiro seu enteado Tibério. Dizia-se que a família Claudiana tinha uma veia boa e uma veia má. Além da própria Lívia, uma conspiradora extremamente astuta que provavelmente influenciou na morte dos filhos legítimos de Augusto debaixo do seu nariz para levar Tibério ao poder, e de Tibério, um político cortês que levava uma vida particular chocantemente depravada, a família ainda gerou Calígula, de má fama eterna como um tiranete impiedoso e suscetível a ímpetos de loucura. Da veia boa, existiram Cláudio Druso, primeiro filho de Lívia, um militar de carreira ilibada que morreu (ou talvez tenha sido morto) jovem, seu segundo filho Germânico, também militar extremamente popular por sua beleza, habilidade, vitórias e boa reputação (pai de Calígula, diga-se de passagem), e Claudio, seu irmão mais novo que se tornaria imperador, um sujeito modesto, sem ambições, com problemas físicos e que se dedicava às letras, embora tivesse seus deslizes. E Nero, neto de Germânico por sua filha Agripina, irmã de Calígula.

Nero herdou uma má reputação como imperador louco que faz sombra sobre a de Calígula. Porém, ao contrário deste, Nero soube tomar as rédeas do governo e usar o assassinato como recurso para a manutenção de sua posição - e não por mera extravagância como de seu tio. Sobretudo, entendia a necessidade de ser popular junto ao povo, para o qual implementou diversas obras de utilidade pública, como teatros, ginásios, banhos, templos, promovendo festivais e espetáculos para o povão. O próprio Nero participava de corridas, competições musicais e teatrais, para deleite do público. Em uma ocasião, quase morreu ao ser atirado de sua carruagem enquanto participava dos Jogos Olímpicos na Grécia. Por causa disso, a aristocracia romana, incluindo alguns cronistas da época, pintava o demônio em Nero, atribuindo a ele atos de loucura injustificada, como o incêndio em Roma, e o assassinato de sua segunda mulher enquanto estava grávida. Contudo, ele reinou por 14 anos, notavelmente mais do que políticos equilibrados apenas sobre a volúvel influência sobre o exército ou o senado (cujo poder foi lentamente minado ao longo do reinado de Nero).

Mas Nero tem no seu currículo atitudes suficientes para ter uma reputação controversa sem a necessidade de difamações. Várias fontes contemporâneas atestam que Nero teria sido responsável pelo assassinato de seu primo Britânico, filho de Claudio, nos primeiros meses de reinado. Sua mãe Agripina, então com grande influência em seu governo, escapou de um atentado em que seu navio teria afundado ou encalhado propositadamente, mas quando ela sobreviveu, Nero teria ordenado sua execução de maneira que parecesse suicídio. Sêneca, o poeta estoico que servia a Nero como conselheiro, e com quem ele passou, em determinado momento, a discordar sistematicamente, foi acusado de participar de uma conspiração para assassiná-lo e condenado ao suicídio, embora não haja evidência de que ele tenha tomado parte na conspiração.

Quanto a Claudia Octávia, seu casamento com Nero foi arranjado enquanto Claudio ainda era vivo, para consolidar a posição de Nero como herdeiro. Octávia, aparentemente, era da veia boa dos Claudianos: uma jovem dama, educada e "virtuosa". Nero a achava uma chata, a acusava de ser estéril, e a teria agredido várias vezes em público. Apesar de infeliz no casamento, ela era bastante popular entre os plebeus, provavelmente por incorporar essa "virtude" da mulher romana. Nero acabaria desistindo de levar uma vida com ela, e se interessou por Popeia Sabina, esposa do futuro imperador Oto. Por causa desse affair, e da gravidez de Popeia, Nero se divorciou de Octávia e a baniu para a ilha atualmente conhecida como Ventatene, uma ilha rochosa que servia de prisão para onde seus antecessores baniram suas parentes por comportamento impróprio (incluindo a mãe e a avó de Nero). Porém, ao saber disso, o povo foi às ruas com estátuas e mensagens de Octávia pedindo o seu retorno. Assustado, Nero concordou, apenas para ordenar o seu suicídio. A exemplo de Sêneca, Octávia abriu as veias dos braços e mergulhou numa banheira quente, como os romanos ritualmente faziam e consideravam a maneira digna de tirar a própria vida.

O destino de Popeia é incerto. Ela foi a esposa que Nero teria matado quando estava grávida, mas a tomar pelo desespero do imperador pela sua morte, o assassinato é pouco provável. O historiador Cassio Dio (um dos difamadores de Nero) supõe que ele possa ter se deitado sobre ela e causado o aborto que teria levado sua vida junto por acidente. A reação de Nero após sua morte foi exacerbada - Popeia foi embalsamada e depositada no Mausoléu de Augusto com honras divinas. Dois anos depois, Nero ordenou que um jovem liberto parecido com Popeia fosse castrado e se casasse com ele.

Em 68, Caio Vindex, governador da província da Galia Lugdunensis, apoiado por Sérvio Galba, governador da Espanha, se rebelou contra a política fiscal de Nero. Lúcio Vergínio, governador da Germania Superior, venceu Vindex, e suas tropas tentaram aclamá-lo imperador. Como Vergínio se recusava a atuar contra Nero, as tropas se voltaram a favor do rival Galba. O prefeito pretoriano abandonou Nero e jurou lealdade ao governador rebelde. Com a situação instável, Nero tentou fugir de Roma, mas seus oficiais se recusaram a ajudá-lo. O imperador ruminou sobre o que fazer, considerando pedir asilo ao império rival da Pártia, entregar-se a Galba, ou pedir perdão ao povo. Nero então foi dormir. Ele teria acordado no meio da noite e encontrado o palácio deserto. Nenhum amigo respondia aos seus chamados, nem sequer um gladiador que pudesse matá-lo. Um liberto chamado Phaon ofereceu sua vila para que Nero pudesse se esconder. Lá, ele ordenou que outros libertos lhe preparassem uma cova. Antes de anoitecer, um mensageiro chegou com a notícia de que o senado havia declarado Nero inimigo público e que era procurado (segundo Tácito, o senado, na verdade, esperava que com isso Nero se apresentasse, e juntos pudessem discutir uma solução, já que ele era o último imperador da sua dinastia, à qual quase todos os senadores haviam servido a vida inteira). Mas, desesperado, Nero então decidiu pelo suicídio. Primeiro pediu que um dos libertos se matasse na sua frente para lhe dar coragem. Conforme o som de cavalos se aproximasse, Nero, sem coragem ainda para tirar a própria vida, pediu a seu secretário que o preparasse abrindo suas veias.

No final, o senado, de fato, declarou Nero inimigo público. Galba foi prudentemente declarado imperador pelo senado, mas sua autoridade foi questionada em outras partes do império. Vitellius, governador da Germania Inferior foi aclamado pelas legiões estacionadas no rio Reno, e Oto, amigo de Nero a despeito do seu relacionamento com Popeia, tinha a Guarda Pretoriana ao seu lado. Os três se sucederam em menos de um ano, e a guerra civil só terminou quando o veterano general Vespasiano levou suas legiões do oriente a Roma e foi aclamado imperador no final do ano 69 (o Ano dos Quatro Imperadores), iniciando uma nova dinastia, a dinastia Flaviana.