Em 1202, soldados e cavaleiros partiram de vários reinos europeus atendendo ao chamado do Papa Inocente III, com o objetivo de destruir o Sultanato Aiúbida. No entanto, em 17 de julho de 1203, a maior parte desse exército entregou-se ao saque de Constantinopla, causando o desmantelamento do outrora poderoso (e aliado) Império Bizantino.
Como isso foi acontecer?
As Cruzadas foram campanhas militares organizadas inicialmente pelo papado romano, em parte como resposta às dificuldades que os bizantinos estavam tendo para conter o avanço das nações islâmicas na Ásia. A Primeira Cruzada, em 1095, tinha como objetivo ajudar militarmente o Império Bizantino a recuperar terras perdidas para os turcos seljúcidas no leste da Anatólia, mas resultou na conquista de Jerusalém e no estabelecimento de reinos cristãos na região da Terra Santa. A tomada daquela cidade sagrada para o Islã foi uma demonstração de força da Europa cristã diante de mais de 300 anos de avanço muçulmano, que, contudo, tornou a região instável, disputada nos séculos seguintes por cristãos europeus, muçulmanos sírios, egípcios, e eventualmente mongóis. De fato, em 1187, o Sultanato Aiúbida, comandado pelo brilhante general Saladino, retomou a Cidade Santa, e a Terceira Cruzada, enviada em resposta, retomou algumas fortalezas perdidas (Jafa e Acre, por exemplo), mas não conseguiu reconquistá-la.
Da Europa Central para a Palestina, os Cruzados podiam seguir a perigosa rota pelo Mediterrâneo, ou seguir as estradas que iam para o leste, em direção a Constantinopla, pelos Bálcãs e Cárpatos, e de lá pelas confusas estradas da Anatólia. A passagem quase obrigatória pelo Império Bizantino, apesar de cristão, era um problema tanto para os católicos como para os bizantinos ortodoxos. Havia, de longa data, uma animosidade entre as duas interpretações do cristianismo, mas havia, sobretudo, um vão cultural entre a emergente sociedade feudal do ocidente, de matriz germânica, e da antiga e tradicional civilização oriental, de matriz grega mas que assimilava elementos asiáticos. A desconfiança levou o Sacro Imperador Romano Frederico Barbarossa, um dos comandantes da Terceira Cruzada, a planejar, com dissidentes sérvios e búlgaros, um ataque aos bizantinos, cuja política de tolerância e assimilação das culturas árabe e persa era vista como sacrílega; quando a ilha de Chipre, antiga possessão bizantina, foi reconquistada das mãos de rebeldes gregos, ao invés de ser devolvida, foi vendida pelo conquistador, o rei inglês Ricardo Coração de Leão, à Ordem dos Cavaleiros Templários.
Desde que Inocente III foi eleito Papa, em 1198, seu objetivo maior era organizar uma nova cruzada para retomar Jerusalém. No entanto, o cenário político não era favorável, já que as três principais potências, o Sacro Império Romano (em crise política com o papado), a França e a Inglaterra (em guerra um contra o outro) enfrentavam seus problemas. No entanto, um padre de Neuilly-Sur-Marne chamado Fulco conseguiu convencer alguns dos senhores mais poderosos da França a recrutarem exércitos contra a maior ameaça à cristandade, sobretudo à Terra Santa, o Sultanato Aiúbida. O líder da expedição seria o italiano Bonifácio de Montferrat. Sabendo das dificuldades da marcha por terra pela Anatólia (onde os cruzados, mesmo sob proteção bizantina, enfrentavam assaltos e hostilidades das populações locais nas cruzadas anteriores), Bonifácio buscou viabilizar uma frota marítima junto às potências comerciais de Gênova e Veneza. Venezianos concordaram em construir navios e transportar até 33 mil soldados (contando com 4500 cavalos) diretamente para o Egito.
Mas os cruzados, como havia sido antes, não compunham um exército coeso sob uma única liderança. Eram homens arregimentados e armados por senhores feudais principalmente na França (mas também alemães, belgas, e italianos), que os tinham como capitães. Embora houvesse a facilidade de transporte oferecida por Veneza, muitos optaram por embarcar em outros portos, como Marselha e Gênova. O embarque e o transporte eram feitos mediante pagamento dos senhores aos donos dos navios por cada homem embarcado. O problema é que dessa forma, apenas um terço dos homens esperados chegaram ao porto de Veneza, e os venezianos, que já haviam cumprido sua parte do trato, esperavam pelo pagamento total. Os cruzados reunidos ali foram dispostos de quase tudo que tinham para reunir menos do que Veneza esperava (o que contabilizava os prejuízos comerciais durante os anos de preparação e investimento na nova frota). Eventualmente, Enrico Dandolo, o Doge (ou duque, o cabeça da República local), propôs aos cruzados resgatar o montante devido achacando as cidades no leste do Adriático, então sob proteção sérvia ou húngara.
Apesar de uma ordem de Inocente III que proibia os cruzados de atacarem qualquer indivíduo, cidade ou reino cristão sob risco de excomungação, em novembro de 1201, a cidade croata (e católica) de Zara, atual Zardar, então uma ambição veneziana, foi sitiada. A cidade ostentava bandeiras com uma cruz sobre as muralhas, caso os invasores tivessem se esquecido de que a cidade era cristã, e alguns dos comandantes cruzados, como Simon de Montfort se recusavam a participar do cerco. Mas os soldados, já quase sem posses além de suas armas, viam, como Dandolo, a possibilidade de butim, e a cidade caiu em duas semanas. O Papa realmente excomungou todo o exército e a cidade de Veneza, mas como tanto cruzados como venezianos ainda precisavam se ressarcir dos prejuízos, seus líderes não informaram os soldados, com medo de que eles se dispersassem (Inocente voltou atrás três meses depois). Dandolo e os cruzados passaram o inverno em Zara, planejando o próximo passo.
Veneza cresceu graças ao comércio marítimo e à vigorosa e ágil economia local, impondo-se, mesmo com um território limitado à cidade, a portos aliados ou conquistados e colônias espalhadas pelo Mediterrâneo, frente a antigas potências tradicionais, como o Egito e o próprio Império Bizantino. Constantinopla era, pela sua localização geográfica, o principal entrave à expansão veneziana em direção às cobiçadas rotas que levavam à China e à Índia, e, apesar de inicialmente oferecer aos comerciantes venezianos privilégios, os irritava com novos acordos com rivais italianos de Pisa, Gênova e Amalfi. Em 1171, venezianos atacaram as posses de genoveses em Constantinopla, e em resposta o imperador Manuel I Komnenos mandou prender todos os venezianos na cidade e confiscar suas posses. Reforços vindos do mar tentaram vingar e forçar a libertação dos presos, mas fracassaram. Na confusão, rebeldes sérvios, instigados pelos venezianos, tomaram Ancona, a última possessão do Império Romano do Oriente na Itália. Embora a situação se normalizasse com o tempo, conflitos palacianos levaram à ascensão de Andrônico I Komnenos ao trono bizantino, e este imperador, que reinara por apenas dois anos, incitou a violência contra os que via como detentores do poder no Império - aristocratas e comerciantes latinos.
Enquanto isso, Bonifácio de Montferrat havia deixado os venezianos para visitar seu primo, Filipe, então rei da Alemanha (o que corresponderia ao cargo de Sacro Imperador Romano, caso tivesse a anuência do Papa). Ali encontrou-se com o príncipe Alexios Komnenos, cujo pai, Isaque II, havia sido deposto em Constantinopla por seu irmão Alexios III. Alexios prometeu a Bonifácio saudar a sua dívida com Veneza, além de ceder 10 mil soldados profissionais à sua expedição ao Egito, bem como colocar uma frota à disposição e, até mesmo, submeter o credo ortodoxo à autoridade do Papa, caso os cruzados o ajudassem a recuperar o trono bizantino. Tal proposta chegou aos cruzados em Zara, e foi abraçada com fervor por Dandolo. O Doge veneziano participara da expedição marítima de 1171, e teria sido cegado pelos bizantinos como punição. E agora ele navegava com uma frota de guerra e 12 mil cruzados em direção a Constantinopla.
Os cruzados, agora acompanhados por Bonifácio e Alexios, chegaram a Constantinopla em atitude hostil. As defesas da cidade, confusas e compostas apenas por um pequeno corpo de elite por conta das convulsões internas causadas pelos sucessivos golpes de Estado sofridos nas últimas décadas, foram pegas de surpresa. Ataques múltiplos foram desferidos nos subúrbios da cidade, fora das muralhas, enquanto a torre de Gálatas (onde se prendia a poderosa corrente de ferro que impedia o acesso ao Corno de Ouro, rio largo que dava acesso ao interior e à face norte das muralhas) era dominada. Mas para surpresa dos ocidentais (que, acostumados com a sacralidade da sucessão de seus tronos de pai para filho, imaginavam que o filho de um imperador deposto seria recebido com festa pelos seus pares), a embarcação onde se apresentava Alexios era ostensivamente hostilizada pelos cidadãos por cima das muralhas. Em 17 de julho, enquanto cruzados atacavam a muralha por terra, os venezianos tomavam parte da muralha pelo Corno de Ouro. Um grande incêndio causado com propósito de manter os invasores afastados destruiu quase 500 mil metros quadrados da cidade. O próprio usurpador, o imperador Alexios III (tio do pretendente), liderou um ataque em maior número contra os sitiadores no portão de São Romano, mas teria recuado em pânico antes do primeiro golpe. Ele fugiu para a Trácia, fazendo com que os comandantes locais restaurassem Isaque II imperador.
O retorno de Isaque ao trono frustrou as pretensões de um ataque direto dos venezianos aos tesouros bizantinos. Também colocava em cheque as promessas de Alexios, que só poderia cumpri-las se fosse ele o imperador. Sob pressão e alguma ameaça, Isaque concordou em coroar o filho Alexios IV coimperador.
Mas as coisas ainda não iam bem para nenhum dos lados. Alexios III fugira com boa parte dos tesouros em ouro e jóias. Alexios IV, desesperado para reunir logo algum dinheiro, ordenou a destruição de antigos ícones romanos para a cunhagem de moedas, mas nunca se chegava ao valor prometido. Alexios conseguiu um adiamento de seis meses para o pagamento, nos quais pretendia empregar os cruzados contra seu tio, encastelado em Adrianópolis. Mas o povo via o desespero do imperador como sinal de fraqueza diante de estrangeiros (hereges, além de tudo), e se rebelou na sua ausência. Na confusão, latinos eram atacados, e venezianos revidavam destruindo o que podiam. Um quinto da cidade teria sido arrasada por incêndios. Quando Isaque II morreu, em janeiro de 1204, o senado bizantino (descendente direto daquela instituição romana) nomeou Nicolau Canabus imperador, mas o jovem preferiu renunciar e se esconder numa igreja. Sem um líder formal (Alexios IV, voltando do estrangeiro, já não tinha mais sua autoridade reconhecida), Bizâncio estava sob comando de Alexios Doukas, que liderou uma rebelião contra os latinos, recusando-se a assumir as dívidas de seu suserano (que seria preso e executado semanas depois, dando espaço para Doukas ser coroado Alexios V).
Novamente a cidade foi atacada, e como sempre resistiu. Para estimular a coragem dos cruzados, clérigos insistiam na tese de que Deus os estava testando, e que a punição aos bizantinos era certa, pois haviam assassinado seu legítimo senhor; "os gregos são piores do que os judeus", pregavam. Em 13 de abril de 1204, os invasores tomaram a cidade, saqueando-a por três dias. Tesouros e obras de arte seculares foram destruídos, civis roubados ou assassinados, igrejas violadas, freiras estupradas. A grande catedral de Santa Sofia foi desgraçada e seus ícones e livros destruídos, e os cruzados bêbados colocaram uma prostituta sentada no trono do Patriarca. Imediatamente, o antigo Império Bizantino se fragmentou em 5 partes, ficando a sua parte européia centrada em Constantinopla sob o comando do nobre belga Balduíno - coroado Balduíno I, Imperador Latino. O Império Latino resistiu por 57 anos a ataques de pretendentes gregos por todos os lados, bem como de búlgaros recém-unificados se aproveitando do tumulto vindos do norte. O Império Bizantino foi restaurado em 1261 por Miguel VIII Paleólogo.
As consequências do saque de Constantinopla foram profundas. O Império Bizantino - o que restava do Império Romano, da milenar cultura grega, e da autoridade cristã no oriente - jamais se recuperou da crise, e foi suplantado pelos turcos, que avançariam inexoravelmente sobre a rica Anatólia até chegar a Constantinopla no século XV, expandindo uma influência duradoura sobre o sudeste da Europa. O cisma que existia entre catolicismo e ortodoxia grega se tornou um abismo tão profundo e duradouro que em 2001 o Papa João Paulo II reconheceu e expressou pesar pelo que os cruzados fizeram a Constantinopla, ao que o contemporâneo Patriarca Bartolomeu I aceitou como desculpas. A aproximação ainda é um trabalho político muito delicado, trabalhoso, e lento.
Poucos homens chegaram à Terra Santa na Quarta Cruzada, apenas reforçando posições já asseguradas então. Nenhum desembarcou no Egito.
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terça-feira, 17 de julho de 2018
segunda-feira, 23 de abril de 2018
A Noite de São Jorge
Na noite do dia de São Jorge, 23 de abril de 1343, estonianos nativos se rebelaram contra seus senhores dinamarqueses e alemães numa tentativa de restaurar a soberania do país.
Povos de língua báltica e urálica ocuparam a Estônia e a Letônia desde fins da Antiguidade, e tiveram contato com emissários cristãos vindos da Alemanha e da Suécia desde o século VII. Os livônios, como coletivamente se reconheciam as tribos locais, continuaram seguindo sua religião nativa, dando ao cristianismo pouca penetração em seu território, embora ambas as crenças coexistissem. A atividade confessional se intensificou no século XII, quando senhores locais começaram a ver nos saxões alemães, cristãos, potenciais aliados contra seus vizinhos semigálios (que habitavam o sul da Letônia e norte da Lituânia), e usaram a religião como forma de atraí-los para seu lado. Não obstante, a prevalência da religião nativa báltica (e também eslávica, nas regiões ao entorno) sobre as tentativas de conversão ao catolicismo romano levaram o Papa Celestino III e seu sucessor Inocente III a convocarem uma Cruzada no norte da Europa.
O chamado do Papa e a resistência dos livônios levaram à formação de uma confederação de senhores e bispos alemães numa ordem de cavalaria, a Ordem Livônia (submetida à já poderosa Ordem Teutônica), com a missão de converter pagãos à força e submetê-los à autoridade papal, e também proteger interesses comerciais alemães na região. Durante todo o século XIII, a Ordem Livônia combateu uma a uma as tribos livônias, mesmo as que estavam sob proteção do rei da Dinamarca, e estabeleceu na região uma nação de facto, unida a bispados feudais formados em decorrência das invasões e quedas de chefes locais.
A tribo dos estonianos manteve algum nível de autonomia sob o Ducado da Estônia, faixa de terra no norte da atual Estônia que ainda estava sob domínio dinamarquês. Mas embora fossem garantidas liberdades individuais (como o porte de armas), os impostos eram abusivos, as relações comerciais desiguais, e privilégios a senhores de terras alemães e dinamarqueses (que tornavam os estonianos, antigos donos das terras, seus vassalos, presos a eles por dívidas irrecuperáveis) eram ultrajantes aos olhos dos nativos. No século XIV, a autoridade dinamarquesa diminuiu com a morte do Rei Cristõvão II, e a Estônia, então pesadamente colonizada por dinamarqueses e alemães, ficou dividida. Foi nesse momento que a minoria nativa - cerca de 2% da população do ducado então - viu que era hora de agir.
Os estonianos viam seu modo de vida entrar rapidamente em vias de extinção à medida em que germânicos cristãos invadiam e colonizavam o território, impondo línguas, religião, e estruturas sociais estranhas. A decisão - cuja autoria não está clara na principal fonte sobre a revolta, as crônicas de Bartolomeu Hoenecke - foi possivelmente uma reação desesperada frente ao destino inexorável do velho povo báltico diante da formidável máquina de guerra organizada pela superestrutura da Igreja Católica e seus aliados alemães.
Na noite de São Jorge de 1343, uma casa sobre uma colina na província de Harria foi incendiada, sinalizando o início da revolta, uma ação coordenada que tinha como objetivo primário o assassinato de todo alemão, homem, mulher ou criança, nobre ou plebeu. Segundo as crônicas, aqueles que os homens da Estônia pouparam foram mortos pelas mulheres, que também se encarregaram de queimar igrejas e monastérios. Rapidamente os estonianos elegeram entre si quatro reis, e sob sua liderança, organizaram um exército de 10 mil pessoas para sitiar a cidade de Reval (atual Tallinn, capital da Estônia, então sob posse dinamarquesa). Conscientes de que seu sucesso se devia ao elemento surpresa, e que a reação seria pesada por parte de alemães e dinamarqueses combinados, os novos líderes mandaram pedidos de ajuda a duques suecos, prometendo Reval ao rei da Suécia. Os duques responderam com promessas de ajuda.
As notícias se espalharam e inflamaram as comunidades estonianas. Na província de Rotália (atual Lääne), os nativos renunciaram ao catolicismo e caçaram os alemães onde estivessem, vitimando talvez 2000 pessoas. O Bispado de Ösel-Wiek também caiu, e em questão de dias os estonianos tinham o controle do Ducado.
Enquanto isso, sobreviventes chegaram ao castelo de Weissenstein, na atual cidade de Paide, então uma fortaleza de fronteira da Ordem Livônia. O Mestre da ordem, Burchard von Dreileben, mandou um cavaleiro, provavelmente estoniano (porque se diz que falava a língua nativa), para convocar os reis rebeldes ao castelo para se explicarem. Os reis, vendo a oportunidade de impedir uma contra-ofensiva alemã, aceitaram, e se deslocaram em uma pequena comitiva a Weissenstein, com a promessa de segurança e hospitalidade por parte da Ordem. Além do Mestre, outros notáveis da Ordem Livônia compareceram à conferência, incluindo o bispo de Reval, que os rebeldes permitiram passar pelo seu cerco e por todo o território sob seu controle. De fato, os quatro reis e três cavaleiros que os acompanhavam se depararam com um grande número de cavaleiros livônios esperando por eles em Paide.
Em maio, diante do Mestre da Ordem, os reis propuseram se submeter a ela, desde que não tivessem que pagar tributo a senhores estrangeiros - servindo a ordem com homens, armas e recursos quando solicitado. Ao serem perguntados o porquê de tantas mortes de alemães, os reis responderam que qualquer alemão merecia ser morto, mesmo que tivesse apenas dois pés de altura. Von Dreileben considerou um ultraje, recusou os termos apresentados, e exigiu que os reis permanecessem no castelo até que os capitães da Ordem, ele próprio entre eles, encontrassem seus exércitos em campo. Os reis questionaram a ordem, já que lhes havia sido garantida livre passagem de volta. Ao anoitecer do dia 4 de maio, enquanto eram conduzidos aos seus aposentos, todos os estonianos presentes foram assassinados (as crônicas atribuem o ataque à agressão por parte de um cavaleiro estoniano contra o livônio designado para escoltá-los pelo castelo, uma decisão tão estúpida que é desacreditada pela maioria dos historiadores).
Sem líderes, os estonianos foram incapazes de mobilizar uma resistência relevante diante do contra-ataque alemão. Em dez dias, a rebelião já havia sido dominada na Estônia continental, finalmente esmagada nos meses seguintes graças a reforços da Ordem Teutônica vindos da Prússia. Restou apenas um foco de resistência nas ilhas de Ösel (onde igualmente os estonianos nativos reunciaram ao cristianismo e atacaram alemães), derrotado dois anos depois (Burchard von Dreileben esperou o inverno congelar o mar entre as ilhas e o continente para atravessar com seu exército a pé e evitar um perigoso ataque anfíbio).
O auxílio sueco realmente chegou à Estônia, porém 4 dias depois da derrota decisiva dos rebeldes. Vendo os aliados derrotados, e Reval controlada pela Ordem (os dinamarqueses, que já haviam sido derrotados pelos suecos recentemente, temendo perder a cidade, a entregaram aos alemães), os suecos se contentaram em saquear o que puderam nos seus arredores e foram embora. Os estonianos ainda tentaram aliança com príncipes russos, mas um pequeno exército da cidade de Pskov também chegou tarde demais e foi desbaratado. A Ordem Teutônica acabou comprando as últimas possessões dinamarquesas na Estônia, tornando-se senhora de todo o Ducado.
O fim da Rebelião da Noite de São Jorge significou o fim da nobreza báltica nativa, restando aos povos da região a submissão a governos estrangeiros, que se alternaram entre alemães, poloneses, suecos, lituanos e russos pelos séculos seguintes. Quando os primeiros documentos impressos na atual língua estoniana (uma língua urálica afim do finlandês, em nada relacionada às línguas bálticas ao sul) surgiram no século XVI, já eram textos de teor religioso cristão, dando a entender que nos cerca de 200 anos entre a rebelião e a ressurgência do paganismo báltico e o advento da imprensa, as conversões foram ostensivamente bem sucedidas. Em 1943, no aniversário da Revolta, e em plena Segunda Guerra Mundial, a União Soviética, então suserana dos estonianos, divulgou localmente as crônicas, numa tentativa de inflamar o povo local contra os invasores alemães (a Estônia, anexada pelos soviéticos três anos antes, balançava no sentido de apoiar a invasão nazista).
A Estônia se tornou independente da Rússia em 1918, caindo sob domínio soviético em 1940, recuperando sua independência em 1991. O neopaganismo estoniano (baseado na antiga estrutura religiosa da Estônia medieval) é a oitava religião mais popular no país.
Povos de língua báltica e urálica ocuparam a Estônia e a Letônia desde fins da Antiguidade, e tiveram contato com emissários cristãos vindos da Alemanha e da Suécia desde o século VII. Os livônios, como coletivamente se reconheciam as tribos locais, continuaram seguindo sua religião nativa, dando ao cristianismo pouca penetração em seu território, embora ambas as crenças coexistissem. A atividade confessional se intensificou no século XII, quando senhores locais começaram a ver nos saxões alemães, cristãos, potenciais aliados contra seus vizinhos semigálios (que habitavam o sul da Letônia e norte da Lituânia), e usaram a religião como forma de atraí-los para seu lado. Não obstante, a prevalência da religião nativa báltica (e também eslávica, nas regiões ao entorno) sobre as tentativas de conversão ao catolicismo romano levaram o Papa Celestino III e seu sucessor Inocente III a convocarem uma Cruzada no norte da Europa.
O chamado do Papa e a resistência dos livônios levaram à formação de uma confederação de senhores e bispos alemães numa ordem de cavalaria, a Ordem Livônia (submetida à já poderosa Ordem Teutônica), com a missão de converter pagãos à força e submetê-los à autoridade papal, e também proteger interesses comerciais alemães na região. Durante todo o século XIII, a Ordem Livônia combateu uma a uma as tribos livônias, mesmo as que estavam sob proteção do rei da Dinamarca, e estabeleceu na região uma nação de facto, unida a bispados feudais formados em decorrência das invasões e quedas de chefes locais.
A tribo dos estonianos manteve algum nível de autonomia sob o Ducado da Estônia, faixa de terra no norte da atual Estônia que ainda estava sob domínio dinamarquês. Mas embora fossem garantidas liberdades individuais (como o porte de armas), os impostos eram abusivos, as relações comerciais desiguais, e privilégios a senhores de terras alemães e dinamarqueses (que tornavam os estonianos, antigos donos das terras, seus vassalos, presos a eles por dívidas irrecuperáveis) eram ultrajantes aos olhos dos nativos. No século XIV, a autoridade dinamarquesa diminuiu com a morte do Rei Cristõvão II, e a Estônia, então pesadamente colonizada por dinamarqueses e alemães, ficou dividida. Foi nesse momento que a minoria nativa - cerca de 2% da população do ducado então - viu que era hora de agir.
Os estonianos viam seu modo de vida entrar rapidamente em vias de extinção à medida em que germânicos cristãos invadiam e colonizavam o território, impondo línguas, religião, e estruturas sociais estranhas. A decisão - cuja autoria não está clara na principal fonte sobre a revolta, as crônicas de Bartolomeu Hoenecke - foi possivelmente uma reação desesperada frente ao destino inexorável do velho povo báltico diante da formidável máquina de guerra organizada pela superestrutura da Igreja Católica e seus aliados alemães.
Na noite de São Jorge de 1343, uma casa sobre uma colina na província de Harria foi incendiada, sinalizando o início da revolta, uma ação coordenada que tinha como objetivo primário o assassinato de todo alemão, homem, mulher ou criança, nobre ou plebeu. Segundo as crônicas, aqueles que os homens da Estônia pouparam foram mortos pelas mulheres, que também se encarregaram de queimar igrejas e monastérios. Rapidamente os estonianos elegeram entre si quatro reis, e sob sua liderança, organizaram um exército de 10 mil pessoas para sitiar a cidade de Reval (atual Tallinn, capital da Estônia, então sob posse dinamarquesa). Conscientes de que seu sucesso se devia ao elemento surpresa, e que a reação seria pesada por parte de alemães e dinamarqueses combinados, os novos líderes mandaram pedidos de ajuda a duques suecos, prometendo Reval ao rei da Suécia. Os duques responderam com promessas de ajuda.
As notícias se espalharam e inflamaram as comunidades estonianas. Na província de Rotália (atual Lääne), os nativos renunciaram ao catolicismo e caçaram os alemães onde estivessem, vitimando talvez 2000 pessoas. O Bispado de Ösel-Wiek também caiu, e em questão de dias os estonianos tinham o controle do Ducado.
Enquanto isso, sobreviventes chegaram ao castelo de Weissenstein, na atual cidade de Paide, então uma fortaleza de fronteira da Ordem Livônia. O Mestre da ordem, Burchard von Dreileben, mandou um cavaleiro, provavelmente estoniano (porque se diz que falava a língua nativa), para convocar os reis rebeldes ao castelo para se explicarem. Os reis, vendo a oportunidade de impedir uma contra-ofensiva alemã, aceitaram, e se deslocaram em uma pequena comitiva a Weissenstein, com a promessa de segurança e hospitalidade por parte da Ordem. Além do Mestre, outros notáveis da Ordem Livônia compareceram à conferência, incluindo o bispo de Reval, que os rebeldes permitiram passar pelo seu cerco e por todo o território sob seu controle. De fato, os quatro reis e três cavaleiros que os acompanhavam se depararam com um grande número de cavaleiros livônios esperando por eles em Paide.
Em maio, diante do Mestre da Ordem, os reis propuseram se submeter a ela, desde que não tivessem que pagar tributo a senhores estrangeiros - servindo a ordem com homens, armas e recursos quando solicitado. Ao serem perguntados o porquê de tantas mortes de alemães, os reis responderam que qualquer alemão merecia ser morto, mesmo que tivesse apenas dois pés de altura. Von Dreileben considerou um ultraje, recusou os termos apresentados, e exigiu que os reis permanecessem no castelo até que os capitães da Ordem, ele próprio entre eles, encontrassem seus exércitos em campo. Os reis questionaram a ordem, já que lhes havia sido garantida livre passagem de volta. Ao anoitecer do dia 4 de maio, enquanto eram conduzidos aos seus aposentos, todos os estonianos presentes foram assassinados (as crônicas atribuem o ataque à agressão por parte de um cavaleiro estoniano contra o livônio designado para escoltá-los pelo castelo, uma decisão tão estúpida que é desacreditada pela maioria dos historiadores).
Sem líderes, os estonianos foram incapazes de mobilizar uma resistência relevante diante do contra-ataque alemão. Em dez dias, a rebelião já havia sido dominada na Estônia continental, finalmente esmagada nos meses seguintes graças a reforços da Ordem Teutônica vindos da Prússia. Restou apenas um foco de resistência nas ilhas de Ösel (onde igualmente os estonianos nativos reunciaram ao cristianismo e atacaram alemães), derrotado dois anos depois (Burchard von Dreileben esperou o inverno congelar o mar entre as ilhas e o continente para atravessar com seu exército a pé e evitar um perigoso ataque anfíbio).
O auxílio sueco realmente chegou à Estônia, porém 4 dias depois da derrota decisiva dos rebeldes. Vendo os aliados derrotados, e Reval controlada pela Ordem (os dinamarqueses, que já haviam sido derrotados pelos suecos recentemente, temendo perder a cidade, a entregaram aos alemães), os suecos se contentaram em saquear o que puderam nos seus arredores e foram embora. Os estonianos ainda tentaram aliança com príncipes russos, mas um pequeno exército da cidade de Pskov também chegou tarde demais e foi desbaratado. A Ordem Teutônica acabou comprando as últimas possessões dinamarquesas na Estônia, tornando-se senhora de todo o Ducado.
O fim da Rebelião da Noite de São Jorge significou o fim da nobreza báltica nativa, restando aos povos da região a submissão a governos estrangeiros, que se alternaram entre alemães, poloneses, suecos, lituanos e russos pelos séculos seguintes. Quando os primeiros documentos impressos na atual língua estoniana (uma língua urálica afim do finlandês, em nada relacionada às línguas bálticas ao sul) surgiram no século XVI, já eram textos de teor religioso cristão, dando a entender que nos cerca de 200 anos entre a rebelião e a ressurgência do paganismo báltico e o advento da imprensa, as conversões foram ostensivamente bem sucedidas. Em 1943, no aniversário da Revolta, e em plena Segunda Guerra Mundial, a União Soviética, então suserana dos estonianos, divulgou localmente as crônicas, numa tentativa de inflamar o povo local contra os invasores alemães (a Estônia, anexada pelos soviéticos três anos antes, balançava no sentido de apoiar a invasão nazista).
A Estônia se tornou independente da Rússia em 1918, caindo sob domínio soviético em 1940, recuperando sua independência em 1991. O neopaganismo estoniano (baseado na antiga estrutura religiosa da Estônia medieval) é a oitava religião mais popular no país.
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