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terça-feira, 17 de julho de 2018

A Quarta Cruzada

Em 1202, soldados e cavaleiros partiram de vários reinos europeus atendendo ao chamado do Papa Inocente III, com o objetivo de destruir o Sultanato Aiúbida. No entanto, em 17 de julho de 1203, a maior parte desse exército entregou-se ao saque de Constantinopla, causando o desmantelamento do outrora poderoso (e aliado) Império Bizantino.

Como isso foi acontecer?

As Cruzadas foram campanhas militares organizadas inicialmente pelo papado romano, em parte como resposta às dificuldades que os bizantinos estavam tendo para conter o avanço das nações islâmicas na Ásia. A Primeira Cruzada, em 1095, tinha como objetivo ajudar militarmente o Império Bizantino a recuperar terras perdidas para os turcos seljúcidas no leste da Anatólia, mas resultou na conquista de Jerusalém e no estabelecimento de reinos cristãos na região da Terra Santa. A tomada daquela cidade sagrada para o Islã foi uma demonstração de força da Europa cristã diante de mais de 300 anos de avanço muçulmano, que, contudo, tornou a região instável, disputada nos séculos seguintes por cristãos europeus, muçulmanos sírios, egípcios, e eventualmente mongóis. De fato, em 1187, o Sultanato Aiúbida, comandado pelo brilhante general Saladino, retomou a Cidade Santa, e a Terceira Cruzada, enviada em resposta, retomou algumas fortalezas perdidas (Jafa e Acre, por exemplo), mas não conseguiu reconquistá-la.

Da Europa Central para a Palestina, os Cruzados podiam seguir a perigosa rota pelo Mediterrâneo, ou seguir as estradas que iam para o leste, em direção a Constantinopla, pelos Bálcãs e Cárpatos, e de lá pelas confusas estradas da Anatólia. A passagem quase obrigatória pelo Império Bizantino, apesar de cristão, era um problema tanto para os católicos como para os bizantinos ortodoxos. Havia, de longa data, uma animosidade entre as duas interpretações do cristianismo, mas havia, sobretudo, um vão cultural entre a emergente sociedade feudal do ocidente, de matriz germânica, e da antiga e tradicional civilização oriental, de matriz grega mas que assimilava elementos asiáticos. A desconfiança levou o Sacro Imperador Romano Frederico Barbarossa, um dos comandantes da Terceira Cruzada, a planejar, com dissidentes sérvios e búlgaros, um ataque aos bizantinos, cuja política de tolerância e assimilação das culturas árabe e persa era vista como sacrílega; quando a ilha de Chipre, antiga possessão bizantina, foi reconquistada das mãos de rebeldes gregos, ao invés de ser devolvida, foi vendida pelo conquistador, o rei inglês Ricardo Coração de Leão, à Ordem dos Cavaleiros Templários.

Desde que Inocente III foi eleito Papa, em 1198, seu objetivo maior era organizar uma nova cruzada para retomar Jerusalém. No entanto, o cenário político não era favorável, já que as três principais potências, o Sacro Império Romano (em crise política com o papado), a França e a Inglaterra (em guerra um contra o outro) enfrentavam seus problemas. No entanto, um padre de Neuilly-Sur-Marne chamado Fulco conseguiu convencer alguns dos senhores mais poderosos da França a recrutarem exércitos contra a maior ameaça à cristandade, sobretudo à Terra Santa, o Sultanato Aiúbida. O líder da expedição seria o italiano Bonifácio de Montferrat. Sabendo das dificuldades da marcha por terra pela Anatólia (onde os cruzados, mesmo sob proteção bizantina, enfrentavam assaltos e hostilidades das populações locais nas cruzadas anteriores), Bonifácio buscou viabilizar uma frota marítima junto às potências comerciais de Gênova e Veneza. Venezianos concordaram em construir navios e transportar até 33 mil soldados (contando com 4500 cavalos) diretamente para o Egito.

Mas os cruzados, como havia sido antes, não compunham um exército coeso sob uma única liderança. Eram homens arregimentados e armados por senhores feudais principalmente na França (mas também alemães, belgas, e italianos), que os tinham como capitães. Embora houvesse a facilidade de transporte oferecida por Veneza, muitos optaram por embarcar em outros portos, como Marselha e Gênova. O embarque e o transporte eram feitos mediante pagamento dos senhores aos donos dos navios por cada homem embarcado. O problema é que dessa forma, apenas um terço dos homens esperados chegaram ao porto de Veneza, e os venezianos, que já haviam cumprido sua parte do trato, esperavam pelo pagamento total. Os cruzados reunidos ali foram dispostos de quase tudo que tinham para reunir menos do que Veneza esperava (o que contabilizava os prejuízos comerciais durante os anos de preparação e investimento na nova frota). Eventualmente, Enrico Dandolo, o Doge (ou duque, o cabeça da República local), propôs aos cruzados resgatar o montante devido achacando as cidades no leste do Adriático, então sob proteção sérvia ou húngara.

Apesar de uma ordem de Inocente III que proibia os cruzados de atacarem qualquer indivíduo, cidade ou reino cristão sob risco de excomungação, em novembro de 1201, a cidade croata (e católica) de Zara, atual Zardar, então uma ambição veneziana, foi sitiada. A cidade ostentava bandeiras com uma cruz sobre as muralhas, caso os invasores tivessem se esquecido de que a cidade era cristã, e alguns dos comandantes cruzados, como Simon de Montfort se recusavam a participar do cerco. Mas os soldados, já quase sem posses além de suas armas, viam, como Dandolo, a possibilidade de butim, e a cidade caiu em duas semanas. O Papa realmente excomungou todo o exército e a cidade de Veneza, mas como tanto cruzados como venezianos ainda precisavam se ressarcir dos prejuízos, seus líderes não informaram os soldados, com medo de que eles se dispersassem (Inocente voltou atrás três meses depois). Dandolo e os cruzados passaram o inverno em Zara, planejando o próximo passo.

Veneza cresceu graças ao comércio marítimo e à vigorosa e ágil economia local, impondo-se, mesmo com um território limitado à cidade, a portos aliados ou conquistados e colônias espalhadas pelo Mediterrâneo, frente a antigas potências tradicionais, como o Egito e o próprio Império Bizantino. Constantinopla era, pela sua localização geográfica, o principal entrave à expansão veneziana em direção às cobiçadas rotas que levavam à China e à Índia, e, apesar de inicialmente oferecer aos comerciantes venezianos privilégios, os irritava com novos acordos com rivais italianos de Pisa, Gênova e Amalfi. Em 1171, venezianos atacaram as posses de genoveses em Constantinopla, e em resposta o imperador Manuel I Komnenos mandou prender todos os venezianos na cidade e confiscar suas posses. Reforços vindos do mar tentaram vingar e forçar a libertação dos presos, mas fracassaram. Na confusão, rebeldes sérvios, instigados pelos venezianos, tomaram Ancona, a última possessão do Império Romano do Oriente na Itália. Embora a situação se normalizasse com o tempo, conflitos palacianos levaram à ascensão de Andrônico I Komnenos ao trono bizantino, e este imperador, que reinara por apenas dois anos, incitou a violência contra os que via como detentores do poder no Império - aristocratas e comerciantes latinos.

Enquanto isso, Bonifácio de Montferrat havia deixado os venezianos para visitar seu primo, Filipe, então rei da Alemanha (o que corresponderia ao cargo de Sacro Imperador Romano, caso tivesse a anuência do Papa). Ali encontrou-se com o príncipe Alexios Komnenos, cujo pai, Isaque II, havia sido deposto em Constantinopla por seu irmão Alexios III. Alexios prometeu a Bonifácio saudar a sua dívida com Veneza, além de ceder 10 mil soldados profissionais à sua expedição ao Egito, bem como colocar uma frota à disposição e, até mesmo, submeter o credo ortodoxo à autoridade do Papa, caso os cruzados o ajudassem a recuperar o trono bizantino. Tal proposta chegou aos cruzados em Zara, e foi abraçada com fervor por Dandolo. O Doge veneziano participara da expedição marítima de 1171, e teria sido cegado pelos bizantinos como punição. E agora ele navegava com uma frota de guerra e 12 mil cruzados em direção a Constantinopla.

Os cruzados, agora acompanhados por Bonifácio e Alexios, chegaram a Constantinopla em atitude hostil. As defesas da cidade, confusas e compostas apenas por um pequeno corpo de elite por conta das convulsões internas causadas pelos sucessivos golpes de Estado sofridos nas últimas décadas, foram pegas de surpresa. Ataques múltiplos foram desferidos nos subúrbios da cidade, fora das muralhas, enquanto a torre de Gálatas (onde se prendia a poderosa corrente de ferro que impedia o acesso ao Corno de Ouro, rio largo que dava acesso ao interior e à face norte das muralhas) era dominada. Mas para surpresa dos ocidentais (que, acostumados com a sacralidade da sucessão de seus tronos de pai para filho, imaginavam que o filho de um imperador deposto seria recebido com festa pelos seus pares), a embarcação onde se apresentava Alexios era ostensivamente hostilizada pelos cidadãos por cima das muralhas. Em 17 de julho, enquanto cruzados atacavam a muralha por terra, os venezianos tomavam parte da muralha pelo Corno de Ouro. Um grande incêndio causado com propósito de manter os invasores afastados destruiu quase 500 mil metros quadrados da cidade. O próprio usurpador, o imperador Alexios III (tio do pretendente), liderou um ataque em maior número contra os sitiadores no portão de São Romano, mas teria recuado em pânico antes do primeiro golpe. Ele fugiu para a Trácia, fazendo com que os comandantes locais restaurassem Isaque II imperador.

O retorno de Isaque ao trono frustrou as pretensões de um ataque direto dos venezianos aos tesouros bizantinos. Também colocava em cheque as promessas de Alexios, que só poderia cumpri-las se fosse ele o imperador. Sob pressão e alguma ameaça, Isaque concordou em coroar o filho Alexios IV coimperador.

Mas as coisas ainda não iam bem para nenhum dos lados. Alexios III fugira com boa parte dos tesouros em ouro e jóias. Alexios IV, desesperado para reunir logo algum dinheiro, ordenou a destruição de antigos ícones romanos para a cunhagem de moedas, mas nunca se chegava ao valor prometido. Alexios conseguiu um adiamento de seis meses para o pagamento, nos quais pretendia empregar os cruzados contra seu tio, encastelado em Adrianópolis. Mas o povo via o desespero do imperador como sinal de fraqueza diante de estrangeiros (hereges, além de tudo), e se rebelou na sua ausência. Na confusão, latinos eram atacados, e venezianos revidavam destruindo o que podiam. Um quinto da cidade teria sido arrasada por incêndios. Quando Isaque II morreu, em janeiro de 1204, o senado bizantino (descendente direto daquela instituição romana) nomeou Nicolau Canabus imperador, mas o jovem preferiu renunciar e se esconder numa igreja. Sem um líder formal (Alexios IV, voltando do estrangeiro, já não tinha mais sua autoridade reconhecida), Bizâncio estava sob comando de Alexios Doukas, que liderou uma rebelião contra os latinos, recusando-se a assumir as dívidas de seu suserano (que seria preso e executado semanas depois, dando espaço para Doukas ser coroado Alexios V).

Novamente a cidade foi atacada, e como sempre resistiu. Para estimular a coragem dos cruzados, clérigos insistiam na tese de que Deus os estava testando, e que a punição aos bizantinos era certa, pois haviam assassinado seu legítimo senhor; "os gregos são piores do que os judeus", pregavam. Em 13 de abril de 1204, os invasores tomaram a cidade, saqueando-a por três dias. Tesouros e obras de arte seculares foram destruídos, civis roubados ou assassinados, igrejas violadas, freiras estupradas. A grande catedral de Santa Sofia foi desgraçada e seus ícones e livros destruídos, e os cruzados bêbados colocaram uma prostituta sentada no trono do Patriarca. Imediatamente, o antigo Império Bizantino se fragmentou em 5 partes, ficando a sua parte européia centrada em Constantinopla sob o comando do nobre belga Balduíno - coroado Balduíno I, Imperador Latino. O Império Latino resistiu por 57 anos a ataques de pretendentes gregos por todos os lados, bem como de búlgaros recém-unificados se aproveitando do tumulto vindos do norte. O Império Bizantino foi restaurado em 1261 por Miguel VIII Paleólogo.

As consequências do saque de Constantinopla foram profundas. O Império Bizantino - o que restava do Império Romano, da milenar cultura grega, e da autoridade cristã no oriente - jamais se recuperou da crise, e foi suplantado pelos turcos, que avançariam inexoravelmente sobre a rica Anatólia até chegar a Constantinopla no século XV, expandindo uma influência duradoura sobre o sudeste da Europa. O cisma que existia entre catolicismo e ortodoxia grega se tornou um abismo tão profundo e duradouro que em 2001 o Papa João Paulo II reconheceu e expressou pesar pelo que os cruzados fizeram a Constantinopla, ao que o contemporâneo Patriarca Bartolomeu I aceitou como desculpas. A aproximação ainda é um trabalho político muito delicado, trabalhoso, e lento.

Poucos homens chegaram à Terra Santa na Quarta Cruzada, apenas reforçando posições já asseguradas então. Nenhum desembarcou no Egito.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

A Revolta de Asen e Pedro

No dia de São Demétrio de Tessalônica, 26 de outubro de 1185, os irmãos Teodoro (mais tarde, Pedro) e Ivan Asen deflagraram uma revolta contra os impostos abusivos cobrados pelo Império Bizantino para custear o casamento do seu imperador. Esta revolta resultaria na independência da Bulgária e na coroação de ambos como tsares.

A partir do século IX os búlgaros, então uma confederação de tribos semi-nômades, se organizaram num império próprio que rivalizava com o Império Bizantino nos Bálcãs. Invasões de magyares (os atuais húngaros, que faziam parte originalmente da confederação búlgara), pechenegues (uma tribo proto-turca), e a ascendência da Rússia Kievita desestabilizaram o Primeiro Império Búlgaro ao ponto da maior parte do seu território ser absorvida pelo Império Bizantino, e os búlgaros perderem a sua autonomia.

As coisas permaneceram assim por mais ou menos um século e meio. A aristocracia búlgara era aplacada por privilégios garantidos pelo trono de Constantinopla, mas mesmo assim muitos deles foram expatriados para cidades na Anatólia, deixando a população búlgara sem líderes naturais ou legítimos (no sentido de "alguém com condições de recrutar um exército"). A religião também foi usada como forma de desconfigurar a identidade nacional búlgara: a estrutura to patriarcado ortodoxo búlgaro foi submetida a um arcebispo que respondia diretamente ao Patriarca de Constantinopla. Porém, os búlgaros continuaram em suas terras, e nenhum processo de aculturação funciona enquanto o Estado trata a população cativa de maneira distinta, especialmente dentro de sua própria casa. Foi o erro que levou à revolta de 1185.

Andrônico I Komnenos foi imperador bizantino por dois anos. Neste período, o idoso imperador parecia mais preocupado em assegurar um descendente da sua própria linhagem pela supressão ao poder de barões locais do que em manter as estruturas que o seu pré-antecessor, o reformador Manuel I Komnenos, havia estabelecido para reerguer o império em todos os campos. Num episódio particularmente violento, ele ordenou a execução de prisioneiros, exilados, e suas famílias, causando revoltas por todo o império. Andrônico foi deposto e executado por um militar (que, embora tivesse se envolvido em duas revoltas contra o mesmo, havia sido mantido no cargo graças aos laços com a família Komnenos), Isaque Angelos, que assumiu o trono como Isaque II.

O novo imperador assumiu no meio de uma invasão de normandos baseados na Sicília, e investiu tudo que podia para expulsá-los com sucesso. Antevendo as dificuldades econômicas políticas que enfrentaria dali para frente, achou melhor garantir-se no trono através de alianças com potências regionais. Ele arranjou rapidamente o casamento de uma sobrinha com um príncipe sérvio, e de sua irmã com um nobre italiano (Conrado de Montserrat, um senhor de terras influente que poucos anos depois viria a ser um dos principais comandantes na Terceira Cruzada, e coroado rei de Jerusalém). Para si mesmo, obteve a mão de uma princesa húngara, Margarida, cujo parentesco a ligava ao Sacro Império Romano, às nobrezas russa, italiana, e francesa, bem como à própria nobreza bizantina. O arranjo se deu ainda em 1185, mas a cerimônia seria realizada, em Constantinopla, no ano seguinte. A ocasião serviria para exibir todo o poder e glória do imperador. Porém, com os cofres vazios, a saída para bancar a festa seria o aumento de impostos.

Os búlgaros, na sua grande maioria, eram pastores, camponeses, artesãos. Desde a anexação da Bulgária, o antigo esplendor imperial de suas principais cidades foi diluído nos cofres bizantinos. A taxação criada por Isaque II, no entanto, não levava em consideração o que cada comunidade podia oferecer em relação ao que produzia. Era uma taxa horizontal e uniforme, que penalizava os mais pobres, que eram as populações dos Bálcãs propriamente ditos, os búlgaros e valáquios, que também haviam sido anexados. Em protesto, dois irmãos, Teodoro e Ivan Asen (ou "João", que é o equivalente a Ioan em búlgaro), filhos de um rico pastor valáquio e, possivelmente, administradores de uma criação de cavalos imperial perto de Tarnovo (atual Veliko Tarnovo), foram escolhidos pelos búlgaros e enviados à atual cidade de Ipsala expressar, diante do imperador, sua indignação com a medida. Condicionaram sua obediência a posições de comando no exército e a posse de terras. Isaque sequer concedeu-lhes audiência, mas um tio seu ordenou que Ivan fosse esbofeteado pela insolência.

Os irmãos Asen retornaram às suas terras e conclamaram o povo a uma rebelião. Mas seus compatriotas temiam mais a repressão bizantina do que a sua opressão fiscal. Era preciso outra estratégia para unir búlgaros e valáquios contra os bizantinos. Uma saída seria pela via religiosa, e, em meio à guerra entre bizantinos e normandos, a invasão à Trácia viria bem a calhar.

A cidade de Tessalônica foi saqueada pelos normandos em agosto de 1185, gerando a cadeia de eventos que levaria à queda de Andrônico. De alguma forma, os ícones de São Demétrio de Tessalônica, padroeiro daquela cidade e principal santo adorado pelos búlgaros, vieram parar em Tarnovo. Os irmãos Asen, ainda de mãos vazias, coordenaram a construção de um pequeno templo dedicado ao santo (atualmente a igreja de São Demétrio de Tessalônica, em Veliko Tarnovo), onde suas relíquias eram exibidas. Conhecidos profetas e adivinhos, que circulavam pelas aldeias balcânicas, foram convocados ao local. No dia de São Demétrio, em 26 de outubro de 1185, diante do povo, e sob a sugestão dos Asen, eles anunciaram que, em suas visões, a vinda de São Demétrio para Tarnovo significava que o santo havia retirado seus favores sobre os bizantinos e abençoado os búlgaros, e que os auxiliaria na revolta contra seus suseranos. Não poderia ter funcionado melhor: todos os presentes se ofereceram para lutar com os Asen.

Por toda a Bulgária, grupos rebeldes passaram a atacar possessões imperiais, capturando gado e fazendo prisioneiros. A importante cidade de Preslav foi sitiada sob o comando de Teodoro Asen. A cidade não foi tomada, mas os búlgaros retornaram com bois, ovelhas, tudo que puderam saquear no seu entorno. Teodoro teria então investido a si mesmo como Tsar ("César", ou Imperador), e adotado o nome de Pedro II, provavelmente em homenagem a um certo Pedro Delyan, um rebelde búlgaro do século XI (Pedro I, imperador búlgaro, era um aliado dos bizantinos, por isso pouco provável de que tenha sido ele o homenageado).

Isaque estava ocupado demais com os normandos na Trácia para dar a devida resposta a uma revolta camponesa, mas em 1186, o cronista bizantino Nicolau Coniates conta que as forças de Isaque alcançaram os rebeldes em "lugares inacessíveis", mas que uma grande escuridão que subitamente tomou as montanhas (o eclipse solar da manhã de 21 de abril daquele ano) permitiu a sua vitória. No entanto, as fortalezas rebeldes eram construídas nas partes mais escarpadas das montanhas, onde os bizantinos não conseguiam alcançar, e os antigos castelos ao longo do Danúbio, deixados de lado (porque Isaque achava que sua vitória havia sido decisiva), serviam de refúgio aos búlgaros. Depois daquela derrota, enquanto Pedro ganhava tempo negociando uma rendição, Ivan Asen cruzou o baixo Danúbio, para onde regressou com um exército de cumanos (tribo turca que habitava o noroeste do Mar Negro).

Com o auxílio dos cumanos, Pedro liderou a campanha que culminou com a tomada da Moésia - antiga região que corresponde ao centro-norte da atual Bulgária. Enquanto isso, Ivan paralisava as contra-ofensivas bizantinas com a tática de ataques rápidos e retiradas. Em certa ocasião, Isaque II, temendo que seu tio João Doukas (o mesmo que mandou esbofetear Ivan) usurpasse o trono, retirou dele o comando das tropas na Moésia, dando comando a um certo João Cantacuzeno, que era cego e não tinha relações com a família imperial (o exército de Cantacuzeno foi esmagado em seu próprio acampamento em algum lugar nas montanhas). De acordo com uma carta de Nicolau Coniates ao imperador, os irmãos não se contentariam em controlar a Moésia, mas uni-la à "Bulgária" (região que na época correspondia a boa parte da Sérvia, Macedônia, e oeste da Bulgária propriamente dita), "em um império, como nos velhos tempos". Em algum momento de 1187, Ivan Asen teria sido aclamado extra-oficialmente co-Tsar junto a seu irmão.

Finalmente, depois de um cerco mal sucedido à cidade búlgara de Lovech em 1187, Isaque propôs um armistício, reconhecendo Pedro e Asen (Ivan é mais conhecido na posteridade pelo sobrenome) igualmente tsares da Bulgária e a sua independência. A paz entre os dois impérios não duraria muito. Frederico Barbarossa, sacro-imperador romano, conduzia um exército de 40 mil homens para a Terceira Cruzada em 1189, mas pretendia forçar a passagem pelo Império Bizantino (os bizantinos haviam proibido os cruzados a passarem por seu território devido a episódios de saques nas cruzadas anteriores, motivo que levava os cruzados a operações de transporte marítimo pelo Mediterrâneo extremamente complexas). Os Asen ofereceram um exército ao imperador alemão. Como Isaque e Barbarossa acabariam resolvendo a questão diplomaticamente, o imperador bizantino empreendeu campanha contra a Bulgária, mas foi derrotado numa passagem estreita entre as montanhas perto de Triavna por Ivan Asen. Isaque fugiu, deixando tesouros como seu elmo dourado, a coroa e a cruz imperiais, e um relicário de ouro maciço contendo um pedaço da cruz de Cristo para serem capturados (um clérigo búlgaro a jogou num rio, mas foi resgatada). Diz-se que a partir daquele momento Pedro teria coroado oficialmente seu irmão e deixado grande parte da administração imperial com ele, mantendo-se no cargo ao seu lado como conselheiro. Juntos, comandaram campanhas bem sucedidas contra os bizantinos.

Asen acabaria assassinado em 1196 por um nobre valáquio, Ivanko, que estaria tendo um caso com a sua cunhada (ou talvez sob influência de Isaque Angelos, na época deposto, cego e preso, mas que teria oferecido a ele uma filha sua em casamento, como de fato aconteceu). Ivanko, vendo que não teria apoio para destronar Pedro, fugiu para Constantinopla. Pedro nomeou então seu irmão mais novo, Caloian, co-Tsar. Contudo, o tempo inteiro, tanto Pedro como Ivan dependiam das espadas cumanas ao seu lado para fazer valer a sua lei, e teria sido o descontentamento com essa influência estrangeira que moveu um camponês anônimo a assassiná-lo meses depois. E Caloian morreu em 1207 enquanto cercava Tessalônica - dizem os cronistas, morto em sua tenda pela lança do próprio São Demétrio.

O assim chamado Segundo Império Búlgaro chegou a abocanhar a Valáquia, a Albânia e a maior parte da Grécia, e existiu até ser solapado pelos otomanos em 1396.

Neste dia também: Brasil na Primeira Guerra Mundial

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Briga de Torcidas

Em 11 de janeiro de 532, uma briga de torcidas durante uma corrida de carruagens em Constantinopla degenerou em dias de confrontos violentos pela cidade e numa tentativa de golpe de estado contra o Imperador Justiniano, conhecida como a Revolta de Nika.

Durante os tempos do Império Romano, e depois no Império Bizantino, competições esportivas eram espetáculos populares de primeira grandeza, gradualmente suplantando em tamanho e importância as encenações épicas de mitos e eventos históricos importantes. Competições atléticas, lutas com gladiadores, corridas de cavalo e carruagens. Atletas, lutadores e corredores eram patrocinados por organizações sociais, ou facções, que retiravam do interesse popular e sucesso de seus pupilos uma gorda margem de lucros. Eram como os clubes que nos são familiares. E, tanto lá como cá, cada facção atraía torcedores para suas bandeiras. E, tanto lá como cá, em muitos casos as competições acobertavam transações ilícitas e jogos políticos, e gangues sob uma ou outra bandeira eram empregadas para proveito ou prejuízo de terceiros.

Em Roma, as facções eram quatro, identificadas por cores: vermelhos, azuis, verdes e brancos. No Império Bizantino, as facções atuavam basicamente nas corridas de carruagem, e eram apenas duas: Azuis e Verdes. Numa era e lugar onde a participação popular na política era muito limitada, as facções tomavam ares de partidos políticos munidos de milícias que tomavam partido publicamente de assuntos de interesse público, como a nomeação ou eleição de políticos e herdeiros do trono e questões teológicas - para apaziguar uma revolta ou afirmar-se diante de uma ou outra facção, políticos de alto escalão, e mesmo o imperador, defendiam publicamente alguma bandeira, até porque o Hipódromo ficava ao lado do Palácio Imperial em Constantinopla. Aristocratas, políticos, empresários do ramo e cidadãos ricos assumiam posições de comando dentro das facções. O Imperador Justiniano torcia pelos Azuis. As corridas no Hipódromo eram pequenos campos de batalha virtual pelo poder em Bizâncio.

Justiniano era um homem inseguro, talvez tímido, o que se refletia na proeminência de sua esposa Teodora nas decisões políticas e no trato com a Igreja Ortodoxa. É possível associar à habilidade de Teodora a manutenção de Justiniano no trono em boa parte do seu reinado. Mas Justiniano tinha uma virtude: sabia escolher como poucos os mais capazes para o desempenho de cada função. Desta maneira, ele estabilizou o antigo Império Romano do Oriente (atacado por todos os lados por germanos na Europa e persas na Ásia), reconquistando territórios que antes pertenciam à metade ocidental do Império sob controle germano (Cartago, parte da Espanha, Sicília, boa parte da Itália, incluindo a própria Roma, sob a liderança competente de seu sobrinho Belisário). Contra os persas, que antagonizavam Bizâncio no leste, Justiniano chegava a um acordo de paz que lhe permitiria aliviar impostos e investir na reestruturação dos territórios conquistados.

O outro gume da faca é que, nomeando pessoas competentes para cargos importantes, Justiniano negligenciava o poder de influência de aristocratas na administração do império. As famílias nobres ressentidas por não figurarem no controle das instituições inflamavam a população contra o que acusavam ser uma política abusiva de impostos, empregados para financiar a expansão do Império e a contenção da fronteira oriental. Ao invés de negociar com os aristocratas descontentes, Justiniano apostou no sucesso da política externa para reverter a situação internamente a seu favor.

Porém, toda a campanha contra sua política se manifestava de maneira progressivamente violenta a cada evento no Hipódromo. Semanas antes da Revolta de Nika, verdes e azuis se envolveram numa onda de confrontos, onde sete deles foram presos sob acusação de homicídio e condenados à pena de morte. No dia das execuções, dois presos, um verde e um azul, escaparam e se refugiaram na Igreja de São Laurêncio. Partidários dos verdes e azuis protestavam pela sua liberdade em torno da igreja, mas Eudaemon, o prefeito da cidade, cercou-a com soldados e os arrancou de lá. A situação durou três dias, aumentando a tensão na capital.

O terceiro dia coincidiu com os idos de janeiro, data em que Justiniano declarara grandes corridas no Hipódromo, em que o próprio deveria estar presente. Durante o evento, torcedores das duas facções (vestindo-se com as cores correspondentes e agrupando-se em setores distintos das arquibancadas), em trégua previamente acordada, clamavam pelas vidas dos fugitivos. Justiniano, na sua tribuna, não dava resposta aos apelos. Lá pela décima segunda corrida do dia, alguém nas arquibancadas gritou "Vida longa aos Verdes e Azuis". De repente, as duas facções tornaram-se uma só, e seus membros trocavam entre si gritos de "Nika", "Nika" ("Vença" em grego, daí o nome da revolta). Justiniano recolheu-se ao seu palácio. As pessoas saíam do Hipódromo e inundavam as ruas, e incêndios e saques rapidamente tomaram lugar. Grande parte da massa permaneceria por dias no Hipódromo, por conta da sua proximidade com o palácio e como via de acesso ao imperador.

De forma relutante e desastrada, Justiniano acabou autorizando a soltura dos dois torcedores fugitivos, mas a revolta havia tomado outro rumo: antes de atendida sua ordem, os revoltosos se reuniram na prefeitura, e como Eudaemon se recusasse a soltar os prisioneiros, as pessoas atacaram os guardas e os arrastaram para fora. Agora a nova massa, recém empoderada, começou a exigir a substituição de três mandatários impopulares (incluindo Eudaemon). No dia seguinte Justiniano tentou dar reinício às corridas, e ao público concordou com suas demandas.

Mas a revolta assumiu uma dimensão mais sinistra: não eram apenas cidadãos de Constantinopla que reclamavam de uma situação política desfavorável e explodia no único canal de comunicação com o poder de que dispunham: havia uma grande massa de camponeses que, arruinados pela política fiscal do império, emigraram para a capital em situação de extrema pobreza, e mais do que novos nomes para cargos públicos, exigiam vingança contra os que percebiam serem causadores da sua miséria. E, manobrando essa massa, senadores ansiosos não por nomeações, mas pelo próprio trono bizantino. A incapacidade de pacificar pela negociação levou ao emprego da força, mas como os soldados enviados eram incapazes de conter os tumultos, isto foi visto pela população como um ato de hostilidade. Quando Justiniano apareceu em público novamente (e as revoltas já tomavam ares de guerra civil, com confrontos violentos, mortes e destruição por toda a cidade), com uma cópia do Evangelho nas mãos, prometeu atender a todas as exigências. Mas o povo respondia com "Viva Hipácio!" (sobrinho do seu antecessor Justino). Suspeitando dos senadores que se encastelavam no palácio consigo, Justiniano ordenou que eles saíssem, junto com qualquer um que questionasse a ordem - fazendo com que os que ainda não haviam tomado partido se juntassem às fileiras em ebulição.

Cercado, Justiniano apelaria para seu exército, leal e endurecido pelas recentes conquistas no ocidente, mas pensava em fugir pelo mar. Neste momento, Teodora levantou-se e disse que a fuga era inoportuna, e que trocaria a segurança do exílio pela morte - e que um palácio seria uma sepultura mais do que digna para a realeza. Isso parece ter impressionado Justiniano e seus apoiadores, porque imediatamente ele tomou o controle sobre as ações para debelar a revolta: primeiro enviou um eunuco para espalhar dissenção entre as facções, espalhando boatos de que uma delas pretendia apoiar um ou outro para o trono, e que conspiravam mutuamente (ele também subornada lideranças dos azuis para lembrá-los de que Justiniano pertencia à sua facção). Belisário, no comando do exército, se encarregaria de enfrentar, perseguir e executar quem resistisse; cercando-os no Hipódromo com os soldados que quase destruíram o reino Ostrogodo na Itália, Belisário teria ordenado a morte de até 30 mil pessoas, basicamente civis armados com o que encontravam à mão.

Hipácio foi executado e senadores rebeldes exilados. Mais da metade da cidade foi destruída, incluindo a monumental catedral de Santa Sofia. Graças à altivez decisiva de Teodora, Justiniano agora via-se livre para dar sequência à sua ambição, reunir o Império Romano - porém a arrastada campanha na Itália, desfalcada do seu principal general Belisário (tratando nos anos seguintes dos conflitos com a Pérsia), e a alta carga de impostos, começaria a causar revoltas nas províncias recém conquistadas no oeste. A demanda excessiva por recursos e a incapacidade de arrecadá-los e administrá-los transformou o renovado Império Bizantino num pão muito grande com pouca manteiga em cima, e logo após a morte do imperador, incapaz de se adaptar à dinâmica das mudanças sócio-políticas no oeste e ao Islã no leste, ele tomaria um caminho lento e inexorável à sua destruição final, em 1453, quando os turcos tomaram Constantinopla.

terça-feira, 17 de maio de 2016

A espada e o escudo da Europa

O trabalho tem me atropelado desde janeiro, quando deixei de escrever regularmente. Desde então tenho trabalhado a 100% da capacidade em 100% do tempo, me deixando sem espaço para escrever profundamente sobre qualquer assunto. E não foi por falta de vontade: desde o começo de abril estamos passando pelo período em que os exércitos do sultão otomano Mehmed II cercaram Constantinopla até a sua queda, em 29 de maio (em 22 de abril tentei preparar um texto marcando o momento em que os defensores bizantinos ficaram bestificados ao ver as naus turcas sendo transportadas por terra ao redor da imensa corrente de ferro que ele mantinham bloqueando o rio ao norte da cidade, com direito a remadores remando o ar e tudo, sem tempo de sequer chegar ao clímax da história). O cerco a Constantinopla de 1453 é um dos meus episódios favoritos da História (vide parêntese anterior!) e algo que me dá muita satisfação em ler e refletir a respeito. É um fardo obrigar-me moralmente a terminar qualquer tarefa à qual sou designado e da maneira mais espetacular possível, enquanto emprego tão pouca dedicação ao que verdadeiramente me dá prazer. Mas por outro lado, Goethe disse que depois de cumprir seus deveres, resta-te outro ainda: o de te mostrares satisfeito.

Então, vou aproveitar o gancho que os turcos deixaram pendurado sobre a Muralha de Constantino (antes que os bizantinos saiam à noite para derrubá-la de lá) e não vou deixar passar que em 17 de maio os turcos, vendo que seus canhões (um deles um imenso canhão de bronze projetado por um engenheiro húngaro para ser o maior já feito) não conseguiam abalar as defesas, e que os poucos defensores da cidade resistiam tenazmente aos ataques frontais (nos dias 7 e 12, os bizantinos conquistaram duas vitórias desesperadas contra assaltos à muralha), estavam testando alternativas. No dia 16, soldados turcos começaram a cavar túneis com destino às muralhas. A intenção era entrar na cidade por baixo das muralhas, já que era impossível escalá-las ou derrubá-las. Mas um desses túneis acabou interceptando um outro túnel que vinha de dentro da cidade, e ali os defensores os emboscaram.

Bizantinos contavam com engenheiros do seu lado que coordenavam reparos, a escavação de túneis de interceptação e a instalação de armadilhas contra tentativas de infiltração subterrânea (promovendo a inundação de túneis com água e entulho). As muralhas eram reparadas à noite com sacos de areia e pedra estilhaçada pelos bombardeios incessantes durante o dia.

No dia 17, os turcos já estavam com parte da sua frota estacionada dentro do rio chamado Corno de Ouro (o rio que deságua ao norte da parte antiga de Istambul, que até então era o fio de conexão da cidade com o interior em situações de cerco por terra e por mar), mas ainda assim inconvenientemente imobilizada pela corrente que bloqueava o rio. Essa corrente ficava presa à muralha e era levantada e descida conforme conveniência. Nesse dia os turcos tentaram cortá-la em uma das suas pontas, mas os parcos defensores da parte norte da muralha os fustigaram até fazê-los desistir. Eles haviam tentado a mesma coisa no dia anterior.

Enquanto isso, os otomanos montavam uma grande torre de cerco, que seria usada no dia seguinte para tentar escalar a muralha e levar a luta ao seu passadiço. Seus planos foram frustrados por defensores bizantinos, que atearam fogo à estrutura durante a noite.

Os bizantinos deixaram claro que não se entregariam facilmente, e realmente não existia uma alternativa óbvia para o sultão ali. Tomar a cidade era geopoliticamente fundamental - embora o Império Bizantino estivesse havia séculos à míngua, Constantinopla era uma fortaleza cristã que dominava a passagem do comércio entre o Mediterrâneo e o Mar Negro, e dominar Constantinopla significava dominar o grosso do comércio da Europa com a Ásia. Além disso, a cidade servia como ponto de apoio para as Cruzadas (e mesmo que elas já não tivessem o objetivo e a capacidade de penetração em território muçulmano na Ásia, ela continuava lá como uma possibilidade). Além do significado simbólico de ser o último resquício do que um dia foi o Império Romano (nós costumamos sinonimizar os bizantinos como "gregos" devido à língua e origem étnica de suas casas dominantes, mas os otomanos, nas suas crônicas, os chamavam de "romanos"). O próprio Mehmed II a descrevia como "a espada e o escudo" da Europa.

Os turcos já avançavam sobre a maior parte da Grécia, e tinham controle sobre tudo entre a Macedônia e a Sérvia, a Bulgária e partes da Romênia e Hungria, além de tudo que um dia fora bizantino na Ásia, mas Constantinopla não se entregava. Manter um grande exército parado num lugar por muito tempo é uma estratégia defensiva que os antigos gregos já conheciam bem, pois foi o que tentaram na célebre Batalha das Termópilas (que fracassou quando os atacantes persas descobriram um caminho para se infiltrar na retaguarda espartana e forçá-la a abrir caminho). Esse impasse criava inquietação no acampamento turco, cuja tenda real fora montada onde seria construído depois o palácio imperial de Topkapi (hoje o principal museu de Istambul). Havia os que acautelavam o sultão a abandonar o cerco para evitar dissenções e revoltas entre seus soldados.

Com o fracasso das minas e a impossibilidade de cortar as correntes no Corno de Ouro (e boatos de que reforços vinham do ocidente na forma de uma Cruzada convocada pelo Papa), o sultão, com apoio de parte dos seus conselheiros, designou Zaganos Pasha para liderar uma última investida. Nunca ficou muito claro como, se Pasha teria comprado a lealdade de algum soldado, ou se algum defensor local foi mortalmente descuidado, mas um portão-falso que era usado pelos bizantinos para se esgueirarem para fora das muralhas foi deixado convenientemente destrancado. No dia 28 o acampamento turco ficou em silêncio, enquanto em Constantinopla, na catedral de Santa Sofia celebrava-se uma missa com a presença do imperador Constantino XI Paleólogo, e os sinos de todas as igrejas da cidade badalavam em desafio. No dia seguinte, pela porta destrancada, os turcos infiltraram-se durante um tumultuoso ataque frontal. Ali chegaram ao interstício entre as duas muralhas que compunham o complexo de defesas local, e finalmente a luta corpo a corpo se espalhou pelas ruas. Diz-se que o próprio imperador foi visto de espada na mão esperando seu fim. A resistência em uma luta franca foi insignificante, e ao fim do dia a destruição já era tão grande, que o sultão quebrou sua promessa de três dias de butim e ordenou o fim dos ataques.

Constantinopla, rebatizada em turco Istambul (uma corruptela do grego εἰς τὴν Πόλιν, "eis tim pólin", ou "à cidade", como eles se referiam a ela), teve suas igrejas reconsagradas, incluindo a colossal catedral de Santa Sofia, transformada numa mesquita. O clero ortodoxo (que resistira firmemente às tentativas de união promovidas entre o imperador e o Papa enquanto o primeiro buscava apoio no ocidente) obteve permissão para ficar, mas o eixo da ortodoxia cristã se deslocou mais para o norte, para o emergente principado de Moscou. Venezianos e genoveses, donos de impérios comerciais próprios que, por mais por afinidade do que por convicção apoiavam os bizantinos, fizeram seus acordos para manter seus negócios no novo Mediterrâneo controlado pelos turcos. Para estes, a vitória reforçada pelo simbolismo da sua conquista serviu para pacificar e unificar as tribos turcas que viviam de maneira mais ou menos federada no centro da Anatólia, enquanto o prestígio do sultão espalhava-se pelo restante do mundo islâmico não-turco, permitindo a expansão subsequente do domínio otomano sobre a África e Arábia. A nova capital também passaria a ser o trampolim para novas conquistas e a consolidação de um império turco na Europa mesmo hoje, de forma tão reduzida.

Do ponto de vista da Europa cristã, a queda de Constantinopla, por mais indiferença que as nobrezas locais, ocupadas com seus próprios conflitos locais (guerras de sucessão no Sacro Império Romano, guerras entre repúblicas e reinos italianos, a Guerra dos Cem Anos entre França e Inglaterra, a Reconquista na Espanha), tivessem aos apelos do imperador e do Papa, foi recebida como um soco no estômago. De fato, os turcos permaneceram uma ameaça por terra e por mar pelos séculos seguintes. Enquanto isso, mestres arquitetos e artistas diversos emigraram de Istambul e do centro do Peloponeso (onde, até a queda de Constantino XI, seus irmãos comandavam uma resistência armada), e influenciaram intelectualmente o início da Renascença na Itália e a revitalização da cultura clássica grega durante esse período. De fato, muitos historiadores marcam o fim da Idade Média em 1453, após a tomada de Constantinopla.

Porém, na minha opinião, a consequência mais importante da conquista turca foi o estabelecimento do Mediterrâneo como um ambiente hostil ao comércio europeu. Enquanto turcos, venezianos, genoveses, austríacos e napolitanos confrontavam-se uns contra os outros, e Inglaterra engalfinhava-se com a França por questões dinásticas, um jovem país costeiro no extremo oeste do continente emergia como nova potência comercial à medida em que aproveitava sua posição para explorar o oceano em busca de novas rotas para o oriente: Portugal enviava expedições tateando a África em busca de uma passagem pelo sul até a Índia que não dependesse da boa vontade dos turcos ou de quaisquer outros maometanos que existissem pelo caminho (e além dos turcos, ainda havia curdos, persas, uzbeques, turcomanos, mongóis, afegãos, e todo tipo de etnia e seguidores do islã entre o Bósforo e o Ganges... além de boa parte do próprio norte da África, caso eles tentassem). O desenvolvimento técnico que se seguiu, e o conhecimento acumulado sobre as correntes oceânicas e a astronomia em diferentes latitudes, levou às expedições que, 40 anos depois, levaram os europeus à América.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Dois impérios, dois mundos

Em 8 de dezembro de 627, um exército bizantino esmagou outro bem menor do Império Sassânida, dando fim a mais de 650 anos de guerras entre os impérios Romano e Persa.

Os povos iranianos se estabeleceram como forças consideráveis no antigo Oriente Médio através do emergente reino Meda. Os persas propriamente ditos os sucederam como um poder central no Oriente Médio no século VI a.C. sob a dinastia Aquemênida, e assim prosseguiram até a sua conquista total pelos exércitos macedônios de Alexandre, O Grande, no século IV a.C.. Depois da sua morte prematura, seu vasto império foi repartido (não sem alguma violência) entre alguns dos seus principais generais. A maior parte da sua porção asiática, que correspondia ao território dominado anteriormente pelos persas, ficou nas mãos do general Seleuco, que fundaria sobre essas terras o Império Selêucida. Ali, os persas continuaram servindo como uma elite militar, administrativa e religiosa, conduzindo a predominante religião zoroastrista. Eventualmente, este novo império greco-asiático seria lentamente absorvido pelos partas (outra tribo iraniana, como os persas) no leste, e o emergente Império Romano no oeste. Durante o século I a.C., a tensão entre esses dois impérios iria crescer na região, com a instalação de Estados-satélites no Cáucaso e na Armênia, cujas lealdades flutuavam conforme a conveniência. Reis partas chegaram a tentar uma aliança com a República Romana, mas os romanos tinham suas pretensões. Roma invadiu a Armênia com auxílio dos partas, mas logo a fronteira ao longo do Eufrates se tornou uma zona de constante atrito. O controle sobre a Mesopotâmia - a região agrícola mais produtiva do mundo à época - era ambicionado por ambos os lados, e mudou de mãos com frequência.

Em 224 os persas recuperaram sua hegemonia sobre o mundo iraniano quando um persa, Ardashir I, depôs a dinastia parta, instituindo a dinastia Sassânida no poder. O Império Sassânida continuou a se opor ao Império Romano. Durante o século III, os romanos, em grave crise econômica e política, ainda entraram em uma guerra defensiva no oeste contra invasores germânicos, abrindo caminho para o avanço persa no oriente - em 260, os romanos foram derrotados em Edessa, e seu imperador, Valeriano, capturado, o que representou uma grande humilhação a Roma. Pouco mais de 20 anos depois, Roma chegou a saquear a capital Ctesifonte, mas seu imperador, Caro, morreu antes de dar prosseguimento à campanha. Em outra ofensiva romana em 363, o imperador Juliano chegou a bater os persas diante da sua capital novamente, mas não conseguiu capturá-la, e acabou emboscado e morto enquanto recuava.

A partir do final do século IV, tanto Roma como Pérsia tiveram problemas com invasores germânicos, iranianos e hunos (os hunos em especial, e seu ramo arianizado, os heftalitas, causaram considerável destruição no norte da Pérsia), o que diminuiu temporariamente as hostilidades entre os dois. Quando explodiu uma nova guerra, no começo do século VI, o Império Romano do Ocidente já não existia mais (esfacelado por invasores na Europa), e agora era o Império Bizantino, centrado em Constantinopla e construído sobre substrato helênico, quem antagonizava a Pérsia Sassânida. Novamente a região da Armênia e do Cáucaso eram os focos de disputa. Como ofensivas de ambos os lados eram constantemente repelidas, em 532 os dois impérios assinaram um "Tratado de Paz Eterna". Por alguns poucos anos, esse tratado permitiu aos bizantinos investirem na reconquista de antigos territórios romanos no ocidente, chegando a retomar grande parte da África, da Itália e da Espanha. Vendo o rival crescer, os persas logo violaram o tratado e retomaram a ofensiva na Síria. O competente general Belisário, sobrinho do imperador Juliano, responsável pela reconquista da Itália, deixou o front ocidental para lidar com os sassânidas, deixando o domínio bizantino no ocidente fatalmente mal consolidado.

As guerras continuaram de forma quase constante por todo o século VI e começo do século VII, sempre com avanços modestos, pontuais e efêmeros para um lado ou para o outro, tendo o rio Eufrates como a principal barreira geográfica impedindo a consolidação de poder de um lado sobre o outro. Uma crise política em 610 enfraqueceu a posição bizantina, e permitiu a conquista persa da Síria, da Palestina e do Egito, e ataques que arrasaram a Anatólia, a região economicamente mais importante para os bizantinos. Avaros e eslavos aproveitaram para invadir a Trácia e os Bálcãs, respectivamente, e em 626 os avaros, apoiados por forças persas, chegaram a cercar a capital bizantina. Enquanto isso, o imperador Heráclio (que tentara domar os eslavos pagãos enviando-lhes missionários ortodoxos) costurou uma aliança com as recém-chegadas tribos turcas, que arrasavam o Cáucaso e atacavam a Pérsia pelo norte (a tribo dos Khazares tinha estabelecido seu próprio império ao norte do Mar Cáspio, e aderiu à aliança). Tendo se livrado do cerco a Constantinopla graças à incapacidade dos invasores de romper as muralhas e impedir o abastecimento da cidade pelo mar, os bizantinos lançaram uma contra-ofensiva em pleno inverno, Mesopotâmia adentro (com apoio inicial dos turcos, que debandaram ao longo da expedição), chegando a Nínive, perto do coração do Império Sassânida.

As forças de Heráclio eram perseguidas pelo exército de Razates, um general armênio que decidira abandonar Tblisi, na Geórgia, no momento cercada por uma pequena força bizantina, para tentar impedir o avanço do exército principal do inimigo. No entanto, Razates só alcançou Heráclio quando se aproximavam de Nínive, já nas proximidades do Rio Tigre. Heráclio estava acampado junto às ruínas da antiga capital do Império Assírio. Seu exército constituía talvez o dobro do que dispunha o general armênio, mas haviam notícias de que pelo menos 3 mil persas estavam a caminho, e isso deve ter convencido o imperador a dar meia volta e oferecer combate.

O conhecimento superior do terreno de nada adiantou aos persas. Heráclio dispôs suas tropas em uma planície apropriada para seus lanceiros e cavaleiros pesados, e uma névoa que se erguia dos rios Tigre e Zab nas proximidades dificultava a ação dos exímios arqueiros persas. Razates, contudo, tentou um ataque massivo e decisivo. Após 8 horas de combate, as forças superiores dos bizantinos prevaleceram, e metade dos persas foram mortos, incluindo seu comandante: parece que Razates desafiou Heráclio para um combate mano-a-mano, e foi morto com apenas um golpe, a exemplo de outros dois ou três desafiantes. Triunfantes, os bizantinos continuaram a marchar, e tomaram o palácio de Dastagird, na atual Bagdá, residência favorita do imperador sassânida Cosroe II, que fugira dali. Diz-se que ali Heráclio recuperou a cruz original onde Jesus fora crucificado, capturada e mantida pelos persas como um tesouro, após uma negociação com o usurpador sassânida Cavades II, em troca da segurança de seu filho e herdeiro do trono, Ardashir. Impedido de prosseguir com a conquista da Pérsia por conta própria (as pontes sobre o canal de Haravan estavam destruídas, impedindo o avanço imediato do grosso do exército sobre o Tigre), Heráclio confirmou a aliança com o partido opositor de Cosroe, que seria assassinado logo depois. Os bizantinos retomaram o poder sobre a Síria, a Palestina e o Egito.

A guerra deixara ambos os impérios em frangalhos. A Anatólia arrasada representava um duro golpe na economia bizantina. A Pérsia mergulhou no caos político e não conseguiu reorganizar seus exércitos, nem a credibilidade de seus imperadores. A trégua após a Batalha de Nínive servia aos dois impérios. Mas enquanto ambas as potências se desgastavam infrutiferamente, um novo poder surgia ao sul: as tribos árabes estavam se unindo, pela persuasão ou pela força, em torno do profeta Maomé e sua nova fé e lei. Em 628, enquanto bizantinos e sassânidas lutavam no Rio Tigre, Maomé assegurava o domínio sobre Medina e começava a expandir em direção a Meca. A partir de 631, os muçulmanos avançariam com pouca resistência sobre a Palestina e a Mesopotâmia, conquistando vastos territórios tanto do Império Bizantino como do Sassânida. Enquanto os cristãos os freariam na Síria e resistiriam a dois novos cercos a Constantinopla (perdendo, porém, o controle sobre o Egito, o norte da África, a Espanha e algumas ilhas mediterrâneas), os sassânidas não teriam forças para impedir por muito tempo o avanço árabe e a queda de sua dinastia.

Para os bizantinos, os atritos com os persas custaram sua supremacia na Europa, e expuseram o império a sucessivas ondas de invasores, tanto árabes como turcos na Ásia, e búlgaros e húngaros na Europa, sujeitando-se também às novas potências católicas no ocidente, e dando início a um longo e agoniante declínio - de tudo que os representava, restou a ortodoxia cristã e a língua grega. Para os persas, as rachaduras deixadas pelos séculos de guerra contra o mundo romano abriram o caminho para a introdução da cultura árabe e da religião muçulmana no principal reduto do zoroastrismo, e novamente o fim do seu domínio sobre sua própria terra natal.

A perda da Palestina, tradicionalmente mantida sob domínio cristão, foi um golpe duro para a cristandade, e não demoraria muito até que esforços coordenados entre as potências cristãs na Europa (com participação restrita dos bizantinos) colocasse as duas religiões em oposição em sucessivas tentativas de retomar a Terra Santa. Os persas, por outro lado, assimilariam a cultura árabe, mas a transformariam em algo distinto - islamizado, mas não "arabificado", graças a um poderoso senso de identidade nacional e uma longuíssima e contínua tradição na língua (as línguas iranianas são indo-europeias, para quem o árabe semítico, mesmo considerado sagrado para a religião, é uma língua estranha), na escrita e no pensamento. De fato, à conquista árabe sucedeu a formação do Califado Abássida, centrado em Bagdá e administrado por califas árabes, mas baseando sua força em exércitos e comandantes iranianos, que garantiam para a Pérsia um status de semi-independência. Independente ou não, sob árabes, mongóis ou turcos, a Pérsia continuou a ser um centro de irradiação cultural do Oriente Médio, estendendo sua esfera de influência do oeste do Rio Indo até a Armênia, do Golfo Pérsico até o Mar de Aral (durante o domínio mongol na China, administradores persas eram recrutados em detrimento de chineses para exercer altos cargos administrativos da dinastia Yuan). O atual Irã, embora tenha uma participação modesta nas decisões globais, assume uma postura de contraponto às potências econômicas ocidentais, ao mesmo tempo em que, como principal centro da corrente xiita do Islã (ainda que minoritária), mantém uma posição proeminente no mundo islâmico e forte influência política no Oriente Médio.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

A Batalha de Manzikert

Em 26 de agosto de 1071, um exército bizantino liderado pelo imperador Romano IV foi derrotado por forças turcas comandadas pelo sultão seljúcida Alp Arslan, diante da cidade armênia de Manzikert.

Os turcos seljúcidas vinham há um século pressionando o Império Bizantino na Ásia, cujas fronteiras mal conseguia defender contra árabes e persas. Esses seljúcidas remontavam suas origens a um certo Seljuq, líder tribal turco leal ao Império Khazar, que conduziu seus seguidores para o sul, até o Khwarizm, no norte do Irã, onde se converteram ao Islã. Oferecendo-se a lutar pelos samânidas, a dinastia governante da Pérsia, esses turcos acabaram envolvidos numa prolongada guerra contra os Ghaznávidas, outro clã turco que controlava um vasto território centrado no Afeganistão. A própria Pérsia samânida acabaria colapsando sob uma invasão de um terceiro clã turco, os qarakarânidas. O vácuo de poder na região seria preenchido pelos seljúcidas, que controlavam as principais cidades do norte da Pérsia. Na virada do milênio, o que era uma tribo guerreira acabou formando seu próprio império.

Na década de 1040 os seljúcidas começaram a expandir para o oeste, invadindo a província bizantina da Ibéria, ao sul do Cáucaso. Em 1048 as duas forças se enfrentaram pela primeira vez em Kapetron, que resultou no recuo dos turcos e numa trégua. Esta trégua levou os imperadores bizantinos a adotar restrições no orçamento militar, fazendo debandar um contingente de 50 mil armênios, e substituindo soldados conscritos por mercenários nas fronteiras. E, ainda assim, aumentando impostos (nesse período, o frágil imperador Constantino IX procurou assegurar apoio da nobreza com isenções de impostos, e a população teve que pagar a conta). A crise econômica e militar levou o controle do Império Bizantino na Ásia rapidamente à ruína, e ela viria justamente pelas mãos dos turcos seljúcidas.

Os seljúcidas tinham à sua disposição hordas de turcomanos que não tinham todo esse compromisso com a diplomacia internacional. Para manter os turcomanos sob controle, o novo sultão Alp Arslan os conduziu em campanhas contra a Armênia e a Geórgia, agora mal defendidas, anexando os dois países. Em 1067 eles já haviam alcançado o centro da Anatólia. No ano seguinte, com a morte do ineficiente Constantino X, o novo imperador bizantino Romano IV decidiu retomar a iniciativa e recuperar territórios perdidos. Alp Arslan capturou o principal comandante bizantino em Iconium e assinou uma nova trégua - sua real intenção era abrir caminho para a Síria, controlado pelos rivais islâmicos fatímidas. Em 1071 emissários bizantinos foram recebidos pelo sultão para renovar o acordo. Com isso, Alp Arslan sentiu-se seguro para levar um exército a Aleppo.

Romano pretendia aproveitar a ausência do sultão para retomar a Armênia.

Romano em pessoa liderava uma coalizão de bizantinos, franceses, búlgaros, normandos, suecos, armênios, mercenários turcos e aldeões recrutados pelo caminho. Um exército de mais de 40 mil soldados, engrossado por mercenários estrangeiros. Muito rapidamente os problemas começaram a ocorrer: enquanto avançava ainda em seu próprio território, soldados francos pilhavam vilarejos. O imperador (que trazia consigo uma ostentosa entourage de cortesões e tesouros particulares enquanto os soldados enfrentavam uma marcha difícil pela montanhosa Ásia Menor) também estava cercado de rivais políticos a quem precisava bajular com promessas de glórias e conquistas.

A despeito da dificuldade do terreno, Romano avançava sem resistência em direção a Manzikert, ao norte do Lago Van, já no coração da Armênia (hoje, leste da Turquia). O imperador dividiu o exército em dois, enviando um segundo contingente para a fortaleza de Khliat, reduzindo, porém, a força principal à metade. O que aconteceu com a outra metade do exército é desconhecido (é provável que eles tenham desertado). Romano estava muito seguro, porque não sabia que Alp Arslan já havia retornado de Aleppo (com reforços da Síria), e acompanhava com batedores toda a movimentação bizantina.

Romano eventualmente capturou Manzikert em 23 de agosto, enfrentando apenas a resistência de arqueiros turcos. Enquanto estava na cidade, Romano recebeu notícia de um exército turco nas proximidades. Nos dois dias seguintes, negociações de paz falharam (possivelmente porque Romano não acreditava que aquele era o corpo principal do exército seljúcida, que deveria estar na Síria), e rápidas incursões bizantinas foram rechaçadas. No dia 26, os bizantinos saíram em formação de combate para encontrar os turcos. A linha turca, por sua vez, fazia uma crescente, cujo centro recuava à medida em que os bizantinos avançavam - seus flancos então fustigavam os flancos inimigos, quase cercados dos dois lados. A cavalaria, no centro, avançava e recuava, atraindo o centro bizantino ainda mais para o interior do semicírculo. Assim os dois exércitos ficaram dançando até o anoitecer, quando Romano ordenou um recuo.

Ali a sorte mudou drasticamente. A retaguarda, responsável por cobrir a retirada de Romano, era comandada por Andronikos Doukas, um rival político. Quando houve a ordem para recuar, Doukas ignorou a posição do imperador, deu meia volta e retornou com seu destacamento para o acampamento além da cidade. Vendo a confusão da retirada inimiga e seu centro vulnerável, Alp Arslan aproveitou a oportunidade e ordenou um ataque total. Neste momento, a lealdade da maioria dos mercenários sob Romano falhou e fugiu (curiosamente, os mercenários turcos se mantiveram leais até o fim). Romano e sua guarda pessoal constituída por vikings suecos foram cercados e capturados. No final, cerca de 4 a 8 mil soldados morreram do lado bizantino - todos os que não fugiram.

Romano foi levado à presença de Alp Arslan. Ele foi obrigado a se ajoelhar e beijar o chão (um ato que os romanos e bizantinos exigiam de emissários bárbaros em seu território como sinal de submissão). Durante uma semana de cativeiro, em que os dois compartilharam a mesa, Romano concordou em ceder territórios aos turcos, a pagar grandes somas em resgate (de si mesmo e de quem quer que estivesse em poder deles). Depois disso, foi enviado de volta a Constantinopla.

Os turcos não aproveitaram imediatamente os novos territórios para conquistar o resto da Anatólia. Foi a guerra civil que se seguiu entre os partidários de Doukas e o enfraquecido e humilhado Romano que abriu as portas para o avanço turco. Alp Arslan morreu em 1072, assassinado por um prisioneiro khwarizm enquanto comandava uma expedição ao Turquestão, as terras de seus ancestrais na Ásia Central. Mas imediatamente antes disso, liberou seus comandantes turcomanos para conquistar o que pudessem da Ásia Menor, e estabelecessem ali seus próprios governos provinciais. Em cinco anos, praticamente toda a Anatólia, desde o século VIII a.C. lar do povo grego e há muito o centro econômico do Império Bizantino, estaria em poder dos seljúcidas. Os bizantinos, com a ajuda das Cruzadas vindas do ocidente (embora "ajuda" não descreva muito bem a ação dos cruzados na região algumas vezes), conseguiriam recapturar algumas áreas na fímbria ocidental da Anatólia, apenas para perdê-las novamente para outra tribo turca, os otomanos, no século XIV.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

O Islã chega ao Egito

Em 6 de julho de 640 d.C., um exército árabe liderado por Amr ibn al-A'as derrotou um exército bizantino mais numeroso perto de Heliópolis, no Egito.

No momento da morte de Maomé, os árabes muçulmanos já controlavam toda a Península Arábica, e seus sucessores, os califas Abu Bakr e Omar, expandiram as fronteiras para o norte, conquistando a Síria do Império Bizantino e tomando praticamente de assalto a Pérsia sassânida. Era o momento propício para os árabes recém unificados ampliarem seus territórios, porque seus vizinhos bizantinos e sassânidas haviam acabado de travar uma guerra de atrito por uma geração inteira, e estavam economicamente e militarmente exaustos. E o rico Egito, então sob controle bizantino, estava logo ali.

A invasão do Egito começou aparentemente despretensiosa - ou temerária. Amr partiu com apenas 4000 soldados recrutados de tribos árabes e alguns mercenários conversos para tomar a província economicamente mais importante do Império Bizantino. O califa Omar, ao saber da iniciativa, ordenou em carta encaminhada por um mensageiro o recuo do pequeno exército para esperar por reforços. Mas o comandante, desconfiando do teor da mensagem, convenceu o mensageiro (que não sabia do conteúdo da carta) a seguir com ele para o Egito. Quando ele, enfim, discutiu com seus homens as ordens do Califa, eles já estavam no Egito, e, portanto, deveriam seguir em frente. Quando recebeu alguma resposta, Omar não teve escolha a não ser arregimentar um novo exército em Medina para despachá-lo ao Egito.

A marcha pelo leste do Egito foi tranquila. Tomaram algumas vilas sem resistência. Reforçados por beduínos do Sinai, os árabes conquistaram a fortaleza de Pelusium sem muita luta. A resistência bizantina apareceu durante o cerco a Bilbeis, a um dia de marcha de Memphis. A resistência ali ocorreu quando os bizantinos rejeitaram os termos de Amr de se converterem, ou pagarem a jizya - a taxa cobrada pelos muçulmanos aos praticantes de outras religiões em seu território - a despeito das intenções do governador do Egito, Ciro, que se contentava em se render e pagar a Jizya. Bilbeis também caiu. Amr marchou então para a fortaleza de Babilônia, onde hoje fica o Cairo, e ali finalmente os árabes se viram num impasse - seus 4 mil homens eram incapazes de tomar o forte, e desmembrar o exército para desviar ou tomar outras posições era inviável. Em julho de 640, antes de al-A'as enviar um pedido de reforço ao califa, um contingente de 16 mil homens já estava a caminho.

Babilônia ficava a poucas horas de marcha de Heliópolis, um antigo centro cerimonial e cultural. Amr decidiu direcionar a maioria das suas forças com os novos reforços para tomar Heliópolis, enquanto um pequeno contingente mantinha Babilônia imobilizada. Teodoro, comandante bizantino no Egito, mobilizou 20 mil soldados para enfrentar os cerca de 15 mil árabes. Diante de Heliópolis, o comandante árabe, consciente da desvantagem numérica, organizou seu exército em três destacamentos que se deslocaram rapidamente, confundindo os bizantinos: um terço foi para o leste e se posicionou em uma colina fora das vistas do comandante inimigo; outro terço manteve posição, oferecendo combate; um último terço se deslocou para o sul, bloqueando a rota de fuga. Os bizantinos atacaram o centro reduzido dos árabes sem preocupações. Ou Teodoro não despachara batedores para avaliar as posições inimigas, ou não lhes deu ouvidos, porque imediatamente os árabes desceram as colinas e atacaram os bizantinos pelo flanco e retaguarda, causando grande confusão. Os que sobreviveram ao massacre foram aniquilados enquanto tentavam fugir pelo sul. A vitória foi quase completa - Teodoro e alguns poucos soldados conseguiram escapar com vida.

Bizantinos e árabes ainda se encontrariam algumas vezes até a queda de Alexandria, em novembro de 641. Mas a derrota em Heliópolis selou definitivamente o destino do Egito. Os gregos, que governavam Bizâncio, eram uma pequena elite no Egito, de maneira que o sucesso da invasão árabe acabou instigando um levante da maioria de egípcios nativos, sobretudo de cristãos monofisistas (cuja fé era herética para a ortodoxia bizantina), que consideraram que a Jizya e o governo islâmico seriam preferíveis aos impostos e à má vontade do governo bizantino. Os árabes conquistaram rapidamente o interior do país com a conivência dos nativos, e de fato o governo de Amr ibn al-A'as foi benevolente para com os cristãos, aplicando a lei islâmica estritamente de modo a isentá-los do serviço militar e várias outras obrigações civis e permitir seu culto, desde que pagassem a Jizya (em dinheiro ou espécie), Mais tarde, o Califado Omíada que se seguiu endureceu seus impostos, induzindo os egípcios em dificuldades a se converterem (espontaneamente, ou à força), determinando a supremacia islâmica e o arabismo sobre o cristianismo no país. O Império Bizantino, por sua vez, perdia a sua principal fonte de grãos e o controle inconteste do Mediterrâneo - havia séculos, transformado num "lago" romano. Abalado economicamente e sem forças para resistir, os gregos perderiam rapidamente o resto de seus territórios na África, possibilitando aos árabes chegarem tão longe quanto o sul da França (onde foram brecados pelos francos) e expandirem o Islã em poucas gerações a um território tão vasto quanto o cristianismo nos séculos anteriores.