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quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Colisão de dois mundos

Em 8 de novembro de 1519, o conquistador espanhol Hernan Cortés chegou a Tenochtitlán para se encontrar com o imperador azteca Montezuma II.

A chegada de Cortés a Tenotchitlán é o evento mais importante do processo de ocupação e controle da Espanha sobre a Mesoamérica. A civilização azteca, que se espalhava sobre os territórios de povos "aliados" (a maioria submetidos à força) entre o centro e o sul do México, foi a primeira das civilizações mesoamericanas a tombar diante do poderio bélico da Espanha, e essa região do mundo (entre o México e o norte do Chile), com suas riquezas em metais preciosos, sua infraestrutura e organização social, transformaria aquele país europeu em uma super potência por quase 200 anos.

O encontro de Cortés e Montezuma não aconteceu ao acaso. Desde que a expedição de Cortés (com 630 homens em 11 navios) foi avistada na costa de Yucatán, espiões aztecas mantiveram seu imperador informado de tudo que acontecia. A expedição espanhola, após fundar o assentamento que se tornaria a cidade de Veracruz (neste momento, Cortés cortou relações com seu superior, o governador das Índias Diego Velásquez de Cuellar, seu parente, porque era prerrogativa do governador a fundação de novas colônias; ali Cortés foi declarado um "amotinado" e, para evitar que seus homens debandassem diante da situação, mandou desmontarem seus navios) recebeu a visita de dois diplomatas aztecas. Os aztecas continuaram mantendo contado com os estrangeiros, trocando presentes e tecendo elogios (em um momento Cortés se virou a seus homens e disse, com a ajuda de um tradutor, que os nativos os consideravam como deuses). Os emissários, contudo, tentavam dissuadir os espanhóis de irem a Tenochtitlán, mas os presentes e os elogios eram interpretados como um convite. De qualquer forma eles entendiam que, para se aproximar de Montezuma, teria que ser pelos seus inimigos: eles ofereceram apoio a uma coalizão de tribos menores que resistiam à assimilação azteca, participando de algumas batalhas. Enquanto isso, Cortés enviava solicitações para uma audiência com Montezuma, o que ele insistentemente recusava.

Hernán Cortés veio de uma família modesta na pequena vila de Medellin, sudoeste da Espanha. Estudou com um tio em Salamanca e trabalhou como notário. Com a descoberta da América por Cristóvão Colombo, o governo espanhol passou a patrocinar incursões para reconhecimento das novas terras, estabelecimento de relações com seus habitantes, e a sondagem de suas riquezas, usando assentamentos já existentes como bases de operações e a fundação de novos mais adiante (expedições conhecidas como "entradas"). Cortés, que não possuía bens ou terras de que pudesse usufruir, foi atraído para este tipo de empresa - ele também teria circulado pelos portos de Sevilha, Cádiz, e outros, ouvindo histórias de marinheiros sobre as possibilidades e riquezas nas novas terras. Aos 18 anos conseguiu passagem para Hispaniola (ilha onde estão Haiti e República Dominicana), possivelmente graças a Velásquez, que depois lhe concedeu uma "encomienda" (uma propriedade e um grupo de nativos empregados em trabalhos forçados). Cortés permaneceu 15 anos nas Índias Ocidentais, ocupando cargos públicos nas colônias, participando de batalhas contra nativos, e administrando suas novas propriedades. Mas expedições espanholas já haviam provado que a América guardava muito além do que as pequenas ilhas de Hispaniola e Cuba (de cuja capital era prefeito). Seu biógrafo o descrevia como "impiedoso" e "traiçoeiro". De fato, seu conhecimento das leis adquirido enquanto notário o fizeram romper com o governador das Índias assim que viu a possibilidade de fundar uma colônia por conta própria, submetendo-se diretamente ao rei Carlos I (o mesmo rei Carlos V do Sacro Império Romano, que herdara o trono espanhol), alegando que Velásquez agia em benefício próprio, não em prol da Coroa.

As fontes sobre Montezuma são vagas, quase todas registradas sob ponto de vista dos espanhóis. Bernal Díaz, companheiro de Cortés, o descrevia como um homem de boa constituição, pele clara, barba rala e estreita, senhor de um harém de concubinas e duas esposas, e cercado por uma corte de dois mil nobres que habitavam seu palácio. O Império Azteca, costurado à base de força e alianças de conveniência, estava em seu apogeu. Além de manter seus aliados sob controle, os aztecas precisavam manter um exército constantemente mobilizado para conter os ataques de uma confederação de Nahuas, Mixtecas e Zapotecas, que por 75 anos resistiram à assimilação. Estas mesmas a quem Cortés oferecia ajuda.

Os cronistas espanhóis sugeriram que Montezuma nutria interesse pela expedição de Cortés por conta de uma suposta crença no retorno do deus Quetzalcoatl (que teria nascido e depois navegado para o leste em anos que corresponderiam, nos ciclos solares do calendário azteca, ao ano da expedição, 1519), e que Cortés seria este deus incarnado. A influência deste mito nos acontecimentos que se seguiram é muito questionada atualmente no meio acadêmico porque são muito escassas as fontes nativas a respeito da sua importância, mas continua propagado como o motivo para a atitude desconcertantemente afável de Montezuma diante daqueles estrangeiros. Se a religião, que era um pilar central na sociedade azteca, teve algum papel naquele cenário, foi o de servir como argamassa para a coesão dos diferentes povos que constituíam o império azteca - bem como um dos fatores que uniam seus inimigos.

Quando Montezuma convocou Cortés para uma audiência, os espanhóis tinham um grande exército engordado por milhares de guerreiros nativos. Ele havia acabado de atacar a cidade de Cholula (a segunda maior do centro do México, sob jurisdição azteca), onde estava hospedado, massacrando 3 mil pessoas e incendiando templos e palácios para demonstrar sua força e intimidar Montezuma. Cortés levou todo o seu exército para a capital azteca, temendo uma armadilha.

Contudo, ao entrar na cidade - construída sobre uma ilha no meio de um lago, conectada às terras no entorno por pontes - foi recebido calorosamente por Montezuma em pessoa e os reis das principais cidades aliadas, mas não foi permitido que Cortés o tocasse. Meio desconcertado, Cortés trocou presentes com o anfitrião. Montezuma o presenteou com um calendário em forma de disco de ouro, e outro de prata, que Cortés depois derreteu. Ele e os outros espanhóis foram cobertos com jóias de ouro e pedras preciosas, e adornos com penas. Depois, já no palácio que pertencera a Axáyacatl, pai do imperador azteca, preparado para receber Cortés como hóspede, Montezuma discursou diante da corte e do seu convidado, dizendo:

"Tu graciosamente desceste à terra, tu graciosamente te aproximaste de tua água, tu chegaste à tua porta, teu trono, que eu brevemente guardei para ti, eu que o guardava para ti. (...) Tu graciosamente chegaste, tu conheceste a dor, tu conheceste o cansaço, agora vem à terra, entra em teu palácio, descansa teus membros"

Montezuma chegou a oferecer o trono a Cortés. O espanhol acreditou até o fim que as palavras e atitudes de Montezuma eram literais, ou seja, que o monarca, diante da força dos espanhóis, ou influenciado por superstições, havia entregue de boa vontade seu império ao rei Carlos V, a quem representava. Todo o movimento de Cortés depois disso teve como base e justificativa esta interpretação. Os cronistas espanhóis, confusos com a "ingenuidade" de Montezuma, tentaram associá-la à crença de que Cortés era Quetzalcoatl, ou ao pânico que a visão de homens em armaduras ou sobre cavalos teria causado (demonstrações da artilharia espanhola haviam sido fúteis no passado para impressionar os chefes nativos).

Porém, é mais provável que a atitude do rei azteca de oferecer seu trono ao invasor estrangeiro seria uma forma de constrangê-lo pela sua audácia, ao mesmo tempo em que demonstrava sua magnanimidade. Pois entre aztecas e seus vizinhos, a derrubada de um chefe deveria acontecer pela demonstração de força superior em combate. A guerra entre os povos mexicanos era ritualizada, a ponto de prisioneiros capturados em batalha serem mantidos cativos para serem executados em sacrifícios cerimoniais, destino que aceitavam com resignação (quando qualquer outra possibilidade de fuga ou rebelião não existia). Sob esta ótica, Montezuma ofereceu o trono a Cortés esperando que isso ferisse a sua honra, como alguém que esfrega o focinho de um cão em sua própria urina. Os espanhóis nunca perceberam esta sutileza.

De fato, Montezuma não tinha a real intenção de entregar tudo que possuía. Quando Cortés, mais tarde naquele mesmo dia, solicitou a Montezuma erigir uma cruz no alto de um templo em homenagem à Virgem Maria, o azteca teria ficado furioso e ordenado o assassinato de 7 espanhóis que haviam ficado no litoral. Quando soube, Cortés e cinco de seus capitães ordenaram que Montezuma fosse com eles, sem escândalos, ou seria morto. Entre novembro de 1519 e maio de 1520, Montezuma foi mantido cativo em Axáyacatl, embora ainda atuasse formalmente como imperador. Enquanto isso, os espanhóis saqueavam os tesouros de Tenochtitlán e cidades próximas e impunham punições a militares e agentes públicos aztecas que os desacatassem.

Em maio de 1520, o governador das Índias, o mesmo Velásquez, enviou uma expedição para localizar e capturar Cortés, o que fez o caudilho espanhol deixar Tenochtitlán com o grosso dos seus homens, mantendo uma guarnição na cidade. Então, o seu segundo em comando, Pedro Alvarado, ordenou um massacre durante as celebrações do Toxcatl, uma das principais festas religiosas locais, justificando-se de ter impedido o sacrifício humano em um ritual pagão. A fúria causada nas principais cidades teria levado ao assassinato de Montezuma (seja pelos espanhóis, seja pelos aztecas, ambos o teriam feito por causa da sua incapacidade de intervenção de um lado ou de outro). Depois de fugirem do tumulto que se seguiu (perdendo grande parte do tesouro que haviam roubado até então, e vários companheiros que ficaram na retaguarda), os homens de Cortés se reagruparam, e, com ajuda dos tlaxcaltecas, destruíram Tenochtitlán em janeiro de 1521. A linhagem de Montezuma foi absorvida pelos conquistadores - o filho Cuitláhuac morreu de sarampo, o primo Cuauhtemoc torturado com os pés queimados e executado (por não saber onde o tesouro perdido pelos espanhóis estava escondido), e sua esposa e filha de Montezuma, Techichpotzin, batizada Isabel e tomada como esposa por um dos homens de Cortés. Sem liderança, a confederação que compunha o império azteca aos poucos foi absorvida pela administração espanhola sob Cortés.

Os espanhóis governaram o embrião do que seria o México com o auxílio dos chefes das cidades locais, que mantinham seus cargos e privilégios determinados pelo imperador azteca. Já os plebeus corriam o risco de serem escravizados e forçados a trabalhar para os europeus. A Espanha demorou 60 anos para consolidar a conquista do México, anexando impérios e territórios com suas tribos uma a uma - os maias em Yucatán seguiriam resistindo por quase 170 anos, cedendo então apenas por causa de epidemias que eliminaram metade da população nativa. A língua nahuatl (a língua franca do Vale do México, com a qual os freis franciscanos registraram a história da civilização azteca enquanto ela desaparecia) e idiomas relacionados continuam em uso no interior do país até hoje, com 1,7 milhão de falantes atualmente. Os descendentes diretos de Montezuma, desde 1627, recebem do rei da Espanha o título de Duque de Montezuma de Tultengo. Sobre as ruínas de Tenochtitlán e arredores foi erguida a atual Cidade do México.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Assalto a Santiago

Em 11 de setembro de 1541, um jovem chefe picunche, criado e educado entre os incas no Peru, chamado Michimalonco, liderou um exército de mais de 10 mil homens contra a recém construída colônia espanhola de Santiago, no Chile.

Em 1540, o espanhol Francisco Pizarro, tendo conquistado o Peru, enviou Pedro de Valdivia para percorrer os Andes ao sul e sondar locais para o estabelecimento de colônias em regiões de produção de metais preciosos. Naquele ano, Valdivia alcançou uma antiga aldeia de desterrados de diversas tribos andinas periféricas ao império inca, que os incas conheciam coletivamente como promaucaes, e os espanhóis dali em diante como picunches. Sem resistência, os picunches locais aceitaram que os espanhóis administrassem as minas nas quais já trabalhavam em troca de proteção. Em fevereiro de 1541 foi fundada a colônia de Santiago de Nova Extremadura.

Para os picunches as coisas não foram tão simples. Os novos senhores espanhóis exigiam um esforço sobre-humano dos trabalhadores nas minas de ouro e na construção da colônia. O próprio Michimalonco estava empregado como capataz, e ao se ver obrigado a colocar a segurança de seus conterrâneos em risco por senhores que não se importavam muito, rapidamente tornou-se um líder rebelde, cuja reputação crescia a cada dia. Valdivia, para assegurar a obediência de seus novos súditos e, no fim das contas, garantir a segurança das cargas transportadas entre as minas e a colônia, ordenou a prisão dos seus chefes, mantidos em cativeiro para persuadir os picunches a se manterem na linha.

Os picunches rebeldes realizavam assaltos e escaramuças. Outro líder picunche, Trangolonco, irmão de Michimalonco, realizou um assalto à antiga cidade inca de Quillota (então sob controle espanhol), matando a todos os espanhóis, escravos negros, incas e demais nativos peruanos, restando apenas um colono e seu escravo. O ataque atraiu a atenção de Valdivia, que mobilizou 80 soldados estacionados em Santiago para reprimir o bando de Trangolonco mais ao sul. Na colônia, deixara 50 homens sob o comando de Inés de Suárez.

Inés era uma jovem senhora com 34 anos, que teria ido à América atrás de seu marido, que teria se aventurado ao novo continente na expedição de Pizarro (ele teria morrido no mar, antes de desembarcar no Peru). Como viúva, ela recebeu uma pequena doação em terras, e se tornou criada e, possivelmente, amante de Valdívia, conquistador incumbido de construir uma capital no Chile, salvando sua vida pelo menos em duas ocasiões e participando de pequenas batalhas.

A movimentação de Trangolonco era um chamariz. Enquanto Valdivia caçava picunches no sul, Michimalonco trazia consigo cerca de 10 mil homens, que cercavam as paliçadas de uma Santiago quase desguarnecida. Os ataques, contudo, não eram muito sistemáticos devido à posição da antiga colônia, numa ilha fluvial elevada. Além disso, os colonos tinham armas de fogo e treinamento militar, e Michimalonco entendia que um confronto direto poderia colocar tudo a perder. Mesmo assim, os picunches avançavam sobre os espaços deixados pelos espanhóis na defensiva.

À noite, como boa parte da colônia estava perdida e os poucos homens desmoralizados, Inés reuniu um conselho de guerra e decidiu executar os chefes picunches para aterrorizar os invasores e dispersá-los. Um dos soldados que vigiavam os presos lhe perguntou: "como a senhora quer que os matemos?", ao que ela respondeu "assim", tomando a espada do homem e cortando as cabeças ela mesma. As cabeças foram atiradas sobre os picunches.

Com os atacantes chocados e desorientados, Inés cavalgou em direção à praça central, à frente dos soldados que faziam uma linha de frente, e comandou um avanço final que desbaratou os milhares de picunche apavorados, salvando o que restava de Santiago. No momento, a aparição de Inés, vestida em armadura sobre um cavalo branco aterrorizando milhares de inimigos, fez os espanhóis acreditarem se tratar de São Tiago, padroeiro da cidade e da própria Espanha, descendo do céu.

Quanto a Michimalonco, após a batalha, se retirou para os domínios dos incas. Mas esquecido e pobre, resolveu voltar ao Chile, disposto a fazer as pazes com os espanhóis, cuja bravura em batalha o havia impressionado. Valdívia o recebeu de bom grado, e o teve como aliado numa expedição contra os araucanos, no sul. Ele ainda serviria de embaixador entre os araucanos, convencendo-os naquele momento a se unirem aos colonos espanhóis para fundar uma nova nação. A relativa cooperação dos povos chilenos seria crucial para o sucesso da colônia.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Príncipes sobre elefantes

Em 18 de janeiro de 1593, uma guerra entre os reinos de Burma e Sião, no Sudeste Asiático, terminou de maneira dramática.

Burma e Sião correspondem em linhas gerais aos atuais Mianmar e Tailândia, respectivamente. Sião era a principal potência na região até meados do século XVI, e costumeiramente empregava campanhas militares para garantir sua supremacia sobre os vizinhos. Porém, uma crise política na dinastia Aytthaya, de Sião, fragilizou essa posição, e o emergente reino de Burma partiu em campanha para expulsar os siameses da região burmesa de Tanintharyi, que corresponde ao litoral sul de Mianmar. Por cerca de 50 anos, os dois países se confrontaram, com resultados diversos - ora um submetia-se à vassalagem do outro, ora o oposto.

A quarta deflagração aconteceu em 1584, quando o rei Naresuan, da mesma dinastia Ayutthaya, declarou a independência de Sião, então sob controle de Burma. No momento, Burma havia estendido seu território em todas as direções, constituindo um império do qual Sião fazia parte. A morte do criador deste império, Bayinnaung, da dinastia Toungoo, causou um desequilíbrio político que seu sucessor, Nanda, nunca conseguiu recuperar. Além de Sião, Ava, cidade-estado no centro do atual Mianmar, também declarara independência (Ava seria invadida e reconquistada, e transformada em capital imperial poucos anos depois). Trabalhando como um equilibrista para manter os demais vassalos sob controle, o rei Nanda nomeou seu jovem filho Mingyi Swa para comandar uma campanha contra Sião. Foi sob sua supervisão que Naresuan declarou independência.

A campanha foi um fracasso em cinco etapas. No momento da revolta, Nanda enviou Swa com cerca de 11 mil homens, 900 cavalos e 90 elefantes para Sião, mas essa força nunca conseguiu fixar posição segura no país, e a chuva intensa causara enchentes que imobilizaram seus avanços - no vale inundado pelo rio Chao Phraya, no oeste da Tailândia, os burmeses quase foram exterminados por siameses em canoas. A segunda invasão, em 1586, parou na cidade fortificada de Lampang, no norte do país, a qual Swa não conseguiu tomar. Na terceira, Swa foi deixado no controle da capital burmesa Pegu, enquanto o rei Nanda comandava 25 mil homens num assalto à capital Ayutthaya (da qual a dinastia thai emprestava seu nome), mas depois de 4 meses ele retornou apenas com uma fração deste efetivo. Swa comandou uma quarta invasão ao norte de Sião em 1590, mas foi novamente repelido em Lampang (por esse segundo fracasso, Nanda o repreendeu publicamente e executou alguns de seus generais).

Em 1592, depois de 8 anos de vitórias consistentes, Naresuan sentiu-se segurou o suficiente para deixar Sião e empreender uma ofensiva contra Burma, atacando o litoral sul. Swa foi designado novamente para liderar o exército burmês (por segurança, Nanda nomeou outros aliados como seus imediatos) em ofensiva direta contra a capital siamesa. As coisas não deram certo; a batalha foi confusa, resultando na morte de Mingyi Swa, na retirada burmesa, e na consolidação de Naresuan como rei de Sião.

A maneira como os eventos de 18 de janeiro ocorreram varia de fonte para fonte, e são completamente diferentes segundo as duas versões oficiais opostas do conflito. Uma mais espetacular do que a outra.

Na versão burmesa (que teria ocorrido em 8 de janeiro de 1593), Swa conseguira alcançar as proximidades da capital Ayutthaya, onde seu exército encontrou o de Naresuan. Os dois comandantes lutaram sobre elefantes de guerra. Um dos elefantes montado por um nobre burmês estaria no cio, e no frenesi da batalha entrou em fúria, investindo contra Naresuan. O elefante foi contido, mas ao recuar investiu contra as linhas burmesas. A confusão fez com que Swa e sua escolta se deslocassem para campo aberto, onde foram alvejados por morteiros siameses. Swa foi morto por um projétil. Mas um dos mahouts (o nome de quem monta ou cuida de um elefante) que o acompanhava trouxe seu corpo para cima e o manteve escorado às suas costas para não revelar ao inimigo nem aos aliados que seu príncipe havia perecido. Sob a liderança de um príncipe morto, os burmeses continuaram pressionando os defensores até o fim do dia, quando Naresuan recuou para sua capital. Apenas à noite o comando burmês tomou conhecimento da morte de Mingyi Swa, e decidiu retornar ao seu país.

Na versão siamesa (que teria ocorrido em 18 de janeiro de 1593), os dois exércitos encontraram-se a oeste da capital. Burmeses em boa ordem teriam irrompido pelas escaramuças do exército nativo e tomado a ofensiva. Parte da retaguarda siamesa teria caído, e Naresuan, seu filho mais novo e sua escolta teriam ficado cercados. Num momento de desespero, o rei siamês se dirigi a Mingyi Swa, desafiando-o a um combate pessoal sobre elefantes. Swa teria se sentido constrangido em recusar o desafio. Manobrando seus elefantes de guerra, os dois lutavam com espadas; Naresuan foi golpeado em seu elmo, mas revidou com uma estocada no coração do rival, matando-o na hora. Enquanto isso, seu filho fazia o mesmo com um nobre burmês. Os burmeses começaram a atirar com armas de fogo, derrubando alguns mahouts que protegiam Naresuan, mas a desordem teria permitido que parte desgarrada do exército siamês se reagrupasse e avançasse para resgatar seus líderes.

Uma análise moderna dos relatos de época oferece uma terceira versão, também dramática: Swa e Naresuan lutaram a última batalha em elefantes, mas nunca chegaram a duelar. Naresuan teria ficado cercado, mas um dos elefantes burmeses teria entrado em pânico e atacado suas próprias linhas, deslocando Swa de sua posição. Neste momento, Naresuan ou alguém próximo, que estava ao alcance do comando burmês e não tinha escolha, disparou uma arma e alvejou mortalmente o príncipe inimigo, causando desordem e o recuo das forças invasoras.

A guerra terminou em 1594 com a conquista por Naresuan do sul de Burma (ele também havia empreendido ao mesmo tempo uma campanha para anexar o Camboja). Os conflitos armados entre Burma e Sião perduraram por mais 250 anos, até 1855, pouco depois do rei tailandês Rama III, no seu leito de morte, alertar o seu país a não mais lutar contra seus vizinhos, diante da ameaça crescente representada pelos europeus.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Breves alianças e uma guerra sangrenta

Em 10 de dezembro de 1508, o Papa Júlio II, o rei Luis XII da França, o imperador Maximiliano I do Sacro Império Romano, e o rei Fernando II de Aragão firmaram, mediante seus representantes legais, a formação da Liga de Cambrai, aliança militar originalmente contra a República de Veneza.

A passagem do século XV para o XVI apresenta muitos eventos dramáticos que transformaram a antiga Europa feudal numa região economicamente dinâmica, levando a um expansionismo comercial e colonial e a uma crescente proeminência nos negócios em escala global, alcançando África, Américas, Índia e China. Um dos eventos-chave que desencadearam vários desses processos foi, curiosamente, um revés: a perda de Constantinopla para os turcos otomanos em 1453. O Império Bizantino definhava havia séculos, mas ainda gozava da posição privilegiada da sua bem defendida capital, guardando o Estreito de Bósforo, que liga o Mediterrâneo ao Mar Negro, e permitia a passagem segura de navios até um trecho da Rota da Seda que não passava por território controlado por muçulmanos hostis. Quando os turcos tomaram a cidade, esta via se fechou. Na verdade continuou aberta, mas à mercê do humor do sultão e de piratas turcos e árabes, e acessível sob o pagamento de taxas que diminuíam a competitividade dos preços dos produtos que saíam e entravam na Europa. Apenas os venezianos, então senhores de um vasto império comercial marinho com possessões pontuais ao redor do Mediterrâneo, tinham o direito de operar o comércio nos domínios turcos. Veneza já tinha uma colônia comercial logo ao norte de Constantinopla, em Pera, quando ainda era controlada pelo Império Bizantino, e manteve os mesmos direitos depois da sua conquista.

Com a ligação com a Ásia via Mediterrâneo comprometida, as nações europeias tinham três opções: aliar-se aos turcos (como fazia Veneza, porém, com graves consequências no campo religioso), tentar quebrar seu domínio à força, ou lançar-se no desconhecido Oceano Atlântico em busca de novas rotas para o leste. Neste novo cenário, os reinos mais ocidentais de Portugal, Castela e Aragão tomaram a iniciativa. Portugal lançou repetidas expedições que tateavam a costa da África à procura de uma passagem ao sul até o Oceano Índico. O genovês Cristóvão Colombo convenceu os reis de Espanha a financiarem uma expedição que desbravaria uma rota alternativa para a Índia navegando para o oeste (adotando e convencendo-os da tese de que a Terra era esférica, embora não tivesse certeza do seu tamanho). Colombo nunca chegou à Índia, pois a América estava no caminho. Eventualmente essas nações, seguidas depois pela França e por aventureiros holandeses e ingleses, descobririam o potencial econômico da América e da África recém-descobertas, além de estabelecer rotas comerciais com a Ásia que evitavam os turcos e venezianos, guardando os lucros do comércio para si.

Países mais no interior, como a própria Veneza, os reinos e repúblicas italianos e o Sacro Império Romano, continuaram por muito tempo a insistir no Mediterrâneo como essencial às suas próprias aspirações econômicas. Veneza mesmo já estava vendo os recém consolidados reinos espanhóis, por exemplo, graças ao comércio oceânico, assumirem uma proeminência política sobre a cristandade que os venezianos só poderiam ambicionar em sonho. Mas na Itália, Veneza ainda era uma potência econômica considerável, talvez a única capaz de fazer frente à França, por exemplo, e uma atriz principal no cenário político local, que incluía o Papa. Na virada do século, quando cada nação estabelecia e adaptava seu próprio modelo de desenvolvimento, as alianças flutuavam de acordo com as conveniências de momento. Outra influência forte sobre a política italiana era a dos reis franceses, que herdaram, com ajuda do Papa, o reino de Nápoles (região pobre ocupada basicamente por pastores de ovelhas, mas que cobria praticamente metade da península).

Em 1494 explodiu uma guerra na Itália entre Ludovico Sforzza (extraoficialmente, senhor de Milão), Alfonso II (príncipe aragonês que reivindicava o direito ao trono de Nápoles) e Carlos VIII da França (que ainda pensava se aceitava ou não a oferta do Papa). Ao invadir a Itália para combater a resistência napolitana, Carlos destruiu a fortaleza de Mordano, próximo a Bolonha, e massacrou seus habitantes, deixando os italianos em choque. Rapidamente formou-se contra ele uma aliança capitaneada por Veneza (que pretendia, com o respaldo de potências ocidentais, romper relações com os otomanos e competir diretamente com eles), que incluía, entre outros, os aliados iniciais dos franceses, Milão e os Estados Papais. Também entraram na disputa o irmão de Alfonso, Fernando II de Aragão (cujo domínio incluía a Sicília), o Sacro Império Romano (aliado tradicional do Papa), e a Inglaterra.

Esta primeira guerra se estendeu até 1498, quando Carlos retornou com seu exército para a França, com receio de que a aliança no norte o encurralasse em Nápoles. Carlos morreu e foi sucedido por Luis XII. Veneza, vendo a possibilidade de partilhar as conquistas francesas no norte da Itália (especialmente o Ducado de Milão), mudou de lado. Os reis de Espanha também mudaram de lado, com a promessa francesa de repartir também o reino de Nápoles entre eles (Luís temia, com razão, uma guerra em duas frentes se invadisse a Itália sem o consentimento de Fernando II). O Papa Alexandre VI (um Borgia) também esperava apoio francês para as aspirações de seus filhos bastardos e consentiu com suas manobras. Quando o então rei de Nápoles Frederico IV abdicou em favor de Luís, franceses e aragoneses entraram em disputa sobre quem levaria o que, e Fernando II mudou de lado. A França perdeu o apoio dos Borgia com a morte de Alexandre VI e a ascensão de Júlio II (que prendera Cesare Borgia, um dos principais comandantes ao lado dos franceses na Itália). Com soldados mais experientes devido à Reconquista, Fernando acabou com as pretensões de Luis e o mandou de volta à França em 1504.

A aliança geral contra a França se dissolveu com a morte de Alexandre e da rainha Isabela de Castela. O sacro imperador arranjara um casamento de um príncipe alemão com uma filha de Luis. Mesmo Veneza aceitaria reconhecer a soberania do papado sobre a Itália e pagar tributo por cada cidade italiana sob domínio da república. Porém, a recusa de Veneza de entregar as cidades em si se tornaria novo foco de tensão. Júlio costurou uma aliança frouxa com França e Sacro Império Romano contra Veneza, e persuadiu o sacro imperador Maximiliano a atacar a república em 1508, sem sucesso. Veneza ainda desafiaria o papado indicando seu próprio candidato ao bispado de Vicenza, então vago. O Papa então convocou França, Sacro Império, e os reinos unidos de Castela e Aragão para uma aliança formal especificamente contra Veneza, firmada na cidade de Cambrai, no norte da França, prevendo a partilha de territórios venezianos aos seus signatários. O Ducado de Ferrara, ao sul de Veneza, também entrara como aliado da França, e até a Hungria oferecera auxílio. A França se moveu primeiro e rapidamente obliterou a resistência veneziana no norte. A república se rendeu ao Papa sob duros termos para manter sua independência. Porém, a França continuou a atacar a região do Veneto no ano seguinte.

O jogo de poder estava apenas começando. A França, que ocupava militarmente o norte da Itália, insistia em uma atitude agressiva contra Veneza, que já havia se rendido. O Papa Júlio II começou a se agitar contra essa ameaça comum. Ele decidiu invadir o Ducado de Ferrara com ajuda de Veneza. O pontífice deixara mercenários suíços lutando contra os franceses perto de Milão, contando que isso os deteria tempo suficiente para tomar Ferrara sem grandes problemas. Mas os franceses subornaram os suíços e marcharam para o sul, tomando Bolonha e quase encontrando o Papa na cidade. A França seguiu na ofensiva, encurralando o Papa em Ravena. Sem saída, Júlio II proclamou uma Santa Aliança contra os franceses, atraindo para seu lado o Sacro Império Romano (que tinha pretensões em território francês), a Espanha, e a Inglaterra (Henrique VIII casara-se com a princesa espanhola Catarina de Aragão e via a oportunidade de empreender conquistas conjuntas na França com seu colega Fernando II). A Liga de Cambrai passou a existir sem a França.

Embora as forças combinadas da Liga comprometessem as posições francesas, seus aliados divergiam quanto a quem deveria ficar com qual território. Não havia consenso sobre quem deveria ser nomeado duque de Milão, nem sobre a anexação de Ferrara aos Estados Papais. Ninguém queria que um dos seus aliados subitamente se tornasse mais poderoso do que os outros. Maximiliano se recusava a desocupar o Veneto, exigência de Veneza. Vendo-se marginalizada nas negociações da Liga, Veneza buscou aliança com a França, e ambos voltaram a atacar no norte da Itália em 1513. Ingleses e espanhóis atacavam diretamente a França, que respondia através de seus aliados escoceses. Com cada lado praticamente lutando por si, houveram muitas escaramuças e saques, mas nenhum ganho real para qualquer um deles. Henrique assinou uma trégua com Luis. O Papa morreu em 1513, deixando a Liga de Cambrai (ou no que ela havia se transformado) sem liderança.

A morte de Luis XII em 1515 desmobilizou os esforços de guerra na Itália... mas apenas momentaneamente. Seu filho Francisco I assumiu o trono, reivindicando também o Ducado de Milão, Ainda em aliança com Veneza, Francisco expulsou os suíços do norte da Itália. Todas as partes, exauridas, concordaram com as pretensões de Francisco, com a devolução de territórios a Veneza, com a cessão de Nápoles ao rei da Espanha, e com a autoridade dos Estados Papais sobre seus vassalos na Itália. A região veria alguma estabilidade apenas até 1521, quando Carlos V é eleito sacro imperador, e arrasta toda a Itália e a Inglaterra consigo para um novo round contra a França, culminando (mas não terminando) com o horrendo saque a Roma de 1527 e o cativeiro do Papa Clemente VII.

Quanto a Veneza, pivô de tudo isso, os problemas na Itália fizeram-na perder controle sobre suas colônias mar afora. Rompendo com os turcos, os venezianos, incapazes de defender todas as suas cidades, acabariam perdendo o Chipre, sua principal base de operações com a Ásia. Atritos contínuos com o papado e com os otomanos, além da sua importância comercial reduzida pela sua insistência em manter um império naval numa região decadente, fizeram a república definhar. Quando Napoleão chegou à frente do exército revolucionário francês para combater os austríacos em 1796, Veneza tinha apenas 9 navios de guerra em sua frota; ela foi anexada e deixou de existir como entidade política independente (exceto como Estado-fantoche da Áustria, ou por 17 meses entre 1848 e 1849 como República de San Marco) e passou a integrar, alternadamente, a Áustria-Hungria e a Itália unificada.

Para a Itália, as constantes guerras só não foram mais catastróficas, do ponto de vista demográfico, porque a região vinha de um momento de prosperidade durante o Renascimento (o crescimento demográfico na Itália diminuiu até quase estabilizar na parte final do século XVI). O envolvimento ostensivo e direto do papado em questões territoriais e seculares influenciaram nas diferentes dissenções religiosas do período, principalmente na Reforma Protestante de Martinho Lutero, e na Reforma Anglicana, a resposta de Henrique VIII à recusa do Papa Leão X, sucessor de Júlio II, em ratificar o seu divórcio com Catarina de Aragão.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Turcos em Viena

Em 15 de outubro de 1529, após quase 20 dias de resistência e dissenções internas, um grande exército otomano levantou o cerco à cidade de Viena e se retirou.

Desde meados do século XV, o Império Otomano avançava progressivamente pelo sudeste da Europa. Em 1453 tomou Constantinopla, rebatizada Istambul, e, a partir daí, anexou a maior parte de Grécia (deixando alguns rincões para seus aliados venezianos), Macedônia, Albânia, Sérvia, Bulgária. Assumiu o controle sobre os tátáros na margem norte do Mar Negro, e transformou a Transilvânia em um Estado-cliente. Em 1526 tomou a porção oriental da Hungria, incluindo a sua capital Buda (que compõe com a vizinha Pest a atual Budapeste). A conquista da Hungria se deu após a Batalha de Mohács, onde morreu o rei húngaro Luis II.

A porção ocidental da Hungria ainda resistia, sob a esfera de influência dos Habsburgo, a família reinante do Sacro Império Romano. Enquanto o sultão Suleimã nomeou um certo João Zapolya rei da Hungria, o Sacro Império reuniu seus príncipes e representantes em Bratislava e elegeu o parente mais próximo de Luís, o arquiduque da Áustria Fernando, seu cunhado e irmão do sacro imperador Carlos V. Com um concorrente apoiado pelo sultão, Fernando se apressou em assegurar sua posição reconquistando Buda e várias cidades centrais em 1527. Zapolya contava apenas com uma guarnição turca deixada lá. Porém, não demorou muito para que Suleimã respondesse marchando à frente de mais de 120 mil homens, reconquistando tudo que Fernando tomara e reinstaurando Zapolya no trono em quatro meses de campanha, em 1529. Como Fernando reinava em Viena, Suleimã decidiu avançar para a Áustria e capturar a sua capital.

Os quase cem anos de conquistas turcas na Europa, mesmo a tomada do último bastião do Império Bizantino, não causaram o pânico na cristandade européia que a marcha em direção a Viena provocou. Além do enorme contingente subindo pela Hungria, vários destacamentos percorriam a Bavária e a Boêmia ao sul e ao norte, espalhando terror e marcando a presença turca em territórios considerados seguros. Martinho Lutero, que declarara decididamente que os turcos muçulmanos eram uma punição divina pelos pecados dos cristãos, passou a exortá-los a combatê-los com vigor. O Sacro Império Romano estava ocupado na Itália e na França, mas Carlos V enviou mosqueteiros espanhóis. Landsknechte (lanceiros germânicos com roupas bufantes e coloridas e chapéus extravagantes típicos da Renascença que se empregavam como mercenários por toda a Europa) também se apresentaram. A população de Viena e das zonas rurais próximas organizaram suas defesas dentro da cidade. A Catedral de São Estevão foi usada como quartel-general.

Não se sabe o quanto os austríacos tinham consciência das dificuldades que os turcos enfrentavam em sua marcha para a Áustria. Suleimã partira da Bulgária em maio, com talvez 300 mil homens, peças de artilharia e camelos de carga. Em 1529, o verão nos Cárpatos foi especialmente úmido. Na Bulgária e na planície húngara formaram-se incontáveis atoleiros, onde os canhões afundavam e os camelos quebravam suas pernas. Os animais sequer chegaram à Hungria, e muito equipamento foi deixado para trás. Doenças também fizeram vítimas entre os soldados. Em um certo momento, o grão-vizir Ibrahim Pasha aconselhou ao sultão que adiasse a expedição, mas Suleimã considerava uma indignidade ter os seus planos contrariados pelo clima. Os turcos seguiram adiante. As batalhas travadas na Hungria em si não ofereceram grande dificuldade, devido ao pequeno contingente de defensores deixados ali por Fernando. Mas à medida em que se aproximavam da Áustria, os turcos enfrentaram guerrilheiros austríacos que entravam nos acampamentos à noite e atiravam bombas caseiras, incendiando as tendas (cerca de dois mil soldados turcos pereceram nesses ataques). Mas a perda da artilharia provaria ser decisiva.

Mesmo com as perdas e deserções, o exército otomano que chegou a Viena no fim de setembro tinha dez vezes mais homens do que seus defensores. Porém, boa parte estava doente e cansada, e das unidades em boas condições, um terço era de cavalaria leve, inútil em táticas de cerco. O sultão enviou emissários ordenando a rendição da cidade, mas eles voltaram sem resposta. Embora destruíssem os subúrbios da cidade praticamente desertos, sem seus canhões, os otomanos não tinham o que fazer além de cavar túneis para plantar explosivos sob as muralhas. Os defensores se esgueiravam à noite e destruíam esses túneis.

Ao longo das duas primeiras semanas, pouco progresso foi feito nas muralhas vienenses, e incerteza e inquietude tomaram conta dos otomanos, especialmente os janízaros, corpo de elite do exército otomano, que vinham aborrecidos desde Buda por não terem sido autorizados a saquear a cidade. Haviam notícias de que Carlos V selara a paz com a França e estava mobilizando reforços (havia rumores de que o próprio rei Francisco da França oferecera aliança ao antigo inimigo para uma cruzada contra os turcos). Fernando e sua corte haviam abandonado a cidade, deixando pouco a ser efetivamente conquistado com a sua queda.

No dia 12 de outubro Suleimã ordenou um ataque total, prometendo recompensas às tropas, mas o terreno encharcado pela chuva da noite anterior e a resistência dos mosqueteiros e lanceiros rechaçaram qualquer tentativa (o comandante da resistência vienense, o mercenário Nicolas von Salm, foi ferido por uma pedra nessa ocasião e morreu alguns meses depois). Para piorar, começou a nevar inesperadamente. Diante de um inverno precoce e sem previsão de tomada da cidade, Suleimã prudentemente ordenou a retirada das suas tropas e o retorno a Istambul. Ele não sabia que as muralhas de Viena, relativamente estreitas e reforçadas de maneira improvisada, poderiam ruir a qualquer momento.

Curiosamente, quando os turcos abandonaram o acampamento, deixaram também para trás muitas sacas de grãos de café, antevendo as dificuldades da marcha de volta para casa. Como não podiam tomar bebidas alcoólicas, os soldados muçulmanos tomavam café avidamente, aproveitando-se do seu efeito estimulante. Os vienenses recolheram tudo que os turcos deixaram de valor, inclusive o café, e rapidamente o gosto pela bebida se espalhou pela Europa Ocidental. O sacro imperador Maximiliano II posteriormente ordenou a construção do castelo de Neugebäude centrado no mesmo lugar onde ficava a tenda de Suleimã.

No final das contas, Suleimã, que até então sonhava em conquistar Roma, assegurou a posse da Hungria sob o títere João Zapolya. Na verdade, após esta campanha, o Império Otomano atingiu o auge da sua extensão territorial (o esplendor do império e a opulência da corte otomana fariam o sultão ficar conhecido no Ocidente como Suleimã, o Magnífico). A Áustria e o oeste da Hungria, sob autoridade de Fernando, estavam tão arrasados que ele se viu impossibilitado de organizar um contra-ataque imediato, mas em 1530 ele novamente cercou Buda. Suleimã ainda tentou levar a cabo uma nova campanha em 1532 em resposta, mas acabou perdendo tempo demais no cerco à fortaleza de Guns, desistindo em seguida de avançar até Viena. A fronteira entre os otomanos e os Habsburgo atingiram uma estabilidade que permitiu aos turcos se concentrar na busca pela supremacia no Mediterrâneo, levando-os a uma série de campanhas contra os poderes navais do sul da Europa, incluindo seus antigos parceiros venezianos. A incapacidade turca de avançar além da Hungria desmistificaria o seu poderio e encorajaria revoltas nacionalistas que irromperiam pela parte européia do império nos séculos que viriam. Outro cerco fracassado a Viena em 1683 marcou o início da decadência do Império Otomano - ou, talvez, o início da queda de um império comece do seu apogeu.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Vida e lenda de Dom Sebastião

Em 4 de agosto de 1578, Dom Sebastião I de Portugal tombou na Batalha do Alcácer Quibir.

Sebastião ascendeu ao trono aos três anos de idade. Durante o período de regência de sua avó, a Imperatriz Catarina da Áustria, e do Cardeal Henrique de Évora, cunhado de Catarina, o Império Português interrompeu sua expansão colonial e entrou na defensiva. Com a proeminência do cardeal no governo, e a educação religiosa do jovem Sebastião entre os jesuítas, o governo português se deteve em assuntos religiosos ao invés de aprimorar a administração das suas colônias. Com Portugal na defensiva, outra potência marítima da época, o Império Otomano (que disputava o domínio do Mediterrâneo com Veneza, mas pouco se aventurava fora dele) arriscava ataques diretos, ou por meio de piratas, aos navios portugueses próximos à costa do Marrocos. Portugal já possuía algumas fortalezas na costa marroquina, porém era muito custoso mantê-las, já que as fontes de recursos mais próximas estavam de posse dos mouros.

Surgem aí, portanto, três motivos que convergiram para um plano geral de conquista do Marrocos - a expansão do cristianismo para o vizinho muçulmano mais próximo, a erradicação da pirataria muçulmana em águas portuguesas, e a viabilização da presença portuguesa já existente no norte da África. Dois eventos ainda estavam por vir que mergulhariam Portugal numa guerra afoita contra o reino africano.

Em 1562, uma enorme força marroquina liderada por Mulei Mohammed cercou a fortaleza portuguesa de Mazagão, na costa marroquina. Nos três meses de cerco, 25 mil soldados marroquinos pereceram, contra 17 defensores portugueses. A resistência insuflou a moral portuguesa e o ego de Sebastião, que ainda era uma criança.

O jovem rei, que assumiria o cargo em 1568 aos 14 anos, crescera convencido de que estava destinado a realizar grandes proezas como rei e em nome da cristandade. Ele advogava uma cruzada católica contra os mouros, e iniciou imediatamente preparativos para tal campanha. Ele próprio havia aceitado prontamente um pedido do Papa para uma cruzada contra os turcos no oriente (ele já havia mesmo articulado uma estratégia com seus aliados persas para um ataque em duas frentes), mas acabou sendo dissuadido com muito esforço. No entanto, por conta própria, acompanhado apenas por alguns fidalgos e poucos soldados, e sem qualquer planejamento, Sebastião navegou secretamente até as cidades marroquinas de Ceuta e Tânger (possessões portuguesas na época), com o espírito de usá-las como ponte para conquistar o país, fosse como fosse. Em Tânger, as defesas marroquinas, à visão do rei de Portugal em pessoa, recuaram pensando que ele estivesse acompanhado de um exército. Sebastião regressou frustrado, com a ideia fixa de conquistar o Marrocos. Contudo, para esta causa não encontrou apoio - Filipe II, rei da Espanha e seu primo, em conferência privada, não só não quis participar da campanha, como preferiu adiar o casamento de uma de suas filhas com o rei português, com medo de que ele realmente seguisse seu plano e a deixasse viúva.

Por fim, em 1576, o sultão Mulei Mohammed (o mesmo comandante do cerco a Mazagão) foi deposto por seu tio, com apoio de um exército turco, e fez um pedido de ajuda a Dom Sebastião, prometendo-lhe mais concessões de terras no seu país, entregando-lhe, de pronto, a fortaleza de Arzila, que o rei anterior, João III, abandonara. Foi o pretexto para o rei português lançar sua tão sonhada cruzada que vinha preparando havia pelo menos 10 anos - a despeito da reação negativa de toda sua côrte, seus ministros, do clero, e de sua avó. Suas reuniões com ministros, contudo, não eram sobre a viabilidade de uma expedição ao Marrocos, mas para resolver os detalhes de como realizá-la de maneira eficiente.

Dom Sebastião partiu à frente de uma grande frota, com mais de 23 mil soldados (12 mil portugueses, os demais estrangeiros comandados por amigos seus e mercenários) e 40 peças de artilharia. O exército desembarcou em Tânger, onde juntou-se a Mohammed e 6 mil mouros, e seguiu por terra, passando por Arzila, em direção a Alcácer Quibir. A costa marroquina é árida, e a marcha por terra desgastou as tropas. De fato, Sebastião não se dera ao trabalho de dar ouvidos aos conselhos do aliado marroquino, e não fazia sequer ideia do tamanho do exército do seu inimigo, o sultão Mulei el-Malek. Perto de Alcácer Quibir, el-Malek surgiu um exército pelo menos duas vezes maior. Embora conseguisse avançar pelo centro, as linhas portuguesas foram cercadas pelos flancos pela numerosa cavalaria moura, e em 4 horas a batalha terminou com metade do exército português morto, e a outra metade capturada (cujos resgates custaram a ruína econômica da coroa portuguesa). Mulei el-Malek, que estava doente, morreu enquanto tentava montar seu cavalo. Mulei Mohammed se afogou enquanto tentava fugir cruzando o rio. Já Dom Sebastião foi visto pela última vez com seus amigos avançando com a espada em punho em direção ao inimigo.

Cerca de 100 sobreviventes conseguiram regressar a Portugal. Nenhum deles, nem os soldados resgatados posteriormente, contudo, produziu algum relato confiável do paradeiro de Dom Sebastião. Seu desaparecimento deixou o trono português vago, pois não tinha filhos (seria sucedido pelo velho cardeal Henrique, antes de passar para Filipe II da Espanha, que promoveria a União Ibérica). Logo se espalhou o boato, na própria côrte, de que Sebastião estava vivo e retornaria para governar o país. Mesmo que isso demorasse, o boato, transformado em mito, se tornou um motivo nacionalista na população durante a União Ibérica (embora Filipe tenha tentado mitigar o movimento alegando ter recebido dos marroquinos os restos mortais de Sebastião e os enterrado no Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa). Os trovadores João de Castro e Gonçalo Annes Bandarra deram ares místicos ao retorno de Sebastião, como a profetização de um Messias. O personagem tomou contornos similares aos do Rei Arthur, o rei-herói que deixou a Inglaterra para a misteriosa ilha de Avalon, mas voltaria para salvar seu país. No fim da União Ibérica, quando João de Bragança aparecia como o favorito ao trono português, era corrente a crença de que ele lutaria com Dom Sebastião ao seu lado para livrar Portugal do domínio espanhol (se tornando efetivamente Dom João IV). Dom Sebastião seguiu até pelo menos o século XX como um símbolo patriótico português, presente na literatura e na música. No Brasil, o mito de que Dom Sebastião retornaria para reclamar a coroa inspirou os movimentos populares de Canudos (Antonio Conselheiro via na monarquia brasileira, a única forma de governo legítima pela vontade divina, e que Dom Sebastião viria para restaurá-la) e do Contestado (corria a lenda de que Dom Sebastião lutava entre os revoltosos). Mais recentemente, o mito de Dom Sebastião foi evocado na novela brasileira Mandacaru, como figura que legitima a pretensão meio louca do cangaceiro Zebedeu a tornar-se rei da cidade de Jatobá.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

A Armada Espanhola

Em 29 de julho de 1588, uma numerosa esquadra inglesa venceu a Armada Espanhola perto da costa de Gravelines, atual Bélgica, impossibilitando definitivamente uma invasão espanhola à Inglaterra.

Durante o século XVI, as questões religiosas começaram a interferir nas questões dinásticas, sobretudo na Inglaterra Tudor, cujo rei Henrique VIII fundara o Anglicanismo com o intuito de romper a dependência de Roma nas sua decisões domésticas (particularmente no seu direito ao divórcio). Enquanto isso, a família Habsburgo plantava suas sementes em casamentos reais, de maneira que um dos filhos do Sacro Imperador Romano Carlos V, Filipe, tornara-se ainda jovem, rei de Nápoles e reclamante do trono do finado Reino de Jerusalém. Isto o qualificava a um casamento com igualdade de condições com Maria I, rainha da Inglaterra, e sua prima (o que o tornaria, também rei da Irlanda). Em 1556 seu pai, que também era rei da Espanha, morreu, deixando-o, como Filipe II, no trono espanhol com suas possessões ultramarinas, além de territórios em Milão, a região do Franche Comté na França, os Países Baixos e Luxemburgo. Em 1558 assumiu também o trono de Portugal, de cuja falecida princesa Maria Manuela fora casado por 8 anos. Quando Maria I morreu, dois anos depois, Filipe foi obrigado pelo acordo de casamento a ceder o trono a Elizabeth I, a filha anglicana da união de Henrique VIII e Ana Bolena, pois seu papel de rei emanava da sua união com Maria, "até a morte".

No primeiro momento, Filipe, um monarca pragmático, lidou com a perda da Inglaterra de maneira política. Ele chegou a propor casamento com Elizabeth, mas, como viria a ser sua característica, a nova rainha cultivava uma imagem de castidade e postergou a resposta até Filipe perder o interesse e procurar outra alternativa. Ainda assim ele procurou manter relações cordiais com a Inglaterra, defendendo Elizabeth de questionamentos sobre a sua legitimidade diante da ameaça do Papa de excomunhão.

A questão religiosa aproximou Elizabeth dos protestantes holandeses, formalmente súditos rebeldes de Filipe. Como resultado desta aliança, embarcações inglesas começaram a atacar navios espanhóis carregados de produtos do Novo Mundo em atos de pirataria (o capitão Francis Drake, secretamente a serviço da rainha, alçaria grande fama atacando navios e alguns dos principais portos espanhóis). Em 1585 Elizabeth formalizou a aliança no Tratado de Nonsuch, fornecendo tropas e suprimentos aos protestantes holandeses contra a coroa espanhola. Filipe considerou o tratado uma declaração de guerra.

Na época, a Escócia gozava de independência e era governada por outra Maria, parente distante dos Tudor. Enquanto Elizabeth era protestante, e, portanto, tinha seu direito à coroa questionada pela Igreja Católica, Maria era católica. Conspirações dentro da própria corte escocesa a levaram à prisão e à deportação para a Inglaterra, onde viveu muitos anos sob custódia. Ela foi presa uma última vez em 1586, acusada de colaborar com um plano para assassinar Elizabeth. Filipe havia assinado em 1584 um tratado com a França católica para a colaboração mútua contra os protestantes, e isso incluiu esforços conjuntos para restaurar Maria de volta ao trono escocês - e talvez elevá-la ao trono inglês.

A execução da rainha escocesa em 1587 provocou uma mudança radical de planos: Filipe tentaria diretamente invadir a Inglaterra para tirar Elizabeth do poder. Para isso ele ordenou a mobilização de grande parte da marinha espanhola, armando 130 navios de grande e médio portes com 2500 canhões e 18000 soldados. Era a Grande e Felicíssima Armada Espanhola. Demorou dois dias inteiros até que todos os navios deixassem o porto de Lisboa em direção ao Canal da Mancha, especificamente à Ilha de Wight, junto à costa inglesa, onde esperariam reforços vindos do ducado de Parma para a invasão propriamente dita.

Uma operação deste tamanho não passou despercebida dos ingleses, que mobilizaram sua própria frota para interceptar o maciço ataque espanhol. Ao longo do trajeto, os ingleses promoveram algumas escaramuças, mas sem grandes efeitos para um lado ou outro. Porém, impediu o avanço da Armada para a Ilha de Wight, forçando-a em direção a Calais, na França, onde ela aguardaria os reforços de Parma e escoltaria suas barcaças pela travessia da Mancha. A posição dos navios espanhóis, de quilha profunda, no raso porto de Calais era vulnerável na medida em que navios holandeses especialistas em águas rasas se aproximavam e isolavam as águas entre os navios espanhóis e a costa, impossibilitando o embarque dos soldados parmigianos em terra (que não estariam prontos para tanto em menos de uma semana). Em 28 de julho de 1588, os ingleses se aproveitaram da indecisão e sacrificaram alguns navios, incendiando-os nas águas rasas junto a Calais e os mandando em direção à frota inimiga. Os navios espanhóis partiram em confusão em direção a Flandres, com os ingleses no seu encalço.

No dia seguinte, em Gravelines, o almirante espanhol, o Duque de Medina Sidonia, tentou reorganizar sua frota. Mas logo os ingleses, capitaneados por Francis Drake, abandonaram a tática de atirar à distância e decidiram por um bombardeio em massa à curta distância. Até então, Drake procurava fustigar o inimigo à longa distância, evitando o alcance dos canhões espanhóis, mas sem resultados. Os espanhóis, por outro lado, tinham em mente outro modelo de combate naval: a abordagem direta e captura das embarcações inimigas com a força dos soldados a bordo. De modo que o ataque frontal dos ingleses em Gravelines foi devastador. Com os navios posicionados de maneira que os espanhóis ficavam de barlavento, os ingleses miravam os cascos junto à linha da água, de forma que, quando os inimigos manobrassem, a água penetrasse naturalmente, levando-os a pique. A batalha durou oito horas, até que a munição dos navios britânicos acabou. Cinco navios espanhóis foram perdidos, e muitos avariados. Devido à posição insustentável, e suspeitando que os ingleses estariam prontos para mais abordagens no mar e protegidos em terra, Medina Sidonia teve que abandonar os reforços de Parma no continente e seguir em movimento.

No final, a invasão de larga escala se transformou numa longa e penosa viagem em volta das Ilhas Britânicas. Com os navios avariados e pouca experiência naquelas águas, a maior parte dos navios espanhóis viria a naufragar próximo às costas da Escócia e da Irlanda, onde de 10 a 20 mil homens, entre soldados e marujos, perderam a vida (em afogamentos, por forme, doenças, ou executados por tropas inglesas e populações locais). Dos 130 navios que deixaram Lisboa em abril, apenas 67 chegaram aos portos de Espanha e Portugal. A guerra entre o império de Filipe II e a Inglaterra e os rebeldes protestantes na Holanda continuaria ainda por vários anos. Apesar do mal planejamento da expedição e de um comando questionável (o Duque de Medina Segovia não tinha qualquer experiência no mar), e a despeito do entusiasmo inglês que se seguiu à derrota da Armada (Elizabeth lançou no ano seguinte a sua Contra-Armada, que também fracassou), a Espanha ainda conseguiria manter por várias décadas a sua superioridade nos mares e seu controle sobre Portugal e suas colônias. Para a Inglaterra e o movimento protestante, a vitória sobre a Armada era um sinal de afirmação divina da doutrina protestante e da soberania de Elizabeth I.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

O cristianismo chega ao Japão

Em 27 de julho de 1549, o missionário jesuíta, e futuro santo, Francisco Xavier chegou ao Japão. Foi a primeira missão cristã naquele país.

Francisco, cofundador da Companhia de Jesus, teve um papel muito significativo na expansão do catolicismo na Índia (especialmente Goa, principal cidade sob controle português na Ásia e sua base de operações), na China, e nas Filipinas, enquanto viajava sob a comenda do rei João III de Portugal. Em 1547, em Malacca, na atual Malásia, enquanto oficiava um casamento, ele foi apresentado a um samurai japonês exilado chamado Anjiro. Foi o primeiro japonês que se tem notícia a se converter ao cristianismo, e exerceu influência na decisão de Francisco de tomar o caminho do Japão. Xavier estudou avidamente tudo que se sabia sobre o Japão, usando também as informações trazidas por Anjiro.

O Japão só era conhecido dos europeus através dos relatos de mercadores portugueses que eventualmente passavam pela ilha de "Cipango". De fato, mercadores portugueses introduziram as armas de fogo no Japão em 1493 e continuariam a ser seus principais fornecedores de salitre para pólvora, o que se tornaria instrumental, uma geração depois, na guerra civil conhecida como Sengoku. A notícia que chegava a Francisco Xavier era de que o povo japonês era "razoável", e que o trabalho com eles seria muito mais produtivo do que com os "pagãos" na Índia. Acompanhado de Anjiro (batizado como Paulo de Santa Fé) e outros três jesuítas, munido de presentes ao "Rei do Japão", ele partiu de Guangzhou (antigamente conhecida como Cantão), na China.

Chegar ao Japão foi simples. Talvez tenha sido a parte mais simples da missão. Os problemas começaram quando o navio não obteve permissão para aportar, até que, em meados de agosto, eles desembarcaram em Kagoshima, na ilha de Kyushu. O daimyo local, Shimazu Takahisa, recebeu amistosamente Francisco como um dignatário do rei de Portugal e sua companhia, mas logo depois proibiu radicalmente a conversão do seu povo ao cristianismo sob pena de morte. Em Yamaguchi, Mori Motonari (personagem que inspirou Hidetora Ichimonji, personagem principal do filme Ran, de Akira Kurosawa), daimyo local, permitiu que Francisco pregasse ali. Mas isso não simplificou muito as coisas.

Francisco de Assis encontrou barreiras culturais que ele não havia encontrado na Índia, onde a evangelização vinha sendo feita de maneira acidentada. A primeira, a da língua, tornou a pregação direta da Palavra impossível. Francisco recorria a pinturas que trazia da Virgem Maria e do Menino Jesus para tentar explicar conceitos básicos. Vez ou outra, em pregações, ele lia textos das Escrituras traduzidos para o japonês (no alfabeto latino, tentando reproduzir os sons das palavras), sem qualquer fluência na língua. Imagine-se lendo um texto em romanji (o japonês escrito em alfabeto romano), sem ter como saber exatamente seu conteúdo, diante de uma plateia de japoneses nativos.

A segunda barreira era a própria base religiosa do Japão. Todos os japoneses eram adeptos do budismo ou do xintoísmo. Para eles, um Deus que tenha criado tudo, inclusive o mal, não podia ser um bom deus. A danação aos não conversos também perturbava os nativos, que combatiam a ideia de que seus antepassados estivessem sofrendo no inferno. Entre os japoneses ainda corriam o boato de que os cristãos comiam carne humana, provavelmente derivado do ato simbólico de se comer a hóstia representando o corpo de Cristo no ato da comunhão. Francisco tentou se adaptar ao vocabulário local traduzindo "Deus" para "Dainichi", que é o termo usado pela escola Shingon de budismo para designar o aspecto do vazio de Buda (Anjiro, budista de origem, teria sido responsável por isso). Embora isso lhe tenha rendido uma simpatia dos monges Shingon, assim que perceberam que a ideia do Dainichi pregado era diferente, e que a religião oferecida era uma concorrente, rapidamente retiraram esse apoio. O próprio Francisco, quando notou que Dainichi era uma "divindade local", optou por apresentar Deus como "Deuso", possivelmente o primeiro exemplo de transliteração de uma palavra estrangeira para o japonês. Logo "Deuso" foi distorcido para "Daiuso", que significa "grande mentira". A elite da cidade de Yamaguchi entendia que o que estava sendo pregado era uma nova forma de budismo.

A terceira barreira dizia respeito à própria apresentação visual de Francisco e seus auxiliares. A pobreza material ostentada pelos jesuítas era considerada vulgar pelos japoneses, dos quais mesmo os mais humildes seguiam regras de etiqueta e refinamento que não eram observadas na Europa ou na Índia. A humildade da sua aparência lhe fechou a porta mais importante: sua visita ao palácio imperial em Kyoto, para uma audiência com o Imperador, foi barrada por causa das suas vestimentas inadequadas. Para tentar ganhar a simpatia com demonstrações de poder, durante uma visita ao prefeito da cidade de Nagate, Francisco exibiu-se luxuosamente vestido, assistido afetadamente por cavalheiros e serviçais ricamente paramentados (representados por seus companheiros de missão), apresentando-se como representante do reino de Portugal e oferecendo a ele presentes do seu próprio tesouro, que recebera na Índia (muitos dos quais haviam sido destinados ao Imperador).

A quarta barreia era política. Sendo a política caracteristicamente fluída, essa barreira deixou de existir em alguns momentos. Francisco Xavier chegou ao Japão num momento tumultuado, onde o shogunato Ashikaga tinha sua autoridade questionada em várias partes do país, de modo que a instabilidade política nas províncias e as alternâncias das alianças podiam mudar as regras do jogo a qualquer momento. Os jesuítas entendiam a estrutura hierárquica do Japão feudal, e que portanto seria mais proveitoso tentar conquistar as elites, e deixar que elas se encarregassem de promover conversões em suas terras. Na verdade, fazia parte do plano inicial converter o Imperador, e, a partir da sua influência, converter todo o país em pouco tempo. Mas a delegação jesuíta nunca conseguiu contactá-lo. De qualquer maneira, alguns daimyos aceitaram a conversão e até encorajaram a conversão dos seus vassalos, mas visando apenas as vantagens que isso traria no comércio com os portugueses. Em Yamaguchi, a disputa interna pelo poder na família Shimazu pode ter levado a cordialidade inicial à hostilidade aberta nos poucos meses em que a missão esteve oficialmente na cidade (ou talvez tenham sido as agitações causadas pela sua pregação veemente contra a sodomia, na época amplamente aceita no Japão). Anos mais tarde, a influência da política japonesa sobre o cristianismo levaria a situações contraditórias, como a publicação de editos imperiais banindo a religião do país logo após a concessão de permissões do shogun, enquanto alguns daimyos (notadamente os rebeldes Oda Nobunaga e Date Masamune) faziam "corpo mole" para cumprir a lei contra os cristãos em suas terras.

Não obstante, a missão de Francisco Xavier terminou após dois anos com relativo sucesso. Depois de voltar à Índia em 1551, pelo menos três congregações cristãs continuaram a funcionar nas cidades de Hirado, Yamaguchi e Bungo de maneira independente e clandestina. Quando o padre jesuíta, Gaspar Vilela, chegou ao Japão em 1556, foi recebido por cristãos na atual cidade de Oita, onde permaneceu o companheiro de Xavier, padre Cosme de Torres. O daimyo Otomo Yoshishige, que conheceu Francisco em Oita, aceitou o batismo 27 anos depois, recebendo o nome do futuro santo. O Japão chegou a ter cerca de 130 mil convertidos durante o período Sengoku antes de um edito imperial de banimento total da religião. Ao longo da história os cristãos seriam intermitentemente protegidos ou violentamente reprimidos até que, durante a Restauração Meiji no começo do século XX a liberdade religiosa foi assegurada. Cerca de 2% da população japonesa atual é adepta do cristianismo, entre católicos, protestantes, e ortodoxos, a maioria entre imigrantes e seus descendentes.

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