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domingo, 24 de junho de 2018

Os Altos Reis da Irlanda

Em 24 de junho de 637 foi travada a Batalha de Moira, na atual Irlanda do Norte, entre os aliados de Congal Cáech, senhor do reino de Ulaid, e seu padrasto, Domnall II, Alto Rei da Irlanda.

A ilha da Irlanda foi colonizada por humanos por volta de 12500 anos atrás, ao fim última glaciação. Nessa época, até cerca de 8000 anos atrás, a Grã-Bretanha estava conectada ao continente europeu, via Alemanha, Países Baixos, e Dinamarca, por uma porção de terra hoje coberta pelo Mar do Norte, e é provável que as primeiras pessoas tenham vindo da ilha vizinha, num processo que se acelerou por volta de 10000 anos atrás. Há 6000 mil anos, culturas neolíticas vindas do continente se estabeleceram ali, trazendo consigo a agricultura, os animais de pasto, e técnicas de construção de habitações, monumentos, etc..

Quanto aos celtas, não se tem certeza de que eles, que ocupavam grande parte da Europa continental e Grã-Bretanha na alta Idade do Ferro, tenham colonizado a Irlanda e suplantado as populações locais. As ideias mais recentes, amparadas pela arqueologia e pela genética, apontam que a "celtização" da ilha tenha se dado por difusão cultural devido ao intenso e prolongado contato com os vizinhos. A última onda migratória veio provavelmente de povos ibéricos, por volta de 2500 a.C., sendo impossível identificá-los culturalmente como celtas.

A cultura céltica se conservou na Grã-Bretanha romana, mesmo após a introdução do Cristianismo, a ponto de observarmos uma regressão dos povos britânicos às suas tradicionais formas de organização social, baseadas em identidades tribais, quando a ocupação romana entrou em colapso no século V. E onde os romanos não conseguiram se estabelecer, como na Escócia, na Cornuália, e no País de Gales, os celtas nativos mantiveram suas identidades. A Irlanda, embora fosse conhecida em Roma (que a chamavam "Hibernia") por fazer parte, desde a emergência do Helenismo no Mediterrâneo, de uma rede de comércio marítimo que abastecia as grandes civilizações da Antiguidade com lãs, e trabalhos finos em metal, permaneceu relativamente intocada diante da ascensão e queda dos grandes impérios.

A Irlanda, mantida à margem por tanto tempo, passou então a desenvolver seu próprio modelo de organização social. As diferentes tribos que habitavam a ilha ocupavam territórios frouxamente determinados, e alianças voláteis ampliavam e dividiam esses territórios tao rápido que é difícil traçar sua história com solidez até a chegada do século VI. No entanto, as tribos admitiam a existência de um rei sobre elas.

Este rei, o Alto Rei, inicialmente cumpria uma função religiosa: para ser sagrado Alto Rei, o candidato precisava se casar com uma deusa (a deusa que personificava o reino que se pretendia governar), precisava ser "imaculado" (tanto fisicamente, sem ferimentos, manchas ou pintas pelo corpo, como espiritualmente), e apresentar as virtudes necessárias para não desobedecer, no passado ou no futuro, certos tabus. Quando um candidato ao cargo cumpria os requisitos, a tradição irlandesa diz que a coluna de pedra conhecida como Lia Fáil ("Pedra do Destino"), no alto Colina de Tara, literalmente gritava para que toda Irlanda ouvisse que havia um novo rei. A tradição local atribuiu a origem deste monumento à raça semi-divina dos Tuatha Dé Danann, que a trouxeram junto com outras relíquias (uma lança, uma espada, e um caldeirão, todos com poderes mágicos) das "Ilhas do Norte". O herói lendário Cúchulainn teria partido a pedra com sua espada, em fúria por ela não ter gritado quando seu protegido, Réoderg, se candidatou a Alto Rei, e desde então ela nunca mais gritou - exceto, segundo lenda mais recente, quando Brian Boru foi coroado Alto Rei da Irlanda em 1002.

As crônicas locais apontam os primeiros Altos Reis tendo reinado a partir do século XVI a.C., mas as extensas e detalhadas listas não tem embasamento em outras fontes ou evidências arqueológicas até o século V. Na verdade, a ausência de uma legislação específica reconhecendo e legitimando a figura do Alto Rei sobre os pequenos reinos tribais da Irlanda, coloca a existência da figura do Alto Rei, ou a sua importância política prática, em cheque até o seculo VIII. Muitas vezes, o Alto Rei da Irlanda era apenas o rei de Tara, não exercendo qualquer tipo de poder fora da cidadela que ocupava a colina. De qualquer forma, como se trata de figuras tradicionalmente cerimoniais, eleitas por um processo místico-religioso, é possível que fosse sim um cargo de influência, almejado por reis locais pretendendo exercer poder sobre os rivais, e assim fosse determinado, de maneira pragmática, pela rede de alianças que ele representasse. A sucessão raramente era hereditária, e frequentemente descontínua.

O caso de Domnall e Congal ilustra a importância simbólica do Alto Rei, contrastando com a profunda descentralização do poder na Irlanda. No século VII, os reinos irlandeses tinham a participação dos reinos galeses e escoceses na sua vida política. De fato, galeses e escoceses estavam "espremidos" pelos saxões, que ocupavam quase a totalidade da Inglaterra, implantando ali uma sociedade de matriz germânica mais parecida com o que se via na França e norte da Itália pós-romanas, e a Irlanda, pela afinidade cultural, provavelmente era a válvula de escape para as pressões econômicas sofridas por esses reinos britânicos. A afinidade era tal que não era raro reis irlandeses serem aclamados senhores de reinos também na ilha vizinha. As lendas da Pedra do Destino, apontando sua origem para as "Ilhas do Norte" (provavelmente a Escócia) vão de encontro às lendas sobre a origem da Pedra do Coração (Stane o Scuin em gaélico escocês), pedra sobre a qual os reis da Escócia eram coroados, que teria se originado de fragmento da Lia Fáil original, levada à Escócia pelo Alto Rei Murtagh MacEirc para que um tio seu fosse coroado lá.

Domnall teria conhecido o monge Columba (canonizado como São Columba, creditado como responsável pela expansão do cristianismo na Escócia), que teria profetizado uma vida longa e bem sucedida ao rapaz. Domnall teria se tornado Alto Rei da Irlanda ao derrotar, com apoio de Congal e aliados escoceses, o então Alto Rei Suibne Menn, e depois invadir o reino de Leinster. Embora filho de sua esposa, Congal representava uma dinastia rival, apoiada pelo reino escocês de Dal Riata (que o nomearia rei, mesmo já sendo soberano de Ulaid), e a antiga aliança foi desfeita em 629, quando Congal apresentou-se diante da Pedra do Destino para ser sagrado Alto Rei, mas um olho cego (que a lenda atribui a uma picada de uma abelha pertencente a Domnall) foi tomado como uma "mácula", e seu requerimento negado. Ele resolveu provar a si mesmo merecedor do cargo enfrentando o parente em batalha, já que o sucesso na guerra podia ser suficiente para coroar alguém Alto Rei, como o próprio Domnall. Quase nada se sabe sobre a Batalha de Moira em si, mas milhares de esqueletos encontrados no local numa escavação recente dá uma ideia da dimensão e da reputação do evento - na França e na Inglaterra, por exemplo, batalhas contemporâneas raramente ultrapassavam 5 mil homens (guerras inteiras podiam ser decididas por batalhas travadas por algumas centenas de pessoas), dadas as dificuldades de se armar soldados sem exércitos profissionais, conceito abandonado por questões econômicas desde a retirada dos romanos.

Desde a época de Domnall II, o Cristianismo passou a exercer influência sobre a estrutura administrativa irlandesa. Mesmo o Alto Rei sendo originalmente um símbolo do paganismo nativo, a sua instituição passou a ser admitida, tendo em vistas a retribuição por parte do Alto Rei (então coroado formalmente numa cerimônia presidida por um representante do Papa, nos moldes europeus) na forma de doações de terras e castelos às paróquias católicas. A partir das invasões nórdicas, o Alto Rei passou a ter uma função unificadora mais efetiva, liderando esforços coletivos contra incursões norueguesas - os próprios noruegueses entrando no jogo político para posicionar algum aliado neste posto, assim como os saxões ingleses. A conquista normanda da Inglaterra repercutiu sobre a Irlanda, já que muitos normandos radicados na Inglaterra, ou da própria Normandia, eram encorajados a se estabelecerem na ilha. O Alto Rei passou a ser um líder contra os colonos normandos. Em 1258, após atacar com sucesso colônias normandas no Ulster, Brian O'Neill, rei de Tir Eoghain, foi coroado Alto Rei da Irlanda. Mas sua autoridade talvez não ultrapassasse a letra dos tratados, pois seus aliados nunca apareceram para apoiá-lo na Batalha de Druim-dearg contra normandos e aliados irlandeses. A morte de Brian, em 1260, marcou o fim da era dos Altos Reis. O modelo feudal normando esmagou a tradição tribal da Irlanda - no fim daquele século, a Irlanda contava com um parlamento e sua própria versão da Magna Carta, legitimando o rei da Inglaterra como senhor da Irlanda.

A Pedra do Destino ainda está sobre a Colina de Tara, o ponto mais notável do complexo arqueológico preservado no local (que inclui, entre outros, uma tumba de 3400 a.C., uma fortificação do século I onde foram encontrados artefatos de origem romana, e uma igreja do século XII), hoje uma propriedade rural. Desde o século XVIII a pedra e a colina tem sido usados como símbolos de união contra a dominação britânica. Israelistas britânicos (um movimento judaico-britânico de caráter nacionalista) vandalizaram o monumento no século passado, acreditando serem os irlandeses descendentes de uma das tribos perdidas de Israel, e a Lia Fáil o marco que guardaria o lugar onde a Arca da Aliança estaria guardada. Mais recentemente, a pedra foi atacada a golpes de picareta em 2012, e manchada de tinta em 2014, atos sem motivação evidente.

Neste dia também: A morte de Carlos Gardel

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Dois impérios, dois mundos

Em 8 de dezembro de 627, um exército bizantino esmagou outro bem menor do Império Sassânida, dando fim a mais de 650 anos de guerras entre os impérios Romano e Persa.

Os povos iranianos se estabeleceram como forças consideráveis no antigo Oriente Médio através do emergente reino Meda. Os persas propriamente ditos os sucederam como um poder central no Oriente Médio no século VI a.C. sob a dinastia Aquemênida, e assim prosseguiram até a sua conquista total pelos exércitos macedônios de Alexandre, O Grande, no século IV a.C.. Depois da sua morte prematura, seu vasto império foi repartido (não sem alguma violência) entre alguns dos seus principais generais. A maior parte da sua porção asiática, que correspondia ao território dominado anteriormente pelos persas, ficou nas mãos do general Seleuco, que fundaria sobre essas terras o Império Selêucida. Ali, os persas continuaram servindo como uma elite militar, administrativa e religiosa, conduzindo a predominante religião zoroastrista. Eventualmente, este novo império greco-asiático seria lentamente absorvido pelos partas (outra tribo iraniana, como os persas) no leste, e o emergente Império Romano no oeste. Durante o século I a.C., a tensão entre esses dois impérios iria crescer na região, com a instalação de Estados-satélites no Cáucaso e na Armênia, cujas lealdades flutuavam conforme a conveniência. Reis partas chegaram a tentar uma aliança com a República Romana, mas os romanos tinham suas pretensões. Roma invadiu a Armênia com auxílio dos partas, mas logo a fronteira ao longo do Eufrates se tornou uma zona de constante atrito. O controle sobre a Mesopotâmia - a região agrícola mais produtiva do mundo à época - era ambicionado por ambos os lados, e mudou de mãos com frequência.

Em 224 os persas recuperaram sua hegemonia sobre o mundo iraniano quando um persa, Ardashir I, depôs a dinastia parta, instituindo a dinastia Sassânida no poder. O Império Sassânida continuou a se opor ao Império Romano. Durante o século III, os romanos, em grave crise econômica e política, ainda entraram em uma guerra defensiva no oeste contra invasores germânicos, abrindo caminho para o avanço persa no oriente - em 260, os romanos foram derrotados em Edessa, e seu imperador, Valeriano, capturado, o que representou uma grande humilhação a Roma. Pouco mais de 20 anos depois, Roma chegou a saquear a capital Ctesifonte, mas seu imperador, Caro, morreu antes de dar prosseguimento à campanha. Em outra ofensiva romana em 363, o imperador Juliano chegou a bater os persas diante da sua capital novamente, mas não conseguiu capturá-la, e acabou emboscado e morto enquanto recuava.

A partir do final do século IV, tanto Roma como Pérsia tiveram problemas com invasores germânicos, iranianos e hunos (os hunos em especial, e seu ramo arianizado, os heftalitas, causaram considerável destruição no norte da Pérsia), o que diminuiu temporariamente as hostilidades entre os dois. Quando explodiu uma nova guerra, no começo do século VI, o Império Romano do Ocidente já não existia mais (esfacelado por invasores na Europa), e agora era o Império Bizantino, centrado em Constantinopla e construído sobre substrato helênico, quem antagonizava a Pérsia Sassânida. Novamente a região da Armênia e do Cáucaso eram os focos de disputa. Como ofensivas de ambos os lados eram constantemente repelidas, em 532 os dois impérios assinaram um "Tratado de Paz Eterna". Por alguns poucos anos, esse tratado permitiu aos bizantinos investirem na reconquista de antigos territórios romanos no ocidente, chegando a retomar grande parte da África, da Itália e da Espanha. Vendo o rival crescer, os persas logo violaram o tratado e retomaram a ofensiva na Síria. O competente general Belisário, sobrinho do imperador Juliano, responsável pela reconquista da Itália, deixou o front ocidental para lidar com os sassânidas, deixando o domínio bizantino no ocidente fatalmente mal consolidado.

As guerras continuaram de forma quase constante por todo o século VI e começo do século VII, sempre com avanços modestos, pontuais e efêmeros para um lado ou para o outro, tendo o rio Eufrates como a principal barreira geográfica impedindo a consolidação de poder de um lado sobre o outro. Uma crise política em 610 enfraqueceu a posição bizantina, e permitiu a conquista persa da Síria, da Palestina e do Egito, e ataques que arrasaram a Anatólia, a região economicamente mais importante para os bizantinos. Avaros e eslavos aproveitaram para invadir a Trácia e os Bálcãs, respectivamente, e em 626 os avaros, apoiados por forças persas, chegaram a cercar a capital bizantina. Enquanto isso, o imperador Heráclio (que tentara domar os eslavos pagãos enviando-lhes missionários ortodoxos) costurou uma aliança com as recém-chegadas tribos turcas, que arrasavam o Cáucaso e atacavam a Pérsia pelo norte (a tribo dos Khazares tinha estabelecido seu próprio império ao norte do Mar Cáspio, e aderiu à aliança). Tendo se livrado do cerco a Constantinopla graças à incapacidade dos invasores de romper as muralhas e impedir o abastecimento da cidade pelo mar, os bizantinos lançaram uma contra-ofensiva em pleno inverno, Mesopotâmia adentro (com apoio inicial dos turcos, que debandaram ao longo da expedição), chegando a Nínive, perto do coração do Império Sassânida.

As forças de Heráclio eram perseguidas pelo exército de Razates, um general armênio que decidira abandonar Tblisi, na Geórgia, no momento cercada por uma pequena força bizantina, para tentar impedir o avanço do exército principal do inimigo. No entanto, Razates só alcançou Heráclio quando se aproximavam de Nínive, já nas proximidades do Rio Tigre. Heráclio estava acampado junto às ruínas da antiga capital do Império Assírio. Seu exército constituía talvez o dobro do que dispunha o general armênio, mas haviam notícias de que pelo menos 3 mil persas estavam a caminho, e isso deve ter convencido o imperador a dar meia volta e oferecer combate.

O conhecimento superior do terreno de nada adiantou aos persas. Heráclio dispôs suas tropas em uma planície apropriada para seus lanceiros e cavaleiros pesados, e uma névoa que se erguia dos rios Tigre e Zab nas proximidades dificultava a ação dos exímios arqueiros persas. Razates, contudo, tentou um ataque massivo e decisivo. Após 8 horas de combate, as forças superiores dos bizantinos prevaleceram, e metade dos persas foram mortos, incluindo seu comandante: parece que Razates desafiou Heráclio para um combate mano-a-mano, e foi morto com apenas um golpe, a exemplo de outros dois ou três desafiantes. Triunfantes, os bizantinos continuaram a marchar, e tomaram o palácio de Dastagird, na atual Bagdá, residência favorita do imperador sassânida Cosroe II, que fugira dali. Diz-se que ali Heráclio recuperou a cruz original onde Jesus fora crucificado, capturada e mantida pelos persas como um tesouro, após uma negociação com o usurpador sassânida Cavades II, em troca da segurança de seu filho e herdeiro do trono, Ardashir. Impedido de prosseguir com a conquista da Pérsia por conta própria (as pontes sobre o canal de Haravan estavam destruídas, impedindo o avanço imediato do grosso do exército sobre o Tigre), Heráclio confirmou a aliança com o partido opositor de Cosroe, que seria assassinado logo depois. Os bizantinos retomaram o poder sobre a Síria, a Palestina e o Egito.

A guerra deixara ambos os impérios em frangalhos. A Anatólia arrasada representava um duro golpe na economia bizantina. A Pérsia mergulhou no caos político e não conseguiu reorganizar seus exércitos, nem a credibilidade de seus imperadores. A trégua após a Batalha de Nínive servia aos dois impérios. Mas enquanto ambas as potências se desgastavam infrutiferamente, um novo poder surgia ao sul: as tribos árabes estavam se unindo, pela persuasão ou pela força, em torno do profeta Maomé e sua nova fé e lei. Em 628, enquanto bizantinos e sassânidas lutavam no Rio Tigre, Maomé assegurava o domínio sobre Medina e começava a expandir em direção a Meca. A partir de 631, os muçulmanos avançariam com pouca resistência sobre a Palestina e a Mesopotâmia, conquistando vastos territórios tanto do Império Bizantino como do Sassânida. Enquanto os cristãos os freariam na Síria e resistiriam a dois novos cercos a Constantinopla (perdendo, porém, o controle sobre o Egito, o norte da África, a Espanha e algumas ilhas mediterrâneas), os sassânidas não teriam forças para impedir por muito tempo o avanço árabe e a queda de sua dinastia.

Para os bizantinos, os atritos com os persas custaram sua supremacia na Europa, e expuseram o império a sucessivas ondas de invasores, tanto árabes como turcos na Ásia, e búlgaros e húngaros na Europa, sujeitando-se também às novas potências católicas no ocidente, e dando início a um longo e agoniante declínio - de tudo que os representava, restou a ortodoxia cristã e a língua grega. Para os persas, as rachaduras deixadas pelos séculos de guerra contra o mundo romano abriram o caminho para a introdução da cultura árabe e da religião muçulmana no principal reduto do zoroastrismo, e novamente o fim do seu domínio sobre sua própria terra natal.

A perda da Palestina, tradicionalmente mantida sob domínio cristão, foi um golpe duro para a cristandade, e não demoraria muito até que esforços coordenados entre as potências cristãs na Europa (com participação restrita dos bizantinos) colocasse as duas religiões em oposição em sucessivas tentativas de retomar a Terra Santa. Os persas, por outro lado, assimilariam a cultura árabe, mas a transformariam em algo distinto - islamizado, mas não "arabificado", graças a um poderoso senso de identidade nacional e uma longuíssima e contínua tradição na língua (as línguas iranianas são indo-europeias, para quem o árabe semítico, mesmo considerado sagrado para a religião, é uma língua estranha), na escrita e no pensamento. De fato, à conquista árabe sucedeu a formação do Califado Abássida, centrado em Bagdá e administrado por califas árabes, mas baseando sua força em exércitos e comandantes iranianos, que garantiam para a Pérsia um status de semi-independência. Independente ou não, sob árabes, mongóis ou turcos, a Pérsia continuou a ser um centro de irradiação cultural do Oriente Médio, estendendo sua esfera de influência do oeste do Rio Indo até a Armênia, do Golfo Pérsico até o Mar de Aral (durante o domínio mongol na China, administradores persas eram recrutados em detrimento de chineses para exercer altos cargos administrativos da dinastia Yuan). O atual Irã, embora tenha uma participação modesta nas decisões globais, assume uma postura de contraponto às potências econômicas ocidentais, ao mesmo tempo em que, como principal centro da corrente xiita do Islã (ainda que minoritária), mantém uma posição proeminente no mundo islâmico e forte influência política no Oriente Médio.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

O Islã chega ao Egito

Em 6 de julho de 640 d.C., um exército árabe liderado por Amr ibn al-A'as derrotou um exército bizantino mais numeroso perto de Heliópolis, no Egito.

No momento da morte de Maomé, os árabes muçulmanos já controlavam toda a Península Arábica, e seus sucessores, os califas Abu Bakr e Omar, expandiram as fronteiras para o norte, conquistando a Síria do Império Bizantino e tomando praticamente de assalto a Pérsia sassânida. Era o momento propício para os árabes recém unificados ampliarem seus territórios, porque seus vizinhos bizantinos e sassânidas haviam acabado de travar uma guerra de atrito por uma geração inteira, e estavam economicamente e militarmente exaustos. E o rico Egito, então sob controle bizantino, estava logo ali.

A invasão do Egito começou aparentemente despretensiosa - ou temerária. Amr partiu com apenas 4000 soldados recrutados de tribos árabes e alguns mercenários conversos para tomar a província economicamente mais importante do Império Bizantino. O califa Omar, ao saber da iniciativa, ordenou em carta encaminhada por um mensageiro o recuo do pequeno exército para esperar por reforços. Mas o comandante, desconfiando do teor da mensagem, convenceu o mensageiro (que não sabia do conteúdo da carta) a seguir com ele para o Egito. Quando ele, enfim, discutiu com seus homens as ordens do Califa, eles já estavam no Egito, e, portanto, deveriam seguir em frente. Quando recebeu alguma resposta, Omar não teve escolha a não ser arregimentar um novo exército em Medina para despachá-lo ao Egito.

A marcha pelo leste do Egito foi tranquila. Tomaram algumas vilas sem resistência. Reforçados por beduínos do Sinai, os árabes conquistaram a fortaleza de Pelusium sem muita luta. A resistência bizantina apareceu durante o cerco a Bilbeis, a um dia de marcha de Memphis. A resistência ali ocorreu quando os bizantinos rejeitaram os termos de Amr de se converterem, ou pagarem a jizya - a taxa cobrada pelos muçulmanos aos praticantes de outras religiões em seu território - a despeito das intenções do governador do Egito, Ciro, que se contentava em se render e pagar a Jizya. Bilbeis também caiu. Amr marchou então para a fortaleza de Babilônia, onde hoje fica o Cairo, e ali finalmente os árabes se viram num impasse - seus 4 mil homens eram incapazes de tomar o forte, e desmembrar o exército para desviar ou tomar outras posições era inviável. Em julho de 640, antes de al-A'as enviar um pedido de reforço ao califa, um contingente de 16 mil homens já estava a caminho.

Babilônia ficava a poucas horas de marcha de Heliópolis, um antigo centro cerimonial e cultural. Amr decidiu direcionar a maioria das suas forças com os novos reforços para tomar Heliópolis, enquanto um pequeno contingente mantinha Babilônia imobilizada. Teodoro, comandante bizantino no Egito, mobilizou 20 mil soldados para enfrentar os cerca de 15 mil árabes. Diante de Heliópolis, o comandante árabe, consciente da desvantagem numérica, organizou seu exército em três destacamentos que se deslocaram rapidamente, confundindo os bizantinos: um terço foi para o leste e se posicionou em uma colina fora das vistas do comandante inimigo; outro terço manteve posição, oferecendo combate; um último terço se deslocou para o sul, bloqueando a rota de fuga. Os bizantinos atacaram o centro reduzido dos árabes sem preocupações. Ou Teodoro não despachara batedores para avaliar as posições inimigas, ou não lhes deu ouvidos, porque imediatamente os árabes desceram as colinas e atacaram os bizantinos pelo flanco e retaguarda, causando grande confusão. Os que sobreviveram ao massacre foram aniquilados enquanto tentavam fugir pelo sul. A vitória foi quase completa - Teodoro e alguns poucos soldados conseguiram escapar com vida.

Bizantinos e árabes ainda se encontrariam algumas vezes até a queda de Alexandria, em novembro de 641. Mas a derrota em Heliópolis selou definitivamente o destino do Egito. Os gregos, que governavam Bizâncio, eram uma pequena elite no Egito, de maneira que o sucesso da invasão árabe acabou instigando um levante da maioria de egípcios nativos, sobretudo de cristãos monofisistas (cuja fé era herética para a ortodoxia bizantina), que consideraram que a Jizya e o governo islâmico seriam preferíveis aos impostos e à má vontade do governo bizantino. Os árabes conquistaram rapidamente o interior do país com a conivência dos nativos, e de fato o governo de Amr ibn al-A'as foi benevolente para com os cristãos, aplicando a lei islâmica estritamente de modo a isentá-los do serviço militar e várias outras obrigações civis e permitir seu culto, desde que pagassem a Jizya (em dinheiro ou espécie), Mais tarde, o Califado Omíada que se seguiu endureceu seus impostos, induzindo os egípcios em dificuldades a se converterem (espontaneamente, ou à força), determinando a supremacia islâmica e o arabismo sobre o cristianismo no país. O Império Bizantino, por sua vez, perdia a sua principal fonte de grãos e o controle inconteste do Mediterrâneo - havia séculos, transformado num "lago" romano. Abalado economicamente e sem forças para resistir, os gregos perderiam rapidamente o resto de seus territórios na África, possibilitando aos árabes chegarem tão longe quanto o sul da França (onde foram brecados pelos francos) e expandirem o Islã em poucas gerações a um território tão vasto quanto o cristianismo nos séculos anteriores.