segunda-feira, 16 de abril de 2018

Armagedom

A data de 16 de abril de 1457 a.C. (provavelmente) está registrada nos hieroglifos nas paredes do Salão dos Anais, no Templo de Amon-Ra em Karnak, no Egito. O documento conta os relatos detalhados mais antigos de uma batalha entre o exército egípcio e uma vasta coalizão de reinos cananitas, amorreus, e mitani nos arredores da cidade de Megido, atual Israel.

O Egito dominava politicamente (e, de épocas em épocas, militarmente também) os pequenos reinos e cidades-estado do Levante - a fímbria de vales férteis que conecta o Egito até o vale do Eufrates e a Mesopotâmia e era a principal conexão do comércio entre África e Ásia - havia muito tempo, mas geralmente permitiu a existência desses reinos, que funcionavam como satélites que defendiam suas fronteiras contra invasores asiáticos (às vezes, entre eles próprios) e pagavam tributos anuais ao faraó. Exceto pelos mitani, que tinham origem cultural indo-européia, tendo chegado ao Oriente Médio vindos do norte, todos os povos na região eram de falantes de línguas semíticas, e em suas cosmologias (se confiarmos na cosmologia hebraica descrita em Gênesis como referência para as demais) acreditavam-se parentes uns dos outros através da descendência comum de antigos patriarcas. E, de uma maneira ou de outra, consideravam os egípcios estranhos à sua cultura, estranhamento que era mútuo.

A XVII Dinastia egípcia contava com uma elite governante formada por descendentes de invasores provavelmente semíticos, os hicsos (do egípcio heqa khasut, "governantes estrangeiros"). Estes hicsos chegaram ao delta do Nilo no século XVII a.C., e governaram a metade norte do país através de 5 dinastias. Em 1550 a.C., um parente do faraó hicso Camósis, Amósis, o depôs estabeleceu a XVIII Dinastia, anunciando que todos os egípcios eram, enfim, governados por um egípcio novamente (embora ele mesmo descendesse dos hicsos). Todo o período pode ter levantado um ressentimento entre ambas as partes, e o retorno do Egito a governantes nativos pode ter endurecido as políticas egípcias com seus vizinhos semíticos, ou a percepção entre os levantinos de estarem submetidos a um dominador estrangeiro. De qualquer forma, revoltas pontuais se tornaram constantes na periferia do império africano.

Em 1479 a.C. morreu o faraó Tutmósis II, e seu primogênito masculino, Tutmósis III, tinha apenas dois anos de idade. A rainha Hatshepsut (primeira entre as esposas do velho faraó, mas não a mãe do pequeno Tutmósis) assumiu o trono como regente. A farani (não tenho certeza se, fora do português, exista o feminino de faraó) governou com mão de ferro, sendo lembrada para a posteridade em monumentos e textos como uma igual ao faraó Tutmósis III (existem bustos esculpidos atribuídos a Hatshepsut retratando-a com o peito nu sem os seios e com a barba falsa ostentada tradicionalmente pelos faraós). Na prática, toda a administração pública e política interna e externa estavam sob sua responsabilidade, ficando o enteado no comando apenas do exército quando atingiu a maioridade. Por coincidência, Tutmósis III revelou-se um gênio militar, obtendo vitórias em 15 campanhas empreendidas ao longo de 20 anos.

Enquanto Hatshepsut governava como regente, os reinos tributários do Levante questionavam a sua legitimidade, e sentimentos de revolta podem ter surgido entre as elites locais aqui e ali. Mas é provável que todos os senhores locais tivessem consciência de que, sozinhos, seriam incapazes de se rebelar contra o Egito sem graves consequências. Quando a rainha morreu, é possível que os reis levantinos vissem o faraó Tutmósis, já maior de idade e apenas agora coroado soberano do Egito, como um rei fraco, dominado por uma mulher mesmo adulto. O rei de Kadesh, cidade fortificada próximo ao rio Orontes, na Síria, agregou em torno de si outros reis cananitas, amorreus, e mitani, para aproveitar o momento e lançar uma ofensiva contra o domínio egípcio na região. Um dos colaboradores, o rei de Megido, cidade murada cananita sobre uma colina no atual Israel, ofereceu sua cidade como centro de operações para a coalizão.

Para o infortúnio dos reis rebeldes, Tutmósis não era aquele fracote. Em 1457 a.C., reuniu entre 10 e 20 mil soldados e carruagens e marchou para o norte. O rei de Megido, por sua vez, alertado da ameaça, convocou seus aliados, juntando cerca de 15 mil soldados. Havia três passagens possíveis para ir da cidade de Yehen (tomada e saqueada em campanha anterior em 1481 a.C., e contada entre as rebeldes) a Megido, duas mais longas e fáceis contornando um vale, e uma mais curta, que passava por uma ravina onde os soldados teriam que marchar em fila. Os generais de Tutmosis o aconselharam a não arriscar uma emboscada no vale. "Se meus generais consideram melhor seguir pelos caminhos mais fáceis, meus inimigos pensarão o mesmo", e ordenou a passagem pelo vale. E Tutmosis tinha razão: os inimigos estavam guardando as outras duas passagens, enquanto seu exército passava em boa forma pelas escarpas.

O avanço implacável e a agilidade das tropas deram a vantagem a Tutmósis quando este se defrontou com os cananitas diante de Megido. Uma vitória rápida, com poucas baixas de ambos os lados (os egípcios contam menos de 100 mortos do lado do inimigo). O rei de Kadesh e seus soldados ou fugiram pelos campos (e foram capturados) ou entraram na cidade. O cerco que se seguiu durou sete meses, nos quais o Egito conquistou várias cidades no Vale de Jesreel, até que Megido capitulou e o faraó ratificou seu domínio na região - com conquistas posteriores na Síria ao norte e na Núbia ao sul, Tutmósis III levou as fronteiras egípcias à sua extensão máxima. Aos reis derrotados, Tutmosis exigiu que enviassem um filho de cada um como reféns ao Egito. Lá eles foram educados como egípcios, e ao retornarem, se tornaram administradores leais ao faraó.

Outras campanhas militares foram necessárias para que o Egito submetesse todos os focos de rebelião no Levante, e as crônicas do reinado de Tutmósis III estão ricamente registradas nas ruínas do grandioso templo de Karnak, bem como no obelisco que o imperador romano Constantino ordenou que fosse transportado para Roma no ano 326, onde está até hoje. O rei de Kadesh foi derrotado e a cidade também passou para o controle egípcio, mas cerca de 200 anos depois ela voltaria a ser cenário de um dos eventos decisivos para a História ocidental, quando Ramsés II combateu o rei hitita Mursilis e escapou por muito pouco de uma derrota que poderia ter arruinado o Egito e colocado o Crescente Fértil aos pés do Império Hitita. Da Batalha de Megido, herdamos o mito (ou a profecia bíblica) do Armagedom, onde, como antes, todos os exércitos do mundo se reunirão naquela colina para a batalha final no fim dos tempos.

segunda-feira, 5 de março de 2018

Index Librorum Proibitorum

Em 5 de março de 1616, 73 anos após sua publicação, o livro Da Revolução dos Orbes Celestes, do astrônomo Nicolau Copérnico, onde, através de cálculos e observações se conclui que a Terra e demais planetas conhecidos giravam em torno do sol (e não em torno da Terra), descrevendo estes movimentos, entrou para o Índice de Livros Proibidos (Index Librorum Proibitorum) da Igreja Católica, impedindo sua publicação onde quer que este Índice tivesse força de lei.

Desde os últimos séculos do Império Romano, a publicação e edição de livros se tornou complicada na Europa, principalmente a partir da fragmentação, não apenas política, mas cultural e linguística do Império do Ocidente. O latim permaneceu como a lingua franca em boa parte da Europa, mas o povo mesmo, de matriz germânica (e antigos plebeus romanos) tinham pouco conhecimento e acesso a educação formal na antiga língua. Isso levou à deterioração do latim clássico e sua transformação, com contribuições estrangeiras localizadas, nas línguas latinas que conhecemos hoje. Fora das fronteiras romanas tradicionais, agora integradas ao grande cenário político e econômico da Europa Medieval, o latim subsistia apenas com termos tomados emprestados para dar nomes a coisas que os germanos e eslavos não tinham em seu vocabulário.

De maneira que a publicação de novas obras e reedição de obras antigas ficou praticamente restrita aos mosteiros, onde o latim continuava a ser preservado. Era nesses redutos que o conhecimento clássico foi mantido, mas devido às limitações impostas pelas técnicas manuais, nem tudo pode ser preservado. No mundo árabe, onde a língua e o alfabeto árabes se expandiram rapidamente (estimulados pela sacralidade atribuída a eles pelo Islã), todo o processo de preservação, produção e divulgação de conhecimento foi mais favorecido, de maneira que muitos tratados científicos e filosóficos, perdidos na Europa Ocidental, eram avidamente traduzidos dos originais gregos e latinos para o árabe, e empregados no mundo árabe, proporcionando, inclusive, uma ressurgência das ciências no mundo árabe medieval que a Europa só veria com o advento da imprensa.

E foi a imprensa que mudou tudo.

Com o conhecimento preservado e divulgado pelos mosteiros, ou seja, sob controle eclesiástico, a Igreja Católica observava a adequação dos temas à sua própria teologia antes de autorizar a publicação de determinada obra. Um índice criado extra-oficialmente no século IX, o Decretum Glasianum, já proibia certas obras, como um popular Evangelho apócrifo de Barnabé que aludia aspectos dos ensinamentos e a natureza de Cristo àqueles citados no Alcorão. Este controle foi subitamente perdido quando a prensa de tipos móveis passou a possibilitar a publicação, em grande quantidade, de qualquer coisa. Incluindo traduções livres das próprias Escrituras, sem o crivo do Papa (um dos combustíveis para a Reforma Protestante). A reação foi rápida: dioceses na Holanda, em Veneza e em Paris produziram suas próprias listas de obras proibidas, e em 1559, Papa Paulo IV promulgou a primeira lista oficial de livros proibidos pela Igreja. Os critérios para a proibição envolviam a inconformidade com o conteúdo ou linguagem com as questões de fé, anticlericalismo, blasfêmia, e conteúdo explícito e imoral.

Como a imprensa agilizou a troca de informações pela Europa, entusiastas das ciências começaram a trocar informações com rapidez, produzindo um "boom" de publicações sobre filosofia e ciência, e desenvolvimento de métodos de observação e experimentação, que fatalmente levavam a resultados que divergiam da ordem vigente, não apenas a adotada a partir da Bíblia, mas das obras clássicas consideradas infalíveis, como a cartografia de Ptolomeu ou as descrições do mundo, da anatomia e da fisiologia humanas de Aristóteles. Um dos aspectos observados pela Contra-Reforma Católica foi o banimento da heresia sob qualquer forma, fosse religiosa ou científica, de modo que, no período em que a Santa Inquisição - a instituição da Igreja que vigiava as práticas religiosas e servia como tribunal e executor - recrudesceu sua vigilância, no século XVII, nomes como Hobbes, Pascal, Calvino, Descartes e Bacon foram incluídos no Índice (Giordano Bruno foi incluído, e também julgado e executado por heresia, não tanto por questionar o geocentrismo, mas por fazer alusão ao panteísmo). A tese do Sistema Solar, heliocentrista, de Copérnico foi das primeiras a ser incluídas nesta fase, bem como várias outras que se baseavam nas suas observações.

Mesmo com o furor contra-reformista já apaziguado, o Índice continuou a ser atualizado até o século XX. Uma reorganização interna colocou o comitê responsável pelo Índice sob jurisdição do reformado Santo Ofício, e em 1948 foi publicada a última versão do Índice de Livros Proibidos, citando cerca de 4 mil títulos banidos (curiosamente, a lista não incluía as obras de ateus afrontosos, como Marx e Nietzsche, ou a ainda Charles Darwin). O Santo Ofício foi reorganizado na Congregação Sagrada da Doutrina e da Fé (de cujo ex-Papa Bento XVI foi diretor) em 1966, e como parte desta organização, o Papa Paulo VI decretou que o Índice não seria mais atualizado e nem teria mais força de lei (na prática, durante a sua existência, só tinha força de lei nos Estados Papais e onde mais os governos civis achassem adequado), sendo, contudo, recomendada a sua observação, pelo fiel, para a conservação da moral católica e da estrutura da fé.

O conteúdo do Índice está cheio de obras que se tornariam pedras angulares do conhecimento científico e filosófico modernos, apesar de terem sido banidos até a sua última edição. A persistente tese do heliocentrismo levou ao banimento de Copérnico e Kepler (retirados do Índice em 1835, quando o heliocentrismo já estava universalmente aceito); já Galileu foi punido e condenado a se retratar oficialmente pelos seus Diálogos, mas sua obra só obteve autorização para publicação após passar pela censura.

Judeus, como Baruque Espinoza e Maimônides, que publicavam na Europa, eram vigiados de perto e incluídos ao menor sinal de heresia. Espinoza precisava agradecer ao Papa e a Deus em seus prefácios.

Iluministas, como John Milton, La Fontaine (cujos contos e fábulas, proibidos, são matéria prima para a construção moral das crianças ainda hoje), Voltaire (um dos recordistas com mais de 40 obras proibidas) e Defoe (que colocava o Diabo como ator da História humana) tiveram obras banidas, bem como a primeira Enciclopédia, de Diderot e d'Alembert, e mais tarde, o Grande Dicionário Universal do Século XIX, de Pierre Larrousse.

A autobiografia de Giacomo Casanova, Memórias, foi banida por conteúdo explícito, assim como todos os romances de Balzac. Simone de Beauvoir foi um dos últimos nomes incluídos no Índice (já não publicado oficialmente) em 1956, com as obras Os Mandarins e O Segundo Sexo, este último discutindo o tratamento dado às mulheres ao longo da História. O Corcunda de Norte Dame e Os Miseráveis, de Victor Hugo, romances de enorme força popular nos últimos 150 anos, figuraram no Índice até 1959.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Timur na Geórgia

Em 21 de novembro de 1386, o exército liderado por Timur, o Coxo, tomou a capital georgiana de Tblisi e aprisionou seu rei, Bagrat V. O que poderia ter decretado o fim do reino independente da Geórgia diante do conquistador turco-mongol acabaria sendo, na verdade, o primeiro capítulo de uma longa guerra de resistência desse pequeno reino montanhoso, com um resultado improvável.

Timur era conhecido como "o Coxo" porque teria sido alvejado na juventude por uma flecha na coxa direita, deixando-o manco; outra flecha, na mesma ocasião, lhe decepou dois dedos da mão direita (alternativamente conhecido como Tamerlão, do persa "Temur Lang", "Timur, o Coxo"). Ele era um khan turco-mongol que reclamava para si a descendência direta de Genghis Khan (pelo menos uma descendência "espiritual", já que a sua linhagem era tão obscura na época como é agora). Seguindo a tradição de seu povo de eleger seus líderes entre os guerreiros mais capazes em batalha, Timur ganhou proeminência comandando raids entre as tribos turcas da Ásia Central sob jurisdição do Khanato Chagatai (este sim um império descendente direto das conquistas de Genghis Khan na Pérsia) contra búlgaros, kwarízmidas e outros povos rebeldes ou não ainda subjugados. A atuação de Timur teria sido tão decisiva que seus seguidores o teriam elevado acima dos khans de Chagatai, e sua generosidade com o povo sob seu comando o teriam consagrado como um favorito acima das autoridades formais, incluindo seu irmão e rival Husain. Nomeando a si mesmo "protetor" do khan chagatai Suyurghatmish, Timur ganhou a legitimidade que precisava para efetivamente governar seu próprio império, tomando para si a promessa de restaurar o fragmentado império mongol.

Novamente, a generosidade que legava ao seu povo o tornou um monarca celebrado, ao menos no centro-norte do Irã, Turquestão e Uzbequistão, núcleo de seu império, como um herói (é oficialmente um herói nacional no Uzbequistão). De fato, aquela região da Ásia viveu seu apogeu cultural sob Timur. Das cidades e reinos derrotados, ele ordenava expressamente que seus artesãos, arquitetos, engenheiros, poetas, músicos e artistas fossem poupados de qualquer violência, e conduzidos à cidade de Samarcanda, no Uzbequistão, capital do novo império timurida. Seu trabalho (compulsório) tornou aquela cidade uma das mais belas do mundo por gerações (e até hoje, muitas dessas obras continuam de pé e em uso). Timur cercava-se de belezas trazidas como butim, ou produzidas por artistas cativos, e não recusava ao pedido de quem quer que fosse de compartilhar desses tesouros. Também era um ávido jogador de xadrez, que usava para aprimorar seu pensamento tático, popularizando este jogo na Ásia e na Europa (embaixadores europeus e viajantes eram convidados a jogar com ele), chegando até a fixar as regras de uma variante, o xadrez de Tamerlão, disputado num tabuleiro maior e com maior variedade de peças, refletindo a diversidade de seu exército multi-étnico e do que ele encontrava entre seus inimigos em batalha.

Esta generosidade e apreço pelas finas artes contrastava com os horrores impostos aos seus conquistados. Em 1387 a cidade persa de Isfahan se rendeu sem luta, e Timur a tratou com benevolência. Mas meses depois, a cidade se rebelou contra os novos impostos, e o imperador ordenou o massacre total da sua população. Algo em torno de 100 a 200 mil pessoas foram mortas, e um cronista contemporâneo contou 28 torres erguidas com 1500 crânios humanos cada uma. Em outra ocasião, na Índia, seus homens construíram uma pirâmide com 70 mil crânios. O terror era um instrumento de persuasão com a qual Timur pretendia conquistar seus vizinhos com menor esforço, e quando havia resistência, era preciso agir com impiedade para manter essa aura em torno de si. Uma opção controversa, que custou 17 milhões de vidas (cerca de 5% da população asiática do último quarto do século XIV) durante as suas campanhas.

Em 1385, o Khanato da Horda Dourada, vasto remanescente do império mongol centrado na Rússia, passou a atacar o norte do Irã, atravessando o Cáucaso. Havia muito a Horda Dourada havia se desconectado dos outros setores do antigo império, nutrindo desavenças mesmo com os turco-mongóis convertidos ao islã (sua religião oficial) na Pérsia. Timur, que seria exaltado por ter conseguido unificar a Grande Pérsia muçulmana (estendendo suas fronteiras do Rio Indo até a Mesopotâmia, área de tradicional influência cultural persa), também era visto mais como um rival e uma ameaça às fronteiras do que como um irmão de fé pelo khan mongol Tokhtamysh (que recebera apoio de Timur na ocasião da sucessão ao trono). Timuridas (que incluía mongóis, turcos, turcomanos, bactrianos, transoxanos, e diversas tribos turcas, mongóis e de matriz iraniana) e mongóis já haviam se enfrentado numa campanha de Timur à estepe russa. Como resposta ao avanço mongol pelo Cáucaso, os pequenos reinos situados entre as fronteiras dos dois impérios foram tomados um a um por Tamerlão, com pouca resistência, enquanto abria caminho para a Horda Dourada. E como todas as vezes que uma força vinda do Oriente Médio ou da Pérsia tentou invadir a Rússia pelo Cáucaso, ele encontrou a Geórgia pela frente.

A Geórgia é um país localizado entre as escarpadas montanhas do Cáucaso, cordilheira mais alta da Europa considerada sua fronteira sudeste com a Ásia, espraiando-se pelos seus vales até as margens orientais do Mar Negro. A dificuldade de se conquistar pela via militar e se estabelecer um sistema de governo integrado a um império estrangeiro, devido às dificuldades apresentadas pela natureza, manteve os georgianos no seu lugar, cultivando língua, escrita, cultura e religião que se mantiveram como bastiões quase imutáveis ao longo de milênios a despeito de gregos, romanos, persas, árabes, turcos e mongóis, no meio de uma das zonas historicamente mais dinâmicas do mundo.

A expedição de Timur, com o objetivo de pressionar a fronteira da Horda Dourada e bloquear sua passagem pelo Cáucaso, chegou ao sul da Geórgia no final de 1385, atacando a província de Samtskhe. O exército timurida arrasou o sul do país antes de marchar para a capital Tblisi. O rei Bagrat V, tido pelos seus contemporâneos como um administrador justo e um "soldado perfeito" (lembrado localmente como "O Grande"), optou por fortificar a cidade ao invés de encontrar os invasores em campo. Mas Timur, que havia decretado uma Jihad (Guerra Santa) contra a Geórgia Cristã, foi implacável. Em 21 de novembro de 1386, prevendo uma derrota iminente e as consequências dela para a capital, Bagrat se entregou a Timur. Sob a ponta de uma espada, o rei georgiano se converteu ao islã. Um cronista armênio da época, Tomás de Metsoph, exaltou a artimanha de Bagrat em usar a apostasia como forma de ganhar a confiança de Timur - essa visão tinha fundamento, já que Timur designara de 12 a 20 mil soldados para a guarda pessoal e os deixado às ordens de Bagrat.

Tblisi caiu, mas Timur não conseguiu assegurar o domínio sobre a Geórgia. Por toda a parte, bastiões em encostas de difícil acesso fustigavam a passagem dos timuridas e ameaçavam suas linhas de suprimentos. Mais preocupado com outras frentes, Timur recuou. Ele ordenara que Bagrat, agora um suposto aliado e irmão de fé, marchasse com seus soldados emprestados de volta a Tblisi para retomar o trono, ocupado provisoriamente pelo seu filho Jorge VII. Pai e filho, no entanto, entraram em negociações secretas, e Bagrat conduziu seus homens diretamente para uma emboscada. Com a guarda aniquilada, o filho resgatara o pai. Ambos se apressaram em antecipar a vingança de Timur, evacuando a população civil no sul do país, e organizando as defesas nas montanhas.

De fato Timur voltou em 1387, mas foi forçado a retornar de mãos vazias quando a Horda Dourada voltou a atacar o Irã. A próxima investida seria em 1394, quando Bagrat V já estava morto e o país era governado por Jorge. Desta vez, Timur em pessoa comandou a devastação das comunidades montanhesas no vale de Aragvi, ao norte de Tblisi, enquanto seus generais varriam o sul. Jorge VII escapou devido a mais um ataque providencial de Tokhtamysh ao Irã.

Em 1395, Jorge conseguiu o feito de vencer em batalha os timuridas liderados por Miran Shah, filho de Timur, durante o cerco à fortaleza de Alindjak, capturando um príncipe mongol. Em 1399, Timur retaliou mais uma vez, causando o máximo de destruição possível ao país, sem contudo tomar definitivamente qualquer posição importante. Em 1400 Timur exigiu que o tal príncipe fosse devolvido. Desta vez, Jorge foi derrotado em batalha, e na perseguição que se seguiu, atraiu desastradamente Timur para o interior do país, conseguindo despistá-lo em uma floresta. Mas, furioso, Timur sistematicamente devastou e pilhou tudo que pôde por meses, escravizando 60 mil georgianos, mas ainda assim não conseguiu firmar sua autoridade.

Em 1401, Jorge VII e Timur chegaram a um acordo. Os timuridas estavam em guerra com os turcos otomanos e era interessante assegurar a estabilidade na região até, pelo menos, poderem tomar alguma ação decisiva contra a Geórgia. Com a vitória em 1402, Timur usou como pretexto para deflagrar uma oitava campanha contra a Geórgia o fato do rei local não ter lhe oferecido as devidas congratulações. Tamerlão invadiu o país mais uma vez, mas Jorge recuou até a Abkhazia, região montanhosa no extremo noroeste do país. Cerca de 700 aldeias, vilas e cidades foram arrasadas e seus habitantes mortos. A essa altura, a Geórgia já não tinha muito mais o que oferecer em pilhagens (ou mesmo em impostos a arrecadar), e em algum momento, os conselheiros de Timur sugeriram oferecer o perdão a Jorge VII, em troca do pagamento de tributos (com o país continuamente arrasado pelos timuridas, os tributos incluíam termos muito específicos sabidamente ao alcance do rei, como um certo rubi que pesava mais de 80 gramas). No ato, Timur reconheceu a independência da Geórgia e seu status como uma nação cristã. Porém, antes de retornar à Ásia, ele ainda passou por Tblisi e colocou no chão todos os templos cristãos que encontrou de pé.

Timur morreu em 1405, durante uma campanha infrutífera contra a dinastia Ming, na China. Sua morte levou seus netos a uma guerra civil pela sucessão, e a confusão que se seguiu deu brecha para que forças internas (de nativos iranianos, afegãos, turcomanos, etc.) se firmassem e levassem à fragmentação do império. Não fosse a linhagem de um dos seus netos resultar na dinastia Mughal no norte da Índia algumas gerações mais tarde, e o seu atual status de herói nacional uzbeque (uma estátua sua foi erigida no local onde, em tempos soviéticos, ficava uma estátua de Karl Marx, em Tashkent), o legado de Timur teria virado poeira na História. Já a Geórgia aguentou o quanto pôde, mas os ataques constantes fragilizaram o país economicamente e demograficamente, e desde 1401 a região central de Imereti já havia se declarado independente (pelo próprio irmão de Jorge VII, Constantino, que era simpático a Timur), e o sudoeste do país entregue a um dos netos de Timur no último tratado firmado. Jorge VII terminou seus dias governando apenas uma fração do reino que herdara do pai. De uma forma ou de outra, a Geórgia sobreviveria como país independente até 1810, quando foi anexada pelo império russo, recuperando sua soberania, já como república, em 1991.

P.S.: Uma lenda ficou muito popular no século XX a respeito de Timur. Antes de morrer, ele teria dito o que se tornaria seu epitáfio: "Quando eu me levantar da tumba, o mundo tremerá". Em 1941, Joseph Stalin enviou o arqueólogo Milhail Gerasimov (um célebre especialista na reconstrução facial de figuras históricas) a Samarcanda para resgatar os restos de Timur, enterrados no seu mausoléu de Gur-e-Amir. Os ossos foram encontrados e examinados, e até aí as coisas foram devidamente registradas por Gerasimov e sua equipe, mas a lenda acrescenta que, além do suposto epitáfio, dentro da tumba ainda haveria uma segunda advertência: "Aquele que abrir minha tumba lançará um invasor mais terrível do que eu". Isto teria se passado no dia 19 de junho. No dia 21, Gerasimov e equipe teriam exumado o crânio. No dia 22, rompendo inesperadamente o pacto de não agressão com os soviéticos, a Alemanha Nazista deflagrou a Operação Barbarossa, campanha com objetivo de subjugar a Rússia comunista que resultaria no cenário mais sangrento da Segunda Guerra Mundial. Em novembro de 1942, os nazistas estrangulavam os russos na Batalha de Stalingrado, quando os arqueólogos sepultaram novamente os restos de Timur, seguindo, inclusive, os rituais islâmicos apropriados. Nos dias que se seguiram a maré virou para os russos, e três meses depois os alemães seriam derrotados em Stalingrado.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Colisão de dois mundos

Em 8 de novembro de 1519, o conquistador espanhol Hernan Cortés chegou a Tenochtitlán para se encontrar com o imperador azteca Montezuma II.

A chegada de Cortés a Tenotchitlán é o evento mais importante do processo de ocupação e controle da Espanha sobre a Mesoamérica. A civilização azteca, que se espalhava sobre os territórios de povos "aliados" (a maioria submetidos à força) entre o centro e o sul do México, foi a primeira das civilizações mesoamericanas a tombar diante do poderio bélico da Espanha, e essa região do mundo (entre o México e o norte do Chile), com suas riquezas em metais preciosos, sua infraestrutura e organização social, transformaria aquele país europeu em uma super potência por quase 200 anos.

O encontro de Cortés e Montezuma não aconteceu ao acaso. Desde que a expedição de Cortés (com 630 homens em 11 navios) foi avistada na costa de Yucatán, espiões aztecas mantiveram seu imperador informado de tudo que acontecia. A expedição espanhola, após fundar o assentamento que se tornaria a cidade de Veracruz (neste momento, Cortés cortou relações com seu superior, o governador das Índias Diego Velásquez de Cuellar, seu parente, porque era prerrogativa do governador a fundação de novas colônias; ali Cortés foi declarado um "amotinado" e, para evitar que seus homens debandassem diante da situação, mandou desmontarem seus navios) recebeu a visita de dois diplomatas aztecas. Os aztecas continuaram mantendo contado com os estrangeiros, trocando presentes e tecendo elogios (em um momento Cortés se virou a seus homens e disse, com a ajuda de um tradutor, que os nativos os consideravam como deuses). Os emissários, contudo, tentavam dissuadir os espanhóis de irem a Tenochtitlán, mas os presentes e os elogios eram interpretados como um convite. De qualquer forma eles entendiam que, para se aproximar de Montezuma, teria que ser pelos seus inimigos: eles ofereceram apoio a uma coalizão de tribos menores que resistiam à assimilação azteca, participando de algumas batalhas. Enquanto isso, Cortés enviava solicitações para uma audiência com Montezuma, o que ele insistentemente recusava.

Hernán Cortés veio de uma família modesta na pequena vila de Medellin, sudoeste da Espanha. Estudou com um tio em Salamanca e trabalhou como notário. Com a descoberta da América por Cristóvão Colombo, o governo espanhol passou a patrocinar incursões para reconhecimento das novas terras, estabelecimento de relações com seus habitantes, e a sondagem de suas riquezas, usando assentamentos já existentes como bases de operações e a fundação de novos mais adiante (expedições conhecidas como "entradas"). Cortés, que não possuía bens ou terras de que pudesse usufruir, foi atraído para este tipo de empresa - ele também teria circulado pelos portos de Sevilha, Cádiz, e outros, ouvindo histórias de marinheiros sobre as possibilidades e riquezas nas novas terras. Aos 18 anos conseguiu passagem para Hispaniola (ilha onde estão Haiti e República Dominicana), possivelmente graças a Velásquez, que depois lhe concedeu uma "encomienda" (uma propriedade e um grupo de nativos empregados em trabalhos forçados). Cortés permaneceu 15 anos nas Índias Ocidentais, ocupando cargos públicos nas colônias, participando de batalhas contra nativos, e administrando suas novas propriedades. Mas expedições espanholas já haviam provado que a América guardava muito além do que as pequenas ilhas de Hispaniola e Cuba (de cuja capital era prefeito). Seu biógrafo o descrevia como "impiedoso" e "traiçoeiro". De fato, seu conhecimento das leis adquirido enquanto notário o fizeram romper com o governador das Índias assim que viu a possibilidade de fundar uma colônia por conta própria, submetendo-se diretamente ao rei Carlos I (o mesmo rei Carlos V do Sacro Império Romano, que herdara o trono espanhol), alegando que Velásquez agia em benefício próprio, não em prol da Coroa.

As fontes sobre Montezuma são vagas, quase todas registradas sob ponto de vista dos espanhóis. Bernal Díaz, companheiro de Cortés, o descrevia como um homem de boa constituição, pele clara, barba rala e estreita, senhor de um harém de concubinas e duas esposas, e cercado por uma corte de dois mil nobres que habitavam seu palácio. O Império Azteca, costurado à base de força e alianças de conveniência, estava em seu apogeu. Além de manter seus aliados sob controle, os aztecas precisavam manter um exército constantemente mobilizado para conter os ataques de uma confederação de Nahuas, Mixtecas e Zapotecas, que por 75 anos resistiram à assimilação. Estas mesmas a quem Cortés oferecia ajuda.

Os cronistas espanhóis sugeriram que Montezuma nutria interesse pela expedição de Cortés por conta de uma suposta crença no retorno do deus Quetzalcoatl (que teria nascido e depois navegado para o leste em anos que corresponderiam, nos ciclos solares do calendário azteca, ao ano da expedição, 1519), e que Cortés seria este deus incarnado. A influência deste mito nos acontecimentos que se seguiram é muito questionada atualmente no meio acadêmico porque são muito escassas as fontes nativas a respeito da sua importância, mas continua propagado como o motivo para a atitude desconcertantemente afável de Montezuma diante daqueles estrangeiros. Se a religião, que era um pilar central na sociedade azteca, teve algum papel naquele cenário, foi o de servir como argamassa para a coesão dos diferentes povos que constituíam o império azteca - bem como um dos fatores que uniam seus inimigos.

Quando Montezuma convocou Cortés para uma audiência, os espanhóis tinham um grande exército engordado por milhares de guerreiros nativos. Ele havia acabado de atacar a cidade de Cholula (a segunda maior do centro do México, sob jurisdição azteca), onde estava hospedado, massacrando 3 mil pessoas e incendiando templos e palácios para demonstrar sua força e intimidar Montezuma. Cortés levou todo o seu exército para a capital azteca, temendo uma armadilha.

Contudo, ao entrar na cidade - construída sobre uma ilha no meio de um lago, conectada às terras no entorno por pontes - foi recebido calorosamente por Montezuma em pessoa e os reis das principais cidades aliadas, mas não foi permitido que Cortés o tocasse. Meio desconcertado, Cortés trocou presentes com o anfitrião. Montezuma o presenteou com um calendário em forma de disco de ouro, e outro de prata, que Cortés depois derreteu. Ele e os outros espanhóis foram cobertos com jóias de ouro e pedras preciosas, e adornos com penas. Depois, já no palácio que pertencera a Axáyacatl, pai do imperador azteca, preparado para receber Cortés como hóspede, Montezuma discursou diante da corte e do seu convidado, dizendo:

"Tu graciosamente desceste à terra, tu graciosamente te aproximaste de tua água, tu chegaste à tua porta, teu trono, que eu brevemente guardei para ti, eu que o guardava para ti. (...) Tu graciosamente chegaste, tu conheceste a dor, tu conheceste o cansaço, agora vem à terra, entra em teu palácio, descansa teus membros"

Montezuma chegou a oferecer o trono a Cortés. O espanhol acreditou até o fim que as palavras e atitudes de Montezuma eram literais, ou seja, que o monarca, diante da força dos espanhóis, ou influenciado por superstições, havia entregue de boa vontade seu império ao rei Carlos V, a quem representava. Todo o movimento de Cortés depois disso teve como base e justificativa esta interpretação. Os cronistas espanhóis, confusos com a "ingenuidade" de Montezuma, tentaram associá-la à crença de que Cortés era Quetzalcoatl, ou ao pânico que a visão de homens em armaduras ou sobre cavalos teria causado (demonstrações da artilharia espanhola haviam sido fúteis no passado para impressionar os chefes nativos).

Porém, é mais provável que a atitude do rei azteca de oferecer seu trono ao invasor estrangeiro seria uma forma de constrangê-lo pela sua audácia, ao mesmo tempo em que demonstrava sua magnanimidade. Pois entre aztecas e seus vizinhos, a derrubada de um chefe deveria acontecer pela demonstração de força superior em combate. A guerra entre os povos mexicanos era ritualizada, a ponto de prisioneiros capturados em batalha serem mantidos cativos para serem executados em sacrifícios cerimoniais, destino que aceitavam com resignação (quando qualquer outra possibilidade de fuga ou rebelião não existia). Sob esta ótica, Montezuma ofereceu o trono a Cortés esperando que isso ferisse a sua honra, como alguém que esfrega o focinho de um cão em sua própria urina. Os espanhóis nunca perceberam esta sutileza.

De fato, Montezuma não tinha a real intenção de entregar tudo que possuía. Quando Cortés, mais tarde naquele mesmo dia, solicitou a Montezuma erigir uma cruz no alto de um templo em homenagem à Virgem Maria, o azteca teria ficado furioso e ordenado o assassinato de 7 espanhóis que haviam ficado no litoral. Quando soube, Cortés e cinco de seus capitães ordenaram que Montezuma fosse com eles, sem escândalos, ou seria morto. Entre novembro de 1519 e maio de 1520, Montezuma foi mantido cativo em Axáyacatl, embora ainda atuasse formalmente como imperador. Enquanto isso, os espanhóis saqueavam os tesouros de Tenochtitlán e cidades próximas e impunham punições a militares e agentes públicos aztecas que os desacatassem.

Em maio de 1520, o governador das Índias, o mesmo Velásquez, enviou uma expedição para localizar e capturar Cortés, o que fez o caudilho espanhol deixar Tenochtitlán com o grosso dos seus homens, mantendo uma guarnição na cidade. Então, o seu segundo em comando, Pedro Alvarado, ordenou um massacre durante as celebrações do Toxcatl, uma das principais festas religiosas locais, justificando-se de ter impedido o sacrifício humano em um ritual pagão. A fúria causada nas principais cidades teria levado ao assassinato de Montezuma (seja pelos espanhóis, seja pelos aztecas, ambos o teriam feito por causa da sua incapacidade de intervenção de um lado ou de outro). Depois de fugirem do tumulto que se seguiu (perdendo grande parte do tesouro que haviam roubado até então, e vários companheiros que ficaram na retaguarda), os homens de Cortés se reagruparam, e, com ajuda dos tlaxcaltecas, destruíram Tenochtitlán em janeiro de 1521. A linhagem de Montezuma foi absorvida pelos conquistadores - o filho Cuitláhuac morreu de sarampo, o primo Cuauhtemoc torturado com os pés queimados e executado (por não saber onde o tesouro perdido pelos espanhóis estava escondido), e sua esposa e filha de Montezuma, Techichpotzin, batizada Isabel e tomada como esposa por um dos homens de Cortés. Sem liderança, a confederação que compunha o império azteca aos poucos foi absorvida pela administração espanhola sob Cortés.

Os espanhóis governaram o embrião do que seria o México com o auxílio dos chefes das cidades locais, que mantinham seus cargos e privilégios determinados pelo imperador azteca. Já os plebeus corriam o risco de serem escravizados e forçados a trabalhar para os europeus. A Espanha demorou 60 anos para consolidar a conquista do México, anexando impérios e territórios com suas tribos uma a uma - os maias em Yucatán seguiriam resistindo por quase 170 anos, cedendo então apenas por causa de epidemias que eliminaram metade da população nativa. A língua nahuatl (a língua franca do Vale do México, com a qual os freis franciscanos registraram a história da civilização azteca enquanto ela desaparecia) e idiomas relacionados continuam em uso no interior do país até hoje, com 1,7 milhão de falantes atualmente. Os descendentes diretos de Montezuma, desde 1627, recebem do rei da Espanha o título de Duque de Montezuma de Tultengo. Sobre as ruínas de Tenochtitlán e arredores foi erguida a atual Cidade do México.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Abalo nas fundações

Em 1 de novembro de 1755, um terremoto seguido de tsunami (e um incêndio só controlado 6 dias depois) devastou a capital portuguesa de Lisboa, causando dezenas de milhares de mortes e a destruição da maior parte da cidade. Este evento geológico seria o epicentro de mudanças radicais, desde a reformulação da estrutura urbana de Lisboa, à vida política portuguesa, e levando as principais mentes da Europa a questionarem o próprio mundo em que viviam.

Portugal está próximo à fronteira entre duas placas tectônicas, a Africana e a Eurasiana, fronteira esta que corre a partir da Dorsal Atlântica (ponto onde a atividade vulcânica fez emergir do oceano o arquipélago dos Açores) e atravessa o Mediterrâneo. Assim como Itália, Grécia, Turquia (onde a história recente registra sismos bastante destrutivos), é uma região suscetível a tremores de terra mais ou menos violentos. O primeiro deles a ser registrado naquela área ocorreu em 60 a.C., afetando a costa. Um terremoto na região de Lisboa, em 1531, seguido de um tsunami que resultou na morte de 30 mil pessoas provocou um recuo do projeto português de implantar colônias economicamente funcionais na América recém-descoberta enquanto investimentos eram direcionados para a reconstrução da cidade (religiosos responsabilizaram os cristãos-novos, judeus recém convertidos, pelo desastre). A violência do sismo de 1755 seria capaz de apagar da memória tamanha tragédia, a tal ponto que aquele só voltaria a ser estudado com a redescoberta de documentos de época no século XX.

Era uma manhã ensolarada do Dia de Todos os Santos. Os lisboetas acordaram cedo, e tomaram as ruas, em direção às igrejas, para as missas e festejos. A Lisboa de 1755 era uma Lisboa medieval que se expandira lentamente nos séculos anteriores a partir do seu núcleo primitivo às margens do Tejo em direção ao norte e ao oeste, com uma estrutura urbanística confusa que prezava a utilização máxima dos espaços para habitação. O resultado eram ruas estreitas e muradas por edifícios e casas, palácios e, particularmente, igrejas, que constituíam o centro de cada novo núcleo urbano agregado ao plano urbanístico anterior. Haviam poucos largos e praças, e as vias ficavam constantemente congestionadas por pessoas, animais, e carruagens. Naquela manhã, a maior parte de uma população estimada em 300 mil habitantes estava apertada entre paredes, acorrendo às suas paróquias.

Às 9:30 um violento tremor de terra (próximo de 9 de magnitude de momento, com epicentro no Atlântico), com pelo menos 3 minutos de duração (em outros lugares de Portugal, a terra tremeu por até duas horas), surpreendeu a população. No primeiro momento, houve desabamentos. Pessoas em fuga desordenada pisoteavam-se, enquanto feridos pediam socorro. Houve relatos de furtos no meio da confusão. Nas igrejas que continuaram em pé, ouvia-se o canto de músicas sacras contrastando com o lamento dos fiéis. Alguns procuravam por seus parentes desgarrados, outros os iam buscar nos escombros. Fissuras de até 5 metros de largura abriram-se no chão, no centro da cidade. Boatos de que o antigo Castelo de São Jorge estava em chamas, e que seu armazém de pólvora poderia explodir, levaram as pessoas a se afastarem do local, que fica numa colina. O medo de desabamentos, incêndios e explosões conduziu a massa para o cais do porto. Os cais Sodré, São Paulo, e Terreiro do Paço (onde ficava o palácio real), para onde desembocavam as ruas principais, ficaram apinhados de gente.

Ali no cais, o povo assistiu, confuso, o mar retroceder. Rochas, pedras de antigas construções, destroços de navios e cargas perdidas estavam expostas. Um tsunami não surge como uma parede de água que se quebra como uma onda na praia, mas como uma invasão rápida e contínua de água em alta velocidade, subindo rapidamente de nível e arrastando tudo que há no caminho, então os lisboetas não puderam antever a onda de até 20 metros (no Algarve, mais ao sul, a onda pode ter chegado a 30 metros) que se aproximava do porto. Muitos pressentiram o perigo e guiaram sobreviventes para lugares altos, mas cerca de 900 pessoas foram subitamente arrastadas pela onda. O que havia ficado em pé nas partes mais baixas da cidade foi demolido pela onda. E o que a onda não derrubou estava prestes a ser consumido pelo fogo.

A infraestrutura da cidade foi perdida. As chamas consumiam as casas e igrejas sem que houvesse uma resposta organizada para detê-las, de maneira que os incêndios persistiram por 6 dias. Nesta fase, a grandiosa Casa de Ópera, inaugurada naquele ano, foi consumida, e também ardeu o Hospital Real de Todos os Santos (vitimando os pacientes internados). O acervo da biblioteca na Torre do Tombo foi salvo (a torre mesmo colapsou pouco depois), mas as bibliotecas dos dominicanos e franciscanos foram perdidas. Ao final daquela semana, 85% da cidade fora destruída, e até 90 mil pessoas pereceram apenas em Lisboa (as estimativas não são precisas para os demais lugares em Portugal; em Fez, no Marrocos, que passou pelo mesmo tremor e tsunami, morreram cerca de 10 mil).

O rei José I escapou porque suas filhas pediram para passar o feriado em Belém, próximo à cidade. A destruição que testemunhara também ali, e a que assistiu ao retornar à capital, criou no rei uma claustrofobia, a ponto dele viver o resto da vida em amplas tendas erguidas na colina da Ajuda (onde construiu-se depois o Palácio Real da Ajuda). O futuro Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo, então ministro dos negócios estrangeiros, tomou para si o comando dos esforços para socorrer as vítimas, impedir novos acidentes, impor a lei e a ordem (para combater os saques, fez com que a cidade fosse patrulhada por trios compostos por um padre, um juiz, e um carrasco), e planejar a reconstrução da cidade. Para resolver o problema do que fazer com os mortos, ordenou que os corpos despedaçados fossem levados em barcaças e jogados no mar: "Deus lá no Céu saberá a que corpo pertencem". Questionado sobre a opção de refazer a parte baixa da cidade adotando ruas e avenidas largas, teria dito que "Ainda um dia as vão achar estreitas". O novo centro da cidade é conhecido até hoje como Baixa Pombalina. Sua atuação enérgica e objetiva lhe renderam a nomeação para o cargo de primeiro ministro, posição de que se aproveitou para promover uma reformulação de larga escala da capital e grandes reformas administrativas. Os altos custos foram cobertos com empréstimos à Inglaterra e um aumento de impostos sobre a colônia, atingindo de maneira mais dura a capitania de Minas Gerais, onde pelo menos duas insurreições tiveram que ser aplacadas por Pombal.

O engenheiro-mor Manuel da Maia conduziu a parte prática da reforma urbanística, que incluía o controle e fiscalização do governo à construção de novas edificações (inibindo as construções feitas pelos próprios moradores, e regulando a altura dos edifícios, e quanto de cada terreno deveria ser ocupado) e a adoção pioneira de métodos de construção anti-terremoto. Casas que ainda estivessem de pé e não estivessem conforme as novas normas deveriam ser demolidas. Grande parte das obras foi supervisionada pelo engenheiro húngaro Carlos Mardel, que assinou as grandiosas construções do Aqueduto das Águas Livres, do Palácio da Inquisição, e o Palácio do Marquês de Pombal.

As notícias de Lisboa chocaram a Europa. Na Inglaterra, na Áustria, na Alemanha, na França, na Itália, a devastação e a perda de vidas foram recebidas com horror. Lisboa era uma das principais capitais do catolicismo, se assim se poderia dizer: pontilhada de igrejas, com grande participação do clero na vida pública, e capital de um império colonial onde a questão religiosa era o pilar das novas sociedades. Entre muitos observadores, incluindo lisboetas, o fato do terremoto ter ocorrido no Dia de Todos os Santos, e ter devastado a cidade, especialmente as grandes catedrais não passou despercebido, e foi interpretado como uma punição divina. Filósofos contemporâneos foram além: Voltaire questionou a destruição de uma cidade católica e suas igrejas e a morte de tantos devotos em relação à noção de que o mundo seria regido o tempo todo por uma divindade fundamentalmente benevolente (ou de como um Deus bom permitiria a existência do mal, questão levantada anteriormente por Leibniz e Pope, que contudo defendiam que, seja como for, este é o melhor dos mundos). Jean-Jacques Rousseau (crítico dessa mesma ideia de Voltaire) atribuiu o grande número de fatalidades ao fato dos lisboetas viverem concentrados numa área urbana relativamente pequena, e usou este argumento para advogar um modo de vida mais naturalístico e menos urbano (um argumento na sua tese do "bom selvagem"). O corpo de ideias formuladas sobre as causas e consequências do terremoto de Lisboa deram musculatura ao Iluminismo.

O sedutor escritor veneziano Giacomo Casanova relatou ter sentido o tremor enquanto estava encarcerado no Piombi, a prisão que funcionava nos porões do Palácio do Doge, em Veneza. O tsnumai varreu os portos dos Açores e Madeira, atingiu da Finlândia ao Caribe, e chegou ao nordeste brasileiro: ondas de até 6 metros de altura invadiram o litoral nordestino e alcançaram quase 5 quilômetros terra adentro (um relato da capitania de Pernambuco nota o desaparecimento de uma mulher e uma criança perto da cidade de Tamandaré; em Salvador, a água chegou à base do cruzeiro situado em frente à Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, 3 metros acima do atual nível do mar, numa praia voltada para o interior da Baía de Todos os Santos). Um terremoto raro e inesperado, de média intensidade causando desabamento de telhados e chaminés, aconteceu ainda no dia 1 de novembro em Cape Ann, ao norte de Boston, uma região relativamente protegida, o que leva pesquisadores a tentarem associar o evento com o sismo de Lisboa.

Com 85% da Lisboa medieval e pré-moderna destruídos, há poucas estruturas na cidade anteriores a 1755. Uma delas, talvez a mais impressionante, seja o Convento do Carmo, templo neogótico erigido em 1389, cujo interior foi consumido pelo fogo, derrubando seus telhados e cúpulas. A estrutura básica é preservada e abriga um museu arqueológico.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Indira era a Índia

Em 31 de outubro de 1984, a primeira ministra da Índia, Indira Gandhi, foi assassinada na sua residência oficial por dois seguranças.

Indira Gandhi, apesar do sobrenome, não tinha laços de parentesco com o pacifista revolucionário Mohandas "Mahatma" Gandhi, líder do movimento de independência da Índia. Ela era, contudo, filha de Jawaharlal Nehru, o primeiro a ocupar o cargo de Primeiro Ministro da Índia independente e amigo próximo do Mahatma (o sobrenome Gandhi veio do marido Feroze Gandhi, jornalista que também não era parente do mesmo). Indira estudou na Europa, e ao retornar à Índia, serviu próxima ao pai enquanto primeiro ministro. Logo ela presidia o Congresso com punho firme, e, após a morte de Nehru, passou ao Ministério das Comunicações. Em 1966 o primeiro ministro Lal Bahadur Shastri morreu, e a cúpula do Partido do Congresso (a força política majoritária da Índia desde o tempo do protetorado britânico) orquestrou a eleição de Indira ao cargo, pensando que ela seria forte apenas o suficiente para vencer o candidato da oposição, porém não tão forte que pudesse impor quaisquer dificuldades às aspirações do partido. De fato, a mídia indiana a chamava de "fantoche". Contudo, dificuldades econômicas levaram a derrotas do Partido do Congresso nas eleições regionais, e Indira logo começou a se indispor com seus líderes buscando soluções à esquerda para os problemas do país, além de indicar políticos de outros partidos ou independentes para cargos públicos.

Indira foi reeleita em 1971. No seu segundo termo, Gandhi obteve uma vitória estratégica ao apoiar, com sucesso, a independência de Bangladesh, então sob controle do do Paquistão, com quem a Índia se atrita por questões territoriais e religiosas desde antes da sua independência até hoje. Ela resistiu a um processo de impeachment por crimes eleitorais, mas o processo (que aconteceu em 1975, enquanto o país sofria com a crise do petróleo deflagrada dois anos antes) foi desgastante politicamente. Seu gabinete e seus ministros apelaram ao presidente Fakhruddin Ali Ahmed (indicado ao cargo por Gandhi em 1974) para declarar Estado de Emergência, concedendo à chancelaria o poder de governar por decreto. O resultado das sucessivas crises veio nas eleições de 1977, quando Indira foi derrotada. Ela retornaria ao Congresso como a principal força de oposição (passando por cima de Yashwantrao Chavan, indicado como líder pelo próprio Partido do Congresso).

Nos seus dois termos como primeira ministra, Gandhi mantivera a inflação e o desemprego sob controle, implementando melhorias graças à nacionalização de setores estratégicos da economia, blindando-a contra as pressões internacionais. Porém a crise do Irã e a alta do petróleo atropelaram seu sucessor, pavimentando caminho para uma nova candidatura. Em 1980, buscando apoio de muçulmanos, tamiles (Indira foi atacada por membro de um grupo separatista tamil em visita a Madurai, no sul do país, mas o jornalista Nedumaram a protegeu com seu corpo, sendo apedrejado. Nedumaran ainda hoje milita em causas humanitárias na região), e outras minorias étnicas e religiosas, foi eleita com larga vantagem para um terceiro mandato.

No ínterim entre o segundo e o terceiro mandatos, o partido Akali Dal, de maioria sikh, assumiu o poder no importante estado de Punjab. Os sikhs são um grupo religioso de origem punjabi, que cultuam uma única divindade, revelada pela sabedoria de seus gurus. Pregam, se não a dissolução, ao menos a igualdade de tratamento a todas as castas, desafiando a tradição hinduísta. Também tem um código rígido de vestimenta, o que inclui um turbante alto chamado Dastar que envolve os cabelos, que não devem ser cortados (o código é tão rígido que sikhs residentes no Reino Unido tem autorização especial para portar o kirpan, uma adaga curva, um dos símbolos invioláveis da religião; o atual governo canadense conta com dois ministros de Estado sikhs, que se apresentam formalmente com seus Dastars, kirpans, e demais assessórios). Quando assumiram o Punjab em 1977, o Partido do Congresso passou a apoiar o líder ortodoxo Jarnail Singh Bhindranwale, visando minar o poder do partido dominante através de um líder religioso extremamente popular. Contudo, as disputas internas no Punjab logo se tornaram violentas, e o nome de Bhindranwale passou a ser associado com atos violentos e execuções de rivais. Ele se entregaria à polícia em 1981, mas seus seguidores ainda se envolveriam em episódios de violência. Ele recebeu perdão do ministro do interior de Indira Gandhi e foi para casa como um herói.

O norte da Índia entrava em um período de tumulto. Enquanto o Akali Dal pregava a desobediência civil, comunistas, grupos extremistas sikhs, e a polícia envolviam-se em constantes confrontos. Bhindranwale encorajava seus seguidores a andarem armados. Em 1982 ele foi convidado pelo líder do Akali Dal, Harcharan Singh Longowal, a uma reunião no Templo de Ouro, local sagrado para os sikh em Amritsar, Punjab. Bhindranwale ficou hospedado com uma comitiva na casa de hóspedes do templo, mas, com consentimento do partido sikh, acabaria trazendo cerca de 200 seguidores para lá, para compor sua segurança. Na prática, Bhindranwale transformava o santuário em uma fortaleza, onde recebia a imprensa internacional para chamar atenção à sua causa. O Akali Dal operava o braço político dos sikh, enquanto Bhindranwale era seu líder religioso mais importante e principal coordenador de ações diretas contra o governo de Nova Delhi. Nas entrelinhas do movimento estava a criação do estado do Khalistão e sua autonomia, fomentadas pelos Sikhs desde a década de 1940.

Em abril de 1983, depois de uma reunião com Bindranwale, o inspetor de polícia do Punjab foi assassinado na saída do templo. Logowal acusou Bindranwale pelo assassinato e retirou seu apoio. Em dezembro de 1983, homens de Bindranwale, armados com fuzis, entraram no templo, montaram barricadas e armaram metralhadoras no seu terraço. A cidade viveu meses de inquietação silenciosa.

Em junho de 1984, após negociações infrutíferas e mal conduzidas, Indira Gandhi ordenou a execução da Operação Estrela Azul. Contra recomendações de militares de alta patente, alertando para o sacrilégio de usar força militar contra fiéis refugiados em um templo, ela ordenou o corte das comunicações, da eletricidade, e o bloqueio de todas as estradas e paralisação do transporte público em todo o estado de Punjab, isolando-o do resto do mundo. Ao longo de 9 dias, 10 mil soldados, paraquedistas, e helicópteros invadiram, bombardearam e perseguiram rebeldes no Templo de Ouro e arredores. Bindranwale e outros 150 militantes morreram, causando 700 baixas ao exército indiano.

O que poderia representar uma vitória acabou sendo um revés para Indira. A opinião de militares, imprensa, e órgãos de defesa dos direitos humanos dentro e fora da Índia oscilavam entre críticas ao uso excessivo da força, à violação à liberdade de informação (pelo corte das comunicações), e violações graves aos direitos humanos - a escolha da época do ataque, início de junho, coincidiu com o fim das celebrações do martírio de um guru sikh, ou seja, a cidade e toda a região do templo recebia visitantes peregrinos de todas as partes. Mais de 400 mortes de civis foram registradas oficialmente, e isso foi considerado por muitos como um ataque deliberado àquela religião. O historiador Harjinder Singh Dilgeer defende que Indira Gandhi planejava o ataque ao Templo de Ouro havia muito tempo para construir uma imagem heroica e vencer as eleições no fim daquele ano (outra tese era de que o ataque visaria bloquear a influência do Paquistão, que planejaria o apoio aos rebeldes). Cinco mil soldados sikhs do exército indiano se amotinaram, resultando em repressão violenta.

Indira era naturalmente escoltada por seguranças armados, mas temia que pudesse ser assassinada a qualquer momento. No dia 30 de outubro de 1984, visitando o estado de Odisha, teria dito: "Eu estou viva hoje. Posso não estar aqui amanhã. (...) e quando eu morrer, posso dizer que cada gota do meu sangue revigorará a Índia e a fortalecerá." Um destes seguranças era Satwant Singh Agwan. Outro era Beant Singh. Ambos, nos dias que sucederam à Operação Estrela Azul, converteram-se ao sikhismo. Ambos trabalhavam em turnos alternados, mas Satwant alegou problemas estomacais e trocou de horário com outro segurança, para levar a cabo o plano com o colega.

Na manhã de 31 de outubro, enquanto Indira saía de casa para uma entrevista com o ator inglês Peter Ustinov, Beant se aproximou e disparou três tiros de revolver na sua barriga. Quando ela caiu, Satwant descarregou sua submetralhadora sobre a primeira ministra, que só viria a morrer no hospital, 5 horas depois. Ambos largaram as armas e se entregaram imediatamente. Beant teria sido morto durante uma confusão com os demais seguranças na sala em que havia sido levado a interrogatório, e o colega ferido e levado a julgamento.

Na corte, Satwant disse não ter "ódio contra qualquer hindu, muçulmano, cristão, nem ódio por qualquer religião. Depois do meu martírio, não permita que um sikh atire uma pedra a qualquer hindu. (...) Se criarmos um banho de sangue, não haverá diferença entre nós e Rajiv Gandhi" (filho de Indira, nomeado seu sucessor, e responsabilizado pela onda de perseguição aos sikhs que se seguiu ao assassinato de sua mãe). A execução de Satwant e um tio de Beant (condenado por ter orientado o sobrinho a cometer o assassinato) em 1989 foi seguida de violência, com a morte de 14 hindus por militantes sikhs no Punjab no mesmo dia. Seus corpos foram cremados e as cinzas nunca devolvidas às famílias.

A família de Indira Gandhi continua protagonizando a política indiana - Sonia Gandhi, nora de Indira, é atualmente presidente do Congresso Nacional; o neto Rahul é vice-presidente do Partido do Congresso, e seu primo Varum Gandhi deputado pelo partido Bharatiya Janata. Indira construiu uma reputação internacional positiva atuando na mediação de conflitos, mantendo a Índia, na medida do possível, como um protagonista entre os países não alinhados durante a Guerra Fria (a despeito do seu movimento a favor da União Soviética por conta da hostilidade da China e dos Estados Unidos nos anos 1970), e por ter implantado, pela via socialista, políticas públicas que impediram a ruína econômica diante de crises internacionais de grande magnitude, diminuindo o desemprego e controlando a inflação, conferindo à outrora frágil economia indiana uma autonomia que a levaria a um contínuo crescimento nas décadas seguintes. Contudo, a Índia permanece em constante tensão interna por questões étnicas e religiosas, que ela não conseguiu resolver - e, no caso da relação com os sikhs, apenas piorou. No Punjab, onde os sikhs somam mais de 20 milhões de pessoas, os assassinos de Indira Gandhi ainda recebem homenagens - em 2014 foi produzido um filme exaltando o seu feito no incidente do assassinato, mas sua distribuição foi proibida pela autoridade de Nova Delhi.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

A Revolta de Asen e Pedro

No dia de São Demétrio de Tessalônica, 26 de outubro de 1185, os irmãos Teodoro (mais tarde, Pedro) e Ivan Asen deflagraram uma revolta contra os impostos abusivos cobrados pelo Império Bizantino para custear o casamento do seu imperador. Esta revolta resultaria na independência da Bulgária e na coroação de ambos como tsares.

A partir do século IX os búlgaros, então uma confederação de tribos semi-nômades, se organizaram num império próprio que rivalizava com o Império Bizantino nos Bálcãs. Invasões de magyares (os atuais húngaros, que faziam parte originalmente da confederação búlgara), pechenegues (uma tribo proto-turca), e a ascendência da Rússia Kievita desestabilizaram o Primeiro Império Búlgaro ao ponto da maior parte do seu território ser absorvida pelo Império Bizantino, e os búlgaros perderem a sua autonomia.

As coisas permaneceram assim por mais ou menos um século e meio. A aristocracia búlgara era aplacada por privilégios garantidos pelo trono de Constantinopla, mas mesmo assim muitos deles foram expatriados para cidades na Anatólia, deixando a população búlgara sem líderes naturais ou legítimos (no sentido de "alguém com condições de recrutar um exército"). A religião também foi usada como forma de desconfigurar a identidade nacional búlgara: a estrutura to patriarcado ortodoxo búlgaro foi submetida a um arcebispo que respondia diretamente ao Patriarca de Constantinopla. Porém, os búlgaros continuaram em suas terras, e nenhum processo de aculturação funciona enquanto o Estado trata a população cativa de maneira distinta, especialmente dentro de sua própria casa. Foi o erro que levou à revolta de 1185.

Andrônico I Komnenos foi imperador bizantino por dois anos. Neste período, o idoso imperador parecia mais preocupado em assegurar um descendente da sua própria linhagem pela supressão ao poder de barões locais do que em manter as estruturas que o seu pré-antecessor, o reformador Manuel I Komnenos, havia estabelecido para reerguer o império em todos os campos. Num episódio particularmente violento, ele ordenou a execução de prisioneiros, exilados, e suas famílias, causando revoltas por todo o império. Andrônico foi deposto e executado por um militar (que, embora tivesse se envolvido em duas revoltas contra o mesmo, havia sido mantido no cargo graças aos laços com a família Komnenos), Isaque Angelos, que assumiu o trono como Isaque II.

O novo imperador assumiu no meio de uma invasão de normandos baseados na Sicília, e investiu tudo que podia para expulsá-los com sucesso. Antevendo as dificuldades econômicas políticas que enfrentaria dali para frente, achou melhor garantir-se no trono através de alianças com potências regionais. Ele arranjou rapidamente o casamento de uma sobrinha com um príncipe sérvio, e de sua irmã com um nobre italiano (Conrado de Montserrat, um senhor de terras influente que poucos anos depois viria a ser um dos principais comandantes na Terceira Cruzada, e coroado rei de Jerusalém). Para si mesmo, obteve a mão de uma princesa húngara, Margarida, cujo parentesco a ligava ao Sacro Império Romano, às nobrezas russa, italiana, e francesa, bem como à própria nobreza bizantina. O arranjo se deu ainda em 1185, mas a cerimônia seria realizada, em Constantinopla, no ano seguinte. A ocasião serviria para exibir todo o poder e glória do imperador. Porém, com os cofres vazios, a saída para bancar a festa seria o aumento de impostos.

Os búlgaros, na sua grande maioria, eram pastores, camponeses, artesãos. Desde a anexação da Bulgária, o antigo esplendor imperial de suas principais cidades foi diluído nos cofres bizantinos. A taxação criada por Isaque II, no entanto, não levava em consideração o que cada comunidade podia oferecer em relação ao que produzia. Era uma taxa horizontal e uniforme, que penalizava os mais pobres, que eram as populações dos Bálcãs propriamente ditos, os búlgaros e valáquios, que também haviam sido anexados. Em protesto, dois irmãos, Teodoro e Ivan Asen (ou "João", que é o equivalente a Ioan em búlgaro), filhos de um rico pastor valáquio e, possivelmente, administradores de uma criação de cavalos imperial perto de Tarnovo (atual Veliko Tarnovo), foram escolhidos pelos búlgaros e enviados à atual cidade de Ipsala expressar, diante do imperador, sua indignação com a medida. Condicionaram sua obediência a posições de comando no exército e a posse de terras. Isaque sequer concedeu-lhes audiência, mas um tio seu ordenou que Ivan fosse esbofeteado pela insolência.

Os irmãos Asen retornaram às suas terras e conclamaram o povo a uma rebelião. Mas seus compatriotas temiam mais a repressão bizantina do que a sua opressão fiscal. Era preciso outra estratégia para unir búlgaros e valáquios contra os bizantinos. Uma saída seria pela via religiosa, e, em meio à guerra entre bizantinos e normandos, a invasão à Trácia viria bem a calhar.

A cidade de Tessalônica foi saqueada pelos normandos em agosto de 1185, gerando a cadeia de eventos que levaria à queda de Andrônico. De alguma forma, os ícones de São Demétrio de Tessalônica, padroeiro daquela cidade e principal santo adorado pelos búlgaros, vieram parar em Tarnovo. Os irmãos Asen, ainda de mãos vazias, coordenaram a construção de um pequeno templo dedicado ao santo (atualmente a igreja de São Demétrio de Tessalônica, em Veliko Tarnovo), onde suas relíquias eram exibidas. Conhecidos profetas e adivinhos, que circulavam pelas aldeias balcânicas, foram convocados ao local. No dia de São Demétrio, em 26 de outubro de 1185, diante do povo, e sob a sugestão dos Asen, eles anunciaram que, em suas visões, a vinda de São Demétrio para Tarnovo significava que o santo havia retirado seus favores sobre os bizantinos e abençoado os búlgaros, e que os auxiliaria na revolta contra seus suseranos. Não poderia ter funcionado melhor: todos os presentes se ofereceram para lutar com os Asen.

Por toda a Bulgária, grupos rebeldes passaram a atacar possessões imperiais, capturando gado e fazendo prisioneiros. A importante cidade de Preslav foi sitiada sob o comando de Teodoro Asen. A cidade não foi tomada, mas os búlgaros retornaram com bois, ovelhas, tudo que puderam saquear no seu entorno. Teodoro teria então investido a si mesmo como Tsar ("César", ou Imperador), e adotado o nome de Pedro II, provavelmente em homenagem a um certo Pedro Delyan, um rebelde búlgaro do século XI (Pedro I, imperador búlgaro, era um aliado dos bizantinos, por isso pouco provável de que tenha sido ele o homenageado).

Isaque estava ocupado demais com os normandos na Trácia para dar a devida resposta a uma revolta camponesa, mas em 1186, o cronista bizantino Nicolau Coniates conta que as forças de Isaque alcançaram os rebeldes em "lugares inacessíveis", mas que uma grande escuridão que subitamente tomou as montanhas (o eclipse solar da manhã de 21 de abril daquele ano) permitiu a sua vitória. No entanto, as fortalezas rebeldes eram construídas nas partes mais escarpadas das montanhas, onde os bizantinos não conseguiam alcançar, e os antigos castelos ao longo do Danúbio, deixados de lado (porque Isaque achava que sua vitória havia sido decisiva), serviam de refúgio aos búlgaros. Depois daquela derrota, enquanto Pedro ganhava tempo negociando uma rendição, Ivan Asen cruzou o baixo Danúbio, para onde regressou com um exército de cumanos (tribo turca que habitava o noroeste do Mar Negro).

Com o auxílio dos cumanos, Pedro liderou a campanha que culminou com a tomada da Moésia - antiga região que corresponde ao centro-norte da atual Bulgária. Enquanto isso, Ivan paralisava as contra-ofensivas bizantinas com a tática de ataques rápidos e retiradas. Em certa ocasião, Isaque II, temendo que seu tio João Doukas (o mesmo que mandou esbofetear Ivan) usurpasse o trono, retirou dele o comando das tropas na Moésia, dando comando a um certo João Cantacuzeno, que era cego e não tinha relações com a família imperial (o exército de Cantacuzeno foi esmagado em seu próprio acampamento em algum lugar nas montanhas). De acordo com uma carta de Nicolau Coniates ao imperador, os irmãos não se contentariam em controlar a Moésia, mas uni-la à "Bulgária" (região que na época correspondia a boa parte da Sérvia, Macedônia, e oeste da Bulgária propriamente dita), "em um império, como nos velhos tempos". Em algum momento de 1187, Ivan Asen teria sido aclamado extra-oficialmente co-Tsar junto a seu irmão.

Finalmente, depois de um cerco mal sucedido à cidade búlgara de Lovech em 1187, Isaque propôs um armistício, reconhecendo Pedro e Asen (Ivan é mais conhecido na posteridade pelo sobrenome) igualmente tsares da Bulgária e a sua independência. A paz entre os dois impérios não duraria muito. Frederico Barbarossa, sacro-imperador romano, conduzia um exército de 40 mil homens para a Terceira Cruzada em 1189, mas pretendia forçar a passagem pelo Império Bizantino (os bizantinos haviam proibido os cruzados a passarem por seu território devido a episódios de saques nas cruzadas anteriores, motivo que levava os cruzados a operações de transporte marítimo pelo Mediterrâneo extremamente complexas). Os Asen ofereceram um exército ao imperador alemão. Como Isaque e Barbarossa acabariam resolvendo a questão diplomaticamente, o imperador bizantino empreendeu campanha contra a Bulgária, mas foi derrotado numa passagem estreita entre as montanhas perto de Triavna por Ivan Asen. Isaque fugiu, deixando tesouros como seu elmo dourado, a coroa e a cruz imperiais, e um relicário de ouro maciço contendo um pedaço da cruz de Cristo para serem capturados (um clérigo búlgaro a jogou num rio, mas foi resgatada). Diz-se que a partir daquele momento Pedro teria coroado oficialmente seu irmão e deixado grande parte da administração imperial com ele, mantendo-se no cargo ao seu lado como conselheiro. Juntos, comandaram campanhas bem sucedidas contra os bizantinos.

Asen acabaria assassinado em 1196 por um nobre valáquio, Ivanko, que estaria tendo um caso com a sua cunhada (ou talvez sob influência de Isaque Angelos, na época deposto, cego e preso, mas que teria oferecido a ele uma filha sua em casamento, como de fato aconteceu). Ivanko, vendo que não teria apoio para destronar Pedro, fugiu para Constantinopla. Pedro nomeou então seu irmão mais novo, Caloian, co-Tsar. Contudo, o tempo inteiro, tanto Pedro como Ivan dependiam das espadas cumanas ao seu lado para fazer valer a sua lei, e teria sido o descontentamento com essa influência estrangeira que moveu um camponês anônimo a assassiná-lo meses depois. E Caloian morreu em 1207 enquanto cercava Tessalônica - dizem os cronistas, morto em sua tenda pela lança do próprio São Demétrio.

O assim chamado Segundo Império Búlgaro chegou a abocanhar a Valáquia, a Albânia e a maior parte da Grécia, e existiu até ser solapado pelos otomanos em 1396.

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