De acordo com o metódico calendário maia, no dia 8 de janeiro de 387 d.C., o comandante teotihuacano Siyaj K'ak' conquistou a cidade maia de Waka', na Guatemala, como parte da sua campanha de conquista das emergentes cidades maias em favor da metrópole mexicana de Teotihuacán.
Os maias são o produto de um contínuo desenvolvimento civilizacional centrado na Guatemala e alcançando do sul do México até Nicarágua, que pode ser traçado até antes de 2000 a.C., com períodos de apogeu e colapsos, onde o que ficou para trás foi substituído por um estrato cultural, social e político baseado no que existia antes. Exímios agricultores que dominavam sobretudo o milho (mas também domesticavam abóboras, feijões, pimentas, cacau, abacate, e produtos da floresta com a qual sempre mantiveram contato), os mais antigos maias assentavam-se em aldeias, que se transformaram em vilas, e depois em cidades. Em 750 a.C., a cidade de Nakbe já tinha uma arquitetura monumental. Antes do ano 200 a.C., a cidade de El Mirador, com templos colossais com o formato de pirâmides escalonadas simulando montanhas com altares sacrificiais no seu topo (uma das quais é uma das maiores estruturas da Antiguidade, com 70 metros de altura, sendo esta a altura do que ainda está de pé), somava talvez 250 mil habitantes amontoados em 26 km².
Os maias não estavam sozinhos. Mais ao norte, durante esses dois milênios antes de Cristo no nosso calendário, olmecas, zapotecas, e teotihuacanos prosperaram alternadamente, contribuindo para e recebendo influências da cultura maia. Ao sul, no litoral aos pés dos andes peruanos, várias culturas baseadas na agricultura (notavelmente os Chavín, Nasca, Moche) floresciam e entravam em contato com a América Central por rotas de comércio marítimo. Essa saída pelo mar por Peru e Equador em direção à América Central era um fator de desenvolvimento econômico longe dali, na bacia amazônica, onde os povos nativos (muito, mas muito pouco conhecidos até aqui) cultivavam mandioca e escoavam uma produção excedente de farinha para o oeste. As redes de comércio do norte e do sul se cruzavam na seção de terra ocupada pelos maias, e pode ter sido um dos fatores que alimentou o desenvolvimento da região, e sua prosperidade retroalimentando o desenvolvimento civilizacional por todo este pedaço do continente americano chamado convencionalmente de Mesoamérica.
Os maias, embora identificassem uns aos outros pela língua e pela herança cultural comuns (incluindo um sistema de escrita e um calendário adotados universalmente), nunca chegaram a constituir um império propriamente dito. As cidades surgiam de acordo com a prosperidade das atividades econômicas das regiões ao seu redor e das alianças estabelecidas entre elas. O nível de organização social e política nesses centros urbanos também se desenvolvia, com cada cidade dominando as terras no seu entorno, constituindo verdadeiras cidades-estado, com suas próprias casas reais. Os reis maias, ao contrário do que ocorria no Velho Mundo, não exerciam controle sobre as terras e a produção. Seu poder e influência emanavam do caráter cerimonial dos seus cargos como intermediários ou descendentes dos deuses na terra - na prática, presidiam cerimônias religiosas destinadas a oferecer as condições ideais para a próxima colheita, para afastar doenças, garantir a fertilidade das mulheres, etc., e coordenavam projetos urbanísticos.
Em 250 d.C., esse desenvolvimento urbano chegou ao seu primeiro pico, o chamado Período Clássico, onde o mundo maia estava claramente retalhado entre suas cidades-estado. No começo do Período Clássico, as crescentes cidades maias estavam expostas à influência política de Teotihuacán, grande cidade-estado no Vale do México, a centenas de quilômetros de distância do limite norte da cultura maia.
Teotihuacán crescera fora da esfera de influência maia graças às planícies alagadas no seu entorno, domadas e cultivadas proficuamente. Ela fora ocupada por culturas distintas ao longo do tempo (os astecas se apropriaram da cidade a seu tempo, e é por eles que conhecemos o local por Teotihuacán, um nome asteca que significa "berço dos deuses"). Os teotihuacanos que a fundaram não são bem conhecidos (não se sabe a que etnia pertenciam, talvez fosse um amálgama de antigas tribos do Vale do México e imigrantes, incluindo maias), mas a cidade chegou a abrigar até 250 mil pessoas, espraiando-se por uma área quase o dobro da de El Mirador, 30 km² - o sexto maior complexo urbano do mundo em 450 d.C.. O seu contato com os maias se dava pela costa sudoeste do Golfo, onde uma rede de cidades-estado da chamada Cultura de Veracruz servia de ponte entre as duas civilizações. E assim a superpotência mexicana, a partir do século IV d.C., começou a exercer forte influência sobre a civilização ao sul.
Pelo que se pode depreender das inscrições maias, por volta de 378 Teotihuacán, governada por um certo Atlatl Cauac (ou "Coruja Lanceira", cuja existência só é conhecida pelas inscrições maias) enviou um comandante militar contra a cidade maia de Tikal. Este comandante, Siyaj K'ak' (algo que pode ser traduzido como "Fogo é Nascido") aparentemente tomou Tikal de assalto e provocou a morte do seu rei (por assassinato, execução, sacrifício ou suicídio, não se sabe). Siyaj K'ak' então estabeleceu-se como o novo verdadeiro poder em todo o norte da Guatemala, na região de Petén; ele supervisionou a nomeação de um novo rei, cuja dinastia levaria Tikal a controlar a região. Ele também instaurara novos governantes em Uaxactun e Copán, cujas dinastias mais tarde declaravam descender de Atlatl Cauac, atribuindo o seu poder à proeminência da cidade mexicana. O próprio rei de Tikal recém empossado por Siyaj K'ak' clamava ser filho desse tal Atlatl Cauac (300 anos depois um descendente em Tikal o homenagearia como "O Sagrado"). A influência de Teotihuacán sobre as cidades conquistadas foi ao ponto de introduzir, na construção de pirâmides, elemento axial da cultura maia, um estilo arquitetônico único do Vale do México e inexistente no mundo maia ("tableros", grandes seções verticais sob os degraus das pirâmides interrompendo seu "talude", ou a superfície inclinada)
A cidade de Waka' (redescoberta na década de 1960 no sítio de El Perú) era uma dessas cidades. Aliada de Tikal, acabou caindo diante de Siyaj K'ak' em 387 (mesmo aqui não se tem por certo de que tenha sido pela força ou pela diplomacia, apenas sabe-se que se trata de um comandante por ser representado em trajes militares teotihuacanos). Waka' permaneceu nesta nova liga pró-Teotihuacán até talvez as mortes de Siyaj K'ak' e Atlatl Cauac, no século V. A partir dali, Waka' foi uma das cidades que passaram a aliar-se a Calakmul, a outra potência de Petén que liderava uma espécie de resistência contra a interferência teotihuacana na região. Enquanto Teotihuacán controlou Tikal, esta e Calakmul polarizaram a política no norte da Guatemala, costurando alianças, e conquistando para si aliados importantes do rival.
De uma forma ou de outra, toda a região prosperou com essa competição durante cerca de 250 anos. Porém, em algum momento da segunda metade do século VII, Teotihuacán foi saqueada e queimada, sua nobreza foi destituída. Uma possível revolta interna, talvez provocada por uma prolongada crise na produção agrícola no Vale do México, acabou causando a ruptura da estrutura social que mantinha aquela sociedade multiétnica coesa. A cidade foi praticamente abandonada, e o vácuo de poder local disputado entre suas rivais. A primeira consequência foi a dramática guinada nas relações de poder em Petén: um dos herdeiros da casa reinante de Tikal quase imediatamente depôs seu rei e assumiu o trono, jurando lealdade a Calakmul (apenas para, logo depois, destruí-la, levando junto consigo Waka'). Teotihuacán também exercia influência em outras regiões, extendendo seus dedos até Copán, em Honduras, onde o desequilíbrio político também foi sentido.
Teotihuacán foi uma das forças que levaram ao período mais próspero da história maia, e sua repentina retirada de cena deixou a região num turbilhão político no pior momento possível: a população maia crescera além do limite do que suas terras agricultáveis e suas florestas remanescentes podiam suportar naquele momento. A partir do século IX, começam a haver grandes destruições, dinastias são depostas e substituídas por usurpadores tão efêmeros ou insignificantes que seus nomes nem foram registrados, e quase todas as cidades são abandonadas - junto com as cidades, vários aspectos da civilização, como a reprodução do calendário e seu uso na datação de eventos, a produção artística e cultura material, e a estrutura religiosa. Algumas cidades em Yucatán, como Chichén Itza sobreviveram por algum tempo, possivelmente sustentando levas de imigrantes, mas acabariam igualmente abandonadas antes de 1100. A população foi para as áreas rurais e florestais, e mesmo lá, grandes concentrações populacionais foram declinando ao longo do tempo por causa da fome; esqueletos humanos do século IX ao XIII mostram consistentemente sinais de desnutrição e doenças associadas. Incapaz politicamente de coordenar esforços para reverter os efeitos da fome no primeiro momento (os reis se voltaram para a construção de templos e a guerra como resposta), o mundo maia mergulhou num profundo declínio, do qual nunca se recuperaria totalmente.
Apenas no século XIII os maias remanescentes voltariam a construir cidades e templos, mas a mudança na demografia da sua região foi tanta que essas novas cidades se localizavam longe de terras ocupadas anteriormente por milhares de anos. As novas cidades eram erigidas sobre morros e montanhas facilmente defensáveis, não mais no centro dos vales e planícies, indicando intensa atividade militar. A conquista pela guerra levou ao surgimento de pequenos reinos e confederações em Yucatán e na Guatemala. Um outro período de depressão e violência levou a um novo declínio das novas cidades maias no século XV. Quando os espanhóis chegaram em 1511, encontraram pequenos reinos enfraquecidos, e grande parte da população maia em aldeias isoladas nas florestas. As cidades que restavam e resistiam sucumbiram uma a uma sob os conquistadores europeus, mas, curiosamente, a cultura maia - sua língua, e algo das suas tradições - sobreviveu até os dias atuais graças a essas comunidades. Hoje, há cerca de 7 milhões de pessoas no México e América Central que se identificam como maias, e desses, alguns milhões falam suas línguas.
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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016
quarta-feira, 4 de novembro de 2015
Inca ressurgido
Em 4 de novembro de 1780, Tupac Amaru II, clamando para si a descendência dos incas, lança sua declaração aos povos indígenas do Peru colonial a que se levantassem contra o domínio espanhol, dando início ao primeiro grande movimento indigenista da América do Sul.
Após quase 40 anos de resistência, os espanhóis subjugaram o último reduto inca em Vilcabamba, no Peru, e executaram seu último líder Túpac Amaru, em 1572. Durante esse longo período entre a conquista de Francisco Pizarro e a queda de Vilcabamba, os espanhóis empreenderam a aculturação e fragmentação das populações nativas com fins de usá-las como mão de obra e desestimular possíveis revoltas. As doenças trazidas da Europa serviram como espécies de armas biológicas passivas, dizimando talvez 2/3 da população nativa e desestruturando a sua sociedade, mas os conquistadores foram além. Seus símbolos, suas obras arquitetônicas, sua religião, e até mesmo seus sofisticados sistemas de agricultura em degraus foram sistematicamente destruídos. Os espanhóis ainda tiraram proveito do sistema de recrutamento de trabalhadores do Império Inca, que exigiam que cada família cedesse um membro para trabalhar em obras públicas, e demandavam um substituto em caso de morte ou invalidez, para manter as famílias e clãs sob controle e arregimentar mão de obra em regime semelhante à escravidão (chamado mita) para trabalhar nas minas de prata. A prata obtida pelo Vice-reinado do Peru (como se chamava a nova colônia espanhola no oeste da América do Sul, incluindo Peru, Equador, Bolívia e norte do Chile) alimentou a economia européia e elevou a Espanha ao status de superpotência.
Mais tarde, a relação de trabalho também se transformou numa relação de dependência entre o colonizador e o nativo, no sistema conhecido como Encomienda, em que um espanhol designado pelo rei ou autoridade em seu nome era encarregado da "segurança" da população, em troca dos seus serviços ou de tributação em espécie. O encomendero responsabilizava-se pela catequização, pelo ensino do castelhano, segurança, e manutenção e desenvolvimento da infra-estrutura (com mão de obra local). Criava-se automaticamente uma dívida que era impossível de ser paga. O sistema de Encomiendas derivou do modelo feudal da Europa Ocidental e foi aperfeiçoado na Espanha durante a Reconquista; espanhóis eram designados a cumprir as funções de encomendero sobre populações muçulmanas, com a diferença de que, na América do Sul, o encomendero não recebia posse da terra sob sua tutela (toda terra no Novo Mundo pertencia à instituição da Coroa, não uma posse pessoal dos seus monarcas). As Encomiendas contribuíram para o desmantelamento das identidades tribais graças a um dispositivo que impedia aos mestiços cristianizados de se submeterem a esse sistema, o que levou muitos nativos e mestiços integrantes de tribos locais a renegarem suas raízes ou buscarem casamento com espanhóis, e integrarem-se à sociedade colonial.
Eventualmente, as Encomiendas foram dando espaço para relações de trabalho mais eficientes, sendo abolidas em 1720. Mas a exploração da mão de obra nativa continuou opressiva em vários aspectos. Durante o século XVIII os reis espanhóis empreenderam várias reformas que pretendiam direcionar o desenvolvimento econômico das colônias para benefício direto da economia espanhola, que então perdia terreno para holandeses, ingleses e franceses no Velho Mundo. Essas reformas pretendiam restringir a autonomia dos criollos (espanhóis nascidos na colônia), recuperando o controle da Coroa sobre a atividade econômica. Por exemplo, os trabalhadores que não se empregavam em empreendimentos dirigidos ou supervisionados por espanhóis (os corregidores) eram taxados de forma a jamais conseguirem prosperar com seu próprio trabalho.
Neste contexto surge José Gabriel Condorcanqui, um mestiço nascido na província de Cuzco, filho de um cacique quéchua, Miguel Condorcanqui Usquiconsa, educado pelos jesuítas. Falava quéchua, castelhano e latim, o que lhe deu acesso à literatura. Seu livro de cabeceira era Comentarios Reales de los Incas, publicado no começo do século XVII pelo mestiço inca-espanhol Garcilaso de la Vega, que narrava, de maneira romântica e idealizada, sobre a sociedade inca pré-colonial e a sua resistência aos conquistadores. Ainda era leitor ávido da Bíblia, do Ollantay (poema dramático em quéchua que relata um romance proibido entre o general-plebeu Ollanta e uma princesa inca, Cosi Coyllur, no auge do império), e as obras de iluministas europeus como Voltaire. Se casou com Micaela Bastidas, descendente de incas e negros, mulher com forte senso de identidade cultural e nacional.
Como cacique, tinha influência sobre uma vasta área centrada em Cuzco e sua prosperidade econômica atraía a atenção da administração colonial. Era sua função como líder tribal mediar as relações entre o corregidor e os indígenas sob sua jurisdição. Isto o aproximava da realidade dos nativos sob o regime colonial, e seu contexto formativo colocava-o ideologicamente lado a lado com eles. Frequentemente se queixava às autoridades contra cobranças abusivas e tratamento desumano dos trabalhadores indígenas (muitos ainda submetidos à mita), mas sem retorno. Com o tempo, sobretudo após seu casamento e o nascimento dos filhos nos anos 1760, José Gabriel passou a fomentar um levante de criollos, nativos e mestiços contra a metrópole pela sua independência (de início, independência econômica, do ponto de vista meramente libertário). Micaela e seus parentes começaram a trabalhar às escondidas na divulgação das ideias e planos, recrutamento e recolhimento de recursos para o movimento. Vários caciques quéchua e aymara, suas tribos e muitos mestiços e escravos negros vieram a aderir à causa, chegando às dezenas de milhares homens e mulheres, do altiplano peruano, Bolívia, até o norte da Argentina, dispostos a lutar.
Em 4 de novembro de 1780, uma carta falsa atraiu Antonio Arriaga, corrigidor do distrito de Tinta, próximo a Cuzco, a uma emboscada. Ele foi preso e executado pelo seu próprio escravo negro, e com ele foram apreendidos boa quantidade de dinheiro, ouro e armas. Antes de morrer, foi obrigado a escrever cartas a espanhóis notáveis exigindo resgate, que foi pago quando Arriaga já era morto. José Gabriel viu que chegara num ponto se volta. Ele adotou para si o título de "Don José Primeiro, Senhor dos Césares e das Amazonas", adotando também para si o cognome Tupac Amaru II, alegando descendência matrilinear do último imperador inca. O chamado, agora pela independência política dos povos nativos do Vice-reinado do Peru, foi rapidamente divulgado. Enquanto Tupac Amaru II cuidava da parte política, Micaela coordenava a logística, a burocracia e a organização de pessoal do movimento. Sua influência até motivou a formação de um núcleo proto-feminista de ativistas quéchua e aymara pela afirmação da participação política e social da mulher indígena.
Os espanhóis mobilizaram tropas. Em 19 de novembro 900 soldados encontraram Tupac Amaru II e seus homens na aldeia de Sangarará, onde os nativos, em muito maior número, os esmagaram, capturando suas armas. Era fundamental a apreensão de qualquer tipo de armamento, pois os nativos eram proibidos de portar armas de fogo. Rapidamente, porém, apesar de um discurso integrador do seu líder, o movimento espiralizou em direção à violência racial: os assaltos, saques e assassinatos eram direcionados aos espanhóis, incluindo criollos (que em nada diferiam fisicamente de espanhóis europeus). De uma a duas mil pessoas foram massacradas em Chuquiasca por guerreiros de Tupac Amaru II.
A perda de apoio dos criollos se provaria fundamental na derrocada de Tupac Amaru. Foram os criollos legalistas que evitaram a conquista de Cuzco. Após uma série de derrotas e a deserção de grande parte dos seguidores, alguns aliados próximos entregaram às autoridades a localização do comando do movimento. Em maio de 1781, Tupac Amaru II, Micaela, seus filhos Hipólito e Fernando (este com 10 anos), vários dos seus familiares e colaboradores foram presos e condenados à morte em Cuzco. Tupac foi obrigado a assistir a execução de cada um deles (sua esposa teve a língua cortada, o pescoço amarrado e apertado por duas cordas como a um animal, e espancada até desfalecer asfixiada). Depois de tentarem desmembrá-lo atando braços e pernas a quatro cavalos, os executores decapitaram e esquartejaram o líder, e seus membros enviados a várias vilas na zona rebelde como aviso. A língua quéchua e vestimentas tipicamente indígenas, bem como celebrações tradicionais foram proibidas por decreto.
A resistência continuou com força no sul do Peru e Bolívia por mais um ano (cerca de 15 mil pessoas, a maioria aymaras, morreram num cerco de mais de 100 dias a La Paz). Seus líderes também assumiram o cognome Tupac Amaru, como se fosse uma espécie de título. Em março de 1782 o último líder, o mestiço Diego Cristóbal Tupac Amaru, foi preso e executado.
Embora tenha fracassado, a rebelião de Tupac Amaru II foi o maior movimento indigenista da América Espanhola até então, e inspirou diversos outros levantes indígenas pelo continente nas décadas seguintes. No século XX, movimentos armados no próprio Peru relembrariam Tupac Amaru II e se utilizariam da sua imagem: os militares no poder entre 1962 e 1980 se apropriavam da sua imagem para dar um rosto à sua "revolução", e depois o Movimiento Revolucionario Tupac Amaru, de orientação leninista, operaria ações de guerrilha e terrorismo contra os governos democraticamente eleitos. No Uruguai, Tupac Amaru II inspirou o Movimiento de Liberación Nacional-Tupamaros nas décadas de 1960 e 1970, de cunho anarco-socialista. Um dos seus membros, o anarquista José Mujica, viria a se tornar presidente do país. Outro movimento Tupamaro, na Venezuela, converteu-se em um partido político de esquerda de orientação leninista radical, acusado pela oposição de recorrer à violência armada contra manifestantes anti-governo em 2014.
Após quase 40 anos de resistência, os espanhóis subjugaram o último reduto inca em Vilcabamba, no Peru, e executaram seu último líder Túpac Amaru, em 1572. Durante esse longo período entre a conquista de Francisco Pizarro e a queda de Vilcabamba, os espanhóis empreenderam a aculturação e fragmentação das populações nativas com fins de usá-las como mão de obra e desestimular possíveis revoltas. As doenças trazidas da Europa serviram como espécies de armas biológicas passivas, dizimando talvez 2/3 da população nativa e desestruturando a sua sociedade, mas os conquistadores foram além. Seus símbolos, suas obras arquitetônicas, sua religião, e até mesmo seus sofisticados sistemas de agricultura em degraus foram sistematicamente destruídos. Os espanhóis ainda tiraram proveito do sistema de recrutamento de trabalhadores do Império Inca, que exigiam que cada família cedesse um membro para trabalhar em obras públicas, e demandavam um substituto em caso de morte ou invalidez, para manter as famílias e clãs sob controle e arregimentar mão de obra em regime semelhante à escravidão (chamado mita) para trabalhar nas minas de prata. A prata obtida pelo Vice-reinado do Peru (como se chamava a nova colônia espanhola no oeste da América do Sul, incluindo Peru, Equador, Bolívia e norte do Chile) alimentou a economia européia e elevou a Espanha ao status de superpotência.
Mais tarde, a relação de trabalho também se transformou numa relação de dependência entre o colonizador e o nativo, no sistema conhecido como Encomienda, em que um espanhol designado pelo rei ou autoridade em seu nome era encarregado da "segurança" da população, em troca dos seus serviços ou de tributação em espécie. O encomendero responsabilizava-se pela catequização, pelo ensino do castelhano, segurança, e manutenção e desenvolvimento da infra-estrutura (com mão de obra local). Criava-se automaticamente uma dívida que era impossível de ser paga. O sistema de Encomiendas derivou do modelo feudal da Europa Ocidental e foi aperfeiçoado na Espanha durante a Reconquista; espanhóis eram designados a cumprir as funções de encomendero sobre populações muçulmanas, com a diferença de que, na América do Sul, o encomendero não recebia posse da terra sob sua tutela (toda terra no Novo Mundo pertencia à instituição da Coroa, não uma posse pessoal dos seus monarcas). As Encomiendas contribuíram para o desmantelamento das identidades tribais graças a um dispositivo que impedia aos mestiços cristianizados de se submeterem a esse sistema, o que levou muitos nativos e mestiços integrantes de tribos locais a renegarem suas raízes ou buscarem casamento com espanhóis, e integrarem-se à sociedade colonial.
Eventualmente, as Encomiendas foram dando espaço para relações de trabalho mais eficientes, sendo abolidas em 1720. Mas a exploração da mão de obra nativa continuou opressiva em vários aspectos. Durante o século XVIII os reis espanhóis empreenderam várias reformas que pretendiam direcionar o desenvolvimento econômico das colônias para benefício direto da economia espanhola, que então perdia terreno para holandeses, ingleses e franceses no Velho Mundo. Essas reformas pretendiam restringir a autonomia dos criollos (espanhóis nascidos na colônia), recuperando o controle da Coroa sobre a atividade econômica. Por exemplo, os trabalhadores que não se empregavam em empreendimentos dirigidos ou supervisionados por espanhóis (os corregidores) eram taxados de forma a jamais conseguirem prosperar com seu próprio trabalho.
Neste contexto surge José Gabriel Condorcanqui, um mestiço nascido na província de Cuzco, filho de um cacique quéchua, Miguel Condorcanqui Usquiconsa, educado pelos jesuítas. Falava quéchua, castelhano e latim, o que lhe deu acesso à literatura. Seu livro de cabeceira era Comentarios Reales de los Incas, publicado no começo do século XVII pelo mestiço inca-espanhol Garcilaso de la Vega, que narrava, de maneira romântica e idealizada, sobre a sociedade inca pré-colonial e a sua resistência aos conquistadores. Ainda era leitor ávido da Bíblia, do Ollantay (poema dramático em quéchua que relata um romance proibido entre o general-plebeu Ollanta e uma princesa inca, Cosi Coyllur, no auge do império), e as obras de iluministas europeus como Voltaire. Se casou com Micaela Bastidas, descendente de incas e negros, mulher com forte senso de identidade cultural e nacional.
Como cacique, tinha influência sobre uma vasta área centrada em Cuzco e sua prosperidade econômica atraía a atenção da administração colonial. Era sua função como líder tribal mediar as relações entre o corregidor e os indígenas sob sua jurisdição. Isto o aproximava da realidade dos nativos sob o regime colonial, e seu contexto formativo colocava-o ideologicamente lado a lado com eles. Frequentemente se queixava às autoridades contra cobranças abusivas e tratamento desumano dos trabalhadores indígenas (muitos ainda submetidos à mita), mas sem retorno. Com o tempo, sobretudo após seu casamento e o nascimento dos filhos nos anos 1760, José Gabriel passou a fomentar um levante de criollos, nativos e mestiços contra a metrópole pela sua independência (de início, independência econômica, do ponto de vista meramente libertário). Micaela e seus parentes começaram a trabalhar às escondidas na divulgação das ideias e planos, recrutamento e recolhimento de recursos para o movimento. Vários caciques quéchua e aymara, suas tribos e muitos mestiços e escravos negros vieram a aderir à causa, chegando às dezenas de milhares homens e mulheres, do altiplano peruano, Bolívia, até o norte da Argentina, dispostos a lutar.
Em 4 de novembro de 1780, uma carta falsa atraiu Antonio Arriaga, corrigidor do distrito de Tinta, próximo a Cuzco, a uma emboscada. Ele foi preso e executado pelo seu próprio escravo negro, e com ele foram apreendidos boa quantidade de dinheiro, ouro e armas. Antes de morrer, foi obrigado a escrever cartas a espanhóis notáveis exigindo resgate, que foi pago quando Arriaga já era morto. José Gabriel viu que chegara num ponto se volta. Ele adotou para si o título de "Don José Primeiro, Senhor dos Césares e das Amazonas", adotando também para si o cognome Tupac Amaru II, alegando descendência matrilinear do último imperador inca. O chamado, agora pela independência política dos povos nativos do Vice-reinado do Peru, foi rapidamente divulgado. Enquanto Tupac Amaru II cuidava da parte política, Micaela coordenava a logística, a burocracia e a organização de pessoal do movimento. Sua influência até motivou a formação de um núcleo proto-feminista de ativistas quéchua e aymara pela afirmação da participação política e social da mulher indígena.
Os espanhóis mobilizaram tropas. Em 19 de novembro 900 soldados encontraram Tupac Amaru II e seus homens na aldeia de Sangarará, onde os nativos, em muito maior número, os esmagaram, capturando suas armas. Era fundamental a apreensão de qualquer tipo de armamento, pois os nativos eram proibidos de portar armas de fogo. Rapidamente, porém, apesar de um discurso integrador do seu líder, o movimento espiralizou em direção à violência racial: os assaltos, saques e assassinatos eram direcionados aos espanhóis, incluindo criollos (que em nada diferiam fisicamente de espanhóis europeus). De uma a duas mil pessoas foram massacradas em Chuquiasca por guerreiros de Tupac Amaru II.
A perda de apoio dos criollos se provaria fundamental na derrocada de Tupac Amaru. Foram os criollos legalistas que evitaram a conquista de Cuzco. Após uma série de derrotas e a deserção de grande parte dos seguidores, alguns aliados próximos entregaram às autoridades a localização do comando do movimento. Em maio de 1781, Tupac Amaru II, Micaela, seus filhos Hipólito e Fernando (este com 10 anos), vários dos seus familiares e colaboradores foram presos e condenados à morte em Cuzco. Tupac foi obrigado a assistir a execução de cada um deles (sua esposa teve a língua cortada, o pescoço amarrado e apertado por duas cordas como a um animal, e espancada até desfalecer asfixiada). Depois de tentarem desmembrá-lo atando braços e pernas a quatro cavalos, os executores decapitaram e esquartejaram o líder, e seus membros enviados a várias vilas na zona rebelde como aviso. A língua quéchua e vestimentas tipicamente indígenas, bem como celebrações tradicionais foram proibidas por decreto.
A resistência continuou com força no sul do Peru e Bolívia por mais um ano (cerca de 15 mil pessoas, a maioria aymaras, morreram num cerco de mais de 100 dias a La Paz). Seus líderes também assumiram o cognome Tupac Amaru, como se fosse uma espécie de título. Em março de 1782 o último líder, o mestiço Diego Cristóbal Tupac Amaru, foi preso e executado.
Embora tenha fracassado, a rebelião de Tupac Amaru II foi o maior movimento indigenista da América Espanhola até então, e inspirou diversos outros levantes indígenas pelo continente nas décadas seguintes. No século XX, movimentos armados no próprio Peru relembrariam Tupac Amaru II e se utilizariam da sua imagem: os militares no poder entre 1962 e 1980 se apropriavam da sua imagem para dar um rosto à sua "revolução", e depois o Movimiento Revolucionario Tupac Amaru, de orientação leninista, operaria ações de guerrilha e terrorismo contra os governos democraticamente eleitos. No Uruguai, Tupac Amaru II inspirou o Movimiento de Liberación Nacional-Tupamaros nas décadas de 1960 e 1970, de cunho anarco-socialista. Um dos seus membros, o anarquista José Mujica, viria a se tornar presidente do país. Outro movimento Tupamaro, na Venezuela, converteu-se em um partido político de esquerda de orientação leninista radical, acusado pela oposição de recorrer à violência armada contra manifestantes anti-governo em 2014.
sexta-feira, 7 de agosto de 2015
A expedição Kon-Tiki e a ciência aventureira
Em 7 de agosto de 1947, a expedição liderada pelo norueguês Thor Heyerdahl, terminou quando sua embarcação, a balsa Kon-Tiki, se chocou contra recifes no arquipélago de Tuamotu.
Um assunto tradicionalmente quente nas ciências humanas é a origem dos povos americanos. Sabendo, pelo registro fóssil e arqueológico, que o homem moderno surgiu na África e seguiu um caminho para a Europa, para a Ásia, e chegou na Austrália, a presença humana na América antes da chegada dos europeus sempre intrigou muita gente. Houve, e ainda há, correntes que defendem uma rota migratória vinda da Sibéria, passando pelo congelado Estreito de Bering no Alaska, e chegando à América do Sul vinda do norte; outra corrente defende uma ou mais ondas migratórias vindas das ilhas do Pacífico, chegando na costa oeste da América do Sul e/ou Central, e de lá se difundindo para o resto do continente; outra, mais recente, defende a chegada dos primeiros americanos vindos da África subsaariana pelo Oceano Atlântico; e há os que defendem duas ou mais teorias.
Enquanto escrevia um projeto sobre espécies vegetais usadas como alimento, me deparei com vários trabalhos etnobotânicos e arqueobotânicos que apontavam para uma convergência no uso de determinadas espécies na América, na Ásia e na Polinésia: espécies de Lagenaria, uma cabaceira, e de algodão cultivadas por indígenas americanos teriam mais semelhança genética com espécies dos mesmos gêneros cultivadas na Ásia do que das suas outras parentes americanas. De maneira semelhante, a presença da batata-doce, espécie nativa da América, na dieta dos ilhéus do Pacífico descrita por navegantes europeus do século XVII indicaria algum grau de contato entre essas regiões tão afastadas do globo. Eu também trabalhava no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, para onde o famoso fóssil de Luzia - um crânio caracteristicamente africano, o mais antigo fóssil humano do continente - era guardado e estudado. Então naquele período, enquanto tentava me concentrar na botânica, eu entrei em contato com as várias teorias sobre a ocupação humana na América.
A ciência tem avançado bastante rápido nos últimos 50 anos para responder essas e outras perguntas. Mas até que o conhecimento e as metodologias chegassem ao refinamento atual, a disputa era muito acirrada, as correntes teóricas eram pesadamente influenciadas por tendências políticas e etnocêntricas, e atraía a atenção de leigos e exploradores. Um desses exploradores era o biólogo e etnógrafo Thor Heyerdahl. Enquanto fazia faculdade de biologia, Heyerdahl se interessou nos polinésios, acessando vasta literatura acerca de suas culturas, suas línguas seus mitos, e suas relações com outros povos. Seu primeiro contato com eles foi na ilha de Fatu Hiva, nas Ilhas Marquesas, Polinésia Francesa. Sua estada na ilha foi publicada em livro - veículo pelo qual se tornaria uma celebridade ao longo do século XX.
Embora tivesse atingido um nível de erudição a respeito dos polinésios, Heyerdahl não teve formação acadêmica em antropologia (assim como eu não tenho de História), de maneira que seus métodos e teorias foram repetidamente considerados equivocados - uma crítica comum aos seus projetos é de que ele selecionava teorias que queria provar, e moldava seus métodos especificamente para prová-las, sem testar outras hipóteses possíveis. No final da vida, isso o levou a uma expedição arqueológica infrutífera no Azerbaijão, acreditando, por meio de evidências que ele mesmo escolheu, que ali havia sido a origem dos povos proto-germânicos (aceitando que o mito de Odim conduzindo seu povo da terra de Asir representava a memória de um líder tribal conduzindo uma migração a partir do lugar com o nome mais próximo possível que ele encontrou). Não obstante, sua pesquisa literária o ajudou a reproduzir, por exemplo, embarcações típicas usadas no Rio Nilo no Egito Faraônico, no litoral do Golfo Pérsico do período sumério, e, mais importante aqui, um barco tradicional polinésio, com as tecnologias disponíveis respectivamente. Com um navio feito de papiro, por exemplo, ele conseguiu atravessar o Atlântico partindo do Marrocos (algo que os Egípcios não tentaram, mas demonstrando que poderia ser possível).
Ao contrário do que a maioria das pesquisas em diversos campos apontava, Thor era adepto de uma teoria que atribuía aos povos do oeste da América do Sul a colonização da Ilha de Páscoa e um contato difuso e ativo com as ilhas polinésias - ou, quiçá, teriam sido os ancestrais dos atuais povos polinésios. Os argumentos dessa teoria estariam espalhados em mitos americanos, como o de homens brancos barbados que teriam sido derrotados pelos ancestrais dos povos andinos e ido embora pelo mar - ele descrevia os nativos remanescentes dos Rapanui de Páscoa como de "pele branca", muito diferente dos polinésios de pele mais escura; o estilo de escultura dos moais (as colossais cabeças de pedra espalhadas pela ilha) que lembrariam os estilos contemporâneos encontrados no Peru; e um mito local que fala sobre dois povos que entraram em guerra em determinado momento, precipitando o colapso da civilização na ilha (um desses povos seria de imigrantes americanos). Para tentar provar essa teoria, Heyerdahl construiu, com base em literatura e em suas próprias observações, o Kon-Tiki (nome que homenageia o deus inca Viracocha, que teria sido o líder dos tais homens brancos em sua fuga pelo mar), uma balsa rústica no modelo polinésio que poderia ter sido construída com tecnologia neolítica.
Com uma tripulação de 6 homens, o Kon-Tiki partiu de Callao, Peru, no final de abril, e navegou pelo Pacífico aproveitando a Corrente de Humboldt por 101 dias, até atingir Tuamotu, quase 7 mil quilômetros a oeste. Thor Heyerdahl celebrou o feito como a prova de que precisava para demonstrar que os povos antigos da América do Sul poderiam ter colonizado as ilhas do Pacífico.
Do ponto de vista científico, a expedição só prova que um homem com treinamento militar (Heyerdahl serviu na Segunda Guerra Mundial) e outros com conhecimentos especializados em engenharia e comunicações eram capazes de levar uma embarcação rústica através do oceano com suprimentos planejados. O único elemento fiel ao que hipotéticos navegantes sul-americanos poderiam ter a disposição era o barco. Além de tripulantes munidos de conhecimento moderno aplicável à expedição, o Kon-Tiki zarpou rebocado por um navio alguns quilômetros além da costa; viajou com mais de mil litros de água potável, parte dela armazenada em latas; conquanto levasse alimentos frescos a bordo, como frutas e tubérculos (além de peixes que se reuniam sob as tábuas da balsa), a tripulação recorria a comida enlatada provida por um navio militar americano, com o qual os tripulantes mantinham contato via rádio. O teste da capacidade de navegação em si pode ser questionado porque Heyerdahl e outros membros tinham relógios de pulso, um instrumento extremamente útil para calcular longitudes, além do óbvio conhecimento do que a Terra é mais ou menos esférica e existia terras esperando além mar. Heyerdahl passou boa parte da vida se defendendo de críticas assim (na expedição do Marrocos à América, ele tentou anular o efeito da tripulação munida de conhecimento moderno escalando para tanto pessoas de várias nacionalidades e ocupações não relacionadas com navegação oceânica).
Recentemente, um levantamento genético entre amostras dos Rapanui da Ilha de Páscoa revelou uma similaridade de 76% com o genótipo polinésio, com 8% de influência americana e 16% europeia. A análise mais minuciosa aponta que a carga genética europeia era relativamente recente e poderia se dever ao contato com navegantes europeus (embora o grupo teste tenha sido escolhido entre aqueles que afirmavam não ter ascendência europeia na família), enquanto a carga americana deva ter entrado na composição entre os séculos XIII e XVI - quando a ilha de Páscoa já havia sido colonizada. Se houve esse contato entre Rapanui e nativos americanos, então pelo menos isso a expedição Kon-Tiki parece corroborar.
Um assunto tradicionalmente quente nas ciências humanas é a origem dos povos americanos. Sabendo, pelo registro fóssil e arqueológico, que o homem moderno surgiu na África e seguiu um caminho para a Europa, para a Ásia, e chegou na Austrália, a presença humana na América antes da chegada dos europeus sempre intrigou muita gente. Houve, e ainda há, correntes que defendem uma rota migratória vinda da Sibéria, passando pelo congelado Estreito de Bering no Alaska, e chegando à América do Sul vinda do norte; outra corrente defende uma ou mais ondas migratórias vindas das ilhas do Pacífico, chegando na costa oeste da América do Sul e/ou Central, e de lá se difundindo para o resto do continente; outra, mais recente, defende a chegada dos primeiros americanos vindos da África subsaariana pelo Oceano Atlântico; e há os que defendem duas ou mais teorias.
Enquanto escrevia um projeto sobre espécies vegetais usadas como alimento, me deparei com vários trabalhos etnobotânicos e arqueobotânicos que apontavam para uma convergência no uso de determinadas espécies na América, na Ásia e na Polinésia: espécies de Lagenaria, uma cabaceira, e de algodão cultivadas por indígenas americanos teriam mais semelhança genética com espécies dos mesmos gêneros cultivadas na Ásia do que das suas outras parentes americanas. De maneira semelhante, a presença da batata-doce, espécie nativa da América, na dieta dos ilhéus do Pacífico descrita por navegantes europeus do século XVII indicaria algum grau de contato entre essas regiões tão afastadas do globo. Eu também trabalhava no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, para onde o famoso fóssil de Luzia - um crânio caracteristicamente africano, o mais antigo fóssil humano do continente - era guardado e estudado. Então naquele período, enquanto tentava me concentrar na botânica, eu entrei em contato com as várias teorias sobre a ocupação humana na América.
A ciência tem avançado bastante rápido nos últimos 50 anos para responder essas e outras perguntas. Mas até que o conhecimento e as metodologias chegassem ao refinamento atual, a disputa era muito acirrada, as correntes teóricas eram pesadamente influenciadas por tendências políticas e etnocêntricas, e atraía a atenção de leigos e exploradores. Um desses exploradores era o biólogo e etnógrafo Thor Heyerdahl. Enquanto fazia faculdade de biologia, Heyerdahl se interessou nos polinésios, acessando vasta literatura acerca de suas culturas, suas línguas seus mitos, e suas relações com outros povos. Seu primeiro contato com eles foi na ilha de Fatu Hiva, nas Ilhas Marquesas, Polinésia Francesa. Sua estada na ilha foi publicada em livro - veículo pelo qual se tornaria uma celebridade ao longo do século XX.
Embora tivesse atingido um nível de erudição a respeito dos polinésios, Heyerdahl não teve formação acadêmica em antropologia (assim como eu não tenho de História), de maneira que seus métodos e teorias foram repetidamente considerados equivocados - uma crítica comum aos seus projetos é de que ele selecionava teorias que queria provar, e moldava seus métodos especificamente para prová-las, sem testar outras hipóteses possíveis. No final da vida, isso o levou a uma expedição arqueológica infrutífera no Azerbaijão, acreditando, por meio de evidências que ele mesmo escolheu, que ali havia sido a origem dos povos proto-germânicos (aceitando que o mito de Odim conduzindo seu povo da terra de Asir representava a memória de um líder tribal conduzindo uma migração a partir do lugar com o nome mais próximo possível que ele encontrou). Não obstante, sua pesquisa literária o ajudou a reproduzir, por exemplo, embarcações típicas usadas no Rio Nilo no Egito Faraônico, no litoral do Golfo Pérsico do período sumério, e, mais importante aqui, um barco tradicional polinésio, com as tecnologias disponíveis respectivamente. Com um navio feito de papiro, por exemplo, ele conseguiu atravessar o Atlântico partindo do Marrocos (algo que os Egípcios não tentaram, mas demonstrando que poderia ser possível).
Ao contrário do que a maioria das pesquisas em diversos campos apontava, Thor era adepto de uma teoria que atribuía aos povos do oeste da América do Sul a colonização da Ilha de Páscoa e um contato difuso e ativo com as ilhas polinésias - ou, quiçá, teriam sido os ancestrais dos atuais povos polinésios. Os argumentos dessa teoria estariam espalhados em mitos americanos, como o de homens brancos barbados que teriam sido derrotados pelos ancestrais dos povos andinos e ido embora pelo mar - ele descrevia os nativos remanescentes dos Rapanui de Páscoa como de "pele branca", muito diferente dos polinésios de pele mais escura; o estilo de escultura dos moais (as colossais cabeças de pedra espalhadas pela ilha) que lembrariam os estilos contemporâneos encontrados no Peru; e um mito local que fala sobre dois povos que entraram em guerra em determinado momento, precipitando o colapso da civilização na ilha (um desses povos seria de imigrantes americanos). Para tentar provar essa teoria, Heyerdahl construiu, com base em literatura e em suas próprias observações, o Kon-Tiki (nome que homenageia o deus inca Viracocha, que teria sido o líder dos tais homens brancos em sua fuga pelo mar), uma balsa rústica no modelo polinésio que poderia ter sido construída com tecnologia neolítica.
Com uma tripulação de 6 homens, o Kon-Tiki partiu de Callao, Peru, no final de abril, e navegou pelo Pacífico aproveitando a Corrente de Humboldt por 101 dias, até atingir Tuamotu, quase 7 mil quilômetros a oeste. Thor Heyerdahl celebrou o feito como a prova de que precisava para demonstrar que os povos antigos da América do Sul poderiam ter colonizado as ilhas do Pacífico.
Do ponto de vista científico, a expedição só prova que um homem com treinamento militar (Heyerdahl serviu na Segunda Guerra Mundial) e outros com conhecimentos especializados em engenharia e comunicações eram capazes de levar uma embarcação rústica através do oceano com suprimentos planejados. O único elemento fiel ao que hipotéticos navegantes sul-americanos poderiam ter a disposição era o barco. Além de tripulantes munidos de conhecimento moderno aplicável à expedição, o Kon-Tiki zarpou rebocado por um navio alguns quilômetros além da costa; viajou com mais de mil litros de água potável, parte dela armazenada em latas; conquanto levasse alimentos frescos a bordo, como frutas e tubérculos (além de peixes que se reuniam sob as tábuas da balsa), a tripulação recorria a comida enlatada provida por um navio militar americano, com o qual os tripulantes mantinham contato via rádio. O teste da capacidade de navegação em si pode ser questionado porque Heyerdahl e outros membros tinham relógios de pulso, um instrumento extremamente útil para calcular longitudes, além do óbvio conhecimento do que a Terra é mais ou menos esférica e existia terras esperando além mar. Heyerdahl passou boa parte da vida se defendendo de críticas assim (na expedição do Marrocos à América, ele tentou anular o efeito da tripulação munida de conhecimento moderno escalando para tanto pessoas de várias nacionalidades e ocupações não relacionadas com navegação oceânica).
Recentemente, um levantamento genético entre amostras dos Rapanui da Ilha de Páscoa revelou uma similaridade de 76% com o genótipo polinésio, com 8% de influência americana e 16% europeia. A análise mais minuciosa aponta que a carga genética europeia era relativamente recente e poderia se dever ao contato com navegantes europeus (embora o grupo teste tenha sido escolhido entre aqueles que afirmavam não ter ascendência europeia na família), enquanto a carga americana deva ter entrado na composição entre os séculos XIII e XVI - quando a ilha de Páscoa já havia sido colonizada. Se houve esse contato entre Rapanui e nativos americanos, então pelo menos isso a expedição Kon-Tiki parece corroborar.
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