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sexta-feira, 23 de outubro de 2015

O mundo antes da Criação

Eu vou apelar um pouco. Hoje a efeméride se refere, na verdade, ao 23 de outubro, mas no Calendário Juliano. Em 1650, o arcebispo de Armagh, James Ussher, publicou um livro com seus cálculos que apontavam para este dia, no ano de 4004 a.C., às 9 horas da noite, como a data precisa em que Deus criou o mundo (corresponde, na verdade, ao 5 de novembro do atual Calendário Gregoriano, se eu não estiver enganado). Foi o apogeu das discussões dos teólogos cristãos acerca da idade da Terra, antes do desenvolvimento da geologia e da arqueologia a partir do século XVIII. Na época, a tese satisfez várias correntes opostas, e se tornou uma data quase universalmente aceita (até hoje, mesmo sem citar a obra de Ussher ou mesmo conhecê-la, muitos religiosos recorrem automaticamente ao 4004 a.C. para determinar a idade da Terra).

Bom, existem evidências de que não apenas o mundo, mas a própria existência humana no planeta predata o ano 4004 a.C.. Aqui eu aproveito para fazer um apanhado do mundo no quinto milênio antes de Cristo:

-A Revolução Agrícola já corria a pleno vapor no Oriente Médio (usando aqui a ampla definição moderna de "Oriente Médio", bem entendido), especificamente no médio curso do Rio Nilo. Ali, a chamada Cultura Badari (porque foi descoberta sob a cidade de El-Badari) construiu casas de madeira, das quais tempo só nos legou vestígios. Domesticou o trigo e a cevada, plantando-os nas férteis terras aluviais expostas durante as vazantes anuais do rio, e armazenavam o excedente de produção em poços escavados na terra seca. Também criavam bois, cabras e ovelhas. Essas pessoas produziam ferramentas de pedra polida, como machados, facas, foices, mas também faziam ferramentas finas com lascas de sílica (usadas possivelmente para esculpir figuras em barro e marfim de hipopótamo e elefante, que deixaram para trás), e dominavam técnicas rudimentares de cerâmica. Usavam conchas obtidas pelo comércio com povoações no Mar Vermelho e pedras coloridas também obtidas em algum lugar não determinado (mas certamente não próximo a El-Badari, onde não existe esse tipo de material) como adorno, e essas peças decorativas eram enterradas com seus donos quando morriam.

-No norte da Europa, ao leste do Mar Báltico, tribos de caçadores-coletores  (é possível que eles ainda caçassem casualmente os últimos mamutes da Europa) deixaram para trás fragmentos de um tipo de cerâmica muito particular, chamada cerâmica de pente, por causa das marcações em finas linhas paralelas na superfície das peças, como se tivessem sido "penteadas" enquanto estavam frescas. E isso é um fato extraordinário, porque geralmente se supõe que a arte da cerâmica necessariamente se desenvolve junto, ou posteriormente à agricultura, pressupondo que a finalidade primária de um vaso de cerâmica seja o armazenamento e o transporte de grãos do campo até a aldeia. Nesta região, o desenvolvimento da cerâmica, constituída de peças com capacidade para até 60 litros, veio antes da agricultura, e surgiu logo depois, ou ao mesmo tempo que esta arte floresceu no Oriente Médio. Este desenvolvimento paralelo sem um mesmo fator causalístico pode sugerir, embora essa teoria esteja tão fragmentada quanto as próprias peças da cerâmica, que já poderia haver algum contato entre aquela região e o Oriente Médio através das bacias hidrográficas da Rússia, rotas de comércio consagradas desde a Antiguidade por onde se escoava todo tipo de produto produzido na Escandinávia, como o âmbar por exemplo. A presença desta cultura, precedendo as migrações indo-europeias do terceiro milênio a.C. e uralo-altaicas posteriores, poderia explicar a origem dos nomes de rios e montanhas, que não tem significado em nenhuma língua conhecida hoje ou no passado naquela área.

-No Japão do ano 4004 a.C., a cerâmica já era uma tradição mais antiga para os nativos quanto era o próprio mundo para o arcebispo Ussher. Em 12000 a.C., os caçadores-coletores que já habitavam o japão desde 40000 a.C. passaram a produzir peças de cerâmica onde armazenavam nozes, tubérculos e frutos obtidos nas florestas. Era o fim da última era glacial, e o derretimento das geleiras e aumento da umidade atmosférica e das chuvas permitiram a expansão das florestas do fundo dos vales mais baixos para as encostas das montanhas, dando aos antigos grupamentos humanos do Japão novas possibilidades para sobreviência. Perto da virada do sexto milênio, já se cultivava feijão e abóboras. A cerâmica chamada Jomon (significa algo como "marcado por cordas", porque era o método de decoração aplicada à cerâmica fresca) se desenvolveu sem paralelos no Extremo Oriente por milhares de anos, até que, por volta de 300 a.C., povos agrícolas cultivadores de arroz do continente chegaram ao Japão e mesclaram-se com as populações locais, transformando irreversivelmente sua arte e seu modo de vida.

-Ao longo do Rio Yantse, na China, as populações nômades começavam a assentar-se nas suas planícies aluviais e a cultivar painço nessa terra (o arroz, carro chefe da sua economia em tempos posteriores, estava sendo domesticado naquele período no sul, no vale do rio Mekong, de onde se espalhou rapidamente para o norte e o oeste). As lendas chinesas sobre a origem da sua civilização apontam para mil anos depois a época em que o lendário Imperador Amarelo, entre outros feitos vitais para a civilização, projetou e executou a construção de canais de drenagem para o Rio Yantse que possibilitaram o assentamento permanente às suas margens e o acesso à sua água para irrigação mais para o interior. Porém, essas obras já estavam em curso em 4004 a.C., provavelmente levadas adiante pela cooperação espontânea entre os agricultores e habitantes das aldeias locais, que sofriam com as cheias periódicas do volumoso rio. Aldeias de casas redondas ou mais ou menos retangulares, com o piso de terra batida escavado alguns centímetros abaixo da superfície e paredes de vime e barro e telhados de madeira e palha. Este povo já confeccionava tecidos de seda.

-Na Mesopotâmia, as populações que desde o sétimo milênio a.C. domavam gradualmente as cheias dos rios Tigre e Eufrates (construindo canais de drenagem à maneira das populações do Yantse), atingiram um estágio de cultura material conhecido como Período de al-Ubaid, em alusão a um dos primeiros sítios onde esta cultura foi identificada. A cultura ubaidi se epalhou pelo centro do Iraque até a antiga linha do litoral, onde ficaria a futura cidade suméria de Eridu (os sedimentos trazidos pelos rios da Mesopotâmia fizeram o continente avançar consideravelmente sobre o Golfo Pérsico ao longo dos séculos, de modo que o sítio de Eridu está a mais de 200 quilômetros do mar). Navios de junco faziam a comunicação fluvial entre as várias aldeias da região, estabelecendo uma rede ágil de comunicação. Se o Épico de Gilgamesh, compilado pelos sumérios no quarto milênio antes de Cristo, é uma rememoração de eventos do período formativo daquela civilização, um capítulo da história indicaria que essa rede de comunicação chegava até o Líbano, onde o herói-título e seu companheiro Enkidu mataram o monstro Humbaba e abriram acesso às ricas florestas de cedro da região.

-É no Oriente Médio que estão algumas das cidades habitadas continuamente mais antigas de que se tem notícia (ou seja, não são cidades construídas sobre outras mais antigas, abandonadas por algum motivo no passado). Em 4004 a.C., cidades como Damasco e Aleppo, na Síria, Sidon, no Líbano, e Susa, no Elão (atualmente no Iraque) já eram centros de cultura, comércio, religião e governo aos quais as áreas adjacentes e sua população já estavam submetidas. A cidade libanesa de Biblos era um assentamento semi-permanente desde 7000 a.C., e próximo a essa data, Jericó, localizado em um oásis muito disputado na Palestina, já estava protegida por fortificações. Na Turquia, o assentamento permanente de Çatalhuyuk foi fundado próximo a 7500 a.C., e, em 4004 a.C., já havia sido abandonado e esquecido havia pelo menos 1500 anos.

-No Mar Egeu, no arquipélago das Cíclades (entre Creta, a Grécia continental, e a Anatólia), seres humanos assentados ali desde o fim da última era glacial estavam produzindo esculturas em pedra muito características da região (uma mistura de elementos encontrados na Anatólia e na Grécia, onde as cidades de Argos e Atenas já prosperavam). Uma delas, conhecida como "Máscara Cicládica", a escultura de uma cabeça de mulher de um período posterior, seria representada na abertura dos Jogos Olímpicos de Atenas em 2004 como um símbolo do despertar da consciência humana no mundo grego.

-No restante do Mediterrâneo e na Europa continental, as antigas culturas megalíticas, caracterizadas pela construção de grandes monumentos de pedra, como o famoso Stonehenge na Grã Bretanha, já estavam definhando e sendo substituídas gradualmente por culturas neolíticas, com o advento da agricultura. Isso aconteceu em Malta, onde a migração de povos vindos da Sicília trouxeram novas crenças e novos modos de vida. Mas na França, grandes menires (pedras compridas com a ponta abaolada assimetricamente, às vezes esculpidas neste formato, posicionadas verticalmente no solo, possivelmente com alguma função religiosa) continuaram a ser erguidos. Os menires de Carnac, na Bretanha francesa, distribuídos em linhas paralelas quase perfeitas, foram montados assim por volta da virada do quinto milênio. Alguns séculos antes, um povo em Goseck, no centro da Alemanha, construiu um complexo de paliçadas de madeira perfazendo círculos concêntricos, aparentemente com o mesmo desenho básico e a mesma função astronômica dos monumentos megalíticos erguidos mais a oeste.

-Na América ocorreu a domesticação do que viria a ser a principal fonte de alimento de todas as civilizações mesoamericanas até o século XX, o milho. Esta planta nativa do México era uma gramínea de médio porte cujas espigas portavam talvez uma dúzia de grãos carnosos. Processos de melhoramento genético promovido por cruzamentos mais ou menos controlados entre diferentes cultivares progressivamente transformaram esta planta no milho que temos hoje, com grandes espigas repletas de fileiras de sementes, com centenas de cultivares diferindo em tamanho, sabor, consistência, cor e teor de amido, representando, talvez, o caso mais drástico de manipulação genética de uma espécie selvagem pelo ser humano (com a tecnologia e o conhecimento que os nativos da América tinham).

-Embora se convencione a sinonimizar o período neolítico com "idade da pedra", porque os principais implementos e ferramentas eram feitos a partir de pedras e minerais, o cobre já era extraído do interior das montanhas, separado do minério, e trabalhado desde pelo menos 7500 a.C.. Objetos desse metal era elaborados pelos povos do leste e do sul da China durante o quinto milênio. No Irã, o uso de ferramentas de cobre levou ao abandono gradual da arte de confecção de objetos utilitários de pedra (ao final do quinto milênio, o que existia de ferramentas de pedra eram exemplares grosseiros e mal acabados, com função marginal diante dos instrumentos de cobre). Nas grandes planícies da América do Norte, o amalgamamento de cobre com outros metais pode ter sido desenvolvido na virada do quinto para o quarto milênio antes de Cristo (as datas plausíveis mais recuadas colocam os antigos povos dos Grandes Lagos como candidatos a serem os primeiros a fundir metal no mundo).

Sem entrar na questão biológica ou geológica envolvendo a idade da Terra, em 4004 a.C. o mundo humano (o que Arnold Toynbee chamava de Oikoumene, paravra grega que deu origem ao português ecumene, que significa algo como "o mundo conhecido") já era muito antigo e atingia um ponto crítico de complexidade social e tecnológica que levaria ao surgimento das primeiras grandes civilizações logo em seguida (a História propriamente dita, começa com a invenção da escrita na florescente Suméria por volta de 3200 a.C.,). Adão e Eva, no momento da sua criação, ou, vá lá, no momento em que foram expulsos do Jardim do Éden, teriam sem dúvida se surpreendido sobremaneira ao se dar conta que o mundo em que caíram já havia aspectos civilizatórios tão complexos, como, por exemplo, a cidade fortificada de Jericó ou as ruínas de Çatalhuyuk, ou minas de cobre no Sudão, ou observatórios astronômicos de pedra na França, que já seriam algo tão antigo para eles naquela época como as pirâmides do Egito são para nós hoje.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Unido pela partilha, partido pela união.

Em 2 de setembro de 1898, uma força anglo-egípcia derrotou um exército mais numeroso de guerreiros sudaneses na Batalha de Omdurman, perto de Cartum.

Antes de 1820, o que é hoje o Sudão era um território desprovido de governo central, repartido entre pequenos reinos, e habitado e disputado entre tribos locais. Nesse ano, o governador otomano do Egito, Muhammad Ali, ordenou a conquista e anexação deste vasto território, fonte de ouro (razão de prosperidade dos antigos reinos sudaneses e do próprio Egito faraônico, num passado distante) e escravos. Além disso, turcos mamelucos, que Ali expulsara do Egito, haviam fugido para o sul, e os reinos tributários que existiam num cinturão entre o Egito propriamente dito e o Sudão se recusavam a entregá-los, proporcionando uma justificativa diplomática para a campanha. Melhor organizados e armados, os egípcios enfrentaram resistência da principal tribo sudanesa, os Shaiqiya, até hoje um povo agrícola e cioso de suas terras às margens do Nilo. Porém, dentro de um ano a guerra estava decidida em favor do Egito. A recém fundada fortaleza de Cartum se tornou o centro administrativo do Sudão egípcio.

As reformas implementadas pelo Egito no Sudão passavam pela implantação de um sistema jurídico e um sistema educacional no modelo otomano. Contudo, o Egito favorecia modelos jurídicos e educacionais orientados por uma ortodoxia islâmica que os sudaneses rejeitavam, por entrar em conflito com o islã praticado pelas tribos, que incorporava práticas e crenças tradicionais locais. O tráfico de escravos do Sudão para o Egito também se tornou tão lucrativo que, na década de 1860 esta se tornou a principal atividade econômica do Sudão (mesmo com os esforços conjuntos com os britânicos para erradicar o tráfico de escravos, caravanas árabes de apresamento continuavam a fazer fortunas no Sudão). A privatização de terras e a monopolização de ramos importantes da economia sudanesa também se tornaram um problema. Na década de 1870, o governador Ismail I, afundado em dívidas por causa da construção do Canal de Suez, começou a ceder favores à Grã-Bretanha, e a nomear europeus para governar as províncias do Sudão, e favorecer o estabelecimento de empresas estrangeiras no país. Esse Ismail acabaria abdicando em favor de seu filho Tewfiq, gerando uma crise política duradoura que levaria a uma guerra civil e à efetiva ocupação do país pelo Reino Unido.

Ismail havia nomeado governador das províncias mais meridionais do Sudão o general britânico Charles Gordon, que enfrentou resistência de um certo chefe tribal local. Com a crise de sucessão, Gordon perdeu apoio do governo central, e, depois de sete anos de atritos, abandonou o cargo. O prolongado conflitou deixou na região um forte ressentimento contra o domínio estrangeiro - fosse britânico, egípcio, ou otomano, cujo sultão era considerado o califa, ou a autoridade máxima, do islã e que exercia forte influência sobre a administração egípcia - que, até então, era vista como massacrante pelos sudaneses.

No meio de tudo isso, um faquir sudanês chamado Muhammad Ahmad proclamou a si mesmo Mahdi (o "redentor do islã") e conclamou os sudaneses fiéis a recuperarem sua terra. A agitação crescente fez com que o governador do Sudão mandasse duas companhias para capturá-lo. As duas companhias acabaram se separando no caminho, e, ao se encontrarem, julgaram estar diante do inimigo, e começaram a atirar uma na outra. Os fiéis de Ahmad se aproveitaram da confusão para destruir ambas, elevando seu nome e sua moral pelo país. Em outro confronto, os rebeldes, famintos e armados apenas de paus e pedras, atacaram um acampamento de 4 mil soldados e se apropriaram das suas armas, uniformes e suprimentos. Em 1883, uma força de mais de 10 mil egípcios e britânicos marchou para o Sudão, e encontrou o Mahdi no controle da cidade de El Obeid, com 40 mil guerreiros tribais, armados e treinados, às suas ordens. Ahmad foi mais uma vez vitorioso. Após isso, o Egito começou a se retirar do Sudão. O general Gordon foi chamado de volta para coordenar a retirada.

Ao chegar em Cartum, Gordon se deu conta da complexidade da missão: os soldados, administradores e civis egípcios e britânicos estavam encastelados em cidades e fortalezas espalhadas pelo vasto território, três delas sitiadas, e tudo entre elas estava sob controle do Mahdi. Ele se recusava, contudo, a salvar apenas Cartum (cuja população não-sudanesa era mais numerosa do que a de todas as outras cidades juntas). Ele também se preocupava com a possibilidade do Mahdi, de posse do Sudão, atacar o Egito. Enquanto pensava em um plano, mahdistas ao norte cortaram os cabos telegráficos, e em alguns dias, 50 mil deles cercavam a cidade. Depois de quase um ano de cerco, sem receber reforços, a capital caiu nas mãos do Mahdi. A queda de Cartum repercutiu no próprio cenário político britânico - o partido do governo perdeu a eleição seguinte. O governo, contudo, continuou empreendendo esforços para retirar cidadãos e oficiais estrangeiros. Em 1889, uma operação para resgatar o governador do sul, o turco Mehmed Emin, saiu do Egito e contornou toda a África Central para chegar ao sul do Sudão sem passar pelo território sob o Mahdi.

Afinal, britânicos e egípcios conseguiram reagrupar suas forças. O exército egípcio foi treinado e armado pelos ingleses, visando uma campanha de reconquista do Sudão, que o Egito ainda considerava território seu, e cuja reivindicação os britânicos consideravam legítima. Nesse meio tempo, em 1885, Ahmad morreu e foi sucedido por outro Mahdi, Abdallahi ibn Muhammad, tão influente e competente quanto seu antecessor. O Mahdi impunha a sharia, o código de leis islâmico baseado no Alcorão - porém, dentro do contexto plural e tribalista do islã no Sudão, os mahdistas hostilizavam a ortodoxia a ponto de queimar livros islâmicos. O sistema de crenças islâmico foi adaptado para que a lealdade ao Mahdi fosse incluída como um dos pilares da verdadeira fé. O regime mahdista era menos religioso e mais personalista do que pareceria a um observador casual. Os cristãos copta, contudo, eram alvos fáceis de perseguição religiosa.

Missionários e políticos ingleses que fugiram do Sudão publicaram e relataram à imprensa a barbárie imposta pelos mahdistas, originando uma ampla campanha com apelo popular pela intervenção militar naquele país. Em 1896, depois da derrota italiana na guerra com a Etiópia (o imperador etíope Yohannes IV requisitou aliança ao Mahdi Muhammad, mas foi recusado por ser, Yohannes, cristão), os sudaneses ameaçaram retomar Kassala, na fronteira do país, então sob controle italiano. Foi a brecha para os britânicos tomarem a ofensiva.

A força anglo-egípcia avançou pelo norte, tomando o cuidado de fortificar posições e construir ferrovias para garantir linhas de suprimentos. Onze mil homens equipados com o que existia de mais moderno em armamentos, incluindo metralhadoras, peças de artilharia e canhoneiras subiram o rio Nilo. Os confrontos mais sérios foram travados em 1898, quando os britânicos e egípcios, em número ainda maior, enfrentaram os mahdistas, que já somavam um exército de mais de 60 mil guerreiros. Uma batalha travada perto do rio Atbara provou, contudo, a superioridade bélica europeia: em 45 minutos, 3 mil mahdistas foram mortos, contra 85 britânicos e egípcios.

O exército anglo-egípcio conseguiu alcançar Cartum. Na manhã de 2 de setembro, cerca de 26 mil soldados anglo-egípcios encontraram 52 mil mahdistas próximo ao distrito de Omdurman, na periferia da capital. A batalha foi confusa e particularmente sangrenta, com os mahdistas realizando um ataque frontal à curta distância (devido ao alcance de seus antigos rifles) contra canhões e metralhadoras. Depois desse primeiro momento, em que 4 mil sudaneses tombaram antes de disparar um tiro, os ingleses partiram em perseguição ordenada aos fugitivos. O Mahdi, contudo, teve tempo de reorganizar seus homens (30 mil guerreiros ainda estavam de pé) e tentou cercar os britânicos num movimento de pinça, com um dos destacamentos atacando a retaguarda. Mas, sob fogo pesado de uma defesa segura, outros 7 mil mahdistas foram mortos e tantos outros feridos (muitos deles, alegadamente, executados sob ordens britânicas quando a batalha já estava decidida; observadores viram cadáveres ajoelhados, como se estivessem orando no momento da execução). Menos de 50 britânicos e egípcios foram mortos. O Mahdi ainda escapou para liderar a resistência, esmagada em Umm Diwaykarat, no ano seguinte. O Império Britânico, que efetivamente ainda governava o Egito, garantiu assim a administração conjunta do Sudão.

A guerra no Sudão ocorreu no clímax das disputas coloniais na África. Em 1885, a Conferência de Berlim começou a oficializar, entre as potências europeias, a partilha do continente. A França tinha pretensões de estabelecer colônias numa faixa longitudinal que ia do Senegal até o Mar Vermelho. O Reino Unido pretendia uma faixa latitudinal, começando no Egito e chegando à África do Sul - as duas linhas se cruzavam no Sudão. Quando os mahdistas foram derrotados em Cartum, muitos fugiram para o sul, e os britânicos saíram em perseguição. No caminho, eles surpreenderam um pequeno exército francês vindo do Congo, perto da aldeia de Fashoda, no atual Sudão do Sul. Para a França, controlar o sul do Sudão significaria controlar o Nilo Branco, um afluente navegável do Nilo onde eles poderiam posicionar uma frota de guerra e persuadir os ingleses a deixarem o Egito rio abaixo. A superioridade inglesa na região persuadiu os franceses de abandonarem seu plano (além das forças em terra, havia uma flotilha de guerra britânica subindo o rio).

O Sudão permaneceu sob administração britânica e egípcia até 1955. O território, que incluía os atuais Sudão propriamente dito e o Sudão do Sul, sempre fora tratado como um país só, e a independência foi concedida a essa entidade geopolítica, sem levar em consideração as diferenças étnicas e econômicas marcantes entre as duas regiões. Desde então, o Sudão tem vivido episódios longos e intermitentes de guerras civis com vítimas estimadas em pelo menos 1,5 milhões de pessoas, até a independência do sul em 2011 (o Sudão do Sul, atualmente, vive sua própria guerra civil).

Winston Churchill, futuro Primeiro Ministro britânico durante a Segunda Guerra Mundial, era um dos membros da cavalaria presentes na Batalha de Omdurman. Seu livro The River War: An Historical Account of the Reconquest of the Soudan é uma das principais fontes sobre os acontecimentos da guerra anglo-sudanesa.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

O Islã chega ao Egito

Em 6 de julho de 640 d.C., um exército árabe liderado por Amr ibn al-A'as derrotou um exército bizantino mais numeroso perto de Heliópolis, no Egito.

No momento da morte de Maomé, os árabes muçulmanos já controlavam toda a Península Arábica, e seus sucessores, os califas Abu Bakr e Omar, expandiram as fronteiras para o norte, conquistando a Síria do Império Bizantino e tomando praticamente de assalto a Pérsia sassânida. Era o momento propício para os árabes recém unificados ampliarem seus territórios, porque seus vizinhos bizantinos e sassânidas haviam acabado de travar uma guerra de atrito por uma geração inteira, e estavam economicamente e militarmente exaustos. E o rico Egito, então sob controle bizantino, estava logo ali.

A invasão do Egito começou aparentemente despretensiosa - ou temerária. Amr partiu com apenas 4000 soldados recrutados de tribos árabes e alguns mercenários conversos para tomar a província economicamente mais importante do Império Bizantino. O califa Omar, ao saber da iniciativa, ordenou em carta encaminhada por um mensageiro o recuo do pequeno exército para esperar por reforços. Mas o comandante, desconfiando do teor da mensagem, convenceu o mensageiro (que não sabia do conteúdo da carta) a seguir com ele para o Egito. Quando ele, enfim, discutiu com seus homens as ordens do Califa, eles já estavam no Egito, e, portanto, deveriam seguir em frente. Quando recebeu alguma resposta, Omar não teve escolha a não ser arregimentar um novo exército em Medina para despachá-lo ao Egito.

A marcha pelo leste do Egito foi tranquila. Tomaram algumas vilas sem resistência. Reforçados por beduínos do Sinai, os árabes conquistaram a fortaleza de Pelusium sem muita luta. A resistência bizantina apareceu durante o cerco a Bilbeis, a um dia de marcha de Memphis. A resistência ali ocorreu quando os bizantinos rejeitaram os termos de Amr de se converterem, ou pagarem a jizya - a taxa cobrada pelos muçulmanos aos praticantes de outras religiões em seu território - a despeito das intenções do governador do Egito, Ciro, que se contentava em se render e pagar a Jizya. Bilbeis também caiu. Amr marchou então para a fortaleza de Babilônia, onde hoje fica o Cairo, e ali finalmente os árabes se viram num impasse - seus 4 mil homens eram incapazes de tomar o forte, e desmembrar o exército para desviar ou tomar outras posições era inviável. Em julho de 640, antes de al-A'as enviar um pedido de reforço ao califa, um contingente de 16 mil homens já estava a caminho.

Babilônia ficava a poucas horas de marcha de Heliópolis, um antigo centro cerimonial e cultural. Amr decidiu direcionar a maioria das suas forças com os novos reforços para tomar Heliópolis, enquanto um pequeno contingente mantinha Babilônia imobilizada. Teodoro, comandante bizantino no Egito, mobilizou 20 mil soldados para enfrentar os cerca de 15 mil árabes. Diante de Heliópolis, o comandante árabe, consciente da desvantagem numérica, organizou seu exército em três destacamentos que se deslocaram rapidamente, confundindo os bizantinos: um terço foi para o leste e se posicionou em uma colina fora das vistas do comandante inimigo; outro terço manteve posição, oferecendo combate; um último terço se deslocou para o sul, bloqueando a rota de fuga. Os bizantinos atacaram o centro reduzido dos árabes sem preocupações. Ou Teodoro não despachara batedores para avaliar as posições inimigas, ou não lhes deu ouvidos, porque imediatamente os árabes desceram as colinas e atacaram os bizantinos pelo flanco e retaguarda, causando grande confusão. Os que sobreviveram ao massacre foram aniquilados enquanto tentavam fugir pelo sul. A vitória foi quase completa - Teodoro e alguns poucos soldados conseguiram escapar com vida.

Bizantinos e árabes ainda se encontrariam algumas vezes até a queda de Alexandria, em novembro de 641. Mas a derrota em Heliópolis selou definitivamente o destino do Egito. Os gregos, que governavam Bizâncio, eram uma pequena elite no Egito, de maneira que o sucesso da invasão árabe acabou instigando um levante da maioria de egípcios nativos, sobretudo de cristãos monofisistas (cuja fé era herética para a ortodoxia bizantina), que consideraram que a Jizya e o governo islâmico seriam preferíveis aos impostos e à má vontade do governo bizantino. Os árabes conquistaram rapidamente o interior do país com a conivência dos nativos, e de fato o governo de Amr ibn al-A'as foi benevolente para com os cristãos, aplicando a lei islâmica estritamente de modo a isentá-los do serviço militar e várias outras obrigações civis e permitir seu culto, desde que pagassem a Jizya (em dinheiro ou espécie), Mais tarde, o Califado Omíada que se seguiu endureceu seus impostos, induzindo os egípcios em dificuldades a se converterem (espontaneamente, ou à força), determinando a supremacia islâmica e o arabismo sobre o cristianismo no país. O Império Bizantino, por sua vez, perdia a sua principal fonte de grãos e o controle inconteste do Mediterrâneo - havia séculos, transformado num "lago" romano. Abalado economicamente e sem forças para resistir, os gregos perderiam rapidamente o resto de seus territórios na África, possibilitando aos árabes chegarem tão longe quanto o sul da França (onde foram brecados pelos francos) e expandirem o Islã em poucas gerações a um território tão vasto quanto o cristianismo nos séculos anteriores.