quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Colombo

Em 3 de agosto de 1492 Cristóvão Colombo, no comando da nau Santa Maria, zarpou do porto de Palos de la Frontera, na Espanha, para a viagem que o levaria à América.

Desde que os mongóis conquistaram tudo entre a Hungria e a Coréia, produtos de origem asiática, como especiarias e seda, se tornaram artigos de grande demanda na Europa. Com a ascensão dos turcos otomanos e a sua conquista de Constantinopla em 1453, as rotas comerciais pela Ásia ficaram muito restritas para os mercadores europeus, de maneira que estes artigos se tornaram escassos, ou proibitivamente caros no Ocidente. Enquanto potências marítimas, como Veneza e Gênova, tentavam, por meio de acordos ou persuasão, furar o bloqueio turco, e Inglaterra e França, outras potências europeias voltadas para o oceano, viam-se presas a conflitos internos e externos, as pequenas nações ibéricas tomaram a dianteira da navegação oceânica, buscando uma alternativa às rotas tradicionais para se chegar ao mercado asiático. Assim, Portugal, independente desde 1139, lançou-se primeiro ao mar e desenvolveu uma escola de navegação e cartografia incomparáveis na Europa quatrocentista. Mas alguns pequenos eventos chave fariam com que a balança começasse a pender para os seus vizinhos, os jovens reinos de Castela e Aragão.

Cristóvão Colombo nasceu em território genovês, filho de um tecelão que complementava a renda familiar com uma banquinha onde vendia queijos com o pequeno Cristóvão. As circunstâncias da vida pessoal de Colombo (como a própria data precisa e local de nascimento) são nebulosos, mas sabe-se que em 1873, possivelmente inspirado pelo negócio do pai, Cristóvão se tornou aprendiz de importantes famílias de negociantes genoveses, e teria embarcado em algumas expedições comerciais pelo Mediterrâneo visitando algumas colônias genovesas. Em 1476 ele navegou pelo Atlântico até a Irlanda, talvez até a Islândia. No retorno da Irlanda, entrou a serviço de um navio português e viajou a Lisboa, onde encontrou seu irmão mais novo, Bartolomeu.

Bartolomeu Colombo foi uma pela fundamental para os eventos que levaram Cristóvão à América. Enquanto o irmão mais velho começara a trabalhar com o comércio em Gênova, Bartolomeu se tornou aprendiz de uma oficina de cartografia em Lisboa. O conhecimento cartográfico na Europa medieval era muito baseado num mapa muito fragmentário do mundo conhecido pelo cartógrafo grego Ptolomeu, elaborado originalmente no século II e reproduzido exaustivamente por copistas medievais. Este mapa separava fisicamente os oceanos Índico e Pacífico, estabelecendo a África como uma barreira de terra que ia até os confins da Terra ao sul. Contudo, desde a década de 1460 Portugal vinha tomando a iniciativa de tatear a costa da África à procura de uma passagem marítima para as "Índias" (termo que se referia não apenas à Índia em si, mas a todo sudeste asiático), desviando das rotas conhecidas dominadas pelos turcos otomanos no Mediterrâneo e na Ásia por terra. Estudando os clássicos (direta ou indiretamente, através do trabalho de estudiosos muçulmanos sobre clássicos gregos) e coligindo o as novidades trazidas por navegadores e astrônomos, Bartolomeu estava convencido de que uma rota para o oeste, Atlântico adentro, seria uma rota mais curta para as Índias do que o contorno da África, cuja extensão ainda não era totalmente conhecida. A ideia de que a rota do Atlântico seria mais curta não era novidade: ela havia sido proposta pelo astrônomo florentino Paolo Toscanelli ao rei Afonso V de Portugal quando Bartolomeu ainda era um aprendiz (porém o rei a rejeitou). Bartolomeu apresentou sua proposta ao rei João II em 1485, mas um corpo de especialistas avaliou que a distância proposta seria insuficiente para chegar à Ásia pelo oeste, e o projeto foi recusado.

O encontro dos irmãos em Lisboa levou Cristóvão a se estabelecer em Portugal. Bartolomeu o convenceu de que era possível alcançar a Índia pelo Atlântico, e Cristóvão viu nisso uma possibilidade de levar vantagem no estabelecimento do comércio entre Portugal e Índia. Quando Cristóvão reapresentou o projeto a João II em 1488, Bartolomeu Dias, navegador português, havia acabado de regressar da expedição onde encontrara o Cabo da Boa Esperança, o ponto mais setentrional da África de onde os portugueses poderiam se lançar diretamente à Índia. O rei português não demostrou mais interesse em Colombo. A proposta inicial dos irmãos Colombo (que incluía armar três naus e nomear Cristóvão "Grão Almirante do Oceano" e governador de todas as terras que encontrasse) foi rejeitada por uma comissão nomeada pelo rei João II, porque a distância estimada pelos Colombo era curta demais para se chegar à Ásia (e de fato era).

Cristóvão deixou Lisboa e tentou por conta própria financiamento para a sua expedição em Gênova e Veneza, sem sucesso. Bartolomeu tentou o rei Henrique VII da Inglaterra (quando foi assaltado por piratas) e depois Carlos VIII da França, em vão.

Em 1486, antes da recusa final de João II, Cristóvão ofereceu o projeto à corte unida de Castela e Aragão. Tanto num como noutro, o projeto foi recusado por causa da distância subestimada até a Ásia. Contudo, os reis Fernando e Isabel foram cativados pelo conceito de uma rota oceânica, e, para evitar que Colombo levasse o projeto a outro país, decidiram pagar-lhe um estipêndio anual e oferecer-lhe hospedagem e alimentação no país. Entusiasmado, Cristóvão continuou negociando com os reis católicos até conseguir sua aprovação em janeiro de 1492. A Reconquista estava completa, e os reinos espanhóis podiam direcionar seus investimentos em outras direções. Contudo, na audiência decisiva, Isabel recusara a última proposta de Colombo, e ele estava deixando o castelo de Alcázar no lombo de um burro quando Fernando interveio e pediu que Isabel enviasse um soldado para buscá-lo de volta. Nos seus escritos, Cristóvão creditava a Fernando a "razão pela qual aquelas ilhas (as Antilhas) foram descobertas". Seu segundo filho foi batizado Fernando em sua homenagem.

De janeiro a agosto as três naus foram armadas e preparadas, e sua tripulação contratada. Colombo capitanearia a caraca Santa Maria (anteriormente batizada "Galega"), a maior das três, enquanto Martin Alonso Pinzón e seu irmão Vicente Yáñez (que em 1498 chegaria à costa do nordeste brasileiro a caminho do Orinoco) pilotariam as caravelas Pinta e Nina, respectivamente. No dia 3 de agosto, a flotilha partiu o porto de Palos de la Frontera, no sudoeste espanhol, em direção à possessão espanhola das Ilhas Canárias, onde renovaram as provisões e fizeram reparos. De lá partiram em 6 de setembro para uma jornada de 5 semanas para o oeste até avistarem terra (a costa da ilha de Hispaniola, na atual República Dominicana). O contato com os nativos foi amistoso (com a bênção do cacique Guacanagari, Colombo deixou para trás uma pequena colônia com parte de seus homens no Haiti), exceto pelo encontro com os ciguayos no noroeste de Hispaniola, que, se recusando a fazer negócios com os estrangeiros, acabaram ferindo dois tripulantes. Porém, os relatos que trazia da existência de ouro e outras riquezas em potencial (como os próprios nativos que contactara, que lhe pareceram dóceis e facilmente conquistáveis) seriam de grande valia aos seus patronos. Para Colombo, a concretização da sua posse sobre aquelas terras, o direito a 10% de toda a produção e de 8% sobre todo o comércio com a coroa, ou seja, a garantia de uma vida de fartura para si e seus filhos.

A história da colonização das Américas ainda não estava selada. Na sua viagem de retorno, Colombo, pilotando a Niña, se viu obrigado por uma tempestade a buscar abrigo em Cabo Verde, possessão portuguesa. Depois de rezarem em uma igreja por terem sobrevivido à tormenta, a tripulação foi presa por dois dias por suspeita de pirataria. Mais uma tempestade desviou o navio para Lisboa. Ali Colombo conheceu Bartolomeu Dias, que o entrevistou antes de encaminhá-lo ao rei. João II, no entanto, não estava na cidade, e demoraria uma semana até Colombo encontrá-lo em Vale do Paraíso. Aos relatos do navegador sobre as terras encontradas do outro lado do oceano, João apenas considerou a expedição uma violação de tratados (o tratado de Alcáçovas de 1479 concedia a Portugal a posse de todas as terras a serem descobertas a oeste e ao sul das Canárias, sugerindo que os portugueses, de alguma maneira, já soubessem da existência da América embarreirando a passagem marítima para a Índia). Apenas depois disso Colombo revelou suas descobertas os reis espanhóis.

Colombo retornou à América (que só receberia este nome em um mapa impresso na Suíça em 1507, em homenagem a Américo Vespúcio, que acompanhou Colombo nas viagens seguintes e depois entraria a serviço da coroa portuguesa) mais três vezes, atingindo o continente de fato apenas na terceira viagem, quando margeou a costa venezuelana e desceu na Península de Paria. De fato, recebera o título de governador e Almirante do Oceano. Contudo, as desventuras de Colombo depois da quarta viagem merecem um artigo à parte, e gradualmente a coroa espanhola tomou e redistribuiu as terras prometidas à família (até fins do século XVIII, descendentes de Colombo ainda tentavam judicialmente recuperar a herança de Cristóvão).

Até o fim em 1506 Colombo estava convencido de que as ilhas que descobrira faziam parte do extremo oriente asiático (não a Índia propriamente dita, já que as pessoas que viviam ali não correspondiam às expectativas de "civilização" que esperavam da Índia). No seu plano de viagem, os irmãos Colombo davam como certo de que a Eurasia cobria 225° de longitude da curvatura terrestre (tese de Marino de Tiro, antecessor de Ptolomeu), e subestimava o comprimento longitudinal de um grau (adotavam a medida do cartógrafo árabe Alfraganus, sem se darem conta de que o autor se referia à milha arábica, mais curta do que a romana que os Colombos adotavam), de maneira que a América estava mais ou menos onde os Colombos previam que estaria a Ásia. Contrariando a crença popular de que, antes de Colombo, os europeus acreditavam que a Terra era plana, os especialistas que avaliavam e reprovavam o plano dos Colombo intuíam que a distância era curta demais - apenas não previam a existência de um continente desconhecido bem ali.

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sexta-feira, 28 de julho de 2017

Merovíngios e Carolíngios

Em 28 de julho de 754, Pepino, o Breve ("Le Bref", também traduzido por "O Curto" por conta de seus cabelos curtos) foi coroado rei dos francos pelo papa Estevão II em Paris. Foi a primeira vez que um Papa se deslocou de Roma para coroar um monarca, o ponto final da dinastia merovíngia na França, e um evento marcante da gradual passagem entre a Antiguidade e a Idade Média na Europa Ocidental.

Os francos foram uma confederação de tribos germânicas que se deslocou para as fronteiras romanas por volta do século III e ocuparam a margem direita do baixo Reno. Assim como outras tribos, os francos fizeram incursões ao interior do império (chegando tão longe quanto a Catalúnia), mas foram mantidos, com muito custo, fora das fronteiras. Até que, para tentar pacificar e assimilar esses "bárbaros", o imperador Juliano permitiu, em 358, que uma facção dos francos, os salianos, se estabelecessem entre o sul da Holanda e o nordeste da França, condicionando a mudança à sua submissão à autoridade imperial e seu alistamento entre os foederati (corpo do exército romano composto e comandado por "bárbaros").

À medida em que a autoridade imperial se enfraquecia, os francos conquistaram crescente autonomia política, e, emprestando as instituições e modelos de administração de Roma, formaram seus próprios reinos. Em Tornacum (atual Tournai, na Bélgica) surgiu uma facção que viria a dominar as demais, graças à sua boa relação com o romano Egídio, administrador da Gália que, no apagar das luzes de Roma, declarou o norte da frança seu próprio império. Egídio (e, após sua morte, seu filho Siágrio), retendo um fragmento do Império Romano cercado de invasores germânicos que inundavam a França, contou com o apoio do rei franco Childerico I de Tornacum para conter os visigodos que tomavam a parte ocidental da Gália. Quando o ostrogodo Odoacer destronou o último imperador romano do ocidente em 476, Siágrio se recusou a reconhecê-lo. Como o imperador do oriente, Zenão, preferia a amizade de Odoacer e seus conquistadores germânicos ao pequeno "Duque" (título que Siágrio adotava, embora os francos o chamassem de "rei dos romanos"), e Siágrio ficou isolado.

Childerico observava a mudança de eixo de poderes na Europa. Embora engajasse em campanha ao lado de Egídio contra os godos, ele chegou a discutir com Odoacer uma aliança contra a tribo dos alamanni. Quando morreu, foi sucedido pelo seu filho Clóvis I, que passou a guerrear contra Siágrio até derrotá-lo em 486, em Soissons, e anexar todo o seu território, estendendo o domínio franco até Rennes, às portas da Bretanha. A dinastia da qual Clovis fazia parte ficou conhecida como Merovíngia, em referência a seu avô, chefe (ou rei) dos francos em Tornacum, Merovingh, personagem possivelmente legendário, filho, entre outras versões, de um deus marinho.

Os merovíngios se tornaram uma potência militar no norte da França, expandindo seu domínio sobre a Burgundia, conquistando os visigodos no oeste, e, depois do colapso dos ostrogodos sob ataque bizantino, anexando a Provença, chegando às fronteiras da Itália. Porém, internamente, as disputas pelo poder se iniciaram com a morte de Clóvis: filhos e netos declaravam-se reis, e entravam em guerra uns com os outros. De maneira que, para os reinos vizinhos, o reino franco era territorialmente coeso e militarmente poderoso, mas internamente era bem caótico. Apenas em 679 Teuderico III conseguiu unificar o reino sob um único rei, embora tenha sido mais um fantoche do mordomo (cargo que, no mundo merovíngio, correspondia ao de primeiro-ministro) do seu palácio em Paris, Ebroin, e depois dependente dos que o sucederam. A força que os mordomos do palácio alcançavam alterou a vida política do reino franco. Como os reis se tornavam figuras de segunda importância, a união dinástica se estabilizou por mais de 60 anos, sob tutela dos mordomos, estes sim, disputando encarniçadamente o poder.

O período merovíngio também foi uma fase de grande difusão do cristianismo na Europa Ocidental. Já no século VI a religião estava bem difundida na Gália romana e entre os francos que se estabeleciam nela, e a nobreza merovíngia tomava vantagem da boa relação com a Igreja, favorecendo o estabelecimento de monastérios em terras doadas, que no final retornavam ao controle dos nobres com a nomeação de algum parente para o cargo de abade. Foi uma fase de enorme aparelhamento da Igreja na França, mas o poder era compartilhado e precisava ser mantido, a despeito da volatilidade política dos francos. Isto explica a atenção que Roma passou a dar à coroa francesa dali em diante.

Os reis merovíngios continuaram a exercer uma função cerimonial enquanto os seus mordomos conduziam a guerra, a política e a economia. Pepino de Heristal, mordomo do palácio de Aachen unificara em torno de si o poder de facto sobre os francos ainda no tempo de Teuderico. Seu filho, Carlos Martel ("O Martelo"), contudo, precisou vencer uma guerra civil para assegurar-se no cargo. Quando enfim emergiu triunfante em 718, os muçulmanos do Califado Omíada já haviam invadido a Espanha visigótica vindos da África, e marchavam em direção à França. Um grande exército mouro-árabe desembarcou na Aquitânia em 721 e tomou a cidade de Toulouse. O duque da Aquitânia, Odo, acorreu a Carlos Martel por ajuda. Martel precisou constituir um exército permanente, ou seja, mobilizar os homens durante o período em que deveriam estar cuidando do plantio e da colheita de suas terras, e para isso precisou confiscar terras cedidas à Igreja (muitas delas cedidas pelo próprio Martel), causando tamanho mal estar com o clero que Martel estava a ponto de ser excomungado. Porém, o sucesso da campanha, culminando com a vitória na Batalha de Tours em 732 (a partir da qual os califados muçulmanos nunca mais conseguiram invadir a França com sucesso), fez recuperar seu prestígio.

Depois de conter muçulmanos e obter vitórias contra os reinos germânicos no leste, Martel sentiu-se tão seguro de sua posição que não se preocupou em coroar um novo rei quando seu soberano, Teuderico IV, faleceu. Em seus últimos seis anos como mordomo, Martel governou sozinho, assentando sua autoridade sobre povos conquistados e imprimindo reformas administrativas. Ele recusara um pedido de auxílio do Papa contra os lombardos, mas isso demonstrava a relação de dependência entre o papado e o poder militar franco. Seu exército (que enfim desmobilizara) contava com a infantaria e cavalaria pesadas que se tornariam uma referência romântica dos exércitos europeus da Idade Média.

Quando morreu, seus dois filhos, Carlomano e Pepino, dividiram suas terras (um terceiro filho, Grifo, meio-irmão dos dois, clamava o direito a parte da herança, mas foi preso por ambos, enclausurado em um monastério, depois morto durante uma rebelião). Carlomano rapidamente assentou sua função de mordomo (e a própria unidade territorial do reino) coroando um parente obscuro dos merovíngios, Childerico III. Por motivos não muito esclarecidos, Carlomano retirou-se a um mosteiro em 747, deixando todo o poder com Pepino. Vendo a si mesmo como o centro do poder do reino franco, e entendendo as dificuldades que o papado enfrentava com os lombardos na Itália, Pepino enviou uma carta ao Papa Zacarias, com uma sugestão subentendida: "Sobre os reis dos francos que não mais possuem poder real: isto é apropriado?". Zacarias enviou sua resposta confirmando achar inapropriado que houvesse um rei sem poder real, e com isso Pepino moveu-se para depor Childerico e confiná-lo a um monastério.

A dinastia merovíngia chegara ao fim e dera lugar à dinastia carolíngia (em referência a Carlos Martel). Os nobres francos proclamaram Pepino rei em 752, mas a viagem que o Papa Estevão II fez a Paris para coroá-lo pessoalmente, no dia 28 de julho de 754, legitimou seu poder e consolidou sua aliança com o papado.

As subsequentes conquistas de terras lombardas, posteriormente doadas ao papado, se tornaram o arcabouço do que viriam a ser os Estados Papais, o reino no centro da Itália governado pelo Papa até a unificação da península italiana no século XIX, e do qual o Vaticano é o último remanescente. Pepino também conquistaria o último quinhão do califado na França, expulsando os omíadas de Narbonne, e "pacificaria" (com particular violência) a Aquitânia , então uma província rebelde. Com sua morte, seguindo o costume franco, seu reino foi dividido entre seus dois filhos, Carlos e Carlomano. Carlomano morreu de causas naturais em 771, deixando para Carlos (conhecido para a posteridade como Carlos Magno) todo o reino. Ele conquistaria uma fímbria de terra no norte da Espanha muçulmana (cuja campanha e seus personagens se tornariam temas de canções medievais), e submeteria os lombardos, feitos pelos quais o Papa o declararia "Imperador de Roma", dois séculos e meio depois do fim do Império do Ocidente. O reino franco se tornara um império por si próprio, cuja porção oriental subsistiria até o início do século XIX como Sacro Império Romano. As cortinas do mundo antigo terminaram de se fechar por completo para dar lugar à Idade Média.

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quinta-feira, 27 de julho de 2017

Forte Negro

Em 27 de julho de 1816 um destacamento do exército americano atacou e destruiu Negro Fort, uma fortificação na Florida, então território espanhol, ocupado por negros libertos, escravos fugidos, e alguns nativos e mestiços.

A história de Negro Fort (que eu peço licença para chamar de Forte Negro daqui por diante) começou durante a Guerra Anglo-Americana de 1812. Após a independência dos Estados Unidos, os americanos iniciaram um processo de expansão via anexação (pela força, se a diplomacia falhasse) de territórios indígenas e a aquisição de colônias europeias, como a Louisiania francesa. O conflito de interesses entre o expansionismo americano e a manutenção do império colonial britânico nas Américas - seu principal trunfo contra o Bloqueio Continental imposto por Napoleão ao comércio das nações europeias com a Inglaterra - criaram tensões insustentáveis entre os dois países. A política britânica de apoio aos nativos americanos, que viam como aliados contra a expansão americana, e que por sua vez atacavam colonos em seus territórios (não reconhecidos pelos americanos), levaram à guerra. A Inglaterra, contudo, não poderia empregar muitos recursos neste confronto, uma vez que seu exército e marinha concentravam-se no apoio a Portugal e Espanha na virada da Guerra Peninsular contra a França. As tropas estacionadas no Canadá chegaram a tomar Detroit brevemente, mas a Guerra de 1812 foi mais um conflito de atritos, com poucos ganhos de um lado ou de outro - exceto pelos avanços dos Estados Unidos sobre as nações nativas envolvidas.

Durante a guerra, os britânicos buscavam recrutar seminoles (um amálgama de povos nativos, principalmente muscogees vindos do norte) no sul dos Estados Unidos e na Florida espanhola (a Espanha, àquela altura, era uma aliada dos britânicos). O rio Apalachicola, no oeste da atual Florida, se tornou um canal importante de contato com o interior e uma via de transporte de homens e mantimentos. Em 1815, antes do fim da guerra, o comandante britânico na região, tenente Edward Nicolls, coordenou a construção de um forte, equipado com um canhão, armas e munições. Com essa base fixa, além de nativos, os ingleses também abrigavam e recrutavam escravos fugidos de propriedades rurais americanas ao norte, garantido-lhe liberdade e incorporando-os ao seu corpo de fuzileiros coloniais. Quando a guerra terminou, os britânicos abandonaram o local, mas os ex-escravos permaneceram, bem como milhares de mosquetes, carabinas, espadas, pistolas, e grande quantidade de pólvora para rifles e canhões. O Forte Negro atraiu mais escravos fugidos, chegando a abrigar uma população de cerca de 800 negros e algumas dezenas de seminoles. Os negros, usando conhecimento adquirido da terra, cultivavam os arredores do forte, tornando-o quase auto-suficiente.

Os seminoles ainda viam os negros fugidos como escravos, mas sua relação com a escravidão era decididamente mais mutualista, mais semelhante ao sistema feudal francês, do que com o sistema escravocrata americano: os negros que concordassem em viver em território seminole se obrigariam a pagar tributo em víveres e participar de caçadas e da guerra, em troca de segurança, direito a propriedade, e liberdade de ir e vir. Um cenário muito mais favorável. Seminoles e negros contraíam matrimônio, e mestiços passaram a constituir grande parte da nação seminole na Florida.

O Forte Negro no coração do território seminole era uma espécie de farol para os escravos do sul que almejavam a liberdade. Um fazendeiro do sul escreveu uma carta ao então Secretário de Estado John Quincy Adams, reclamando que a existência destes "salteadores negros" constituía uma "vizinhança extremamente perigosa a uma população como a nossa", e o próprio governo americano considerava o forte um foco de hostilidade e uma ameaça à "segurança" dos seus escravos. De fato, o governo enviou em setembro de 1815 uma milícia de 200 homens contra o forte, e a sua derrota conferiu aos defensores uma sensação de segurança tal que eles mesmos passaram a fustigar as terras além da fronteira, no sul da Georgia. Um jornal local perguntava: "Até quando a este mal (...) será permitido existir?".

Para guarnecer a fronteira, e 1816 foi construído um forte na Georgia, Fort Scott. O General Andrew Jackson decidiu que a rota mais viável para abastecer o forte era pelo rio Apalachicola, subindo pelo trecho da Florida espanhola. Em 17 de julho de 1816, durante uma dessas operações, duas canhoneiras subindo o rio com mantimentos foram atacadas ao largo do Forte Negro enquanto 5 marinheiros enchiam seus cantis com água, resultando em três mortos e um preso (o quinto mergulhou no rio e voltou à sua embarcação). Jackson requisitou autorização para atacar o forte, e Adams viu nisso a oportunidade para iniciar uma campanha para tomar a Florida.

Dez dias depois, duas canhoneiras subiram o rio com 250 homens. Defensores do forte enviaram homens para fustigar o inimigo ao longo do percurso, de modo que, quando os americanos chegaram, havia 330 defensores encastelados, incluindo 30 guerreiros nativos. O general Edmund Gaines ordenou a rendição, ao que o líder do forte, um africano chamado Garson, respondeu hasteando uma bandeira britânica, e os defensores gritavam "Me dêem a liberdade ou me dêem a morte!" (grito de ordem proferido pelos revolucionários americanos durante sua guerra de independência). Os americanos se posicionaram em terra e abriram fogo, enquanto as canhoneiras tomavam posição no rio. Os defensores, mesmo bem armados, eram mal treinados e muito pouco eficientes.

Temendo as peças de artilharia no forte, as canhoneiras atiravam apenas para testar o alcance e a distância máxima em que poderiam abrir fogo. Após cerca de 9 tiros de teste, uma décima bala atingiu em cheio o depósito de munições do forte. Houve uma enorme explosão, ouvida a 100 quilômetros de distância, que vitimou quase todos os defensores e as famílias abrigadas ali, cerca de 300 vítimas fatais e um número não contabilizado de feridos. A destruição deixou o próprio general Gaines chocado. Foi o tiro de canhão mais mortal da história americana.

Os sobreviventes foram capturados. Garson foi executado por um pelotão de fuzilamento, e um chefe choctaw, que comandava os guerreiros nativos, entregue aos creek, nativos aliados dos americanos, que o mataram e escalpelaram. Os demais foram vendidos como escravos aos seus antigos donos, ou aos donos dos seus pais.

Um líder seminole chamado Neamathla, ultrajado pelas mortes de seminoles na batalha, ameaçou atacar quem quer que saísse de Fort Scott através do rio Flint. Gaines então enviou 250 homens para prendê-lo, e a batalha que se seguiu é reconhecida como a abertura da Primeira Guerra Seminole em 1817, que acabou com a anexação da Florida (a Espanha pouco pôde fazer além de protestar oficialmente) e o confinamento dos seminoles em uma reserva. Em 1818 o tenente James Gadsden construiu um novo forte a poucos metros da ruína do Forte Negro, e desde então todo o sítio ficou conhecido como Fort Gadsden, apagando da memória aquele símbolo da resistência dos escravos do sul. Porém a aliança ocasional de seminoles e negros persistiu em outras comunidades mestiças até os dias de hoje - comunidades que enfrentam segregação natural da sociedade americana e da própria nação seminole, centrada hoje em dia no estado de Oklahoma. Muitos dos seus descendentes ainda habitam a Florida, o Texas (vindos do México, onde se estabeleceram como escravos fugidos no século XIX) e as Bahamas, para onde fugiram da guerra de 1817.

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quinta-feira, 11 de maio de 2017

As Aventuras (reais ou não) do Barão Munchausen

Em 11 de maio de 1720 nasceu Hyeronymus Karl Friedrich von Münchhausen, que viria a se tornar célebre através da sua versão satirizada na literatura na forma do mentiroso Barão Munchausen.

Münchhausen nasceu no seio de uma família nobre do norte da Alemanha, e ainda adolescente, serviu como pagem ao jovem duque Ulrich II de Brunswick. Este Ulrich era sobrinho da imperatriz consorte do Sacro Império Romano, e através dela teve seu casamento arranjado com uma princesa russa. Em 1733 ele seguiu acompanhado de Münchhausen para a Rússia para conhecer melhor a noiva.

Em 1735 eclodiu a confusa Guerra Russo-Turca (que começou com uma guerra entre o Império Otomano e a Pérsia, e envolveu a Rússia por força de tratados com os persas, que apoiavam um herdeiro favorável aos russos ao trono polonês, contra o favorito da França... além da possibilidade da Rússia abrir caminho sobre território Otomano em direção ao Mar Negro). Sob influência do seu suserano, Münchhausen foi nomeado corneteiro de uma unidade de cavalaria alemã a serviço da Rússia, no fim da guerra em 1739. O futuro barão seguiu carreira militar, tendo sido nomeado tenente e participado superficialmente de duas campanhas russas contra os turcos.

Em 1760, tomou posse das terras da família em Bodenwerder e decidiu "aposentar-se" como barão (em alemão, "Freiherr", ou "Senhor livre"), ou seja, viver das rendas da sua propriedade. Ali ele promovia encontros festivos com aristocratas alemães, onde entretinha os convidados com sua própria versão de suas aventuras no exército russo. Suas histórias, tão espúrias e espetaculares, passaram a atrair a curiosidade de nobres e viajantes da Europa, que vinham visitá-lo para ouvi-lo contar de como suas peripécias inacreditáveis determinaram os acontecimentos históricos nas quais estavam inseridas. Um observador ponderou que Münchhausen exagerava seus feitos não para enganar ou vangloriar-se, mas para ridicularizar a credulidade de seus amigos. Münchhausen morreu em meio a um processo de divórcio com sua segunda esposa, 57 anos mais jovem, que tivera um filho exatamente 9 meses depois de se retirar a um spa na Saxônia, em 1797.

O barão teria sido esquecido como uma figura menor da história alemã, não fosse pelo escritor alemão Rudolf Erich Raspe. Raspe estudou na Universidade de Göttingen, fundada por um primo de Münchhausen, e através dele conheceu Münchhausen ali antes da sua aposentadoria. Convidado a participar de uma de suas reuniões em Bodenwerder, ele guardou para si lembranças de alguns dos contos que ouviu e a eles adicionou outros mais antigos presentes na literatura alemã para criar o personagem quase homônimo, o Barão Munchausen. Publicados anonimamente e escritos em primeira pessoa (identificada originalmente apenas como "M-h-s-n"), os contos foram publicados pontualmente em revistas e inseridos em almanaques alemães. Foi em 1785, enquanto trabalhava em uma empresa mineradora na Inglaterra, que Raspe compilou (anonimamente) pela primeira vez as aventuras do Barão Munchausen (sem o segundo "H", para que fosse lido com mais facilidade em inglês). Com títulos enormes que variavam de uma edição para outra, o livro é comumente conhecido como Viagens do Barão Munchausen.

Na obra, Munchausen é um nobre veterano de guerra narrando a seus amigos, de forma exagerada, suas aventuras originalmente contextualizadas no cenário da Guerra Russo-Turca - como no prefácio o próprio personagem reconhece ao leitor a dificuldade de se afirmar a veracidade dos fatos, ele consegue uma declaração de confiança subscrita por ninguém menos que Gulliver, Simbad, e Alladin. Colocado frequentemente em situações inacreditáveis, o Barão contorna seus problemas usando de astúcia e habilidades super humanas.

,Entre seus feitos, ele livra-se de um leão fazendo-o atirar-se na boca de um crocodilo, matando ambos; depois de tirar seu cavalo do telhado de uma igreja, este é devorado por um lobo, que o barão atrela e faz puxar seu trenó; abate quase 100 aves em um lago disparando com o fogo que saía de seus olhos; explode um urso com uma pederneira, vira um lobo do avesso, e, depois de fugir de um cão raivoso, seu próprio casaco de pele enlouquece e ataca as outras roupas de seu armário; escapa do estômago de um peixe gigante dançando à moda escocesa dentro dele; acerta os pescoços de 17 inimigos com apenas um tiro de canhão; relata como seu pai viajou da Inglaterra para a Holanda num cavalo marinho; conhece o próprio deus Vulcano no interior do Monte Etna, indo parar em seguida em uma ilha (maior que a Europa, que ele sobrevoara nas costas de uma águia) feita de queijo cercada por um mar de leite; cavalga uma bala atirada de um canhão.

Uma das cenas mais famosas começa quando os turcos o capturam e o vendem ao sultão como escravo. Enquanto cuidava das suas abelhas gigantes, dois ursos atacam a colmeia. Ele tenta espantar os ursos com uma machadinha de prata usada pelos jardineiros, mas o arremesso é tão forte e tão errado, que a machadinha vai parar na lua. Ele planta um pé de feijão que cresce até se agarrar numa das "pontas" da lua e sobe por ele. Ao recuperar a machadinha (perdida num lugar onde tudo reluzia a prata), ele percebe que o pé de feijão secara. Então ele corta um pedaço do pé seco e faz uma corda; conforme se pendura nela, ele vai cortando outros pedaços do pé de feijão para alongar a corda. Porém a corda resulta curta demais, e ele despenca de uma altura de 8 km, caindo como um prego, enterrando-se no solo. Ele se livra cavando com as próprias unhas, que deixara crescer por 14 anos.

Em outra ocasião, o barão montava um cavalo lituano muito especial, que tivera a metade de trás do corpo arrancada enquanto passavam por um portão que descera às suas costas, mas ele só percebera que o animal caminhava apenas com as patas dianteiras quando, ao parar para beber água, ela passava pelo seu corpo e derramava no chão pelo buraco; o barão resolvera o problema costurando as duas metades com ramos de louro, que não só curaram o animal, como cresceram para fazer sombra sobre seu ginete.

O verdadeiro Barão Münchhausen, quando soube da publicação do livro, não ficou nada satisfeito. Sentindo-se insultado, ameaçou processar o editor (um certo Smith, já que Raspe permanecia anônimo), mas isso não impediu que a obra fosse traduzida para alemão e francês antes da virada do século. Ironicamente, o próprio Raspe inspiraria um personagem de O Antiquário, de Walter Scott, um trambiqueiro alemão trabalhando em uma mina escocesa - o Raspe verdadeiro teria enganado um dono de terras escocês sobre a riqueza na sua propriedade mostrando a ele gemas e pedras preciosas que ele mesmo havia "plantado" no chão previamente. Reeditado muitas vezes ao longo do século XIX, ganhou o cinema pela primeira vez com a produção de 1911 dirigida por George Méliès. A última versão importante das histórias do barão foi o filme As Aventuras do Barão Munchausen de 1989, dirigido por Terry Gillian.

Uma desordem psiquiátrica chamada Síndrome de Munchausen compreende um quadro onde o paciente deliberadamente mente sobre sintomas que não está sentindo, forjando-os se for necessário, para conseguir atenção médica (diferente da hipocondria, onde o paciente realmente acredita estar sentindo os sintomas que descreve). Inspirado pelo conto em que o barão salva a si próprio do afogamento puxando-se para fora de um pântano pelos cabelos, filósofo Hans Albert definiu o Trilema de Munchausen, que discute a impossibilidade de se provar definitivamente qualquer verdade porque o argumentador tem três vias argumentativas possíveis: justificar sua conclusão a partir de um método que precisa justificar-se logicamente com base em premissas que precisam ser justificadas, assim indefinidamente; um argumento circular (fundamentado nele mesmo ou nas suas próprias motivações) pode ser usado, porém sacrificando sua validade; pode-se usar o princípio da autoridade, ou da razão suficiente, fundamentado na palavra de um "expert" ou no que "está escrito" (esta tríade está presente abundantemente na narrativa do barão, que apresenta os fatos como se fossem naturais e lógicos; na falta de lógica, apela para o argumento circular; e quando tudo mais falha, alega a veracidade colocando em jogo sua própria palavra de honra).

Em Bodenwerder existe hoje uma fonte esculpida no formato de um meio-cavalo, montado pelo barão, com a água jorrando da metade cortada do seu corpo.

P.S.: Se me permitem, antes de conhecer o barão e suas histórias, minha avó contava sua própria versão delas, substituindo o barão por um "príncipe" anônimo, que reunira personagens com habilidades extraordinárias para participar de uma competição pela mão de uma princesa (o personagem-título era um deles, chamado Come Tudo, Bebe Tudo, e Nada Chega). Quando o filme de 1989 chegou ao cinema, reconheci nele quase todos os personagens e eventos do "ciclo mitológico" da minha avó.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Tudo se transforma

Em 8 de maio de 1794, o químico Antoine Lavoisier e mais 27 acusados foram condenados e executados em Paris por atividades anti-revolucionárias.

Lavoisier nasceu em 1743 no seio de uma família nobre, e aos 16 anos começou a estudar ferozmente vários campos das ciências naturais e da matemática. A despeito de ter se formado advogado como seu pai (embora nunca tenha exercito a função), Lavoisier seguiu assistindo aulas e palestras sobre ciências naturais, e associando-se a pesquisadores proeminentes. Evidentemente sua posição social lhe abriu muitas portas (a ponto de, aos 23 anos ser condecorado com uma medalha de ouro pelo rei Luís XV por um trabalho sobre a iluminação das ruas de Paris), mas seu talento o fez aproveitar ao máximo cada oportunidade.

A contribuição mais notável de Lavoisier para a ciência foi na compreensão do fenômeno da combustão. Ele percebeu que a combustão e calcinação (ou seja, a transformação, após a queima, de um sólido em outro sólido) de uma substância em estado puro resultava no acréscimo de peso do mesmo elemento, embora o sistema total mantivesse sua massa constante. Após realizar experimentos com diferentes elementos, e agregando trabalhos feitos por colegas britânicos, ele enfim deduziu que a combustão era o processo pelo qual uma substância reagia com outras presentes no ar, que eram agregadas à substância original durante a queima com liberação de energia. Ele ainda não conhecia a composição química da atmosfera nem o papel do oxigênio na promoção da combustão - ele deduziria mais tarde a existência do oxigênio e do hidrogênio. Suas aferições precisas de massa, e a precisão dos resultados produzidos com essa metodologia, seriam incorporadas à metodologia de todos os trabalhos em química no futuro. Lavoisier também seria um dos que defenderia o estabelecimento do sistema métrico decimal em substituição à miríade de sistemas de medidas adotadas anteriormente, além de um sistema nomenclatural para a química semelhante ao proposto por Carl Linnaeus para a biologia. Suas observações sobre as reações químicas, e a verificação de que a massa total dos reagentes é igual à massa total dos produtos, o levou a cunhar a famosa frase: "Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma".

Graças aos seus trabalhos sobre combustão, em 1775 Lavoisier foi nomeado para a Comissão da Pólvora, órgão governamental que substituiria uma empresa particular no suprimento de pólvora para a França, e sua enorme capacidade de organização de fato fez com que o suprimento e a qualidade da pólvora entregue ao governo superasse em muito o que se tinha antes, a ponto de gerar receita para o Tesouro. A Comissão lhe forneceu uma casa e um laboratório no Arsenal Real, onde viveu e trabalhou até 1792.

Lavoisier, enquanto cientista, foi um produto do Iluminismo, corrente filosófica que estimulava a investigação metódica do mundo natural e humano, confrontando visões dogmáticas (de ordem religiosa ou qualquer outra) sobre a construção do mundo e da sociedade. O Iluminismo estava impregnado no sistema educacional no qual Lavoisier se formou. Contudo, o químico nunca questionou a natureza da legitimidade do poder político e da ordem social, ou ao menos nunca percebeu a profundidade do abismo que separavam as classes sociais na França, e o que disso viria a resultar - o que lhe custaria a vida mais adiante.

Aos 26 anos, Lavoisier adquiriu parte da Ferme générale (ou "Fazenda Geral"), uma companhia a serviço do governo que estimava quanto de imposto seria arrecadado ao longo do ano, antecipando o repasse desta quantia ao governo francês, em troca do direito de executar, por conta própria, o recolhimento dos impostos da população ("Fazenda", no caso, tinha o duplo sentido de ter sua origem e principal função o recolhimento de impostos das propriedades rurais, e ser ela mesmo uma "fazenda de impostos" para o governo). Lavoisier chegou mesmo a se casar com Marie-Anne Paulze, filha de um dos membros da Ferme générale (Marie-Anne, apesar de ter apenas 13 anos quando se casou, era excepcionalmente culta, e não só auxiliava o marido no laboratório, mas produzia ilustrações, e traduzia trabalhos científicos do inglês para o francês, bem como sua correspondência, especialmente com Joseph Priestley, químico que também descobrira paralelamente o oxigênio). Na Ferme générale, Lavoisier bancou a construção de um muro em torno de Paris, direcionando as saídas da cidade para que a companhia pudesse posicionar guarnições nestes locais específicos e recolher impostos sobre qualquer produto que entrasse ou saísse da cidade, evitando sobremaneira a evasão e o contrabando na capital.

Como tivesse a prerrogativa de recolher os impostos, a Ferme générale era, naturalmente, mal vista pela população. Mas além da função ingrata, agravada pelo complicado sistema tributário francês, a truculência com que tratava sonegadores e contrabandistas (que podiam ser punidos com mais rigor do que criminosos mais violentos), bem como a enorme riqueza acumulada pelos seus diretores, saltavam aos olhos. Quando eclodiu a Revolução Francesa em 1789, um dos elementos que mais inflamavam as opiniões era a questão dos impostos, a maneira como eram recolhidos, e o seu destino. No plenário da assembleia nacional, os fazendeiros-gerais eram abertamente chamados de "predadores". O novo governo revolucionário dissolveu a empresa em 1791, destituindo seus diretores (entre eles Lavoisier) e funcionários.

Lavoisier escapou da ira revolucionária neste primeiro momento, mas foi forçado a deixar seu posto na Comissão da Pólvora. Ele reconhecia que o sistema de governo era falho e precisava de profundas reformas; quando foi encarregado por Luis XVI para avaliar a possibilidade de introdução de novas culturas e tipos de gado nas fazendas francesas, ele concluiu que seria inútil introduzir qualquer novidade no campo, pois os camponeses estavam tão empobrecidos e pressionados pela carga tributária que eles não podiam investir em nada além do que já estavam adaptados a cultivar. Já destituído de cargos, apresentou um projeto de reforma da educação ao Congresso, acreditando poder reformar o sistema de dentro para fora com o poder da razão. Porém, a Revolução evoluía a despeito dos esforços - de revolucionários moderados e conservadores - para contê-la, e rumava para sua fase mais sinistra, conhecida como "Reino do Terror".

Maximilien de Robespierre encabeçava a cúpula revolucionária que assumira a administração pública a partir da queda de Luís XVI. À medida em que o novo governo tomava corpo, a jovem burguesia francesa que atropelara os velhos oligarcas dava espaço a soluções moderadas ou conservadoras às reivindicações em pauta que agradassem a ambos. Robespierre, por outro lado, mantinha sua veia radical ao permitir a interferência dos "sans culottes", como as classes mais baixas eram conhecidas, e sua popularidade crescia à medida em que se posicionava contra as instituições tradicionais de poder. A França também fora desafiada pelos seus vizinhos absolutistas na Guerra da Primeira Coalizão, e a capacidade de mobilizar a população era vital para conter o conflito e manter a estabilidade interna. A primeira vítima ilustre dessa radicalização do movimento revolucionário foi o próprio Luís XVI, a cujo perdão ou punição simbólica Robespierre se opunha. O governo começou a perseguir e cortar as cabeças de membros do parlamento, antigos políticos, e, eventualmente, qualquer um que representasse ou mesmo defendesse de alguma forma o poder monárquico.

A partir de 1793, a Revolução voltou-se contra as sociedades científicas. Sob pedido do Abade Gregório, congressista católico e nacionalista rábico que influenciou a nova política de língua única na França (que tradicionalmente compunha-se do francês falado em grande parte do país, mais 33 dialetos diferentes), a Academia de Ciências, da qual faziam parte Lavoisier e nomes ilustres, como o matemático Pierre Laplace e o estrangeiro Joseph Louis Lagrange (a favor de quem Lavoisier interferiu para que lhe poupasse a vida e os bens) foi fechada. Por fim, em novembro de 1793, Lavoisier, junto com outros 27 diretores da antiga Ferme générale foram presos. Sua defesa apelou ao juiz Jean Baptiste Coffinhal, alegando serem os trabalhos e experimentos de Lavoisier úteis ao país, ao que o juiz teria respondido: "A República não precisa de cientistas e químicos". Ele seria considerado culpado das acusações de roubar o povo e o Tesouro (pela sua participação na Ferme générale), de adulterar o tabaco vendido no país (acusado de tal crime pelo jornalista Jean Paul Marat, assassinado dez meses antes), e de ter repassado a estrangeiros grandes somas de dinheiro público (o apoio dado a pesquisadores estrangeiros fora e dentro da França). Todos os 28 acusados foram julgados e guilhotinados no mesmo dia.

Lavoisier deixou um legado volumoso para a ciência e a filosofia em muitos campos. Sua importância foi reconhecida ainda durante o período revolucionário, quando, um ano e meio depois da sua execução, seus pertences foram entregues a Marie-Anne, com uma nota que dizia "À viúva de Lavoisier, que fora falsamente condenado". Lagrange disse: "Bastou a eles um segundo para cortar sua cabeça, e cem anos não bastarão para produzir outro igual".

E, afinal, depois de mergulhar numa espiral de violência revolucionária pela queda da monarquia e a tomada do poder pelo povo, a França acabaria abraçando, 10 anos depois da morte de Lavoisier, um novo monarca, Napoleão Bonaparte. O que os revolucionários tentaram introduzir de novo acabou resultando em algo muito parecido (apenas aproveitando-se de uma estrutura administrativa mais moderna) com o que era antes. Nada se cria, tudo se transforma.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Scarface

Em 4 de maio de 1932, Al Capone foi admitido na Penitenciária Federal de Atlanta para o cumprimento de pena relativa a cinco condenações por evasão fiscal.

Alphonse Gabriel Capone, nascido em Nova Iorque em 1899, começou a carreira como membro de gangues de adolescentes que praticavam roubos, e seguiu como segurança em bordéis dirigidos pela máfia novaiorquina (um grupo de origem irlandesa conhecido como Five Points Gang que operava em Manhattan). Certo dia, Capone insultou uma mulher na porta de uma boate. O irmão da moça, Frank Gallucio, lhe desferiu uma facada no lado esquerdo do rosto, e Capone ficaria conhecido dali para frente, alternativamente, como "Scarface" (ele alegava ser uma cicatriz de um ferimento da guerra). Mais tarde, ele empregaria Gallucio como seu segurança pessoal.

Aos 20, Capone deixou Nova Iorque a convite de um imigrante italiano, Johnny Torrio, que fora chamado pelo compatriota James Colosimo, mafioso de Chicago, para fazer o "trabalho sujo". Capone continuou trabalhando como segurança em casas noturnas controladas por Colosimo. Em 1920, o "chefão" foi assassinado, provavelmente por capangas de Torrio (possivelmente, mas nunca provado, Al Capone estava entre eles). Com Torrio assumindo o controle da máfia, Al Capone foi promovido a seu braço direito.

A proximidade do poder, para a máfia, representava uma potencialização do risco de morte. A máfia dirigida por Johnny Torrio tinha como principais concorrentes, na parte norte da cidade, uma gangue irlandesa comandada por Dean O'Banion. Quando Torrio decidiu eliminar O'Banion (assassinando-o na loja de flores que usava como fachada para seus negócios), os irlandeses começaram a coordenar esforços para eliminar os rivais italianos. Capone foi vítima de um atentado em 1925, ao qual escapou ileso, e duas semanas depois foi a vez de Torrio ser alvejado 7 vezes. O velho "padrinho" sobreviveu, mas se retirou dos negócios, entregando o controle da máfia a Al Capone.

Torrio, e depois Capone, faziam dinheiro com o contrabando de bebidas. Seguindo um movimento ultra-conservador de origem cristã, os Estados Unidos, progressiva mas pontualmente, passaram a proibir, em vários graus, o consumo de bebidas alcoólicas conforme previsto na XVIII Emenda Constitucional, ratificada pela presidência em 1917. Como a regulamentação da Constituição Federal nos Estados Unidos é feita de maneira independente pelos estados, a proibição variava desde a proibição do consumo de determinados tipos de bebida em locais públicos até a completa ilegalidade do comércio de bebidas. O estado de Ilinois estava entre os que a proibição era quase total - era permitida a venda e consumo apenas em estabelecimentos cadastrados, porém estrangulada por uma limitação na produção e distribuição regular. Como é possível proibir uma prática, mas impossível de impedí-la quando esta tem um vasto alcance e profundidade cultural numa sociedade, a demanda por bebidas alcoólicas levou rapidamente à organização de mercados negros, que, sem regulação, disputavam espaço uns com os outros na base da violência. Em Chicago, particularmente, a máfia, cujos ganhos se baseavam na venda clandestina de bebidas, tinha à disposição uma vasta rede de ferrovias e rodovias pelo interior dos EUA e até pelo Canadá, por onde poderiam transportar seus produtos, dificultando a fiscalização e tornando a cidade uma espécie de hot spot para o crime organizado.

Al Capone firmava seu pé como principal mafioso de Chicago impondo-se com uma violência à qual mesmo as gangues locais e seus associados não estavam acostumadas. Usando o excedente arrecadado com a venda de bebidas, ele subornava policiais e políticos para garantir proteção; os estabelecimentos que se recusassem a comprar sua mercadoria sofriam explosões "acidentais" (na década de 1920, perto de 100 pessoas morreram nesses "acidentes"). Capone também investia na abertura de novas boates, que se tornariam pontos regulares de consumo do seu produto contrabandeado. Fazia também vultuosas doações a políticos. O prefeito eleito em 1927, William Hale Thompson, teria recebido 250 mil dólares do gangster para sua campanha eleitoral, sinalizando, em troca, a reabertura de casas noturnas fechadas por irregularidades. No condado de Cook, do qual Chicago faz parte e onde Thompson tinha enorme influência, sessões eleitorais com maior número de eleitores contrários a ele foram atacados por James Belcastro, especialista em bombas a serviço de Capone; um líder da comunidade negra local e adversário político, Octavius Granady, foi perseguido na rua e assassinado por Belcastro e quatro policiais, mas o processo contra o grupo foi arquivado. Quando Belcastro foi ferido num tiroteio em 1931, a polícia divulgou que ele agia por conta própria.

Com os rivais em cheque, a polícia e a classe política nas mãos, e, consequentemente, saudado pela imprensa como um jovem empreendedor de sucesso, Capone se tornaria rapidamente uma celebridade inconteste e de fama nacional. Promovia e era convidado a eventos que contavam com a alta sociedade local, em que se exibia com ternos impecáveis, jóias, consumindo charutos e bebidas finas (obtidas legalmente), além de belas mulheres. Quando questionado sobre a natureza de seus negócios, respondia: "Sou apenas um homem de negócios, dando às pessoas o que elas querem". Receber Al Capone era um evento capaz de elevar o status de um restaurante, um hotel, ou ruas inteiras onde tomasse residência - com receio de ataques das gangues rivais, Capone mudava-se constantemente.

Além de comprar pessoas, Capone mantinha seus negócios, a origem, e mesmo o montante da sua fortuna em sigilo. Como se tratasse de dinheiro ilícito, ele fugia do sistema financeiro para evitar ser pego pelo fisco, jamais abrindo uma conta em qualquer banco. Os investimentos em imóveis (que adquiria em cidades diferentes de norte a sul do país) eram feitos em nome de laranjas. Capone era "invisível" para a justiça porque seu dinheiro nunca entrava no "sistema", e sua penetração no jogo político através de propinas inibia qualquer iniciativa de investigação sobre suas atividades. Mas sua sorte mudou quando decidiu dar o golpe final na gangue irlandesa que fustigava seus negócios na cidade.

Na manhã do dia de São Valentim de 1929, capangas de Al Capone, vestidos como policiais, deram uma falsa batida no armazém usado pelo chefão irlandês, Bugs Moran (sucessor de Dean O'Banion). Sete pessoas ali presentes, acreditando ser um procedimento policial, se renderam sem oferecer resistência; foram alinhados contra uma parede, e então metralhados. A imprensa divulgou fotos dos mortos, chocando a sociedade de tal maneira que Capone foi enfim formalmente acusado de violar as leis de proibição ao álcool - ele escapou do julgamento dizendo que não se sentia bem para comparecer ao tribunal na ocasião (semanas antes, ele participara da Conferência de Atlantic City entre líderes de famílias de mafiosos de todo o país, para arbitrar disputas e decidir regras de conduta entre gangues rivais, bem como as maneiras como deveriam conduzir suas relações com o poder público; semelhante reunião aconteceria novamente em Havana, em 1946, para discutir meios de legalizar seus negócios). No entanto, mesmo irrigando uma rede de corrupção, a opinião pública e a sua relação com a imprensa - que o declararia, em 1931, "Inimigo Público Número 1" - jamais seria a mesma.

Enquanto isso, Eliot Ness, jovem economista que trabalhava como investigador para o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, e natural de Chicago, foi escolhido para organizar uma força-tarefa para levantar as responsabilidades de Al Capone nos crimes de evasão de divisas e violação das leis de proibição. Fazendo um levantamento meticuloso entre os oficiais da polícia de Chicago, ele escolheu 11 homens que seguramente não receberam propina de Capone - "Os Intocáveis". Apesar de engenhosos esforços para encontrar relações de Capone com o crime organizado, ele finalmente conseguiu levá-lo a julgamento apenas por evasão fiscal.

Depois de vários julgamentos entre 1929 e 1932 que foram anulados ou em que fora absolvido, Al Capone foi considerado culpado de 5 das 22 acusações de sonegação (em parte porque seus advogados insistiam na tese espúria de que Capone era desprovido de bens e posses devido a pesadas perdas no jogo), e condenado a 11 anos de prisão. Sifilítico desde a juventude, seu estado mental se deteriorou rapidamente na cadeia. Ficou preso na Penitenciária Federal de Atlanta, em Alcatraz e em Terminal Island. Ele foi solto em 1939 e imediatamente internado para tratamento da demência associada à sífilis em Baltimore. Passou os últimos anos recluso na sua mansão em Palm Island, Flórida. Morreu após um infarto em 25 de janeiro de 1947. Apenas anos após sua morte, Al Capone foi responsabilizado por atividades criminosas em Chicago, incluindo contrabando e assassinato (pelo menos 33 pessoas foram mortas sob suas ordens).

A prisão de Capone, se não levou ao fim da máfia de Chicago, a fez operar de maneira muito mais discreta, ainda que com a complacência do poder público local que dela ainda se abastecia. Com a retomada do comércio legal de bebidas alcoólicas, os chefões passaram a apelar para grandes esquemas de lavagem de dinheiro usando cassinos e remessas de dinheiro ao exterior sob empresas de fachada (algumas gangues menores optaram pelo tráfico de drogas, que os chefões da máfia haviam de maneira geral proibido em Atlantic City). No entanto, um dos capangas mais próximos a Capone, Tony Accardo (que era conhecido no meio pelo uso do taco de baseball como arma de preferência - "Joe Batters", o "João do Taco" - e embora compartilhemos do sobrenome, ele não seja meu parente) continuou reinando na cidade até início dos anos 1960, e morreu em 1992 com grande parte da sua fortuna perfeitamente legalizada.

Eliot Ness morreu em decorrência do alcoolismo (ironicamente) em 1957, mas chegou a publicar uma autobiografia, intitulada Os Intocáveis, onde o clímax é a investigação e condenação de Al Capone. Sua história seria adaptada em uma série homônima de TV entre 1959 e 1963, e em um filme em 1987 dirigido por Brian de Palma, com atuação memorável de Robert de Niro (que vivera um jovem Vito Corleone em ascenção no filme O Poderoso Chefão II) como Al Capone.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

A Guerra de Tróia

Segundo a datação baseada nas concatenações de Eratóstenes, que coincide com o período em que o estrato VII do sítio arqueológico de Hissarlik teria sido catastroficamente queimado, o dia 24 de abril de 1184 a.C. teria sido o dia em que uma grande confederação micênica destruiu a cidade de Tróia.

As fontes primárias do que sabemos de Tróia são os poemas épicos de Homero, Ilíada e Odisséia, cujos supostos fatos históricos estão costurados com mitos, recursos estilísticos, licenças poéticas, anacronismos, e possivelmente, com outros episódios históricos de sítios e batalhas anteriores ou posteriores. A identificação do sítio de Hissarlik (que em turco significa "Lugar da Fortaleza"), no litoral da Turquia, como a mais provável localização da antiga Tróia, nos dá os dados mais objetivos do que pode ter acontecido. O local, hoje situado a 6,5 km da costa, havia sido habitado sucessivamente por diversas culturas desde o Neolítico, e destruído várias vezes. O estrato VII corresponde ao maior perímetro alcançado por uma cidade naquele local, construído sobre uma colina formada sobre ruínas anteriores, e teria sido destruído na época em que se supõe que a Guerra de Tróia tenha acontecido. O conhecimento, ou a atribuição desta localidade a Tróia parece ter subsistido por muito tempo, pois há indícios de que Alexandre da Macedônia passou ali para prestar tributo 800 anos depois da data suposta para a destruição da cidade. Há muita contextualização histórica sobre o que pode ou não ter acontecido, juntando a literatura pré-clássica com a arqueologia e o que se conhece do mundo ao redor de tudo isso.

A civilização micênica consistia de uma colcha de retalhos de pequenos reinos e cidades-estado que cobriam o Peloponeso e o sul da Grécia, e que, no seu apogeu, estendia sua esfera de influência sobre Creta, ilhas do Egeu e do Mar Jônico. O nome da civilização deriva da sua cidade mais importante, Micenas, no oeste do Peloponeso, que floresceu com o comércio marítimo, especialmente após o primeiro colapso da civilização minoica, na Ilha de Creta, a partir de 1450 a.C.. A Guerra de Tróia aconteceu no momento em que o mundo micênico estava para ser alterado profundamente com a gradativa e particularmente violenta invasão da tribo dos dórios, vindos do norte. Esses dórios, falantes de um dialeto grego, obliterariam a Grécia de tal maneira que o outrora opulento mundo micênico, produtor de obras arquitetônicas e artísticas sem paralelos no Mediterrâneo do seu tempo, permaneceria praticamente em "silêncio" por cerca de 600 anos, deixando um vácuo de poder no Mediterrâneo que seria preenchido pelos fenícios. A guerra teria sido, em última análise, provocada pelo estrangulamento da economia micênica na Grécia devido ao avanço dos dórios, e então os aliados micênicos (os "Aqueus" de Homero) procuraram abrir caminhos para a expansão econômica em direção à Ásia. Mas Tróia estava no caminho, capitaneando uma outra confederação de pequenos reinos no noroeste da Turquia (a "Trôade"), dominando as rotas comerciais que vinham do Império Hitita, no leste, e chegavam ao Mediterrâneo.

A versão poética de Homero coloca a Guerra de Tróia como o clímax de uma disputa entre deuses; Helena foi um dos três bebês nascido de um ovo posto por Leda depois de ser seduzida por Zeus transformado em cisne. Seus irmãos, Cástor e Pólux, nascidos para serem atletas e guerreiros extraordinários (com a participação em vários ciclos mitológicos, como a expedição dos argonautas), resgataram a pequena Helena, reconhecidamente a mulher (embora tivesse talvez 10 anos de idade) mais bela de toda a Grécia, quando foi raptada pelo herói Teseu, e levada em segurança a Esparta. Ali, foi tomada em casamento pelo rei Menelau, personagem de personalidade fraca e dependente, que enviara seu ousado irmão Agamenon, rei de Micenas, para participar do concurso de lutas e habilidades mediados pelos irmãos da princesa - Agamenon receberia a mão da meia-irmã de Helena, Clitemnestra. 

Quando chegou-se a este estado de coisas, Zeus havia organizado um banquete de casamento ao herói Peleu e à deusa Tétis (pais do herói aqueu Aquiles), porém a deusa da discórdia Éris não fora convidada. Ela se apresentou ao banquete com uma maçã de ouro, que seria entregue à mais bela das deusas. Como Hera, Atena e Afrodite se candidatassem e houvesse desacordo sobre qual das três mereceria o prêmio, Zeus escolheu o príncipe troiano Páris para julgá-las, pois ele já havia provado ser justo em julgamentos anteriores. As três deusas desfilaram diante do mortal, mas foi preciso que ele as examinasse uma a uma, nuas. Na ocasião, cada deusa tentou persuadi-lo com uma recompensa pela sua escolha: Hera ofereceu a ele o poder sobre todos os reinos da Europa e da Ásia; Atena lhe ofereceu sabedoria e habilidade na guerra para que suas conquistas não tivessem limites; Afrodite prometeu a Páris a mão da mais bela mulher do mundo, Helena. A deusa do amor foi a eleita.

Atena e Hera não deixariam barato. Quando Páris foi enviado por seu pai Príamo, rei de Tróia, em missão diplomática a Esparta, o príncipe foi arrebatado por Helena, e, possivelmente após tê-la violentado, fugiu com ela de volta a Tróia. Como a cidade asiática fosse poderosa demais para o exército de Menelau sozinho - e como Menelau não tinha o respeito de seus pares - ele recorreu a Agamenon para arregimentar e liderar uma confederação helênica contra Tróia para resgatar Helena e vingar a sua desonra. A partir do posicionamento de Afrodite a favor de Páris, e Atena e Hera junto aos aqueus, todos os deuses do Olimpo, semideuses e heróis míticos tomariam partido de um lado ou de outro.

Os 1186 navios contados por Homero no porto de Áulis (teriam sido mais se o rei de Creta tivesse enviado as 50 naus que prometera, e não apenas uma transportando 49 miniaturas de barro) ficaram presos ali por falta de ventos até que o adivinho Tirésias revelou que Agamenon precisaria sacrificar uma filha para aplacar a deusa Ártemis - a morte da pobre Ifigênia é o tema da trágica Ifigênia em Aulis, de Eurípides. Entre a reunião em Áulis e a chegada às praias de Troia teriam transcorrido quase 10 anos. Os eventos da Ilíada correspondem ao último ano da guerra, especificamente os 52 dias entre o desembarque das tropas até a morte do príncipe troiano Heitor, capitão das defesas da cidade, pelas mãos do enfurecido Aquiles. O poema seguinte, Odisseia, encontra Odisseus embarcando em sua jornada de volta para casa depois da guerra. O momento da queda de Troia, curiosamente, não é narrado "ao vivo" em nenhuma das fontes (apenas em retrospectiva no segundo poema), mas ela teria ocorrido quando, depois da morte de Aquiles, seu guerreiro mais poderoso, e diante de um impasse, já que as defesas da cidade não davam sinal de que cairiam (Tróia ainda recebia reforços vindos do interior e do estrangeiro), Odisseus surgiu com a ideia de construir um cavalo com a madeira dos barcos parados na praia e presenteá-lo aos inimigos. Com a praia vazia, os troianos foram convencidos de que os aqueus haviam ido embora e levaram o cavalo para o interior das muralhas. Uma vez lá dentro, à noite, guerreiros gregos escondidos no estômago da estátua saíram e destruíram a cidade por dentro. Helena foi enfim resgatada e trazida de volta a Menelau, que passara a maior parte do ataque escondido em sua tenda, delegando comando a Agamenon. A Odisseia, acompanhando o filho de Odisseus, Telêmaco, em busca de informações sobre o paradeiro do pai, revela uma Helena enfadada da vida com Menelau.

De qualquer maneira, a queda de Tróia, que poderia ter representado o apogeu, ou uma nova era para a civilização micênica, pode ser tratada como o seu canto do cisne, uma vez que as invasões dóricas, propiciadas por graves crises sociais e econômicas em Micenas e todas as outras grandes cidades em volta, varreriam quase toda a Grécia (notadamente, Atenas teria sido poupada) logo em seguida e a transformariam para sempre. A destruição de Tróia teria sido uma medida desesperada. Nos séculos seguintes à invasão dórica e ao colapso de Micenas, povos vindos do mar se abateram desesperadamente contra os reinos cananitas, os hititas e o Egito, e alguns conjecturam que esses "Povos do Mar", como os egípcios os chamavam, seriam os povos, incluindo os aqueus, deslocados pelos invasores dóricos na Europa e no Mediterrâneo.

Os poemas de Homero com certeza foram construídos e preservados oralmente por cantores ao longo dos séculos seguintes (colocando em cheque a identidade de "Homero" como apenas uma pessoa), e foram finalmente compilados por escrito entre 600 e 700 anos depois daquele evento. Eles são a última memória daquela civilização. E também são a matéria prima, o mito fundador da identidade helênica, e a matriz de praticamente toda a literatura ocidental até hoje.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

O duelo

O dia 13 de abril marca a data em que Miyamoto Musashi derrotou Sasaki Kojiro no famoso duelo entre os dois samurais na ilha de Funajima, em 1612.

Musashi já era um espadachin célebre. Tendo sobrevivido à violenta Batalha de Sekigahara ainda na adolescência, na qual lutou pelo lado derrotado, Musashi vagou pelo centro do Japão desenvolvendo sua técnica de luta. Ele já havia derrotado espadachins famosos ainda jovem, e derrotou sozinho toda a escola Yoshioka de artes marciais, em Kyoto - diz-se que, após derrotar dois dos irmãos Yoshioka, o terceiro armou uma cilada, da qual Musashi teve que derrotar-lo e abrir caminho entre os seguidores que haviam se escondido para matá-lo e fugir. Foi nessa ocasião em que ele desenvolveu seu estilo particular de luta com uma espada longa numa mão e uma curta na outra, conhecido atualmente como Hyoho Niten-ichi-ryu ("Escola de Estratégia dos Dois Céus em Um"), inédito no Japão. Nos seus duelos (que ele afirmava terem sido 60), ele costumeiramente usava uma espada de madeira - mesmo sem uma lâmina apropriada, frequentemente derrotava os desafiantes com apenas um golpe, às vezes fatal.


Kojiro emergiu como espadachin famoso ao derrotar vários oponentes usando uma nodachi, uma espada 20 cm mais longa que a katana usual, propagando também o nome da sua escola, Ganryu ("Estilo da Grande Rocha"). Ele teria desenvolvido a técnica com a nodachi para responder ao estilo do seu antigo mestre, Toda Seigen, que usava uma antiga kodachi, uma espada mais curta que uma katana, e teria deixado sua academia para fundar sua própria escola após matar o filho de Seigen em duelo. Sua espada era tão longa que ele a chamava "Varal", em alusão a altura do poste que se usava para pendurar roupas, e a lenda dizia que ele treinava abatendo pássaros em voo. Apesar do tamanho e do peso da arma (a nodachi era levada às costas, ao contrário da katana, que era presa à cintura), a sua velocidade era legendária. Em 1610 o daimyo Hosokawa Tadaoki o nomeou chefe-de-armas do seu feudo após ouvir que Kojiro derrotara três oponentes usando um leque. 

Musashi foi atraído pela reputação de Kojiro, e sugeriu por um intermediário ao lorde Hosokawa que organizasse um duelo. No dia marcado (13 de abril), Kojiro chegou à ilha Funajima, próximo ao porto de Shimonoseki, escoltado por seguidores. Musashi, que àquela altura já tinha fama de chegar atrasado aos duelos, fez o de costume, e desembarcou 3 horas mais tarde. Além do atraso, apareceu desarmado, o que ofendeu a entourage do oponente. Porém, durante a viagem, Musashi teria pego um dos remos reservas do barco e esculpido uma espada de madeira mais longa do que o Varal de Kojiro.

Quando desembarcou na ilha, Musashi ofereceu o primeiro ataque ao adversário. Kojiro teria tentado um golpe característico seu, a "cauda de pardal", um golpe de cima para baixo, seguido de um golpe no sentido contrário, rápido e preciso. Preciso o suficiente para arruinar o penteado de Musashi. Ele então ergueu sua espada esculpida e com um golpe só matou Kojiro com uma fratura no crânio. Uma versão diz que ele teria se esquivado até deixar o sol às suas costas, deixando Kojiro momentaneamente cego, e aproveitando-se para desferir o golpe fatal. Os apoiadores de Kojiro imediatamente acorreram para matá-lo, mas Musashi correu para o barco e fugiu da turba furiosa se aproveitando da maré que abaixava no momento. Uma teoria popular é que o atraso de Musashi teria sido calculado com base na maré para facilitar a sua fuga, uma vez que a ilha Funajima é plana e a baixa da maré abriria rapidamente espaço entre o barco e a ilha, e ele sabia que tentariam matá-lo caso vencesse. Outra teoria é de que Musashi teria esperado todo esse tempo para desestabilizar Kojiro, como fizera com vários outros adversários, e a baixa da maré teria sido uma providência fortuita.

Musashi, que também se tornou mestre de artes como a cerimônia do chá e a pintura, seguiu carreira servindo brevemente a outros senhores (ele se envolveu nas duas batalhas decisivas entre Tokugawa Ieyasu e as forças de Toyotomi Hideyori, novamente atuando pelo lado derrotado), e retirou-se na caverna de Reigando, onde escreveu seu derradeiro livro de estratégia, O Livro de Cinco Anéis, e faleceu, possivelmente de câncer, aos 61 anos. Até hoje é um personagem evocado em motivos nacionalistas - um dos dois super-encouraçados da marinha japonesa na Segunda Guerra Mundial (os maiores e mais pesadamente armados navios de guerra construídos até então) foi batizado com seu nome.

Esse é também o clímax da novela Musashi, de Eiji Yoshikawa, que ao longo de 7 volumes (dois gigantescos na edição brasileira) constrói a rivalidade entre os dois espadachins ao ponto em que o duelo é inevitável - o popular mangá Vagabond baseia-se na narrativa proposta por Yoshikawa com algumas liberdades. A ilha de Funajima, hoje conhecida como Ganryujima em memória a Sasaki Kojiro, é um ponto turístico de Shimonoseki acessível de balsa, onde encontra-se uma escultura em tamanho real dramatizando o célebre combate (que reproduz os oponentes com tanto realismo que a própria pegada invertida, que era o segredo do estilo de Kojiro, pode ser vista), uma espécie de "túmulo" onde as pessoas rezam por Kojiro (embora ele não esteja sepultado ali), monumentos, trechos de poemas e gravuras.

quinta-feira, 16 de março de 2017

"E fez o que era mau aos olhos do Senhor"

Em 16 de março de 597 a.C., o exército do rei Nabucodonosor II da Babilônia capturou Jerusalém e levou o rei Joaquim e grande parte da população judaica cativa.

Na tradução judaico-cristã, o reino de Israel teria sido fundado no final do segundo milênio a.C. por Saul, que, com a bênção da classe sacerdotal dos levitas e alguma resistência, unificara em torno de si as tribos hebraicas que havia alguns séculos se estabeleceram entre o Líbano, o Sinai, e os antigos reinos de Moabe, Amom e Edom. O reino atingiu uma estabilidade durante o reinado de Davi, e chegou a seu apogeu sob seu sucessor, Salomão - a importância de Salomão é abstraída da Bíblia, que sugere que ele teria como esposas princesas egípcias e hititas, as duas maiores potências da região no século X a.C., que teria recebido tributo da "Rainha de Sabá" (uma rainha etíope, que, segundo a tradição cristã na Etiópia, teria sido amante e gerado um filho de Salomão, de quem os imperadores etíopes alegavam ser descendentes em linhagem direta), além de obter favores dos reis fenícios, que lhe forneciam madeira do Líbano para a construção do grande Templo em Jerusalém. Após Salomão, a luta por poder e a questão religiosa romperam Israel em duas metades, a metade norte ainda identificada como Israel (com capital em Samaria), e a metade sul, o reino de Judá (centrado em Jerusalém).

Tanto Judá como Israel ocupavam uma faixa de terra que comunica o Egito com o Oriente Médio. É a encruzilhada da principal rota comercial por terra da Idade do Bronze e início da Idade do Ferro. Embora a Bíblia descreva uma miríade de reinos e confira um ar de autonomia às tribos israelitas e aos reinos formados por elas, na prática toda a região esteve, a todo momento, sob o poder direto ou influência econômica e política das super potências da região, alternadamente Egito, Hatti, Assíria, Império Babilônico (no período acadiano), e Neobabilônico (no período caldeu). E a derrota de um deles representava o domínio pelo outro, nunca a liberdade ou a autonomia plena. Mas como, de qualquer forma, a Palestina esteve sempre longe do alcance dos centros de poder desses impérios estrangeiros, para eles sempre foi mais prático manter os reinos locais funcionais e saudáveis prestando-lhes tributo e defendendo terras que entendiam como suas de invasores inimigos do que ocupá-las e construir uma administração própria sobre ela, com todos os problemas que envolvem governar um povo estrangeiro de uma cultura estranha em sua própria terra. Assim, tanto Israel como Judá funcionaram, durante praticamente toda a sua existência, como Estados-tampão que asseguravam privilégios ora de um, ora de outro império mais poderoso, e protegiam indiretamente suas fronteiras contra seus maiores rivais no cenário internacional de momento.

Por mais que a Bíblia fosse escrita por hebreus e para hebreus, construindo uma narrativa heroica do povo de Israel, ela nos serve como referência para alguns acontecimentos históricos que são confirmados por fontes externas. Na verdade, por muito tempo ela serviu como único registro de alguns eventos ou lugares considerados "míticos" até que a arqueologia fizesse seu serviço, como o registro da existência dos hititas (cuja civilização passou a ser conhecida e estudada apenas a partir de fins do século XIX, a despeito de ter sido simplesmente a principal potência econômica e militar do mundo no seu apogeu). Embora eventos como o Êxodo tenham mais evidências contra do que a favor, toda a sequência de acontecimentos narrados nos livros de Reis e Crônicas produzem uma linha do tempo relativamente confiável, e que coincide com registros deixados pelos egípcios e assírios sobre os acontecimentos na Palestina. E usando eventos-chave que podem ser datados com precisão, é possível até determinar o dia em que aconteceram. A queda de Jerusalém, narrada na Bíblia, é confirmada e precisamente datada em crônicas babilônicas. Uma delas fala diretamente do cerco findo em 16 de março de 597 a.C., e dá a dimensão da pequenez de Judá diante dos impérios ao seu redor, quando o cronista caldeu se refere a todo o reino como "Hatti" (em referência ao império hitita do qual fez parte até dois séculos antes), e a Jerusalém como "a cidade de Judá".

Nas últimas décadas de sua existência, o Império Assírio adotou uma postura agressiva na sua competição com o Egito, o que resultou na invasão do Reino de Israel, na queda de Samaria , entre 723 e 721 a.C., e na deportação dos israelitas, dispersos (talvez para sempre) pelas suas principais cidades. Judá foi salvo no último momento, quando, após uma longa campanha, soldados assírios ameaçaram desertar em massa, provocando um recuo repentino. A Assíria mergulharia em uma série de guerras civis e deixaria de existir, suplantada pelos seus antigos vassalos caldeus durante uma longa guerra, entre 620 e 612 a.C.. Estes caldeus, liderados por Nabopolassar, estabeleceram sua capital na Babilônia.

Antes do declínio final, a Assíria havia assumido uma posição tão proeminente que seu apoio foi fundamental para o estabelecimento da XXVI Dinastia no Egito. Durante o colapso do poder em Nínive, o faraó Neco II tomou a iniciativa de apoiar seus antigos aliados contra a ameaça comum vinda da Mesopotâmia, mas uma última coalizão de egípcios e assírios foi derrotada em Carquêmis, na Síria, em 605 a.C., abrindo caminho para os caldeus montarem uma ofensiva contra o Egito e assegurar seu poder sobre o Crescente Fértil.

Com o reino de Israel desfeito pelos assírios, o Reino de Judá subsistia sob a influência egípcia. O rei judeu Jeoaquim havia sido apontado ao trono sob a bênção do faraó em 609 a.C.. O próprio Neco II mudara seu nome de Eliaquim para Jeoaquim no ato da investidura do trono; anteriormente, seu pai, Josias, fora levado preso ao Egito e seu tio nomeado rei em seu lugar (apenas para ser deposto pela facção egípcia três meses depois). A derrota em Carquêmis significou que a força que escorava a autoridade de Jeoaquim não existia mais. Nabucodonosor II, sucessor de Nabopolassar, na sua ofensiva contra o Egito, precisava passar por Judá. Seu exército, que arrasava cidades filisteias no litoral, chegou a Jerusalém talvez em 604 a.C.. Desesperado, Jeoaquim firmou uma aliança com os babilônicos, entregando-lhes uma importância em tesouros e nobres cativos e garantindo sua passagem em segurança para o Egito. Nabucodonosor se retirou e aproveitou a cabeça de ponte providenciada pelos novos aliados judeus para atacar o Egito, mas a campanha fracassou em 601 a.C.. O vacilante Jeoaquim provavelmente entendeu que essa derrota significaria o ressurgimento dos seus "padrinhos" egípcios, e deixou de enviar tributos a Babilônia, oferecendo aliança novamente a Neco II.

Porém, Egito não iria mais protegê-lo, e Nabucodonosor enviou seu exército para Judá em 598 a.C. Jeoaquim morreu em uma emboscada no final daquele ano e foi sucedido por seu filho Joaquim (ou Jeconias). Joaquim herdara a "dívida" do pai. Após três meses de sítio, talvez pressionado e impossibilitado de reverter a situação ou sustentar o cerco por muito tempo (ou, dependendo do texto bíblico, por ser apenas um garoto de 8 anos!), Joaquim capitulou, entregando-se aos comandantes caldeus. Junto com ele, Nabucodonosor prendeu e conduziu à Babilônia seus parentes mais próximos, nobres e suas famílias, artesãos, e todos os homens e mulheres de posses ou capazes de trabalhar e empunhar armas, além dos tesouros contidos no Templo, deixando a cidade empobrecida e habitada por velhos, inválidos e mendigos. Joaquim (a quem o profeta Jeremias amaldiçoaria em nome de Deus, vedando sua descendência, da qual Jesus faria parte, de sentar-se novamente no trono de Jerusalém), mesmo mantido cativo por mais de 30 anos, acabou tendo uma vida mansa no exílio, com a família sustentada por Nabucodonosor, e mesmo servindo a seu sucessor, Evil-Merodaque (ou Amel-Marduque) como seu conselheiro.

Para manter Judá como Estado-tampão, o soberano da Babilônia nomeou um tio de Joaquim, Zedequias, ao trono. Este Zedequias, mesmo aconselhado pelo profeta Jeremias, sendo jovem e orgulhoso, rebelou-se buscando aliança com o novo faraó Apriés. Isso não impediu os babilônicos de cercarem novamente Jerusalém, um cerco prolongado de 30 meses que teria levado os habitantes à miséria e talvez ao canibalismo. Ao final, com a resistência rompida e os inimigos invadindo a cidade (que foi arrasada, e seu Templo destruído), Zedequias tentou fugir com seus familiares, mas foi capturado e obrigado a ver seus parentes serem executados selvagemente, antes de ter os olhos arrancados e ser arrastado para a Babilônia. Judá foi tornada uma província totalmente integrada à administração neobabilônica, governada diretamente por um designatário de Nabucodonosor, um hebreu chamado Gedalias, e guardada por um destacamento do exército caldeu. Jerusalém nunca mais viu um rei da linhagem de Davi.

A existência da Arca da Aliança é uma questão de fé, porque tal artefato tão extraordinário não é mencionado em nenhum lugar fora da Bíblia, nem sequer entre os filisteus, que a teriam capturado e guardado como um tesouro valioso. Supondo ela ter existido, ela deixa de ser mencionada na Bíblia muito antes destes acontecimentos. Na última menção a ela, estava guardada no Santo dos Santos, um cômodo no interior do Templo de Salomão ao qual a Bíblia dá uma descrição particularmente rica. Por isso, é ponto pacífico que ela tivesse permanecido inviolada no Templo desde a sua construção. A Bíblia, contudo, não registra o momento em que ela desaparece. Uma das possibilidades é que ela tenha sido levada para a Babilônia como parte do tesouro do templo na primeira conquista de Jerusalém (na data de hoje). Outra possibilidade igual é que tenha sido levada, e/ou destruída, quando a cidade caiu pela segunda vez (os babilônios estavam atrás de ouro, e a Arca, embora folheada a ouro, era apenas uma caixa de madeira sem valor simbólico para eles). Os profetas Jeremias e Ezequiel, que foram testemunhas de grande parte deste período, não nos dão qualquer informação a respeito.

A destruição do Templo marca o início da primeira diáspora judaica - embora o grosso da população judaica já estivesse no exílio na Babilônia, a destruição da sua capital e cidade santa os deixou momentaneamente sem um "lar" ao qual pudessem aspirar retornar. Seria um conquistador persa - Ciro - quem comandaria o retorno dos judeus cativos à Palestina e a reconstrução do seu país.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Baronesa do ar

Em 8 de março de 1910, antes desta data ser usada para comemorar o Dia Internacional da Mulher, Elise Raymonde Deroche, conhecida também como "Baronesa de Laroche", se tornou a primeira mulher a receber uma licença para pilotar aviões.

Elise Raymonde Deroche nasceu em 1882 em Paris, filha de um encanador. Criança inquieta, brincava com meninos e praticava esportes. Conforme crescia, seu interesse migrava para veículos a motor, especialmente motocicletas. Aventurou-se brevemente como atriz, conheceu algumas figuras famosas da época. Dizia-se ter um charme arrebatador que lhe abria portas.

Na virada do século, Paris vivia um período de efervescência no campo da mecânica e da engenharia: como forma de incentivo, ricaços locais e associações promoviam competições e distribuíam prêmios para engenheiros que demonstrassem publicamente, com sucesso, suas invenções. Balões dirigíveis produziam espetáculos muito populares, e em 1906, o vôo do 14-Bis - a primeira aeronave mais pesada que o ar a decolar, realizar um voo controlado e pousar, mesmo que atabalhoadamente, por seus próprios meios - construído e pilotado por Alberto Santos Dumont causou enorme impressão. Quase imediatamente engenheiros locais e estrangeiros começaram a apresentar suas próprias versões da máquina voadora, tudo coberto com grande entusiasmo pela imprensa.

Deroche acompanhava tudo com enorme curiosidade, mas só veio a presenciar um voo de verdade quando foi assistir a uma exibição de Wilbur Wright (um dos irmãos Wright, que criaram uma aeronave impulsionada por uma catapulta antes do 14-Bis). Wright permaneceu em Paris por algumas semanas e realizou cerca de 120 demonstrações públicas com seus aviões. Em maio daquele ano uma certa senhorita P. Van Pottelberghe se tornou a primeira mulher a voar em um avião, na Bélgica (como passageira). Na França, um mês e meio depois, foi a vez de Thérèse Peltier voar numa aeronave construída pelo engenheiro Charles Voisin, num voo que durou 30 minutos pilotado pelo escultor Leon Delagrange. Peltier iria além e se tornaria a primeira mulher a pilotar um avião (por 200 metros numa base militar em Turim), e chegara a se inscrever para um prêmio oferecido por Delagrange para a primeira mulher que voasse por mais de 1 quilômetro em voo solo, mas a morte do amigo em um acidente a fez desistir da aviação para sempre.

Porém, as portas estavam abertas. Em 1909, Elise (que também conhecia Delagrange, que teria sido o pai de seu filho André) entrou em contato com Charles Voisin e pediu que a ensinasse a pilotar. Sua iniciativa e jovialidade (à época tinha 21 anos) deve ter encantado Voisin, pois seu irmão Gabriel escrevera que "meu irmão estava inteiramente aos seus pés".

Elise foi até a oficina dos irmãos Voisin em Chalons, a leste de Paris. Ali, um dos mecânicos que atuava como instrutor, um certo senhor Chateau, a orientava enquanto ela taxiava um dos modelos de Voisin pela pista, e depois de alguns minutos (contra a orientação de Voisin), ela acelerou e levantou voo, sobrevoando uma distância de quase 300 metros. No dia seguinte, ela deu duas voltas sobre o campo de pouso de Chalons, sobrevoando 6 quilômetros, manobrando nas curvas com facilidade apesar dos ventos. Como o voo anterior de Thérèse Peltier não fora registrado na imprensa, o feito de Deroche foi publicado na França e na Inglaterra como o primeiro voo pilotado por uma mulher (a revista Flight de outubro de 1909 descreveu Elise como "a primeira aviadora". A revista também a chamou de "baronesa" sem qualquer motivo).

Elise (que naquela altura se apresentava publicamente como Raymonde de Laroche) sofreu uma queda em janeiro de 1910 quando a cauda do seu avião resvalou em uma árvore enquanto descia para a aterrissagem. Como a altitude era baixa, e as velocidades atingidas não eram muito altas, ela escapou com uma concussão e uma fratura no braço. Mas se recuperara, estava de novo no controle de uma aeronave em exibição em Heliópolis, no Egito, quando a Federação Aeronáutica Internacional lhe concedeu a licença número 36.

Depois do Egito, ela voou em São Petersburgo, onde a imprensa russa a apresentava como "Baronesa de Laroche" (ela incorporaria o título fictício pelo resto da vida). O parque de aviação era pequeno, e havia pouco espaço de manobra, já que os aviões não atingiam grandes alturas. Ela sobrevoou árvores, telhados, e teve que atravessar a fumaça negra das fábricas no entorno, e, ao se aproximar para o pouso, desligou o motor a 100 metros de altura, planando até o solo. O próprio Czar Nicolau II veio cumprimentá-la e perguntar como se sentia. "Com o coração na boca". Em outra exibição em Budapeste ela voara por 37 minutos, desviando de chaminés e esgrimando as correntes de ar geradas pelo calor das fábricas.

Voar naqueles primeiros anos era incrivelmente perigoso porque as máquinas eram tudo, menos seguras. Motivo pelo qual os pilotos eram vistos como heróis. A "Baronesa" se acidentou uma segunda vez numa exibição em Rouen ainda em 1910, quando uma forte corrente a obrigou a apontar o nariz para baixo, provocando a queda (ela teve a presença de espírito de manter o motor funcionando, porque se tivesse perdido velocidade, teria caído sobre o público). Ela teve múltiplas fraturas, mas voltou ao ar em alguns meses. Mais um acidente (desta vez, de carro) em 1912 causou mais ferimentos, mas Charles Voisin, que dirigia o veículo, faleceu. Não obstante, Elise voltou aos ares, conquistando um prêmio do Aeroclube da França por fazer um voo solo ininterrupto de 4 horas.

Em 1914 veio a Primeira Guerra Mundial. A Força Aérea Francesa recusou a participação de mulheres em combate, e, de fato, as poucas mulheres habilitadas a pilotar foram obrigadas a ficar em terra, mesmo para voos de demonstração, porque o ar tornara-se "muito perigoso". De forma que de Laroche contribuiu com o esforço de guerra como motorista, levando oficiais para as frentes de combate, não raro tendo que evitar os ataques de artilharia alemães. A guerra levaria a enormes avanços na aviação. Em 1919, com o fim da guerra e liberada do serviço militar, a Baronesa voltou aos ares, pilotando máquinas muito mais complexas e avançadas do que as que tinha aprendido a pilotar. Estimulada a explorar este novo potencial, em junho daquele ano ela estabeleceu dois recordes para mulheres, um de altitude máxima (4800 metros) e outro de distância percorrida (323 quilômetros).

Em 18 de julho ela se ofereceu para ser piloto de testes de um novo protótipo construído por René Caudron em Le Crotoy. Era uma aeronave de dois lugares, mas não existe informação concreta se ela estava no comando ou copilotando. De qualquer forma, na aproximação do pouso, o avião perdeu sustentação e desceu em parafuso em direção ao solo. Raymonde de Laroche morreu na hora, e o seu colega na ocasião a caminho do hospital. Seu corpo está sepultado no cemitério-parque Père Lachaise, em Paris. No aeroporto de Paris-Le Bourget, usado hoje por aeronaves de pequeno porte (onde Charles Lindbergh encerrou sua célebre travessia do Atlântico em 1927), há uma estátua em sua homenagem.

Embora mulheres intrépidas como a Baronesa de Laroche e a americana Amelia Earhart tenham se tornado celebridades da aviação do seu tempo, as mulheres nunca conquistaram muito espaço neste ramo. Em parte, talvez, por causa de restrições militares às mulheres piloto, como a que impediu a atuação de Laroche na Primeira Guerra - os "ases", todos homens, seriam heróis e se tornariam modelos para a profissão. Mesmo hoje, a aviação comercial não se apresenta como uma "coisa de mulher". Em pleno 2016, sete passageiros de um voo entre Miami e Buenos Aires se recusaram a embarcar quando souberam que a comandante e sua copiloto seriam mulheres. No Brasil, atualmente, existem apenas 197 mulheres entre quase 14 mil pilotos habilitados.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

"Esses são meus amigos, os sequestradores"

Hoje é dia de cross posting com o Histórias da Fórmula 1. Há 59 anos ocorreu um dos fatos mais insólitos na história dos Grandes Prêmios. Em fevereiro de 1958 seria disputado o segundo Grande Prêmio de Cuba, nas ruas da capital Havana, prova extra-campeonato que contava com pilotos e carros do Campeonato Mundial de Fórmula 1. A presença mais ilustre era a do já pentacampeão mundial Juan Manuel Fangio, convidado pela organização da prova.

O Grande Prêmio de Cuba havia sido planejado pelo ditador Fulgêncio Batista, à época enfrentando problemas com a guerrilha baseada em Sierra Maestra, o Movimento 26 de Julho, liderado por Fidel Castro, para tentar aumentar o prestígio do seu regime, e, com alguma sorte, atrair as atenções de possíveis aliados para os problemas internos da ilha. "El Chueco" Juan Manuel Fangio se tornou, involuntariamente, uma peça chave nos esquemas do ditador... e dos guerrilheiros.


Na noite anterior ao Grande Prêmio, Fangio se reunia com seus mecânicos no saguão do Hotel Lincoln, e estava confiante na vitória no dia seguinte. De repente, um homem armado com uma pistola 45 mm irrompeu, apontando a arma para Fangio e dizendo: "Desculpe Juan, mas terá que me acompanhar." Era um membro do Movimento 26 de Julho. Todos permaneceram imóveis. O piloto Alejandro D'Tomaso, que estava presente, fez um breve movimento com as mãos, ao que o sequestrador respondeu aos berros: "Cuidado, se mexer eu atiro! Outro movimento e os mato!" Fangio, no entanto, parecia tranquilo, e não resistiu (de princípio, pensava ser um trote do seu empresário, que estava presente). O homem armado, com a arma apontada para suas costas, o levou para fora do hotel até a esquina, onde um carro os esperava.


Após uma hora escondido no chão do carro, Fangio chegou ao lugar que supunha ser o cativeiro. Entrou em uma casa por uma escada de incêndio. Em um quarto, uma mulher com um filho, em outro, um homem ferido. Os homens saíram, deixando dois companheiros de guarda do argentino. Momentos depois, o levaram novamente a um novo veículo, que o conduziu, de olhos vendados, até uma casa num bairro nobre de Havana. Ali havia muita gente festejando o sucesso da operação. Alguns pediam autógrafos. E El Chueco, amigável, chegou a reclamar que não havia jantado ainda.
Aliás, um ato de terrorismo logo se transformou numa das lembranças mais agradáveis da carreira de Fangio. Embora El Chueco nunca se definisse politicamente, na ocasião simpatizava com movimentos de esquerda e sabia da situação ruim que a ilha vivia desde o golpe de Batista em 1952. Naquela noite, a dona da casa lhe serviu batatas fritas com ovos, que ele comeu com gosto. Na manhã seguinte, o revolucionário Faustino Perez, um dos mentores de toda a operação, lhe trouxe os jornais, e atendeu imediatamente o pedido do argentino de que avisasse a sua família sobre o ocorrido. Ele apenas se recusou a assistir a corrida pela TV. O circuito, montado na parte costeira da capital, possuía um salto numa reta que fazia seu Maserati 450S quase se desmanchar ao tocar o solo. A corrida foi interrompida por causa de um acidente com dois carros (6 pessoas morreram, 40 feridas), e Fangio, depois, pensou que o destino lhe enviara os sequestradores para poupá-lo dos perigos do percurso. "Senhores, vocês me fizeram um favor", disse aos raptores.


O objetivo do grupo era manter Juan Manuel Fangio em cativeiro até o término da corrida. Terminado o prazo, pensaram em como libertá-lo sem correr riscos, pois uma morte acidental de Fangio num tiroteio (ou até se fosse assassinado por homens do ditador) faria muito mal à imagem do Movimento. Então Fangio sugeriu que o levassem até a embaixada argentina (cujo embaixador era primo de Che Guevara). Ao ser deixado lá por uma mulher e dois jovens, Fangio, sorridente, os anunciou: "esses são meus amigos, os sequestradores", e obteve garantias de que nenhum mal seria feito a eles naquele local. Foram 26 horas de cativeiro.


Do dia para a noite, Fangio se tornou muito popular nos Estados Unidos, que acompanhavam com apreensão os acontecimentos em Cuba (estranhamente, Fidel Castro era uma figura bastante popular entre os jovens americanos, antes de firmar acordos bélicos com a União Soviética). O argentino notou, posteriormente, que "depois de 5 vezes campeão mundial, de ter vencido em Sebring, foi o sequestro em Cuba que me fez popular nos Estados Unidos".


Os revolucionários venceram esse jogo, pois Fangio se tornou uma espécie de embaixador do movimento ao mostrar para a imprensa de todo o mundo que o seu seqüestro não foi algo tão hediondo, e que as intenções dos revoltosos eram boas. A repercussão foi positiva para o Movimento 26 de Julho.


Seu envolvimento com a Revolução não acabou ali. Ainda naquele ano, intercedeu ao general Miranda para que o rapaz que o raptara no hotel, então preso, não fosse maltratado. Quando Fidel Castro assumiu o poder, enviou um convite a Fangio para uma visita a Havana, que ele não pôde atender. No aniversário de 25 anos da Revolução, o argentino recebeu um telegrama de Fidel com saudações de "seus amigos, os sequestradores", recordando que "mais do que um sequestro e detenção patriótica, serviu, junto com sua nobre atitude e justa compreensão, à causa de nosso povo, que sente por você grande simpatia, e em nome da qual o saudamos por um quarto de século." Recebeu uma carta semelhante do governo cubano na ocasião do seu 80º aniversário, novamente remetida pelos "seus amigos, os sequestradores"


Hoje, na entrada do Hotel Lincoln, há uma placa de bronze, onde se lê: "Na noite de 24-2-58, neste mesmo lugar, foi sequestrado pelo comando do Movimento 26 de Julho, dirigido por Oscar Lucero, o cinco vezes campeão mundial de automobilismo Juan Manuel Fangio. Isso significou um duro golpe propagandístico contra a tirania batistiana e um importante estímulo para as forças revolucionárias."