quarta-feira, 24 de junho de 2015

Morre Gardel

Em 24 de junho de 1935, uma colisão entre aviões na pista do aeroporto de Medelín, na Colômbia, tirou a vida de Carlos Gardel e vários empresários e músicos ligados a ele, entre eles o compositor paulista Alfredo Le Pera.

Gardel, nascido Charles Gardes na França em 1890, imigrou aos dois anos com sua mãe para a Argentina, estabelecendo-se em um cortiço na rua Uruguay, no bairro San Nicolas, onde hoje funciona um estacionamento em frente à uma concessionária de automóveis de propriedade de José Froilán Gonzalez, ex-piloto de Fórmula 1, em Buenos Aires. Ao longo da infância e adolescência, Gardel e sua mãe alugaram vários outros imóveis, sempre próximo ao eixo da Rua Corrientes, endereço boêmio onde havia vários teatros, bares e restaurantes.

Garoto ainda, Gardel ajudava sua mãe, que trabalhava como passadeira, empregando-se aqui e ali. Nos teatros trabalhou com uma companhia como claque - espectadores contratados para reagir conforme o número, influenciando a plateia - como figurante, e ajudando nos bastidores. Assim ele tinha a oportunidade de ver e conhecer artistas importantes, como o barítono espanhol Sagi Barba (com quem teve algumas aulas de canto) e o italiano Titta Ruffo, considerado um dos maiores da ópera italiana do seu tempo. Na adolescência seus amigos o levavam ao bar Traverso, onde os donos, impressionados com a qualidade da sua voz, lhe deram as primeiras oportunidades. Esta família Traverso estava associada Partido Autonomista Nacional, no poder havia muitos anos, e de certa forma dominava a vizinhança do bairro de Abasto, de maneira que Gardel conseguiu engrenar na carreira graças a sua relação com políticos conservadores.

O começo, de outra forma, teria sido difícil. O tipo mais popular de música portenha era a payada, uma espécie de repente de origem espanhola. Gardel não tinha a habilidade necessária para a improvisação em verso típica daquele estilo, mas pela sua voz, muita gente trabalhou para que o seu caminho se abrisse. Cantando da payada à ópera, Gardel se tornou figura conhecida Buenos Aires afora, se tornando um enorme sucesso no Uruguai ao lado do local José Razzano. Mas foi apenas em 1917 que ele cantou um tango pela primeira vez: La Noche Triste, de Samuel Castriota e Pascual Contursi. A sua gravação naquele ano é considerada o nascimento do tango-canção.

O novo estilo de tango foi recebido com ressalvas. Considerava-se o tango um estilo de música vulgar, uma "caricatura da música e da literatura", segundo o músico de tango tradicional Gabino Ezeiza. De fato, o tango estava associado às comunidades negras da periferia de Buenos Aires (Ezeiza era negro), e nem os artistas mais tradicionais e nem a alta sociedade portenha estavam preparadas para esse novo paradigma. Uma montagem teatral de 1918 incluía Manolita Poli, de 9 anos, cantando La Noche Triste à moda de Gardel, conquistando o público. A partir daí, Gardel investiu cada vez mais no tango, e em poucos anos já era o estilo mais popular de música na capital argentina.

A popularização recente dos discos de vinil permitiu que Gardel fosse ouvido e conhecido na Europa. Em 1923, com Razzano, fez um tour na Espanha. Pouco depois, sem Razzano (impossibilitado de cantar por causa de uma lesão nas cordas vocais), retornou à Espanha (onde gravou pela primeira vez com um microfone) e foi à França, onde o tango já era apreciado antes, e onde Gardel fez grande sucesso. Em 1933 apresentou-se em Nova Iorque.

Carlos Gardel, além de ter uma voz e uma interpretação de destaque, também era bem apessoado. Em 1930 ele estreou no cinema, com filmagens suas interpretando tango, e sua imagem se tornou um produto tão valioso quanto sua voz, sobretudo com o público feminino. No começo da carreira ele chegara a pesar 120 quilos, tratou de baixar para 76. Gardel tinha consciência de que sua aparência atraía público feminino, e, para dar a impressão de estar disponível, manteve quase em segredo seu relacionamento com Isabel del Valle, que começou em 1920 e durou até a sua morte.

Foi trabalhando com cinema que Gardel conheceu Le Pera, em Paris. O paulista se tornou roteirista dos seus filmes e letrista de suas músicas, e os dois trabalharam juntos na Europa e nos Estados Unidos. Da parceria surgiram tangos devastadoramente famosos, como Por Una Cabeza, El Día Que Me Quieras, e Mi Buenos Aires Querido (que você, leitor, deve ter lido entonando mentalmente a melodia dos seus respectivos versos). Os dois viajavam para promover o lançamento do filme El Día Que Me Quieras, produzido nos Estados Unidos, quando um problema na decolagem causou a colisão do seu avião em Medelín.

Após sua morte, Gardel se tornou um objeto de culto na Argentina e no Uruguai. Os uruguaios até hoje reivindicam o nascimento do cantor para a cidade de Tacuarembó, baseado em uma certidão de nascimento aparentemente forjada - Gardel, como era francês de nascimento, teria problemas com o governo da França por não ter se alistado durante a Primeira Guerra Mundial e tentou conseguir cidadania uruguaia com esse documento. Os lugares onde Gardel morou e se apresentou estão marcados com placas e monumentos em Buenos Aires, no chamado Circuito Gardel, e sua última residência, em Abasto, é um museu. Sua versão do tango se tornou um paradigma para esse estilo musical, e suas músicas parte da cultura popular no mundo todo; Por Una Cabeza é a música tema da icônica cena de dança interpretada por Al Pacino no filme Perfume de Mulher.

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