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terça-feira, 21 de novembro de 2017

Timur na Geórgia

Em 21 de novembro de 1386, o exército liderado por Timur, o Coxo, tomou a capital georgiana de Tblisi e aprisionou seu rei, Bagrat V. O que poderia ter decretado o fim do reino independente da Geórgia diante do conquistador turco-mongol acabaria sendo, na verdade, o primeiro capítulo de uma longa guerra de resistência desse pequeno reino montanhoso, com um resultado improvável.

Timur era conhecido como "o Coxo" porque teria sido alvejado na juventude por uma flecha na coxa direita, deixando-o manco; outra flecha, na mesma ocasião, lhe decepou dois dedos da mão direita (alternativamente conhecido como Tamerlão, do persa "Temur Lang", "Timur, o Coxo"). Ele era um khan turco-mongol que reclamava para si a descendência direta de Genghis Khan (pelo menos uma descendência "espiritual", já que a sua linhagem era tão obscura na época como é agora). Seguindo a tradição de seu povo de eleger seus líderes entre os guerreiros mais capazes em batalha, Timur ganhou proeminência comandando raids entre as tribos turcas da Ásia Central sob jurisdição do Khanato Chagatai (este sim um império descendente direto das conquistas de Genghis Khan na Pérsia) contra búlgaros, kwarízmidas e outros povos rebeldes ou não ainda subjugados. A atuação de Timur teria sido tão decisiva que seus seguidores o teriam elevado acima dos khans de Chagatai, e sua generosidade com o povo sob seu comando o teriam consagrado como um favorito acima das autoridades formais, incluindo seu irmão e rival Husain. Nomeando a si mesmo "protetor" do khan chagatai Suyurghatmish, Timur ganhou a legitimidade que precisava para efetivamente governar seu próprio império, tomando para si a promessa de restaurar o fragmentado império mongol.

Novamente, a generosidade que legava ao seu povo o tornou um monarca celebrado, ao menos no centro-norte do Irã, Turquestão e Uzbequistão, núcleo de seu império, como um herói (é oficialmente um herói nacional no Uzbequistão). De fato, aquela região da Ásia viveu seu apogeu cultural sob Timur. Das cidades e reinos derrotados, ele ordenava expressamente que seus artesãos, arquitetos, engenheiros, poetas, músicos e artistas fossem poupados de qualquer violência, e conduzidos à cidade de Samarcanda, no Uzbequistão, capital do novo império timurida. Seu trabalho (compulsório) tornou aquela cidade uma das mais belas do mundo por gerações (e até hoje, muitas dessas obras continuam de pé e em uso). Timur cercava-se de belezas trazidas como butim, ou produzidas por artistas cativos, e não recusava ao pedido de quem quer que fosse de compartilhar desses tesouros. Também era um ávido jogador de xadrez, que usava para aprimorar seu pensamento tático, popularizando este jogo na Ásia e na Europa (embaixadores europeus e viajantes eram convidados a jogar com ele), chegando até a fixar as regras de uma variante, o xadrez de Tamerlão, disputado num tabuleiro maior e com maior variedade de peças, refletindo a diversidade de seu exército multi-étnico e do que ele encontrava entre seus inimigos em batalha.

Esta generosidade e apreço pelas finas artes contrastava com os horrores impostos aos seus conquistados. Em 1387 a cidade persa de Isfahan se rendeu sem luta, e Timur a tratou com benevolência. Mas meses depois, a cidade se rebelou contra os novos impostos, e o imperador ordenou o massacre total da sua população. Algo em torno de 100 a 200 mil pessoas foram mortas, e um cronista contemporâneo contou 28 torres erguidas com 1500 crânios humanos cada uma. Em outra ocasião, na Índia, seus homens construíram uma pirâmide com 70 mil crânios. O terror era um instrumento de persuasão com a qual Timur pretendia conquistar seus vizinhos com menor esforço, e quando havia resistência, era preciso agir com impiedade para manter essa aura em torno de si. Uma opção controversa, que custou 17 milhões de vidas (cerca de 5% da população asiática do último quarto do século XIV) durante as suas campanhas.

Em 1385, o Khanato da Horda Dourada, vasto remanescente do império mongol centrado na Rússia, passou a atacar o norte do Irã, atravessando o Cáucaso. Havia muito a Horda Dourada havia se desconectado dos outros setores do antigo império, nutrindo desavenças mesmo com os turco-mongóis convertidos ao islã (sua religião oficial) na Pérsia. Timur, que seria exaltado por ter conseguido unificar a Grande Pérsia muçulmana (estendendo suas fronteiras do Rio Indo até a Mesopotâmia, área de tradicional influência cultural persa), também era visto mais como um rival e uma ameaça às fronteiras do que como um irmão de fé pelo khan mongol Tokhtamysh (que recebera apoio de Timur na ocasião da sucessão ao trono). Timuridas (que incluía mongóis, turcos, turcomanos, bactrianos, transoxanos, e diversas tribos turcas, mongóis e de matriz iraniana) e mongóis já haviam se enfrentado numa campanha de Timur à estepe russa. Como resposta ao avanço mongol pelo Cáucaso, os pequenos reinos situados entre as fronteiras dos dois impérios foram tomados um a um por Tamerlão, com pouca resistência, enquanto abria caminho para a Horda Dourada. E como todas as vezes que uma força vinda do Oriente Médio ou da Pérsia tentou invadir a Rússia pelo Cáucaso, ele encontrou a Geórgia pela frente.

A Geórgia é um país localizado entre as escarpadas montanhas do Cáucaso, cordilheira mais alta da Europa considerada sua fronteira sudeste com a Ásia, espraiando-se pelos seus vales até as margens orientais do Mar Negro. A dificuldade de se conquistar pela via militar e se estabelecer um sistema de governo integrado a um império estrangeiro, devido às dificuldades apresentadas pela natureza, manteve os georgianos no seu lugar, cultivando língua, escrita, cultura e religião que se mantiveram como bastiões quase imutáveis ao longo de milênios a despeito de gregos, romanos, persas, árabes, turcos e mongóis, no meio de uma das zonas historicamente mais dinâmicas do mundo.

A expedição de Timur, com o objetivo de pressionar a fronteira da Horda Dourada e bloquear sua passagem pelo Cáucaso, chegou ao sul da Geórgia no final de 1385, atacando a província de Samtskhe. O exército timurida arrasou o sul do país antes de marchar para a capital Tblisi. O rei Bagrat V, tido pelos seus contemporâneos como um administrador justo e um "soldado perfeito" (lembrado localmente como "O Grande"), optou por fortificar a cidade ao invés de encontrar os invasores em campo. Mas Timur, que havia decretado uma Jihad (Guerra Santa) contra a Geórgia Cristã, foi implacável. Em 21 de novembro de 1386, prevendo uma derrota iminente e as consequências dela para a capital, Bagrat se entregou a Timur. Sob a ponta de uma espada, o rei georgiano se converteu ao islã. Um cronista armênio da época, Tomás de Metsoph, exaltou a artimanha de Bagrat em usar a apostasia como forma de ganhar a confiança de Timur - essa visão tinha fundamento, já que Timur designara de 12 a 20 mil soldados para a guarda pessoal e os deixado às ordens de Bagrat.

Tblisi caiu, mas Timur não conseguiu assegurar o domínio sobre a Geórgia. Por toda a parte, bastiões em encostas de difícil acesso fustigavam a passagem dos timuridas e ameaçavam suas linhas de suprimentos. Mais preocupado com outras frentes, Timur recuou. Ele ordenara que Bagrat, agora um suposto aliado e irmão de fé, marchasse com seus soldados emprestados de volta a Tblisi para retomar o trono, ocupado provisoriamente pelo seu filho Jorge VII. Pai e filho, no entanto, entraram em negociações secretas, e Bagrat conduziu seus homens diretamente para uma emboscada. Com a guarda aniquilada, o filho resgatara o pai. Ambos se apressaram em antecipar a vingança de Timur, evacuando a população civil no sul do país, e organizando as defesas nas montanhas.

De fato Timur voltou em 1387, mas foi forçado a retornar de mãos vazias quando a Horda Dourada voltou a atacar o Irã. A próxima investida seria em 1394, quando Bagrat V já estava morto e o país era governado por Jorge. Desta vez, Timur em pessoa comandou a devastação das comunidades montanhesas no vale de Aragvi, ao norte de Tblisi, enquanto seus generais varriam o sul. Jorge VII escapou devido a mais um ataque providencial de Tokhtamysh ao Irã.

Em 1395, Jorge conseguiu o feito de vencer em batalha os timuridas liderados por Miran Shah, filho de Timur, durante o cerco à fortaleza de Alindjak, capturando um príncipe mongol. Em 1399, Timur retaliou mais uma vez, causando o máximo de destruição possível ao país, sem contudo tomar definitivamente qualquer posição importante. Em 1400 Timur exigiu que o tal príncipe fosse devolvido. Desta vez, Jorge foi derrotado em batalha, e na perseguição que se seguiu, atraiu desastradamente Timur para o interior do país, conseguindo despistá-lo em uma floresta. Mas, furioso, Timur sistematicamente devastou e pilhou tudo que pôde por meses, escravizando 60 mil georgianos, mas ainda assim não conseguiu firmar sua autoridade.

Em 1401, Jorge VII e Timur chegaram a um acordo. Os timuridas estavam em guerra com os turcos otomanos e era interessante assegurar a estabilidade na região até, pelo menos, poderem tomar alguma ação decisiva contra a Geórgia. Com a vitória em 1402, Timur usou como pretexto para deflagrar uma oitava campanha contra a Geórgia o fato do rei local não ter lhe oferecido as devidas congratulações. Tamerlão invadiu o país mais uma vez, mas Jorge recuou até a Abkhazia, região montanhosa no extremo noroeste do país. Cerca de 700 aldeias, vilas e cidades foram arrasadas e seus habitantes mortos. A essa altura, a Geórgia já não tinha muito mais o que oferecer em pilhagens (ou mesmo em impostos a arrecadar), e em algum momento, os conselheiros de Timur sugeriram oferecer o perdão a Jorge VII, em troca do pagamento de tributos (com o país continuamente arrasado pelos timuridas, os tributos incluíam termos muito específicos sabidamente ao alcance do rei, como um certo rubi que pesava mais de 80 gramas). No ato, Timur reconheceu a independência da Geórgia e seu status como uma nação cristã. Porém, antes de retornar à Ásia, ele ainda passou por Tblisi e colocou no chão todos os templos cristãos que encontrou de pé.

Timur morreu em 1405, durante uma campanha infrutífera contra a dinastia Ming, na China. Sua morte levou seus netos a uma guerra civil pela sucessão, e a confusão que se seguiu deu brecha para que forças internas (de nativos iranianos, afegãos, turcomanos, etc.) se firmassem e levassem à fragmentação do império. Não fosse a linhagem de um dos seus netos resultar na dinastia Mughal no norte da Índia algumas gerações mais tarde, e o seu atual status de herói nacional uzbeque (uma estátua sua foi erigida no local onde, em tempos soviéticos, ficava uma estátua de Karl Marx, em Tashkent), o legado de Timur teria virado poeira na História. Já a Geórgia aguentou o quanto pôde, mas os ataques constantes fragilizaram o país economicamente e demograficamente, e desde 1401 a região central de Imereti já havia se declarado independente (pelo próprio irmão de Jorge VII, Constantino, que era simpático a Timur), e o sudoeste do país entregue a um dos netos de Timur no último tratado firmado. Jorge VII terminou seus dias governando apenas uma fração do reino que herdara do pai. De uma forma ou de outra, a Geórgia sobreviveria como país independente até 1810, quando foi anexada pelo império russo, recuperando sua soberania, já como república, em 1991.

P.S.: Uma lenda ficou muito popular no século XX a respeito de Timur. Antes de morrer, ele teria dito o que se tornaria seu epitáfio: "Quando eu me levantar da tumba, o mundo tremerá". Em 1941, Joseph Stalin enviou o arqueólogo Milhail Gerasimov (um célebre especialista na reconstrução facial de figuras históricas) a Samarcanda para resgatar os restos de Timur, enterrados no seu mausoléu de Gur-e-Amir. Os ossos foram encontrados e examinados, e até aí as coisas foram devidamente registradas por Gerasimov e sua equipe, mas a lenda acrescenta que, além do suposto epitáfio, dentro da tumba ainda haveria uma segunda advertência: "Aquele que abrir minha tumba lançará um invasor mais terrível do que eu". Isto teria se passado no dia 19 de junho. No dia 21, Gerasimov e equipe teriam exumado o crânio. No dia 22, rompendo inesperadamente o pacto de não agressão com os soviéticos, a Alemanha Nazista deflagrou a Operação Barbarossa, campanha com objetivo de subjugar a Rússia comunista que resultaria no cenário mais sangrento da Segunda Guerra Mundial. Em novembro de 1942, os nazistas estrangulavam os russos na Batalha de Stalingrado, quando os arqueólogos sepultaram novamente os restos de Timur, seguindo, inclusive, os rituais islâmicos apropriados. Nos dias que se seguiram a maré virou para os russos, e três meses depois os alemães seriam derrotados em Stalingrado.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

O Tigre e o Dragão

Em 29 de janeiro de 1258, um exército invasor mongol foi derrotado e expulso de Thang Long (atual Hanói) por forças do império de Dai Viet, impedindo a expansão do poderoso Império Mongol sobre o sudeste asiático.

Em 1258, Kublai Khan ainda era um dos possíveis herdeiros do colossal (porém fragilmente constituído) Império Mongol. Ele herdara as terras correspondentes ao norte da China, tomadas da antiga dinastia Jin por Genghis Khan e seu filho Ogedei, e governava a partir dali a recém fundada dinastia Yuan. Mongke Khan, então o Grande Khan do Império, tinha pretensões de lançar-se em campanha contra a metade sul da China, ainda não subjugada e controlada pela dinastia Song. Seu plano incluía um ataque em três frentes: uma vindo do norte da China, uma vindo do oeste, e outra do sul.

Kublai foi mandado a conquistar o reino de Dali, na atual província chinesa setentrional de Yunnan. Depois de enfrentar dificuldades com as defesas naturais de Dali, aparentemente um traidor local teria indicado uma passagem segura para os mongóis. Talvez esse traidor tenha sido o próprio rei, que, abertamente, mais tarde, se uniu aos mongóis em troca de uma posição no governo ("marajá") da nova província. Com Dali conquistada, restava a Kublai assegurar sua posição no norte do Vietnã, então controlado pelo império de Dai Viet para lançar a terceira frente contra os Song.

Kublai procurou negociar a rendição de Dai Viet enviando Uriyangkhadai, filho do brilhante general de Genghis Khan, Subodai. Os mensageiros de Uriyangkhadai, contudo, foram presos. Em tempos anteriores, a recusa em atender aos emissários mongóis (ou responder com sua prisão ou execução) teve resultados catastróficos; a maior cidade da Ásia, Merv, foi completamente destruída e a maior parte da sua população assassinada em 1221 (com talvez mais de um milhão de mortos em dois dias de ataque, incluindo até os animais domésticos, é possível que tenha sido a maior catástrofe provocada por seres humanos em um lugar só antes do emprego da pólvora) após recusar uma exigência de rendição. O príncipe de Dai Viet, Quoc Tuan, com certeza tinha algo em mente quando tomou essa atitude. Ou pouco juízo.

Uriyangkhadai mobilizou uma força de 40 mil mongóis e 10 mil Yi (grupo étnico daquela região entre Vietnã, Yunan e Mianmar) para conquistar Dai Viet à força. O general avançou durante o mês de janeiro de 1258 em direção à capital Thang Long.

A primeira grande batalha se deu perto da capital. Duas companhias mongóis desciam o Rio Vermelho esperando bloquear possíveis rotas de fuga da cidade, enquanto Uriyangkhadai cavalgava com o grosso do exército para forçar um primeiro ataque. Os Tran (a dinastia reinante de Dai Viet) haviam posicionado uma linha de elefantes de guerra na cidade atual de Viet Tri. Os mongóis ainda não estavam familiarizados com esse tipo de animal no campo de batalha, e no primeiro momento tiveram dificuldade em controlar a suas montarias, nervosas por causa do estranho odor dos elefantes. Além disso, os Tran haviam posicionado barcos rio abaixo para impedir a travessia e permitir a fuga em caso de necessidade. Uriyangkhadai percebeu a importância dos barcos e ordenou um ataque direcionado a eles. No caminho, os invasores encontraram uma passagem segura para a outra margem. Por ali conseguiram se aproximar dos elefantes. Eles atiraram flechas incendiárias aos seus pés. Os animais entraram em pânico, causando enorme confusão e destruição no exército defensor, Uma outra vitória no dia seguinte, perto de um dos portões da cidade, abriu caminho para os mongóis.

Em vista de uma invasão implacável, a população de Thang Long foi evacuada para uma ilha próxima ao delta do Rio Vermelho. O imperador chegou a cogitar uma fuga para a China Song, mas foi dissuadido por alguns conselheiros de Estado. Por volta do dia 25 de janeiro, os mongóis entraram na capital viet praticamente deserta; dos emissários presos, um estava morto. Uriyangkhadai, insultado, ordenou uma destruição generalizada e a execução de quem quer que pudesse ser encontrado no lugar. Conquistar a capital sem conquistar seus governantes era uma vitória inócua. Além disso, os vietnameses não deixaram suprimentos para trás. Uriyangkhadai precisaria alimentar talvez os 30 mil homens que restavam com poucos recursos, ou abortar sua campanha.

A fome se tornou imediatamente um problema, mas a ela se somaram também fatores naturais: o calor e a umidade afetavam os cavaleiros mongóis e seus cavalos, nativos das áridas e frias estepes da Mongólia. Mosquitos espalhavam doenças para as quais eles não conheciam tratamento, como a malária. Uriyangkhadai ainda procurou enviar mais dois emissários ao imperador, exigindo rendição, mas os dois foram presos. Com a liderança mongol hesitante e seus homens enfraquecidos, o imperador ordenou um contra-ataque. Ele entrou na cidade montado num grande elefante à frente de seu exército, encontrando apenas a retaguarda do exército inimigo, que já iniciara a sua retirada, em Dong Bo Dau, subúrbio da atual Hanói. Houve pouca resistência, e, de fato, a moral entre os mongóis estava tão baixa que eles marcharam e cavalgaram até a fronteira com Dali sem sequer tentar atacar ou saquear as vilas e templos pelo caminho.

Os mongóis ainda tinham então a reputação de serem praticamente invencíveis; no ocidente, a expansão mongol iniciada com Genghis Khan no começo do século só foi detida em 1260 na Síria. Dai Viet, e mais tarde seus vizinhos Champa (a metade sul do atual Vietnã), Khmer (no Camboja), Myinsaing (no centro de Mianmar) e Thai (o coração étnico do povo tailandês, ainda em formação na época) imporiam uma resistência feroz às seguidas tentativas de invasão mongol. A morte de Mongke Khan em 1259 também atrapalhou decisivamente os planos para o sudeste asiático. De fato, Kublai Khan, enquanto seu sucessor como Grande Khan e imperador da China (após conquistar os Song), embora seja lembrado como administrador e por sua relação com o mercador genovês Marco Polo, nunca conseguiria avançar efetivamente suas fronteiras para além da própria China, fracassando repetidamente no sudeste asiático (onde algumas nações aceitaram pagar tributo para serem deixadas em paz), em Java, e no Japão.

sábado, 24 de outubro de 2015

Baibars, o mameluco

Em 24 de outubro de 1260, após o assassinato do sultão Qutuz, o ex-escravo turco Baibars tornou-se sultão do Egito.

Baibars era um turco do povo Kipchak, nascido provavelmente na Rússia ou na Ucrânia durante as conquistas mongólicas, em 1223. Seu nome significa no idioma kipchak "Senhor das Panteras", ou "Rei Pantera". Ele teria sido capturado ainda criança e vendido como escravo. De alguma forma fora parar na Síria onde, dizia, passara a infância fugindo pelas montanhas. Eventualmente, acabaria vendido a um oficial mameluco (elite multiétnica turca que, à época, consistia na elite militar do Sultanato Aiúbida) e enviado ao Egito, onde foi treinado e escalado para a segurança pessoal do sultão aiúbida As-Salih - sua sagacidade e sua aparência física destacada (era loiro de olhos claros) possivelmente compensavam a visão prejudicada por um olho com catarata. Conquistando postos de comando no exército aiúbida, teria participado das últimas batalhas do período da Sexta Cruzada, que anularam qualquer possibilidade do reino cristão de Outremer, na Terra Santa, de retomar a iniciativa contra os muçulmanos por conta própria.

Em 1260, Baibars estava no apogeu da sua carreira militar. Um mês e meio antes do golpe, liderara o exército egípcio no que talvez tenha sido a batalha mais significativa daquele século, em Ain Jalut, no Líbano. Ali, Baibars derrotou os mongóis.

Em 1260, mensageiros sob as ordens de Hulagu, comandante mongol no Oriente Médio, entregaram ao sultão mameluco Qutuz a seguinte mensagem:

"Do Rei dos Reis do Leste e do Oeste, o Grande Khan. A Qutuz o Mameluco, que fugiu para escapar às nossas espadas. Deverias pensar no que aconteceu aos outros países e te submeter a nós. Ouviste sobre como conquistamos um vasto império a purificamos a terra das desordens que a maculavam. Nós conquistamos vastas áreas, massacrando todos os povos. Não podes escapar do terror de nossos exércitos. Para onde fugirias? Que estrada usarias para escapar de nós? Nossos cavalos são velozes, nossas flechas afiadas, nossas espadas como relâmpagos, nossos corações duros como as montanhas, nossos soldados numerosos como grãos de areia. Fortalezas não nos deterão, nem exércitos nos pararão. Tuas preces a Deus não servirão contra nós. Não somos comovidos por lágrimas nem tocados por lamentações. Apenas aqueles que imploram por nossa proteção estarão a salvo. Apressa a tua resposta antes que o fogo da guerra queime. Resiste e sofrerás as mais terríveis catástrofes. Nós esmigalharemos tuas mesquitas e revelaremos a fraqueza de teu Deus, e então mataremos tuas crianças e teus velhos juntos. No momento és o único inimigo contra quem temos que marchar."

Provavelmente Qutuz já sabia que a mensagem era verdadeira. O avanço mongol sob Mongke Khan, neto de Genghis Khan, em direção ao Oriente Médio alterou drasticamente o equilíbrio de poder na região. As entidades geopolíticas que disputavam a supremacia entre a Mesopotâmia, a Síria e a Palestina (o Império de Kwarizm, no Irã, o Califado de Bagdá, no Iraque, e o próprio Sultanato Aiúbida, concentrado na Síria mas abrangendo também o Egito) na época da Sexta Cruzada simplesmente deixaram de existir. Os mongóis obliteraram Kwarizm, conquistaram Bagdá (causando uma devastação tamanha em toda Mesopotâmia que a agricultura da região até hoje, mesmo com toda a tecnologia moderna, ainda não recuperou sua produtividade), e semanas depois Damasco, levando o Sultanato Aiúbida ao caos. Os generais mamelucos rapidamente preencheram o vácuo de poder causado pela perda da Síria e instauraram no Egito um sultanato próprio (embora os governadores de Aleppo continuassem a governar localmente pretendendo serem sultões aiúbidas legítimos). Desde 1259, reinava no Cairo o sultão Qutuz (outro ex-escravo capturado por mongóis, possivelmente em Kwarizm). Na ocasião da sua ascensão, ele não foi capaz de salvar a Síria da repentina invasão mongol, apesar do pedido desesperado do governador de Aleppo, que recebera mensagem semelhante. Qutuz, no entanto, respondeu assassinando os mensageiros e espetando suas cabeças em espigões nos portões do Cairo. Como acontecera em ocasiões semelhantes, de forma especialmente trágica em Merv (a maior cidade do mundo no seu tempo, reduzida a escombros e cadáveres) e Bagdá, o desafio provocou a ira mongol.

A morte repentina de Mongke Khan foi um golpe de sorte para Qutuz e todos os reinos que esperavam, apreensivos, o inexorável ataque mongol. Hulagu tivera que recuar da Síria com a maior parte das suas forças em agosto de 1259 para participar da assembléia que elegeria o novo Grande Khan (ele era um dos candidatos, mas seu irmão Kublai foi eleito). Hulagu havia deixado algo próximo a 10 mil homens no oeste do Eufrates para prosseguir com as conquistas no Oriente Médio, visando Jerusalém, ponto de apoio para uma campanha no norte da África. Qutuz reunira um grande exército no Egito e marchara para a Palestina. Kitbuqa, general encarregado por Hulagu nesta campanha, marchou para o sul a partir do Líbano, reforçado por exércitos de reinos cristãos que se submeteram pacificamente aos mongóis, como a Geórgia e a Armênia Cilícia. Os cristãos de maneira geral apostavam nos mongóis contra os muçulmanos. Os cruzados remanescentes na Terra Santa, contudo, estavam proibidos pelo Papa de se aliarem aos mongóis, o que os colocava em situação perigosa. Mesmo assim, eles proibiram os mamelucos de marcharem pacificamente pelo seu território, forçando-os na direção do Vale de Jezreel. Em 3 de setembro, perto de Ain Jalut, no Líbano, os dois exércitos se encontraram.

Baibars volta à cena neste momento. Trazendo consigo algumas forças da Síria, se uniu a Qutuz e participou da definição da estratégia para esta batalha. Suas peripécias na juventude lhe deram um conhecimento de terreno que ninguém, entre mamelucos e mongóis, tinha, o que lhe deu uma posição de grande proeminência na movimentação egípcia. Ele distribuíra as forças egípcias nas montanhas e florestas, e lideraria um modesto destacamento de cavalaria rápida. Era Baibars quem se apresentava para a batalha diante dos mongóis. Kitbuqa despachou seus aliados cristãos à frente. Os dois lados combateram longamente, Baibars evitando expor demais suas forças, recuando sempre que podia, e contra-atacando à longa distância. Kitbuqa perdia a paciência, e enviou um ataque massivo ao pequeno exército mameluco. Mesmo com a cavalaria mais veloz do mundo, os mongóis não os alcançavam pelas trilhas, permitindo que Baibars os fustigasse e fugisse repetidamente, atraindo os mongóis cada vez mais para longe da planície. Kitbuqa não desconfiou de uma armadilha, e continuou pressionando. Quando chegaram às terras altas, Baibars fez o sinal, e milhares de mamelucos saíram de seus esconderijos e se abateram sobre os mongóis em todas as direções. Ao invés de se renderem, os mongóis lutaram com mais ferocidade para tentar romper o cerco, mas os mamelucos tinham como corpo principal do seu exército uma cavalaria pesada armada com longas lanças e espadas que, no combate à curta distância, não deram margem de manobra para os arqueiros leves da estepe asiática. Na retaguarda haviam canhoneiros, armados com canhões portáteis que serviam para assustar os cavalos inimigos, impedindo um movimento coordenado. Ao final do dia, quase todos os mongóis estavam mortos. Kitbuqa teria se retirado com ferimentos, e morrido ao se recusar a receber tratamento médico típico da hospitalidade muçulmana (ele era cristão).

Baibars caiu nas graças dos emires egípcios. Após a batalha, a caminho do Damasco, ele teria requisitado ao sultão o governorado de Aleppo para si, mas Qutuz nomeou o emir de Mosul para o cargo. Qutuz assegurou o controle sobre Damasco e a autoridade efetiva sobre a maior parte da Síria, e retornou para o Cairo. Nesse caminho, Baibars teria conspirado com os emires, agora seus aliados, e no dia 24 de outubro, pelo menos três deles apunhalaram o sultão. Como Qutuz não tinha filhos, os emires elegeram Baibars seu sucessor.

Baibars faria juz à fama nos anos seguintes debelando a Sétima Cruzada e mantendo a Nona em cheque (a Oitava Cruzada teve a Tunísia como alvo), além de conquistar o antigo reino cristão de Makuria, no Sudão, e infligir mais derrotas aos Mongóis no leste da Turquia. Também investiu pesadamente em infraestrutura para comunicação, transporte, produção agrícola e distribuição de alimentos, que ajudaram o sultanato mameluco a ter uma vida relativamente longa.

Mas seu maior feito, pelo qual seu nome seria lembrado, foi a vitória em Ain Jalut. Foi a primeira derrota mongol desde que começara o avanço sobre o mundo islâmico. O mito da invencibilidade mongol caiu, e na região, tanto os turcos mamelucos do Egito quanto seus vizinhos seljúcidas ao norte mantiveram os mongóis sob controle, impedindo seu avanço até o Mediterrâneo e ao sul da Europa e África, com consequências imprevisíveis para os mundos islâmico e cristão. Como sultão, ele também estabeleceu relações próximas com o Khanato da Horda Dourada, cujo khan Berke era também muçulmano. Em 1262, Hulagu em pessoa voltara ao Oriente Médio para esmagar os mamelucos, mas Berke iniciara uma série de ataques ao norte do seu território, distraindo sua atenção e impedindo uma campanha com força total no Levante. Baibars morreu em Damasco em 1277, possivelmente envenenado.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Horda Dourada

Em 8 de outubro de 1480, o Grão-Duque Ivan III de Moscou liderou os russos numa vitória decisiva na batalha do Rio Ugra, contra o Khanato da Horda Dourada, verdadeiro império mongol que dominava a Rússia desde o século XIII. Depois desta vitória, Moscou e as demais cidades russas deixaram de pagar tributos à Horda Dourada, e, em poucos anos, se reuniriam em torno do Tzar para formar seu próprio império.

A presença mongol na Rússia remonta às conquistas mongólicas do século XIII. Genghis Khan passou a maior parte da sua vida governando turcos e mongóis nas estepes asiáticas, e expandindo seu império em todas as direções, obliterando reinos inteiros à sua frente. Na sua extensão máxima, o Império Mongol alcançava da Hungria até a península da Coréia, da Sibéria ao norte da Índia, controlando as antigas civilizações na China, na Pérsia e na Síria. Foi o império com o maior território contínuo que já existiu na Terra.

Os mongóis, agora senhores de terras, eram tradicionalmente pastores nômades que guiavam seus rebanhos pelas estepes seguindo os ciclos da vegetação, organizados em clãs formados por núcleos multifamiliares mantidos por relações de sangue e pela lealdade ao seu líder, ou khan. Como os mongóis nômades tinham uma noção vaga de propriedade, o poder do khan emanava da sua capacidade como cavaleiro, líder e guerreiro, não da sua riqueza material (medida em cabeças de gado, não em extensões de terras), de maneira que nem sempre a descendência era suficiente para se conseguir a lealdade do clã. O próprio Temudjin, bisneto de Khabul Khan, poderoso khan e herói nacional da época, que unificou as tribos turcas e mongóis ao norte da China para repelir o avanço chinês sobre suas terras, teve que conquistar a lealdade de sua própria tribo à força, e costurar alianças pela diplomacia ou pela conquista antes de se tornar Genghis Khan (o "Senhor de toda a Terra").

Quando Genghis morreu de causas naturais em 1227, seus generais, seus filhos e os demais khans foram convocados a uma assembléia para eleger seu sucessor, como era o costume. O primogênito de Genghis, Jochi, morrera no início daquele ano, e havia muitos anos tinha sua imagem desgastada por conta de uma disputa pessoal com o segundo mais velho, Chagatai, que o acusava de não ser filho de Genghis. Chagatai, por sua vez, havia sido designado para governar as terras a oeste da China, as estepes que se extendem entre o Paquistão e a Sibéria, pontuadas por ricas cidades que prosperavam com o fluxo de comércio pela Rota da Seda. Tolui, o filho mais novo e o mais capaz militarmente serviu como regente nos dois anos em que os arranjos sobre o novo Khan eram discutidos. Coube a Ogedei, o terceiro filho, assumir o posto de Grande Khan e seguir com a expansão do Império (na época ainda limitado pelo Mar Cáspio, pelo Irã, pela Coréia, e pela linha ao longo do Rio Yantse, na China). De todos os irmãos, Ogedei era o que tinha maior talento para política e administração, e teria sido o favorito do próprio Genghis para sucedê-lo.

Ogedei começou a transformar o território controlado pelos mongóis em uma entidade geopolítica, organizando e setorizando a sua administração, e nomeando membros dos seus principais grupos de apoio para funções específicas. Normatizou a economia alimentada pela Rota da Seda emitindo dinheiro em papel, criou um sistema de comunicação por estradas semelhante ao antigo sistema persa, com postos permanentes de pouso e troca de montarias e mensageiros ao longo das estradas, edificou o acampamento permanente de Karakorum para se tornar uma capital apropriada para o império. Com essa infraestrutura, Ogedei pôde ordenar a invasão à Rússia, ocupada por tribos turcas e búlgaras, e controlada, em sua parte mais ocidental, pelos príncipes de Kiev, tendo em vistas a quase legendária planície húngara mais adiante. Batu e Orda, herdeiros de Jochi, foram responsáveis pela campanha bem sucedida, interrompida apenas pela morte de Ogedei em 1241 quando Batu sitiava Viena. Novamente os líderes mongóis foram convocados a decidir seu novo khan, e a Europa Central foi milagrosamente poupada.

Quando Genghis Khan ainda era vivo, seus quatro filhos foram designados a governar partes diferentes do império. Jochi tinha controle da parte mais ocidental das estepes, e, ao morrer, deixou-a para Batu e Orda. Seu rival Chagatai controlava a Ásia Central. Ogedei, nominalmente, estava a cargo da China, e Tolui, o mais novo, governou a Mongólia propriamente dita. Mais tarde, a Pérsia e a Síria seriam colocadas sob jurisdição de Hulagu, filho de Tolui. Ogedei, com sua habilidade e a força de sua personalidade, conseguiu manter esses quatro setores coesos, mesmo com a morte prematura de seus irmãos e as rivalidades entre seus parentes. Quando Kublai, filho de Tolui, foi eleito Grande Khan, um dos netos de Jochi, Berke, era senhor da facção que controlava a Rússia e o leste europeu - a Horda Dourada - e já possuía um alto grau de autonomia política. Quanto mais Kublai se dedicava à recém conquistada China, menor era seu poder de fato sobre os demais khans mongóis na Ásia. Não demorou para que o Grande Khan deixasse de ter qualquer importância para os diversos khanatos turco-mongóis que surgiam a cada geração.

Os khans da Horda Dourada tinham para si a lealdade dos príncipes russos. Mesmo quando, em 1262, uma rebelião russa resultou na morte de coletores de impostos mongóis, os príncipes de Novgorod e Vladimir se comprometeram a indenizar os mongóis para aplacar sua fúria em uma possível retaliação. O poder da Horda Dourada se estendia sobre os rivais do clã de Hulagu (cujo império ficou conhecido como o Il-Khanato), sobre a Bulgária, a Lituânia, e o próprio Império Bizantino (o general mongol Nogai arrasou a Trácia, e forçou o rei da Sérvia a reconhecer a suserania da Horda Dourada). Com o tempo, os "mongóis" na Horda Dourada passaram por um processo de turquificação, com a assimilação das várias tribos turcas ao norte do Mar Negro (kipchaks, cumanos, mordvinos, etc.). Entre elas, os tátaros da Ucrânia, cuja denominação viria mais tarde a sinonimizar a maioria das etnias turco-mongólicas na Rússia européia sob a perspectiva dos eslavos. Eles também deixaram de lado suas crenças ancestrais e sua virtual neutralidade religiosa (que ocasionou um período de notável tolerância religiosa nos seus domínios) para se converterem ao islã, religião que os turcos mamelucos, que controlavam o Egito e tinham o Ilkhanato como um rival comum, já seguiam.

A política da Horda Dourada era estabelecer alianças de ocasião com os príncipes russos e seus vizinhos eslavos em seus interesses particulares, colocando-os frequentemente uns contra os outros. Um dos principados russos que viria a emergir deste jogo político foi o de Moscou. Até o século XIV um mero entreposto comercial, Moscou cresceu em importância na medida em que seus príncipes consistentemente colaboravam com os mongóis. Usando Moscou - protegida por um terreno de floresta com rios em abundância que dificultava a movimentação de exércitos baseados em cavalaria no seu entorno - como base, seus príncipes gradualmente conquistaram territórios vizinhos, com o aval dos khans da Hora Dourada. O príncipe Yuri chegou a receber a mão da filha de Uzbek Khan em casamento e o título de Grão-Duque de Vladimir, o mais importante dos principados russos. Seu irmão Ivan I atuou cobrando tributos em nome do khan, e ajudou os mongóis a esmagarem uma rebelião em Tver.

A partir da metade do século XIV, o príncipe Dmitri de Moscou aliou-se à Igreja Ortodoxa Russa contra a pressão de lituanos (cujo grão-ducado já abocanhara a atual Bielorrússia) e turco-mongóis muçulmanos ("tátaros"), e, através dessa aliança, conseguiu congregar os demais principados russos, tradicionalmente ortodoxos, contra a autoridade mongol. Em 1380 uma coalizão russa derrotou a Horda Dourada na violenta Batalha de Kulikovo. A vitória assegurou o protagonismo de Moscou junto aos demais russos, garantiu sua posição em relação à ascendente Lituânia (a Horda Dourada deixou Moscou de lado e investiu contra os lituanos por um tempo), e indicou o declínio do poder mongol na região (o general mongol derrotado na ocasião foi posteriormente assassinado por mercenários genoveses, cujo poder econômico abrira concessões para operações comerciais na Criméia).

O renovado Grão-Ducado de Moscou expandiu-se em todas as direções com o aval da Horda Dourada (o Grão-Duque era "forçado" a se submeter publicamente ao khan em troca de apoio). Mais do que aliados ou protegidos, os antigos principados foram gradualmente colocados sob a autoridade inconteste do Grão-Duque de Moscou. A Horda Dourada já começara a se fragmentar no começo do século XV (o khan tinha poder de fato apenas sobre as terras do baixo rio Volga). Ao longo dos anos, diferentes khans, apoiados por facções internas e externas, fundaram seus próprios khanatos (sendo o Khanato da Crimeia o novo suserano nominal do Grão-Ducado de Moscou, apesar do território deste ser muito maior) ainda sob a tênue autoridade do khan da Horda Dourada da ocasião.

Após derrotas desastrosas na Polônia e na Moldávia, a Horda Dourada estava em frangalhos. Neste momento dramático, o khan Akhmat exigiu futilmente que Ivan III de Moscou reconhecesse a suserania da Horda (e lhe fornecesse tropas para repor os exércitos perdidos no oeste), mas naquela altura o poder dos russos era muito superior. Akhmat tentou submeter Moscou à força em 1480. Tentando flanquear as forças russas pelo oeste, Akhmat tentou cruzar o rio Ugra, mas foi surpreendido pelos russos do outro lado. Aparentemente, os tátaros não tinham armas de fogo, e foi com essa vantagem que os russos mantiveram sua margem do rio durante quatro dias. Como os russos posicionados mais a leste chegassem em grande número com o passar dos dias, e reforços do seu aliado, o rei Casimir IV da Polônia, não aparecesse, Akhmat desistiu da marcha e depois de dois meses de impasse se viu obrigado a recuar. Embora não tenha havido perdas decisivas de qualquer lado, e os russos optassem pela negociação ao invés do confronto, a desistência do khan simbolizou uma vitória para os russos (Ivan foi recebido com festejos efusivos em Moscou). Toda a Rússia sob Moscou deixara de reconhecer a Horda Dourada e suas divisões internas como seus suseranos - não lhes cederiam mais homens, nem reconheceria suas políticas fiscais sobre produção e propriedades de terra e trocas comerciais. O Khanato da Crimeia, desde 1475, caiu sob poder do Império Otomano, e, com apoio moscovita, conquistou e saqueou a capital da Horda Dourada de Sarai em 1502, dando fim a este remanescente do grande Império Mongol.

A Rússia, centrada em Moscou, emergiria finalmente como uma entidade totalmente independente no começo do século XVI. O neto de Ivan III, Ivan IV ("o Terrível") ao assumir o trono russo, criou para si mesmo o título de Tzar (ou Czar, o correspondente eslavo de "César"). O novo Império Russo continuaria a subjugar os khanatos tátaros, turcos e mongóis na Europa e na Ásia e a se expandir para o sul e para o leste até o início do século XX, para se tornar, ao seu tempo, outro dos maiores impérios da História.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Rapidinhas, ou "Somos todos Plutarco"

Dia 23 de setembro é data de nascimento de dois formadores de impérios, Otaviano Augusto, de Roma (63 a.C.) e Kublai Khan, da China (1215).

Eu não sou Plutarco e não vou me atrever a escrever algo na linha de seu Vidas Paralelas. A ascenção de Otaviano ao poder tomou vias incrivelmente convolutas, que envolveu casamentos feitos e desfeitos, conquistas e assassinatos de seu patrono e "pai adotivo" Júlio César (possivelmente, alguma adulteração do seu testamento também), uma guerra civil que começou com uma aliança com seu maior rival, e terminou com a morte deste, e, uma vez no poder, a transformação gradual do seu status para se tornar o primeiro imperador de Roma. Kublai Khan, por outro lado, era neto de Genghis Khan, conquistador que espalhou o domínio mongol por toda a Eurásia. Após a sua morte, seus herdeiros mais capazes foram eleitos para o seu lugar, e Kublai, educado por chineses, foi o último Grande Khan reconhecido universalmente por 1/5 de todas as terras do planeta - às quais ele adicionaria o norte e o sul da China, fundando a dinastia Yuan. O império de Augusto durou mais tempo do que a dinastia Yuan.

Qualquer um dos dois personagens oferece uma vastíssima gama de assuntos que poderiam ser tratados, e eu realmente não tenho tido muito tempo para me dedicar com profundidade a temas tão abertos. Por essa razão, eu evitei escrever sobre Marco Polo em duas oportunidades nas últimas semanas, quando chegaram as datas em que ele ditou suas aventuras na prisão, e a de sua morte - as vidas de Marco Polo e de Kublai Khan se cruzaram de maneira indelével na sua estada na China, trazendo para o Ocidente as primeiras notícias detalhadas do extremo oriente. É muita história para ser escrita durante um dia, nos intervalos do trabalho.

Mas isso não é desculpa para inatividade! Então aí vão outras rapidinhas... no irresistível estilo de Plutarco:

Por coincidência, 23 de setembro também é a data em que Noruega e Suécia se tornaram países independentes de maneira pacífica em 1905 (anteriormente unidos sob a coroa sueca), e a data oficial de incorporação dos reinos árabes de Nejd e Hijaz (conquistado na década anterior) em 1932, sob o sultão Abdulaziz ibn Saud, de Nejd, formando a Arábia Saudita.

É o dia em que um negro americano é condenado vai a julgamento (e será o único condenado dos oito acusados) por atos de vandalismo e incitação à violência em um protesto contra a Guerra do Vietnã em Chicago (Bobby Seale, em 1969), e o dia em que um branco se torna o primeiro boxeador africano a se tornar campeão mundial dos pesos pesados (Gerrie Coetzee, em 1983, vencendo Michael Dokes).

É a data em que falecem o criador da psicanálise Sigmund Freud (1939), o poeta chileno Pablo Neruda (1973).

Edward Lee Howard, agente da CIA, é preso como espião na União Soviética em 1985, enquanto, durante a Revolução Americana, foi o militar britânico John André que os revolucionários prenderam por espionagem em 1779.

Em 1911, o americano Earle Ovington, pilotando um Blériot XI, conseguiu entregar a primeira encomenda aérea da História, e em 1999, a NASA perdeu contato com a sonda Mars Climate Orbiter, projetada para se tornar um satélite meteorológico no planeta vermelho e destruída durante uma entrada acidental em sua atmosfera.

De acordo com alguns teoristas, o dia 23 de setembro também é o dia em que o mundo será destruído por um evento cataclísmico global. Ou ao menos é em que acredita o ministro do exterior da França, monsieur Laurent Fabius.

Então, até amanhã.