quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Batalha de Zama

Em 19 de outubro de 202 a.C. foi travada a Batalha de Zama. Foi o confronto final entre Roma e Cartago na Segunda Guerra Púnica, e o evento que determinou o domínio romano do Mar Mediterrâneo pelos séculos seguintes.

Entre 218 e 201 a.C., a emergente República Romana, que compreendia o centro e o sul da Itália e ilhas adjacentes, foi desafiada pelo império capitaneado pela antiga colônia fenícia de Cartago. Tratava-se da segunda guerra em larga escala entre os dois países pelo controle do comércio no Mediterrâneo. A primeira ocorreu quando Roma interviu nos conflitos entre gregos e cartagineses pelo controle da Sicília, resultando na aquisição desta ilha pela República.

A Segunda Guerra Púnica (assim lembrada pelos romanos, pois chamavam aos cartagineses "Poeni", corruptela do grego "phoenike", ou "púrpura", corante que era a principal mercadoria oferecida pelos fenícios, fundadores de Cartago) foi deflagrada após a invasão e conquista da cidade ibérica de Saguntum (atual Sagunto, na Espanha), com quem os romanos mantinham relações diplomáticas. O comandante da operação era Aníbal Barca, designado comandante supremo da Ibéria cartaginesa e filho de Amílcar Barca, o conquistador cartaginês daquele país. O cerco e a conquista desta cidade era o primeiro passo de um plano meticuloso e ambicioso de Aníbal para assegurar o controle sobre o Mediterrâneo, e o passo seguinte seria a invasão inesperada, por terra, da Itália. De maneira espetacular, Aníbal conduziu um exército africano, com elefantes de guerra, pelos Alpes, e obteve vitórias incríveis sobre Roma em seu próprio solo. No entanto, a campanha da Itália nunca chegou a um momento decisivo, e embora Aníbal resistisse no interior da península por mais de 10 anos, esta operação acabou num impasse.

Roma, que havia adaptado a engenharia fenícia na construção da sua própria armada de guerra, conseguiu efetivamente evitar que os fenícios enviassem reforços por mar à Itália, limitando as ações de Aníbal. Com o general invasor imobilizado, os romanos partiram para o contra-ataque na cabeça de ponte cartaginesa na Europa, a Espanha. Os irmãos Gneu e Públio Cipião comandaram uma campanha que começou em Massalia (antigo porto grego sob controle cartaginês, atual Marselha), e prosseguiu, por terra e mar, através dos Pirineus, até o Rio Ebro, onde venceram uma batalha naval que paralisou o esforço cartaginês na Espanha (e o possível envio de tropas a Aníbal ou aos celtas do norte da Itália), embora seu progresso também tenha ficado por aí. Em 211 a.C., os dois Cipiões reuniram reforços entre os celtiberos nativos e marcharam separadamente e quase simultaneamente contra os cartagineses no norte da Espanha, perto de Bétis, onde ambos foram aniquilados. O filho de Gneu, Públio (o mais famoso Cipião, por isso lembrado apenas pelo sobrenome), foi o único a se candidatar ao comando do exército naquela região.

Em 211 a.C. Cipião começou tomando a cidade de Carthago Nova (atual Cartagena). Com romanos e celtiberos sob seu comando, Cipião organizava suas tropas de maneira dinâmica para responder às inconstantes formações dos cartagineses (os comandantes locais, Asdrúbal Barca, Mago, e Asdrúbal Grisco não conseguiam coordenar esforços, e a resposta ao avanço de Cipião era confusa), e aos desafios do terreno acidentado da Ibéria. Em Illipa (próximo a Sevilha), Cipião se defrontou com Asdrúbal Barca, irmão de Aníbal. Recuando o centro do seu exército e avançando com as alas, Cipião envolveu os cartagineses e obteve a vitória final naquele cenário de guerra. Este resultado rendeu a Cipião o consulado em 205 e o controle de seus aliados pessoais da Sicília.

Cipião não tinha o apoio do senado para prosseguir com a guerra. Seu plano era a invasão da África e a submissão de Cartago. Os senadores resistiram ressaltando o perigo, mas a moção acabou aprovada. Contudo, ele partira para a Sicília somente com um corpo de voluntários, e apenas mais tarde ele seria autorizado a recrutar as legiões estacionadas na ilha - na maioria, sobreviventes exilados pela derrota "humilhante" na Batalha de Canas contra Aníbal dez anos antes. Em 203 desembarcou em Utica, na Tunísia, onde esmagou completamente a resistência cartaginesa sob Asdrúbal Grisco. Na ocasião recebeu reforços da cavalaria numídia sob o príncipe africano Masinissa, a quem Cipião conhecera na Espanha e aspirava, com apoio romano, depor o rei Sifax, aliado dos cartagineses (Masanissa ainda perseguiu a cavalaria comandada por Sifax até a capital numida, Cirta, na Argélia, onde foi capturado).

A perda de Utica e a presença hostil de romanos e numídios no coração do seu império levou os cartagineses a solicitarem um tratado. Cipião propôs termos relativamente "suaves"- Cartago abriria mão das suas possessões fora da África, a maioria delas já perdida, e teria que limitar a sua marinha de guerra. Masinissa também teria direito a ampliar seu território sobre as posses cartaginesas no interior da Argélia. O senado cartaginês ainda deliberava sobre os termos, quando Aníbal foi convocado de volta. Aníbal Barca continuava no sul da Itália com o apoio relativo de tribos locais, no comando de um exército muito experiente e leal. No outono de 203 embarcou com seus homens no porto de Crotona.

Com Aníbal de volta, Cartago se sentiu segura para abordar uma frota romana destinada a Cipião que havia encalhado no Golfo de Túnis, e confiscar sua mercadoria. Os romanos viram o ato como uma quebra do tratado, e Cipião marchou para Cartago. Aníbal saiu de encontro a ele na planície de Zama, perto da atual cidade de Siliana.

Os dois exércitos se equivaliam, com ligeira vantagem numérica para Aníbal. Além de infantaria e cavalaria (numídios que serviram com ele na campanha italiana), Aníbal ainda dispunha de 80 elefantes de guerra. Os romanos contavam com três corpos de cavalaria, dois deles de numídios comandados por Masinissa, e outro de romanos sob o comando do general Lélio.

Os dois generais também se equivaliam em perspicácia. Aníbal havia se inteirado das táticas de Cipião na Espanha, especialmente sua estratégia em Illipa de atrair o centro enquanto envolvia as alas do inimigo, e assim dispôs o exército em três fileiras, com a retaguarda mais recuada para dificultar o ataque pelos flancos. Já Cipião previu que Aníbal usaria elefantes, e sabia que os elefantes podiam ser direcionados para uma carga em linha reta, mas que não podiam ser manobrados. Assim, ele separou suas três linhas em blocos, que, ao avançar das feras, se separavam, abrindo corredores por onde os elefantes passavam sem causar prejuízo (para depois serem abatidos).

Com os elefantes fora do caminho, Cipião avançou com a cavalaria. Ele também sabia que Aníbal dependia da força e agilidade da cavalaria numídia (cujos cavalos eram menores do que os cavalos atuais) e se preocupou em levar um número maior dessas unidades para o campo. Como consequência da superioridade numérica romana, a cavalaria cartaginesa fugiu perseguida por Masinissa e Lélio para longe do campo de batalha.

As infantarias então se bateram violentamente, com ligeira vantagem para os romanos. Aníbal mantinha sua terceira fileira recuada, e à medida em que as fileiras em combate eram quebradas, ele as reorganizava integrando-as às alas da fileira anterior, mantendo a força das suas linhas e reforçando seus flancos. No momento em que Aníbal integrou a primeira e segunda linhas, a primeira linha romana (os hastati, ou lanceiros) foi aniquilada. Cipião então reproduziu a estratégia em suas próprias linhas e contra-atacou. A batalha no corpo a corpo seguiu ferrenha.

Num certo momento houve uma pausa, onde os dois generais reorganizaram suas tropas. Ambos formaram uma fileira única, mas Cipião colocou a sua retaguarda nas alas, os lanceiros no meio, e a segunda fila (os principes, aristocratas que possuíam equipamento de melhor qualidade) preenchendo os espaços entre eles. O combate foi violento, mas nenhum dos lados parecia obter vantagem.

Foi quando surgiram as cavalarias romana e numídia cavalgando pela retaguarda cartaginesa (Masinissa e Lélio haviam desbaratado a cavalaria inimiga). A batalha estava perdida para Aníbal, que conseguiu fugir. Mas metade dos seus homens tombou, e outra metade foi presa.

Cartago, sem forças, teve que se submeter a um novo tratado, muito mais duro. Ela teria que pagar um pesado tributo anual a Roma (que arruinaria a sua economia rapidamente) e limitar seu poderio militar a meros 10 navios de guerra. Também não poderia declarar guerra, envolver-se em atos hostis, ou sequer recrutar um exército sem a autorização de Roma. Da parte de Roma, muitos não se deram por satisfeitos: alguns defendiam que o fim da guerra desmobilizaria a população na Itália, fazendo-a retornar a um estado de indolência anterior; outros alertavam para o perigo de se manter um inimigo tão feroz em suas próprias terras e exigiam a destruição total de Cartago. O senador Catão, o Velho, sempre encerrava seus discursos com a frase "Carthago delenda est" ("Cartago deve ser destruída"), mesmo que fosse sobre qualquer assunto não relacionado. De fato, Cartago viria a ser destruída meio século depois quando, ao arregimentar um exército contra a vontade romana para se defender das contínuas incursões do velho Masinissa, provocou nova campanha militar de Roma, resultando na destruição da cidade, extermínio de grande parte da população, e sua terra salgada.

Depois de Zama, Cipião e Aníbal quase se encontraram em outra guerra. Aníbal, em exílio voluntário, colocou-se a serviço do rei Antíoco III na Síria, e temores de que ele preparava outra invasão à Itália (de fato ele recomendara especificamente isto a Antíoco, que preparava uma campanha contra os romanos na Grécia) levaram os romanos à guerra na Ásia. Na derrota, Antíoco deveria entregar Aníbal a Cipião, mas ele fugira a Bitínia, onde servira o rei local (numa das batalhas navais que comandara, bombardeara os navios inimigos com vasos cheios de cobras venenosas). O rei da Bitínia foi, também persuadido pelos romanos a entregar Aníbal, mas ele continuou a fugir. Antes de morrer, em algum ponto da costa oeste da Turquia entre 185 e 183 a.C, ele teria deixado uma carta que chegou a Roma, dizendo "Vamos aliviar os romanos da ansiedade que têm experimentado por tanto tempo, já que eles acham um teste de paciência muito grande esperar a morte de um velho".

E Cipião (cujo sucesso na Segunda Guerra Púnica lhe rendeu o apelido de "Africano") seria acusado por seus adversários, incluindo Catão, de aceitar suborno de Antíoco (ele havia defendido publicamente o irmão de tê-lo aceito, e, por causa disso, foi acusado também). Salvo pelos amigos de ser levado a julgamento, ele se retirou da vida pública em sua propriedade, próximo a Nápoles, onde morreu (à mesma época de Aníbal) e foi sepultado. Otaviano, o primeiro imperador romano, século e meio depois, visitou o local para prestar-lhe homenagens. Sua amargura pelo tratamento que recebera em Roma após os anos de serviço (pela primeira vez Roma conquistava territórios fora da Itália e das ilhas próximas) teriam-no feito ordenar a inscrição em seu túmulo: "Ingrata patria, ne ossa quidem habebis" ("Pátria ingrata, não terá sequer os meus ossos").

No filme O Gladiador, o personagem de Russell Crowe, Maximus, é escalado para um espetáculo no Coliseu onde se recriaria a Batalha de Zama. Maximus e seus colegas, representando as forças de Aníbal, rebelam-se vencendo a batalha e arruinando o espetáculo.

Neste dia também: Independência ou Morte no Piauí

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Favorita das Nove Musas*

Em 18 de outubro de 1773, Phillis Wheatley, poetisa e escrava, recebeu a alforria.

Phillis Wheatley nasceu na África ocidental (talvez no Senegal, mas a origem é incerta), e foi vendida por um chefe tribal aos 7 anos a um comerciante de escravos. A menina, ainda sem nome, foi trazida num navio negreiro chamado Phillis ao mercado de escravos no porto de Boston em 1761. Ali, a sorte que havia lhe faltado sorriu: ela foi adquirida pelo alfaiate John Wheatley, para servir de companhia e ajudante à sua esposa Susannah. Wheatley era reconhecidamente um progressista notável que, embora mantivesse escravos domésticos a seu serviço, os tratava e mantinha com dignidade. A menina, batizada Phillis (em lembrança ao navio que a trouxe à América), e Wheatley (como de costume, para assinalar a propriedade da família que a comprou), ficou sob a tutoria da filha mais velha do casal, Mary, que a alfabetizou.

Mary, contudo, percebeu a facilidade de aprendizado e uma habilidade notável no uso e na expressão de línguas, não apenas do inglês - aos 12 anos, Phillis lia grego e latim, e interpretava passagens da Bíblia. Estava familiarizada com os poemas de Pope, Milton, Virgílio, Homero. Phillis começou a escrever aos 14 anos. Seu primeiro poema, "To the University of Cambridge, in New England" começa assim (e eu traduzo livremente):

"Enquanto um intrínseco ardor induz a escrever,
As musas prometem assistir a minha caneta;
Não faz muito tempo desde que deixei minha costa nativa
A terra de erros, e melancolia egípcia:
Pai de misericórdia, foi tua mão graciosa
Que me trouxe em segurança daquelas escuras moradias."

Impressionados pelo talento de Phillis, os Wheatley dispensaram-na dos serviços domésticos e investiram integralmente em sua educação. Quando completou 20 anos, Phillis foi enviada a Londres sob recomendação médica. Susannah Wheatley incentivou a viagem porque acreditava que Phillis teria mais facilidade para publicar seus poemas lá do que em Boston. De fato, em 1772, antes de partir para Londres, uma comissão de cidadãos de Boston abriu processo contra Phillis, questionando que uma escrava africana pudesse escrever poesia de qualidade, e precisou que ela se submetesse a uma corte, na presença de intelectuais locais (entre eles, John Hancock, um dos signatários da Declaração de Independência), para atestar a autoria dos seus poemas. Em 1773, em Londres, publicou seu livro "Poemas Sobre Vários Assuntos, Religiosos e Morais" (o documento produzido pelos intelectuais de Boston no ato do julgamento foi incluído no prefácio da primeira edição), e caiu nas graças da nobreza britânica. Já editores na América se recusaram a publicá-lo. Foi logo após a publicação em Londres e seu retorno que John Wheatley (talvez por pressão dos influentes amigos de Phillis) concedeu-lhe a alforria:

"Desde meu retorno à América meu Mestre, segundo o desejo de meus amigos na Inglaterra, deu-me a liberdade".

A vida de Phillis Wheatley depois da escravidão, contudo, não foi fácil. Seus antigos mestres e protetores faleceram, Susannah em 1774 e John em 1778. A poetisa não gozava de boa saúde, o que atrapalhava seu trabalho. Em 1778 casou-se com John Peters, um negro livre que tinha uma quitanda, e com ele viveu anos de pobreza, perdendo dois bebês. Ela tentou publicar um segundo volume de poesias, mas já na época da Revolução Americana havia pouco interesse e recursos para isso. Peters foi preso por dívidas em 1784, e poucos meses depois, ela morreu enquanto trabalhava como assistente de cozinha de uma estalagem. Seu terceiro filho morreu na mesma época, e os dois foram enterrados juntos numa cova comum.

Phillis Wheatley tornou-se a primeira escrava negra na América a publicar uma obra literária. Em Londres, onde o estigma da escravidão não lhe tomava a liberdade de expressão, relatava experiências e opiniões diversas nos círculos de intelectuais que frequentava. Porém o corpo da sua poesia, finamente ritmado e essencialmente devocional, religioso, raramente toca nas suas experiências pessoais. De fato, ela expressava, por exemplo, sentimentos ambíguos quanto à escravidão, devido à benfeitoria dos Wheatley em sua vida, o que levou autores negros contemporâneos, e estudiosos posteriores a criticar a postura (o uso progressivo de símbolos classicistas nos seus poemas, uma provável adaptação ao que ainda guardava da sua cultura ancestral, levou o escritor e escravo Jupiter Hammon a criticar seu "paganismo", dedicando a ela um poema composto por versículos bíblicos). No poema "Sobre Ter Sido Trazida da África para a América", ela louva a sua condição de escrava por ter permitido que conhecesse o Cristianismo, mas firma o pé na contestação do senso comum da época de que negros tinham uma linhagem e um destino espiritual distintos dos brancos:

"Foi misericórdia que me trouxe de minha terra Pagã,
Ensinou minha alma ignorante a entender
Que há um Deus, que há um Salvador também:
Uma vez que a redenção não procurei nem conhecia.
Alguns veem nossa negra raça com olhos desdenhosos,
'Sua cor é uma tintura diabólica.'
Lembrem-se, Cristãos, Negros, pretos como Caim
Podem ser refinados e juntar-se ao seu cortejo de anjos."

Em 1775, já durante a Revolução, época em que os poemas de Phillis Wheatley tomavam ares heroicos frequentando temas patrióticos e elogiando figuras públicas, ela escreveu uma carta ao recém nomeado comandante-em-chefe do Exército Continental, George Washington. O poema terminava nos versos:

"Continua, grande chefe, com virtude ao teu lado,
Todas as tuas ações deixa que a deusa guie.
Uma coroa, uma mansão, e um trono que brilhe,
Com ouro inalterável, WASHINGTON! Sejam teus."

Washington respondeu a carta, endereçando-se a "Senhorita Phillis", desculpando-se pela demora (5 meses entre o envio da carta de Phillis e a resposta de Washington), elogiando as "linhas elegantes" e seu "marcante talento poético". Ele diz ainda que teria arranjado sua publicação, se isso não parecesse um ato de vaidade e auto-promoção da sua parte (mas compartilhou-o com o tenente-coronel Joseph Reed, que teria encaminhado-o para o jornal The Pennsylvania Magazine em 1776), convidando-a a encontrá-lo em Cambridge. Por fim, dedica a carta à ex-escrava como "seu obediente e humilde servo".

Em Boston foi erigido em 2003 um monumento homenageando três mulheres importantes da história americana: Abigail Adams, esposa e conselheira do "Founding Father" John Adams e mãe do presidente John Quincy Adams; Lucy Stone, abolicionista, feminista e sufragista; e Phillis Wheatley.

*O almirante escocês-americano John Paul Jones pediu que um subordinado enviasse seus próprios escritos a "Phillis a Africana, favorita das Nove e Apolo".

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Agripina, A Velha

Em 17 de outubro de 33 d.C. faleceu de desnutrição a romana Agripina ("A Velha", porque tinha uma filha homônima, conhecida como "A Jovem"), adversária do imperador Tibério e mãe do seu sucessor, Calígula.

Na sociedade romana, à época da dinastia Júlio-Claudiana, os homens eram os executores da vida pública, ocupantes exclusivos dos cargos de cônsul, senador, pretor, general, pontífice. Eram maridos, cabeças de suas famílias, provedores do lar. Das mulheres era esperado o recato, a modéstia, a obediência, e um útero fértil. Quaisquer mulheres que não se enquadrassem nesse modelo, independente da sua sagacidade, capacidade produtiva, caráter, eram mal vistas pelos romanos. Porém, como toda boa sociedade fortemente patriarcal, a vida política romana sempre teve, nos seus bastidores, a influência das esposas e amantes dos seus figurões mais ilustres. Agripina, quem o historiador Tácito, sob o ponto de vista do homem romano, a descreve como alguém "intolerante na rivalidade, sedenta de poder, (ela) tinha as preocupações de um homem", era uma mulher cuja virtude extrapolava o que se esperava de uma romana, enquadrando-se tanto no espectro da matrona virtuosa e recatada, quanto da leoa que se imiscuía nos negócios públicos em busca de justiça.

Vipsania Agripina, nascida em 14 a.C., era filha de Marcus Vipsanio Agripa, amigo de longa data do imperador Otaviano, e da única filha biológica deste, Júlia. Entre os patrícios romanos os casamentos eram arranjados e desfeitos para fortalecer alianças ou aproximar inimigos, e havia muito pouco que os noivos pudessem fazer. Depois de anos de casamento feliz com Agripa, quando este morreu Júlia foi oferecida em casamento ao herdeiro legal de Otaviano, Tibério, um homem soberbo e emocionalmente instável, com quem viveu miseravelmente; não foi surpresa, embora tenha sido um escândalo, quando Otaviano puniu Júlia com o exílio por adultério. Como resultado, a jovem Agripina, então adolescente, ficou sob a guarda da atual esposa de Otaviano, Lívia.

Lívia era uma verdadeira arquiteta política. Seu marido (a quem arrebatara quando era casado e ainda compartilhava o poder com os rivais Marco Antonio e Marco Lépido) era o imperador; embora Otaviano adotasse legalmente alguns jovens promissores, ela arranjara para que Tibério, seu filho de um casamento anterior, se tornasse seu herdeiro, enquanto seus possíveis rivais caíam um a um, provavelmente envenenados sob suas ordens (bem como o próprio Otaviano, que gozava de boa saúde na velhice); com Tibério pavoneando-se no poder, trabalhava como uma das principais articuladoras políticas do seu reinado.

Já Otaviano era um homem astuto, que conhecia as artimanhas e a capacidade de realização de Lívia e procurava direcioná-las para benefício comum. No entanto, seu ímpeto frequentemente entrava em conflito com os planos da esposa. Quando Júlia foi exilada e Agripina trazida para o seu convívio, Otaviano se afeiçoou a ela e a protegeu, oferecendo-a em casamento a Germânico, um jovem e charmoso neto de Marco Antonio e parente de Lívia, da influente família dos Cláudios. Germânico, além de bem apessoado e gentil, era um militar capaz. Suas vitórias na Germânia e na Gália (notadamente, o resgate da última das três Águias Perdidas) o tornavam imensamente popular. A modéstia e a frugalidade de Agripina, sua devoção por Germânico (com quem viveu um casamento verdadeiramente feliz, se confiarmos nas fontes contemporâneas, acompanhando-o em campanha e mesmo atuando como diplomata) a tornaram uma favorita do povo. O casal deu à luz nove filhos, com seis deles chegando à idade adulta.

Otaviano já havia designado Tibério seu sucessor, mas exigiu que o enteado fizesse o mesmo com Germânico. Quando Otaviano morreu, as coisas mudaram. Tibério, que não gozava das virtudes nem da popularidade de Germânico, o via como uma ameaça. Germânico foi então enviado para o oriente (para longe de Roma), para comandar a Síria. Em seu auxílio foi designado o general Calpúrnio Piso, com quem Tibério mantinha estreitas relações, supostamente para mantê-lo sob controle. Piso e Germânico se desentenderam publicamente em pelo menos uma ocasião (após retornar do Egito, Germânico teria constatado que Piso ignorara instruções suas acerca das tropas na Síria). Ali, Lívia talvez tenha sido solicitada para ajudar Piso a resolver a questão, porque, logo em seguida, Germânico passara mal, acusando o colega de tê-lo envenenado. Germânico morreu no ano 19, deixando Piso no comando da província.

Agripina retornou a Roma com as cinzas do seu marido. Ao receber a notícia do falecimento de Germânicos, o povo romano entrou em luto antes mesmo do senado o declarar oficialmente, e diante da urna com suas cinzas, discursos e homenagens eram prestadas por figuras públicas, incluindo o próprio Tibério. Mas Agripina não se contentaria com demonstrações públicas de afeto. Ela compartilhava da convicção de Germânico de que teria sido envenenado, e que o responsável era Piso (isso não está expresso nas fontes, mas sua mente não deve ter ido muito longe para ligar a atuação de Piso a Tibério). De fato foi aberto processo e Piso foi indiciado, não por assassinato, mas por traição e desacato. Ele se suicidou antes da condenação.

A queda de Piso não satisfez o senso de justiça de Agripina. Ela exigia de Tibério que ele nomeasse um dos seus filhos seu herdeiro, em substituição a Germânico (Tibério tinha um filho Tibério Gemelo, que despontava como seu favorito). Lívia e a sogra, Antonia, mantinham os filhos de Agripina o mais longe possível da mãe. Ela se tornava cada vez mais solitária, e sua relação com Tibério cada vez mais amarga, chegando ao ponto de enfrentá-lo em particular algumas vezes, acusando-o de perseguir, através dela e de seus filhos, o sangue de Otaviano.

Senadores, preocupados com a crescente influência do prefeito pretoriano Sejano (a quem Tibério delegava muitas das suas atribuições quando, em crises emocionais, exilava-se em inacreditáveis orgias na ilha de Capri), buscaram apoio na boa reputação de Agripina, que abraçou a causa. Tibério passou a desconfiar dela, e, num jantar privado, ofereceu-lhe uma maçã para testá-la. Agripina recusou-se a comer, acreditando estar envenenada. Pouco depois ela foi presa com dois de seus filhos, acusada de conspiração (Tibério temia que ela buscasse apoio das legiões leais a Germânico, usando a reputação do marido e o parentesco do avô Otaviano a seu favor).

Agripina e os filhos acabaram banidos para a ilha de Pandataria (atualmente Ventotene), o mesmo local para onde sua mãe Júlia havia sido exilada. Seus protestos constantes eram punidos com castigos físicos (algo raramente aplicado em condenações deste tipo), e ela acabou cega de um olho. Depois de quatro anos do exílio, morreu de inanição (segundo Tácito por greve de fome, mas talvez por ter sido deliberadamente privada de comida, não se sabe), mesmo destino de seu filho Druso, enquanto o outro filho, Nero, se suicidou aguardando julgamento. Ironicamente, Sejano encontrou seu fim antes de Agripina, quando Tibério mandou executá-lo por conspiração. Quando soube da morte de Agripina, Tibério declarou o dia do seu nascimento uma data de mau agouro.

O último filho homem vivo de Agripina, Caligula, criado sob a vigilância de Lívia, sucedeu Tibério como imperador no ano 37. Ele revertera a condenação de Tibério e suas ordens para que o nome de sua mãe fosse riscado da história, e depositou suas cinzas no Mausoléu de Augusto, declarando um dia anual para que os romanos lhe prestassem homenagens. Calígula acabaria assassinado e sucedido pelo primo de sua mãe, Cláudio, e este, por sua vez, substituído pelo seu neto Nero.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Duas Chinas

Em 11 de outubro de 1142 foi ratificado o tratado de Shaoxing entre a Dinastia Jin, que controlava o norte da China, e a Dinastia Song, que dominava o sul, formalizando o fim da guerra entre os dois Impérios.

Embora se sustente que a China seja o país que existe continuamente há mais tempo no mundo atual (desde a unificação dos seus reinos em 221 a.C.), a sua história é bem mais complicada do que uma uma sucessão linear de governantes no atual território chinês. Por vezes, o que chamamos de "China" chegou a ter mais de um imperador simultaneamente. Era o caso das dinastias contemporâneas Song e Jin.

A Dinastia Song emergiu do caos que se seguiu à dissolução da dinastia Tang em 907. Os Tang vinham perdendo controle sobre os senhores da guerra e administradores provinciais do seu território, que, cada um à sua maneira, tornaram suas terras virtualmente independentes debaixo do nariz dos seus últimos imperadores. Depois de 907, pelo menos 10 reinos diferentes existiram na China, enquanto famílias nobres lutavam inutilmente entre si pelo cargo simbólico de Imperador (o período entre 907 e 960 é conhecido como Cinco Dinastias e Dez Reinos). Foi um período de disputas violentas entre os vários poderes emergentes em busca de estabilidade e supremacia, até que em 960, Zhao Kuangyin, um jovem militar que tivera ascensão meteórica no reino de Hou Zhou, depôs o neto do seu antigo suserano e assumiu para si o título de Imperador. Aconteceu de Zhao Kuangyin estar à frente de um exército em marcha quando espalhou-se o rumor entre os soldados de que um vidente teria visto um sinal indicando que o Mandato dos Céus (o ato divino conferido aos "justos" que legitimava o poder imperial) deveria ser entregue a ele. O rei era um menino de 7 anos, e não foi muito difícil para que Zhao fosse entronizado pelos seus comandados depois disso. Ficaria conhecido como Imperador Taizu, fundador da Dinastia Song.

Nos 17 anos de reinado de Taizu, o Império Song, firmemente centrado na cidade de Kaifeng, no noroeste da China, conquistou primeiro os reinos do sul, para depois investir nos reinos ao norte. O sucesso dos Song se deveu principalmente à reforma administrativa de Taizu (instituindo nomeações por concurso público ou exame de mérito, ao invés do loteamento de cargos entre aristocratas e militares), e no investimento em cartografia - o conhecimento detalhado dos domínios Song levou à confecção de um atlas, favorecendo a aplicação eficiente de políticas públicas. Inovações técnicas e científicas também eram favorecidas por incentivos públicos. A diplomacia Song mantinha embaixadas na Índia, Pérsia, Coréia, Egito, Srivijaya (o opulento império comercial que dominava a passagem do Estreito de Malaca), mantendo ainda relações com o Japão e o Império Bizantino.

Ao norte do que os Song consideravam seu, nas vastas planícies entre a Mongólia e a Manchúria, a ausência de um poder central chinês favoreceu a organização e estabelecimento de Estados rivais controlados por antigos povos nômades que emulavam o modelo administrativo chinês. Após a queda dos Tang, a etnia kitai foi unificada num império próprio, designando sua casa reinante como a Dinastia Liao. Liao é tratado pela historiografia chinesa tradicional como um reino estrangeiro, mas seu sucessor, a Dinastia Jin, teria tratamento diferente. Como os kitai, os jurchen, nativos da Manchúria, emergiram como tribos mais ou menos independentes, embora submetidas a Liao. Porém, conforme o poder central afrouxava, os jurchen rebelavam-se, realizando ataques pontuais e saques a cidades. Depois de uma campanha bem sucedida ao lado dos coreanos, os jurchen uniram-se sob um governante comum, e a partir de 1115, forjariam seu próprio império sobre as ruínas de Liao, a Dinastia Jin. Os kitai manteriam sua soberania por mais algum tempo no reino de Qara Kitai, no noroeste da China.

Os Song haviam firmado aliança com os Jin contra Liao, mas nunca forneceram os exércitos prometidos. Logo após o fim da Dinastia Liao - pela captura do seu Imperador Tianzuo em 1125 - a Dinastia Jin rompeu a aliança e partiu para a ofensiva sobre o nordeste do domínio Song. Em dois anos, a capital Song, Kaifeng, cairia sob domínio Jin. Uma conspiração de nobres centrados em Beijing contra os Song foi instrumental para o sucesso dos Jin no norte da China. Os Imperadores Jin, agora controlando partes da China de facto, só poderiam tê-lo feito sob o Mandato dos Céus, o que os legitimaria, portanto, como governantes chineses. Na prática, os jurchen, à medida em que migravam para as novas áreas conquistadas, incorporavam para si características culturais chinesas, e sua nobreza era educada nos clássicos chineses.

Jin e Song passaram mais de uma década numa guerra de atrito, interrompida temporariamente por intrigas palacianas, rebeliões internas, e questões de sucessão. Para os Song a situação ainda era mais crítica, pois a crise levava oficiais chineses (tanto leais aos Song, como os que estiveram a serviço de Liao) a preferirem oferecer seus serviços aos conquistadores estrangeiros do que ao seu próprio imperador.

A corte Song (ou o que restava dela após a captura de Kaifeng) havia cruzado o rio Yantse e reagrupado na atual cidade de Hangzhou, virtualmente abandonando todas as terras ao norte do rio Huai para os Jin. Porém, há evidência de que o novo Imperador Song eleito, Gaozong (um usurpador, mas o usurpador que a nobreza Song precisava), preferia evitar o conflito com os Jin para impedir a restauração do imperador deposto em Kaifeng, Qinzong. Manobras políticas conduziram a acusação de importantes militares Song por traição, responsabilizando-os pelas derrotas dos Song. Um deles, Yue Fei, estava prestes a retomar Kaifeng quando foi chamado a Hangzhou, onde foi preso e executado. A política de conciliação dos Song do sul com o Jin conduziu ao Tratado de Shaoxing, em que os Song abdicavam de todas as terras ao norte do Huai e se comprometiam a pagar tributo anual aos rivais do norte. Os Song sobreviveram no sul graças ao investimento na construção de uma marinha mercante e uma marinha de guerra, já que manteve controle sobre algumas das principais cidades portuárias da China.

Já os Jin precisaram desviar energia para conter revoltas dos remanescentes kitai em seus domínios, bem como de clãs jurchen que se opunham à sinificação, e conflitos com o reino tangute de Xi Xia no leste. A guerra com os Song foi suspensa não apenas por força de tratado (rompido em algumas ocasiões, porém em batalhas inconclusivas), mas pela incapacidade dos Jin de direcionar recursos para esta frente. Mas a queda começou quando as tribos mongóis começaram a se movimentar pela unificação em torno de Genghis Khan. Genghis arrasou Xi Xia entre 1205 e 1209, e em 1211 invadiu o império Jin com 50 mil guerreiros montados, dez vezes menos do que o estimado para o exército Jin - e mesmo assim, em 1214, os Jin assinaram um tratado desfavorável com os mongóis. O filho de Genghis, Ogedei, comandando um exército engordado por chineses insatisfeitos, esmagou tanto Xi Xia quanto Jin entre 1232 e 1234.

Já os Song resistiram até 1279. Foi durante a campanha de expansão para o sul que Kublai Khan, que acumulava para si o cargo de Grande Khan do imenso Império Mongol e de administrador da China, instaurou a si mesmo Imperador chinês, fundando a dinastia Yuan em 1271. Uma batalha naval em Yamen (com enorme superioridade numérica Song, e um exército invasor composto praticamente todo por soldados e marinheiros chineses) resultou na morte do último imperador Song e sua corte, ou por suicídio, ou por afogamento.

Ironicamente, a China como existia precisou ser destruída por outro invasor estrangeiro para ser, enfim, reunificada. Após o estabelecimento da Dinastia Yuan, a China, embora tenha sido invadida e repartida entre administradores estrangeiros e estados-fantoches algumas vezes, nunca mais foi dividida.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Assalto a Santiago

Em 11 de setembro de 1541, um jovem chefe picunche, criado e educado entre os incas no Peru, chamado Michimalonco, liderou um exército de mais de 10 mil homens contra a recém construída colônia espanhola de Santiago, no Chile.

Em 1540, o espanhol Francisco Pizarro, tendo conquistado o Peru, enviou Pedro de Valdivia para percorrer os Andes ao sul e sondar locais para o estabelecimento de colônias em regiões de produção de metais preciosos. Naquele ano, Valdivia alcançou uma antiga aldeia de desterrados de diversas tribos andinas periféricas ao império inca, que os incas conheciam coletivamente como promaucaes, e os espanhóis dali em diante como picunches. Sem resistência, os picunches locais aceitaram que os espanhóis administrassem as minas nas quais já trabalhavam em troca de proteção. Em fevereiro de 1541 foi fundada a colônia de Santiago de Nova Extremadura.

Para os picunches as coisas não foram tão simples. Os novos senhores espanhóis exigiam um esforço sobre-humano dos trabalhadores nas minas de ouro e na construção da colônia. O próprio Michimalonco estava empregado como capataz, e ao se ver obrigado a colocar a segurança de seus conterrâneos em risco por senhores que não se importavam muito, rapidamente tornou-se um líder rebelde, cuja reputação crescia a cada dia. Valdivia, para assegurar a obediência de seus novos súditos e, no fim das contas, garantir a segurança das cargas transportadas entre as minas e a colônia, ordenou a prisão dos seus chefes, mantidos em cativeiro para persuadir os picunches a se manterem na linha.

Os picunches rebeldes realizavam assaltos e escaramuças. Outro líder picunche, Trangolonco, irmão de Michimalonco, realizou um assalto à antiga cidade inca de Quillota (então sob controle espanhol), matando a todos os espanhóis, escravos negros, incas e demais nativos peruanos, restando apenas um colono e seu escravo. O ataque atraiu a atenção de Valdivia, que mobilizou 80 soldados estacionados em Santiago para reprimir o bando de Trangolonco mais ao sul. Na colônia, deixara 50 homens sob o comando de Inés de Suárez.

Inés era uma jovem senhora com 34 anos, que teria ido à América atrás de seu marido, que teria se aventurado ao novo continente na expedição de Pizarro (ele teria morrido no mar, antes de desembarcar no Peru). Como viúva, ela recebeu uma pequena doação em terras, e se tornou criada e, possivelmente, amante de Valdívia, conquistador incumbido de construir uma capital no Chile, salvando sua vida pelo menos em duas ocasiões e participando de pequenas batalhas.

A movimentação de Trangolonco era um chamariz. Enquanto Valdivia caçava picunches no sul, Michimalonco trazia consigo cerca de 10 mil homens, que cercavam as paliçadas de uma Santiago quase desguarnecida. Os ataques, contudo, não eram muito sistemáticos devido à posição da antiga colônia, numa ilha fluvial elevada. Além disso, os colonos tinham armas de fogo e treinamento militar, e Michimalonco entendia que um confronto direto poderia colocar tudo a perder. Mesmo assim, os picunches avançavam sobre os espaços deixados pelos espanhóis na defensiva.

À noite, como boa parte da colônia estava perdida e os poucos homens desmoralizados, Inés reuniu um conselho de guerra e decidiu executar os chefes picunches para aterrorizar os invasores e dispersá-los. Um dos soldados que vigiavam os presos lhe perguntou: "como a senhora quer que os matemos?", ao que ela respondeu "assim", tomando a espada do homem e cortando as cabeças ela mesma. As cabeças foram atiradas sobre os picunches.

Com os atacantes chocados e desorientados, Inés cavalgou em direção à praça central, à frente dos soldados que faziam uma linha de frente, e comandou um avanço final que desbaratou os milhares de picunche apavorados, salvando o que restava de Santiago. No momento, a aparição de Inés, vestida em armadura sobre um cavalo branco aterrorizando milhares de inimigos, fez os espanhóis acreditarem se tratar de São Tiago, padroeiro da cidade e da própria Espanha, descendo do céu.

Quanto a Michimalonco, após a batalha, se retirou para os domínios dos incas. Mas esquecido e pobre, resolveu voltar ao Chile, disposto a fazer as pazes com os espanhóis, cuja bravura em batalha o havia impressionado. Valdívia o recebeu de bom grado, e o teve como aliado numa expedição contra os araucanos, no sul. Ele ainda serviria de embaixador entre os araucanos, convencendo-os naquele momento a se unirem aos colonos espanhóis para fundar uma nova nação. A relativa cooperação dos povos chilenos seria crucial para o sucesso da colônia.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Colombo

Em 3 de agosto de 1492 Cristóvão Colombo, no comando da nau Santa Maria, zarpou do porto de Palos de la Frontera, na Espanha, para a viagem que o levaria à América.

Desde que os mongóis conquistaram tudo entre a Hungria e a Coréia, produtos de origem asiática, como especiarias e seda, se tornaram artigos de grande demanda na Europa. Com a ascensão dos turcos otomanos e a sua conquista de Constantinopla em 1453, as rotas comerciais pela Ásia ficaram muito restritas para os mercadores europeus, de maneira que estes artigos se tornaram escassos, ou proibitivamente caros no Ocidente. Enquanto potências marítimas, como Veneza e Gênova, tentavam, por meio de acordos ou persuasão, furar o bloqueio turco, e Inglaterra e França, outras potências europeias voltadas para o oceano, viam-se presas a conflitos internos e externos, as pequenas nações ibéricas tomaram a dianteira da navegação oceânica, buscando uma alternativa às rotas tradicionais para se chegar ao mercado asiático. Assim, Portugal, independente desde 1139, lançou-se primeiro ao mar e desenvolveu uma escola de navegação e cartografia incomparáveis na Europa quatrocentista. Mas alguns pequenos eventos chave fariam com que a balança começasse a pender para os seus vizinhos, os jovens reinos de Castela e Aragão.

Cristóvão Colombo nasceu em território genovês, filho de um tecelão que complementava a renda familiar com uma banquinha onde vendia queijos com o pequeno Cristóvão. As circunstâncias da vida pessoal de Colombo (como a própria data precisa e local de nascimento) são nebulosos, mas sabe-se que em 1873, possivelmente inspirado pelo negócio do pai, Cristóvão se tornou aprendiz de importantes famílias de negociantes genoveses, e teria embarcado em algumas expedições comerciais pelo Mediterrâneo visitando algumas colônias genovesas. Em 1476 ele navegou pelo Atlântico até a Irlanda, talvez até a Islândia. No retorno da Irlanda, entrou a serviço de um navio português e viajou a Lisboa, onde encontrou seu irmão mais novo, Bartolomeu.

Bartolomeu Colombo foi uma pela fundamental para os eventos que levaram Cristóvão à América. Enquanto o irmão mais velho começara a trabalhar com o comércio em Gênova, Bartolomeu se tornou aprendiz de uma oficina de cartografia em Lisboa. O conhecimento cartográfico na Europa medieval era muito baseado num mapa muito fragmentário do mundo conhecido pelo cartógrafo grego Ptolomeu, elaborado originalmente no século II e reproduzido exaustivamente por copistas medievais. Este mapa separava fisicamente os oceanos Índico e Pacífico, estabelecendo a África como uma barreira de terra que ia até os confins da Terra ao sul. Contudo, desde a década de 1460 Portugal vinha tomando a iniciativa de tatear a costa da África à procura de uma passagem marítima para as "Índias" (termo que se referia não apenas à Índia em si, mas a todo sudeste asiático), desviando das rotas conhecidas dominadas pelos turcos otomanos no Mediterrâneo e na Ásia por terra. Estudando os clássicos (direta ou indiretamente, através do trabalho de estudiosos muçulmanos sobre clássicos gregos) e coligindo o as novidades trazidas por navegadores e astrônomos, Bartolomeu estava convencido de que uma rota para o oeste, Atlântico adentro, seria uma rota mais curta para as Índias do que o contorno da África, cuja extensão ainda não era totalmente conhecida. A ideia de que a rota do Atlântico seria mais curta não era novidade: ela havia sido proposta pelo astrônomo florentino Paolo Toscanelli ao rei Afonso V de Portugal quando Bartolomeu ainda era um aprendiz (porém o rei a rejeitou). Bartolomeu apresentou sua proposta ao rei João II em 1485, mas um corpo de especialistas avaliou que a distância proposta seria insuficiente para chegar à Ásia pelo oeste, e o projeto foi recusado.

O encontro dos irmãos em Lisboa levou Cristóvão a se estabelecer em Portugal. Bartolomeu o convenceu de que era possível alcançar a Índia pelo Atlântico, e Cristóvão viu nisso uma possibilidade de levar vantagem no estabelecimento do comércio entre Portugal e Índia. Quando Cristóvão reapresentou o projeto a João II em 1488, Bartolomeu Dias, navegador português, havia acabado de regressar da expedição onde encontrara o Cabo da Boa Esperança, o ponto mais setentrional da África de onde os portugueses poderiam se lançar diretamente à Índia. O rei português não demostrou mais interesse em Colombo. A proposta inicial dos irmãos Colombo (que incluía armar três naus e nomear Cristóvão "Grão Almirante do Oceano" e governador de todas as terras que encontrasse) foi rejeitada por uma comissão nomeada pelo rei João II, porque a distância estimada pelos Colombo era curta demais para se chegar à Ásia (e de fato era).

Cristóvão deixou Lisboa e tentou por conta própria financiamento para a sua expedição em Gênova e Veneza, sem sucesso. Bartolomeu tentou o rei Henrique VII da Inglaterra (quando foi assaltado por piratas) e depois Carlos VIII da França, em vão.

Em 1486, antes da recusa final de João II, Cristóvão ofereceu o projeto à corte unida de Castela e Aragão. Tanto num como noutro, o projeto foi recusado por causa da distância subestimada até a Ásia. Contudo, os reis Fernando e Isabel foram cativados pelo conceito de uma rota oceânica, e, para evitar que Colombo levasse o projeto a outro país, decidiram pagar-lhe um estipêndio anual e oferecer-lhe hospedagem e alimentação no país. Entusiasmado, Cristóvão continuou negociando com os reis católicos até conseguir sua aprovação em janeiro de 1492. A Reconquista estava completa, e os reinos espanhóis podiam direcionar seus investimentos em outras direções. Contudo, na audiência decisiva, Isabel recusara a última proposta de Colombo, e ele estava deixando o castelo de Alcázar no lombo de um burro quando Fernando interveio e pediu que Isabel enviasse um soldado para buscá-lo de volta. Nos seus escritos, Cristóvão creditava a Fernando a "razão pela qual aquelas ilhas (as Antilhas) foram descobertas". Seu segundo filho foi batizado Fernando em sua homenagem.

De janeiro a agosto as três naus foram armadas e preparadas, e sua tripulação contratada. Colombo capitanearia a caraca Santa Maria (anteriormente batizada "Galega"), a maior das três, enquanto Martin Alonso Pinzón e seu irmão Vicente Yáñez (que em 1498 chegaria à costa do nordeste brasileiro a caminho do Orinoco) pilotariam as caravelas Pinta e Nina, respectivamente. No dia 3 de agosto, a flotilha partiu o porto de Palos de la Frontera, no sudoeste espanhol, em direção à possessão espanhola das Ilhas Canárias, onde renovaram as provisões e fizeram reparos. De lá partiram em 6 de setembro para uma jornada de 5 semanas para o oeste até avistarem terra (a costa da ilha de Hispaniola, na atual República Dominicana). O contato com os nativos foi amistoso (com a bênção do cacique Guacanagari, Colombo deixou para trás uma pequena colônia com parte de seus homens no Haiti), exceto pelo encontro com os ciguayos no noroeste de Hispaniola, que, se recusando a fazer negócios com os estrangeiros, acabaram ferindo dois tripulantes. Porém, os relatos que trazia da existência de ouro e outras riquezas em potencial (como os próprios nativos que contactara, que lhe pareceram dóceis e facilmente conquistáveis) seriam de grande valia aos seus patronos. Para Colombo, a concretização da sua posse sobre aquelas terras, o direito a 10% de toda a produção e de 8% sobre todo o comércio com a coroa, ou seja, a garantia de uma vida de fartura para si e seus filhos.

A história da colonização das Américas ainda não estava selada. Na sua viagem de retorno, Colombo, pilotando a Niña, se viu obrigado por uma tempestade a buscar abrigo em Cabo Verde, possessão portuguesa. Depois de rezarem em uma igreja por terem sobrevivido à tormenta, a tripulação foi presa por dois dias por suspeita de pirataria. Mais uma tempestade desviou o navio para Lisboa. Ali Colombo conheceu Bartolomeu Dias, que o entrevistou antes de encaminhá-lo ao rei. João II, no entanto, não estava na cidade, e demoraria uma semana até Colombo encontrá-lo em Vale do Paraíso. Aos relatos do navegador sobre as terras encontradas do outro lado do oceano, João apenas considerou a expedição uma violação de tratados (o tratado de Alcáçovas de 1479 concedia a Portugal a posse de todas as terras a serem descobertas a oeste e ao sul das Canárias, sugerindo que os portugueses, de alguma maneira, já soubessem da existência da América embarreirando a passagem marítima para a Índia). Apenas depois disso Colombo revelou suas descobertas os reis espanhóis.

Colombo retornou à América (que só receberia este nome em um mapa impresso na Suíça em 1507, em homenagem a Américo Vespúcio, que acompanhou Colombo nas viagens seguintes e depois entraria a serviço da coroa portuguesa) mais três vezes, atingindo o continente de fato apenas na terceira viagem, quando margeou a costa venezuelana e desceu na Península de Paria. De fato, recebera o título de governador e Almirante do Oceano. Contudo, as desventuras de Colombo depois da quarta viagem merecem um artigo à parte, e gradualmente a coroa espanhola tomou e redistribuiu as terras prometidas à família (até fins do século XVIII, descendentes de Colombo ainda tentavam judicialmente recuperar a herança de Cristóvão).

Até o fim em 1506 Colombo estava convencido de que as ilhas que descobrira faziam parte do extremo oriente asiático (não a Índia propriamente dita, já que as pessoas que viviam ali não correspondiam às expectativas de "civilização" que esperavam da Índia). No seu plano de viagem, os irmãos Colombo davam como certo de que a Eurasia cobria 225° de longitude da curvatura terrestre (tese de Marino de Tiro, antecessor de Ptolomeu), e subestimava o comprimento longitudinal de um grau (adotavam a medida do cartógrafo árabe Alfraganus, sem se darem conta de que o autor se referia à milha arábica, mais curta do que a romana que os Colombos adotavam), de maneira que a América estava mais ou menos onde os Colombos previam que estaria a Ásia. Contrariando a crença popular de que, antes de Colombo, os europeus acreditavam que a Terra era plana, os especialistas que avaliavam e reprovavam o plano dos Colombo intuíam que a distância era curta demais - apenas não previam a existência de um continente desconhecido bem ali.

Neste dia também: Jesse Owens conquista a medalha de ouro nos 100 metros rasos nos Jogos olímpicos de Berlim

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Merovíngios e Carolíngios

Em 28 de julho de 754, Pepino, o Breve ("Le Bref", também traduzido por "O Curto" por conta de seus cabelos curtos) foi coroado rei dos francos pelo papa Estevão II em Paris. Foi a primeira vez que um Papa se deslocou de Roma para coroar um monarca, o ponto final da dinastia merovíngia na França, e um evento marcante da gradual passagem entre a Antiguidade e a Idade Média na Europa Ocidental.

Os francos foram uma confederação de tribos germânicas que se deslocou para as fronteiras romanas por volta do século III e ocuparam a margem direita do baixo Reno. Assim como outras tribos, os francos fizeram incursões ao interior do império (chegando tão longe quanto a Catalúnia), mas foram mantidos, com muito custo, fora das fronteiras. Até que, para tentar pacificar e assimilar esses "bárbaros", o imperador Juliano permitiu, em 358, que uma facção dos francos, os salianos, se estabelecessem entre o sul da Holanda e o nordeste da França, condicionando a mudança à sua submissão à autoridade imperial e seu alistamento entre os foederati (corpo do exército romano composto e comandado por "bárbaros").

À medida em que a autoridade imperial se enfraquecia, os francos conquistaram crescente autonomia política, e, emprestando as instituições e modelos de administração de Roma, formaram seus próprios reinos. Em Tornacum (atual Tournai, na Bélgica) surgiu uma facção que viria a dominar as demais, graças à sua boa relação com o romano Egídio, administrador da Gália que, no apagar das luzes de Roma, declarou o norte da frança seu próprio império. Egídio (e, após sua morte, seu filho Siágrio), retendo um fragmento do Império Romano cercado de invasores germânicos que inundavam a França, contou com o apoio do rei franco Childerico I de Tornacum para conter os visigodos que tomavam a parte ocidental da Gália. Quando o ostrogodo Odoacer destronou o último imperador romano do ocidente em 476, Siágrio se recusou a reconhecê-lo. Como o imperador do oriente, Zenão, preferia a amizade de Odoacer e seus conquistadores germânicos ao pequeno "Duque" (título que Siágrio adotava, embora os francos o chamassem de "rei dos romanos"), e Siágrio ficou isolado.

Childerico observava a mudança de eixo de poderes na Europa. Embora engajasse em campanha ao lado de Egídio contra os godos, ele chegou a discutir com Odoacer uma aliança contra a tribo dos alamanni. Quando morreu, foi sucedido pelo seu filho Clóvis I, que passou a guerrear contra Siágrio até derrotá-lo em 486, em Soissons, e anexar todo o seu território, estendendo o domínio franco até Rennes, às portas da Bretanha. A dinastia da qual Clovis fazia parte ficou conhecida como Merovíngia, em referência a seu avô, chefe (ou rei) dos francos em Tornacum, Merovingh, personagem possivelmente legendário, filho, entre outras versões, de um deus marinho.

Os merovíngios se tornaram uma potência militar no norte da França, expandindo seu domínio sobre a Burgundia, conquistando os visigodos no oeste, e, depois do colapso dos ostrogodos sob ataque bizantino, anexando a Provença, chegando às fronteiras da Itália. Porém, internamente, as disputas pelo poder se iniciaram com a morte de Clóvis: filhos e netos declaravam-se reis, e entravam em guerra uns com os outros. De maneira que, para os reinos vizinhos, o reino franco era territorialmente coeso e militarmente poderoso, mas internamente era bem caótico. Apenas em 679 Teuderico III conseguiu unificar o reino sob um único rei, embora tenha sido mais um fantoche do mordomo (cargo que, no mundo merovíngio, correspondia ao de primeiro-ministro) do seu palácio em Paris, Ebroin, e depois dependente dos que o sucederam. A força que os mordomos do palácio alcançavam alterou a vida política do reino franco. Como os reis se tornavam figuras de segunda importância, a união dinástica se estabilizou por mais de 60 anos, sob tutela dos mordomos, estes sim, disputando encarniçadamente o poder.

O período merovíngio também foi uma fase de grande difusão do cristianismo na Europa Ocidental. Já no século VI a religião estava bem difundida na Gália romana e entre os francos que se estabeleciam nela, e a nobreza merovíngia tomava vantagem da boa relação com a Igreja, favorecendo o estabelecimento de monastérios em terras doadas, que no final retornavam ao controle dos nobres com a nomeação de algum parente para o cargo de abade. Foi uma fase de enorme aparelhamento da Igreja na França, mas o poder era compartilhado e precisava ser mantido, a despeito da volatilidade política dos francos. Isto explica a atenção que Roma passou a dar à coroa francesa dali em diante.

Os reis merovíngios continuaram a exercer uma função cerimonial enquanto os seus mordomos conduziam a guerra, a política e a economia. Pepino de Heristal, mordomo do palácio de Aachen unificara em torno de si o poder de facto sobre os francos ainda no tempo de Teuderico. Seu filho, Carlos Martel ("O Martelo"), contudo, precisou vencer uma guerra civil para assegurar-se no cargo. Quando enfim emergiu triunfante em 718, os muçulmanos do Califado Omíada já haviam invadido a Espanha visigótica vindos da África, e marchavam em direção à França. Um grande exército mouro-árabe desembarcou na Aquitânia em 721 e tomou a cidade de Toulouse. O duque da Aquitânia, Odo, acorreu a Carlos Martel por ajuda. Martel precisou constituir um exército permanente, ou seja, mobilizar os homens durante o período em que deveriam estar cuidando do plantio e da colheita de suas terras, e para isso precisou confiscar terras cedidas à Igreja (muitas delas cedidas pelo próprio Martel), causando tamanho mal estar com o clero que Martel estava a ponto de ser excomungado. Porém, o sucesso da campanha, culminando com a vitória na Batalha de Tours em 732 (a partir da qual os califados muçulmanos nunca mais conseguiram invadir a França com sucesso), fez recuperar seu prestígio.

Depois de conter muçulmanos e obter vitórias contra os reinos germânicos no leste, Martel sentiu-se tão seguro de sua posição que não se preocupou em coroar um novo rei quando seu soberano, Teuderico IV, faleceu. Em seus últimos seis anos como mordomo, Martel governou sozinho, assentando sua autoridade sobre povos conquistados e imprimindo reformas administrativas. Ele recusara um pedido de auxílio do Papa contra os lombardos, mas isso demonstrava a relação de dependência entre o papado e o poder militar franco. Seu exército (que enfim desmobilizara) contava com a infantaria e cavalaria pesadas que se tornariam uma referência romântica dos exércitos europeus da Idade Média.

Quando morreu, seus dois filhos, Carlomano e Pepino, dividiram suas terras (um terceiro filho, Grifo, meio-irmão dos dois, clamava o direito a parte da herança, mas foi preso por ambos, enclausurado em um monastério, depois morto durante uma rebelião). Carlomano rapidamente assentou sua função de mordomo (e a própria unidade territorial do reino) coroando um parente obscuro dos merovíngios, Childerico III. Por motivos não muito esclarecidos, Carlomano retirou-se a um mosteiro em 747, deixando todo o poder com Pepino. Vendo a si mesmo como o centro do poder do reino franco, e entendendo as dificuldades que o papado enfrentava com os lombardos na Itália, Pepino enviou uma carta ao Papa Zacarias, com uma sugestão subentendida: "Sobre os reis dos francos que não mais possuem poder real: isto é apropriado?". Zacarias enviou sua resposta confirmando achar inapropriado que houvesse um rei sem poder real, e com isso Pepino moveu-se para depor Childerico e confiná-lo a um monastério.

A dinastia merovíngia chegara ao fim e dera lugar à dinastia carolíngia (em referência a Carlos Martel). Os nobres francos proclamaram Pepino rei em 752, mas a viagem que o Papa Estevão II fez a Paris para coroá-lo pessoalmente, no dia 28 de julho de 754, legitimou seu poder e consolidou sua aliança com o papado.

As subsequentes conquistas de terras lombardas, posteriormente doadas ao papado, se tornaram o arcabouço do que viriam a ser os Estados Papais, o reino no centro da Itália governado pelo Papa até a unificação da península italiana no século XIX, e do qual o Vaticano é o último remanescente. Pepino também conquistaria o último quinhão do califado na França, expulsando os omíadas de Narbonne, e "pacificaria" (com particular violência) a Aquitânia , então uma província rebelde. Com sua morte, seguindo o costume franco, seu reino foi dividido entre seus dois filhos, Carlos e Carlomano. Carlomano morreu de causas naturais em 771, deixando para Carlos (conhecido para a posteridade como Carlos Magno) todo o reino. Ele conquistaria uma fímbria de terra no norte da Espanha muçulmana (cuja campanha e seus personagens se tornariam temas de canções medievais), e submeteria os lombardos, feitos pelos quais o Papa o declararia "Imperador de Roma", dois séculos e meio depois do fim do Império do Ocidente. O reino franco se tornara um império por si próprio, cuja porção oriental subsistiria até o início do século XIX como Sacro Império Romano. As cortinas do mundo antigo terminaram de se fechar por completo para dar lugar à Idade Média.

Neste dia também: A formação da Union Mundial pro Interlingua em Línguas.