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terça-feira, 17 de julho de 2018

A Quarta Cruzada

Em 1202, soldados e cavaleiros partiram de vários reinos europeus atendendo ao chamado do Papa Inocente III, com o objetivo de destruir o Sultanato Aiúbida. No entanto, em 17 de julho de 1203, a maior parte desse exército entregou-se ao saque de Constantinopla, causando o desmantelamento do outrora poderoso (e aliado) Império Bizantino.

Como isso foi acontecer?

As Cruzadas foram campanhas militares organizadas inicialmente pelo papado romano, em parte como resposta às dificuldades que os bizantinos estavam tendo para conter o avanço das nações islâmicas na Ásia. A Primeira Cruzada, em 1095, tinha como objetivo ajudar militarmente o Império Bizantino a recuperar terras perdidas para os turcos seljúcidas no leste da Anatólia, mas resultou na conquista de Jerusalém e no estabelecimento de reinos cristãos na região da Terra Santa. A tomada daquela cidade sagrada para o Islã foi uma demonstração de força da Europa cristã diante de mais de 300 anos de avanço muçulmano, que, contudo, tornou a região instável, disputada nos séculos seguintes por cristãos europeus, muçulmanos sírios, egípcios, e eventualmente mongóis. De fato, em 1187, o Sultanato Aiúbida, comandado pelo brilhante general Saladino, retomou a Cidade Santa, e a Terceira Cruzada, enviada em resposta, retomou algumas fortalezas perdidas (Jafa e Acre, por exemplo), mas não conseguiu reconquistá-la.

Da Europa Central para a Palestina, os Cruzados podiam seguir a perigosa rota pelo Mediterrâneo, ou seguir as estradas que iam para o leste, em direção a Constantinopla, pelos Bálcãs e Cárpatos, e de lá pelas confusas estradas da Anatólia. A passagem quase obrigatória pelo Império Bizantino, apesar de cristão, era um problema tanto para os católicos como para os bizantinos ortodoxos. Havia, de longa data, uma animosidade entre as duas interpretações do cristianismo, mas havia, sobretudo, um vão cultural entre a emergente sociedade feudal do ocidente, de matriz germânica, e da antiga e tradicional civilização oriental, de matriz grega mas que assimilava elementos asiáticos. A desconfiança levou o Sacro Imperador Romano Frederico Barbarossa, um dos comandantes da Terceira Cruzada, a planejar, com dissidentes sérvios e búlgaros, um ataque aos bizantinos, cuja política de tolerância e assimilação das culturas árabe e persa era vista como sacrílega; quando a ilha de Chipre, antiga possessão bizantina, foi reconquistada das mãos de rebeldes gregos, ao invés de ser devolvida, foi vendida pelo conquistador, o rei inglês Ricardo Coração de Leão, à Ordem dos Cavaleiros Templários.

Desde que Inocente III foi eleito Papa, em 1198, seu objetivo maior era organizar uma nova cruzada para retomar Jerusalém. No entanto, o cenário político não era favorável, já que as três principais potências, o Sacro Império Romano (em crise política com o papado), a França e a Inglaterra (em guerra um contra o outro) enfrentavam seus problemas. No entanto, um padre de Neuilly-Sur-Marne chamado Fulco conseguiu convencer alguns dos senhores mais poderosos da França a recrutarem exércitos contra a maior ameaça à cristandade, sobretudo à Terra Santa, o Sultanato Aiúbida. O líder da expedição seria o italiano Bonifácio de Montferrat. Sabendo das dificuldades da marcha por terra pela Anatólia (onde os cruzados, mesmo sob proteção bizantina, enfrentavam assaltos e hostilidades das populações locais nas cruzadas anteriores), Bonifácio buscou viabilizar uma frota marítima junto às potências comerciais de Gênova e Veneza. Venezianos concordaram em construir navios e transportar até 33 mil soldados (contando com 4500 cavalos) diretamente para o Egito.

Mas os cruzados, como havia sido antes, não compunham um exército coeso sob uma única liderança. Eram homens arregimentados e armados por senhores feudais principalmente na França (mas também alemães, belgas, e italianos), que os tinham como capitães. Embora houvesse a facilidade de transporte oferecida por Veneza, muitos optaram por embarcar em outros portos, como Marselha e Gênova. O embarque e o transporte eram feitos mediante pagamento dos senhores aos donos dos navios por cada homem embarcado. O problema é que dessa forma, apenas um terço dos homens esperados chegaram ao porto de Veneza, e os venezianos, que já haviam cumprido sua parte do trato, esperavam pelo pagamento total. Os cruzados reunidos ali foram dispostos de quase tudo que tinham para reunir menos do que Veneza esperava (o que contabilizava os prejuízos comerciais durante os anos de preparação e investimento na nova frota). Eventualmente, Enrico Dandolo, o Doge (ou duque, o cabeça da República local), propôs aos cruzados resgatar o montante devido achacando as cidades no leste do Adriático, então sob proteção sérvia ou húngara.

Apesar de uma ordem de Inocente III que proibia os cruzados de atacarem qualquer indivíduo, cidade ou reino cristão sob risco de excomungação, em novembro de 1201, a cidade croata (e católica) de Zara, atual Zardar, então uma ambição veneziana, foi sitiada. A cidade ostentava bandeiras com uma cruz sobre as muralhas, caso os invasores tivessem se esquecido de que a cidade era cristã, e alguns dos comandantes cruzados, como Simon de Montfort se recusavam a participar do cerco. Mas os soldados, já quase sem posses além de suas armas, viam, como Dandolo, a possibilidade de butim, e a cidade caiu em duas semanas. O Papa realmente excomungou todo o exército e a cidade de Veneza, mas como tanto cruzados como venezianos ainda precisavam se ressarcir dos prejuízos, seus líderes não informaram os soldados, com medo de que eles se dispersassem (Inocente voltou atrás três meses depois). Dandolo e os cruzados passaram o inverno em Zara, planejando o próximo passo.

Veneza cresceu graças ao comércio marítimo e à vigorosa e ágil economia local, impondo-se, mesmo com um território limitado à cidade, a portos aliados ou conquistados e colônias espalhadas pelo Mediterrâneo, frente a antigas potências tradicionais, como o Egito e o próprio Império Bizantino. Constantinopla era, pela sua localização geográfica, o principal entrave à expansão veneziana em direção às cobiçadas rotas que levavam à China e à Índia, e, apesar de inicialmente oferecer aos comerciantes venezianos privilégios, os irritava com novos acordos com rivais italianos de Pisa, Gênova e Amalfi. Em 1171, venezianos atacaram as posses de genoveses em Constantinopla, e em resposta o imperador Manuel I Komnenos mandou prender todos os venezianos na cidade e confiscar suas posses. Reforços vindos do mar tentaram vingar e forçar a libertação dos presos, mas fracassaram. Na confusão, rebeldes sérvios, instigados pelos venezianos, tomaram Ancona, a última possessão do Império Romano do Oriente na Itália. Embora a situação se normalizasse com o tempo, conflitos palacianos levaram à ascensão de Andrônico I Komnenos ao trono bizantino, e este imperador, que reinara por apenas dois anos, incitou a violência contra os que via como detentores do poder no Império - aristocratas e comerciantes latinos.

Enquanto isso, Bonifácio de Montferrat havia deixado os venezianos para visitar seu primo, Filipe, então rei da Alemanha (o que corresponderia ao cargo de Sacro Imperador Romano, caso tivesse a anuência do Papa). Ali encontrou-se com o príncipe Alexios Komnenos, cujo pai, Isaque II, havia sido deposto em Constantinopla por seu irmão Alexios III. Alexios prometeu a Bonifácio saudar a sua dívida com Veneza, além de ceder 10 mil soldados profissionais à sua expedição ao Egito, bem como colocar uma frota à disposição e, até mesmo, submeter o credo ortodoxo à autoridade do Papa, caso os cruzados o ajudassem a recuperar o trono bizantino. Tal proposta chegou aos cruzados em Zara, e foi abraçada com fervor por Dandolo. O Doge veneziano participara da expedição marítima de 1171, e teria sido cegado pelos bizantinos como punição. E agora ele navegava com uma frota de guerra e 12 mil cruzados em direção a Constantinopla.

Os cruzados, agora acompanhados por Bonifácio e Alexios, chegaram a Constantinopla em atitude hostil. As defesas da cidade, confusas e compostas apenas por um pequeno corpo de elite por conta das convulsões internas causadas pelos sucessivos golpes de Estado sofridos nas últimas décadas, foram pegas de surpresa. Ataques múltiplos foram desferidos nos subúrbios da cidade, fora das muralhas, enquanto a torre de Gálatas (onde se prendia a poderosa corrente de ferro que impedia o acesso ao Corno de Ouro, rio largo que dava acesso ao interior e à face norte das muralhas) era dominada. Mas para surpresa dos ocidentais (que, acostumados com a sacralidade da sucessão de seus tronos de pai para filho, imaginavam que o filho de um imperador deposto seria recebido com festa pelos seus pares), a embarcação onde se apresentava Alexios era ostensivamente hostilizada pelos cidadãos por cima das muralhas. Em 17 de julho, enquanto cruzados atacavam a muralha por terra, os venezianos tomavam parte da muralha pelo Corno de Ouro. Um grande incêndio causado com propósito de manter os invasores afastados destruiu quase 500 mil metros quadrados da cidade. O próprio usurpador, o imperador Alexios III (tio do pretendente), liderou um ataque em maior número contra os sitiadores no portão de São Romano, mas teria recuado em pânico antes do primeiro golpe. Ele fugiu para a Trácia, fazendo com que os comandantes locais restaurassem Isaque II imperador.

O retorno de Isaque ao trono frustrou as pretensões de um ataque direto dos venezianos aos tesouros bizantinos. Também colocava em cheque as promessas de Alexios, que só poderia cumpri-las se fosse ele o imperador. Sob pressão e alguma ameaça, Isaque concordou em coroar o filho Alexios IV coimperador.

Mas as coisas ainda não iam bem para nenhum dos lados. Alexios III fugira com boa parte dos tesouros em ouro e jóias. Alexios IV, desesperado para reunir logo algum dinheiro, ordenou a destruição de antigos ícones romanos para a cunhagem de moedas, mas nunca se chegava ao valor prometido. Alexios conseguiu um adiamento de seis meses para o pagamento, nos quais pretendia empregar os cruzados contra seu tio, encastelado em Adrianópolis. Mas o povo via o desespero do imperador como sinal de fraqueza diante de estrangeiros (hereges, além de tudo), e se rebelou na sua ausência. Na confusão, latinos eram atacados, e venezianos revidavam destruindo o que podiam. Um quinto da cidade teria sido arrasada por incêndios. Quando Isaque II morreu, em janeiro de 1204, o senado bizantino (descendente direto daquela instituição romana) nomeou Nicolau Canabus imperador, mas o jovem preferiu renunciar e se esconder numa igreja. Sem um líder formal (Alexios IV, voltando do estrangeiro, já não tinha mais sua autoridade reconhecida), Bizâncio estava sob comando de Alexios Doukas, que liderou uma rebelião contra os latinos, recusando-se a assumir as dívidas de seu suserano (que seria preso e executado semanas depois, dando espaço para Doukas ser coroado Alexios V).

Novamente a cidade foi atacada, e como sempre resistiu. Para estimular a coragem dos cruzados, clérigos insistiam na tese de que Deus os estava testando, e que a punição aos bizantinos era certa, pois haviam assassinado seu legítimo senhor; "os gregos são piores do que os judeus", pregavam. Em 13 de abril de 1204, os invasores tomaram a cidade, saqueando-a por três dias. Tesouros e obras de arte seculares foram destruídos, civis roubados ou assassinados, igrejas violadas, freiras estupradas. A grande catedral de Santa Sofia foi desgraçada e seus ícones e livros destruídos, e os cruzados bêbados colocaram uma prostituta sentada no trono do Patriarca. Imediatamente, o antigo Império Bizantino se fragmentou em 5 partes, ficando a sua parte européia centrada em Constantinopla sob o comando do nobre belga Balduíno - coroado Balduíno I, Imperador Latino. O Império Latino resistiu por 57 anos a ataques de pretendentes gregos por todos os lados, bem como de búlgaros recém-unificados se aproveitando do tumulto vindos do norte. O Império Bizantino foi restaurado em 1261 por Miguel VIII Paleólogo.

As consequências do saque de Constantinopla foram profundas. O Império Bizantino - o que restava do Império Romano, da milenar cultura grega, e da autoridade cristã no oriente - jamais se recuperou da crise, e foi suplantado pelos turcos, que avançariam inexoravelmente sobre a rica Anatólia até chegar a Constantinopla no século XV, expandindo uma influência duradoura sobre o sudeste da Europa. O cisma que existia entre catolicismo e ortodoxia grega se tornou um abismo tão profundo e duradouro que em 2001 o Papa João Paulo II reconheceu e expressou pesar pelo que os cruzados fizeram a Constantinopla, ao que o contemporâneo Patriarca Bartolomeu I aceitou como desculpas. A aproximação ainda é um trabalho político muito delicado, trabalhoso, e lento.

Poucos homens chegaram à Terra Santa na Quarta Cruzada, apenas reforçando posições já asseguradas então. Nenhum desembarcou no Egito.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

O Tigre e o Dragão

Em 29 de janeiro de 1258, um exército invasor mongol foi derrotado e expulso de Thang Long (atual Hanói) por forças do império de Dai Viet, impedindo a expansão do poderoso Império Mongol sobre o sudeste asiático.

Em 1258, Kublai Khan ainda era um dos possíveis herdeiros do colossal (porém fragilmente constituído) Império Mongol. Ele herdara as terras correspondentes ao norte da China, tomadas da antiga dinastia Jin por Genghis Khan e seu filho Ogedei, e governava a partir dali a recém fundada dinastia Yuan. Mongke Khan, então o Grande Khan do Império, tinha pretensões de lançar-se em campanha contra a metade sul da China, ainda não subjugada e controlada pela dinastia Song. Seu plano incluía um ataque em três frentes: uma vindo do norte da China, uma vindo do oeste, e outra do sul.

Kublai foi mandado a conquistar o reino de Dali, na atual província chinesa setentrional de Yunnan. Depois de enfrentar dificuldades com as defesas naturais de Dali, aparentemente um traidor local teria indicado uma passagem segura para os mongóis. Talvez esse traidor tenha sido o próprio rei, que, abertamente, mais tarde, se uniu aos mongóis em troca de uma posição no governo ("marajá") da nova província. Com Dali conquistada, restava a Kublai assegurar sua posição no norte do Vietnã, então controlado pelo império de Dai Viet para lançar a terceira frente contra os Song.

Kublai procurou negociar a rendição de Dai Viet enviando Uriyangkhadai, filho do brilhante general de Genghis Khan, Subodai. Os mensageiros de Uriyangkhadai, contudo, foram presos. Em tempos anteriores, a recusa em atender aos emissários mongóis (ou responder com sua prisão ou execução) teve resultados catastróficos; a maior cidade da Ásia, Merv, foi completamente destruída e a maior parte da sua população assassinada em 1221 (com talvez mais de um milhão de mortos em dois dias de ataque, incluindo até os animais domésticos, é possível que tenha sido a maior catástrofe provocada por seres humanos em um lugar só antes do emprego da pólvora) após recusar uma exigência de rendição. O príncipe de Dai Viet, Quoc Tuan, com certeza tinha algo em mente quando tomou essa atitude. Ou pouco juízo.

Uriyangkhadai mobilizou uma força de 40 mil mongóis e 10 mil Yi (grupo étnico daquela região entre Vietnã, Yunan e Mianmar) para conquistar Dai Viet à força. O general avançou durante o mês de janeiro de 1258 em direção à capital Thang Long.

A primeira grande batalha se deu perto da capital. Duas companhias mongóis desciam o Rio Vermelho esperando bloquear possíveis rotas de fuga da cidade, enquanto Uriyangkhadai cavalgava com o grosso do exército para forçar um primeiro ataque. Os Tran (a dinastia reinante de Dai Viet) haviam posicionado uma linha de elefantes de guerra na cidade atual de Viet Tri. Os mongóis ainda não estavam familiarizados com esse tipo de animal no campo de batalha, e no primeiro momento tiveram dificuldade em controlar a suas montarias, nervosas por causa do estranho odor dos elefantes. Além disso, os Tran haviam posicionado barcos rio abaixo para impedir a travessia e permitir a fuga em caso de necessidade. Uriyangkhadai percebeu a importância dos barcos e ordenou um ataque direcionado a eles. No caminho, os invasores encontraram uma passagem segura para a outra margem. Por ali conseguiram se aproximar dos elefantes. Eles atiraram flechas incendiárias aos seus pés. Os animais entraram em pânico, causando enorme confusão e destruição no exército defensor, Uma outra vitória no dia seguinte, perto de um dos portões da cidade, abriu caminho para os mongóis.

Em vista de uma invasão implacável, a população de Thang Long foi evacuada para uma ilha próxima ao delta do Rio Vermelho. O imperador chegou a cogitar uma fuga para a China Song, mas foi dissuadido por alguns conselheiros de Estado. Por volta do dia 25 de janeiro, os mongóis entraram na capital viet praticamente deserta; dos emissários presos, um estava morto. Uriyangkhadai, insultado, ordenou uma destruição generalizada e a execução de quem quer que pudesse ser encontrado no lugar. Conquistar a capital sem conquistar seus governantes era uma vitória inócua. Além disso, os vietnameses não deixaram suprimentos para trás. Uriyangkhadai precisaria alimentar talvez os 30 mil homens que restavam com poucos recursos, ou abortar sua campanha.

A fome se tornou imediatamente um problema, mas a ela se somaram também fatores naturais: o calor e a umidade afetavam os cavaleiros mongóis e seus cavalos, nativos das áridas e frias estepes da Mongólia. Mosquitos espalhavam doenças para as quais eles não conheciam tratamento, como a malária. Uriyangkhadai ainda procurou enviar mais dois emissários ao imperador, exigindo rendição, mas os dois foram presos. Com a liderança mongol hesitante e seus homens enfraquecidos, o imperador ordenou um contra-ataque. Ele entrou na cidade montado num grande elefante à frente de seu exército, encontrando apenas a retaguarda do exército inimigo, que já iniciara a sua retirada, em Dong Bo Dau, subúrbio da atual Hanói. Houve pouca resistência, e, de fato, a moral entre os mongóis estava tão baixa que eles marcharam e cavalgaram até a fronteira com Dali sem sequer tentar atacar ou saquear as vilas e templos pelo caminho.

Os mongóis ainda tinham então a reputação de serem praticamente invencíveis; no ocidente, a expansão mongol iniciada com Genghis Khan no começo do século só foi detida em 1260 na Síria. Dai Viet, e mais tarde seus vizinhos Champa (a metade sul do atual Vietnã), Khmer (no Camboja), Myinsaing (no centro de Mianmar) e Thai (o coração étnico do povo tailandês, ainda em formação na época) imporiam uma resistência feroz às seguidas tentativas de invasão mongol. A morte de Mongke Khan em 1259 também atrapalhou decisivamente os planos para o sudeste asiático. De fato, Kublai Khan, enquanto seu sucessor como Grande Khan e imperador da China (após conquistar os Song), embora seja lembrado como administrador e por sua relação com o mercador genovês Marco Polo, nunca conseguiria avançar efetivamente suas fronteiras para além da própria China, fracassando repetidamente no sudeste asiático (onde algumas nações aceitaram pagar tributo para serem deixadas em paz), em Java, e no Japão.

sábado, 24 de outubro de 2015

Baibars, o mameluco

Em 24 de outubro de 1260, após o assassinato do sultão Qutuz, o ex-escravo turco Baibars tornou-se sultão do Egito.

Baibars era um turco do povo Kipchak, nascido provavelmente na Rússia ou na Ucrânia durante as conquistas mongólicas, em 1223. Seu nome significa no idioma kipchak "Senhor das Panteras", ou "Rei Pantera". Ele teria sido capturado ainda criança e vendido como escravo. De alguma forma fora parar na Síria onde, dizia, passara a infância fugindo pelas montanhas. Eventualmente, acabaria vendido a um oficial mameluco (elite multiétnica turca que, à época, consistia na elite militar do Sultanato Aiúbida) e enviado ao Egito, onde foi treinado e escalado para a segurança pessoal do sultão aiúbida As-Salih - sua sagacidade e sua aparência física destacada (era loiro de olhos claros) possivelmente compensavam a visão prejudicada por um olho com catarata. Conquistando postos de comando no exército aiúbida, teria participado das últimas batalhas do período da Sexta Cruzada, que anularam qualquer possibilidade do reino cristão de Outremer, na Terra Santa, de retomar a iniciativa contra os muçulmanos por conta própria.

Em 1260, Baibars estava no apogeu da sua carreira militar. Um mês e meio antes do golpe, liderara o exército egípcio no que talvez tenha sido a batalha mais significativa daquele século, em Ain Jalut, no Líbano. Ali, Baibars derrotou os mongóis.

Em 1260, mensageiros sob as ordens de Hulagu, comandante mongol no Oriente Médio, entregaram ao sultão mameluco Qutuz a seguinte mensagem:

"Do Rei dos Reis do Leste e do Oeste, o Grande Khan. A Qutuz o Mameluco, que fugiu para escapar às nossas espadas. Deverias pensar no que aconteceu aos outros países e te submeter a nós. Ouviste sobre como conquistamos um vasto império a purificamos a terra das desordens que a maculavam. Nós conquistamos vastas áreas, massacrando todos os povos. Não podes escapar do terror de nossos exércitos. Para onde fugirias? Que estrada usarias para escapar de nós? Nossos cavalos são velozes, nossas flechas afiadas, nossas espadas como relâmpagos, nossos corações duros como as montanhas, nossos soldados numerosos como grãos de areia. Fortalezas não nos deterão, nem exércitos nos pararão. Tuas preces a Deus não servirão contra nós. Não somos comovidos por lágrimas nem tocados por lamentações. Apenas aqueles que imploram por nossa proteção estarão a salvo. Apressa a tua resposta antes que o fogo da guerra queime. Resiste e sofrerás as mais terríveis catástrofes. Nós esmigalharemos tuas mesquitas e revelaremos a fraqueza de teu Deus, e então mataremos tuas crianças e teus velhos juntos. No momento és o único inimigo contra quem temos que marchar."

Provavelmente Qutuz já sabia que a mensagem era verdadeira. O avanço mongol sob Mongke Khan, neto de Genghis Khan, em direção ao Oriente Médio alterou drasticamente o equilíbrio de poder na região. As entidades geopolíticas que disputavam a supremacia entre a Mesopotâmia, a Síria e a Palestina (o Império de Kwarizm, no Irã, o Califado de Bagdá, no Iraque, e o próprio Sultanato Aiúbida, concentrado na Síria mas abrangendo também o Egito) na época da Sexta Cruzada simplesmente deixaram de existir. Os mongóis obliteraram Kwarizm, conquistaram Bagdá (causando uma devastação tamanha em toda Mesopotâmia que a agricultura da região até hoje, mesmo com toda a tecnologia moderna, ainda não recuperou sua produtividade), e semanas depois Damasco, levando o Sultanato Aiúbida ao caos. Os generais mamelucos rapidamente preencheram o vácuo de poder causado pela perda da Síria e instauraram no Egito um sultanato próprio (embora os governadores de Aleppo continuassem a governar localmente pretendendo serem sultões aiúbidas legítimos). Desde 1259, reinava no Cairo o sultão Qutuz (outro ex-escravo capturado por mongóis, possivelmente em Kwarizm). Na ocasião da sua ascensão, ele não foi capaz de salvar a Síria da repentina invasão mongol, apesar do pedido desesperado do governador de Aleppo, que recebera mensagem semelhante. Qutuz, no entanto, respondeu assassinando os mensageiros e espetando suas cabeças em espigões nos portões do Cairo. Como acontecera em ocasiões semelhantes, de forma especialmente trágica em Merv (a maior cidade do mundo no seu tempo, reduzida a escombros e cadáveres) e Bagdá, o desafio provocou a ira mongol.

A morte repentina de Mongke Khan foi um golpe de sorte para Qutuz e todos os reinos que esperavam, apreensivos, o inexorável ataque mongol. Hulagu tivera que recuar da Síria com a maior parte das suas forças em agosto de 1259 para participar da assembléia que elegeria o novo Grande Khan (ele era um dos candidatos, mas seu irmão Kublai foi eleito). Hulagu havia deixado algo próximo a 10 mil homens no oeste do Eufrates para prosseguir com as conquistas no Oriente Médio, visando Jerusalém, ponto de apoio para uma campanha no norte da África. Qutuz reunira um grande exército no Egito e marchara para a Palestina. Kitbuqa, general encarregado por Hulagu nesta campanha, marchou para o sul a partir do Líbano, reforçado por exércitos de reinos cristãos que se submeteram pacificamente aos mongóis, como a Geórgia e a Armênia Cilícia. Os cristãos de maneira geral apostavam nos mongóis contra os muçulmanos. Os cruzados remanescentes na Terra Santa, contudo, estavam proibidos pelo Papa de se aliarem aos mongóis, o que os colocava em situação perigosa. Mesmo assim, eles proibiram os mamelucos de marcharem pacificamente pelo seu território, forçando-os na direção do Vale de Jezreel. Em 3 de setembro, perto de Ain Jalut, no Líbano, os dois exércitos se encontraram.

Baibars volta à cena neste momento. Trazendo consigo algumas forças da Síria, se uniu a Qutuz e participou da definição da estratégia para esta batalha. Suas peripécias na juventude lhe deram um conhecimento de terreno que ninguém, entre mamelucos e mongóis, tinha, o que lhe deu uma posição de grande proeminência na movimentação egípcia. Ele distribuíra as forças egípcias nas montanhas e florestas, e lideraria um modesto destacamento de cavalaria rápida. Era Baibars quem se apresentava para a batalha diante dos mongóis. Kitbuqa despachou seus aliados cristãos à frente. Os dois lados combateram longamente, Baibars evitando expor demais suas forças, recuando sempre que podia, e contra-atacando à longa distância. Kitbuqa perdia a paciência, e enviou um ataque massivo ao pequeno exército mameluco. Mesmo com a cavalaria mais veloz do mundo, os mongóis não os alcançavam pelas trilhas, permitindo que Baibars os fustigasse e fugisse repetidamente, atraindo os mongóis cada vez mais para longe da planície. Kitbuqa não desconfiou de uma armadilha, e continuou pressionando. Quando chegaram às terras altas, Baibars fez o sinal, e milhares de mamelucos saíram de seus esconderijos e se abateram sobre os mongóis em todas as direções. Ao invés de se renderem, os mongóis lutaram com mais ferocidade para tentar romper o cerco, mas os mamelucos tinham como corpo principal do seu exército uma cavalaria pesada armada com longas lanças e espadas que, no combate à curta distância, não deram margem de manobra para os arqueiros leves da estepe asiática. Na retaguarda haviam canhoneiros, armados com canhões portáteis que serviam para assustar os cavalos inimigos, impedindo um movimento coordenado. Ao final do dia, quase todos os mongóis estavam mortos. Kitbuqa teria se retirado com ferimentos, e morrido ao se recusar a receber tratamento médico típico da hospitalidade muçulmana (ele era cristão).

Baibars caiu nas graças dos emires egípcios. Após a batalha, a caminho do Damasco, ele teria requisitado ao sultão o governorado de Aleppo para si, mas Qutuz nomeou o emir de Mosul para o cargo. Qutuz assegurou o controle sobre Damasco e a autoridade efetiva sobre a maior parte da Síria, e retornou para o Cairo. Nesse caminho, Baibars teria conspirado com os emires, agora seus aliados, e no dia 24 de outubro, pelo menos três deles apunhalaram o sultão. Como Qutuz não tinha filhos, os emires elegeram Baibars seu sucessor.

Baibars faria juz à fama nos anos seguintes debelando a Sétima Cruzada e mantendo a Nona em cheque (a Oitava Cruzada teve a Tunísia como alvo), além de conquistar o antigo reino cristão de Makuria, no Sudão, e infligir mais derrotas aos Mongóis no leste da Turquia. Também investiu pesadamente em infraestrutura para comunicação, transporte, produção agrícola e distribuição de alimentos, que ajudaram o sultanato mameluco a ter uma vida relativamente longa.

Mas seu maior feito, pelo qual seu nome seria lembrado, foi a vitória em Ain Jalut. Foi a primeira derrota mongol desde que começara o avanço sobre o mundo islâmico. O mito da invencibilidade mongol caiu, e na região, tanto os turcos mamelucos do Egito quanto seus vizinhos seljúcidas ao norte mantiveram os mongóis sob controle, impedindo seu avanço até o Mediterrâneo e ao sul da Europa e África, com consequências imprevisíveis para os mundos islâmico e cristão. Como sultão, ele também estabeleceu relações próximas com o Khanato da Horda Dourada, cujo khan Berke era também muçulmano. Em 1262, Hulagu em pessoa voltara ao Oriente Médio para esmagar os mamelucos, mas Berke iniciara uma série de ataques ao norte do seu território, distraindo sua atenção e impedindo uma campanha com força total no Levante. Baibars morreu em Damasco em 1277, possivelmente envenenado.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

A Carta Magna

Em 15 de junho de 1215, há exatos 800 anos, o rei João da Inglaterra selou a Carta Magna, tornado oficial o corpo básico de leis que regularia o poder real, a legislação inglesa e suas relações institucionais pelos séculos seguintes.

Governar um país na Europa no início da Idade Média, sem a assistência de um sistema judicial baseado em leis uniformes e estáveis e jurisprudência, era uma faca de dois gumes. Por um lado, dava ao rei o direito de governar seu país conforme aprouvesse a si e a seus aliados da nobreza e do clero. Por outro lado, o rei precisava constantemente decidir (ou delegar juízes para fazê-lo sob seu próprio julgamento) sobre disputas pessoais, sobre propriedade, definir leis para casos específicos que nunca se repetiriam, ou reinterpretar leis antigas feitas para outros contextos históricos e sociais. Ou ele podia simplesmente deixar isso nas mãos de burocratas e ir caçar. Contudo, embora seu cargo tivesse legitimidade na bênção papal, a força do monarca e a estabilidade da sua posição dependiam da sua eficiência e equilíbrio como gestor, pois se negligenciasse os anseios da plebe, causaria revoltas populares; se resolvesse tomar medidas muito populares, perderia o suporte dos nobres; se fosse contra a Igreja, provavelmente perderia o apoio de ambos. Pois o seu próprio direito ao trono era uma questão de acordos de cavalheiros entre as forças dominantes. O poder, na teoria, estava todo nas mãos dos reis, mas a insegurança jurídica fragilizava enormemente todo o aparelho estatal e o próprio tecido social. Com o tempo, o Direito Romano, em pleno vigor no Império Bizantino e sobrevivendo em parte na forma de sistemas legais germânicos, foi sendo redescoberto e estudado no ocidente, levando ao desenvolvimento do sistema legal no mundo feudal de França, Inglaterra e Alemanha.

O que sucedeu com João foi mais ou menos decorrente do desequilíbrio e falta de clareza de limites entre poderes. João havia perdido grande parte dos territórios ingleses no oeste da atual França para o rei francês Filipe II (por causa disso, João ficou conhecido como "João Sem Terras"). Em parte, as sucessivas derrotas foram facilitadas pelos seus próprios aliados franceses, que reclamavam de taxações excessivas das suas propriedades em troca de proteção real e viam em João pouca boa vontade para com suas demandas particulares. As campanhas para retomar suas terras foram viabilizadas pelo aumento de impostos sobre propriedades. Mas seu fracasso - e os custos adicionais em tributos e compensações - fez com que os barões ingleses também se levantassem contra si.

Revoltas baronais não eram novidade na Inglaterra. Desde que Guilherme, o Conquistador tomou a coroa, todos os reis ingleses tiveram sua legitimidade questionada. O caso de João é que todos os seus irmãos estavam mortos (João era o mais jovem, assumindo depois que seu irmão Ricardo morreu a caminho de Jerusalém), e seus filhos muito jovens para liderarem uma revolta, então os barões tiveram que encarar a realidade de ter que fazer um acordo com o rei.

Para apaziguar os senhores de terras, João convocou um concelho em Londres e em Oxford para discutir reformas e tentar chegar a um acordo. Os rebeldes se apresentaram armados e desconfiados, trazendo consigo seus próprios soldados. João, por sua vez, contratou mercenários na França, mas hesitou em exibí-los para demonstrar força com medo de suscitar uma guerra civil na qual teria muito pouco apoio. Como os rebeldes recusassem a mediação do Papa (solicitada por João, e que não lhes seria vantajosa), o Arcebispo de Canterbury, Stephen Langton, assumiu a liderança das negociações, porém trabalhando junto a eles para a elaboração de demandas que fossem mutuamente interessantes.

Em 10 de junho, os rebeldes apresentaram o seu documento. Ele previa a proteção dos direitos da Igreja, providências contra prisões arbitrárias, acesso à justiça, e limitações às taxações e pagamentos dos senhores de terras à coroa. Versava sobre os direitos dos homens livres (basicamente, os próprios senhores de terras, excluindo servos e trabalhadores presos em semelhança à escravidão aos seus senhores por força de dívidas). Para colocar o poder real em cheque, foi proposta a criação de um concelho de 25 barões para monitorar a conformidade dos atos reais à lei. Em caso de transgressão, as propriedades reais seriam confiscadas até que seus erros fossem reparados.

O Papa Inocêncio III, por fim, respondeu aos apelos de João, excomungando os barões rebeldes e declarando-os pior do que os sarracenos, pois João declarara-se um cruzado, enfatizando sua posição de vassalo do Papa, dois anos antes. Mas já era tarde. No dia 15, João pressionou seu selo real sobre a Carta Magna, oficializando seu consentimento às demandas rebeldes.

O resultado imediato não foi bem o que as partes em contenda esperavam. Nem João nem os barões, cujo concelho de 25 racharia em questão de dias, se esforçaram em implementar as reformas. Uma das cláusulas inseridas no documento como parte do acordo de paz seria que os nobres deixassem Londres com seus soldados, o que eles se recusaram a fazer. Eles alegavam que o apelo de João ao Papa era uma transgressão, pois a cláusula 61 especificava que o rei " estava proibido de buscar algo de ninguém". Eles aproveitaram o momento para tomar o Castelo de Rochester, de propriedade do Arcebispo de Canterbury. João respondeu com seus mercenários franceses e vassalos leais, e a guerra civil eclodiu. Ela duraria cerca de um ano, sem solução clara, até a morte de João, por disenteria.

Porém, o efeito da Magna Carta se faria sentir aí. Os barões, em meio à guerra, convidaram o príncipe Luís, da França (futuro rei Luís VIII) para liderá-los e ofereceram-lhe a coroa. Mas com a morte do rei, o jovem Henrique III, de nove anos, foi coroado, e seus conselheiros compuseram uma nova versão da Carta Magna, menos conflituosa (extinguindo o concelho). Isso fez com que a aliança com o príncipe francês, que viria a ser mais um rei totalitário a quem os nobres ingleses teriam que se sujeitar no futuro, perdesse o sentido, e os fizesse voltar seu apoio a Henrique. A sua influência seria ainda mais duradoura, inspirando códigos de leis por toda Europa, e, depois, nos Estados Unidos, estruturando e regulando o Estado, dando autonomia à Igreja, e protegendo direitos civis. A Carta seria reescrita e ajustada várias vezes, e três das suas cláusulas originais estão até hoje em vigor nas leis da Inglaterra e do País de Gales.