Em 8 de novembro de 1519, o conquistador espanhol Hernan Cortés chegou a Tenochtitlán para se encontrar com o imperador azteca Montezuma II.
A chegada de Cortés a Tenotchitlán é o evento mais importante do processo de ocupação e controle da Espanha sobre a Mesoamérica. A civilização azteca, que se espalhava sobre os territórios de povos "aliados" (a maioria submetidos à força) entre o centro e o sul do México, foi a primeira das civilizações mesoamericanas a tombar diante do poderio bélico da Espanha, e essa região do mundo (entre o México e o norte do Chile), com suas riquezas em metais preciosos, sua infraestrutura e organização social, transformaria aquele país europeu em uma super potência por quase 200 anos.
O encontro de Cortés e Montezuma não aconteceu ao acaso. Desde que a expedição de Cortés (com 630 homens em 11 navios) foi avistada na costa de Yucatán, espiões aztecas mantiveram seu imperador informado de tudo que acontecia. A expedição espanhola, após fundar o assentamento que se tornaria a cidade de Veracruz (neste momento, Cortés cortou relações com seu superior, o governador das Índias Diego Velásquez de Cuellar, seu parente, porque era prerrogativa do governador a fundação de novas colônias; ali Cortés foi declarado um "amotinado" e, para evitar que seus homens debandassem diante da situação, mandou desmontarem seus navios) recebeu a visita de dois diplomatas aztecas. Os aztecas continuaram mantendo contado com os estrangeiros, trocando presentes e tecendo elogios (em um momento Cortés se virou a seus homens e disse, com a ajuda de um tradutor, que os nativos os consideravam como deuses). Os emissários, contudo, tentavam dissuadir os espanhóis de irem a Tenochtitlán, mas os presentes e os elogios eram interpretados como um convite. De qualquer forma eles entendiam que, para se aproximar de Montezuma, teria que ser pelos seus inimigos: eles ofereceram apoio a uma coalizão de tribos menores que resistiam à assimilação azteca, participando de algumas batalhas. Enquanto isso, Cortés enviava solicitações para uma audiência com Montezuma, o que ele insistentemente recusava.
Hernán Cortés veio de uma família modesta na pequena vila de Medellin, sudoeste da Espanha. Estudou com um tio em Salamanca e trabalhou como notário. Com a descoberta da América por Cristóvão Colombo, o governo espanhol passou a patrocinar incursões para reconhecimento das novas terras, estabelecimento de relações com seus habitantes, e a sondagem de suas riquezas, usando assentamentos já existentes como bases de operações e a fundação de novos mais adiante (expedições conhecidas como "entradas"). Cortés, que não possuía bens ou terras de que pudesse usufruir, foi atraído para este tipo de empresa - ele também teria circulado pelos portos de Sevilha, Cádiz, e outros, ouvindo histórias de marinheiros sobre as possibilidades e riquezas nas novas terras. Aos 18 anos conseguiu passagem para Hispaniola (ilha onde estão Haiti e República Dominicana), possivelmente graças a Velásquez, que depois lhe concedeu uma "encomienda" (uma propriedade e um grupo de nativos empregados em trabalhos forçados). Cortés permaneceu 15 anos nas Índias Ocidentais, ocupando cargos públicos nas colônias, participando de batalhas contra nativos, e administrando suas novas propriedades. Mas expedições espanholas já haviam provado que a América guardava muito além do que as pequenas ilhas de Hispaniola e Cuba (de cuja capital era prefeito). Seu biógrafo o descrevia como "impiedoso" e "traiçoeiro". De fato, seu conhecimento das leis adquirido enquanto notário o fizeram romper com o governador das Índias assim que viu a possibilidade de fundar uma colônia por conta própria, submetendo-se diretamente ao rei Carlos I (o mesmo rei Carlos V do Sacro Império Romano, que herdara o trono espanhol), alegando que Velásquez agia em benefício próprio, não em prol da Coroa.
As fontes sobre Montezuma são vagas, quase todas registradas sob ponto de vista dos espanhóis. Bernal Díaz, companheiro de Cortés, o descrevia como um homem de boa constituição, pele clara, barba rala e estreita, senhor de um harém de concubinas e duas esposas, e cercado por uma corte de dois mil nobres que habitavam seu palácio. O Império Azteca, costurado à base de força e alianças de conveniência, estava em seu apogeu. Além de manter seus aliados sob controle, os aztecas precisavam manter um exército constantemente mobilizado para conter os ataques de uma confederação de Nahuas, Mixtecas e Zapotecas, que por 75 anos resistiram à assimilação. Estas mesmas a quem Cortés oferecia ajuda.
Os cronistas espanhóis sugeriram que Montezuma nutria interesse pela expedição de Cortés por conta de uma suposta crença no retorno do deus Quetzalcoatl (que teria nascido e depois navegado para o leste em anos que corresponderiam, nos ciclos solares do calendário azteca, ao ano da expedição, 1519), e que Cortés seria este deus incarnado. A influência deste mito nos acontecimentos que se seguiram é muito questionada atualmente no meio acadêmico porque são muito escassas as fontes nativas a respeito da sua importância, mas continua propagado como o motivo para a atitude desconcertantemente afável de Montezuma diante daqueles estrangeiros. Se a religião, que era um pilar central na sociedade azteca, teve algum papel naquele cenário, foi o de servir como argamassa para a coesão dos diferentes povos que constituíam o império azteca - bem como um dos fatores que uniam seus inimigos.
Quando Montezuma convocou Cortés para uma audiência, os espanhóis tinham um grande exército engordado por milhares de guerreiros nativos. Ele havia acabado de atacar a cidade de Cholula (a segunda maior do centro do México, sob jurisdição azteca), onde estava hospedado, massacrando 3 mil pessoas e incendiando templos e palácios para demonstrar sua força e intimidar Montezuma. Cortés levou todo o seu exército para a capital azteca, temendo uma armadilha.
Contudo, ao entrar na cidade - construída sobre uma ilha no meio de um lago, conectada às terras no entorno por pontes - foi recebido calorosamente por Montezuma em pessoa e os reis das principais cidades aliadas, mas não foi permitido que Cortés o tocasse. Meio desconcertado, Cortés trocou presentes com o anfitrião. Montezuma o presenteou com um calendário em forma de disco de ouro, e outro de prata, que Cortés depois derreteu. Ele e os outros espanhóis foram cobertos com jóias de ouro e pedras preciosas, e adornos com penas. Depois, já no palácio que pertencera a Axáyacatl, pai do imperador azteca, preparado para receber Cortés como hóspede, Montezuma discursou diante da corte e do seu convidado, dizendo:
"Tu graciosamente desceste à terra, tu graciosamente te aproximaste de tua água, tu chegaste à tua porta, teu trono, que eu brevemente guardei para ti, eu que o guardava para ti. (...) Tu graciosamente chegaste, tu conheceste a dor, tu conheceste o cansaço, agora vem à terra, entra em teu palácio, descansa teus membros"
Montezuma chegou a oferecer o trono a Cortés. O espanhol acreditou até o fim que as palavras e atitudes de Montezuma eram literais, ou seja, que o monarca, diante da força dos espanhóis, ou influenciado por superstições, havia entregue de boa vontade seu império ao rei Carlos V, a quem representava. Todo o movimento de Cortés depois disso teve como base e justificativa esta interpretação. Os cronistas espanhóis, confusos com a "ingenuidade" de Montezuma, tentaram associá-la à crença de que Cortés era Quetzalcoatl, ou ao pânico que a visão de homens em armaduras ou sobre cavalos teria causado (demonstrações da artilharia espanhola haviam sido fúteis no passado para impressionar os chefes nativos).
Porém, é mais provável que a atitude do rei azteca de oferecer seu trono ao invasor estrangeiro seria uma forma de constrangê-lo pela sua audácia, ao mesmo tempo em que demonstrava sua magnanimidade. Pois entre aztecas e seus vizinhos, a derrubada de um chefe deveria acontecer pela demonstração de força superior em combate. A guerra entre os povos mexicanos era ritualizada, a ponto de prisioneiros capturados em batalha serem mantidos cativos para serem executados em sacrifícios cerimoniais, destino que aceitavam com resignação (quando qualquer outra possibilidade de fuga ou rebelião não existia). Sob esta ótica, Montezuma ofereceu o trono a Cortés esperando que isso ferisse a sua honra, como alguém que esfrega o focinho de um cão em sua própria urina. Os espanhóis nunca perceberam esta sutileza.
De fato, Montezuma não tinha a real intenção de entregar tudo que possuía. Quando Cortés, mais tarde naquele mesmo dia, solicitou a Montezuma erigir uma cruz no alto de um templo em homenagem à Virgem Maria, o azteca teria ficado furioso e ordenado o assassinato de 7 espanhóis que haviam ficado no litoral. Quando soube, Cortés e cinco de seus capitães ordenaram que Montezuma fosse com eles, sem escândalos, ou seria morto. Entre novembro de 1519 e maio de 1520, Montezuma foi mantido cativo em Axáyacatl, embora ainda atuasse formalmente como imperador. Enquanto isso, os espanhóis saqueavam os tesouros de Tenochtitlán e cidades próximas e impunham punições a militares e agentes públicos aztecas que os desacatassem.
Em maio de 1520, o governador das Índias, o mesmo Velásquez, enviou uma expedição para localizar e capturar Cortés, o que fez o caudilho espanhol deixar Tenochtitlán com o grosso dos seus homens, mantendo uma guarnição na cidade. Então, o seu segundo em comando, Pedro Alvarado, ordenou um massacre durante as celebrações do Toxcatl, uma das principais festas religiosas locais, justificando-se de ter impedido o sacrifício humano em um ritual pagão. A fúria causada nas principais cidades teria levado ao assassinato de Montezuma (seja pelos espanhóis, seja pelos aztecas, ambos o teriam feito por causa da sua incapacidade de intervenção de um lado ou de outro). Depois de fugirem do tumulto que se seguiu (perdendo grande parte do tesouro que haviam roubado até então, e vários companheiros que ficaram na retaguarda), os homens de Cortés se reagruparam, e, com ajuda dos tlaxcaltecas, destruíram Tenochtitlán em janeiro de 1521. A linhagem de Montezuma foi absorvida pelos conquistadores - o filho Cuitláhuac morreu de sarampo, o primo Cuauhtemoc torturado com os pés queimados e executado (por não saber onde o tesouro perdido pelos espanhóis estava escondido), e sua esposa e filha de Montezuma, Techichpotzin, batizada Isabel e tomada como esposa por um dos homens de Cortés. Sem liderança, a confederação que compunha o império azteca aos poucos foi absorvida pela administração espanhola sob Cortés.
Os espanhóis governaram o embrião do que seria o México com o auxílio dos chefes das cidades locais, que mantinham seus cargos e privilégios determinados pelo imperador azteca. Já os plebeus corriam o risco de serem escravizados e forçados a trabalhar para os europeus. A Espanha demorou 60 anos para consolidar a conquista do México, anexando impérios e territórios com suas tribos uma a uma - os maias em Yucatán seguiriam resistindo por quase 170 anos, cedendo então apenas por causa de epidemias que eliminaram metade da população nativa. A língua nahuatl (a língua franca do Vale do México, com a qual os freis franciscanos registraram a história da civilização azteca enquanto ela desaparecia) e idiomas relacionados continuam em uso no interior do país até hoje, com 1,7 milhão de falantes atualmente. Os descendentes diretos de Montezuma, desde 1627, recebem do rei da Espanha o título de Duque de Montezuma de Tultengo. Sobre as ruínas de Tenochtitlán e arredores foi erguida a atual Cidade do México.
Mostrando postagens com marcador História do México. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História do México. Mostrar todas as postagens
quarta-feira, 8 de novembro de 2017
sexta-feira, 8 de janeiro de 2016
O apogeu dos maias
De acordo com o metódico calendário maia, no dia 8 de janeiro de 387 d.C., o comandante teotihuacano Siyaj K'ak' conquistou a cidade maia de Waka', na Guatemala, como parte da sua campanha de conquista das emergentes cidades maias em favor da metrópole mexicana de Teotihuacán.
Os maias são o produto de um contínuo desenvolvimento civilizacional centrado na Guatemala e alcançando do sul do México até Nicarágua, que pode ser traçado até antes de 2000 a.C., com períodos de apogeu e colapsos, onde o que ficou para trás foi substituído por um estrato cultural, social e político baseado no que existia antes. Exímios agricultores que dominavam sobretudo o milho (mas também domesticavam abóboras, feijões, pimentas, cacau, abacate, e produtos da floresta com a qual sempre mantiveram contato), os mais antigos maias assentavam-se em aldeias, que se transformaram em vilas, e depois em cidades. Em 750 a.C., a cidade de Nakbe já tinha uma arquitetura monumental. Antes do ano 200 a.C., a cidade de El Mirador, com templos colossais com o formato de pirâmides escalonadas simulando montanhas com altares sacrificiais no seu topo (uma das quais é uma das maiores estruturas da Antiguidade, com 70 metros de altura, sendo esta a altura do que ainda está de pé), somava talvez 250 mil habitantes amontoados em 26 km².
Os maias não estavam sozinhos. Mais ao norte, durante esses dois milênios antes de Cristo no nosso calendário, olmecas, zapotecas, e teotihuacanos prosperaram alternadamente, contribuindo para e recebendo influências da cultura maia. Ao sul, no litoral aos pés dos andes peruanos, várias culturas baseadas na agricultura (notavelmente os Chavín, Nasca, Moche) floresciam e entravam em contato com a América Central por rotas de comércio marítimo. Essa saída pelo mar por Peru e Equador em direção à América Central era um fator de desenvolvimento econômico longe dali, na bacia amazônica, onde os povos nativos (muito, mas muito pouco conhecidos até aqui) cultivavam mandioca e escoavam uma produção excedente de farinha para o oeste. As redes de comércio do norte e do sul se cruzavam na seção de terra ocupada pelos maias, e pode ter sido um dos fatores que alimentou o desenvolvimento da região, e sua prosperidade retroalimentando o desenvolvimento civilizacional por todo este pedaço do continente americano chamado convencionalmente de Mesoamérica.
Os maias, embora identificassem uns aos outros pela língua e pela herança cultural comuns (incluindo um sistema de escrita e um calendário adotados universalmente), nunca chegaram a constituir um império propriamente dito. As cidades surgiam de acordo com a prosperidade das atividades econômicas das regiões ao seu redor e das alianças estabelecidas entre elas. O nível de organização social e política nesses centros urbanos também se desenvolvia, com cada cidade dominando as terras no seu entorno, constituindo verdadeiras cidades-estado, com suas próprias casas reais. Os reis maias, ao contrário do que ocorria no Velho Mundo, não exerciam controle sobre as terras e a produção. Seu poder e influência emanavam do caráter cerimonial dos seus cargos como intermediários ou descendentes dos deuses na terra - na prática, presidiam cerimônias religiosas destinadas a oferecer as condições ideais para a próxima colheita, para afastar doenças, garantir a fertilidade das mulheres, etc., e coordenavam projetos urbanísticos.
Em 250 d.C., esse desenvolvimento urbano chegou ao seu primeiro pico, o chamado Período Clássico, onde o mundo maia estava claramente retalhado entre suas cidades-estado. No começo do Período Clássico, as crescentes cidades maias estavam expostas à influência política de Teotihuacán, grande cidade-estado no Vale do México, a centenas de quilômetros de distância do limite norte da cultura maia.
Teotihuacán crescera fora da esfera de influência maia graças às planícies alagadas no seu entorno, domadas e cultivadas proficuamente. Ela fora ocupada por culturas distintas ao longo do tempo (os astecas se apropriaram da cidade a seu tempo, e é por eles que conhecemos o local por Teotihuacán, um nome asteca que significa "berço dos deuses"). Os teotihuacanos que a fundaram não são bem conhecidos (não se sabe a que etnia pertenciam, talvez fosse um amálgama de antigas tribos do Vale do México e imigrantes, incluindo maias), mas a cidade chegou a abrigar até 250 mil pessoas, espraiando-se por uma área quase o dobro da de El Mirador, 30 km² - o sexto maior complexo urbano do mundo em 450 d.C.. O seu contato com os maias se dava pela costa sudoeste do Golfo, onde uma rede de cidades-estado da chamada Cultura de Veracruz servia de ponte entre as duas civilizações. E assim a superpotência mexicana, a partir do século IV d.C., começou a exercer forte influência sobre a civilização ao sul.
Pelo que se pode depreender das inscrições maias, por volta de 378 Teotihuacán, governada por um certo Atlatl Cauac (ou "Coruja Lanceira", cuja existência só é conhecida pelas inscrições maias) enviou um comandante militar contra a cidade maia de Tikal. Este comandante, Siyaj K'ak' (algo que pode ser traduzido como "Fogo é Nascido") aparentemente tomou Tikal de assalto e provocou a morte do seu rei (por assassinato, execução, sacrifício ou suicídio, não se sabe). Siyaj K'ak' então estabeleceu-se como o novo verdadeiro poder em todo o norte da Guatemala, na região de Petén; ele supervisionou a nomeação de um novo rei, cuja dinastia levaria Tikal a controlar a região. Ele também instaurara novos governantes em Uaxactun e Copán, cujas dinastias mais tarde declaravam descender de Atlatl Cauac, atribuindo o seu poder à proeminência da cidade mexicana. O próprio rei de Tikal recém empossado por Siyaj K'ak' clamava ser filho desse tal Atlatl Cauac (300 anos depois um descendente em Tikal o homenagearia como "O Sagrado"). A influência de Teotihuacán sobre as cidades conquistadas foi ao ponto de introduzir, na construção de pirâmides, elemento axial da cultura maia, um estilo arquitetônico único do Vale do México e inexistente no mundo maia ("tableros", grandes seções verticais sob os degraus das pirâmides interrompendo seu "talude", ou a superfície inclinada)
A cidade de Waka' (redescoberta na década de 1960 no sítio de El Perú) era uma dessas cidades. Aliada de Tikal, acabou caindo diante de Siyaj K'ak' em 387 (mesmo aqui não se tem por certo de que tenha sido pela força ou pela diplomacia, apenas sabe-se que se trata de um comandante por ser representado em trajes militares teotihuacanos). Waka' permaneceu nesta nova liga pró-Teotihuacán até talvez as mortes de Siyaj K'ak' e Atlatl Cauac, no século V. A partir dali, Waka' foi uma das cidades que passaram a aliar-se a Calakmul, a outra potência de Petén que liderava uma espécie de resistência contra a interferência teotihuacana na região. Enquanto Teotihuacán controlou Tikal, esta e Calakmul polarizaram a política no norte da Guatemala, costurando alianças, e conquistando para si aliados importantes do rival.
De uma forma ou de outra, toda a região prosperou com essa competição durante cerca de 250 anos. Porém, em algum momento da segunda metade do século VII, Teotihuacán foi saqueada e queimada, sua nobreza foi destituída. Uma possível revolta interna, talvez provocada por uma prolongada crise na produção agrícola no Vale do México, acabou causando a ruptura da estrutura social que mantinha aquela sociedade multiétnica coesa. A cidade foi praticamente abandonada, e o vácuo de poder local disputado entre suas rivais. A primeira consequência foi a dramática guinada nas relações de poder em Petén: um dos herdeiros da casa reinante de Tikal quase imediatamente depôs seu rei e assumiu o trono, jurando lealdade a Calakmul (apenas para, logo depois, destruí-la, levando junto consigo Waka'). Teotihuacán também exercia influência em outras regiões, extendendo seus dedos até Copán, em Honduras, onde o desequilíbrio político também foi sentido.
Teotihuacán foi uma das forças que levaram ao período mais próspero da história maia, e sua repentina retirada de cena deixou a região num turbilhão político no pior momento possível: a população maia crescera além do limite do que suas terras agricultáveis e suas florestas remanescentes podiam suportar naquele momento. A partir do século IX, começam a haver grandes destruições, dinastias são depostas e substituídas por usurpadores tão efêmeros ou insignificantes que seus nomes nem foram registrados, e quase todas as cidades são abandonadas - junto com as cidades, vários aspectos da civilização, como a reprodução do calendário e seu uso na datação de eventos, a produção artística e cultura material, e a estrutura religiosa. Algumas cidades em Yucatán, como Chichén Itza sobreviveram por algum tempo, possivelmente sustentando levas de imigrantes, mas acabariam igualmente abandonadas antes de 1100. A população foi para as áreas rurais e florestais, e mesmo lá, grandes concentrações populacionais foram declinando ao longo do tempo por causa da fome; esqueletos humanos do século IX ao XIII mostram consistentemente sinais de desnutrição e doenças associadas. Incapaz politicamente de coordenar esforços para reverter os efeitos da fome no primeiro momento (os reis se voltaram para a construção de templos e a guerra como resposta), o mundo maia mergulhou num profundo declínio, do qual nunca se recuperaria totalmente.
Apenas no século XIII os maias remanescentes voltariam a construir cidades e templos, mas a mudança na demografia da sua região foi tanta que essas novas cidades se localizavam longe de terras ocupadas anteriormente por milhares de anos. As novas cidades eram erigidas sobre morros e montanhas facilmente defensáveis, não mais no centro dos vales e planícies, indicando intensa atividade militar. A conquista pela guerra levou ao surgimento de pequenos reinos e confederações em Yucatán e na Guatemala. Um outro período de depressão e violência levou a um novo declínio das novas cidades maias no século XV. Quando os espanhóis chegaram em 1511, encontraram pequenos reinos enfraquecidos, e grande parte da população maia em aldeias isoladas nas florestas. As cidades que restavam e resistiam sucumbiram uma a uma sob os conquistadores europeus, mas, curiosamente, a cultura maia - sua língua, e algo das suas tradições - sobreviveu até os dias atuais graças a essas comunidades. Hoje, há cerca de 7 milhões de pessoas no México e América Central que se identificam como maias, e desses, alguns milhões falam suas línguas.
Os maias são o produto de um contínuo desenvolvimento civilizacional centrado na Guatemala e alcançando do sul do México até Nicarágua, que pode ser traçado até antes de 2000 a.C., com períodos de apogeu e colapsos, onde o que ficou para trás foi substituído por um estrato cultural, social e político baseado no que existia antes. Exímios agricultores que dominavam sobretudo o milho (mas também domesticavam abóboras, feijões, pimentas, cacau, abacate, e produtos da floresta com a qual sempre mantiveram contato), os mais antigos maias assentavam-se em aldeias, que se transformaram em vilas, e depois em cidades. Em 750 a.C., a cidade de Nakbe já tinha uma arquitetura monumental. Antes do ano 200 a.C., a cidade de El Mirador, com templos colossais com o formato de pirâmides escalonadas simulando montanhas com altares sacrificiais no seu topo (uma das quais é uma das maiores estruturas da Antiguidade, com 70 metros de altura, sendo esta a altura do que ainda está de pé), somava talvez 250 mil habitantes amontoados em 26 km².
Os maias não estavam sozinhos. Mais ao norte, durante esses dois milênios antes de Cristo no nosso calendário, olmecas, zapotecas, e teotihuacanos prosperaram alternadamente, contribuindo para e recebendo influências da cultura maia. Ao sul, no litoral aos pés dos andes peruanos, várias culturas baseadas na agricultura (notavelmente os Chavín, Nasca, Moche) floresciam e entravam em contato com a América Central por rotas de comércio marítimo. Essa saída pelo mar por Peru e Equador em direção à América Central era um fator de desenvolvimento econômico longe dali, na bacia amazônica, onde os povos nativos (muito, mas muito pouco conhecidos até aqui) cultivavam mandioca e escoavam uma produção excedente de farinha para o oeste. As redes de comércio do norte e do sul se cruzavam na seção de terra ocupada pelos maias, e pode ter sido um dos fatores que alimentou o desenvolvimento da região, e sua prosperidade retroalimentando o desenvolvimento civilizacional por todo este pedaço do continente americano chamado convencionalmente de Mesoamérica.
Os maias, embora identificassem uns aos outros pela língua e pela herança cultural comuns (incluindo um sistema de escrita e um calendário adotados universalmente), nunca chegaram a constituir um império propriamente dito. As cidades surgiam de acordo com a prosperidade das atividades econômicas das regiões ao seu redor e das alianças estabelecidas entre elas. O nível de organização social e política nesses centros urbanos também se desenvolvia, com cada cidade dominando as terras no seu entorno, constituindo verdadeiras cidades-estado, com suas próprias casas reais. Os reis maias, ao contrário do que ocorria no Velho Mundo, não exerciam controle sobre as terras e a produção. Seu poder e influência emanavam do caráter cerimonial dos seus cargos como intermediários ou descendentes dos deuses na terra - na prática, presidiam cerimônias religiosas destinadas a oferecer as condições ideais para a próxima colheita, para afastar doenças, garantir a fertilidade das mulheres, etc., e coordenavam projetos urbanísticos.
Em 250 d.C., esse desenvolvimento urbano chegou ao seu primeiro pico, o chamado Período Clássico, onde o mundo maia estava claramente retalhado entre suas cidades-estado. No começo do Período Clássico, as crescentes cidades maias estavam expostas à influência política de Teotihuacán, grande cidade-estado no Vale do México, a centenas de quilômetros de distância do limite norte da cultura maia.
Teotihuacán crescera fora da esfera de influência maia graças às planícies alagadas no seu entorno, domadas e cultivadas proficuamente. Ela fora ocupada por culturas distintas ao longo do tempo (os astecas se apropriaram da cidade a seu tempo, e é por eles que conhecemos o local por Teotihuacán, um nome asteca que significa "berço dos deuses"). Os teotihuacanos que a fundaram não são bem conhecidos (não se sabe a que etnia pertenciam, talvez fosse um amálgama de antigas tribos do Vale do México e imigrantes, incluindo maias), mas a cidade chegou a abrigar até 250 mil pessoas, espraiando-se por uma área quase o dobro da de El Mirador, 30 km² - o sexto maior complexo urbano do mundo em 450 d.C.. O seu contato com os maias se dava pela costa sudoeste do Golfo, onde uma rede de cidades-estado da chamada Cultura de Veracruz servia de ponte entre as duas civilizações. E assim a superpotência mexicana, a partir do século IV d.C., começou a exercer forte influência sobre a civilização ao sul.
Pelo que se pode depreender das inscrições maias, por volta de 378 Teotihuacán, governada por um certo Atlatl Cauac (ou "Coruja Lanceira", cuja existência só é conhecida pelas inscrições maias) enviou um comandante militar contra a cidade maia de Tikal. Este comandante, Siyaj K'ak' (algo que pode ser traduzido como "Fogo é Nascido") aparentemente tomou Tikal de assalto e provocou a morte do seu rei (por assassinato, execução, sacrifício ou suicídio, não se sabe). Siyaj K'ak' então estabeleceu-se como o novo verdadeiro poder em todo o norte da Guatemala, na região de Petén; ele supervisionou a nomeação de um novo rei, cuja dinastia levaria Tikal a controlar a região. Ele também instaurara novos governantes em Uaxactun e Copán, cujas dinastias mais tarde declaravam descender de Atlatl Cauac, atribuindo o seu poder à proeminência da cidade mexicana. O próprio rei de Tikal recém empossado por Siyaj K'ak' clamava ser filho desse tal Atlatl Cauac (300 anos depois um descendente em Tikal o homenagearia como "O Sagrado"). A influência de Teotihuacán sobre as cidades conquistadas foi ao ponto de introduzir, na construção de pirâmides, elemento axial da cultura maia, um estilo arquitetônico único do Vale do México e inexistente no mundo maia ("tableros", grandes seções verticais sob os degraus das pirâmides interrompendo seu "talude", ou a superfície inclinada)
A cidade de Waka' (redescoberta na década de 1960 no sítio de El Perú) era uma dessas cidades. Aliada de Tikal, acabou caindo diante de Siyaj K'ak' em 387 (mesmo aqui não se tem por certo de que tenha sido pela força ou pela diplomacia, apenas sabe-se que se trata de um comandante por ser representado em trajes militares teotihuacanos). Waka' permaneceu nesta nova liga pró-Teotihuacán até talvez as mortes de Siyaj K'ak' e Atlatl Cauac, no século V. A partir dali, Waka' foi uma das cidades que passaram a aliar-se a Calakmul, a outra potência de Petén que liderava uma espécie de resistência contra a interferência teotihuacana na região. Enquanto Teotihuacán controlou Tikal, esta e Calakmul polarizaram a política no norte da Guatemala, costurando alianças, e conquistando para si aliados importantes do rival.
De uma forma ou de outra, toda a região prosperou com essa competição durante cerca de 250 anos. Porém, em algum momento da segunda metade do século VII, Teotihuacán foi saqueada e queimada, sua nobreza foi destituída. Uma possível revolta interna, talvez provocada por uma prolongada crise na produção agrícola no Vale do México, acabou causando a ruptura da estrutura social que mantinha aquela sociedade multiétnica coesa. A cidade foi praticamente abandonada, e o vácuo de poder local disputado entre suas rivais. A primeira consequência foi a dramática guinada nas relações de poder em Petén: um dos herdeiros da casa reinante de Tikal quase imediatamente depôs seu rei e assumiu o trono, jurando lealdade a Calakmul (apenas para, logo depois, destruí-la, levando junto consigo Waka'). Teotihuacán também exercia influência em outras regiões, extendendo seus dedos até Copán, em Honduras, onde o desequilíbrio político também foi sentido.
Teotihuacán foi uma das forças que levaram ao período mais próspero da história maia, e sua repentina retirada de cena deixou a região num turbilhão político no pior momento possível: a população maia crescera além do limite do que suas terras agricultáveis e suas florestas remanescentes podiam suportar naquele momento. A partir do século IX, começam a haver grandes destruições, dinastias são depostas e substituídas por usurpadores tão efêmeros ou insignificantes que seus nomes nem foram registrados, e quase todas as cidades são abandonadas - junto com as cidades, vários aspectos da civilização, como a reprodução do calendário e seu uso na datação de eventos, a produção artística e cultura material, e a estrutura religiosa. Algumas cidades em Yucatán, como Chichén Itza sobreviveram por algum tempo, possivelmente sustentando levas de imigrantes, mas acabariam igualmente abandonadas antes de 1100. A população foi para as áreas rurais e florestais, e mesmo lá, grandes concentrações populacionais foram declinando ao longo do tempo por causa da fome; esqueletos humanos do século IX ao XIII mostram consistentemente sinais de desnutrição e doenças associadas. Incapaz politicamente de coordenar esforços para reverter os efeitos da fome no primeiro momento (os reis se voltaram para a construção de templos e a guerra como resposta), o mundo maia mergulhou num profundo declínio, do qual nunca se recuperaria totalmente.
Apenas no século XIII os maias remanescentes voltariam a construir cidades e templos, mas a mudança na demografia da sua região foi tanta que essas novas cidades se localizavam longe de terras ocupadas anteriormente por milhares de anos. As novas cidades eram erigidas sobre morros e montanhas facilmente defensáveis, não mais no centro dos vales e planícies, indicando intensa atividade militar. A conquista pela guerra levou ao surgimento de pequenos reinos e confederações em Yucatán e na Guatemala. Um outro período de depressão e violência levou a um novo declínio das novas cidades maias no século XV. Quando os espanhóis chegaram em 1511, encontraram pequenos reinos enfraquecidos, e grande parte da população maia em aldeias isoladas nas florestas. As cidades que restavam e resistiam sucumbiram uma a uma sob os conquistadores europeus, mas, curiosamente, a cultura maia - sua língua, e algo das suas tradições - sobreviveu até os dias atuais graças a essas comunidades. Hoje, há cerca de 7 milhões de pessoas no México e América Central que se identificam como maias, e desses, alguns milhões falam suas línguas.
sexta-feira, 16 de outubro de 2015
Paz Porfiriana
Em 16 de outubro de 1909, agentes de segurança americanos desarmaram um suspeito de atentado contra a vida dos presidentes Porfírio Díaz do México e William Taft dos Estados Unidos durante uma reunião na cidade de El Paso, Texas.
Em 1909, o presidente Porfírio Díaz já governava o México havia sete mandatos consecutivos. Sua subida ao poder se deve, principalmente, à sua popularidade adquirida durante os anos de guerras que marcaram o fim da monarquia e a intervenção francesa no México (que apoiava a monarquia). Quando seu antigo conhecido Benito Juárez, já na presidência, foi reeleito em 1870, Díaz, que fora candidato derrotado, liderou uma sublevação mal sucedida em 1871. O reeleito Juárez faleceu e foi sucedido pelo vice, Lerdo de Tejada, que anistiou Díaz, mas logo teve que confrontá-lo em combate durante a Revolta de Tuxtepec - Díaz alegava que a presidência deveria ser ocupada por um presidente eleito. Depois da Batalha de Tecoac, Tejada fugiu do país, e Díaz tomou o seu gabinete, embora o presidente em exercício fosse o presidente da Suprema Corte, agora José Maria Iglesias. Díaz foi em frente para removê-lo também. Com Iglesias fugindo do país, novas eleições foram convocadas, e Porfírio Díaz foi eleito presidente com larga margem em 1877.
Quando assumiu a presidência, Díaz se deparou com um Estado cuja autoridade era extremamente precária fora das maiores cidades, de um país vastamente rural e subdesenvolvido, e arruinado desde a guerra contra os Estados Unidos em 1846, quando perdeu metade do seu território. Díaz subiu na carreira cercado de liberais radicais, mas era extremamente pragmático. Diante de tão grandes problemas, deixou de lado processos democráticos e tomou decisões personalistas para impor a ordem pública que passavam por cima de direitos civis - segundo ele mesmo, a política do "pão ou pau". Com sua rede de apoiadores entre os militares, implementou, com forte e disciplinada presença do exército e uma centralização crescente do controle sobre a polícia, a "Paz Porfiriana", que combateu bandoleiros, mas também esmagou movimentos populares anti-governistas. O reconhecimento oficial dos Estados Unidos, que oferecia asilo a Lerdo de Tejada, veio depois de um pagamento de 300 mil dólares. Díaz também cimentou sua posição na presidência beneficiando abertamente aliados políticos, apaziguando grupos em conflito concedendo-lhes privilégios específicos (dar um pouco a cada um passava uma falsa sensação de democracia), e alterando, ironicamente, a Constituição para permitir a reeleição. Exceto no mandato que o sucedeu em 1880, quando foi eleito presidente seu homem de confiança, Manuel González Flores, veterano que perdera um braço na guerra contra a França, Díaz (que foi ministro de Flores) governou inconteste o México até 1911.
Também fez um grande trabalho de propaganda em torno de sua imagem, e suprimiu as críticas da grande imprensa com a censura ou a troca de favores, de maneira que, depois de um tempo, poucos ainda se lembravam da sua cruzada contra a reeleição de Benito Juárez. A memória que existia era a dos dezesseis anos de caos político e social que se seguiram ao fim da Segunda República, de modo que a Paz Porfiriana representava um enorme progresso.
A posição de Porfírio Díaz era tão soberana que, em certo momento, se tornou, concomitantemente, líder da maçonaria mexicana, e conselheiro dos bispos católicos. Embora assegurasse o poder supremo e, de qualquer forma, atingisse consideravelmente seu objetivo de pacificar o país, a administração personalista de Porfírio Díaz estava na realidade fragilizando as instituições republicanas. Para neutralizar a oposição, escalou amigos próximos para todas as posições de poder, e estruturou os órgãos públicos para que respondessem diretamente a ele. Enfraqueceu o caráter federalista (que definiu o nome oficial do país, Estados Unidos Mexicanos), limitando a autonomia dos estados e suas legislaturas quanto às decisões da presidência. Com a vida pública centralizada nas decisões de um homem agindo conforme seus planos de momento, a população nunca sabia o que esperar. Menos ainda os homens de negócio. A pacificação do interior começou a atrair o interesse de investidores estrangeiros, visando investimentos na mineração, agricultura, em infraestrutura, indústria, e comércio. Para negócios agropecuários, promoveu desapropriações de terras pequenos proprietários e reservas indígenas, redefiniu seus limites, e as vendeu.
Em 1908, já idoso, Porfírio anunciou que se retiraria da política ao final do seu mandato. Talvez tenha se impressionado com a voracidade com que os políticos, então sob perfeito controle, começaram a se agitar para definir seus candidatos. Um deles, Bernardo Reyes, então governador de Nuevo León, foi preventivamente enviado em missão à Europa para que não estivesse no país. Eventualmente Díaz desistiu da aposentadoria e começou a investir em mais uma campanha eleitoral, aceitando a candidatura rival de Francisco Madero (eventualmente ele mandara prender Madero pouco antes do pleito). Sua popularidade, contudo, declinava à medida em que, aos 78 anos, já não tinha o mesmo vigor para conduzir a política do país.
Ao longo dos anos, investidores americanos haviam injetado bilhões na economia mexicana. Em 1909, havia investimentos no valor aproximado de 800 milhões de dólares em valores da época no México, e cerca de 70 mil cidadãos americanos morando no país. Mas a incerteza sobre a sucessão fez com que esses mesmos investidores se virassem ao seu governo para achar uma saída para a crise. Porfírio Díaz então convidou o presidente William Taft para um encontro em ambas as cidades de El Paso, no Texas, e Ciudad Juárez, em Chihuahua. Havia uma pendência entre os dois países com relação à fronteira que passava entre as duas cidades. Uma mudança numa curva do Rio Grande, por onde corria a fronteira original, levou à assimilação de território formalmente mexicano pelos americanos (incorporando-o à cidade de El Paso), gerando grande tensão na região. Mas Taft estava mesmo interessado nos planos de Díaz para a sucessão presidencial e em assegurar os investimentos americanos no país em longo prazo. Para Díaz era uma boa oportunidade de fazer uma aparição e renovar a sua popularidade naquele ponto importante da fronteira. O encontro entre Díaz e Taft seria o primeiro encontro entre presidentes do México e dos Estados Unidos.
Sob o clima tenso da região, Taft chegou escoltado por Patrulheiros do Texas (uma espécie de milícia sob jurisdição do governo texano), agentes do Serviço Secreto, FBI, e o corpo de segurança pessoal do presidente, além de 250 seguranças contratados por um empresário americano diretamente interessado nas discussões da ocasião. Díaz mobilizou 4 mil soldados mexicanos. O encontro aconteceu no dia 16 de outubro. Naquela manhã, Taft chegou a El Paso e tomou um café da manhã no Hotel St. Regis. Díaz chegou às 11:00, paramentado com uniforme militar e o peito coberto por medalhas. Foi apresentado formalmente a Taft, trajando um terno comum. Os dois se reuniram a sós por vinte minutos. Uma hora depois, passaram a Ciudad Juárez, a primeira vez que um presidente americano atravessou a fronteira mexicana, para outra reunião no prédio da câmara do comércio local (que havia sido redecorado de maneira a se parecer com o Palácio de Versailles), onde concederiam uma coletiva de imprensa, posariam para fotos, e em seguida participariam de um extravagante banquete. Ciudad Juárez foi decretada capital federal para o evento. No dia seguinte ambos os mandatários retornaram para seus países.
No mesmo dia 16, em Los Angeles, o jornal Herald reproduziu uma notícia publicada em Chicago de que havia sido descoberto (por uma carta anônima enviada ao jornal) um plano de anarquistas para assassinarem os presidentes Taft e Díaz em El Paso. Os envolvidos estariam se reunindo havia duas semanas para planejar o atentado. Jornais e agências governamentais nos Estados Unidos vinham recebendo cartas anônimas com ameaças, como "uma bomba está pronta para Díaz". É certo que o serviço de inteligência americano estivesse trabalhando com essa informação, e por isso tenha organizado um esquema de segurança tão forte. Mesmo assim, quando os dois presidentes deixavam El Paso, o chefe da segurança contratada e um dos patrulheiros texanos identificaram um homem parado com um pequeno revólver na mão em frente à câmara do comércio local, de onde o cortejo se aproximava. Os dois homens imobilizaram e desarmaram o suspeito a poucos metros dos dois presidentes, antes que pudesse disparar um tiro. Eu, pessoalmente, não consegui alguma fonte que confirmasse a identidade do suspeito, mas o serviço de inteligência americano estava procurando naquele momento por Alexander Berkman, escritor lituano e anarquista radicado em Nova Iorque que já havia cumprido 14 anos na prisão por uma tentativa de assassinato.
A carreira de Porfírio Díaz tomaria um novo rumo. Ele foi de fato reeleito em 1910 pela oitava vez, a sétima consecutiva, mas resistiria no poder por apenas alguns meses. Naquele ano explodiu a Revolução Mexicana. Seu concorrente à presidência Francisco Madero contestou o resultado das eleições e levantou apoiadores contra Díaz. Sua demanda pela devolução das terras dos pequenos agricultores trouxe as classes menos favorecidas para o seu lado. Em 1911 Ciudad Juárez caiu, e logo depois Porfírio Díaz se viu forçado a exilar-se na França, onde morreu em 1915. William Taft esperava sinceramente que o mandato de Díaz durasse mais do que o seu, porque considerava que uma revolução no México exigiria uma ação americana para proteger seus interesses, mas essa que intervenção seria extremamente complicada (Taft deixou a presidência em 1913, sem ter tomado qualquer ação). Voltando-se contra o próprio Madero logo no início, visto como "traidor" e "representante das elites" pelo movimento tornado vigorosamente popular, a guerrilha se prolongou por 10 anos com mais de um milhão de mortos. O interesse da imprensa americana elevou alguns dos seus líderes, como Pancho Villa e Emiliano Zapata à fama internacional.
A questão da fronteira foi resolvida com um tratado ratificado por ambas as partes em 1963.
Em 1909, o presidente Porfírio Díaz já governava o México havia sete mandatos consecutivos. Sua subida ao poder se deve, principalmente, à sua popularidade adquirida durante os anos de guerras que marcaram o fim da monarquia e a intervenção francesa no México (que apoiava a monarquia). Quando seu antigo conhecido Benito Juárez, já na presidência, foi reeleito em 1870, Díaz, que fora candidato derrotado, liderou uma sublevação mal sucedida em 1871. O reeleito Juárez faleceu e foi sucedido pelo vice, Lerdo de Tejada, que anistiou Díaz, mas logo teve que confrontá-lo em combate durante a Revolta de Tuxtepec - Díaz alegava que a presidência deveria ser ocupada por um presidente eleito. Depois da Batalha de Tecoac, Tejada fugiu do país, e Díaz tomou o seu gabinete, embora o presidente em exercício fosse o presidente da Suprema Corte, agora José Maria Iglesias. Díaz foi em frente para removê-lo também. Com Iglesias fugindo do país, novas eleições foram convocadas, e Porfírio Díaz foi eleito presidente com larga margem em 1877.
Quando assumiu a presidência, Díaz se deparou com um Estado cuja autoridade era extremamente precária fora das maiores cidades, de um país vastamente rural e subdesenvolvido, e arruinado desde a guerra contra os Estados Unidos em 1846, quando perdeu metade do seu território. Díaz subiu na carreira cercado de liberais radicais, mas era extremamente pragmático. Diante de tão grandes problemas, deixou de lado processos democráticos e tomou decisões personalistas para impor a ordem pública que passavam por cima de direitos civis - segundo ele mesmo, a política do "pão ou pau". Com sua rede de apoiadores entre os militares, implementou, com forte e disciplinada presença do exército e uma centralização crescente do controle sobre a polícia, a "Paz Porfiriana", que combateu bandoleiros, mas também esmagou movimentos populares anti-governistas. O reconhecimento oficial dos Estados Unidos, que oferecia asilo a Lerdo de Tejada, veio depois de um pagamento de 300 mil dólares. Díaz também cimentou sua posição na presidência beneficiando abertamente aliados políticos, apaziguando grupos em conflito concedendo-lhes privilégios específicos (dar um pouco a cada um passava uma falsa sensação de democracia), e alterando, ironicamente, a Constituição para permitir a reeleição. Exceto no mandato que o sucedeu em 1880, quando foi eleito presidente seu homem de confiança, Manuel González Flores, veterano que perdera um braço na guerra contra a França, Díaz (que foi ministro de Flores) governou inconteste o México até 1911.
Também fez um grande trabalho de propaganda em torno de sua imagem, e suprimiu as críticas da grande imprensa com a censura ou a troca de favores, de maneira que, depois de um tempo, poucos ainda se lembravam da sua cruzada contra a reeleição de Benito Juárez. A memória que existia era a dos dezesseis anos de caos político e social que se seguiram ao fim da Segunda República, de modo que a Paz Porfiriana representava um enorme progresso.
A posição de Porfírio Díaz era tão soberana que, em certo momento, se tornou, concomitantemente, líder da maçonaria mexicana, e conselheiro dos bispos católicos. Embora assegurasse o poder supremo e, de qualquer forma, atingisse consideravelmente seu objetivo de pacificar o país, a administração personalista de Porfírio Díaz estava na realidade fragilizando as instituições republicanas. Para neutralizar a oposição, escalou amigos próximos para todas as posições de poder, e estruturou os órgãos públicos para que respondessem diretamente a ele. Enfraqueceu o caráter federalista (que definiu o nome oficial do país, Estados Unidos Mexicanos), limitando a autonomia dos estados e suas legislaturas quanto às decisões da presidência. Com a vida pública centralizada nas decisões de um homem agindo conforme seus planos de momento, a população nunca sabia o que esperar. Menos ainda os homens de negócio. A pacificação do interior começou a atrair o interesse de investidores estrangeiros, visando investimentos na mineração, agricultura, em infraestrutura, indústria, e comércio. Para negócios agropecuários, promoveu desapropriações de terras pequenos proprietários e reservas indígenas, redefiniu seus limites, e as vendeu.
Em 1908, já idoso, Porfírio anunciou que se retiraria da política ao final do seu mandato. Talvez tenha se impressionado com a voracidade com que os políticos, então sob perfeito controle, começaram a se agitar para definir seus candidatos. Um deles, Bernardo Reyes, então governador de Nuevo León, foi preventivamente enviado em missão à Europa para que não estivesse no país. Eventualmente Díaz desistiu da aposentadoria e começou a investir em mais uma campanha eleitoral, aceitando a candidatura rival de Francisco Madero (eventualmente ele mandara prender Madero pouco antes do pleito). Sua popularidade, contudo, declinava à medida em que, aos 78 anos, já não tinha o mesmo vigor para conduzir a política do país.
Ao longo dos anos, investidores americanos haviam injetado bilhões na economia mexicana. Em 1909, havia investimentos no valor aproximado de 800 milhões de dólares em valores da época no México, e cerca de 70 mil cidadãos americanos morando no país. Mas a incerteza sobre a sucessão fez com que esses mesmos investidores se virassem ao seu governo para achar uma saída para a crise. Porfírio Díaz então convidou o presidente William Taft para um encontro em ambas as cidades de El Paso, no Texas, e Ciudad Juárez, em Chihuahua. Havia uma pendência entre os dois países com relação à fronteira que passava entre as duas cidades. Uma mudança numa curva do Rio Grande, por onde corria a fronteira original, levou à assimilação de território formalmente mexicano pelos americanos (incorporando-o à cidade de El Paso), gerando grande tensão na região. Mas Taft estava mesmo interessado nos planos de Díaz para a sucessão presidencial e em assegurar os investimentos americanos no país em longo prazo. Para Díaz era uma boa oportunidade de fazer uma aparição e renovar a sua popularidade naquele ponto importante da fronteira. O encontro entre Díaz e Taft seria o primeiro encontro entre presidentes do México e dos Estados Unidos.
Sob o clima tenso da região, Taft chegou escoltado por Patrulheiros do Texas (uma espécie de milícia sob jurisdição do governo texano), agentes do Serviço Secreto, FBI, e o corpo de segurança pessoal do presidente, além de 250 seguranças contratados por um empresário americano diretamente interessado nas discussões da ocasião. Díaz mobilizou 4 mil soldados mexicanos. O encontro aconteceu no dia 16 de outubro. Naquela manhã, Taft chegou a El Paso e tomou um café da manhã no Hotel St. Regis. Díaz chegou às 11:00, paramentado com uniforme militar e o peito coberto por medalhas. Foi apresentado formalmente a Taft, trajando um terno comum. Os dois se reuniram a sós por vinte minutos. Uma hora depois, passaram a Ciudad Juárez, a primeira vez que um presidente americano atravessou a fronteira mexicana, para outra reunião no prédio da câmara do comércio local (que havia sido redecorado de maneira a se parecer com o Palácio de Versailles), onde concederiam uma coletiva de imprensa, posariam para fotos, e em seguida participariam de um extravagante banquete. Ciudad Juárez foi decretada capital federal para o evento. No dia seguinte ambos os mandatários retornaram para seus países.
No mesmo dia 16, em Los Angeles, o jornal Herald reproduziu uma notícia publicada em Chicago de que havia sido descoberto (por uma carta anônima enviada ao jornal) um plano de anarquistas para assassinarem os presidentes Taft e Díaz em El Paso. Os envolvidos estariam se reunindo havia duas semanas para planejar o atentado. Jornais e agências governamentais nos Estados Unidos vinham recebendo cartas anônimas com ameaças, como "uma bomba está pronta para Díaz". É certo que o serviço de inteligência americano estivesse trabalhando com essa informação, e por isso tenha organizado um esquema de segurança tão forte. Mesmo assim, quando os dois presidentes deixavam El Paso, o chefe da segurança contratada e um dos patrulheiros texanos identificaram um homem parado com um pequeno revólver na mão em frente à câmara do comércio local, de onde o cortejo se aproximava. Os dois homens imobilizaram e desarmaram o suspeito a poucos metros dos dois presidentes, antes que pudesse disparar um tiro. Eu, pessoalmente, não consegui alguma fonte que confirmasse a identidade do suspeito, mas o serviço de inteligência americano estava procurando naquele momento por Alexander Berkman, escritor lituano e anarquista radicado em Nova Iorque que já havia cumprido 14 anos na prisão por uma tentativa de assassinato.
A carreira de Porfírio Díaz tomaria um novo rumo. Ele foi de fato reeleito em 1910 pela oitava vez, a sétima consecutiva, mas resistiria no poder por apenas alguns meses. Naquele ano explodiu a Revolução Mexicana. Seu concorrente à presidência Francisco Madero contestou o resultado das eleições e levantou apoiadores contra Díaz. Sua demanda pela devolução das terras dos pequenos agricultores trouxe as classes menos favorecidas para o seu lado. Em 1911 Ciudad Juárez caiu, e logo depois Porfírio Díaz se viu forçado a exilar-se na França, onde morreu em 1915. William Taft esperava sinceramente que o mandato de Díaz durasse mais do que o seu, porque considerava que uma revolução no México exigiria uma ação americana para proteger seus interesses, mas essa que intervenção seria extremamente complicada (Taft deixou a presidência em 1913, sem ter tomado qualquer ação). Voltando-se contra o próprio Madero logo no início, visto como "traidor" e "representante das elites" pelo movimento tornado vigorosamente popular, a guerrilha se prolongou por 10 anos com mais de um milhão de mortos. O interesse da imprensa americana elevou alguns dos seus líderes, como Pancho Villa e Emiliano Zapata à fama internacional.
A questão da fronteira foi resolvida com um tratado ratificado por ambas as partes em 1963.
Assinar:
Postagens (Atom)