quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Batalha de Zama

Em 19 de outubro de 202 a.C. foi travada a Batalha de Zama. Foi o confronto final entre Roma e Cartago na Segunda Guerra Púnica, e o evento que determinou o domínio romano do Mar Mediterrâneo pelos séculos seguintes.

Entre 218 e 201 a.C., a emergente República Romana, que compreendia o centro e o sul da Itália e ilhas adjacentes, foi desafiada pelo império capitaneado pela antiga colônia fenícia de Cartago. Tratava-se da segunda guerra em larga escala entre os dois países pelo controle do comércio no Mediterrâneo. A primeira ocorreu quando Roma interviu nos conflitos entre gregos e cartagineses pelo controle da Sicília, resultando na aquisição desta ilha pela República.

A Segunda Guerra Púnica (assim lembrada pelos romanos, pois chamavam aos cartagineses "Poeni", corruptela do grego "phoenike", ou "púrpura", corante que era a principal mercadoria oferecida pelos fenícios, fundadores de Cartago) foi deflagrada após a invasão e conquista da cidade ibérica de Saguntum (atual Sagunto, na Espanha), com quem os romanos mantinham relações diplomáticas. O comandante da operação era Aníbal Barca, designado comandante supremo da Ibéria cartaginesa e filho de Amílcar Barca, o conquistador cartaginês daquele país. O cerco e a conquista desta cidade era o primeiro passo de um plano meticuloso e ambicioso de Aníbal para assegurar o controle sobre o Mediterrâneo, e o passo seguinte seria a invasão inesperada, por terra, da Itália. De maneira espetacular, Aníbal conduziu um exército africano, com elefantes de guerra, pelos Alpes, e obteve vitórias incríveis sobre Roma em seu próprio solo. No entanto, a campanha da Itália nunca chegou a um momento decisivo, e embora Aníbal resistisse no interior da península por mais de 10 anos, esta operação acabou num impasse.

Roma, que havia adaptado a engenharia fenícia na construção da sua própria armada de guerra, conseguiu efetivamente evitar que os fenícios enviassem reforços por mar à Itália, limitando as ações de Aníbal. Com o general invasor imobilizado, os romanos partiram para o contra-ataque na cabeça de ponte cartaginesa na Europa, a Espanha. Os irmãos Gneu e Públio Cipião comandaram uma campanha que começou em Massalia (antigo porto grego sob controle cartaginês, atual Marselha), e prosseguiu, por terra e mar, através dos Pirineus, até o Rio Ebro, onde venceram uma batalha naval que paralisou o esforço cartaginês na Espanha (e o possível envio de tropas a Aníbal ou aos celtas do norte da Itália), embora seu progresso também tenha ficado por aí. Em 211 a.C., os dois Cipiões reuniram reforços entre os celtiberos nativos e marcharam separadamente e quase simultaneamente contra os cartagineses no norte da Espanha, perto de Bétis, onde ambos foram aniquilados. O filho de Gneu, Públio (o mais famoso Cipião, por isso lembrado apenas pelo sobrenome), foi o único a se candidatar ao comando do exército naquela região.

Em 211 a.C. Cipião começou tomando a cidade de Carthago Nova (atual Cartagena). Com romanos e celtiberos sob seu comando, Cipião organizava suas tropas de maneira dinâmica para responder às inconstantes formações dos cartagineses (os comandantes locais, Asdrúbal Barca, Mago, e Asdrúbal Grisco não conseguiam coordenar esforços, e a resposta ao avanço de Cipião era confusa), e aos desafios do terreno acidentado da Ibéria. Em Illipa (próximo a Sevilha), Cipião se defrontou com Asdrúbal Barca, irmão de Aníbal. Recuando o centro do seu exército e avançando com as alas, Cipião envolveu os cartagineses e obteve a vitória final naquele cenário de guerra. Este resultado rendeu a Cipião o consulado em 205 e o controle de seus aliados pessoais da Sicília.

Cipião não tinha o apoio do senado para prosseguir com a guerra. Seu plano era a invasão da África e a submissão de Cartago. Os senadores resistiram ressaltando o perigo, mas a moção acabou aprovada. Contudo, ele partira para a Sicília somente com um corpo de voluntários, e apenas mais tarde ele seria autorizado a recrutar as legiões estacionadas na ilha - na maioria, sobreviventes exilados pela derrota "humilhante" na Batalha de Canas contra Aníbal dez anos antes. Em 203 desembarcou em Utica, na Tunísia, onde esmagou completamente a resistência cartaginesa sob Asdrúbal Grisco. Na ocasião recebeu reforços da cavalaria numídia sob o príncipe africano Masinissa, a quem Cipião conhecera na Espanha e aspirava, com apoio romano, depor o rei Sifax, aliado dos cartagineses (Masanissa ainda perseguiu a cavalaria comandada por Sifax até a capital numida, Cirta, na Argélia, onde foi capturado).

A perda de Utica e a presença hostil de romanos e numídios no coração do seu império levou os cartagineses a solicitarem um tratado. Cipião propôs termos relativamente "suaves"- Cartago abriria mão das suas possessões fora da África, a maioria delas já perdida, e teria que limitar a sua marinha de guerra. Masinissa também teria direito a ampliar seu território sobre as posses cartaginesas no interior da Argélia. O senado cartaginês ainda deliberava sobre os termos, quando Aníbal foi convocado de volta. Aníbal Barca continuava no sul da Itália com o apoio relativo de tribos locais, no comando de um exército muito experiente e leal. No outono de 203 embarcou com seus homens no porto de Crotona.

Com Aníbal de volta, Cartago se sentiu segura para abordar uma frota romana destinada a Cipião que havia encalhado no Golfo de Túnis, e confiscar sua mercadoria. Os romanos viram o ato como uma quebra do tratado, e Cipião marchou para Cartago. Aníbal saiu de encontro a ele na planície de Zama, perto da atual cidade de Siliana.

Os dois exércitos se equivaliam, com ligeira vantagem numérica para Aníbal. Além de infantaria e cavalaria (numídios que serviram com ele na campanha italiana), Aníbal ainda dispunha de 80 elefantes de guerra. Os romanos contavam com três corpos de cavalaria, dois deles de numídios comandados por Masinissa, e outro de romanos sob o comando do general Lélio.

Os dois generais também se equivaliam em perspicácia. Aníbal havia se inteirado das táticas de Cipião na Espanha, especialmente sua estratégia em Illipa de atrair o centro enquanto envolvia as alas do inimigo, e assim dispôs o exército em três fileiras, com a retaguarda mais recuada para dificultar o ataque pelos flancos. Já Cipião previu que Aníbal usaria elefantes, e sabia que os elefantes podiam ser direcionados para uma carga em linha reta, mas que não podiam ser manobrados. Assim, ele separou suas três linhas em blocos, que, ao avançar das feras, se separavam, abrindo corredores por onde os elefantes passavam sem causar prejuízo (para depois serem abatidos).

Com os elefantes fora do caminho, Cipião avançou com a cavalaria. Ele também sabia que Aníbal dependia da força e agilidade da cavalaria numídia (cujos cavalos eram menores do que os cavalos atuais) e se preocupou em levar um número maior dessas unidades para o campo. Como consequência da superioridade numérica romana, a cavalaria cartaginesa fugiu perseguida por Masinissa e Lélio para longe do campo de batalha.

As infantarias então se bateram violentamente, com ligeira vantagem para os romanos. Aníbal mantinha sua terceira fileira recuada, e à medida em que as fileiras em combate eram quebradas, ele as reorganizava integrando-as às alas da fileira anterior, mantendo a força das suas linhas e reforçando seus flancos. No momento em que Aníbal integrou a primeira e segunda linhas, a primeira linha romana (os hastati, ou lanceiros) foi aniquilada. Cipião então reproduziu a estratégia em suas próprias linhas e contra-atacou. A batalha no corpo a corpo seguiu ferrenha.

Num certo momento houve uma pausa, onde os dois generais reorganizaram suas tropas. Ambos formaram uma fileira única, mas Cipião colocou a sua retaguarda nas alas, os lanceiros no meio, e a segunda fila (os principes, aristocratas que possuíam equipamento de melhor qualidade) preenchendo os espaços entre eles. O combate foi violento, mas nenhum dos lados parecia obter vantagem.

Foi quando surgiram as cavalarias romana e numídia cavalgando pela retaguarda cartaginesa (Masinissa e Lélio haviam desbaratado a cavalaria inimiga). A batalha estava perdida para Aníbal, que conseguiu fugir. Mas metade dos seus homens tombou, e outra metade foi presa.

Cartago, sem forças, teve que se submeter a um novo tratado, muito mais duro. Ela teria que pagar um pesado tributo anual a Roma (que arruinaria a sua economia rapidamente) e limitar seu poderio militar a meros 10 navios de guerra. Também não poderia declarar guerra, envolver-se em atos hostis, ou sequer recrutar um exército sem a autorização de Roma. Da parte de Roma, muitos não se deram por satisfeitos: alguns defendiam que o fim da guerra desmobilizaria a população na Itália, fazendo-a retornar a um estado de indolência anterior; outros alertavam para o perigo de se manter um inimigo tão feroz em suas próprias terras e exigiam a destruição total de Cartago. O senador Catão, o Velho, sempre encerrava seus discursos com a frase "Carthago delenda est" ("Cartago deve ser destruída"), mesmo que fosse sobre qualquer assunto não relacionado. De fato, Cartago viria a ser destruída meio século depois quando, ao arregimentar um exército contra a vontade romana para se defender das contínuas incursões do velho Masinissa, provocou nova campanha militar de Roma, resultando na destruição da cidade, extermínio de grande parte da população, e sua terra salgada.

Depois de Zama, Cipião e Aníbal quase se encontraram em outra guerra. Aníbal, em exílio voluntário, colocou-se a serviço do rei Antíoco III na Síria, e temores de que ele preparava outra invasão à Itália (de fato ele recomendara especificamente isto a Antíoco, que preparava uma campanha contra os romanos na Grécia) levaram os romanos à guerra na Ásia. Na derrota, Antíoco deveria entregar Aníbal a Cipião, mas ele fugira a Bitínia, onde servira o rei local (numa das batalhas navais que comandara, bombardeara os navios inimigos com vasos cheios de cobras venenosas). O rei da Bitínia foi, também persuadido pelos romanos a entregar Aníbal, mas ele continuou a fugir. Antes de morrer, em algum ponto da costa oeste da Turquia entre 185 e 183 a.C, ele teria deixado uma carta que chegou a Roma, dizendo "Vamos aliviar os romanos da ansiedade que têm experimentado por tanto tempo, já que eles acham um teste de paciência muito grande esperar a morte de um velho".

E Cipião (cujo sucesso na Segunda Guerra Púnica lhe rendeu o apelido de "Africano") seria acusado por seus adversários, incluindo Catão, de aceitar suborno de Antíoco (ele havia defendido publicamente o irmão de tê-lo aceito, e, por causa disso, foi acusado também). Salvo pelos amigos de ser levado a julgamento, ele se retirou da vida pública em sua propriedade, próximo a Nápoles, onde morreu (à mesma época de Aníbal) e foi sepultado. Otaviano, o primeiro imperador romano, século e meio depois, visitou o local para prestar-lhe homenagens. Sua amargura pelo tratamento que recebera em Roma após os anos de serviço (pela primeira vez Roma conquistava territórios fora da Itália e das ilhas próximas) teriam-no feito ordenar a inscrição em seu túmulo: "Ingrata patria, ne ossa quidem habebis" ("Pátria ingrata, não terá sequer os meus ossos").

No filme O Gladiador, o personagem de Russell Crowe, Maximus, é escalado para um espetáculo no Coliseu onde se recriaria a Batalha de Zama. Maximus e seus colegas, representando as forças de Aníbal, rebelam-se vencendo a batalha e arruinando o espetáculo.

Neste dia também: Independência ou Morte no Piauí

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Favorita das Nove Musas*

Em 18 de outubro de 1773, Phillis Wheatley, poetisa e escrava, recebeu a alforria.

Phillis Wheatley nasceu na África ocidental (talvez no Senegal, mas a origem é incerta), e foi vendida por um chefe tribal aos 7 anos a um comerciante de escravos. A menina, ainda sem nome, foi trazida num navio negreiro chamado Phillis ao mercado de escravos no porto de Boston em 1761. Ali, a sorte que havia lhe faltado sorriu: ela foi adquirida pelo alfaiate John Wheatley, para servir de companhia e ajudante à sua esposa Susannah. Wheatley era reconhecidamente um progressista notável que, embora mantivesse escravos domésticos a seu serviço, os tratava e mantinha com dignidade. A menina, batizada Phillis (em lembrança ao navio que a trouxe à América), e Wheatley (como de costume, para assinalar a propriedade da família que a comprou), ficou sob a tutoria da filha mais velha do casal, Mary, que a alfabetizou.

Mary, contudo, percebeu a facilidade de aprendizado e uma habilidade notável no uso e na expressão de línguas, não apenas do inglês - aos 12 anos, Phillis lia grego e latim, e interpretava passagens da Bíblia. Estava familiarizada com os poemas de Pope, Milton, Virgílio, Homero. Phillis começou a escrever aos 14 anos. Seu primeiro poema, "To the University of Cambridge, in New England" começa assim (e eu traduzo livremente):

"Enquanto um intrínseco ardor induz a escrever,
As musas prometem assistir a minha caneta;
Não faz muito tempo desde que deixei minha costa nativa
A terra de erros, e melancolia egípcia:
Pai de misericórdia, foi tua mão graciosa
Que me trouxe em segurança daquelas escuras moradias."

Impressionados pelo talento de Phillis, os Wheatley dispensaram-na dos serviços domésticos e investiram integralmente em sua educação. Quando completou 20 anos, Phillis foi enviada a Londres sob recomendação médica. Susannah Wheatley incentivou a viagem porque acreditava que Phillis teria mais facilidade para publicar seus poemas lá do que em Boston. De fato, em 1772, antes de partir para Londres, uma comissão de cidadãos de Boston abriu processo contra Phillis, questionando que uma escrava africana pudesse escrever poesia de qualidade, e precisou que ela se submetesse a uma corte, na presença de intelectuais locais (entre eles, John Hancock, um dos signatários da Declaração de Independência), para atestar a autoria dos seus poemas. Em 1773, em Londres, publicou seu livro "Poemas Sobre Vários Assuntos, Religiosos e Morais" (o documento produzido pelos intelectuais de Boston no ato do julgamento foi incluído no prefácio da primeira edição), e caiu nas graças da nobreza britânica. Já editores na América se recusaram a publicá-lo. Foi logo após a publicação em Londres e seu retorno que John Wheatley (talvez por pressão dos influentes amigos de Phillis) concedeu-lhe a alforria:

"Desde meu retorno à América meu Mestre, segundo o desejo de meus amigos na Inglaterra, deu-me a liberdade".

A vida de Phillis Wheatley depois da escravidão, contudo, não foi fácil. Seus antigos mestres e protetores faleceram, Susannah em 1774 e John em 1778. A poetisa não gozava de boa saúde, o que atrapalhava seu trabalho. Em 1778 casou-se com John Peters, um negro livre que tinha uma quitanda, e com ele viveu anos de pobreza, perdendo dois bebês. Ela tentou publicar um segundo volume de poesias, mas já na época da Revolução Americana havia pouco interesse e recursos para isso. Peters foi preso por dívidas em 1784, e poucos meses depois, ela morreu enquanto trabalhava como assistente de cozinha de uma estalagem. Seu terceiro filho morreu na mesma época, e os dois foram enterrados juntos numa cova comum.

Phillis Wheatley tornou-se a primeira escrava negra na América a publicar uma obra literária. Em Londres, onde o estigma da escravidão não lhe tomava a liberdade de expressão, relatava experiências e opiniões diversas nos círculos de intelectuais que frequentava. Porém o corpo da sua poesia, finamente ritmado e essencialmente devocional, religioso, raramente toca nas suas experiências pessoais. De fato, ela expressava, por exemplo, sentimentos ambíguos quanto à escravidão, devido à benfeitoria dos Wheatley em sua vida, o que levou autores negros contemporâneos, e estudiosos posteriores a criticar a postura (o uso progressivo de símbolos classicistas nos seus poemas, uma provável adaptação ao que ainda guardava da sua cultura ancestral, levou o escritor e escravo Jupiter Hammon a criticar seu "paganismo", dedicando a ela um poema composto por versículos bíblicos). No poema "Sobre Ter Sido Trazida da África para a América", ela louva a sua condição de escrava por ter permitido que conhecesse o Cristianismo, mas firma o pé na contestação do senso comum da época de que negros tinham uma linhagem e um destino espiritual distintos dos brancos:

"Foi misericórdia que me trouxe de minha terra Pagã,
Ensinou minha alma ignorante a entender
Que há um Deus, que há um Salvador também:
Uma vez que a redenção não procurei nem conhecia.
Alguns veem nossa negra raça com olhos desdenhosos,
'Sua cor é uma tintura diabólica.'
Lembrem-se, Cristãos, Negros, pretos como Caim
Podem ser refinados e juntar-se ao seu cortejo de anjos."

Em 1775, já durante a Revolução, época em que os poemas de Phillis Wheatley tomavam ares heroicos frequentando temas patrióticos e elogiando figuras públicas, ela escreveu uma carta ao recém nomeado comandante-em-chefe do Exército Continental, George Washington. O poema terminava nos versos:

"Continua, grande chefe, com virtude ao teu lado,
Todas as tuas ações deixa que a deusa guie.
Uma coroa, uma mansão, e um trono que brilhe,
Com ouro inalterável, WASHINGTON! Sejam teus."

Washington respondeu a carta, endereçando-se a "Senhorita Phillis", desculpando-se pela demora (5 meses entre o envio da carta de Phillis e a resposta de Washington), elogiando as "linhas elegantes" e seu "marcante talento poético". Ele diz ainda que teria arranjado sua publicação, se isso não parecesse um ato de vaidade e auto-promoção da sua parte (mas compartilhou-o com o tenente-coronel Joseph Reed, que teria encaminhado-o para o jornal The Pennsylvania Magazine em 1776), convidando-a a encontrá-lo em Cambridge. Por fim, dedica a carta à ex-escrava como "seu obediente e humilde servo".

Em Boston foi erigido em 2003 um monumento homenageando três mulheres importantes da história americana: Abigail Adams, esposa e conselheira do "Founding Father" John Adams e mãe do presidente John Quincy Adams; Lucy Stone, abolicionista, feminista e sufragista; e Phillis Wheatley.

*O almirante escocês-americano John Paul Jones pediu que um subordinado enviasse seus próprios escritos a "Phillis a Africana, favorita das Nove e Apolo".

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Agripina, A Velha

Em 17 de outubro de 33 d.C. faleceu de desnutrição a romana Agripina ("A Velha", porque tinha uma filha homônima, conhecida como "A Jovem"), adversária do imperador Tibério e mãe do seu sucessor, Calígula.

Na sociedade romana, à época da dinastia Júlio-Claudiana, os homens eram os executores da vida pública, ocupantes exclusivos dos cargos de cônsul, senador, pretor, general, pontífice. Eram maridos, cabeças de suas famílias, provedores do lar. Das mulheres era esperado o recato, a modéstia, a obediência, e um útero fértil. Quaisquer mulheres que não se enquadrassem nesse modelo, independente da sua sagacidade, capacidade produtiva, caráter, eram mal vistas pelos romanos. Porém, como toda boa sociedade fortemente patriarcal, a vida política romana sempre teve, nos seus bastidores, a influência das esposas e amantes dos seus figurões mais ilustres. Agripina, quem o historiador Tácito, sob o ponto de vista do homem romano, a descreve como alguém "intolerante na rivalidade, sedenta de poder, (ela) tinha as preocupações de um homem", era uma mulher cuja virtude extrapolava o que se esperava de uma romana, enquadrando-se tanto no espectro da matrona virtuosa e recatada, quanto da leoa que se imiscuía nos negócios públicos em busca de justiça.

Vipsania Agripina, nascida em 14 a.C., era filha de Marcus Vipsanio Agripa, amigo de longa data do imperador Otaviano, e da única filha biológica deste, Júlia. Entre os patrícios romanos os casamentos eram arranjados e desfeitos para fortalecer alianças ou aproximar inimigos, e havia muito pouco que os noivos pudessem fazer. Depois de anos de casamento feliz com Agripa, quando este morreu Júlia foi oferecida em casamento ao herdeiro legal de Otaviano, Tibério, um homem soberbo e emocionalmente instável, com quem viveu miseravelmente; não foi surpresa, embora tenha sido um escândalo, quando Otaviano puniu Júlia com o exílio por adultério. Como resultado, a jovem Agripina, então adolescente, ficou sob a guarda da atual esposa de Otaviano, Lívia.

Lívia era uma verdadeira arquiteta política. Seu marido (a quem arrebatara quando era casado e ainda compartilhava o poder com os rivais Marco Antonio e Marco Lépido) era o imperador; embora Otaviano adotasse legalmente alguns jovens promissores, ela arranjara para que Tibério, seu filho de um casamento anterior, se tornasse seu herdeiro, enquanto seus possíveis rivais caíam um a um, provavelmente envenenados sob suas ordens (bem como o próprio Otaviano, que gozava de boa saúde na velhice); com Tibério pavoneando-se no poder, trabalhava como uma das principais articuladoras políticas do seu reinado.

Já Otaviano era um homem astuto, que conhecia as artimanhas e a capacidade de realização de Lívia e procurava direcioná-las para benefício comum. No entanto, seu ímpeto frequentemente entrava em conflito com os planos da esposa. Quando Júlia foi exilada e Agripina trazida para o seu convívio, Otaviano se afeiçoou a ela e a protegeu, oferecendo-a em casamento a Germânico, um jovem e charmoso neto de Marco Antonio e parente de Lívia, da influente família dos Cláudios. Germânico, além de bem apessoado e gentil, era um militar capaz. Suas vitórias na Germânia e na Gália (notadamente, o resgate da última das três Águias Perdidas) o tornavam imensamente popular. A modéstia e a frugalidade de Agripina, sua devoção por Germânico (com quem viveu um casamento verdadeiramente feliz, se confiarmos nas fontes contemporâneas, acompanhando-o em campanha e mesmo atuando como diplomata) a tornaram uma favorita do povo. O casal deu à luz nove filhos, com seis deles chegando à idade adulta.

Otaviano já havia designado Tibério seu sucessor, mas exigiu que o enteado fizesse o mesmo com Germânico. Quando Otaviano morreu, as coisas mudaram. Tibério, que não gozava das virtudes nem da popularidade de Germânico, o via como uma ameaça. Germânico foi então enviado para o oriente (para longe de Roma), para comandar a Síria. Em seu auxílio foi designado o general Calpúrnio Piso, com quem Tibério mantinha estreitas relações, supostamente para mantê-lo sob controle. Piso e Germânico se desentenderam publicamente em pelo menos uma ocasião (após retornar do Egito, Germânico teria constatado que Piso ignorara instruções suas acerca das tropas na Síria). Ali, Lívia talvez tenha sido solicitada para ajudar Piso a resolver a questão, porque, logo em seguida, Germânico passara mal, acusando o colega de tê-lo envenenado. Germânico morreu no ano 19, deixando Piso no comando da província.

Agripina retornou a Roma com as cinzas do seu marido. Ao receber a notícia do falecimento de Germânicos, o povo romano entrou em luto antes mesmo do senado o declarar oficialmente, e diante da urna com suas cinzas, discursos e homenagens eram prestadas por figuras públicas, incluindo o próprio Tibério. Mas Agripina não se contentaria com demonstrações públicas de afeto. Ela compartilhava da convicção de Germânico de que teria sido envenenado, e que o responsável era Piso (isso não está expresso nas fontes, mas sua mente não deve ter ido muito longe para ligar a atuação de Piso a Tibério). De fato foi aberto processo e Piso foi indiciado, não por assassinato, mas por traição e desacato. Ele se suicidou antes da condenação.

A queda de Piso não satisfez o senso de justiça de Agripina. Ela exigia de Tibério que ele nomeasse um dos seus filhos seu herdeiro, em substituição a Germânico (Tibério tinha um filho Tibério Gemelo, que despontava como seu favorito). Lívia e a sogra, Antonia, mantinham os filhos de Agripina o mais longe possível da mãe. Ela se tornava cada vez mais solitária, e sua relação com Tibério cada vez mais amarga, chegando ao ponto de enfrentá-lo em particular algumas vezes, acusando-o de perseguir, através dela e de seus filhos, o sangue de Otaviano.

Senadores, preocupados com a crescente influência do prefeito pretoriano Sejano (a quem Tibério delegava muitas das suas atribuições quando, em crises emocionais, exilava-se em inacreditáveis orgias na ilha de Capri), buscaram apoio na boa reputação de Agripina, que abraçou a causa. Tibério passou a desconfiar dela, e, num jantar privado, ofereceu-lhe uma maçã para testá-la. Agripina recusou-se a comer, acreditando estar envenenada. Pouco depois ela foi presa com dois de seus filhos, acusada de conspiração (Tibério temia que ela buscasse apoio das legiões leais a Germânico, usando a reputação do marido e o parentesco do avô Otaviano a seu favor).

Agripina e os filhos acabaram banidos para a ilha de Pandataria (atualmente Ventotene), o mesmo local para onde sua mãe Júlia havia sido exilada. Seus protestos constantes eram punidos com castigos físicos (algo raramente aplicado em condenações deste tipo), e ela acabou cega de um olho. Depois de quatro anos do exílio, morreu de inanição (segundo Tácito por greve de fome, mas talvez por ter sido deliberadamente privada de comida, não se sabe), mesmo destino de seu filho Druso, enquanto o outro filho, Nero, se suicidou aguardando julgamento. Ironicamente, Sejano encontrou seu fim antes de Agripina, quando Tibério mandou executá-lo por conspiração. Quando soube da morte de Agripina, Tibério declarou o dia do seu nascimento uma data de mau agouro.

O último filho homem vivo de Agripina, Caligula, criado sob a vigilância de Lívia, sucedeu Tibério como imperador no ano 37. Ele revertera a condenação de Tibério e suas ordens para que o nome de sua mãe fosse riscado da história, e depositou suas cinzas no Mausoléu de Augusto, declarando um dia anual para que os romanos lhe prestassem homenagens. Calígula acabaria assassinado e sucedido pelo primo de sua mãe, Cláudio, e este, por sua vez, substituído pelo seu neto Nero.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Duas Chinas

Em 11 de outubro de 1142 foi ratificado o tratado de Shaoxing entre a Dinastia Jin, que controlava o norte da China, e a Dinastia Song, que dominava o sul, formalizando o fim da guerra entre os dois Impérios.

Embora se sustente que a China seja o país que existe continuamente há mais tempo no mundo atual (desde a unificação dos seus reinos em 221 a.C.), a sua história é bem mais complicada do que uma uma sucessão linear de governantes no atual território chinês. Por vezes, o que chamamos de "China" chegou a ter mais de um imperador simultaneamente. Era o caso das dinastias contemporâneas Song e Jin.

A Dinastia Song emergiu do caos que se seguiu à dissolução da dinastia Tang em 907. Os Tang vinham perdendo controle sobre os senhores da guerra e administradores provinciais do seu território, que, cada um à sua maneira, tornaram suas terras virtualmente independentes debaixo do nariz dos seus últimos imperadores. Depois de 907, pelo menos 10 reinos diferentes existiram na China, enquanto famílias nobres lutavam inutilmente entre si pelo cargo simbólico de Imperador (o período entre 907 e 960 é conhecido como Cinco Dinastias e Dez Reinos). Foi um período de disputas violentas entre os vários poderes emergentes em busca de estabilidade e supremacia, até que em 960, Zhao Kuangyin, um jovem militar que tivera ascensão meteórica no reino de Hou Zhou, depôs o neto do seu antigo suserano e assumiu para si o título de Imperador. Aconteceu de Zhao Kuangyin estar à frente de um exército em marcha quando espalhou-se o rumor entre os soldados de que um vidente teria visto um sinal indicando que o Mandato dos Céus (o ato divino conferido aos "justos" que legitimava o poder imperial) deveria ser entregue a ele. O rei era um menino de 7 anos, e não foi muito difícil para que Zhao fosse entronizado pelos seus comandados depois disso. Ficaria conhecido como Imperador Taizu, fundador da Dinastia Song.

Nos 17 anos de reinado de Taizu, o Império Song, firmemente centrado na cidade de Kaifeng, no noroeste da China, conquistou primeiro os reinos do sul, para depois investir nos reinos ao norte. O sucesso dos Song se deveu principalmente à reforma administrativa de Taizu (instituindo nomeações por concurso público ou exame de mérito, ao invés do loteamento de cargos entre aristocratas e militares), e no investimento em cartografia - o conhecimento detalhado dos domínios Song levou à confecção de um atlas, favorecendo a aplicação eficiente de políticas públicas. Inovações técnicas e científicas também eram favorecidas por incentivos públicos. A diplomacia Song mantinha embaixadas na Índia, Pérsia, Coréia, Egito, Srivijaya (o opulento império comercial que dominava a passagem do Estreito de Malaca), mantendo ainda relações com o Japão e o Império Bizantino.

Ao norte do que os Song consideravam seu, nas vastas planícies entre a Mongólia e a Manchúria, a ausência de um poder central chinês favoreceu a organização e estabelecimento de Estados rivais controlados por antigos povos nômades que emulavam o modelo administrativo chinês. Após a queda dos Tang, a etnia kitai foi unificada num império próprio, designando sua casa reinante como a Dinastia Liao. Liao é tratado pela historiografia chinesa tradicional como um reino estrangeiro, mas seu sucessor, a Dinastia Jin, teria tratamento diferente. Como os kitai, os jurchen, nativos da Manchúria, emergiram como tribos mais ou menos independentes, embora submetidas a Liao. Porém, conforme o poder central afrouxava, os jurchen rebelavam-se, realizando ataques pontuais e saques a cidades. Depois de uma campanha bem sucedida ao lado dos coreanos, os jurchen uniram-se sob um governante comum, e a partir de 1115, forjariam seu próprio império sobre as ruínas de Liao, a Dinastia Jin. Os kitai manteriam sua soberania por mais algum tempo no reino de Qara Kitai, no noroeste da China.

Os Song haviam firmado aliança com os Jin contra Liao, mas nunca forneceram os exércitos prometidos. Logo após o fim da Dinastia Liao - pela captura do seu Imperador Tianzuo em 1125 - a Dinastia Jin rompeu a aliança e partiu para a ofensiva sobre o nordeste do domínio Song. Em dois anos, a capital Song, Kaifeng, cairia sob domínio Jin. Uma conspiração de nobres centrados em Beijing contra os Song foi instrumental para o sucesso dos Jin no norte da China. Os Imperadores Jin, agora controlando partes da China de facto, só poderiam tê-lo feito sob o Mandato dos Céus, o que os legitimaria, portanto, como governantes chineses. Na prática, os jurchen, à medida em que migravam para as novas áreas conquistadas, incorporavam para si características culturais chinesas, e sua nobreza era educada nos clássicos chineses.

Jin e Song passaram mais de uma década numa guerra de atrito, interrompida temporariamente por intrigas palacianas, rebeliões internas, e questões de sucessão. Para os Song a situação ainda era mais crítica, pois a crise levava oficiais chineses (tanto leais aos Song, como os que estiveram a serviço de Liao) a preferirem oferecer seus serviços aos conquistadores estrangeiros do que ao seu próprio imperador.

A corte Song (ou o que restava dela após a captura de Kaifeng) havia cruzado o rio Yantse e reagrupado na atual cidade de Hangzhou, virtualmente abandonando todas as terras ao norte do rio Huai para os Jin. Porém, há evidência de que o novo Imperador Song eleito, Gaozong (um usurpador, mas o usurpador que a nobreza Song precisava), preferia evitar o conflito com os Jin para impedir a restauração do imperador deposto em Kaifeng, Qinzong. Manobras políticas conduziram a acusação de importantes militares Song por traição, responsabilizando-os pelas derrotas dos Song. Um deles, Yue Fei, estava prestes a retomar Kaifeng quando foi chamado a Hangzhou, onde foi preso e executado. A política de conciliação dos Song do sul com o Jin conduziu ao Tratado de Shaoxing, em que os Song abdicavam de todas as terras ao norte do Huai e se comprometiam a pagar tributo anual aos rivais do norte. Os Song sobreviveram no sul graças ao investimento na construção de uma marinha mercante e uma marinha de guerra, já que manteve controle sobre algumas das principais cidades portuárias da China.

Já os Jin precisaram desviar energia para conter revoltas dos remanescentes kitai em seus domínios, bem como de clãs jurchen que se opunham à sinificação, e conflitos com o reino tangute de Xi Xia no leste. A guerra com os Song foi suspensa não apenas por força de tratado (rompido em algumas ocasiões, porém em batalhas inconclusivas), mas pela incapacidade dos Jin de direcionar recursos para esta frente. Mas a queda começou quando as tribos mongóis começaram a se movimentar pela unificação em torno de Genghis Khan. Genghis arrasou Xi Xia entre 1205 e 1209, e em 1211 invadiu o império Jin com 50 mil guerreiros montados, dez vezes menos do que o estimado para o exército Jin - e mesmo assim, em 1214, os Jin assinaram um tratado desfavorável com os mongóis. O filho de Genghis, Ogedei, comandando um exército engordado por chineses insatisfeitos, esmagou tanto Xi Xia quanto Jin entre 1232 e 1234.

Já os Song resistiram até 1279. Foi durante a campanha de expansão para o sul que Kublai Khan, que acumulava para si o cargo de Grande Khan do imenso Império Mongol e de administrador da China, instaurou a si mesmo Imperador chinês, fundando a dinastia Yuan em 1271. Uma batalha naval em Yamen (com enorme superioridade numérica Song, e um exército invasor composto praticamente todo por soldados e marinheiros chineses) resultou na morte do último imperador Song e sua corte, ou por suicídio, ou por afogamento.

Ironicamente, a China como existia precisou ser destruída por outro invasor estrangeiro para ser, enfim, reunificada. Após o estabelecimento da Dinastia Yuan, a China, embora tenha sido invadida e repartida entre administradores estrangeiros e estados-fantoches algumas vezes, nunca mais foi dividida.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Assalto a Santiago

Em 11 de setembro de 1541, um jovem chefe picunche, criado e educado entre os incas no Peru, chamado Michimalonco, liderou um exército de mais de 10 mil homens contra a recém construída colônia espanhola de Santiago, no Chile.

Em 1540, o espanhol Francisco Pizarro, tendo conquistado o Peru, enviou Pedro de Valdivia para percorrer os Andes ao sul e sondar locais para o estabelecimento de colônias em regiões de produção de metais preciosos. Naquele ano, Valdivia alcançou uma antiga aldeia de desterrados de diversas tribos andinas periféricas ao império inca, que os incas conheciam coletivamente como promaucaes, e os espanhóis dali em diante como picunches. Sem resistência, os picunches locais aceitaram que os espanhóis administrassem as minas nas quais já trabalhavam em troca de proteção. Em fevereiro de 1541 foi fundada a colônia de Santiago de Nova Extremadura.

Para os picunches as coisas não foram tão simples. Os novos senhores espanhóis exigiam um esforço sobre-humano dos trabalhadores nas minas de ouro e na construção da colônia. O próprio Michimalonco estava empregado como capataz, e ao se ver obrigado a colocar a segurança de seus conterrâneos em risco por senhores que não se importavam muito, rapidamente tornou-se um líder rebelde, cuja reputação crescia a cada dia. Valdivia, para assegurar a obediência de seus novos súditos e, no fim das contas, garantir a segurança das cargas transportadas entre as minas e a colônia, ordenou a prisão dos seus chefes, mantidos em cativeiro para persuadir os picunches a se manterem na linha.

Os picunches rebeldes realizavam assaltos e escaramuças. Outro líder picunche, Trangolonco, irmão de Michimalonco, realizou um assalto à antiga cidade inca de Quillota (então sob controle espanhol), matando a todos os espanhóis, escravos negros, incas e demais nativos peruanos, restando apenas um colono e seu escravo. O ataque atraiu a atenção de Valdivia, que mobilizou 80 soldados estacionados em Santiago para reprimir o bando de Trangolonco mais ao sul. Na colônia, deixara 50 homens sob o comando de Inés de Suárez.

Inés era uma jovem senhora com 34 anos, que teria ido à América atrás de seu marido, que teria se aventurado ao novo continente na expedição de Pizarro (ele teria morrido no mar, antes de desembarcar no Peru). Como viúva, ela recebeu uma pequena doação em terras, e se tornou criada e, possivelmente, amante de Valdívia, conquistador incumbido de construir uma capital no Chile, salvando sua vida pelo menos em duas ocasiões e participando de pequenas batalhas.

A movimentação de Trangolonco era um chamariz. Enquanto Valdivia caçava picunches no sul, Michimalonco trazia consigo cerca de 10 mil homens, que cercavam as paliçadas de uma Santiago quase desguarnecida. Os ataques, contudo, não eram muito sistemáticos devido à posição da antiga colônia, numa ilha fluvial elevada. Além disso, os colonos tinham armas de fogo e treinamento militar, e Michimalonco entendia que um confronto direto poderia colocar tudo a perder. Mesmo assim, os picunches avançavam sobre os espaços deixados pelos espanhóis na defensiva.

À noite, como boa parte da colônia estava perdida e os poucos homens desmoralizados, Inés reuniu um conselho de guerra e decidiu executar os chefes picunches para aterrorizar os invasores e dispersá-los. Um dos soldados que vigiavam os presos lhe perguntou: "como a senhora quer que os matemos?", ao que ela respondeu "assim", tomando a espada do homem e cortando as cabeças ela mesma. As cabeças foram atiradas sobre os picunches.

Com os atacantes chocados e desorientados, Inés cavalgou em direção à praça central, à frente dos soldados que faziam uma linha de frente, e comandou um avanço final que desbaratou os milhares de picunche apavorados, salvando o que restava de Santiago. No momento, a aparição de Inés, vestida em armadura sobre um cavalo branco aterrorizando milhares de inimigos, fez os espanhóis acreditarem se tratar de São Tiago, padroeiro da cidade e da própria Espanha, descendo do céu.

Quanto a Michimalonco, após a batalha, se retirou para os domínios dos incas. Mas esquecido e pobre, resolveu voltar ao Chile, disposto a fazer as pazes com os espanhóis, cuja bravura em batalha o havia impressionado. Valdívia o recebeu de bom grado, e o teve como aliado numa expedição contra os araucanos, no sul. Ele ainda serviria de embaixador entre os araucanos, convencendo-os naquele momento a se unirem aos colonos espanhóis para fundar uma nova nação. A relativa cooperação dos povos chilenos seria crucial para o sucesso da colônia.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Colombo

Em 3 de agosto de 1492 Cristóvão Colombo, no comando da nau Santa Maria, zarpou do porto de Palos de la Frontera, na Espanha, para a viagem que o levaria à América.

Desde que os mongóis conquistaram tudo entre a Hungria e a Coréia, produtos de origem asiática, como especiarias e seda, se tornaram artigos de grande demanda na Europa. Com a ascensão dos turcos otomanos e a sua conquista de Constantinopla em 1453, as rotas comerciais pela Ásia ficaram muito restritas para os mercadores europeus, de maneira que estes artigos se tornaram escassos, ou proibitivamente caros no Ocidente. Enquanto potências marítimas, como Veneza e Gênova, tentavam, por meio de acordos ou persuasão, furar o bloqueio turco, e Inglaterra e França, outras potências europeias voltadas para o oceano, viam-se presas a conflitos internos e externos, as pequenas nações ibéricas tomaram a dianteira da navegação oceânica, buscando uma alternativa às rotas tradicionais para se chegar ao mercado asiático. Assim, Portugal, independente desde 1139, lançou-se primeiro ao mar e desenvolveu uma escola de navegação e cartografia incomparáveis na Europa quatrocentista. Mas alguns pequenos eventos chave fariam com que a balança começasse a pender para os seus vizinhos, os jovens reinos de Castela e Aragão.

Cristóvão Colombo nasceu em território genovês, filho de um tecelão que complementava a renda familiar com uma banquinha onde vendia queijos com o pequeno Cristóvão. As circunstâncias da vida pessoal de Colombo (como a própria data precisa e local de nascimento) são nebulosos, mas sabe-se que em 1873, possivelmente inspirado pelo negócio do pai, Cristóvão se tornou aprendiz de importantes famílias de negociantes genoveses, e teria embarcado em algumas expedições comerciais pelo Mediterrâneo visitando algumas colônias genovesas. Em 1476 ele navegou pelo Atlântico até a Irlanda, talvez até a Islândia. No retorno da Irlanda, entrou a serviço de um navio português e viajou a Lisboa, onde encontrou seu irmão mais novo, Bartolomeu.

Bartolomeu Colombo foi uma pela fundamental para os eventos que levaram Cristóvão à América. Enquanto o irmão mais velho começara a trabalhar com o comércio em Gênova, Bartolomeu se tornou aprendiz de uma oficina de cartografia em Lisboa. O conhecimento cartográfico na Europa medieval era muito baseado num mapa muito fragmentário do mundo conhecido pelo cartógrafo grego Ptolomeu, elaborado originalmente no século II e reproduzido exaustivamente por copistas medievais. Este mapa separava fisicamente os oceanos Índico e Pacífico, estabelecendo a África como uma barreira de terra que ia até os confins da Terra ao sul. Contudo, desde a década de 1460 Portugal vinha tomando a iniciativa de tatear a costa da África à procura de uma passagem marítima para as "Índias" (termo que se referia não apenas à Índia em si, mas a todo sudeste asiático), desviando das rotas conhecidas dominadas pelos turcos otomanos no Mediterrâneo e na Ásia por terra. Estudando os clássicos (direta ou indiretamente, através do trabalho de estudiosos muçulmanos sobre clássicos gregos) e coligindo o as novidades trazidas por navegadores e astrônomos, Bartolomeu estava convencido de que uma rota para o oeste, Atlântico adentro, seria uma rota mais curta para as Índias do que o contorno da África, cuja extensão ainda não era totalmente conhecida. A ideia de que a rota do Atlântico seria mais curta não era novidade: ela havia sido proposta pelo astrônomo florentino Paolo Toscanelli ao rei Afonso V de Portugal quando Bartolomeu ainda era um aprendiz (porém o rei a rejeitou). Bartolomeu apresentou sua proposta ao rei João II em 1485, mas um corpo de especialistas avaliou que a distância proposta seria insuficiente para chegar à Ásia pelo oeste, e o projeto foi recusado.

O encontro dos irmãos em Lisboa levou Cristóvão a se estabelecer em Portugal. Bartolomeu o convenceu de que era possível alcançar a Índia pelo Atlântico, e Cristóvão viu nisso uma possibilidade de levar vantagem no estabelecimento do comércio entre Portugal e Índia. Quando Cristóvão reapresentou o projeto a João II em 1488, Bartolomeu Dias, navegador português, havia acabado de regressar da expedição onde encontrara o Cabo da Boa Esperança, o ponto mais setentrional da África de onde os portugueses poderiam se lançar diretamente à Índia. O rei português não demostrou mais interesse em Colombo. A proposta inicial dos irmãos Colombo (que incluía armar três naus e nomear Cristóvão "Grão Almirante do Oceano" e governador de todas as terras que encontrasse) foi rejeitada por uma comissão nomeada pelo rei João II, porque a distância estimada pelos Colombo era curta demais para se chegar à Ásia (e de fato era).

Cristóvão deixou Lisboa e tentou por conta própria financiamento para a sua expedição em Gênova e Veneza, sem sucesso. Bartolomeu tentou o rei Henrique VII da Inglaterra (quando foi assaltado por piratas) e depois Carlos VIII da França, em vão.

Em 1486, antes da recusa final de João II, Cristóvão ofereceu o projeto à corte unida de Castela e Aragão. Tanto num como noutro, o projeto foi recusado por causa da distância subestimada até a Ásia. Contudo, os reis Fernando e Isabel foram cativados pelo conceito de uma rota oceânica, e, para evitar que Colombo levasse o projeto a outro país, decidiram pagar-lhe um estipêndio anual e oferecer-lhe hospedagem e alimentação no país. Entusiasmado, Cristóvão continuou negociando com os reis católicos até conseguir sua aprovação em janeiro de 1492. A Reconquista estava completa, e os reinos espanhóis podiam direcionar seus investimentos em outras direções. Contudo, na audiência decisiva, Isabel recusara a última proposta de Colombo, e ele estava deixando o castelo de Alcázar no lombo de um burro quando Fernando interveio e pediu que Isabel enviasse um soldado para buscá-lo de volta. Nos seus escritos, Cristóvão creditava a Fernando a "razão pela qual aquelas ilhas (as Antilhas) foram descobertas". Seu segundo filho foi batizado Fernando em sua homenagem.

De janeiro a agosto as três naus foram armadas e preparadas, e sua tripulação contratada. Colombo capitanearia a caraca Santa Maria (anteriormente batizada "Galega"), a maior das três, enquanto Martin Alonso Pinzón e seu irmão Vicente Yáñez (que em 1498 chegaria à costa do nordeste brasileiro a caminho do Orinoco) pilotariam as caravelas Pinta e Nina, respectivamente. No dia 3 de agosto, a flotilha partiu o porto de Palos de la Frontera, no sudoeste espanhol, em direção à possessão espanhola das Ilhas Canárias, onde renovaram as provisões e fizeram reparos. De lá partiram em 6 de setembro para uma jornada de 5 semanas para o oeste até avistarem terra (a costa da ilha de Hispaniola, na atual República Dominicana). O contato com os nativos foi amistoso (com a bênção do cacique Guacanagari, Colombo deixou para trás uma pequena colônia com parte de seus homens no Haiti), exceto pelo encontro com os ciguayos no noroeste de Hispaniola, que, se recusando a fazer negócios com os estrangeiros, acabaram ferindo dois tripulantes. Porém, os relatos que trazia da existência de ouro e outras riquezas em potencial (como os próprios nativos que contactara, que lhe pareceram dóceis e facilmente conquistáveis) seriam de grande valia aos seus patronos. Para Colombo, a concretização da sua posse sobre aquelas terras, o direito a 10% de toda a produção e de 8% sobre todo o comércio com a coroa, ou seja, a garantia de uma vida de fartura para si e seus filhos.

A história da colonização das Américas ainda não estava selada. Na sua viagem de retorno, Colombo, pilotando a Niña, se viu obrigado por uma tempestade a buscar abrigo em Cabo Verde, possessão portuguesa. Depois de rezarem em uma igreja por terem sobrevivido à tormenta, a tripulação foi presa por dois dias por suspeita de pirataria. Mais uma tempestade desviou o navio para Lisboa. Ali Colombo conheceu Bartolomeu Dias, que o entrevistou antes de encaminhá-lo ao rei. João II, no entanto, não estava na cidade, e demoraria uma semana até Colombo encontrá-lo em Vale do Paraíso. Aos relatos do navegador sobre as terras encontradas do outro lado do oceano, João apenas considerou a expedição uma violação de tratados (o tratado de Alcáçovas de 1479 concedia a Portugal a posse de todas as terras a serem descobertas a oeste e ao sul das Canárias, sugerindo que os portugueses, de alguma maneira, já soubessem da existência da América embarreirando a passagem marítima para a Índia). Apenas depois disso Colombo revelou suas descobertas os reis espanhóis.

Colombo retornou à América (que só receberia este nome em um mapa impresso na Suíça em 1507, em homenagem a Américo Vespúcio, que acompanhou Colombo nas viagens seguintes e depois entraria a serviço da coroa portuguesa) mais três vezes, atingindo o continente de fato apenas na terceira viagem, quando margeou a costa venezuelana e desceu na Península de Paria. De fato, recebera o título de governador e Almirante do Oceano. Contudo, as desventuras de Colombo depois da quarta viagem merecem um artigo à parte, e gradualmente a coroa espanhola tomou e redistribuiu as terras prometidas à família (até fins do século XVIII, descendentes de Colombo ainda tentavam judicialmente recuperar a herança de Cristóvão).

Até o fim em 1506 Colombo estava convencido de que as ilhas que descobrira faziam parte do extremo oriente asiático (não a Índia propriamente dita, já que as pessoas que viviam ali não correspondiam às expectativas de "civilização" que esperavam da Índia). No seu plano de viagem, os irmãos Colombo davam como certo de que a Eurasia cobria 225° de longitude da curvatura terrestre (tese de Marino de Tiro, antecessor de Ptolomeu), e subestimava o comprimento longitudinal de um grau (adotavam a medida do cartógrafo árabe Alfraganus, sem se darem conta de que o autor se referia à milha arábica, mais curta do que a romana que os Colombos adotavam), de maneira que a América estava mais ou menos onde os Colombos previam que estaria a Ásia. Contrariando a crença popular de que, antes de Colombo, os europeus acreditavam que a Terra era plana, os especialistas que avaliavam e reprovavam o plano dos Colombo intuíam que a distância era curta demais - apenas não previam a existência de um continente desconhecido bem ali.

Neste dia também: Jesse Owens conquista a medalha de ouro nos 100 metros rasos nos Jogos olímpicos de Berlim

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Merovíngios e Carolíngios

Em 28 de julho de 754, Pepino, o Breve ("Le Bref", também traduzido por "O Curto" por conta de seus cabelos curtos) foi coroado rei dos francos pelo papa Estevão II em Paris. Foi a primeira vez que um Papa se deslocou de Roma para coroar um monarca, o ponto final da dinastia merovíngia na França, e um evento marcante da gradual passagem entre a Antiguidade e a Idade Média na Europa Ocidental.

Os francos foram uma confederação de tribos germânicas que se deslocou para as fronteiras romanas por volta do século III e ocuparam a margem direita do baixo Reno. Assim como outras tribos, os francos fizeram incursões ao interior do império (chegando tão longe quanto a Catalúnia), mas foram mantidos, com muito custo, fora das fronteiras. Até que, para tentar pacificar e assimilar esses "bárbaros", o imperador Juliano permitiu, em 358, que uma facção dos francos, os salianos, se estabelecessem entre o sul da Holanda e o nordeste da França, condicionando a mudança à sua submissão à autoridade imperial e seu alistamento entre os foederati (corpo do exército romano composto e comandado por "bárbaros").

À medida em que a autoridade imperial se enfraquecia, os francos conquistaram crescente autonomia política, e, emprestando as instituições e modelos de administração de Roma, formaram seus próprios reinos. Em Tornacum (atual Tournai, na Bélgica) surgiu uma facção que viria a dominar as demais, graças à sua boa relação com o romano Egídio, administrador da Gália que, no apagar das luzes de Roma, declarou o norte da frança seu próprio império. Egídio (e, após sua morte, seu filho Siágrio), retendo um fragmento do Império Romano cercado de invasores germânicos que inundavam a França, contou com o apoio do rei franco Childerico I de Tornacum para conter os visigodos que tomavam a parte ocidental da Gália. Quando o ostrogodo Odoacer destronou o último imperador romano do ocidente em 476, Siágrio se recusou a reconhecê-lo. Como o imperador do oriente, Zenão, preferia a amizade de Odoacer e seus conquistadores germânicos ao pequeno "Duque" (título que Siágrio adotava, embora os francos o chamassem de "rei dos romanos"), e Siágrio ficou isolado.

Childerico observava a mudança de eixo de poderes na Europa. Embora engajasse em campanha ao lado de Egídio contra os godos, ele chegou a discutir com Odoacer uma aliança contra a tribo dos alamanni. Quando morreu, foi sucedido pelo seu filho Clóvis I, que passou a guerrear contra Siágrio até derrotá-lo em 486, em Soissons, e anexar todo o seu território, estendendo o domínio franco até Rennes, às portas da Bretanha. A dinastia da qual Clovis fazia parte ficou conhecida como Merovíngia, em referência a seu avô, chefe (ou rei) dos francos em Tornacum, Merovingh, personagem possivelmente legendário, filho, entre outras versões, de um deus marinho.

Os merovíngios se tornaram uma potência militar no norte da França, expandindo seu domínio sobre a Burgundia, conquistando os visigodos no oeste, e, depois do colapso dos ostrogodos sob ataque bizantino, anexando a Provença, chegando às fronteiras da Itália. Porém, internamente, as disputas pelo poder se iniciaram com a morte de Clóvis: filhos e netos declaravam-se reis, e entravam em guerra uns com os outros. De maneira que, para os reinos vizinhos, o reino franco era territorialmente coeso e militarmente poderoso, mas internamente era bem caótico. Apenas em 679 Teuderico III conseguiu unificar o reino sob um único rei, embora tenha sido mais um fantoche do mordomo (cargo que, no mundo merovíngio, correspondia ao de primeiro-ministro) do seu palácio em Paris, Ebroin, e depois dependente dos que o sucederam. A força que os mordomos do palácio alcançavam alterou a vida política do reino franco. Como os reis se tornavam figuras de segunda importância, a união dinástica se estabilizou por mais de 60 anos, sob tutela dos mordomos, estes sim, disputando encarniçadamente o poder.

O período merovíngio também foi uma fase de grande difusão do cristianismo na Europa Ocidental. Já no século VI a religião estava bem difundida na Gália romana e entre os francos que se estabeleciam nela, e a nobreza merovíngia tomava vantagem da boa relação com a Igreja, favorecendo o estabelecimento de monastérios em terras doadas, que no final retornavam ao controle dos nobres com a nomeação de algum parente para o cargo de abade. Foi uma fase de enorme aparelhamento da Igreja na França, mas o poder era compartilhado e precisava ser mantido, a despeito da volatilidade política dos francos. Isto explica a atenção que Roma passou a dar à coroa francesa dali em diante.

Os reis merovíngios continuaram a exercer uma função cerimonial enquanto os seus mordomos conduziam a guerra, a política e a economia. Pepino de Heristal, mordomo do palácio de Aachen unificara em torno de si o poder de facto sobre os francos ainda no tempo de Teuderico. Seu filho, Carlos Martel ("O Martelo"), contudo, precisou vencer uma guerra civil para assegurar-se no cargo. Quando enfim emergiu triunfante em 718, os muçulmanos do Califado Omíada já haviam invadido a Espanha visigótica vindos da África, e marchavam em direção à França. Um grande exército mouro-árabe desembarcou na Aquitânia em 721 e tomou a cidade de Toulouse. O duque da Aquitânia, Odo, acorreu a Carlos Martel por ajuda. Martel precisou constituir um exército permanente, ou seja, mobilizar os homens durante o período em que deveriam estar cuidando do plantio e da colheita de suas terras, e para isso precisou confiscar terras cedidas à Igreja (muitas delas cedidas pelo próprio Martel), causando tamanho mal estar com o clero que Martel estava a ponto de ser excomungado. Porém, o sucesso da campanha, culminando com a vitória na Batalha de Tours em 732 (a partir da qual os califados muçulmanos nunca mais conseguiram invadir a França com sucesso), fez recuperar seu prestígio.

Depois de conter muçulmanos e obter vitórias contra os reinos germânicos no leste, Martel sentiu-se tão seguro de sua posição que não se preocupou em coroar um novo rei quando seu soberano, Teuderico IV, faleceu. Em seus últimos seis anos como mordomo, Martel governou sozinho, assentando sua autoridade sobre povos conquistados e imprimindo reformas administrativas. Ele recusara um pedido de auxílio do Papa contra os lombardos, mas isso demonstrava a relação de dependência entre o papado e o poder militar franco. Seu exército (que enfim desmobilizara) contava com a infantaria e cavalaria pesadas que se tornariam uma referência romântica dos exércitos europeus da Idade Média.

Quando morreu, seus dois filhos, Carlomano e Pepino, dividiram suas terras (um terceiro filho, Grifo, meio-irmão dos dois, clamava o direito a parte da herança, mas foi preso por ambos, enclausurado em um monastério, depois morto durante uma rebelião). Carlomano rapidamente assentou sua função de mordomo (e a própria unidade territorial do reino) coroando um parente obscuro dos merovíngios, Childerico III. Por motivos não muito esclarecidos, Carlomano retirou-se a um mosteiro em 747, deixando todo o poder com Pepino. Vendo a si mesmo como o centro do poder do reino franco, e entendendo as dificuldades que o papado enfrentava com os lombardos na Itália, Pepino enviou uma carta ao Papa Zacarias, com uma sugestão subentendida: "Sobre os reis dos francos que não mais possuem poder real: isto é apropriado?". Zacarias enviou sua resposta confirmando achar inapropriado que houvesse um rei sem poder real, e com isso Pepino moveu-se para depor Childerico e confiná-lo a um monastério.

A dinastia merovíngia chegara ao fim e dera lugar à dinastia carolíngia (em referência a Carlos Martel). Os nobres francos proclamaram Pepino rei em 752, mas a viagem que o Papa Estevão II fez a Paris para coroá-lo pessoalmente, no dia 28 de julho de 754, legitimou seu poder e consolidou sua aliança com o papado.

As subsequentes conquistas de terras lombardas, posteriormente doadas ao papado, se tornaram o arcabouço do que viriam a ser os Estados Papais, o reino no centro da Itália governado pelo Papa até a unificação da península italiana no século XIX, e do qual o Vaticano é o último remanescente. Pepino também conquistaria o último quinhão do califado na França, expulsando os omíadas de Narbonne, e "pacificaria" (com particular violência) a Aquitânia , então uma província rebelde. Com sua morte, seguindo o costume franco, seu reino foi dividido entre seus dois filhos, Carlos e Carlomano. Carlomano morreu de causas naturais em 771, deixando para Carlos (conhecido para a posteridade como Carlos Magno) todo o reino. Ele conquistaria uma fímbria de terra no norte da Espanha muçulmana (cuja campanha e seus personagens se tornariam temas de canções medievais), e submeteria os lombardos, feitos pelos quais o Papa o declararia "Imperador de Roma", dois séculos e meio depois do fim do Império do Ocidente. O reino franco se tornara um império por si próprio, cuja porção oriental subsistiria até o início do século XIX como Sacro Império Romano. As cortinas do mundo antigo terminaram de se fechar por completo para dar lugar à Idade Média.

Neste dia também: A formação da Union Mundial pro Interlingua em Línguas.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Forte Negro

Em 27 de julho de 1816 um destacamento do exército americano atacou e destruiu Negro Fort, uma fortificação na Florida, então território espanhol, ocupado por negros libertos, escravos fugidos, e alguns nativos e mestiços.

A história de Negro Fort (que eu peço licença para chamar de Forte Negro daqui por diante) começou durante a Guerra Anglo-Americana de 1812. Após a independência dos Estados Unidos, os americanos iniciaram um processo de expansão via anexação (pela força, se a diplomacia falhasse) de territórios indígenas e a aquisição de colônias europeias, como a Louisiania francesa. O conflito de interesses entre o expansionismo americano e a manutenção do império colonial britânico nas Américas - seu principal trunfo contra o Bloqueio Continental imposto por Napoleão ao comércio das nações europeias com a Inglaterra - criaram tensões insustentáveis entre os dois países. A política britânica de apoio aos nativos americanos, que viam como aliados contra a expansão americana, e que por sua vez atacavam colonos em seus territórios (não reconhecidos pelos americanos), levaram à guerra. A Inglaterra, contudo, não poderia empregar muitos recursos neste confronto, uma vez que seu exército e marinha concentravam-se no apoio a Portugal e Espanha na virada da Guerra Peninsular contra a França. As tropas estacionadas no Canadá chegaram a tomar Detroit brevemente, mas a Guerra de 1812 foi mais um conflito de atritos, com poucos ganhos de um lado ou de outro - exceto pelos avanços dos Estados Unidos sobre as nações nativas envolvidas.

Durante a guerra, os britânicos buscavam recrutar seminoles (um amálgama de povos nativos, principalmente muscogees vindos do norte) no sul dos Estados Unidos e na Florida espanhola (a Espanha, àquela altura, era uma aliada dos britânicos). O rio Apalachicola, no oeste da atual Florida, se tornou um canal importante de contato com o interior e uma via de transporte de homens e mantimentos. Em 1815, antes do fim da guerra, o comandante britânico na região, tenente Edward Nicolls, coordenou a construção de um forte, equipado com um canhão, armas e munições. Com essa base fixa, além de nativos, os ingleses também abrigavam e recrutavam escravos fugidos de propriedades rurais americanas ao norte, garantido-lhe liberdade e incorporando-os ao seu corpo de fuzileiros coloniais. Quando a guerra terminou, os britânicos abandonaram o local, mas os ex-escravos permaneceram, bem como milhares de mosquetes, carabinas, espadas, pistolas, e grande quantidade de pólvora para rifles e canhões. O Forte Negro atraiu mais escravos fugidos, chegando a abrigar uma população de cerca de 800 negros e algumas dezenas de seminoles. Os negros, usando conhecimento adquirido da terra, cultivavam os arredores do forte, tornando-o quase auto-suficiente.

Os seminoles ainda viam os negros fugidos como escravos, mas sua relação com a escravidão era decididamente mais mutualista, mais semelhante ao sistema feudal francês, do que com o sistema escravocrata americano: os negros que concordassem em viver em território seminole se obrigariam a pagar tributo em víveres e participar de caçadas e da guerra, em troca de segurança, direito a propriedade, e liberdade de ir e vir. Um cenário muito mais favorável. Seminoles e negros contraíam matrimônio, e mestiços passaram a constituir grande parte da nação seminole na Florida.

O Forte Negro no coração do território seminole era uma espécie de farol para os escravos do sul que almejavam a liberdade. Um fazendeiro do sul escreveu uma carta ao então Secretário de Estado John Quincy Adams, reclamando que a existência destes "salteadores negros" constituía uma "vizinhança extremamente perigosa a uma população como a nossa", e o próprio governo americano considerava o forte um foco de hostilidade e uma ameaça à "segurança" dos seus escravos. De fato, o governo enviou em setembro de 1815 uma milícia de 200 homens contra o forte, e a sua derrota conferiu aos defensores uma sensação de segurança tal que eles mesmos passaram a fustigar as terras além da fronteira, no sul da Georgia. Um jornal local perguntava: "Até quando a este mal (...) será permitido existir?".

Para guarnecer a fronteira, e 1816 foi construído um forte na Georgia, Fort Scott. O General Andrew Jackson decidiu que a rota mais viável para abastecer o forte era pelo rio Apalachicola, subindo pelo trecho da Florida espanhola. Em 17 de julho de 1816, durante uma dessas operações, duas canhoneiras subindo o rio com mantimentos foram atacadas ao largo do Forte Negro enquanto 5 marinheiros enchiam seus cantis com água, resultando em três mortos e um preso (o quinto mergulhou no rio e voltou à sua embarcação). Jackson requisitou autorização para atacar o forte, e Adams viu nisso a oportunidade para iniciar uma campanha para tomar a Florida.

Dez dias depois, duas canhoneiras subiram o rio com 250 homens. Defensores do forte enviaram homens para fustigar o inimigo ao longo do percurso, de modo que, quando os americanos chegaram, havia 330 defensores encastelados, incluindo 30 guerreiros nativos. O general Edmund Gaines ordenou a rendição, ao que o líder do forte, um africano chamado Garson, respondeu hasteando uma bandeira britânica, e os defensores gritavam "Me dêem a liberdade ou me dêem a morte!" (grito de ordem proferido pelos revolucionários americanos durante sua guerra de independência). Os americanos se posicionaram em terra e abriram fogo, enquanto as canhoneiras tomavam posição no rio. Os defensores, mesmo bem armados, eram mal treinados e muito pouco eficientes.

Temendo as peças de artilharia no forte, as canhoneiras atiravam apenas para testar o alcance e a distância máxima em que poderiam abrir fogo. Após cerca de 9 tiros de teste, uma décima bala atingiu em cheio o depósito de munições do forte. Houve uma enorme explosão, ouvida a 100 quilômetros de distância, que vitimou quase todos os defensores e as famílias abrigadas ali, cerca de 300 vítimas fatais e um número não contabilizado de feridos. A destruição deixou o próprio general Gaines chocado. Foi o tiro de canhão mais mortal da história americana.

Os sobreviventes foram capturados. Garson foi executado por um pelotão de fuzilamento, e um chefe choctaw, que comandava os guerreiros nativos, entregue aos creek, nativos aliados dos americanos, que o mataram e escalpelaram. Os demais foram vendidos como escravos aos seus antigos donos, ou aos donos dos seus pais.

Um líder seminole chamado Neamathla, ultrajado pelas mortes de seminoles na batalha, ameaçou atacar quem quer que saísse de Fort Scott através do rio Flint. Gaines então enviou 250 homens para prendê-lo, e a batalha que se seguiu é reconhecida como a abertura da Primeira Guerra Seminole em 1817, que acabou com a anexação da Florida (a Espanha pouco pôde fazer além de protestar oficialmente) e o confinamento dos seminoles em uma reserva. Em 1818 o tenente James Gadsden construiu um novo forte a poucos metros da ruína do Forte Negro, e desde então todo o sítio ficou conhecido como Fort Gadsden, apagando da memória aquele símbolo da resistência dos escravos do sul. Porém a aliança ocasional de seminoles e negros persistiu em outras comunidades mestiças até os dias de hoje - comunidades que enfrentam segregação natural da sociedade americana e da própria nação seminole, centrada hoje em dia no estado de Oklahoma. Muitos dos seus descendentes ainda habitam a Florida, o Texas (vindos do México, onde se estabeleceram como escravos fugidos no século XIX) e as Bahamas, para onde fugiram da guerra de 1817.

Neste dia também: O cristianismo chega ao Japão

quinta-feira, 11 de maio de 2017

As Aventuras (reais ou não) do Barão Munchausen

Em 11 de maio de 1720 nasceu Hyeronymus Karl Friedrich von Münchhausen, que viria a se tornar célebre através da sua versão satirizada na literatura na forma do mentiroso Barão Munchausen.

Münchhausen nasceu no seio de uma família nobre do norte da Alemanha, e ainda adolescente, serviu como pagem ao jovem duque Ulrich II de Brunswick. Este Ulrich era sobrinho da imperatriz consorte do Sacro Império Romano, e através dela teve seu casamento arranjado com uma princesa russa. Em 1733 ele seguiu acompanhado de Münchhausen para a Rússia para conhecer melhor a noiva.

Em 1735 eclodiu a confusa Guerra Russo-Turca (que começou com uma guerra entre o Império Otomano e a Pérsia, e envolveu a Rússia por força de tratados com os persas, que apoiavam um herdeiro favorável aos russos ao trono polonês, contra o favorito da França... além da possibilidade da Rússia abrir caminho sobre território Otomano em direção ao Mar Negro). Sob influência do seu suserano, Münchhausen foi nomeado corneteiro de uma unidade de cavalaria alemã a serviço da Rússia, no fim da guerra em 1739. O futuro barão seguiu carreira militar, tendo sido nomeado tenente e participado superficialmente de duas campanhas russas contra os turcos.

Em 1760, tomou posse das terras da família em Bodenwerder e decidiu "aposentar-se" como barão (em alemão, "Freiherr", ou "Senhor livre"), ou seja, viver das rendas da sua propriedade. Ali ele promovia encontros festivos com aristocratas alemães, onde entretinha os convidados com sua própria versão de suas aventuras no exército russo. Suas histórias, tão espúrias e espetaculares, passaram a atrair a curiosidade de nobres e viajantes da Europa, que vinham visitá-lo para ouvi-lo contar de como suas peripécias inacreditáveis determinaram os acontecimentos históricos nas quais estavam inseridas. Um observador ponderou que Münchhausen exagerava seus feitos não para enganar ou vangloriar-se, mas para ridicularizar a credulidade de seus amigos. Münchhausen morreu em meio a um processo de divórcio com sua segunda esposa, 57 anos mais jovem, que tivera um filho exatamente 9 meses depois de se retirar a um spa na Saxônia, em 1797.

O barão teria sido esquecido como uma figura menor da história alemã, não fosse pelo escritor alemão Rudolf Erich Raspe. Raspe estudou na Universidade de Göttingen, fundada por um primo de Münchhausen, e através dele conheceu Münchhausen ali antes da sua aposentadoria. Convidado a participar de uma de suas reuniões em Bodenwerder, ele guardou para si lembranças de alguns dos contos que ouviu e a eles adicionou outros mais antigos presentes na literatura alemã para criar o personagem quase homônimo, o Barão Munchausen. Publicados anonimamente e escritos em primeira pessoa (identificada originalmente apenas como "M-h-s-n"), os contos foram publicados pontualmente em revistas e inseridos em almanaques alemães. Foi em 1785, enquanto trabalhava em uma empresa mineradora na Inglaterra, que Raspe compilou (anonimamente) pela primeira vez as aventuras do Barão Munchausen (sem o segundo "H", para que fosse lido com mais facilidade em inglês). Com títulos enormes que variavam de uma edição para outra, o livro é comumente conhecido como Viagens do Barão Munchausen.

Na obra, Munchausen é um nobre veterano de guerra narrando a seus amigos, de forma exagerada, suas aventuras originalmente contextualizadas no cenário da Guerra Russo-Turca - como no prefácio o próprio personagem reconhece ao leitor a dificuldade de se afirmar a veracidade dos fatos, ele consegue uma declaração de confiança subscrita por ninguém menos que Gulliver, Simbad, e Alladin. Colocado frequentemente em situações inacreditáveis, o Barão contorna seus problemas usando de astúcia e habilidades super humanas.

,Entre seus feitos, ele livra-se de um leão fazendo-o atirar-se na boca de um crocodilo, matando ambos; depois de tirar seu cavalo do telhado de uma igreja, este é devorado por um lobo, que o barão atrela e faz puxar seu trenó; abate quase 100 aves em um lago disparando com o fogo que saía de seus olhos; explode um urso com uma pederneira, vira um lobo do avesso, e, depois de fugir de um cão raivoso, seu próprio casaco de pele enlouquece e ataca as outras roupas de seu armário; escapa do estômago de um peixe gigante dançando à moda escocesa dentro dele; acerta os pescoços de 17 inimigos com apenas um tiro de canhão; relata como seu pai viajou da Inglaterra para a Holanda num cavalo marinho; conhece o próprio deus Vulcano no interior do Monte Etna, indo parar em seguida em uma ilha (maior que a Europa, que ele sobrevoara nas costas de uma águia) feita de queijo cercada por um mar de leite; cavalga uma bala atirada de um canhão.

Uma das cenas mais famosas começa quando os turcos o capturam e o vendem ao sultão como escravo. Enquanto cuidava das suas abelhas gigantes, dois ursos atacam a colmeia. Ele tenta espantar os ursos com uma machadinha de prata usada pelos jardineiros, mas o arremesso é tão forte e tão errado, que a machadinha vai parar na lua. Ele planta um pé de feijão que cresce até se agarrar numa das "pontas" da lua e sobe por ele. Ao recuperar a machadinha (perdida num lugar onde tudo reluzia a prata), ele percebe que o pé de feijão secara. Então ele corta um pedaço do pé seco e faz uma corda; conforme se pendura nela, ele vai cortando outros pedaços do pé de feijão para alongar a corda. Porém a corda resulta curta demais, e ele despenca de uma altura de 8 km, caindo como um prego, enterrando-se no solo. Ele se livra cavando com as próprias unhas, que deixara crescer por 14 anos.

Em outra ocasião, o barão montava um cavalo lituano muito especial, que tivera a metade de trás do corpo arrancada enquanto passavam por um portão que descera às suas costas, mas ele só percebera que o animal caminhava apenas com as patas dianteiras quando, ao parar para beber água, ela passava pelo seu corpo e derramava no chão pelo buraco; o barão resolvera o problema costurando as duas metades com ramos de louro, que não só curaram o animal, como cresceram para fazer sombra sobre seu ginete.

O verdadeiro Barão Münchhausen, quando soube da publicação do livro, não ficou nada satisfeito. Sentindo-se insultado, ameaçou processar o editor (um certo Smith, já que Raspe permanecia anônimo), mas isso não impediu que a obra fosse traduzida para alemão e francês antes da virada do século. Ironicamente, o próprio Raspe inspiraria um personagem de O Antiquário, de Walter Scott, um trambiqueiro alemão trabalhando em uma mina escocesa - o Raspe verdadeiro teria enganado um dono de terras escocês sobre a riqueza na sua propriedade mostrando a ele gemas e pedras preciosas que ele mesmo havia "plantado" no chão previamente. Reeditado muitas vezes ao longo do século XIX, ganhou o cinema pela primeira vez com a produção de 1911 dirigida por George Méliès. A última versão importante das histórias do barão foi o filme As Aventuras do Barão Munchausen de 1989, dirigido por Terry Gillian.

Uma desordem psiquiátrica chamada Síndrome de Munchausen compreende um quadro onde o paciente deliberadamente mente sobre sintomas que não está sentindo, forjando-os se for necessário, para conseguir atenção médica (diferente da hipocondria, onde o paciente realmente acredita estar sentindo os sintomas que descreve). Inspirado pelo conto em que o barão salva a si próprio do afogamento puxando-se para fora de um pântano pelos cabelos, filósofo Hans Albert definiu o Trilema de Munchausen, que discute a impossibilidade de se provar definitivamente qualquer verdade porque o argumentador tem três vias argumentativas possíveis: justificar sua conclusão a partir de um método que precisa justificar-se logicamente com base em premissas que precisam ser justificadas, assim indefinidamente; um argumento circular (fundamentado nele mesmo ou nas suas próprias motivações) pode ser usado, porém sacrificando sua validade; pode-se usar o princípio da autoridade, ou da razão suficiente, fundamentado na palavra de um "expert" ou no que "está escrito" (esta tríade está presente abundantemente na narrativa do barão, que apresenta os fatos como se fossem naturais e lógicos; na falta de lógica, apela para o argumento circular; e quando tudo mais falha, alega a veracidade colocando em jogo sua própria palavra de honra).

Em Bodenwerder existe hoje uma fonte esculpida no formato de um meio-cavalo, montado pelo barão, com a água jorrando da metade cortada do seu corpo.

P.S.: Se me permitem, antes de conhecer o barão e suas histórias, minha avó contava sua própria versão delas, substituindo o barão por um "príncipe" anônimo, que reunira personagens com habilidades extraordinárias para participar de uma competição pela mão de uma princesa (o personagem-título era um deles, chamado Come Tudo, Bebe Tudo, e Nada Chega). Quando o filme de 1989 chegou ao cinema, reconheci nele quase todos os personagens e eventos do "ciclo mitológico" da minha avó.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Tudo se transforma

Em 8 de maio de 1794, o químico Antoine Lavoisier e mais 27 acusados foram condenados e executados em Paris por atividades anti-revolucionárias.

Lavoisier nasceu em 1743 no seio de uma família nobre, e aos 16 anos começou a estudar ferozmente vários campos das ciências naturais e da matemática. A despeito de ter se formado advogado como seu pai (embora nunca tenha exercito a função), Lavoisier seguiu assistindo aulas e palestras sobre ciências naturais, e associando-se a pesquisadores proeminentes. Evidentemente sua posição social lhe abriu muitas portas (a ponto de, aos 23 anos ser condecorado com uma medalha de ouro pelo rei Luís XV por um trabalho sobre a iluminação das ruas de Paris), mas seu talento o fez aproveitar ao máximo cada oportunidade.

A contribuição mais notável de Lavoisier para a ciência foi na compreensão do fenômeno da combustão. Ele percebeu que a combustão e calcinação (ou seja, a transformação, após a queima, de um sólido em outro sólido) de uma substância em estado puro resultava no acréscimo de peso do mesmo elemento, embora o sistema total mantivesse sua massa constante. Após realizar experimentos com diferentes elementos, e agregando trabalhos feitos por colegas britânicos, ele enfim deduziu que a combustão era o processo pelo qual uma substância reagia com outras presentes no ar, que eram agregadas à substância original durante a queima com liberação de energia. Ele ainda não conhecia a composição química da atmosfera nem o papel do oxigênio na promoção da combustão - ele deduziria mais tarde a existência do oxigênio e do hidrogênio. Suas aferições precisas de massa, e a precisão dos resultados produzidos com essa metodologia, seriam incorporadas à metodologia de todos os trabalhos em química no futuro. Lavoisier também seria um dos que defenderia o estabelecimento do sistema métrico decimal em substituição à miríade de sistemas de medidas adotadas anteriormente, além de um sistema nomenclatural para a química semelhante ao proposto por Carl Linnaeus para a biologia. Suas observações sobre as reações químicas, e a verificação de que a massa total dos reagentes é igual à massa total dos produtos, o levou a cunhar a famosa frase: "Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma".

Graças aos seus trabalhos sobre combustão, em 1775 Lavoisier foi nomeado para a Comissão da Pólvora, órgão governamental que substituiria uma empresa particular no suprimento de pólvora para a França, e sua enorme capacidade de organização de fato fez com que o suprimento e a qualidade da pólvora entregue ao governo superasse em muito o que se tinha antes, a ponto de gerar receita para o Tesouro. A Comissão lhe forneceu uma casa e um laboratório no Arsenal Real, onde viveu e trabalhou até 1792.

Lavoisier, enquanto cientista, foi um produto do Iluminismo, corrente filosófica que estimulava a investigação metódica do mundo natural e humano, confrontando visões dogmáticas (de ordem religiosa ou qualquer outra) sobre a construção do mundo e da sociedade. O Iluminismo estava impregnado no sistema educacional no qual Lavoisier se formou. Contudo, o químico nunca questionou a natureza da legitimidade do poder político e da ordem social, ou ao menos nunca percebeu a profundidade do abismo que separavam as classes sociais na França, e o que disso viria a resultar - o que lhe custaria a vida mais adiante.

Aos 26 anos, Lavoisier adquiriu parte da Ferme générale (ou "Fazenda Geral"), uma companhia a serviço do governo que estimava quanto de imposto seria arrecadado ao longo do ano, antecipando o repasse desta quantia ao governo francês, em troca do direito de executar, por conta própria, o recolhimento dos impostos da população ("Fazenda", no caso, tinha o duplo sentido de ter sua origem e principal função o recolhimento de impostos das propriedades rurais, e ser ela mesmo uma "fazenda de impostos" para o governo). Lavoisier chegou mesmo a se casar com Marie-Anne Paulze, filha de um dos membros da Ferme générale (Marie-Anne, apesar de ter apenas 13 anos quando se casou, era excepcionalmente culta, e não só auxiliava o marido no laboratório, mas produzia ilustrações, e traduzia trabalhos científicos do inglês para o francês, bem como sua correspondência, especialmente com Joseph Priestley, químico que também descobrira paralelamente o oxigênio). Na Ferme générale, Lavoisier bancou a construção de um muro em torno de Paris, direcionando as saídas da cidade para que a companhia pudesse posicionar guarnições nestes locais específicos e recolher impostos sobre qualquer produto que entrasse ou saísse da cidade, evitando sobremaneira a evasão e o contrabando na capital.

Como tivesse a prerrogativa de recolher os impostos, a Ferme générale era, naturalmente, mal vista pela população. Mas além da função ingrata, agravada pelo complicado sistema tributário francês, a truculência com que tratava sonegadores e contrabandistas (que podiam ser punidos com mais rigor do que criminosos mais violentos), bem como a enorme riqueza acumulada pelos seus diretores, saltavam aos olhos. Quando eclodiu a Revolução Francesa em 1789, um dos elementos que mais inflamavam as opiniões era a questão dos impostos, a maneira como eram recolhidos, e o seu destino. No plenário da assembleia nacional, os fazendeiros-gerais eram abertamente chamados de "predadores". O novo governo revolucionário dissolveu a empresa em 1791, destituindo seus diretores (entre eles Lavoisier) e funcionários.

Lavoisier escapou da ira revolucionária neste primeiro momento, mas foi forçado a deixar seu posto na Comissão da Pólvora. Ele reconhecia que o sistema de governo era falho e precisava de profundas reformas; quando foi encarregado por Luis XVI para avaliar a possibilidade de introdução de novas culturas e tipos de gado nas fazendas francesas, ele concluiu que seria inútil introduzir qualquer novidade no campo, pois os camponeses estavam tão empobrecidos e pressionados pela carga tributária que eles não podiam investir em nada além do que já estavam adaptados a cultivar. Já destituído de cargos, apresentou um projeto de reforma da educação ao Congresso, acreditando poder reformar o sistema de dentro para fora com o poder da razão. Porém, a Revolução evoluía a despeito dos esforços - de revolucionários moderados e conservadores - para contê-la, e rumava para sua fase mais sinistra, conhecida como "Reino do Terror".

Maximilien de Robespierre encabeçava a cúpula revolucionária que assumira a administração pública a partir da queda de Luís XVI. À medida em que o novo governo tomava corpo, a jovem burguesia francesa que atropelara os velhos oligarcas dava espaço a soluções moderadas ou conservadoras às reivindicações em pauta que agradassem a ambos. Robespierre, por outro lado, mantinha sua veia radical ao permitir a interferência dos "sans culottes", como as classes mais baixas eram conhecidas, e sua popularidade crescia à medida em que se posicionava contra as instituições tradicionais de poder. A França também fora desafiada pelos seus vizinhos absolutistas na Guerra da Primeira Coalizão, e a capacidade de mobilizar a população era vital para conter o conflito e manter a estabilidade interna. A primeira vítima ilustre dessa radicalização do movimento revolucionário foi o próprio Luís XVI, a cujo perdão ou punição simbólica Robespierre se opunha. O governo começou a perseguir e cortar as cabeças de membros do parlamento, antigos políticos, e, eventualmente, qualquer um que representasse ou mesmo defendesse de alguma forma o poder monárquico.

A partir de 1793, a Revolução voltou-se contra as sociedades científicas. Sob pedido do Abade Gregório, congressista católico e nacionalista rábico que influenciou a nova política de língua única na França (que tradicionalmente compunha-se do francês falado em grande parte do país, mais 33 dialetos diferentes), a Academia de Ciências, da qual faziam parte Lavoisier e nomes ilustres, como o matemático Pierre Laplace e o estrangeiro Joseph Louis Lagrange (a favor de quem Lavoisier interferiu para que lhe poupasse a vida e os bens) foi fechada. Por fim, em novembro de 1793, Lavoisier, junto com outros 27 diretores da antiga Ferme générale foram presos. Sua defesa apelou ao juiz Jean Baptiste Coffinhal, alegando serem os trabalhos e experimentos de Lavoisier úteis ao país, ao que o juiz teria respondido: "A República não precisa de cientistas e químicos". Ele seria considerado culpado das acusações de roubar o povo e o Tesouro (pela sua participação na Ferme générale), de adulterar o tabaco vendido no país (acusado de tal crime pelo jornalista Jean Paul Marat, assassinado dez meses antes), e de ter repassado a estrangeiros grandes somas de dinheiro público (o apoio dado a pesquisadores estrangeiros fora e dentro da França). Todos os 28 acusados foram julgados e guilhotinados no mesmo dia.

Lavoisier deixou um legado volumoso para a ciência e a filosofia em muitos campos. Sua importância foi reconhecida ainda durante o período revolucionário, quando, um ano e meio depois da sua execução, seus pertences foram entregues a Marie-Anne, com uma nota que dizia "À viúva de Lavoisier, que fora falsamente condenado". Lagrange disse: "Bastou a eles um segundo para cortar sua cabeça, e cem anos não bastarão para produzir outro igual".

E, afinal, depois de mergulhar numa espiral de violência revolucionária pela queda da monarquia e a tomada do poder pelo povo, a França acabaria abraçando, 10 anos depois da morte de Lavoisier, um novo monarca, Napoleão Bonaparte. O que os revolucionários tentaram introduzir de novo acabou resultando em algo muito parecido (apenas aproveitando-se de uma estrutura administrativa mais moderna) com o que era antes. Nada se cria, tudo se transforma.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Scarface

Em 4 de maio de 1932, Al Capone foi admitido na Penitenciária Federal de Atlanta para o cumprimento de pena relativa a cinco condenações por evasão fiscal.

Alphonse Gabriel Capone, nascido em Nova Iorque em 1899, começou a carreira como membro de gangues de adolescentes que praticavam roubos, e seguiu como segurança em bordéis dirigidos pela máfia novaiorquina (um grupo de origem irlandesa conhecido como Five Points Gang que operava em Manhattan). Certo dia, Capone insultou uma mulher na porta de uma boate. O irmão da moça, Frank Gallucio, lhe desferiu uma facada no lado esquerdo do rosto, e Capone ficaria conhecido dali para frente, alternativamente, como "Scarface" (ele alegava ser uma cicatriz de um ferimento da guerra). Mais tarde, ele empregaria Gallucio como seu segurança pessoal.

Aos 20, Capone deixou Nova Iorque a convite de um imigrante italiano, Johnny Torrio, que fora chamado pelo compatriota James Colosimo, mafioso de Chicago, para fazer o "trabalho sujo". Capone continuou trabalhando como segurança em casas noturnas controladas por Colosimo. Em 1920, o "chefão" foi assassinado, provavelmente por capangas de Torrio (possivelmente, mas nunca provado, Al Capone estava entre eles). Com Torrio assumindo o controle da máfia, Al Capone foi promovido a seu braço direito.

A proximidade do poder, para a máfia, representava uma potencialização do risco de morte. A máfia dirigida por Johnny Torrio tinha como principais concorrentes, na parte norte da cidade, uma gangue irlandesa comandada por Dean O'Banion. Quando Torrio decidiu eliminar O'Banion (assassinando-o na loja de flores que usava como fachada para seus negócios), os irlandeses começaram a coordenar esforços para eliminar os rivais italianos. Capone foi vítima de um atentado em 1925, ao qual escapou ileso, e duas semanas depois foi a vez de Torrio ser alvejado 7 vezes. O velho "padrinho" sobreviveu, mas se retirou dos negócios, entregando o controle da máfia a Al Capone.

Torrio, e depois Capone, faziam dinheiro com o contrabando de bebidas. Seguindo um movimento ultra-conservador de origem cristã, os Estados Unidos, progressiva mas pontualmente, passaram a proibir, em vários graus, o consumo de bebidas alcoólicas conforme previsto na XVIII Emenda Constitucional, ratificada pela presidência em 1917. Como a regulamentação da Constituição Federal nos Estados Unidos é feita de maneira independente pelos estados, a proibição variava desde a proibição do consumo de determinados tipos de bebida em locais públicos até a completa ilegalidade do comércio de bebidas. O estado de Ilinois estava entre os que a proibição era quase total - era permitida a venda e consumo apenas em estabelecimentos cadastrados, porém estrangulada por uma limitação na produção e distribuição regular. Como é possível proibir uma prática, mas impossível de impedí-la quando esta tem um vasto alcance e profundidade cultural numa sociedade, a demanda por bebidas alcoólicas levou rapidamente à organização de mercados negros, que, sem regulação, disputavam espaço uns com os outros na base da violência. Em Chicago, particularmente, a máfia, cujos ganhos se baseavam na venda clandestina de bebidas, tinha à disposição uma vasta rede de ferrovias e rodovias pelo interior dos EUA e até pelo Canadá, por onde poderiam transportar seus produtos, dificultando a fiscalização e tornando a cidade uma espécie de hot spot para o crime organizado.

Al Capone firmava seu pé como principal mafioso de Chicago impondo-se com uma violência à qual mesmo as gangues locais e seus associados não estavam acostumadas. Usando o excedente arrecadado com a venda de bebidas, ele subornava policiais e políticos para garantir proteção; os estabelecimentos que se recusassem a comprar sua mercadoria sofriam explosões "acidentais" (na década de 1920, perto de 100 pessoas morreram nesses "acidentes"). Capone também investia na abertura de novas boates, que se tornariam pontos regulares de consumo do seu produto contrabandeado. Fazia também vultuosas doações a políticos. O prefeito eleito em 1927, William Hale Thompson, teria recebido 250 mil dólares do gangster para sua campanha eleitoral, sinalizando, em troca, a reabertura de casas noturnas fechadas por irregularidades. No condado de Cook, do qual Chicago faz parte e onde Thompson tinha enorme influência, sessões eleitorais com maior número de eleitores contrários a ele foram atacados por James Belcastro, especialista em bombas a serviço de Capone; um líder da comunidade negra local e adversário político, Octavius Granady, foi perseguido na rua e assassinado por Belcastro e quatro policiais, mas o processo contra o grupo foi arquivado. Quando Belcastro foi ferido num tiroteio em 1931, a polícia divulgou que ele agia por conta própria.

Com os rivais em cheque, a polícia e a classe política nas mãos, e, consequentemente, saudado pela imprensa como um jovem empreendedor de sucesso, Capone se tornaria rapidamente uma celebridade inconteste e de fama nacional. Promovia e era convidado a eventos que contavam com a alta sociedade local, em que se exibia com ternos impecáveis, jóias, consumindo charutos e bebidas finas (obtidas legalmente), além de belas mulheres. Quando questionado sobre a natureza de seus negócios, respondia: "Sou apenas um homem de negócios, dando às pessoas o que elas querem". Receber Al Capone era um evento capaz de elevar o status de um restaurante, um hotel, ou ruas inteiras onde tomasse residência - com receio de ataques das gangues rivais, Capone mudava-se constantemente.

Além de comprar pessoas, Capone mantinha seus negócios, a origem, e mesmo o montante da sua fortuna em sigilo. Como se tratasse de dinheiro ilícito, ele fugia do sistema financeiro para evitar ser pego pelo fisco, jamais abrindo uma conta em qualquer banco. Os investimentos em imóveis (que adquiria em cidades diferentes de norte a sul do país) eram feitos em nome de laranjas. Capone era "invisível" para a justiça porque seu dinheiro nunca entrava no "sistema", e sua penetração no jogo político através de propinas inibia qualquer iniciativa de investigação sobre suas atividades. Mas sua sorte mudou quando decidiu dar o golpe final na gangue irlandesa que fustigava seus negócios na cidade.

Na manhã do dia de São Valentim de 1929, capangas de Al Capone, vestidos como policiais, deram uma falsa batida no armazém usado pelo chefão irlandês, Bugs Moran (sucessor de Dean O'Banion). Sete pessoas ali presentes, acreditando ser um procedimento policial, se renderam sem oferecer resistência; foram alinhados contra uma parede, e então metralhados. A imprensa divulgou fotos dos mortos, chocando a sociedade de tal maneira que Capone foi enfim formalmente acusado de violar as leis de proibição ao álcool - ele escapou do julgamento dizendo que não se sentia bem para comparecer ao tribunal na ocasião (semanas antes, ele participara da Conferência de Atlantic City entre líderes de famílias de mafiosos de todo o país, para arbitrar disputas e decidir regras de conduta entre gangues rivais, bem como as maneiras como deveriam conduzir suas relações com o poder público; semelhante reunião aconteceria novamente em Havana, em 1946, para discutir meios de legalizar seus negócios). No entanto, mesmo irrigando uma rede de corrupção, a opinião pública e a sua relação com a imprensa - que o declararia, em 1931, "Inimigo Público Número 1" - jamais seria a mesma.

Enquanto isso, Eliot Ness, jovem economista que trabalhava como investigador para o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, e natural de Chicago, foi escolhido para organizar uma força-tarefa para levantar as responsabilidades de Al Capone nos crimes de evasão de divisas e violação das leis de proibição. Fazendo um levantamento meticuloso entre os oficiais da polícia de Chicago, ele escolheu 11 homens que seguramente não receberam propina de Capone - "Os Intocáveis". Apesar de engenhosos esforços para encontrar relações de Capone com o crime organizado, ele finalmente conseguiu levá-lo a julgamento apenas por evasão fiscal.

Depois de vários julgamentos entre 1929 e 1932 que foram anulados ou em que fora absolvido, Al Capone foi considerado culpado de 5 das 22 acusações de sonegação (em parte porque seus advogados insistiam na tese espúria de que Capone era desprovido de bens e posses devido a pesadas perdas no jogo), e condenado a 11 anos de prisão. Sifilítico desde a juventude, seu estado mental se deteriorou rapidamente na cadeia. Ficou preso na Penitenciária Federal de Atlanta, em Alcatraz e em Terminal Island. Ele foi solto em 1939 e imediatamente internado para tratamento da demência associada à sífilis em Baltimore. Passou os últimos anos recluso na sua mansão em Palm Island, Flórida. Morreu após um infarto em 25 de janeiro de 1947. Apenas anos após sua morte, Al Capone foi responsabilizado por atividades criminosas em Chicago, incluindo contrabando e assassinato (pelo menos 33 pessoas foram mortas sob suas ordens).

A prisão de Capone, se não levou ao fim da máfia de Chicago, a fez operar de maneira muito mais discreta, ainda que com a complacência do poder público local que dela ainda se abastecia. Com a retomada do comércio legal de bebidas alcoólicas, os chefões passaram a apelar para grandes esquemas de lavagem de dinheiro usando cassinos e remessas de dinheiro ao exterior sob empresas de fachada (algumas gangues menores optaram pelo tráfico de drogas, que os chefões da máfia haviam de maneira geral proibido em Atlantic City). No entanto, um dos capangas mais próximos a Capone, Tony Accardo (que era conhecido no meio pelo uso do taco de baseball como arma de preferência - "Joe Batters", o "João do Taco" - e embora compartilhemos do sobrenome, ele não seja meu parente) continuou reinando na cidade até início dos anos 1960, e morreu em 1992 com grande parte da sua fortuna perfeitamente legalizada.

Eliot Ness morreu em decorrência do alcoolismo (ironicamente) em 1957, mas chegou a publicar uma autobiografia, intitulada Os Intocáveis, onde o clímax é a investigação e condenação de Al Capone. Sua história seria adaptada em uma série homônima de TV entre 1959 e 1963, e em um filme em 1987 dirigido por Brian de Palma, com atuação memorável de Robert de Niro (que vivera um jovem Vito Corleone em ascenção no filme O Poderoso Chefão II) como Al Capone.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

A Guerra de Tróia

Segundo a datação baseada nas concatenações de Eratóstenes, que coincide com o período em que o estrato VII do sítio arqueológico de Hissarlik teria sido catastroficamente queimado, o dia 24 de abril de 1184 a.C. teria sido o dia em que uma grande confederação micênica destruiu a cidade de Tróia.

As fontes primárias do que sabemos de Tróia são os poemas épicos de Homero, Ilíada e Odisséia, cujos supostos fatos históricos estão costurados com mitos, recursos estilísticos, licenças poéticas, anacronismos, e possivelmente, com outros episódios históricos de sítios e batalhas anteriores ou posteriores. A identificação do sítio de Hissarlik (que em turco significa "Lugar da Fortaleza"), no litoral da Turquia, como a mais provável localização da antiga Tróia, nos dá os dados mais objetivos do que pode ter acontecido. O local, hoje situado a 6,5 km da costa, havia sido habitado sucessivamente por diversas culturas desde o Neolítico, e destruído várias vezes. O estrato VII corresponde ao maior perímetro alcançado por uma cidade naquele local, construído sobre uma colina formada sobre ruínas anteriores, e teria sido destruído na época em que se supõe que a Guerra de Tróia tenha acontecido. O conhecimento, ou a atribuição desta localidade a Tróia parece ter subsistido por muito tempo, pois há indícios de que Alexandre da Macedônia passou ali para prestar tributo 800 anos depois da data suposta para a destruição da cidade. Há muita contextualização histórica sobre o que pode ou não ter acontecido, juntando a literatura pré-clássica com a arqueologia e o que se conhece do mundo ao redor de tudo isso.

A civilização micênica consistia de uma colcha de retalhos de pequenos reinos e cidades-estado que cobriam o Peloponeso e o sul da Grécia, e que, no seu apogeu, estendia sua esfera de influência sobre Creta, ilhas do Egeu e do Mar Jônico. O nome da civilização deriva da sua cidade mais importante, Micenas, no oeste do Peloponeso, que floresceu com o comércio marítimo, especialmente após o primeiro colapso da civilização minoica, na Ilha de Creta, a partir de 1450 a.C.. A Guerra de Tróia aconteceu no momento em que o mundo micênico estava para ser alterado profundamente com a gradativa e particularmente violenta invasão da tribo dos dórios, vindos do norte. Esses dórios, falantes de um dialeto grego, obliterariam a Grécia de tal maneira que o outrora opulento mundo micênico, produtor de obras arquitetônicas e artísticas sem paralelos no Mediterrâneo do seu tempo, permaneceria praticamente em "silêncio" por cerca de 600 anos, deixando um vácuo de poder no Mediterrâneo que seria preenchido pelos fenícios. A guerra teria sido, em última análise, provocada pelo estrangulamento da economia micênica na Grécia devido ao avanço dos dórios, e então os aliados micênicos (os "Aqueus" de Homero) procuraram abrir caminhos para a expansão econômica em direção à Ásia. Mas Tróia estava no caminho, capitaneando uma outra confederação de pequenos reinos no noroeste da Turquia (a "Trôade"), dominando as rotas comerciais que vinham do Império Hitita, no leste, e chegavam ao Mediterrâneo.

A versão poética de Homero coloca a Guerra de Tróia como o clímax de uma disputa entre deuses; Helena foi um dos três bebês nascido de um ovo posto por Leda depois de ser seduzida por Zeus transformado em cisne. Seus irmãos, Cástor e Pólux, nascidos para serem atletas e guerreiros extraordinários (com a participação em vários ciclos mitológicos, como a expedição dos argonautas), resgataram a pequena Helena, reconhecidamente a mulher (embora tivesse talvez 10 anos de idade) mais bela de toda a Grécia, quando foi raptada pelo herói Teseu, e levada em segurança a Esparta. Ali, foi tomada em casamento pelo rei Menelau, personagem de personalidade fraca e dependente, que enviara seu ousado irmão Agamenon, rei de Micenas, para participar do concurso de lutas e habilidades mediados pelos irmãos da princesa - Agamenon receberia a mão da meia-irmã de Helena, Clitemnestra. 

Quando chegou-se a este estado de coisas, Zeus havia organizado um banquete de casamento ao herói Peleu e à deusa Tétis (pais do herói aqueu Aquiles), porém a deusa da discórdia Éris não fora convidada. Ela se apresentou ao banquete com uma maçã de ouro, que seria entregue à mais bela das deusas. Como Hera, Atena e Afrodite se candidatassem e houvesse desacordo sobre qual das três mereceria o prêmio, Zeus escolheu o príncipe troiano Páris para julgá-las, pois ele já havia provado ser justo em julgamentos anteriores. As três deusas desfilaram diante do mortal, mas foi preciso que ele as examinasse uma a uma, nuas. Na ocasião, cada deusa tentou persuadi-lo com uma recompensa pela sua escolha: Hera ofereceu a ele o poder sobre todos os reinos da Europa e da Ásia; Atena lhe ofereceu sabedoria e habilidade na guerra para que suas conquistas não tivessem limites; Afrodite prometeu a Páris a mão da mais bela mulher do mundo, Helena. A deusa do amor foi a eleita.

Atena e Hera não deixariam barato. Quando Páris foi enviado por seu pai Príamo, rei de Tróia, em missão diplomática a Esparta, o príncipe foi arrebatado por Helena, e, possivelmente após tê-la violentado, fugiu com ela de volta a Tróia. Como a cidade asiática fosse poderosa demais para o exército de Menelau sozinho - e como Menelau não tinha o respeito de seus pares - ele recorreu a Agamenon para arregimentar e liderar uma confederação helênica contra Tróia para resgatar Helena e vingar a sua desonra. A partir do posicionamento de Afrodite a favor de Páris, e Atena e Hera junto aos aqueus, todos os deuses do Olimpo, semideuses e heróis míticos tomariam partido de um lado ou de outro.

Os 1186 navios contados por Homero no porto de Áulis (teriam sido mais se o rei de Creta tivesse enviado as 50 naus que prometera, e não apenas uma transportando 49 miniaturas de barro) ficaram presos ali por falta de ventos até que o adivinho Tirésias revelou que Agamenon precisaria sacrificar uma filha para aplacar a deusa Ártemis - a morte da pobre Ifigênia é o tema da trágica Ifigênia em Aulis, de Eurípides. Entre a reunião em Áulis e a chegada às praias de Troia teriam transcorrido quase 10 anos. Os eventos da Ilíada correspondem ao último ano da guerra, especificamente os 52 dias entre o desembarque das tropas até a morte do príncipe troiano Heitor, capitão das defesas da cidade, pelas mãos do enfurecido Aquiles. O poema seguinte, Odisseia, encontra Odisseus embarcando em sua jornada de volta para casa depois da guerra. O momento da queda de Troia, curiosamente, não é narrado "ao vivo" em nenhuma das fontes (apenas em retrospectiva no segundo poema), mas ela teria ocorrido quando, depois da morte de Aquiles, seu guerreiro mais poderoso, e diante de um impasse, já que as defesas da cidade não davam sinal de que cairiam (Tróia ainda recebia reforços vindos do interior e do estrangeiro), Odisseus surgiu com a ideia de construir um cavalo com a madeira dos barcos parados na praia e presenteá-lo aos inimigos. Com a praia vazia, os troianos foram convencidos de que os aqueus haviam ido embora e levaram o cavalo para o interior das muralhas. Uma vez lá dentro, à noite, guerreiros gregos escondidos no estômago da estátua saíram e destruíram a cidade por dentro. Helena foi enfim resgatada e trazida de volta a Menelau, que passara a maior parte do ataque escondido em sua tenda, delegando comando a Agamenon. A Odisseia, acompanhando o filho de Odisseus, Telêmaco, em busca de informações sobre o paradeiro do pai, revela uma Helena enfadada da vida com Menelau.

De qualquer maneira, a queda de Tróia, que poderia ter representado o apogeu, ou uma nova era para a civilização micênica, pode ser tratada como o seu canto do cisne, uma vez que as invasões dóricas, propiciadas por graves crises sociais e econômicas em Micenas e todas as outras grandes cidades em volta, varreriam quase toda a Grécia (notadamente, Atenas teria sido poupada) logo em seguida e a transformariam para sempre. A destruição de Tróia teria sido uma medida desesperada. Nos séculos seguintes à invasão dórica e ao colapso de Micenas, povos vindos do mar se abateram desesperadamente contra os reinos cananitas, os hititas e o Egito, e alguns conjecturam que esses "Povos do Mar", como os egípcios os chamavam, seriam os povos, incluindo os aqueus, deslocados pelos invasores dóricos na Europa e no Mediterrâneo.

Os poemas de Homero com certeza foram construídos e preservados oralmente por cantores ao longo dos séculos seguintes (colocando em cheque a identidade de "Homero" como apenas uma pessoa), e foram finalmente compilados por escrito entre 600 e 700 anos depois daquele evento. Eles são a última memória daquela civilização. E também são a matéria prima, o mito fundador da identidade helênica, e a matriz de praticamente toda a literatura ocidental até hoje.