quinta-feira, 16 de março de 2017

"E fez o que era mau aos olhos do Senhor"

Em 16 de março de 597 a.C., o exército do rei Nabucodonosor II da Babilônia capturou Jerusalém e levou o rei Joaquim e grande parte da população judaica cativa.

Na tradução judaico-cristã, o reino de Israel teria sido fundado no final do segundo milênio a.C. por Saul, que, com a bênção da classe sacerdotal dos levitas e alguma resistência, unificara em torno de si as tribos hebraicas que havia alguns séculos se estabeleceram entre o Líbano, o Sinai, e os antigos reinos de Moabe, Amom e Edom. O reino atingiu uma estabilidade durante o reinado de Davi, e chegou a seu apogeu sob seu sucessor, Salomão - a importância de Salomão é abstraída da Bíblia, que sugere que ele teria como esposas princesas egípcias e hititas, as duas maiores potências da região no século X a.C., que teria recebido tributo da "Rainha de Sabá" (uma rainha etíope, que, segundo a tradição cristã na Etiópia, teria sido amante e gerado um filho de Salomão, de quem os imperadores etíopes alegavam ser descendentes em linhagem direta), além de obter favores dos reis fenícios, que lhe forneciam madeira do Líbano para a construção do grande Templo em Jerusalém. Após Salomão, a luta por poder e a questão religiosa romperam Israel em duas metades, a metade norte ainda identificada como Israel (com capital em Samaria), e a metade sul, o reino de Judá (centrado em Jerusalém).

Tanto Judá como Israel ocupavam uma faixa de terra que comunica o Egito com o Oriente Médio. É a encruzilhada da principal rota comercial por terra da Idade do Bronze e início da Idade do Ferro. Embora a Bíblia descreva uma miríade de reinos e confira um ar de autonomia às tribos israelitas e aos reinos formados por elas, na prática toda a região esteve, a todo momento, sob o poder direto ou influência econômica e política das super potências da região, alternadamente Egito, Hatti, Assíria, Império Babilônico (no período acadiano), e Neobabilônico (no período caldeu). E a derrota de um deles representava o domínio pelo outro, nunca a liberdade ou a autonomia plena. Mas como, de qualquer forma, a Palestina esteve sempre longe do alcance dos centros de poder desses impérios estrangeiros, para eles sempre foi mais prático manter os reinos locais funcionais e saudáveis prestando-lhes tributo e defendendo terras que entendiam como suas de invasores inimigos do que ocupá-las e construir uma administração própria sobre ela, com todos os problemas que envolvem governar um povo estrangeiro de uma cultura estranha em sua própria terra. Assim, tanto Israel como Judá funcionaram, durante praticamente toda a sua existência, como Estados-tampão que asseguravam privilégios ora de um, ora de outro império mais poderoso, e protegiam indiretamente suas fronteiras contra seus maiores rivais no cenário internacional de momento.

Por mais que a Bíblia fosse escrita por hebreus e para hebreus, construindo uma narrativa heroica do povo de Israel, ela nos serve como referência para alguns acontecimentos históricos que são confirmados por fontes externas. Na verdade, por muito tempo ela serviu como único registro de alguns eventos ou lugares considerados "míticos" até que a arqueologia fizesse seu serviço, como o registro da existência dos hititas (cuja civilização passou a ser conhecida e estudada apenas a partir de fins do século XIX, a despeito de ter sido simplesmente a principal potência econômica e militar do mundo no seu apogeu). Embora eventos como o Êxodo tenham mais evidências contra do que a favor, toda a sequência de acontecimentos narrados nos livros de Reis e Crônicas produzem uma linha do tempo relativamente confiável, e que coincide com registros deixados pelos egípcios e assírios sobre os acontecimentos na Palestina. E usando eventos-chave que podem ser datados com precisão, é possível até determinar o dia em que aconteceram. A queda de Jerusalém, narrada na Bíblia, é confirmada e precisamente datada em crônicas babilônicas. Uma delas fala diretamente do cerco findo em 16 de março de 597 a.C., e dá a dimensão da pequenez de Judá diante dos impérios ao seu redor, quando o cronista caldeu se refere a todo o reino como "Hatti" (em referência ao império hitita do qual fez parte até dois séculos antes), e a Jerusalém como "a cidade de Judá".

Nas últimas décadas de sua existência, o Império Assírio adotou uma postura agressiva na sua competição com o Egito, o que resultou na invasão do Reino de Israel, na queda de Samaria , entre 723 e 721 a.C., e na deportação dos israelitas, dispersos (talvez para sempre) pelas suas principais cidades. Judá foi salvo no último momento, quando, após uma longa campanha, soldados assírios ameaçaram desertar em massa, provocando um recuo repentino. A Assíria mergulharia em uma série de guerras civis e deixaria de existir, suplantada pelos seus antigos vassalos caldeus durante uma longa guerra, entre 620 e 612 a.C.. Estes caldeus, liderados por Nabopolassar, estabeleceram sua capital na Babilônia.

Antes do declínio final, a Assíria havia assumido uma posição tão proeminente que seu apoio foi fundamental para o estabelecimento da XXVI Dinastia no Egito. Durante o colapso do poder em Nínive, o faraó Neco II tomou a iniciativa de apoiar seus antigos aliados contra a ameaça comum vinda da Mesopotâmia, mas uma última coalizão de egípcios e assírios foi derrotada em Carquêmis, na Síria, em 605 a.C., abrindo caminho para os caldeus montarem uma ofensiva contra o Egito e assegurar seu poder sobre o Crescente Fértil.

Com o reino de Israel desfeito pelos assírios, o Reino de Judá subsistia sob a influência egípcia. O rei judeu Jeoaquim havia sido apontado ao trono sob a bênção do faraó em 609 a.C.. O próprio Neco II mudara seu nome de Eliaquim para Jeoaquim no ato da investidura do trono; anteriormente, seu pai, Josias, fora levado preso ao Egito e seu tio nomeado rei em seu lugar (apenas para ser deposto pela facção egípcia três meses depois). A derrota em Carquêmis significou que a força que escorava a autoridade de Jeoaquim não existia mais. Nabucodonosor II, sucessor de Nabopolassar, na sua ofensiva contra o Egito, precisava passar por Judá. Seu exército, que arrasava cidades filisteias no litoral, chegou a Jerusalém talvez em 604 a.C.. Desesperado, Jeoaquim firmou uma aliança com os babilônicos, entregando-lhes uma importância em tesouros e nobres cativos e garantindo sua passagem em segurança para o Egito. Nabucodonosor se retirou e aproveitou a cabeça de ponte providenciada pelos novos aliados judeus para atacar o Egito, mas a campanha fracassou em 601 a.C.. O vacilante Jeoaquim provavelmente entendeu que essa derrota significaria o ressurgimento dos seus "padrinhos" egípcios, e deixou de enviar tributos a Babilônia, oferecendo aliança novamente a Neco II.

Porém, Egito não iria mais protegê-lo, e Nabucodonosor enviou seu exército para Judá em 598 a.C. Jeoaquim morreu em uma emboscada no final daquele ano e foi sucedido por seu filho Joaquim (ou Jeconias). Joaquim herdara a "dívida" do pai. Após três meses de sítio, talvez pressionado e impossibilitado de reverter a situação ou sustentar o cerco por muito tempo (ou, dependendo do texto bíblico, por ser apenas um garoto de 8 anos!), Joaquim capitulou, entregando-se aos comandantes caldeus. Junto com ele, Nabucodonosor prendeu e conduziu à Babilônia seus parentes mais próximos, nobres e suas famílias, artesãos, e todos os homens e mulheres de posses ou capazes de trabalhar e empunhar armas, além dos tesouros contidos no Templo, deixando a cidade empobrecida e habitada por velhos, inválidos e mendigos. Joaquim (a quem o profeta Jeremias amaldiçoaria em nome de Deus, vedando sua descendência, da qual Jesus faria parte, de sentar-se novamente no trono de Jerusalém), mesmo mantido cativo por mais de 30 anos, acabou tendo uma vida mansa no exílio, com a família sustentada por Nabucodonosor, e mesmo servindo a seu sucessor, Evil-Merodaque (ou Amel-Marduque) como seu conselheiro.

Para manter Judá como Estado-tampão, o soberano da Babilônia nomeou um tio de Joaquim, Zedequias, ao trono. Este Zedequias, mesmo aconselhado pelo profeta Jeremias, sendo jovem e orgulhoso, rebelou-se buscando aliança com o novo faraó Apriés. Isso não impediu os babilônicos de cercarem novamente Jerusalém, um cerco prolongado de 30 meses que teria levado os habitantes à miséria e talvez ao canibalismo. Ao final, com a resistência rompida e os inimigos invadindo a cidade (que foi arrasada, e seu Templo destruído), Zedequias tentou fugir com seus familiares, mas foi capturado e obrigado a ver seus parentes serem executados selvagemente, antes de ter os olhos arrancados e ser arrastado para a Babilônia. Judá foi tornada uma província totalmente integrada à administração neobabilônica, governada diretamente por um designatário de Nabucodonosor, um hebreu chamado Gedalias, e guardada por um destacamento do exército caldeu. Jerusalém nunca mais viu um rei da linhagem de Davi.

A existência da Arca da Aliança é uma questão de fé, porque tal artefato tão extraordinário não é mencionado em nenhum lugar fora da Bíblia, nem sequer entre os filisteus, que a teriam capturado e guardado como um tesouro valioso. Supondo ela ter existido, ela deixa de ser mencionada na Bíblia muito antes destes acontecimentos. Na última menção a ela, estava guardada no Santo dos Santos, um cômodo no interior do Templo de Salomão ao qual a Bíblia dá uma descrição particularmente rica. Por isso, é ponto pacífico que ela tivesse permanecido inviolada no Templo desde a sua construção. A Bíblia, contudo, não registra o momento em que ela desaparece. Uma das possibilidades é que ela tenha sido levada para a Babilônia como parte do tesouro do templo na primeira conquista de Jerusalém (na data de hoje). Outra possibilidade igual é que tenha sido levada, e/ou destruída, quando a cidade caiu pela segunda vez (os babilônios estavam atrás de ouro, e a Arca, embora folheada a ouro, era apenas uma caixa de madeira sem valor simbólico para eles). Os profetas Jeremias e Ezequiel, que foram testemunhas de grande parte deste período, não nos dão qualquer informação a respeito.

A destruição do Templo marca o início da primeira diáspora judaica - embora o grosso da população judaica já estivesse no exílio na Babilônia, a destruição da sua capital e cidade santa os deixou momentaneamente sem um "lar" ao qual pudessem aspirar retornar. Seria um conquistador persa - Ciro - quem comandaria o retorno dos judeus cativos à Palestina e a reconstrução do seu país.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Baronesa do ar

Em 8 de março de 1910, antes desta data ser usada para comemorar o Dia Internacional da Mulher, Elise Raymonde Deroche, conhecida também como "Baronesa de Laroche", se tornou a primeira mulher a receber uma licença para pilotar aviões.

Elise Raymonde Deroche nasceu em 1882 em Paris, filha de um encanador. Criança inquieta, brincava com meninos e praticava esportes. Conforme crescia, seu interesse migrava para veículos a motor, especialmente motocicletas. Aventurou-se brevemente como atriz, conheceu algumas figuras famosas da época. Dizia-se ter um charme arrebatador que lhe abria portas.

Na virada do século, Paris vivia um período de efervescência no campo da mecânica e da engenharia: como forma de incentivo, ricaços locais e associações promoviam competições e distribuíam prêmios para engenheiros que demonstrassem publicamente, com sucesso, suas invenções. Balões dirigíveis produziam espetáculos muito populares, e em 1906, o vôo do 14-Bis - a primeira aeronave mais pesada que o ar a decolar, realizar um voo controlado e pousar, mesmo que atabalhoadamente, por seus próprios meios - construído e pilotado por Alberto Santos Dumont causou enorme impressão. Quase imediatamente engenheiros locais e estrangeiros começaram a apresentar suas próprias versões da máquina voadora, tudo coberto com grande entusiasmo pela imprensa.

Deroche acompanhava tudo com enorme curiosidade, mas só veio a presenciar um voo de verdade quando foi assistir a uma exibição de Wilbur Wright (um dos irmãos Wright, que criaram uma aeronave impulsionada por uma catapulta antes do 14-Bis). Wright permaneceu em Paris por algumas semanas e realizou cerca de 120 demonstrações públicas com seus aviões. Em maio daquele ano uma certa senhorita P. Van Pottelberghe se tornou a primeira mulher a voar em um avião, na Bélgica (como passageira). Na França, um mês e meio depois, foi a vez de Thérèse Peltier voar numa aeronave construída pelo engenheiro Charles Voisin, num voo que durou 30 minutos pilotado pelo escultor Leon Delagrange. Peltier iria além e se tornaria a primeira mulher a pilotar um avião (por 200 metros numa base militar em Turim), e chegara a se inscrever para um prêmio oferecido por Delagrange para a primeira mulher que voasse por mais de 1 quilômetro em voo solo, mas a morte do amigo em um acidente a fez desistir da aviação para sempre.

Porém, as portas estavam abertas. Em 1909, Elise (que também conhecia Delagrange, que teria sido o pai de seu filho André) entrou em contato com Charles Voisin e pediu que a ensinasse a pilotar. Sua iniciativa e jovialidade (à época tinha 21 anos) deve ter encantado Voisin, pois seu irmão Gabriel escrevera que "meu irmão estava inteiramente aos seus pés".

Elise foi até a oficina dos irmãos Voisin em Chalons, a leste de Paris. Ali, um dos mecânicos que atuava como instrutor, um certo senhor Chateau, a orientava enquanto ela taxiava um dos modelos de Voisin pela pista, e depois de alguns minutos (contra a orientação de Voisin), ela acelerou e levantou voo, sobrevoando uma distância de quase 300 metros. No dia seguinte, ela deu duas voltas sobre o campo de pouso de Chalons, sobrevoando 6 quilômetros, manobrando nas curvas com facilidade apesar dos ventos. Como o voo anterior de Thérèse Peltier não fora registrado na imprensa, o feito de Deroche foi publicado na França e na Inglaterra como o primeiro voo pilotado por uma mulher (a revista Flight de outubro de 1909 descreveu Elise como "a primeira aviadora". A revista também a chamou de "baronesa" sem qualquer motivo).

Elise (que naquela altura se apresentava publicamente como Raymonde de Laroche) sofreu uma queda em janeiro de 1910 quando a cauda do seu avião resvalou em uma árvore enquanto descia para a aterrissagem. Como a altitude era baixa, e as velocidades atingidas não eram muito altas, ela escapou com uma concussão e uma fratura no braço. Mas se recuperara, estava de novo no controle de uma aeronave em exibição em Heliópolis, no Egito, quando a Federação Aeronáutica Internacional lhe concedeu a licença número 36.

Depois do Egito, ela voou em São Petersburgo, onde a imprensa russa a apresentava como "Baronesa de Laroche" (ela incorporaria o título fictício pelo resto da vida). O parque de aviação era pequeno, e havia pouco espaço de manobra, já que os aviões não atingiam grandes alturas. Ela sobrevoou árvores, telhados, e teve que atravessar a fumaça negra das fábricas no entorno, e, ao se aproximar para o pouso, desligou o motor a 100 metros de altura, planando até o solo. O próprio Czar Nicolau II veio cumprimentá-la e perguntar como se sentia. "Com o coração na boca". Em outra exibição em Budapeste ela voara por 37 minutos, desviando de chaminés e esgrimando as correntes de ar geradas pelo calor das fábricas.

Voar naqueles primeiros anos era incrivelmente perigoso porque as máquinas eram tudo, menos seguras. Motivo pelo qual os pilotos eram vistos como heróis. A "Baronesa" se acidentou uma segunda vez numa exibição em Rouen ainda em 1910, quando uma forte corrente a obrigou a apontar o nariz para baixo, provocando a queda (ela teve a presença de espírito de manter o motor funcionando, porque se tivesse perdido velocidade, teria caído sobre o público). Ela teve múltiplas fraturas, mas voltou ao ar em alguns meses. Mais um acidente (desta vez, de carro) em 1912 causou mais ferimentos, mas Charles Voisin, que dirigia o veículo, faleceu. Não obstante, Elise voltou aos ares, conquistando um prêmio do Aeroclube da França por fazer um voo solo ininterrupto de 4 horas.

Em 1914 veio a Primeira Guerra Mundial. A Força Aérea Francesa recusou a participação de mulheres em combate, e, de fato, as poucas mulheres habilitadas a pilotar foram obrigadas a ficar em terra, mesmo para voos de demonstração, porque o ar tornara-se "muito perigoso". De forma que de Laroche contribuiu com o esforço de guerra como motorista, levando oficiais para as frentes de combate, não raro tendo que evitar os ataques de artilharia alemães. A guerra levaria a enormes avanços na aviação. Em 1919, com o fim da guerra e liberada do serviço militar, a Baronesa voltou aos ares, pilotando máquinas muito mais complexas e avançadas do que as que tinha aprendido a pilotar. Estimulada a explorar este novo potencial, em junho daquele ano ela estabeleceu dois recordes para mulheres, um de altitude máxima (4800 metros) e outro de distância percorrida (323 quilômetros).

Em 18 de julho ela se ofereceu para ser piloto de testes de um novo protótipo construído por René Caudron em Le Crotoy. Era uma aeronave de dois lugares, mas não existe informação concreta se ela estava no comando ou copilotando. De qualquer forma, na aproximação do pouso, o avião perdeu sustentação e desceu em parafuso em direção ao solo. Raymonde de Laroche morreu na hora, e o seu colega na ocasião a caminho do hospital. Seu corpo está sepultado no cemitério-parque Père Lachaise, em Paris. No aeroporto de Paris-Le Bourget, usado hoje por aeronaves de pequeno porte (onde Charles Lindbergh encerrou sua célebre travessia do Atlântico em 1927), há uma estátua em sua homenagem.

Embora mulheres intrépidas como a Baronesa de Laroche e a americana Amelia Earhart tenham se tornado celebridades da aviação do seu tempo, as mulheres nunca conquistaram muito espaço neste ramo. Em parte, talvez, por causa de restrições militares às mulheres piloto, como a que impediu a atuação de Laroche na Primeira Guerra - os "ases", todos homens, seriam heróis e se tornariam modelos para a profissão. Mesmo hoje, a aviação comercial não se apresenta como uma "coisa de mulher". Em pleno 2016, sete passageiros de um voo entre Miami e Buenos Aires se recusaram a embarcar quando souberam que a comandante e sua copiloto seriam mulheres. No Brasil, atualmente, existem apenas 197 mulheres entre quase 14 mil pilotos habilitados.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

"Esses são meus amigos, os sequestradores"

Hoje é dia de cross posting com o Histórias da Fórmula 1. Há 59 anos ocorreu um dos fatos mais insólitos na história dos Grandes Prêmios. Em fevereiro de 1958 seria disputado o segundo Grande Prêmio de Cuba, nas ruas da capital Havana, prova extra-campeonato que contava com pilotos e carros do Campeonato Mundial de Fórmula 1. A presença mais ilustre era a do já pentacampeão mundial Juan Manuel Fangio, convidado pela organização da prova.

O Grande Prêmio de Cuba havia sido planejado pelo ditador Fulgêncio Batista, à época enfrentando problemas com a guerrilha baseada em Sierra Maestra, o Movimento 26 de Julho, liderado por Fidel Castro, para tentar aumentar o prestígio do seu regime, e, com alguma sorte, atrair as atenções de possíveis aliados para os problemas internos da ilha. "El Chueco" Juan Manuel Fangio se tornou, involuntariamente, uma peça chave nos esquemas do ditador... e dos guerrilheiros.


Na noite anterior ao Grande Prêmio, Fangio se reunia com seus mecânicos no saguão do Hotel Lincoln, e estava confiante na vitória no dia seguinte. De repente, um homem armado com uma pistola 45 mm irrompeu, apontando a arma para Fangio e dizendo: "Desculpe Juan, mas terá que me acompanhar." Era um membro do Movimento 26 de Julho. Todos permaneceram imóveis. O piloto Alejandro D'Tomaso, que estava presente, fez um breve movimento com as mãos, ao que o sequestrador respondeu aos berros: "Cuidado, se mexer eu atiro! Outro movimento e os mato!" Fangio, no entanto, parecia tranquilo, e não resistiu (de princípio, pensava ser um trote do seu empresário, que estava presente). O homem armado, com a arma apontada para suas costas, o levou para fora do hotel até a esquina, onde um carro os esperava.


Após uma hora escondido no chão do carro, Fangio chegou ao lugar que supunha ser o cativeiro. Entrou em uma casa por uma escada de incêndio. Em um quarto, uma mulher com um filho, em outro, um homem ferido. Os homens saíram, deixando dois companheiros de guarda do argentino. Momentos depois, o levaram novamente a um novo veículo, que o conduziu, de olhos vendados, até uma casa num bairro nobre de Havana. Ali havia muita gente festejando o sucesso da operação. Alguns pediam autógrafos. E El Chueco, amigável, chegou a reclamar que não havia jantado ainda.
Aliás, um ato de terrorismo logo se transformou numa das lembranças mais agradáveis da carreira de Fangio. Embora El Chueco nunca se definisse politicamente, na ocasião simpatizava com movimentos de esquerda e sabia da situação ruim que a ilha vivia desde o golpe de Batista em 1952. Naquela noite, a dona da casa lhe serviu batatas fritas com ovos, que ele comeu com gosto. Na manhã seguinte, o revolucionário Faustino Perez, um dos mentores de toda a operação, lhe trouxe os jornais, e atendeu imediatamente o pedido do argentino de que avisasse a sua família sobre o ocorrido. Ele apenas se recusou a assistir a corrida pela TV. O circuito, montado na parte costeira da capital, possuía um salto numa reta que fazia seu Maserati 450S quase se desmanchar ao tocar o solo. A corrida foi interrompida por causa de um acidente com dois carros (6 pessoas morreram, 40 feridas), e Fangio, depois, pensou que o destino lhe enviara os sequestradores para poupá-lo dos perigos do percurso. "Senhores, vocês me fizeram um favor", disse aos raptores.


O objetivo do grupo era manter Juan Manuel Fangio em cativeiro até o término da corrida. Terminado o prazo, pensaram em como libertá-lo sem correr riscos, pois uma morte acidental de Fangio num tiroteio (ou até se fosse assassinado por homens do ditador) faria muito mal à imagem do Movimento. Então Fangio sugeriu que o levassem até a embaixada argentina (cujo embaixador era primo de Che Guevara). Ao ser deixado lá por uma mulher e dois jovens, Fangio, sorridente, os anunciou: "esses são meus amigos, os sequestradores", e obteve garantias de que nenhum mal seria feito a eles naquele local. Foram 26 horas de cativeiro.


Do dia para a noite, Fangio se tornou muito popular nos Estados Unidos, que acompanhavam com apreensão os acontecimentos em Cuba (estranhamente, Fidel Castro era uma figura bastante popular entre os jovens americanos, antes de firmar acordos bélicos com a União Soviética). O argentino notou, posteriormente, que "depois de 5 vezes campeão mundial, de ter vencido em Sebring, foi o sequestro em Cuba que me fez popular nos Estados Unidos".


Os revolucionários venceram esse jogo, pois Fangio se tornou uma espécie de embaixador do movimento ao mostrar para a imprensa de todo o mundo que o seu seqüestro não foi algo tão hediondo, e que as intenções dos revoltosos eram boas. A repercussão foi positiva para o Movimento 26 de Julho.


Seu envolvimento com a Revolução não acabou ali. Ainda naquele ano, intercedeu ao general Miranda para que o rapaz que o raptara no hotel, então preso, não fosse maltratado. Quando Fidel Castro assumiu o poder, enviou um convite a Fangio para uma visita a Havana, que ele não pôde atender. No aniversário de 25 anos da Revolução, o argentino recebeu um telegrama de Fidel com saudações de "seus amigos, os sequestradores", recordando que "mais do que um sequestro e detenção patriótica, serviu, junto com sua nobre atitude e justa compreensão, à causa de nosso povo, que sente por você grande simpatia, e em nome da qual o saudamos por um quarto de século." Recebeu uma carta semelhante do governo cubano na ocasião do seu 80º aniversário, novamente remetida pelos "seus amigos, os sequestradores"


Hoje, na entrada do Hotel Lincoln, há uma placa de bronze, onde se lê: "Na noite de 24-2-58, neste mesmo lugar, foi sequestrado pelo comando do Movimento 26 de Julho, dirigido por Oscar Lucero, o cinco vezes campeão mundial de automobilismo Juan Manuel Fangio. Isso significou um duro golpe propagandístico contra a tirania batistiana e um importante estímulo para as forças revolucionárias."


quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Príncipes sobre elefantes

Em 18 de janeiro de 1593, uma guerra entre os reinos de Burma e Sião, no Sudeste Asiático, terminou de maneira dramática.

Burma e Sião correspondem em linhas gerais aos atuais Mianmar e Tailândia, respectivamente. Sião era a principal potência na região até meados do século XVI, e costumeiramente empregava campanhas militares para garantir sua supremacia sobre os vizinhos. Porém, uma crise política na dinastia Aytthaya, de Sião, fragilizou essa posição, e o emergente reino de Burma partiu em campanha para expulsar os siameses da região burmesa de Tanintharyi, que corresponde ao litoral sul de Mianmar. Por cerca de 50 anos, os dois países se confrontaram, com resultados diversos - ora um submetia-se à vassalagem do outro, ora o oposto.

A quarta deflagração aconteceu em 1584, quando o rei Naresuan, da mesma dinastia Ayutthaya, declarou a independência de Sião, então sob controle de Burma. No momento, Burma havia estendido seu território em todas as direções, constituindo um império do qual Sião fazia parte. A morte do criador deste império, Bayinnaung, da dinastia Toungoo, causou um desequilíbrio político que seu sucessor, Nanda, nunca conseguiu recuperar. Além de Sião, Ava, cidade-estado no centro do atual Mianmar, também declarara independência (Ava seria invadida e reconquistada, e transformada em capital imperial poucos anos depois). Trabalhando como um equilibrista para manter os demais vassalos sob controle, o rei Nanda nomeou seu jovem filho Mingyi Swa para comandar uma campanha contra Sião. Foi sob sua supervisão que Naresuan declarou independência.

A campanha foi um fracasso em cinco etapas. No momento da revolta, Nanda enviou Swa com cerca de 11 mil homens, 900 cavalos e 90 elefantes para Sião, mas essa força nunca conseguiu fixar posição segura no país, e a chuva intensa causara enchentes que imobilizaram seus avanços - no vale inundado pelo rio Chao Phraya, no oeste da Tailândia, os burmeses quase foram exterminados por siameses em canoas. A segunda invasão, em 1586, parou na cidade fortificada de Lampang, no norte do país, a qual Swa não conseguiu tomar. Na terceira, Swa foi deixado no controle da capital burmesa Pegu, enquanto o rei Nanda comandava 25 mil homens num assalto à capital Ayutthaya (da qual a dinastia thai emprestava seu nome), mas depois de 4 meses ele retornou apenas com uma fração deste efetivo. Swa comandou uma quarta invasão ao norte de Sião em 1590, mas foi novamente repelido em Lampang (por esse segundo fracasso, Nanda o repreendeu publicamente e executou alguns de seus generais).

Em 1592, depois de 8 anos de vitórias consistentes, Naresuan sentiu-se segurou o suficiente para deixar Sião e empreender uma ofensiva contra Burma, atacando o litoral sul. Swa foi designado novamente para liderar o exército burmês (por segurança, Nanda nomeou outros aliados como seus imediatos) em ofensiva direta contra a capital siamesa. As coisas não deram certo; a batalha foi confusa, resultando na morte de Mingyi Swa, na retirada burmesa, e na consolidação de Naresuan como rei de Sião.

A maneira como os eventos de 18 de janeiro ocorreram varia de fonte para fonte, e são completamente diferentes segundo as duas versões oficiais opostas do conflito. Uma mais espetacular do que a outra.

Na versão burmesa (que teria ocorrido em 8 de janeiro de 1593), Swa conseguira alcançar as proximidades da capital Ayutthaya, onde seu exército encontrou o de Naresuan. Os dois comandantes lutaram sobre elefantes de guerra. Um dos elefantes montado por um nobre burmês estaria no cio, e no frenesi da batalha entrou em fúria, investindo contra Naresuan. O elefante foi contido, mas ao recuar investiu contra as linhas burmesas. A confusão fez com que Swa e sua escolta se deslocassem para campo aberto, onde foram alvejados por morteiros siameses. Swa foi morto por um projétil. Mas um dos mahouts (o nome de quem monta ou cuida de um elefante) que o acompanhava trouxe seu corpo para cima e o manteve escorado às suas costas para não revelar ao inimigo nem aos aliados que seu príncipe havia perecido. Sob a liderança de um príncipe morto, os burmeses continuaram pressionando os defensores até o fim do dia, quando Naresuan recuou para sua capital. Apenas à noite o comando burmês tomou conhecimento da morte de Mingyi Swa, e decidiu retornar ao seu país.

Na versão siamesa (que teria ocorrido em 18 de janeiro de 1593), os dois exércitos encontraram-se a oeste da capital. Burmeses em boa ordem teriam irrompido pelas escaramuças do exército nativo e tomado a ofensiva. Parte da retaguarda siamesa teria caído, e Naresuan, seu filho mais novo e sua escolta teriam ficado cercados. Num momento de desespero, o rei siamês se dirigi a Mingyi Swa, desafiando-o a um combate pessoal sobre elefantes. Swa teria se sentido constrangido em recusar o desafio. Manobrando seus elefantes de guerra, os dois lutavam com espadas; Naresuan foi golpeado em seu elmo, mas revidou com uma estocada no coração do rival, matando-o na hora. Enquanto isso, seu filho fazia o mesmo com um nobre burmês. Os burmeses começaram a atirar com armas de fogo, derrubando alguns mahouts que protegiam Naresuan, mas a desordem teria permitido que parte desgarrada do exército siamês se reagrupasse e avançasse para resgatar seus líderes.

Uma análise moderna dos relatos de época oferece uma terceira versão, também dramática: Swa e Naresuan lutaram a última batalha em elefantes, mas nunca chegaram a duelar. Naresuan teria ficado cercado, mas um dos elefantes burmeses teria entrado em pânico e atacado suas próprias linhas, deslocando Swa de sua posição. Neste momento, Naresuan ou alguém próximo, que estava ao alcance do comando burmês e não tinha escolha, disparou uma arma e alvejou mortalmente o príncipe inimigo, causando desordem e o recuo das forças invasoras.

A guerra terminou em 1594 com a conquista por Naresuan do sul de Burma (ele também havia empreendido ao mesmo tempo uma campanha para anexar o Camboja). Os conflitos armados entre Burma e Sião perduraram por mais 250 anos, até 1855, pouco depois do rei tailandês Rama III, no seu leito de morte, alertar o seu país a não mais lutar contra seus vizinhos, diante da ameaça crescente representada pelos europeus.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

"Eu sou o marinheiro Popeye, puff puff"

Em 17 de janeiro de 1929 o marinheiro Popeye fez a sua primeira aparição na tira Thimble Theater, publicada no New York Journal pelo cartunista E.C. Segar.

Popeye é um ícone da cultura pop do século XX. Um marinheiro uniformizado, de queixo grande, boca torta, apenas um olho bom ("Popeye" se traduz literalmente algo como "olho furado" ou "arrancado", embora a partir de um momento ficou claro que ele tinha os dois olhos, apenas mantinha um deles fechado), fumando um cachimbo, com braços e panturrilhas desproporcionalmente fortes, que obtém uma super força quando come espinafre enlatado. Cercado de personagens como Olívia Palito, Brutus, Dudu, Vovô Popeye, Gugu, Castor, Bruxa do Mar, metia-se em aventuras onde, inevitavelmente, resolvia seus problemas comendo espinafre e fazendo-se valer da força física.

A Thimble Theater foi criada em 1919, com histórias curtas de no máximo uma dúzia de quadrinhos. Antes de Popeye, as estrelas da publicação eram Olívia, seu irmão Castor ("Olive Oyl" e "Castor Oyl", brincadeira com "azeite" e "óleo de mamona"), e Harold Hamgravy, que fazia o par romântico-cômico com Olívia. A tira evoluiu de um humor de costumes para pequenas aventuras cômicas, em que Olívia e Hamgravy se metiam em enrascadas com as loucas empreitadas de Castor. Na história publicada em 17 de janeiro de 1929, Castor planeja ir de navio até a Ilha dos Dados (Dice Island) para quebrar a banca no cassino local se aproveitando da sorte provida pelas penas de Berenice, a Galinha "Whiffle" (uma galinha mágica que aparecia recorrentemente; whiffle era o som que ela reproduzia). Precisando de um marinheiro para os levar até lá, Hamgravy encontra um marinheiro feio e mal humorado no porto, e pergunta se ele é um marinheiro; "Você achou que eu fosse um cowboy?", respondeu. "Está contratado". Popeye, que ainda não tinha nome, apenas rema o bote até o navio, e é apresentado como o único membro da tripulação. A história se desenrolou por algumas edições, até que, semanas depois, quando a trupe retorna da ilha, Popeye reaparece, e é baleado por um capanga do dono do cassino; porém ele acaricia Berenice, e a boa sorte faz com que sobreviva. Como não tinha a intenção de tê-lo como personagem regular, Segar deixou de usá-lo nas suas tiras seguintes. A reação do público foi imediata, e Popeye retornaria pouco depois.

Segar contava que Popeye havia sido inspirado em um valentão da sua cidade natal, Chester, Illinois, chamado Frank Fiegel - um sujeito bruto, com queixo e mãos grandes, cachimbo no canto da boca, que brigava por qualquer coisa. Com a fala enrolada, gabava-se de proezas físicas impossíveis. Após o sucesso do personagem, Segar enviava a Fiegel, já idoso, uma quantia em dinheiro todos os meses até a sua morte.

A boa recepção levou Segar a aumentar o papel de Popeye, a ponto de substituir Hamgravy como par romântico de Olívia (que inicialmente desprezava, e mesmo depois desdenhava e traía frequentemente o marinheiro), também envolvido nos esquemas de Castor para enriquecer facilmente, mas aos poucos conduzindo os enredos em torno de si mesmo. Logo são introduzidos o obeso Dudu, com seu apetite compulsivo por hambúrgueres, que ele promete sempre "pagar na terça" (o nome original, J. Wellington Wimpy, pode ter dado origem ao vocábulo wimp, que significa "frouxo" ou "chorão"), Eugene, o Jeep, um animal mágico vindo da África, a ranzinza Bruxa do Mar, Alice, o Monstro (uma mulher gigante e selvagem frequentemente empregada como capanga da Bruxa), Gugu, o bebê que um dia chegou pelo correio e é criado como filho de Popeye e Olívia, e outros personagens menores. As histórias eram complexas e exploravam características particulares de cada personagem. Em 1932 os quadrinhos foram publicados pela primeira vez no Brasil, no jornal carioca Diário de Notícias. Ali, os personagens ganharam nomes "naturalizados" que não duraram muito tempo: Popeye era "Brocoió", Olívia era "Serafina", e Gugu era "Zezé" (este se manteve assim até nas primeiras dublagens na década de 1950).

Em 1933, dentro do bloco de desenhos da Betty Boopy exibido nos cinemas, Popeye fez sua estreia em animação - até então, seu arqui-rival Brutus, com quem disputava o amor de Olívia, havia aparecido nos quadrinhos apenas uma vez, e o consumo de espinafre era esporádico. Nos desenhos animados, Popeye transformava-se numa espécie de super-herói - incrivelmente forte, mas falível, fundamentalmente humano. A dublagem a partir de de 1935 passou para a voz de Jack Mercer, que inseria, com a dicção afetada das legendas dos quadrinhos, falas e comentários com a voz do marinheiro que não estavam roteirizados nem sincronizados com os movimentos da boca (como se ele murmurasse), provocando gargalhadas que os produtores não esperavam. No Brasil, foi interpretado por Orlando Drummond, que conservava os maneirismos de Mercer.

Como Popeye se tornasse um fenômeno de audiência, ele logo se tornaria um veículo muito visado de propaganda. A peculiaridade do marinheiro tornar-se super forte (às vezes, meramente auto-confiante) comendo espinafre provocou uma explosão nas vendas da hortaliça. Em Crystal City, Texas, cuja comunidade prosperava do plantio de espinafre, foi erigida uma estátua de Popeye em 1937. Hambúrgueres também passaram a ser populares fora dos EUA em parte pelo apetite de Dudu. Eugene, o Jeep, animal mágico e indestrutível, parece ter sido a origem do famoso veículo militar produzido para o exército americano dois anos após a introdução do personagem (o código do projeto do veículo era "GP", ou "gee pee", mas a associação entre os dois Jeeps era inevitável). Popeye, sendo um marinheiro, era perfeito para transmitir mensagens patrióticas aos cidadãos e soldados, sobretudo durante a Segunda Guerra Mundial.

Nos anos 1940, não raro, Popeye ia em aventuras contra nazistas ou japoneses, das quais saía triunfante com a ajuda do espinafre ao som da balada tema composta por Sammy Lerner, que começa na sua versão brasileira com "Eu sou o marinheiro Popeye". Um desenho produzido em 1942, em que Popeye está preso a um navio como castigo por ter pulado de um avião sem paraquedas, e cruza o caminho com um bombardeiro japonês, cujo piloto é representado com lentes grossas e grandes dentes, e, ao ser abatido, usa uma sombrinha oriental como paraquedas até aterrissar numa barcaça cheia de japoneses que são idênticos a ele. No final, os japoneses são espancados por um Popeye caracterizado como a Estátua da Liberdade e encarcerados - na gaiola, eles se "transformam" em ratos. Este desenho, junto com outros da mesma época, foi banido nos Estados Unidos por seu conteúdo racista.

De fato, o papel político que os super-heróis de capa e máscara preencheriam durante a Segunda Guerra e a Guerra Fria ainda estava vago; quando surgiram em profusão na década de 1930, Popeye já era imensamente popular. Eventualmente, super-heróis representando ideais físicos e morais da nação americana - em oposição ao tipo falastrão e desengonçado de Popeye - acabariam relegando o marinheiro para o campo da comédia voltada ao público infantil. A violência física, que até os anos 70 tinha um papel central na resolução de problemas - inclusive contra mulheres, como Bruxa do Mar, Alice, e até mesmo Olívia - diminuiu de intensidade a partir da produção de uma nova série em 1978, nos estúdios Hanna-Barbera.

Com restrições à violência, muito das características de Popeye e dos personagens que o cercam perderam significado. Em 1980 foi filmado Popeye, com Robin Williams como o personagem-título, um filme que uma criança veria com estranhamento - uma comédia musical fortemente teatral, com tons de drama que oscilam entre a exploração infantil e a busca pelo pai (o Vovô Popeye) e personagens com os quais ninguém com menos de 50 anos na época estava familiarizado, como os originais Castor e Hamgravy. Eventualmente Popeye perderia audiência para personagens e linguagens mais familiares às crianças do início do século XXI.

E.C. Segar não chegou a ver o apogeu nem usufruir da popularidade do seu personagem, vindo a falecer em 1938. Mesmo existindo em segundo plano, Popeye continua a ser um personagem facilmente reconhecível, uma relíquia dos primeiros anos dos desenhos animados, das quais sobrevivem até nós (igualmente sem o mesmo brilho, em maior ou menor grau) o Gato Félix e o Mickey Mouse, por exemplo (ou a própria Betty Boopy, embora seja mais uma marca do que um personagem de cartum ou animação nos dias de hoje). Popeye deixou sua marca na cultura, em todas as mídias e formatos possíveis - no Brasil, foi adaptado em cantigas de roda. Ele pode ser visto como precursor dos super-heróis que viriam depois, como Superman. Na medicina, a ruptura dos tendões que prendem os bíceps ao ombro, levando à contração súbita do músculo, é conhecida como "músculo de Popeye", em alusão ao muque que exibia quando comia espinafre. Aliás, em 2010 um trabalho científico publicado na Tailândia indicou que crianças que assistiam Popeye tinham mais facilidade em aceitar espinafre na refeição do que por qualquer outro método de persuasão. A própria língua inglesa herdou de Popeye as expressões "wimp", "Jeep" (explicados acima) e "goon" ("capanga", em alisão a Alice "the Goon"). Existem mais de 630 desenhos animados, quatro longas-metragens, 200 episódios de rádio (dos quais cerca de 20 foram preservados), e milhares de publicações. Popeye ainda é publicado como tira em alguns poucos jornais, mas no Brasil um gibi com reedições do personagem é publicado pela Pixel Media desde 2016.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

A Primeira Guerra da Abissínia

Em 13 de janeiro de 1895, a Itália venceu a Batalha de Coatit, na Eritréia, contra forças leais ao Império da Etiópia. Foi a primeira batalha da Primeira Guerra da Abissínia, travada entre os dois países pelo controle daquela parte do Chifre da África.

A Primeira Guerra Ítalo-Etíope, ou Guerra da Abissínia, foi uma consequência do imperialismo do século XIX que culminaria na Partilha da África, e suas causas são bem convolutas: o Egito, protetorado do Império Otomano com alto grau de autonomia, começou a se mover para construir um império para si próprio na África, tomando partes do Sudão e conquistando a Eritreia. O Egito também tentou conquistar a Etiópia, mas fracassou. Uma grave crise econômica no último quartel do século XIX levou o Egito a abandonar a Eritreia, e em 1882 forças britânicas chegaram ao Cairo para uma intervenção no país - efetivamente colocando-o sob protetorado britânico.

Acontece que o Egito, desde as Guerras Revolucionárias, permaneceu na esfera política da França, e os franceses buscavam meios de remover os britânicos do país e restabelecer a sua influência local. Em 1869 foi concluído o Canal de Suez, o que tornava o Mar Vermelho o principal canal comercial entre Europa e Ásia, e a França passou a investir no estabelecimento de entrepostos, sobretudo em Djibuti, onde estava centrada a colônia da Somália Francesa - se a França conseguisse controle sobre o Mar Vermelho, o Canal de Suez e o Egito como um todo teria pouca valia aos britânicos. A Eritreia foi abandonada pelo Egito, e para evitar que a França assumisse controle do país, mas sem o ônus de estabelecer toda a administração colonial necessária, os britânicos manobravam diplomaticamente para que algum aliado assumisse a tarefa. Eles encorajavam o imperador etíope João IV, mas um tratado de 1884 já assegurava seu acesso ao porto eritreu de Massawa, e ele se dava por satisfeito. Então os britânicos voltaram-se para a Itália.

A palavra corrente na Itália no final do século era de ultraje pela anexação de Túnis pelos franceses. Túnis era possessão otomana, mas por questão de proximidade os italianos consideravam que, se a África devesse ser partilhada entre os países europeus, a Tunísia deveria estar sob a sua esfera de influência por questões geográficas e históricas. Além do sentimento anti-francês, havia uma expectativa na Itália de uma "virada" na sua história desde a sua unificação em 1861, porém pouco progresso podia ser sentido pois a maioria da população ainda vivia em situação de pobreza. Em 1885, a chegada de forças italianas em Massawa foi anunciada como o início de uma nova era.

A Etiópia fora a nação africana que sobreviveu às ondas expansionistas de árabes, turcos, e europeus, e mantivera continuadamente sua independência política. De fato, os etíopes conservavam o cristianismo ortodoxo como religião desde os seus primeiros séculos em meio a um mundo islâmico no seu entorno, e a nobreza etíope considerava-se herdeira direta do rei israelita Salomão através de sua amante Salomé (a bíblica "Rainha de Sabá"). Enquanto a Itália operava o porto de Massawa, Menelik II vencia uma guerra de sucessão contra o filho de João IV, Ras Mengesha (conquistando no caminho as regiões eritréias de Amara e Tigray, efetivamente conquistando a Eritreia) e era coroado Imperador da Etiópia. Logo em seguida ele assinou um tratado com o governo italiano em que cedia aos europeus o controle sobre a Eritreia em troca do reconhecimento de Menelik como soberano na Etiópia. Ou assim ele pensava.

Mas havia um porém: o texto em italiano e amárico não dizia a mesma coisa nas duas línguas. Em italiano, a Etiópia se tornava seu protetorado; em amárico, o mesmo trecho descrevia um dispositivo em que Menelik poderia negociar com qualquer nação européia por intermédio dos italianos. No frigir dos ovos, todas as nações europeias, com exceção do Império Otomano (que ainda se considerava o legítimo senhor da Eritreia) e da Rússia (que desaprovava o domínio de um país cristão ortodoxo por outro católico), reconheceram a versão italiana do tratado. Os apelos de Menelik à Grã-Bretanha e à Alemanha foram formalmente repelidos em respeito ao seu entendimento do tratado. Eventualmente Menelik, que não lia italiano (ao contrário do redator do tratado, o embaixador em Adis Abeba Pietro Antonelli, que era fluente em amárico) descobriu que havia sido enganado, o tratado foi cancelado unilateralmente.

Uma guerra entre a Itália (uma nação subdesenvolvida na época) contra a Etiópia na África poderia ter sido observada apenas superficialmente como curiosidade, ou como uma extravagância da jovem nação européia. Mas na realidade ela mexeu com antigas alianças e interesses geopolíticos maiores do que os dois países beligerantes. A Itália, por exemplo, que compunha uma Tríplice Aliança com Alemanha e Império Austro-Húngaro, fragilizou a composição dessa aliança ao aceitar a corte feita pela Grã-Bretanha, contra a qual a aliança se opunha. A França, que exigia uma posição de influência na Eritreia, negociava com a Itália a segurança da sua possessão na Tunísia, enquanto a Rússia, sua aliada, enviava armas e suprimentos para a Etiópia, esperando montar ali uma cabeça de ponte para uma possível expansão em direção à África - em 1894, foi a Rússia a primeira nação européia a denunciar o tratado.

As hostilidades começaram em 1893, quando Menelik repudiou o tratado. A Itália então moveu-se para assegurar territórios em volta das terras já ocupadas, tentando tomar Tigray com apoio de lideranças locais, rivais do imperador etíope, mas eles subestimaram o sentimento de unidade dos povos etíopes e eritreus em torno do seu imperador (ao qual preferiam em lugar de invasores europeus) - um deles, o próprio Ras Mengesha, filho e herdeiro natural do trono etíope, apareceu em Adis Abeba meses antes para manifestar sua submissão pública ao antigo rival.

O Primeiro Ministro italiano, Francesco Crispi, descrito como um sujeito presunçoso e tolo, acreditava que a nação africana, composta por "negros" (com a conotação negativa que isso podia ter), seria incapaz de se defender de uma máquina de guerra moderna. De fato, nos dois primeiros anos de guerra os italianos ocuparam a capital de Tigray, Adwa, e desbarataram as forças de Mengesha, se apropriando de armas e documentos estratégicos. A França ainda recusou o apoio pedido por Menelik e cortou relações com o país, deixando-o isolado. A vitória inicial em Coatit foi na verdade para repelir as forças de Mengesha, que invadiram a Eritreia - repelir o invasor elevou em grande medida a moral dos italianos.

As regiões de Tigray e Amara, ocupadas em rendidas pelos europeus, ficam na Eritreia: os etíopes propriamente ditos (um grande número de grupos étnicos unidos há milênios sob a figura do imperador) ainda não haviam sido testados. Menelik investiu toda a economia do país na mobilização de um exército, aproveitando-se das armas compradas aos russos (ou das que haviam chegado, pois os britânicos conseguiram impedir que um carregamento atravessasse a Eritreia até a Etiópia). Uma grande manifestação com quase 200 mil soldados recrutados de todas as partes do país em Adis Abeba teve enorme efeito motivador.

Em 1895 os italianos entraram no norte da Etiópia, mas foram expulsos de volta na batalha de Amba Alagi em dezembro. Menelik e sua esposa, a imperatriz Taytu Betul (diz-se que Menelik era um homem excessivamente diplomático, e ela lhe prestava o serviço de dizer "não" em situações difíceis) comandaram pessoalmente a contra-ofensiva etíope em Tigray. Em janeiro, após várias tentativas, conseguiram a rendição dos italianos no forte de Mekele, na fronteira com a Eritréia. Menelik permitiu que os soldados rendidos retornassem à sua base, sob comando do General Oreste Baratieri, cedendo mesmo a eles animais de carga. O gesto de generosidade teve outro objetivo: Baratieri esperaria os soldados retornarem para planejar o próximo passo, e isso daria tempo de Menelik encastelar-se nas montanhas perto de Adwa. Como resultado, Baratieri (cujo efetivo não chegava a 25 mil homens) ficou imóvel, relutando em avançar contra uma posição desvantajosa. Foi por pressão do primeiro ministro Crispi que o general decidiu agir.

Em 1 de março de 1896, cerca de 18 mil italianos e aliados nativos atacaram de madrugada os cerca de 100 mil etíopes em Adwa, esperando pegá-los ainda dormindo; mas os defensores acordavam cedo para os serviços religiosos, e estavam alertas e cientes do inimigo. Sucessivas ondas de etíopes esmagaram as brigadas italianas. Naquele dia, cerca de 12 mil soldados morreram de ambos os lados - perdas maiores do que qualquer batalha na Europa no século anterior. Os italianos presos pelos etíopes foram tratados da melhor maneira possível - já os presos eritreus que lutaram ao seu lado foram julgados traidores e tiveram as mãos decepadas.

Depois disso, Menelik negociou o tratado de Adis Abeba com a Itália e delimitou as fronteiras entre Etiópia e Eritréia, assegurando as posições italianas no país vizinho e forçando a Itália a reconhecer a independência da Etiópia. A vitória sobre um exército europeu fez com que ingleses e franceses reconhecessem o país como uma potência regional e negociassem seus próprios tratados com eles. O país africano permaneceria soberano até 1936, quando a Itália fascista novamente avançaria sobre a Etiópia, desta vez como uma forma de testar a máquina de guerra que empregaria três anos depois, na Segunda Guerra Mundial.

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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Queda de Caiena

Em 12 de janeiro de 1809, uma força marinha conjunta do Império Português e da Inglaterra tomou o controle de Caiena, capital da Guiana Francesa, brevemente anexando-a ao império colonial português em represália à invasão de Portugal por Napoleão.

A vinda da família real portuguesa ao Brasil em 1808, junto com toda a estrutura administrativa do Império Português, foi uma medida preventiva do príncipe regente João diante da iminente invasão francesa a Portugal. Embora manobrasse no campo diplomático, as relações indissolúveis com a Inglaterra (João, preso aos ingleses por tratado, até cogitou com o rei George III que os dois países declarassem uma guerra de fantasia para evitar a hostilidade com a França) e a volatilidade com que Napoleão tratava aliados de ocasião convenceram o príncipe português de que o mais seguro seria mover a corte para um lugar onde não pudesse ser capturada - o Rio de Janeiro funcionava como capital do império, enquanto o general Junot marchava sobre a casca oca que era Portugal, impedindo efetivamente que o império inteiro caísse. Isso não significa que Don João, em seu santuário tropical, tenha se mantido alheio às Guerras Napoleônicas.

Como a guerra envolvesse as metrópoles de vastos impérios coloniais, como Portugal, Inglaterra, Espanha, Holanda, ela era travada também longe da Europa. Em 1802, Napoleão, então cônsul da França, enviou um exército para esmagar a Revolução Haitiana (onde ex-escravos conquistaram a independência do país), mas foi notavelmente derrotado. Os ingleses, que até 1808 adotavam uma postura passivo-agressiva diante da incapacidade de uma invasão por terra por parte dos franceses e buscava furar o Bloqueio Continental aqui e ali (o fluxo de comércio com os Estados Unidos e o Brasil anulavam os danos do bloqueio na Europa), na América investiram agressivamente contra as colônias francesas, procurando estrangular o império napoleônico e, ao mesmo tempo, assimilar novas possessões. Na América do Norte, onde os britânicos eram senhores de quase tudo que hoje é o Canadá e os franceses tinham controle sobre o Quebec e uma enorme faixa de terra a oeste do Mississipi (a colônia da Louisiania, que recuperaram das mãos dos espanhóis por meio de um tratado em 1800 e que venderam amigavelmente aos Estados Unidos para levantar fundos para a guerra). Ali, ambos os lados, quando se viam incapazes de guerrear com seus próprios exércitos, armavam tribos nativas para que pudessem atacar fortes e colônias e fustigar o inimigo. Os Estados Unidos tentavam se manter alheios, mas conforme a guerra prosseguia, eles se viam mais envolvidos, até entrar em guerra aberta com o Canadá britânico por questões de fronteira em 1812.

As principais bases de operação de Napoleão no oeste do Atlântico eram os portos fortificados no Caribe, mantidos em cheque pela superioridade naval da marinha britânica. Na América do Sul, a presença francesa estava na Guiana, "pequena" faixa de terra ao norte da Bacia Amazônica usada basicamente para o cultivo de cana-de-açúcar ("pequena" em relação ao Brasil, pois possui cerca de 15% da extensão territorial da França continental). Caiena, sua capital situada na costa, era uma dessas cidades fortificadas onde navios da marinha francesa, piratas e corsários poderiam encontrar acolhida.

A Inglaterra precisaria suprimir o controle francês sobre esse ponto se quisesse assegurar suas rotas comerciais com a América. A crise causada pela interferência britânica nas colônias francesas no Caribe fizeram com que vários de seus governadores enviassem à França pedidos de socorro, então os ingleses sabiam que era a hora de atacar. Contudo, com grande parte da sua marinha comprometida com a patrulha do litoral norte-americano e Caribe, além dos navios empregados na proteção do território na Europa, os ingleses apelaram para seu único aliado incondicional que poderia agir na América do Sul: Portugal.

A França invadira Portugal em 1808 e tomara Lisboa apenas dois dias depois da família real ter zarpado. O general Junot ainda podia ver os últimos navios da esquadra portuguesa sumindo no horizonte. Isso frustrou os planos de depor a rainha e coroar algum títere, como Napoleão vinha fazendo em outras partes da Europa. A própria ocupação do território português, embora tenha sido invadido praticamente sem resistência, ficou impossibilitada porque os camponeses no caminho de Junot foram removidos de suas propriedades e tudo que podia ser aproveitado pelo invasor fora queimado. Também havia resistência no campo e nas cidades, de maneira que a ocupação francesa nunca chegou a ser tranquila. Mesmo a Espanha, sua aliada, não permaneceria colaboracionista por muito tempo.

João, que partira de sua terra com enorme pesar, tomava providências para que a nova capital, no Rio de Janeiro, tivesse condições de proteger a coroa em caso de uma improvável invasão francesa, ou, ao menos, pudesse assegurar uma autonomia quanto ao acesso a recursos estratégicos caso as rotas oceânicas fossem bloqueadas. Entre suas providências, ordenou o estabelecimento de toda a cadeia de produção de pólvora, e a fundação de um jardim de aclimatação para o cultivo de especiarias, o atual Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

A marinha portuguesa no Brasil era tímida; apenas quatro naus haviam deixado Portugal junto com a família real, e os navios aqui eram apenas usados para patrulha e transporte, muito poucos aptos para a guerra. Porém, como a Inglaterra também estava limitada, o almirante Sidney Smith solicitou ao governo português o envio dos navios de que podia dispor para atacar Caiena. Dom João viu ali uma oportunidade (e os ingleses sabiam que veria) de não apenas fustigar a França, mas também de jogar para a mesa de negociações a questão da fronteira entre a Guiana Francesa e aquela parte do Grão-Pará que seria conhecida em tempos coloniais como Guiana Brasileira (ou Portuguesa), e que hoje constitui o estado do Amapá: desde fins do século XVIII, a França conseguira, através de tratados, avançar a fronteira da Guiana para além do rio Oiapoque, tomando o que hoje é o oeste e o norte do Amapá. Portugal pretendia recuperar essas terras e firmar a fronteira ao longo do Oiapoque.

Dom João respondeu mobilizando quatro naus: o Voador, o Vingança (as duas embarcações munidas de canhões, sendo que a última tinha no seu histórico a captura de um navio pirata a serviço da França em 1801), o Infante Dom Pedro, e o Leão, carregando 550 soldados sob comando do tenente-coronel Manuel Marques. Eles comporiam uma esquadra sob o comando do almirante James Lucas Yeo. A esquadra partiu de Belém no começo de dezembro de 1808, e ainda naquele mês bombardeou as colônias costeiras de Oiapoque e Aprouague.

No dia 6 de janeiro de 1809, diante das fortificações de Caiena, o almirante Yeo optou por atacar por terra ancoradouros ao longo do rio Maruhy para atrair soldados franceses para uma batalha campal. Ingleses e portugueses no primeiro momento tomaram duas fortificações e renderam cerca de 90 soldados dos 450 que guardavam a cidade. À medida em que os invasores avançavam, tomando mais fortes ao longo do Maruhy, o governador de Caiena, Victor Hugues respondia de maneira desastrada, sem conhecimento da posição ou do tamanho do inimigo, ora oferecendo combate em desvantagem, ora superestimando e recuando diante de forças bem menores. No dia 9, o almirante Yeo liderou pessoalmente o ataque à residência do governador, e iniciou a marcha para a cidade propriamente dita. No dia 12, Hugues assinou sua rendição. Dezessete soldados morreram nos confrontos, apenas um deles do lado anglo-português.

A entrada das tropas na cidade estava programada para o dia 14, mas no dia 13, uma enorme fragata francesa, o Topaze, se aproximou do porto. Desfalcada do Infante Dom Pedro, a esquadra anglo-portuguesa só dispunha da canhoneira britânica Confiance em posição de defesa, porém com metade da capacidade de fogo e sem tripulação. Se o Topaze, com seus canhões e um reforço para a guarnição local aportasse, a operação seria um fracasso. O capitão do navio, George Yeo, irmão do almirante, rapidamente contratou negros libertos locais para tripular o navio e manobrá-lo audaciosamente para uma posição de combate. Como o Topaze estivesse carregando mais de mil barris de farinha, seu capitão recebera ordens de evitar combate se isso pusesse a carga em risco. Então ele deu meia volta e sumiu no horizonte - o Topaze foi afundado dez dias depois num confronto com ingleses perto da ilha de Guadalupe.

No dia 14, enfim, a cidade abriu os portões e se rendeu. Soldados foram presos e armas apreendidas, e a administração entregue por Hughes e Yeo ao Marquês de Queluz. Ao invés de integrada à colônia do Brasil, foi criada ali a colônia de Caiena e Guiana. A colônia existiu sob controle português até 1815, quando os termos da sua devolução e o estabelecimento da fronteira ao longo do Oiapoque foram acertados entre o rei Luis XVIII e o príncipe regente no Congresso de Viena. Apenas em 1817 uma delegação francesa chegou a Caiena para tomar posse da colônia.

A breve presença portuguesa na Guiana Francesa, além de resultar no estabelecimento da fronteira entre o território e o Brasil, teve como consequência curiosa o enriquecimento dos jardins botânicos no Brasil. Os franceses haviam investido no plantio de especiarias na Guiana, e perto de Caiena havia um complexo de jardins de plantas de interesse econômico e estratégico. De posse desses jardins, os portugueses providenciaram o transporte de mudas e sementes de craveiros, caneleiras, pimenteiras, palmeiras, noz-moscada, frutas-pão, abacateiros, além de uma variedade de cana-de-açúcar local superior à que se plantava no Brasil, a cana-caiena, totalizando 86 espécies inexistentes no Brasil que foram remetidas a Belém, e de lá ao novo Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

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