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terça-feira, 17 de maio de 2016

A espada e o escudo da Europa

O trabalho tem me atropelado desde janeiro, quando deixei de escrever regularmente. Desde então tenho trabalhado a 100% da capacidade em 100% do tempo, me deixando sem espaço para escrever profundamente sobre qualquer assunto. E não foi por falta de vontade: desde o começo de abril estamos passando pelo período em que os exércitos do sultão otomano Mehmed II cercaram Constantinopla até a sua queda, em 29 de maio (em 22 de abril tentei preparar um texto marcando o momento em que os defensores bizantinos ficaram bestificados ao ver as naus turcas sendo transportadas por terra ao redor da imensa corrente de ferro que ele mantinham bloqueando o rio ao norte da cidade, com direito a remadores remando o ar e tudo, sem tempo de sequer chegar ao clímax da história). O cerco a Constantinopla de 1453 é um dos meus episódios favoritos da História (vide parêntese anterior!) e algo que me dá muita satisfação em ler e refletir a respeito. É um fardo obrigar-me moralmente a terminar qualquer tarefa à qual sou designado e da maneira mais espetacular possível, enquanto emprego tão pouca dedicação ao que verdadeiramente me dá prazer. Mas por outro lado, Goethe disse que depois de cumprir seus deveres, resta-te outro ainda: o de te mostrares satisfeito.

Então, vou aproveitar o gancho que os turcos deixaram pendurado sobre a Muralha de Constantino (antes que os bizantinos saiam à noite para derrubá-la de lá) e não vou deixar passar que em 17 de maio os turcos, vendo que seus canhões (um deles um imenso canhão de bronze projetado por um engenheiro húngaro para ser o maior já feito) não conseguiam abalar as defesas, e que os poucos defensores da cidade resistiam tenazmente aos ataques frontais (nos dias 7 e 12, os bizantinos conquistaram duas vitórias desesperadas contra assaltos à muralha), estavam testando alternativas. No dia 16, soldados turcos começaram a cavar túneis com destino às muralhas. A intenção era entrar na cidade por baixo das muralhas, já que era impossível escalá-las ou derrubá-las. Mas um desses túneis acabou interceptando um outro túnel que vinha de dentro da cidade, e ali os defensores os emboscaram.

Bizantinos contavam com engenheiros do seu lado que coordenavam reparos, a escavação de túneis de interceptação e a instalação de armadilhas contra tentativas de infiltração subterrânea (promovendo a inundação de túneis com água e entulho). As muralhas eram reparadas à noite com sacos de areia e pedra estilhaçada pelos bombardeios incessantes durante o dia.

No dia 17, os turcos já estavam com parte da sua frota estacionada dentro do rio chamado Corno de Ouro (o rio que deságua ao norte da parte antiga de Istambul, que até então era o fio de conexão da cidade com o interior em situações de cerco por terra e por mar), mas ainda assim inconvenientemente imobilizada pela corrente que bloqueava o rio. Essa corrente ficava presa à muralha e era levantada e descida conforme conveniência. Nesse dia os turcos tentaram cortá-la em uma das suas pontas, mas os parcos defensores da parte norte da muralha os fustigaram até fazê-los desistir. Eles haviam tentado a mesma coisa no dia anterior.

Enquanto isso, os otomanos montavam uma grande torre de cerco, que seria usada no dia seguinte para tentar escalar a muralha e levar a luta ao seu passadiço. Seus planos foram frustrados por defensores bizantinos, que atearam fogo à estrutura durante a noite.

Os bizantinos deixaram claro que não se entregariam facilmente, e realmente não existia uma alternativa óbvia para o sultão ali. Tomar a cidade era geopoliticamente fundamental - embora o Império Bizantino estivesse havia séculos à míngua, Constantinopla era uma fortaleza cristã que dominava a passagem do comércio entre o Mediterrâneo e o Mar Negro, e dominar Constantinopla significava dominar o grosso do comércio da Europa com a Ásia. Além disso, a cidade servia como ponto de apoio para as Cruzadas (e mesmo que elas já não tivessem o objetivo e a capacidade de penetração em território muçulmano na Ásia, ela continuava lá como uma possibilidade). Além do significado simbólico de ser o último resquício do que um dia foi o Império Romano (nós costumamos sinonimizar os bizantinos como "gregos" devido à língua e origem étnica de suas casas dominantes, mas os otomanos, nas suas crônicas, os chamavam de "romanos"). O próprio Mehmed II a descrevia como "a espada e o escudo" da Europa.

Os turcos já avançavam sobre a maior parte da Grécia, e tinham controle sobre tudo entre a Macedônia e a Sérvia, a Bulgária e partes da Romênia e Hungria, além de tudo que um dia fora bizantino na Ásia, mas Constantinopla não se entregava. Manter um grande exército parado num lugar por muito tempo é uma estratégia defensiva que os antigos gregos já conheciam bem, pois foi o que tentaram na célebre Batalha das Termópilas (que fracassou quando os atacantes persas descobriram um caminho para se infiltrar na retaguarda espartana e forçá-la a abrir caminho). Esse impasse criava inquietação no acampamento turco, cuja tenda real fora montada onde seria construído depois o palácio imperial de Topkapi (hoje o principal museu de Istambul). Havia os que acautelavam o sultão a abandonar o cerco para evitar dissenções e revoltas entre seus soldados.

Com o fracasso das minas e a impossibilidade de cortar as correntes no Corno de Ouro (e boatos de que reforços vinham do ocidente na forma de uma Cruzada convocada pelo Papa), o sultão, com apoio de parte dos seus conselheiros, designou Zaganos Pasha para liderar uma última investida. Nunca ficou muito claro como, se Pasha teria comprado a lealdade de algum soldado, ou se algum defensor local foi mortalmente descuidado, mas um portão-falso que era usado pelos bizantinos para se esgueirarem para fora das muralhas foi deixado convenientemente destrancado. No dia 28 o acampamento turco ficou em silêncio, enquanto em Constantinopla, na catedral de Santa Sofia celebrava-se uma missa com a presença do imperador Constantino XI Paleólogo, e os sinos de todas as igrejas da cidade badalavam em desafio. No dia seguinte, pela porta destrancada, os turcos infiltraram-se durante um tumultuoso ataque frontal. Ali chegaram ao interstício entre as duas muralhas que compunham o complexo de defesas local, e finalmente a luta corpo a corpo se espalhou pelas ruas. Diz-se que o próprio imperador foi visto de espada na mão esperando seu fim. A resistência em uma luta franca foi insignificante, e ao fim do dia a destruição já era tão grande, que o sultão quebrou sua promessa de três dias de butim e ordenou o fim dos ataques.

Constantinopla, rebatizada em turco Istambul (uma corruptela do grego εἰς τὴν Πόλιν, "eis tim pólin", ou "à cidade", como eles se referiam a ela), teve suas igrejas reconsagradas, incluindo a colossal catedral de Santa Sofia, transformada numa mesquita. O clero ortodoxo (que resistira firmemente às tentativas de união promovidas entre o imperador e o Papa enquanto o primeiro buscava apoio no ocidente) obteve permissão para ficar, mas o eixo da ortodoxia cristã se deslocou mais para o norte, para o emergente principado de Moscou. Venezianos e genoveses, donos de impérios comerciais próprios que, por mais por afinidade do que por convicção apoiavam os bizantinos, fizeram seus acordos para manter seus negócios no novo Mediterrâneo controlado pelos turcos. Para estes, a vitória reforçada pelo simbolismo da sua conquista serviu para pacificar e unificar as tribos turcas que viviam de maneira mais ou menos federada no centro da Anatólia, enquanto o prestígio do sultão espalhava-se pelo restante do mundo islâmico não-turco, permitindo a expansão subsequente do domínio otomano sobre a África e Arábia. A nova capital também passaria a ser o trampolim para novas conquistas e a consolidação de um império turco na Europa mesmo hoje, de forma tão reduzida.

Do ponto de vista da Europa cristã, a queda de Constantinopla, por mais indiferença que as nobrezas locais, ocupadas com seus próprios conflitos locais (guerras de sucessão no Sacro Império Romano, guerras entre repúblicas e reinos italianos, a Guerra dos Cem Anos entre França e Inglaterra, a Reconquista na Espanha), tivessem aos apelos do imperador e do Papa, foi recebida como um soco no estômago. De fato, os turcos permaneceram uma ameaça por terra e por mar pelos séculos seguintes. Enquanto isso, mestres arquitetos e artistas diversos emigraram de Istambul e do centro do Peloponeso (onde, até a queda de Constantino XI, seus irmãos comandavam uma resistência armada), e influenciaram intelectualmente o início da Renascença na Itália e a revitalização da cultura clássica grega durante esse período. De fato, muitos historiadores marcam o fim da Idade Média em 1453, após a tomada de Constantinopla.

Porém, na minha opinião, a consequência mais importante da conquista turca foi o estabelecimento do Mediterrâneo como um ambiente hostil ao comércio europeu. Enquanto turcos, venezianos, genoveses, austríacos e napolitanos confrontavam-se uns contra os outros, e Inglaterra engalfinhava-se com a França por questões dinásticas, um jovem país costeiro no extremo oeste do continente emergia como nova potência comercial à medida em que aproveitava sua posição para explorar o oceano em busca de novas rotas para o oriente: Portugal enviava expedições tateando a África em busca de uma passagem pelo sul até a Índia que não dependesse da boa vontade dos turcos ou de quaisquer outros maometanos que existissem pelo caminho (e além dos turcos, ainda havia curdos, persas, uzbeques, turcomanos, mongóis, afegãos, e todo tipo de etnia e seguidores do islã entre o Bósforo e o Ganges... além de boa parte do próprio norte da África, caso eles tentassem). O desenvolvimento técnico que se seguiu, e o conhecimento acumulado sobre as correntes oceânicas e a astronomia em diferentes latitudes, levou às expedições que, 40 anos depois, levaram os europeus à América.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Turcos em Viena

Em 15 de outubro de 1529, após quase 20 dias de resistência e dissenções internas, um grande exército otomano levantou o cerco à cidade de Viena e se retirou.

Desde meados do século XV, o Império Otomano avançava progressivamente pelo sudeste da Europa. Em 1453 tomou Constantinopla, rebatizada Istambul, e, a partir daí, anexou a maior parte de Grécia (deixando alguns rincões para seus aliados venezianos), Macedônia, Albânia, Sérvia, Bulgária. Assumiu o controle sobre os tátáros na margem norte do Mar Negro, e transformou a Transilvânia em um Estado-cliente. Em 1526 tomou a porção oriental da Hungria, incluindo a sua capital Buda (que compõe com a vizinha Pest a atual Budapeste). A conquista da Hungria se deu após a Batalha de Mohács, onde morreu o rei húngaro Luis II.

A porção ocidental da Hungria ainda resistia, sob a esfera de influência dos Habsburgo, a família reinante do Sacro Império Romano. Enquanto o sultão Suleimã nomeou um certo João Zapolya rei da Hungria, o Sacro Império reuniu seus príncipes e representantes em Bratislava e elegeu o parente mais próximo de Luís, o arquiduque da Áustria Fernando, seu cunhado e irmão do sacro imperador Carlos V. Com um concorrente apoiado pelo sultão, Fernando se apressou em assegurar sua posição reconquistando Buda e várias cidades centrais em 1527. Zapolya contava apenas com uma guarnição turca deixada lá. Porém, não demorou muito para que Suleimã respondesse marchando à frente de mais de 120 mil homens, reconquistando tudo que Fernando tomara e reinstaurando Zapolya no trono em quatro meses de campanha, em 1529. Como Fernando reinava em Viena, Suleimã decidiu avançar para a Áustria e capturar a sua capital.

Os quase cem anos de conquistas turcas na Europa, mesmo a tomada do último bastião do Império Bizantino, não causaram o pânico na cristandade européia que a marcha em direção a Viena provocou. Além do enorme contingente subindo pela Hungria, vários destacamentos percorriam a Bavária e a Boêmia ao sul e ao norte, espalhando terror e marcando a presença turca em territórios considerados seguros. Martinho Lutero, que declarara decididamente que os turcos muçulmanos eram uma punição divina pelos pecados dos cristãos, passou a exortá-los a combatê-los com vigor. O Sacro Império Romano estava ocupado na Itália e na França, mas Carlos V enviou mosqueteiros espanhóis. Landsknechte (lanceiros germânicos com roupas bufantes e coloridas e chapéus extravagantes típicos da Renascença que se empregavam como mercenários por toda a Europa) também se apresentaram. A população de Viena e das zonas rurais próximas organizaram suas defesas dentro da cidade. A Catedral de São Estevão foi usada como quartel-general.

Não se sabe o quanto os austríacos tinham consciência das dificuldades que os turcos enfrentavam em sua marcha para a Áustria. Suleimã partira da Bulgária em maio, com talvez 300 mil homens, peças de artilharia e camelos de carga. Em 1529, o verão nos Cárpatos foi especialmente úmido. Na Bulgária e na planície húngara formaram-se incontáveis atoleiros, onde os canhões afundavam e os camelos quebravam suas pernas. Os animais sequer chegaram à Hungria, e muito equipamento foi deixado para trás. Doenças também fizeram vítimas entre os soldados. Em um certo momento, o grão-vizir Ibrahim Pasha aconselhou ao sultão que adiasse a expedição, mas Suleimã considerava uma indignidade ter os seus planos contrariados pelo clima. Os turcos seguiram adiante. As batalhas travadas na Hungria em si não ofereceram grande dificuldade, devido ao pequeno contingente de defensores deixados ali por Fernando. Mas à medida em que se aproximavam da Áustria, os turcos enfrentaram guerrilheiros austríacos que entravam nos acampamentos à noite e atiravam bombas caseiras, incendiando as tendas (cerca de dois mil soldados turcos pereceram nesses ataques). Mas a perda da artilharia provaria ser decisiva.

Mesmo com as perdas e deserções, o exército otomano que chegou a Viena no fim de setembro tinha dez vezes mais homens do que seus defensores. Porém, boa parte estava doente e cansada, e das unidades em boas condições, um terço era de cavalaria leve, inútil em táticas de cerco. O sultão enviou emissários ordenando a rendição da cidade, mas eles voltaram sem resposta. Embora destruíssem os subúrbios da cidade praticamente desertos, sem seus canhões, os otomanos não tinham o que fazer além de cavar túneis para plantar explosivos sob as muralhas. Os defensores se esgueiravam à noite e destruíam esses túneis.

Ao longo das duas primeiras semanas, pouco progresso foi feito nas muralhas vienenses, e incerteza e inquietude tomaram conta dos otomanos, especialmente os janízaros, corpo de elite do exército otomano, que vinham aborrecidos desde Buda por não terem sido autorizados a saquear a cidade. Haviam notícias de que Carlos V selara a paz com a França e estava mobilizando reforços (havia rumores de que o próprio rei Francisco da França oferecera aliança ao antigo inimigo para uma cruzada contra os turcos). Fernando e sua corte haviam abandonado a cidade, deixando pouco a ser efetivamente conquistado com a sua queda.

No dia 12 de outubro Suleimã ordenou um ataque total, prometendo recompensas às tropas, mas o terreno encharcado pela chuva da noite anterior e a resistência dos mosqueteiros e lanceiros rechaçaram qualquer tentativa (o comandante da resistência vienense, o mercenário Nicolas von Salm, foi ferido por uma pedra nessa ocasião e morreu alguns meses depois). Para piorar, começou a nevar inesperadamente. Diante de um inverno precoce e sem previsão de tomada da cidade, Suleimã prudentemente ordenou a retirada das suas tropas e o retorno a Istambul. Ele não sabia que as muralhas de Viena, relativamente estreitas e reforçadas de maneira improvisada, poderiam ruir a qualquer momento.

Curiosamente, quando os turcos abandonaram o acampamento, deixaram também para trás muitas sacas de grãos de café, antevendo as dificuldades da marcha de volta para casa. Como não podiam tomar bebidas alcoólicas, os soldados muçulmanos tomavam café avidamente, aproveitando-se do seu efeito estimulante. Os vienenses recolheram tudo que os turcos deixaram de valor, inclusive o café, e rapidamente o gosto pela bebida se espalhou pela Europa Ocidental. O sacro imperador Maximiliano II posteriormente ordenou a construção do castelo de Neugebäude centrado no mesmo lugar onde ficava a tenda de Suleimã.

No final das contas, Suleimã, que até então sonhava em conquistar Roma, assegurou a posse da Hungria sob o títere João Zapolya. Na verdade, após esta campanha, o Império Otomano atingiu o auge da sua extensão territorial (o esplendor do império e a opulência da corte otomana fariam o sultão ficar conhecido no Ocidente como Suleimã, o Magnífico). A Áustria e o oeste da Hungria, sob autoridade de Fernando, estavam tão arrasados que ele se viu impossibilitado de organizar um contra-ataque imediato, mas em 1530 ele novamente cercou Buda. Suleimã ainda tentou levar a cabo uma nova campanha em 1532 em resposta, mas acabou perdendo tempo demais no cerco à fortaleza de Guns, desistindo em seguida de avançar até Viena. A fronteira entre os otomanos e os Habsburgo atingiram uma estabilidade que permitiu aos turcos se concentrar na busca pela supremacia no Mediterrâneo, levando-os a uma série de campanhas contra os poderes navais do sul da Europa, incluindo seus antigos parceiros venezianos. A incapacidade turca de avançar além da Hungria desmistificaria o seu poderio e encorajaria revoltas nacionalistas que irromperiam pela parte européia do império nos séculos que viriam. Outro cerco fracassado a Viena em 1683 marcou o início da decadência do Império Otomano - ou, talvez, o início da queda de um império comece do seu apogeu.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Horda Dourada

Em 8 de outubro de 1480, o Grão-Duque Ivan III de Moscou liderou os russos numa vitória decisiva na batalha do Rio Ugra, contra o Khanato da Horda Dourada, verdadeiro império mongol que dominava a Rússia desde o século XIII. Depois desta vitória, Moscou e as demais cidades russas deixaram de pagar tributos à Horda Dourada, e, em poucos anos, se reuniriam em torno do Tzar para formar seu próprio império.

A presença mongol na Rússia remonta às conquistas mongólicas do século XIII. Genghis Khan passou a maior parte da sua vida governando turcos e mongóis nas estepes asiáticas, e expandindo seu império em todas as direções, obliterando reinos inteiros à sua frente. Na sua extensão máxima, o Império Mongol alcançava da Hungria até a península da Coréia, da Sibéria ao norte da Índia, controlando as antigas civilizações na China, na Pérsia e na Síria. Foi o império com o maior território contínuo que já existiu na Terra.

Os mongóis, agora senhores de terras, eram tradicionalmente pastores nômades que guiavam seus rebanhos pelas estepes seguindo os ciclos da vegetação, organizados em clãs formados por núcleos multifamiliares mantidos por relações de sangue e pela lealdade ao seu líder, ou khan. Como os mongóis nômades tinham uma noção vaga de propriedade, o poder do khan emanava da sua capacidade como cavaleiro, líder e guerreiro, não da sua riqueza material (medida em cabeças de gado, não em extensões de terras), de maneira que nem sempre a descendência era suficiente para se conseguir a lealdade do clã. O próprio Temudjin, bisneto de Khabul Khan, poderoso khan e herói nacional da época, que unificou as tribos turcas e mongóis ao norte da China para repelir o avanço chinês sobre suas terras, teve que conquistar a lealdade de sua própria tribo à força, e costurar alianças pela diplomacia ou pela conquista antes de se tornar Genghis Khan (o "Senhor de toda a Terra").

Quando Genghis morreu de causas naturais em 1227, seus generais, seus filhos e os demais khans foram convocados a uma assembléia para eleger seu sucessor, como era o costume. O primogênito de Genghis, Jochi, morrera no início daquele ano, e havia muitos anos tinha sua imagem desgastada por conta de uma disputa pessoal com o segundo mais velho, Chagatai, que o acusava de não ser filho de Genghis. Chagatai, por sua vez, havia sido designado para governar as terras a oeste da China, as estepes que se extendem entre o Paquistão e a Sibéria, pontuadas por ricas cidades que prosperavam com o fluxo de comércio pela Rota da Seda. Tolui, o filho mais novo e o mais capaz militarmente serviu como regente nos dois anos em que os arranjos sobre o novo Khan eram discutidos. Coube a Ogedei, o terceiro filho, assumir o posto de Grande Khan e seguir com a expansão do Império (na época ainda limitado pelo Mar Cáspio, pelo Irã, pela Coréia, e pela linha ao longo do Rio Yantse, na China). De todos os irmãos, Ogedei era o que tinha maior talento para política e administração, e teria sido o favorito do próprio Genghis para sucedê-lo.

Ogedei começou a transformar o território controlado pelos mongóis em uma entidade geopolítica, organizando e setorizando a sua administração, e nomeando membros dos seus principais grupos de apoio para funções específicas. Normatizou a economia alimentada pela Rota da Seda emitindo dinheiro em papel, criou um sistema de comunicação por estradas semelhante ao antigo sistema persa, com postos permanentes de pouso e troca de montarias e mensageiros ao longo das estradas, edificou o acampamento permanente de Karakorum para se tornar uma capital apropriada para o império. Com essa infraestrutura, Ogedei pôde ordenar a invasão à Rússia, ocupada por tribos turcas e búlgaras, e controlada, em sua parte mais ocidental, pelos príncipes de Kiev, tendo em vistas a quase legendária planície húngara mais adiante. Batu e Orda, herdeiros de Jochi, foram responsáveis pela campanha bem sucedida, interrompida apenas pela morte de Ogedei em 1241 quando Batu sitiava Viena. Novamente os líderes mongóis foram convocados a decidir seu novo khan, e a Europa Central foi milagrosamente poupada.

Quando Genghis Khan ainda era vivo, seus quatro filhos foram designados a governar partes diferentes do império. Jochi tinha controle da parte mais ocidental das estepes, e, ao morrer, deixou-a para Batu e Orda. Seu rival Chagatai controlava a Ásia Central. Ogedei, nominalmente, estava a cargo da China, e Tolui, o mais novo, governou a Mongólia propriamente dita. Mais tarde, a Pérsia e a Síria seriam colocadas sob jurisdição de Hulagu, filho de Tolui. Ogedei, com sua habilidade e a força de sua personalidade, conseguiu manter esses quatro setores coesos, mesmo com a morte prematura de seus irmãos e as rivalidades entre seus parentes. Quando Kublai, filho de Tolui, foi eleito Grande Khan, um dos netos de Jochi, Berke, era senhor da facção que controlava a Rússia e o leste europeu - a Horda Dourada - e já possuía um alto grau de autonomia política. Quanto mais Kublai se dedicava à recém conquistada China, menor era seu poder de fato sobre os demais khans mongóis na Ásia. Não demorou para que o Grande Khan deixasse de ter qualquer importância para os diversos khanatos turco-mongóis que surgiam a cada geração.

Os khans da Horda Dourada tinham para si a lealdade dos príncipes russos. Mesmo quando, em 1262, uma rebelião russa resultou na morte de coletores de impostos mongóis, os príncipes de Novgorod e Vladimir se comprometeram a indenizar os mongóis para aplacar sua fúria em uma possível retaliação. O poder da Horda Dourada se estendia sobre os rivais do clã de Hulagu (cujo império ficou conhecido como o Il-Khanato), sobre a Bulgária, a Lituânia, e o próprio Império Bizantino (o general mongol Nogai arrasou a Trácia, e forçou o rei da Sérvia a reconhecer a suserania da Horda Dourada). Com o tempo, os "mongóis" na Horda Dourada passaram por um processo de turquificação, com a assimilação das várias tribos turcas ao norte do Mar Negro (kipchaks, cumanos, mordvinos, etc.). Entre elas, os tátaros da Ucrânia, cuja denominação viria mais tarde a sinonimizar a maioria das etnias turco-mongólicas na Rússia européia sob a perspectiva dos eslavos. Eles também deixaram de lado suas crenças ancestrais e sua virtual neutralidade religiosa (que ocasionou um período de notável tolerância religiosa nos seus domínios) para se converterem ao islã, religião que os turcos mamelucos, que controlavam o Egito e tinham o Ilkhanato como um rival comum, já seguiam.

A política da Horda Dourada era estabelecer alianças de ocasião com os príncipes russos e seus vizinhos eslavos em seus interesses particulares, colocando-os frequentemente uns contra os outros. Um dos principados russos que viria a emergir deste jogo político foi o de Moscou. Até o século XIV um mero entreposto comercial, Moscou cresceu em importância na medida em que seus príncipes consistentemente colaboravam com os mongóis. Usando Moscou - protegida por um terreno de floresta com rios em abundância que dificultava a movimentação de exércitos baseados em cavalaria no seu entorno - como base, seus príncipes gradualmente conquistaram territórios vizinhos, com o aval dos khans da Hora Dourada. O príncipe Yuri chegou a receber a mão da filha de Uzbek Khan em casamento e o título de Grão-Duque de Vladimir, o mais importante dos principados russos. Seu irmão Ivan I atuou cobrando tributos em nome do khan, e ajudou os mongóis a esmagarem uma rebelião em Tver.

A partir da metade do século XIV, o príncipe Dmitri de Moscou aliou-se à Igreja Ortodoxa Russa contra a pressão de lituanos (cujo grão-ducado já abocanhara a atual Bielorrússia) e turco-mongóis muçulmanos ("tátaros"), e, através dessa aliança, conseguiu congregar os demais principados russos, tradicionalmente ortodoxos, contra a autoridade mongol. Em 1380 uma coalizão russa derrotou a Horda Dourada na violenta Batalha de Kulikovo. A vitória assegurou o protagonismo de Moscou junto aos demais russos, garantiu sua posição em relação à ascendente Lituânia (a Horda Dourada deixou Moscou de lado e investiu contra os lituanos por um tempo), e indicou o declínio do poder mongol na região (o general mongol derrotado na ocasião foi posteriormente assassinado por mercenários genoveses, cujo poder econômico abrira concessões para operações comerciais na Criméia).

O renovado Grão-Ducado de Moscou expandiu-se em todas as direções com o aval da Horda Dourada (o Grão-Duque era "forçado" a se submeter publicamente ao khan em troca de apoio). Mais do que aliados ou protegidos, os antigos principados foram gradualmente colocados sob a autoridade inconteste do Grão-Duque de Moscou. A Horda Dourada já começara a se fragmentar no começo do século XV (o khan tinha poder de fato apenas sobre as terras do baixo rio Volga). Ao longo dos anos, diferentes khans, apoiados por facções internas e externas, fundaram seus próprios khanatos (sendo o Khanato da Crimeia o novo suserano nominal do Grão-Ducado de Moscou, apesar do território deste ser muito maior) ainda sob a tênue autoridade do khan da Horda Dourada da ocasião.

Após derrotas desastrosas na Polônia e na Moldávia, a Horda Dourada estava em frangalhos. Neste momento dramático, o khan Akhmat exigiu futilmente que Ivan III de Moscou reconhecesse a suserania da Horda (e lhe fornecesse tropas para repor os exércitos perdidos no oeste), mas naquela altura o poder dos russos era muito superior. Akhmat tentou submeter Moscou à força em 1480. Tentando flanquear as forças russas pelo oeste, Akhmat tentou cruzar o rio Ugra, mas foi surpreendido pelos russos do outro lado. Aparentemente, os tátaros não tinham armas de fogo, e foi com essa vantagem que os russos mantiveram sua margem do rio durante quatro dias. Como os russos posicionados mais a leste chegassem em grande número com o passar dos dias, e reforços do seu aliado, o rei Casimir IV da Polônia, não aparecesse, Akhmat desistiu da marcha e depois de dois meses de impasse se viu obrigado a recuar. Embora não tenha havido perdas decisivas de qualquer lado, e os russos optassem pela negociação ao invés do confronto, a desistência do khan simbolizou uma vitória para os russos (Ivan foi recebido com festejos efusivos em Moscou). Toda a Rússia sob Moscou deixara de reconhecer a Horda Dourada e suas divisões internas como seus suseranos - não lhes cederiam mais homens, nem reconheceria suas políticas fiscais sobre produção e propriedades de terra e trocas comerciais. O Khanato da Crimeia, desde 1475, caiu sob poder do Império Otomano, e, com apoio moscovita, conquistou e saqueou a capital da Horda Dourada de Sarai em 1502, dando fim a este remanescente do grande Império Mongol.

A Rússia, centrada em Moscou, emergiria finalmente como uma entidade totalmente independente no começo do século XVI. O neto de Ivan III, Ivan IV ("o Terrível") ao assumir o trono russo, criou para si mesmo o título de Tzar (ou Czar, o correspondente eslavo de "César"). O novo Império Russo continuaria a subjugar os khanatos tátaros, turcos e mongóis na Europa e na Ásia e a se expandir para o sul e para o leste até o início do século XX, para se tornar, ao seu tempo, outro dos maiores impérios da História.