Em 8 de dezembro de 627, um exército bizantino esmagou outro bem menor do Império Sassânida, dando fim a mais de 650 anos de guerras entre os impérios Romano e Persa.
Os povos iranianos se estabeleceram como forças consideráveis no antigo Oriente Médio através do emergente reino Meda. Os persas propriamente ditos os sucederam como um poder central no Oriente Médio no século VI a.C. sob a dinastia Aquemênida, e assim prosseguiram até a sua conquista total pelos exércitos macedônios de Alexandre, O Grande, no século IV a.C.. Depois da sua morte prematura, seu vasto império foi repartido (não sem alguma violência) entre alguns dos seus principais generais. A maior parte da sua porção asiática, que correspondia ao território dominado anteriormente pelos persas, ficou nas mãos do general Seleuco, que fundaria sobre essas terras o Império Selêucida. Ali, os persas continuaram servindo como uma elite militar, administrativa e religiosa, conduzindo a predominante religião zoroastrista. Eventualmente, este novo império greco-asiático seria lentamente absorvido pelos partas (outra tribo iraniana, como os persas) no leste, e o emergente Império Romano no oeste. Durante o século I a.C., a tensão entre esses dois impérios iria crescer na região, com a instalação de Estados-satélites no Cáucaso e na Armênia, cujas lealdades flutuavam conforme a conveniência. Reis partas chegaram a tentar uma aliança com a República Romana, mas os romanos tinham suas pretensões. Roma invadiu a Armênia com auxílio dos partas, mas logo a fronteira ao longo do Eufrates se tornou uma zona de constante atrito. O controle sobre a Mesopotâmia - a região agrícola mais produtiva do mundo à época - era ambicionado por ambos os lados, e mudou de mãos com frequência.
Em 224 os persas recuperaram sua hegemonia sobre o mundo iraniano quando um persa, Ardashir I, depôs a dinastia parta, instituindo a dinastia Sassânida no poder. O Império Sassânida continuou a se opor ao Império Romano. Durante o século III, os romanos, em grave crise econômica e política, ainda entraram em uma guerra defensiva no oeste contra invasores germânicos, abrindo caminho para o avanço persa no oriente - em 260, os romanos foram derrotados em Edessa, e seu imperador, Valeriano, capturado, o que representou uma grande humilhação a Roma. Pouco mais de 20 anos depois, Roma chegou a saquear a capital Ctesifonte, mas seu imperador, Caro, morreu antes de dar prosseguimento à campanha. Em outra ofensiva romana em 363, o imperador Juliano chegou a bater os persas diante da sua capital novamente, mas não conseguiu capturá-la, e acabou emboscado e morto enquanto recuava.
A partir do final do século IV, tanto Roma como Pérsia tiveram problemas com invasores germânicos, iranianos e hunos (os hunos em especial, e seu ramo arianizado, os heftalitas, causaram considerável destruição no norte da Pérsia), o que diminuiu temporariamente as hostilidades entre os dois. Quando explodiu uma nova guerra, no começo do século VI, o Império Romano do Ocidente já não existia mais (esfacelado por invasores na Europa), e agora era o Império Bizantino, centrado em Constantinopla e construído sobre substrato helênico, quem antagonizava a Pérsia Sassânida. Novamente a região da Armênia e do Cáucaso eram os focos de disputa. Como ofensivas de ambos os lados eram constantemente repelidas, em 532 os dois impérios assinaram um "Tratado de Paz Eterna". Por alguns poucos anos, esse tratado permitiu aos bizantinos investirem na reconquista de antigos territórios romanos no ocidente, chegando a retomar grande parte da África, da Itália e da Espanha. Vendo o rival crescer, os persas logo violaram o tratado e retomaram a ofensiva na Síria. O competente general Belisário, sobrinho do imperador Juliano, responsável pela reconquista da Itália, deixou o front ocidental para lidar com os sassânidas, deixando o domínio bizantino no ocidente fatalmente mal consolidado.
As guerras continuaram de forma quase constante por todo o século VI e começo do século VII, sempre com avanços modestos, pontuais e efêmeros para um lado ou para o outro, tendo o rio Eufrates como a principal barreira geográfica impedindo a consolidação de poder de um lado sobre o outro. Uma crise política em 610 enfraqueceu a posição bizantina, e permitiu a conquista persa da Síria, da Palestina e do Egito, e ataques que arrasaram a Anatólia, a região economicamente mais importante para os bizantinos. Avaros e eslavos aproveitaram para invadir a Trácia e os Bálcãs, respectivamente, e em 626 os avaros, apoiados por forças persas, chegaram a cercar a capital bizantina. Enquanto isso, o imperador Heráclio (que tentara domar os eslavos pagãos enviando-lhes missionários ortodoxos) costurou uma aliança com as recém-chegadas tribos turcas, que arrasavam o Cáucaso e atacavam a Pérsia pelo norte (a tribo dos Khazares tinha estabelecido seu próprio império ao norte do Mar Cáspio, e aderiu à aliança). Tendo se livrado do cerco a Constantinopla graças à incapacidade dos invasores de romper as muralhas e impedir o abastecimento da cidade pelo mar, os bizantinos lançaram uma contra-ofensiva em pleno inverno, Mesopotâmia adentro (com apoio inicial dos turcos, que debandaram ao longo da expedição), chegando a Nínive, perto do coração do Império Sassânida.
As forças de Heráclio eram perseguidas pelo exército de Razates, um general armênio que decidira abandonar Tblisi, na Geórgia, no momento cercada por uma pequena força bizantina, para tentar impedir o avanço do exército principal do inimigo. No entanto, Razates só alcançou Heráclio quando se aproximavam de Nínive, já nas proximidades do Rio Tigre. Heráclio estava acampado junto às ruínas da antiga capital do Império Assírio. Seu exército constituía talvez o dobro do que dispunha o general armênio, mas haviam notícias de que pelo menos 3 mil persas estavam a caminho, e isso deve ter convencido o imperador a dar meia volta e oferecer combate.
O conhecimento superior do terreno de nada adiantou aos persas. Heráclio dispôs suas tropas em uma planície apropriada para seus lanceiros e cavaleiros pesados, e uma névoa que se erguia dos rios Tigre e Zab nas proximidades dificultava a ação dos exímios arqueiros persas. Razates, contudo, tentou um ataque massivo e decisivo. Após 8 horas de combate, as forças superiores dos bizantinos prevaleceram, e metade dos persas foram mortos, incluindo seu comandante: parece que Razates desafiou Heráclio para um combate mano-a-mano, e foi morto com apenas um golpe, a exemplo de outros dois ou três desafiantes. Triunfantes, os bizantinos continuaram a marchar, e tomaram o palácio de Dastagird, na atual Bagdá, residência favorita do imperador sassânida Cosroe II, que fugira dali. Diz-se que ali Heráclio recuperou a cruz original onde Jesus fora crucificado, capturada e mantida pelos persas como um tesouro, após uma negociação com o usurpador sassânida Cavades II, em troca da segurança de seu filho e herdeiro do trono, Ardashir. Impedido de prosseguir com a conquista da Pérsia por conta própria (as pontes sobre o canal de Haravan estavam destruídas, impedindo o avanço imediato do grosso do exército sobre o Tigre), Heráclio confirmou a aliança com o partido opositor de Cosroe, que seria assassinado logo depois. Os bizantinos retomaram o poder sobre a Síria, a Palestina e o Egito.
A guerra deixara ambos os impérios em frangalhos. A Anatólia arrasada representava um duro golpe na economia bizantina. A Pérsia mergulhou no caos político e não conseguiu reorganizar seus exércitos, nem a credibilidade de seus imperadores. A trégua após a Batalha de Nínive servia aos dois impérios. Mas enquanto ambas as potências se desgastavam infrutiferamente, um novo poder surgia ao sul: as tribos árabes estavam se unindo, pela persuasão ou pela força, em torno do profeta Maomé e sua nova fé e lei. Em 628, enquanto bizantinos e sassânidas lutavam no Rio Tigre, Maomé assegurava o domínio sobre Medina e começava a expandir em direção a Meca. A partir de 631, os muçulmanos avançariam com pouca resistência sobre a Palestina e a Mesopotâmia, conquistando vastos territórios tanto do Império Bizantino como do Sassânida. Enquanto os cristãos os freariam na Síria e resistiriam a dois novos cercos a Constantinopla (perdendo, porém, o controle sobre o Egito, o norte da África, a Espanha e algumas ilhas mediterrâneas), os sassânidas não teriam forças para impedir por muito tempo o avanço árabe e a queda de sua dinastia.
Para os bizantinos, os atritos com os persas custaram sua supremacia na Europa, e expuseram o império a sucessivas ondas de invasores, tanto árabes como turcos na Ásia, e búlgaros e húngaros na Europa, sujeitando-se também às novas potências católicas no ocidente, e dando início a um longo e agoniante declínio - de tudo que os representava, restou a ortodoxia cristã e a língua grega. Para os persas, as rachaduras deixadas pelos séculos de guerra contra o mundo romano abriram o caminho para a introdução da cultura árabe e da religião muçulmana no principal reduto do zoroastrismo, e novamente o fim do seu domínio sobre sua própria terra natal.
A perda da Palestina, tradicionalmente mantida sob domínio cristão, foi um golpe duro para a cristandade, e não demoraria muito até que esforços coordenados entre as potências cristãs na Europa (com participação restrita dos bizantinos) colocasse as duas religiões em oposição em sucessivas tentativas de retomar a Terra Santa. Os persas, por outro lado, assimilariam a cultura árabe, mas a transformariam em algo distinto - islamizado, mas não "arabificado", graças a um poderoso senso de identidade nacional e uma longuíssima e contínua tradição na língua (as línguas iranianas são indo-europeias, para quem o árabe semítico, mesmo considerado sagrado para a religião, é uma língua estranha), na escrita e no pensamento. De fato, à conquista árabe sucedeu a formação do Califado Abássida, centrado em Bagdá e administrado por califas árabes, mas baseando sua força em exércitos e comandantes iranianos, que garantiam para a Pérsia um status de semi-independência. Independente ou não, sob árabes, mongóis ou turcos, a Pérsia continuou a ser um centro de irradiação cultural do Oriente Médio, estendendo sua esfera de influência do oeste do Rio Indo até a Armênia, do Golfo Pérsico até o Mar de Aral (durante o domínio mongol na China, administradores persas eram recrutados em detrimento de chineses para exercer altos cargos administrativos da dinastia Yuan). O atual Irã, embora tenha uma participação modesta nas decisões globais, assume uma postura de contraponto às potências econômicas ocidentais, ao mesmo tempo em que, como principal centro da corrente xiita do Islã (ainda que minoritária), mantém uma posição proeminente no mundo islâmico e forte influência política no Oriente Médio.
Mostrando postagens com marcador História do Irã. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História do Irã. Mostrar todas as postagens
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
terça-feira, 29 de setembro de 2015
O Aquemênida
Em 29 de setembro de 522 a.C., um golpe de Estado da Pérsia Aquemênida resulta na morte de Smerdis e na coroação de Dario como Rei dos Reis. Todo o processo é até hoje motivo de discussão, visto ter sido registrado a mando do próprio Dario, e repassado gerações depois por Heródoto e outros cronistas gregos, sem preocupação nem recursos para conferir suas fontes.
A Pérsia, sob o governo do clã Aquemênida, emergiu como um poder dominante no Oriente Médio por volta de 550 a.C., quando Ciro II conquistou o reino rival dos medas (tribo irmã dos persas que dominou o Irã por algumas décadas) e avançou para construir o maior império já visto então, incorporando o modo de vida, os costumes, as leis, a escrita, e as tradições religiosas das antiquíssimas civilizações do Oriente Médio e da Anatólia (friso "antiquíssimas", porque, no tempo de Ciro, a tradição civilizatória da Mesopotâmia já era mais antiga para ele do que seu império é para nós hoje). Seu filho Cambises II contribuiu para expandi-lo conquistando o Egito. Este Cambises morreu em 522 a.C., aparentemente de causas naturais (supõe-se que ele fosse epiléptico), três anos após ser coroado faraó. E é aí que a história fica confusa.
Cambises tinha um irmão mais novo, Smerdis (ou Bardiya, ou Gaumata, dependendo da fonte e da versão aceita dos acontecimentos). Em algumas versões, este Smerdis era "protegido" (ou seja, vivia em clausura no palácio real em Persépolis, ou em Susa), ou então teria sido nomeado sátrapa de alguma satrapia no oriente. As fontes parecem concordar que Smerdis, de qualquer maneira, não era um rosto muito conhecido pelo seu povo, nem pela própria corte (alguns familiares de Cambises mesmo talvez não o conhecessem). Fosse como fosse, quando Cambises morreu no Egito, uma conspiração palaciana de magos (tribo ou casta de sacerdotes zoroastrista) prontamente anunciou Smerdis como sucessor. O reinado de Cambises foi particularmente cruel, não apenas nos seus atos pessoais (boatos sobre seu comportamento mais à frente), mas também quanto aos altos impostos para custear sua expedição ao Egito e sua incorporação ao sistema administrativo persa. Quando Smerdis subiu ao trono, sua primeira promessa foi de abolir os impostos pelos próximos três anos.
A versão de Dario desta história está registrada na magnífica inscrição de Behistum, encontrada na escarpa rochosa de uma montanha no oeste do Irã. Ali Dario acusa Smerdis de ser um impostor, um mago chamado Gaumata, que governou ilegitimamente por sete meses antes de ser assassinado por uma conspiração de aquemênidas, da qual fazia parte. Um ano depois, um segundo impostor, outro mago chamado Vahyazdata sob a identidade de Smerdis, também teria sido assassinado. Já segundo Heródoto (que reuniu e avaliou tudo que ele "ouviu falar" sobre os persas na Babilônia no Egito cerca de um século depois), após o assassinato do falso Smerdis, Dario teria sido escolhido entre os conspiradores como novo rei, adquirindo automaticamente a legitimidade da casa reinante.
Há alguns problemas com a tese de um falso Smerdis (principalmente, de dois falsos Smerdis). A favor da tese tem o fato de Dario e seus comparsas serem aquemênidas, ligados em maior ou menor grau à família de Ciro e Cambises (Dario era um primo de terceiro grau do último rei, e, portanto, do verdadeiro Smerdis), e deveriam ter alguma familiaridade que tornasse possível reconhecer o verdadeiro Smerdis de um impostor. Se um artesão qualquer gritasse contra o novo rei acusando-o de não ser quem dizia que era, ninguém lhe daria crédito, e ele seria provavelmente morto onde estivesse. Mas se um aquemênida como Dario, ou seu colega Otanes (a quem se atribui a acusação contra Smerdis) levassem esta denúncia a público, seriam vozes mais confiáveis. A oposição a Dario nas ricas satrapias da Babilônia e do Elão (e a coroação de um segundo Smerdis) que se seguiu podem ter sido reflexos da promessa de Smerdis de não recolher impostos. As duas rebeliões foram debeladas em poucos meses após a captura e execução de seus líderes, o que mostraria um caráter oportunista mais do que legalista de ambas. Na corte, a própria família de Smerdis nunca contestou a posição de Dario. De fato, ele se casou logo em seguida com sua irmã, Atossa, que em algum momento poderia ter se manifestado a respeito.
Como as fontes mais prolíficas sobre Dario vêm da Grécia (escritas exclusivamente depois que os persas, considerados "bárbaros", invadiram e foram expulsos de lá), as evidências da ilegalidade do seu movimento são mais numerosas. Eles levantam a dúvida sobre a conspiração dos magos. Entre os Aquemênidas, era costume as pessoas comuns não olharem diretamente para o rosto dos seus soberanos, fossem eles o rei, um príncipe, ou um sátrapa, de maneira que não eram todos os que conviviam com Smerdis que saberiam inequivocadamente reconhecê-lo de vista. Um homem de porte semelhante e ostentando as regalias imperiais poderia se passar por um príncipe, com a colaboração dos poucos que pudessem reconhecer entre o verdadeiro e o impostor. O Smerdis coroado rei poderia ter sido o verdadeiro, e Dario teria se aproveitado do momento político turbulento provocado pela ausência prolongada de Cambises no Egito para tomar o poder, deixando em dúvida a real identidade do Smerdis assassinado. Esse tumulto político, Heródoto dá a entender baseado no que ouviu falar no Egito, acentuado pela personalidade problemática de Cambises, afeito a explosões de violência, como quando teria espancado a esposa grávida até a morte, e decisões equivocadas, como uma expedição à Núbia que nunca chegou ao seu destino. Há quem sugira que o verdadeiro Smerdis tenha sido realmente assassinado antes a mando do próprio Cambises em um acesso de loucura, ou depois. Dario teria até trapaceado para ser escolhido entre os sete conspiradores para assumir o trono (com a ajuda de um escravo, ele teria "criado" um presságio divino apontando para a sua indicação no momento decisivo). Ele teria apaziguado revoltas generalizadas nas províncias apenas com a ajuda do exército, liderado pelos seus comparsas e seus parentes (o próprio Dario se vangloriava de ter matado "oito reis mentirosos" que se levantaram naquele momento). Dario ainda executou um dos seus comparsas, Intarfenes, junto com a maior parte da sua família, por ele ter desafiado uma instrução específica do novo rei quanto a visitas ao seu palácio.
Legitimamente ou não, a ascensão de Dario proporcionou vida longa ao regime aquemênida. Um homem astuto, domou possíveis rivais com regalias, cargos acima das suas aspirações ou cargos tão próximos que uma falha não passaria despercebida, ou pelo o sequestro de seus bens ou parentes (o palácio de Ecbátana era povoado de filhos e filhas de nobres persas). Também cercou-se de pessoas capazes nomeando-as para cargos administrativos importantes. Reorganizou o sistema administrativo, monetário e tributário, padronizando pesos, medidas e valores (usando as moedas inventadas na Lídia duas ou três gerações antes) a serem arrecadados, de maneira que ele tinha o controle sobre a economia do império e sobre possíveis atividades ilícitas de seus sátrapas, e estes do seus respectivos governadores. Adotou a política inaugurada por Ciro de preservar os aspectos culturais e religiosos dos povos sob seu poder para garantir seu apoio, com uma exceção na Babilônia, onde ele depôs o rebelde Nabucodonozor III, que seria seu rei legítimo, e declarou que o país não teria mais um rei (Ciro havia coroado a si mesmo Rei da Babilônia quando conquistou a cidade, e Dario aboliu este título). Para controlar melhor um território tão vasto, que no final do seu governo ia do Vale do Indo, no Paquistão, até o leste da Europa, ele desenvolveu e consolidou as antigas estradas que ligavam as principais cidades do império, estabelecendo também pontos de pouso, onde cavalos eram permanentemente cuidados para serem usados por mensageiros em viagem, permitindo a rápida comunicação dentro do império persa (um sistema tão eficiente que seria emulado várias vezes no futuro, inclusive nos Estados Unidos, antes do advento das locomotivas a vapor). As mensagens também eram distribuídas em aramaico, língua franca usada pelos comerciantes do Oriente Médio, e em escrita cuneiforme adotada universalmente naquela parte da Ásia. Além disso, o império tinha várias capitais com chancelarias que respondiam diretamente a Dario (Persépolis, Ecbátana e Susa, além de capitais regionais como Sardes, Babilônia e Mênfis). Também construiu palácios, jardins, templos dedicados a deuses locais, e um canal navegável ligando o rio Nilo ao Mar Vermelho.
Dario expandiu o poder persa para a Europa, após uma campanha para subjugar os nômades citas que habitavam o norte do Mar Negro. Construindo uma ponte provisória sobre o Estreito de Bósforo com barcaças amarradas com cordas, tomou a Trácia, atual parte européia da Turquia e a Bulgária, como base de operações. Na Anatólia, atual Turquia asiática, ele consolidou o controle sobre as cidades gregas no litoral, e, incentivado por conselheiros vindos dessas cidades e da Grécia continental, começou a cobiçar a própria Grécia. Tumultos na parte final do seu reinado nas cidades helênicas (o incêndio de Sardes, capital da rica satrapia da Lídia, foi atribuído a rebeldes gregos) foram a desculpa para sua tentativa de invasão da Grécia, repelida de maneira dramática na Batalha de Maratona em 490 a.C.. Seu filho Xerxes daria seguimento ao seu plano de conquista da Grécia dez anos mais tarde.
O reinado de Dario, como já foi dito, foi recontado sob diversos ângulos principalmente por cronistas gregos, que não nutriam muita simpatia pelos persas (embora pelo menos um deles, Xenofonte, tenha lutado como mercenário no exército persa). Por mais que muitos tenham tentado dar um tom histórico ao personagem, a maior parte do que se conhece sobre Dario parte de conjecturas e indícios obtidos dessas fontes, porque nelas mesmas, ele e seus antecessores aparecem em cores fantásticas. Uma versão fictícia moderna, mas deliciosamente florida de Dario está no romance do escritor americano Gore Vidal, "Criação".
A Pérsia, sob o governo do clã Aquemênida, emergiu como um poder dominante no Oriente Médio por volta de 550 a.C., quando Ciro II conquistou o reino rival dos medas (tribo irmã dos persas que dominou o Irã por algumas décadas) e avançou para construir o maior império já visto então, incorporando o modo de vida, os costumes, as leis, a escrita, e as tradições religiosas das antiquíssimas civilizações do Oriente Médio e da Anatólia (friso "antiquíssimas", porque, no tempo de Ciro, a tradição civilizatória da Mesopotâmia já era mais antiga para ele do que seu império é para nós hoje). Seu filho Cambises II contribuiu para expandi-lo conquistando o Egito. Este Cambises morreu em 522 a.C., aparentemente de causas naturais (supõe-se que ele fosse epiléptico), três anos após ser coroado faraó. E é aí que a história fica confusa.
Cambises tinha um irmão mais novo, Smerdis (ou Bardiya, ou Gaumata, dependendo da fonte e da versão aceita dos acontecimentos). Em algumas versões, este Smerdis era "protegido" (ou seja, vivia em clausura no palácio real em Persépolis, ou em Susa), ou então teria sido nomeado sátrapa de alguma satrapia no oriente. As fontes parecem concordar que Smerdis, de qualquer maneira, não era um rosto muito conhecido pelo seu povo, nem pela própria corte (alguns familiares de Cambises mesmo talvez não o conhecessem). Fosse como fosse, quando Cambises morreu no Egito, uma conspiração palaciana de magos (tribo ou casta de sacerdotes zoroastrista) prontamente anunciou Smerdis como sucessor. O reinado de Cambises foi particularmente cruel, não apenas nos seus atos pessoais (boatos sobre seu comportamento mais à frente), mas também quanto aos altos impostos para custear sua expedição ao Egito e sua incorporação ao sistema administrativo persa. Quando Smerdis subiu ao trono, sua primeira promessa foi de abolir os impostos pelos próximos três anos.
A versão de Dario desta história está registrada na magnífica inscrição de Behistum, encontrada na escarpa rochosa de uma montanha no oeste do Irã. Ali Dario acusa Smerdis de ser um impostor, um mago chamado Gaumata, que governou ilegitimamente por sete meses antes de ser assassinado por uma conspiração de aquemênidas, da qual fazia parte. Um ano depois, um segundo impostor, outro mago chamado Vahyazdata sob a identidade de Smerdis, também teria sido assassinado. Já segundo Heródoto (que reuniu e avaliou tudo que ele "ouviu falar" sobre os persas na Babilônia no Egito cerca de um século depois), após o assassinato do falso Smerdis, Dario teria sido escolhido entre os conspiradores como novo rei, adquirindo automaticamente a legitimidade da casa reinante.
Há alguns problemas com a tese de um falso Smerdis (principalmente, de dois falsos Smerdis). A favor da tese tem o fato de Dario e seus comparsas serem aquemênidas, ligados em maior ou menor grau à família de Ciro e Cambises (Dario era um primo de terceiro grau do último rei, e, portanto, do verdadeiro Smerdis), e deveriam ter alguma familiaridade que tornasse possível reconhecer o verdadeiro Smerdis de um impostor. Se um artesão qualquer gritasse contra o novo rei acusando-o de não ser quem dizia que era, ninguém lhe daria crédito, e ele seria provavelmente morto onde estivesse. Mas se um aquemênida como Dario, ou seu colega Otanes (a quem se atribui a acusação contra Smerdis) levassem esta denúncia a público, seriam vozes mais confiáveis. A oposição a Dario nas ricas satrapias da Babilônia e do Elão (e a coroação de um segundo Smerdis) que se seguiu podem ter sido reflexos da promessa de Smerdis de não recolher impostos. As duas rebeliões foram debeladas em poucos meses após a captura e execução de seus líderes, o que mostraria um caráter oportunista mais do que legalista de ambas. Na corte, a própria família de Smerdis nunca contestou a posição de Dario. De fato, ele se casou logo em seguida com sua irmã, Atossa, que em algum momento poderia ter se manifestado a respeito.
Como as fontes mais prolíficas sobre Dario vêm da Grécia (escritas exclusivamente depois que os persas, considerados "bárbaros", invadiram e foram expulsos de lá), as evidências da ilegalidade do seu movimento são mais numerosas. Eles levantam a dúvida sobre a conspiração dos magos. Entre os Aquemênidas, era costume as pessoas comuns não olharem diretamente para o rosto dos seus soberanos, fossem eles o rei, um príncipe, ou um sátrapa, de maneira que não eram todos os que conviviam com Smerdis que saberiam inequivocadamente reconhecê-lo de vista. Um homem de porte semelhante e ostentando as regalias imperiais poderia se passar por um príncipe, com a colaboração dos poucos que pudessem reconhecer entre o verdadeiro e o impostor. O Smerdis coroado rei poderia ter sido o verdadeiro, e Dario teria se aproveitado do momento político turbulento provocado pela ausência prolongada de Cambises no Egito para tomar o poder, deixando em dúvida a real identidade do Smerdis assassinado. Esse tumulto político, Heródoto dá a entender baseado no que ouviu falar no Egito, acentuado pela personalidade problemática de Cambises, afeito a explosões de violência, como quando teria espancado a esposa grávida até a morte, e decisões equivocadas, como uma expedição à Núbia que nunca chegou ao seu destino. Há quem sugira que o verdadeiro Smerdis tenha sido realmente assassinado antes a mando do próprio Cambises em um acesso de loucura, ou depois. Dario teria até trapaceado para ser escolhido entre os sete conspiradores para assumir o trono (com a ajuda de um escravo, ele teria "criado" um presságio divino apontando para a sua indicação no momento decisivo). Ele teria apaziguado revoltas generalizadas nas províncias apenas com a ajuda do exército, liderado pelos seus comparsas e seus parentes (o próprio Dario se vangloriava de ter matado "oito reis mentirosos" que se levantaram naquele momento). Dario ainda executou um dos seus comparsas, Intarfenes, junto com a maior parte da sua família, por ele ter desafiado uma instrução específica do novo rei quanto a visitas ao seu palácio.
Legitimamente ou não, a ascensão de Dario proporcionou vida longa ao regime aquemênida. Um homem astuto, domou possíveis rivais com regalias, cargos acima das suas aspirações ou cargos tão próximos que uma falha não passaria despercebida, ou pelo o sequestro de seus bens ou parentes (o palácio de Ecbátana era povoado de filhos e filhas de nobres persas). Também cercou-se de pessoas capazes nomeando-as para cargos administrativos importantes. Reorganizou o sistema administrativo, monetário e tributário, padronizando pesos, medidas e valores (usando as moedas inventadas na Lídia duas ou três gerações antes) a serem arrecadados, de maneira que ele tinha o controle sobre a economia do império e sobre possíveis atividades ilícitas de seus sátrapas, e estes do seus respectivos governadores. Adotou a política inaugurada por Ciro de preservar os aspectos culturais e religiosos dos povos sob seu poder para garantir seu apoio, com uma exceção na Babilônia, onde ele depôs o rebelde Nabucodonozor III, que seria seu rei legítimo, e declarou que o país não teria mais um rei (Ciro havia coroado a si mesmo Rei da Babilônia quando conquistou a cidade, e Dario aboliu este título). Para controlar melhor um território tão vasto, que no final do seu governo ia do Vale do Indo, no Paquistão, até o leste da Europa, ele desenvolveu e consolidou as antigas estradas que ligavam as principais cidades do império, estabelecendo também pontos de pouso, onde cavalos eram permanentemente cuidados para serem usados por mensageiros em viagem, permitindo a rápida comunicação dentro do império persa (um sistema tão eficiente que seria emulado várias vezes no futuro, inclusive nos Estados Unidos, antes do advento das locomotivas a vapor). As mensagens também eram distribuídas em aramaico, língua franca usada pelos comerciantes do Oriente Médio, e em escrita cuneiforme adotada universalmente naquela parte da Ásia. Além disso, o império tinha várias capitais com chancelarias que respondiam diretamente a Dario (Persépolis, Ecbátana e Susa, além de capitais regionais como Sardes, Babilônia e Mênfis). Também construiu palácios, jardins, templos dedicados a deuses locais, e um canal navegável ligando o rio Nilo ao Mar Vermelho.
Dario expandiu o poder persa para a Europa, após uma campanha para subjugar os nômades citas que habitavam o norte do Mar Negro. Construindo uma ponte provisória sobre o Estreito de Bósforo com barcaças amarradas com cordas, tomou a Trácia, atual parte européia da Turquia e a Bulgária, como base de operações. Na Anatólia, atual Turquia asiática, ele consolidou o controle sobre as cidades gregas no litoral, e, incentivado por conselheiros vindos dessas cidades e da Grécia continental, começou a cobiçar a própria Grécia. Tumultos na parte final do seu reinado nas cidades helênicas (o incêndio de Sardes, capital da rica satrapia da Lídia, foi atribuído a rebeldes gregos) foram a desculpa para sua tentativa de invasão da Grécia, repelida de maneira dramática na Batalha de Maratona em 490 a.C.. Seu filho Xerxes daria seguimento ao seu plano de conquista da Grécia dez anos mais tarde.
O reinado de Dario, como já foi dito, foi recontado sob diversos ângulos principalmente por cronistas gregos, que não nutriam muita simpatia pelos persas (embora pelo menos um deles, Xenofonte, tenha lutado como mercenário no exército persa). Por mais que muitos tenham tentado dar um tom histórico ao personagem, a maior parte do que se conhece sobre Dario parte de conjecturas e indícios obtidos dessas fontes, porque nelas mesmas, ele e seus antecessores aparecem em cores fantásticas. Uma versão fictícia moderna, mas deliciosamente florida de Dario está no romance do escritor americano Gore Vidal, "Criação".
Assinar:
Postagens (Atom)