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quinta-feira, 13 de abril de 2017

O duelo

O dia 13 de abril marca a data em que Miyamoto Musashi derrotou Sasaki Kojiro no famoso duelo entre os dois samurais na ilha de Funajima, em 1612.

Musashi já era um espadachin célebre. Tendo sobrevivido à violenta Batalha de Sekigahara ainda na adolescência, na qual lutou pelo lado derrotado, Musashi vagou pelo centro do Japão desenvolvendo sua técnica de luta. Ele já havia derrotado espadachins famosos ainda jovem, e derrotou sozinho toda a escola Yoshioka de artes marciais, em Kyoto - diz-se que, após derrotar dois dos irmãos Yoshioka, o terceiro armou uma cilada, da qual Musashi teve que derrotar-lo e abrir caminho entre os seguidores que haviam se escondido para matá-lo e fugir. Foi nessa ocasião em que ele desenvolveu seu estilo particular de luta com uma espada longa numa mão e uma curta na outra, conhecido atualmente como Hyoho Niten-ichi-ryu ("Escola de Estratégia dos Dois Céus em Um"), inédito no Japão. Nos seus duelos (que ele afirmava terem sido 60), ele costumeiramente usava uma espada de madeira - mesmo sem uma lâmina apropriada, frequentemente derrotava os desafiantes com apenas um golpe, às vezes fatal.


Kojiro emergiu como espadachin famoso ao derrotar vários oponentes usando uma nodachi, uma espada 20 cm mais longa que a katana usual, propagando também o nome da sua escola, Ganryu ("Estilo da Grande Rocha"). Ele teria desenvolvido a técnica com a nodachi para responder ao estilo do seu antigo mestre, Toda Seigen, que usava uma antiga kodachi, uma espada mais curta que uma katana, e teria deixado sua academia para fundar sua própria escola após matar o filho de Seigen em duelo. Sua espada era tão longa que ele a chamava "Varal", em alusão a altura do poste que se usava para pendurar roupas, e a lenda dizia que ele treinava abatendo pássaros em voo. Apesar do tamanho e do peso da arma (a nodachi era levada às costas, ao contrário da katana, que era presa à cintura), a sua velocidade era legendária. Em 1610 o daimyo Hosokawa Tadaoki o nomeou chefe-de-armas do seu feudo após ouvir que Kojiro derrotara três oponentes usando um leque. 

Musashi foi atraído pela reputação de Kojiro, e sugeriu por um intermediário ao lorde Hosokawa que organizasse um duelo. No dia marcado (13 de abril), Kojiro chegou à ilha Funajima, próximo ao porto de Shimonoseki, escoltado por seguidores. Musashi, que àquela altura já tinha fama de chegar atrasado aos duelos, fez o de costume, e desembarcou 3 horas mais tarde. Além do atraso, apareceu desarmado, o que ofendeu a entourage do oponente. Porém, durante a viagem, Musashi teria pego um dos remos reservas do barco e esculpido uma espada de madeira mais longa do que o Varal de Kojiro.

Quando desembarcou na ilha, Musashi ofereceu o primeiro ataque ao adversário. Kojiro teria tentado um golpe característico seu, a "cauda de pardal", um golpe de cima para baixo, seguido de um golpe no sentido contrário, rápido e preciso. Preciso o suficiente para arruinar o penteado de Musashi. Ele então ergueu sua espada esculpida e com um golpe só matou Kojiro com uma fratura no crânio. Uma versão diz que ele teria se esquivado até deixar o sol às suas costas, deixando Kojiro momentaneamente cego, e aproveitando-se para desferir o golpe fatal. Os apoiadores de Kojiro imediatamente acorreram para matá-lo, mas Musashi correu para o barco e fugiu da turba furiosa se aproveitando da maré que abaixava no momento. Uma teoria popular é que o atraso de Musashi teria sido calculado com base na maré para facilitar a sua fuga, uma vez que a ilha Funajima é plana e a baixa da maré abriria rapidamente espaço entre o barco e a ilha, e ele sabia que tentariam matá-lo caso vencesse. Outra teoria é de que Musashi teria esperado todo esse tempo para desestabilizar Kojiro, como fizera com vários outros adversários, e a baixa da maré teria sido uma providência fortuita.

Musashi, que também se tornou mestre de artes como a cerimônia do chá e a pintura, seguiu carreira servindo brevemente a outros senhores (ele se envolveu nas duas batalhas decisivas entre Tokugawa Ieyasu e as forças de Toyotomi Hideyori, novamente atuando pelo lado derrotado), e retirou-se na caverna de Reigando, onde escreveu seu derradeiro livro de estratégia, O Livro de Cinco Anéis, e faleceu, possivelmente de câncer, aos 61 anos. Até hoje é um personagem evocado em motivos nacionalistas - um dos dois super-encouraçados da marinha japonesa na Segunda Guerra Mundial (os maiores e mais pesadamente armados navios de guerra construídos até então) foi batizado com seu nome.

Esse é também o clímax da novela Musashi, de Eiji Yoshikawa, que ao longo de 7 volumes (dois gigantescos na edição brasileira) constrói a rivalidade entre os dois espadachins ao ponto em que o duelo é inevitável - o popular mangá Vagabond baseia-se na narrativa proposta por Yoshikawa com algumas liberdades. A ilha de Funajima, hoje conhecida como Ganryujima em memória a Sasaki Kojiro, é um ponto turístico de Shimonoseki acessível de balsa, onde encontra-se uma escultura em tamanho real dramatizando o célebre combate (que reproduz os oponentes com tanto realismo que a própria pegada invertida, que era o segredo do estilo de Kojiro, pode ser vista), uma espécie de "túmulo" onde as pessoas rezam por Kojiro (embora ele não esteja sepultado ali), monumentos, trechos de poemas e gravuras.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Sangue e lama

Em 21 de outubro de 1600 foi travada a Batalha de Sekigahara, no Japão, entre forças leais ao clã Toyotomi e Tokugawa Ieyasu.

A Batalha de Sekigahara foi o clímax do longo período de guerra civil conhecido como Período Sengoku ("Reinos Combatentes") que se esparramava desde 1467: os shoguns (comandantes-em-chefe do Japão e seus governantes de facto) da casa Ashikaga viram seu poder diminuir junto com a sua capacidade de administrar rivalidades políticas, causando convulsões sociais, revoltas de daimyos (senhores de terras) locais e confrontamentos diretos entre daimyos rivais. Como os imperadores, havia muito tempo, eram mais figuras cerimoniais do que atores no cenário político, a timidez dos shoguns Ashikaga na administração de conflitos transformou o Japão numa colcha de retalhos de feudos semi-independentes, permitindo a ampliação de poderes dos clãs mais poderosos do Japão, como Takeda e Hojo, às custas de senhores menores, que se aliavam ou se submetiam a eles ou eram destituídos de suas terras pela força. Em 1560 Oda Nobunaga surge no cenário político interferindo num ataque planejado por Imagawa Yoshimoto à capital do shogunato, Kyoto; ao passar pelo território do clã Oda, Nobunaga interceptou o exército de 40 mil homens de Imagawa com apenas 3 mil, atacando-os com metade desse efetivo pela retaguarda, e matando o seu comandante. Essa atitude ousada levou os comandantes de Imagawa a se unirem a Nobunaga, e sua reputação varreu o Japão.

Os Ashikaga, divididos em clãs, derrubavam-se uns aos outros em ações fratricidas, e os apelos dos shoguns e seus pretendentes atraíam daimyos para a guerra. Nobunaga garantiu a posse de Ashikaga Yoshiaki, e o seu apoio tornava o shogun um fantoche. O próprio Yoshiaki mobilizou secretamente daimyos rivais contra Nobunaga. Mais rivalidades posicionavam outros daimyos ao lado do clã Oda. Seus principais apoiadores eram Toyotomi Hideyoshi, um mero soldado que vinha ganhando o favor de Nobunaga desde a vitória sobre Imagawa, e Tokugawa Ieyasu, um pequeno daimyo que fora refém dos Oda na juventude, mas construíra um pequeno império para si absorvendo terras do poderoso clã Hojo. Em 1573 Yoshiaki tentou assassinar Nobunaga, mas acabou exilado. Nobunaga seguiria nos próximos anos esmagando toda resistência contra a sua autoridade, embora não assumisse o título de shogun, deixado vago.

Em 1582, Nobunaga derrotou o clã Hatano, e, apesar da promessa de poupar seu líder, o assassinou em seu palácio. Como represália, os Hatano assassinaram a mãe de Akechi Mitsuhide, outro dos comandantes de Nobunaga. Enlouquecido pela dor, ignorou um comando para se unir a Hideyoshi em batalha contra o clã Mori e ordenou suas tropas a tomarem o castelo dos Hatano, onde estava Nobunaga. Seu comando era de que "o inimigo está lá", deixando dúvida sobre se o inimigo era Nobunaga ou os Hatano. Ao saber da traição, Nobunaga teria cometido seppuku (suicídio ritual) antes de ser encontrado e morto. Hideyoshi então selou uma trégua com os Mori, e correu para vingar Nobunaga assassinando Mitsuhide e destruindo seu exército. A súbita morte de Oda Nobunaga tornou a situação tensa: Toyotomi Hideyoshi e Tokugawa Ieyasu, seus sucessores naturais por mérito (haviam outros Oda envolvidos, mas nenhum tinha o prestígio para conduzir uma aliança tão ampla), tinham cada um seus próprios apoiadores. Mas pela celeridade em vingar Nobunaga, o próprio Ieyasu reconheceu a precedência do colega, embora sua origem camponesa impusesse algumas dificuldades - Hideyoshi assumiria o governo da maior parte do Japão como kampaku (uma espécie de regente provisório, mas com acesso direto à família imperial), nunca como shogun. Sua origem era tão baixa que apenas nesse momento ganhou um sobrenome (Toyotomi; Hideyoshi era uma corruptela de um apelido de infância).

Àquela altura, 2/3 da Ilha de Honshu já estavam sob controle da coalizão de Nobunaga, o restante sob controle de aliados, incluindo Tokugawa. Os últimos focos de resistência foram esmagados sem clemência. A administração Hideyoshi foi marcadamente personalista: baixou decretos proibindo o porte de armas por qualquer um que não fosse um samurai (enrijeceu também as regras para que um homem se tornasse um samurai e tivesse acesso a cargos públicos e militares, estagnando a mesma mobilidade social que permitira que ele chegasse ao governo), desviou rios para inundar vilas em territórios de daimyos rebeldes e redistribuiu suas terras para os aliados, perseguiu cristãos, inclusive crucificando 26 missionários e conversos em Nagasaki. Seu projeto mais megalomaníaco foi a invasão da península coreana e sua tentativa de anexação em 1592. Seu exército chegou a ocupar a maior parte da Coréia, mas o soberano do reino local de Joseon, com auxílio da China, os expulsou do país. Uma segunda invasão em 1598 ficou retida no sul do país e logo tiveram que dar meia volta, incapaz de furar a resistência combinada de coreanos e chineses.

Hideyoshi não viveu muito para ter sua autoridade abalada pelo fracasso na Coréia. Antes de morrer, nomeou cinco daimyos para um Conselho, que governaria até que seu filho Hideyori atingisse a maioridade. Por questão de respeito, e por ter sido companheiro próximo de Nobunaga desde o início, Tokugawa Ieyasu foi nomeado entre eles. O equilíbrio do Conselho foi quebrado poucos meses depois da morte de Hideyoshi, com a morte de outro conselheiro, Maeda Toshiie. Rivais de Tokugawa, com medo de que ele se aproveitasse da ocasião para tomar o poder deixado vago pelo velho Hideyoshi, se mobilizaram. Rumores de que planejavam seu assassinato, e o crescente recrutamento de soldados pelo clã Uesugi aumentaram as tensões. Ieyasu exigiu que o daimyo Uesugi Kagekatsu fosse a Kyoto se explicar diante do imperador, mas foi retribuído com acusações de traição. Ieyasu então correu para arregimentar aliados para levar um exército até as terras de Uesugi. Outro legalista, Ishida Mitsunari, convocou outro exército em resposta.

Mitsunari espalhou soldados por toda região central do Japão, isolando com uma faixa que ia de litoral a litoral o oeste do Japão, pretendendo usar a região de Gifu como centro de operações para a ocupação de Kyoto. Ieyasu partiu da sua capital, Edo (antigo nome de Tóquio). O exército ocidental perdeu tempo em Gifu e avançou pouco em duas semanas. Um dia de chuva e uma marcha difícil o forçou a montar acampamento em Sekigahara, enquanto sua pólvora era deixada a secar. Ieyasu seguiu naquela direção. Na manhã do dia 21 de outubro, um grupo de batedores de Ieyasu desceu a planície de Sekigahara sob forte neblina, e se surpreendeu ao praticamente bater de cara com vigias do lado inimigo.

As forças ocidentais consistiam de 120 mil soldados, posicionados defensivamente com um arco de colinas às suas costas e flanqueados por dois rios. O próprio Mitsunari estava chegando de Osaka com mais 4 mil homens. Ieyasu vinha com 75 mil soldados, e a seu favor algumas unidades de arcabuzeiros com pólvora seca (o uso de arcabuzes, que provara ser vital nas vitórias de Oda Nobunaga nos anos anteriores, era uma contribuição dos comerciantes portugueses à arte da guerra japonesa). Apesar de grande desvantagem, foi Tokugawa quem tomou a iniciativa, avançando com carga total sobre os inimigos. À esquerda de Tokugawa estava posicionada a unidade do exército ocidental sob comando de Kobayakawa Hideaki. Nos meses que antecederam a batalha, Tokugawa seguia em conversações com daimyos legalistas, oferecendo-lhes terras caso passassem para o seu lado em qualquer momento, e este Hideaki era um deles. Como hesitasse em atacar um lado ou outro, Ieyasu ordenou seus arcabuzeiros a atirar naquela direção para forçar uma decisão, e ajustar então a sua própria estratégia. Hideaki mudou de lado, distraindo as forças legalistas sob Otani Yoshitsugu, que controlavam aquela área. Outros daimyos ocidentais, vendo a fragilidade da sua ala direita, também mudaram de lado.

O colapso da ala direita e a carga dos vira-casacas paralisou o exército ocidental, virando o jogo para Tokugawa. Os que restavam estavam posicionados sobre as colinas a oeste, mas um de seus comandantes recusou uma ordem de Mitsunari (que, por uma questão de ordem, não era o comandante do exército naquele dia) de avançar para a planície, impedindo a movimentação de outras unidades. Perto do fim, este comandante, Kikkawa Hiroie, passou para o lado de Ieyasu. O exército de Mitsunari se dispersou e fugiu em todas as direções. Mais de 30 mil pessoas, inclusive muitos generais e daimyos foram mortos nas terras encharcadas de Sekigahara.

Cumprindo sua promessa, Tokugawa Ieyasu autorizou a redistribuição de terras de inimigos entre os aliados, inclusive os que desertaram a seu favor. Os derrotados perderam seu prestígio político, seus títulos e suas posses. Tokugawa foi reconhecido pelo imperador como shogun em 1603. A resistência leal à casa Toyotomi ainda resistiu por algum tempo, sendo finalmente debelada no cerco ao castelo de Osaka em 1615.

Embora tenha sido percebida na época apenas como uma disputa interna entre vassalos da casa Toyotomi, Sekigahara marcou o início do fim do Japão medieval. Os shoguns do clã Tokugawa remodelariam a estrutura social e política do Japão, modernizando-o até certo ponto, quando uma onda conservadora os levaria a repelir qualquer contato com o mundo exterior (à exceção única de uma missão diplomática holandesa na baía de Nagasaki) até que, em 1854, os Estados Unidos abriram relações com o Japão com canhões. Ironicamente, descendentes de clãs ocidentais prejudicados pelos Tokugawa foram alguns dos articuladores da Revolução Meiji, que destituiu o cargo de shogun e restaurou o papel central do imperador na política.

Muitos dos personagens do Período Sengoku se tornaram figuras de reverência da História japonesa e do imaginário popular. Do sangue misturado à lama na Batalha de Sekigahara, além das raízes de um novo Japão, emergiu Miyamoto Musashi, então um jovem de 16 anos que sobrevivera lutando do lado legalista, para se tornar o samurai mais famoso do país.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

O cristianismo chega ao Japão

Em 27 de julho de 1549, o missionário jesuíta, e futuro santo, Francisco Xavier chegou ao Japão. Foi a primeira missão cristã naquele país.

Francisco, cofundador da Companhia de Jesus, teve um papel muito significativo na expansão do catolicismo na Índia (especialmente Goa, principal cidade sob controle português na Ásia e sua base de operações), na China, e nas Filipinas, enquanto viajava sob a comenda do rei João III de Portugal. Em 1547, em Malacca, na atual Malásia, enquanto oficiava um casamento, ele foi apresentado a um samurai japonês exilado chamado Anjiro. Foi o primeiro japonês que se tem notícia a se converter ao cristianismo, e exerceu influência na decisão de Francisco de tomar o caminho do Japão. Xavier estudou avidamente tudo que se sabia sobre o Japão, usando também as informações trazidas por Anjiro.

O Japão só era conhecido dos europeus através dos relatos de mercadores portugueses que eventualmente passavam pela ilha de "Cipango". De fato, mercadores portugueses introduziram as armas de fogo no Japão em 1493 e continuariam a ser seus principais fornecedores de salitre para pólvora, o que se tornaria instrumental, uma geração depois, na guerra civil conhecida como Sengoku. A notícia que chegava a Francisco Xavier era de que o povo japonês era "razoável", e que o trabalho com eles seria muito mais produtivo do que com os "pagãos" na Índia. Acompanhado de Anjiro (batizado como Paulo de Santa Fé) e outros três jesuítas, munido de presentes ao "Rei do Japão", ele partiu de Guangzhou (antigamente conhecida como Cantão), na China.

Chegar ao Japão foi simples. Talvez tenha sido a parte mais simples da missão. Os problemas começaram quando o navio não obteve permissão para aportar, até que, em meados de agosto, eles desembarcaram em Kagoshima, na ilha de Kyushu. O daimyo local, Shimazu Takahisa, recebeu amistosamente Francisco como um dignatário do rei de Portugal e sua companhia, mas logo depois proibiu radicalmente a conversão do seu povo ao cristianismo sob pena de morte. Em Yamaguchi, Mori Motonari (personagem que inspirou Hidetora Ichimonji, personagem principal do filme Ran, de Akira Kurosawa), daimyo local, permitiu que Francisco pregasse ali. Mas isso não simplificou muito as coisas.

Francisco de Assis encontrou barreiras culturais que ele não havia encontrado na Índia, onde a evangelização vinha sendo feita de maneira acidentada. A primeira, a da língua, tornou a pregação direta da Palavra impossível. Francisco recorria a pinturas que trazia da Virgem Maria e do Menino Jesus para tentar explicar conceitos básicos. Vez ou outra, em pregações, ele lia textos das Escrituras traduzidos para o japonês (no alfabeto latino, tentando reproduzir os sons das palavras), sem qualquer fluência na língua. Imagine-se lendo um texto em romanji (o japonês escrito em alfabeto romano), sem ter como saber exatamente seu conteúdo, diante de uma plateia de japoneses nativos.

A segunda barreira era a própria base religiosa do Japão. Todos os japoneses eram adeptos do budismo ou do xintoísmo. Para eles, um Deus que tenha criado tudo, inclusive o mal, não podia ser um bom deus. A danação aos não conversos também perturbava os nativos, que combatiam a ideia de que seus antepassados estivessem sofrendo no inferno. Entre os japoneses ainda corriam o boato de que os cristãos comiam carne humana, provavelmente derivado do ato simbólico de se comer a hóstia representando o corpo de Cristo no ato da comunhão. Francisco tentou se adaptar ao vocabulário local traduzindo "Deus" para "Dainichi", que é o termo usado pela escola Shingon de budismo para designar o aspecto do vazio de Buda (Anjiro, budista de origem, teria sido responsável por isso). Embora isso lhe tenha rendido uma simpatia dos monges Shingon, assim que perceberam que a ideia do Dainichi pregado era diferente, e que a religião oferecida era uma concorrente, rapidamente retiraram esse apoio. O próprio Francisco, quando notou que Dainichi era uma "divindade local", optou por apresentar Deus como "Deuso", possivelmente o primeiro exemplo de transliteração de uma palavra estrangeira para o japonês. Logo "Deuso" foi distorcido para "Daiuso", que significa "grande mentira". A elite da cidade de Yamaguchi entendia que o que estava sendo pregado era uma nova forma de budismo.

A terceira barreira dizia respeito à própria apresentação visual de Francisco e seus auxiliares. A pobreza material ostentada pelos jesuítas era considerada vulgar pelos japoneses, dos quais mesmo os mais humildes seguiam regras de etiqueta e refinamento que não eram observadas na Europa ou na Índia. A humildade da sua aparência lhe fechou a porta mais importante: sua visita ao palácio imperial em Kyoto, para uma audiência com o Imperador, foi barrada por causa das suas vestimentas inadequadas. Para tentar ganhar a simpatia com demonstrações de poder, durante uma visita ao prefeito da cidade de Nagate, Francisco exibiu-se luxuosamente vestido, assistido afetadamente por cavalheiros e serviçais ricamente paramentados (representados por seus companheiros de missão), apresentando-se como representante do reino de Portugal e oferecendo a ele presentes do seu próprio tesouro, que recebera na Índia (muitos dos quais haviam sido destinados ao Imperador).

A quarta barreia era política. Sendo a política caracteristicamente fluída, essa barreira deixou de existir em alguns momentos. Francisco Xavier chegou ao Japão num momento tumultuado, onde o shogunato Ashikaga tinha sua autoridade questionada em várias partes do país, de modo que a instabilidade política nas províncias e as alternâncias das alianças podiam mudar as regras do jogo a qualquer momento. Os jesuítas entendiam a estrutura hierárquica do Japão feudal, e que portanto seria mais proveitoso tentar conquistar as elites, e deixar que elas se encarregassem de promover conversões em suas terras. Na verdade, fazia parte do plano inicial converter o Imperador, e, a partir da sua influência, converter todo o país em pouco tempo. Mas a delegação jesuíta nunca conseguiu contactá-lo. De qualquer maneira, alguns daimyos aceitaram a conversão e até encorajaram a conversão dos seus vassalos, mas visando apenas as vantagens que isso traria no comércio com os portugueses. Em Yamaguchi, a disputa interna pelo poder na família Shimazu pode ter levado a cordialidade inicial à hostilidade aberta nos poucos meses em que a missão esteve oficialmente na cidade (ou talvez tenham sido as agitações causadas pela sua pregação veemente contra a sodomia, na época amplamente aceita no Japão). Anos mais tarde, a influência da política japonesa sobre o cristianismo levaria a situações contraditórias, como a publicação de editos imperiais banindo a religião do país logo após a concessão de permissões do shogun, enquanto alguns daimyos (notadamente os rebeldes Oda Nobunaga e Date Masamune) faziam "corpo mole" para cumprir a lei contra os cristãos em suas terras.

Não obstante, a missão de Francisco Xavier terminou após dois anos com relativo sucesso. Depois de voltar à Índia em 1551, pelo menos três congregações cristãs continuaram a funcionar nas cidades de Hirado, Yamaguchi e Bungo de maneira independente e clandestina. Quando o padre jesuíta, Gaspar Vilela, chegou ao Japão em 1556, foi recebido por cristãos na atual cidade de Oita, onde permaneceu o companheiro de Xavier, padre Cosme de Torres. O daimyo Otomo Yoshishige, que conheceu Francisco em Oita, aceitou o batismo 27 anos depois, recebendo o nome do futuro santo. O Japão chegou a ter cerca de 130 mil convertidos durante o período Sengoku antes de um edito imperial de banimento total da religião. Ao longo da história os cristãos seriam intermitentemente protegidos ou violentamente reprimidos até que, durante a Restauração Meiji no começo do século XX a liberdade religiosa foi assegurada. Cerca de 2% da população japonesa atual é adepta do cristianismo, entre católicos, protestantes, e ortodoxos, a maioria entre imigrantes e seus descendentes.

Neste dia também: Forte Negro

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Terremoto de Sanriku de 869

No dia 9 de julho de 869, um potente terremoto de pelo menos 8,4 na escala de magnitude de momento perto da costa japonesa atingiu a região de Sanriku, a costa nordeste da ilha de Honshu onde fica hoje a cidade de Sendai. Foi o primeiro terremoto precisamente datado e registrado na História do Japão. Possivelmente o tremor tenha atingido 9,0 nessa escala, devido à extensão do estrago, semelhante ao tremor ocorrido na mesma região em 2011.

O arquipélago japonês é resultado do encontro de três placas tectônicas (as placas Eurasiática, de Okhotsk, e das Filipinas) e a direta influência de outra (do Pacífico). Da convergência e sobreposição das quatro placas, a crosta terrestre se elevou, erguendo o assoalho marinho até se tornar uma cadeia de montanhas. A zona de tensão também deu origem a vários vulcões (10% de todos os vulcões ativos do mundo), e a constante fricção e acomodação das placas tectônicas e a atividade vulcânica tornam o Japão altamente propício a terremotos e maremotos (cerca de 20% de toda a atividade sísmica do mundo é registrada no Japão anualmente). Nos 30 dias que precedem este post, foram registrados 36 tremores de terra no país com pelo menos 4,1 de magnitude (o de anteontem, 6,3 em Nemuro, na ilha de Hokkaido, e exatamente 5 horas atrás um outro de 5,1 no litoral da prefeitura de Iwate).

O litoral nordeste da ilha de Honshu é a região mais suscetível a terremotos e maremotos, porque é a parte do arquipélago que está em contato com a placa do Pacífico, cujo movimento de expansão em direção ao Japão é mais veloz do que movimento das demais placas da área. A placa do Pacífico é constituída basicamente de basalto mais denso do que as rochas graníticas da placa de Okhotsk (onde aquela parte de Honshu está localizada), então ela mergulha por baixo do Japão próximo ao litoral. Como consequência do impacto e do atrito, os sismos naquela região costumam ser mais potentes. E como eles costumam ocorrer no fundo do mar, maremotos são particularmente comuns ali. Os maremotos são os reflexos mais temíveis dos terremotos do nordeste do Japão, porque mesmo que você se proteja do tremor de terra ficando em lugares abertos ou construindo edifícios à prova de abalos, as ondas gigantes viajam a grande velocidade varrendo tudo à sua frente, carregando grandes objetos e árvores, que colidem com estruturas aumentando a extensão dos danos, e nem sempre você tem tempo para correr a algum local mais alto. O maremoto no Oceano Índico de 2004, com ondas de até 30 metros de altura atingindo em cheio o Sudeste Asiático e o Sri Lanka, e chegando tão longe quanto a África do Sul, foi uma das catástrofes naturais mais letais que já ocorreram no planeta.

O terremoto de 869 foi seguido de ondas gigantes que varreram a as planícies da atual Prefeitura de Miyagi por 4 quilômetros terra adentro. Na época não havia grandes concentrações de pessoas na região ou cidades importantes, de maneira que as fatalidades e os danos materiais foram bem baixos para a potência estimada do abalo - um relatório da época notifica mais de 1000 mortos e a perda de rebanhos e alguns templos, especialmente devido às ondas gigantes. Foi o primeiro sismo registrado no Japão com uma data precisa, mas depósitos sedimentares na planície de Sendai indicam uma periodicidade de 800-1100 anos para sismos dessa magnitude nos últimos 3000 anos

A cidade de Sendai, a principal da região atualmente, foi estabelecida em 1600 pelo daimyo Date Masamune (figura que se tornaria folclórica e facilmente reconhecível como um samurai com uma lua crescente fazendo as vezes de chifres no seu capacete) em território recentemente conquistado. A planície de Sendai lhe parecia um lugar mais apropriado do que seu antigo palácio em Iwadeyama, pois era mais central em relação às suas terras, e mais próximo de Edo (atual Tóquio), a capital do shogunato. A cidade foi planejada com avenidas e linhas retas, cujo plano se manteve até hoje, reproduzido nas cidades conurbadas na Prefeitura de Miyagi, em volta de Sendai. O advento de uma ferrovia no final do século XIX ligando a Tóquio proporcionou grande crescimento populacional. A região de Miyagi comporta hoje 2,3 milhões de habitantes, quase metade deles vivendo em Sendai (a cidade possui uma densidade média de 1300 habitantes/km², chegando a quase 7000 em algumas áreas).

À medida em que Sendai e as vilas vizinhas foram se desenvolvendo, os repetidos terremotos e maremotos se tornaram cada vez mais mortíferos. Em 1611 um maremoto causado por um abalo na zona de subdução da Placa do Pacífico devastou toda a costa de Sendai (vitimando ali mais de 1700 pessoas e 3000 cavalos) até a ilha de Hokkaido, atingindo em cheio a Prefeitura de Iwate, ao norte de Miyagi, com ondas de mais de 20 metros de altura. Aparentemente foi a primeira vez que a palavra "tsunami" foi usada para descrever as ondas gigantes. Um maremoto maior ainda, com ondas de 38 metros de altura, ceifou 22 mil vidas em 1896 (os pescadores deixaram a costa pela manhã e não sentiram as ondas em mar aberto, mas ao voltarem no dia seguinte se depararam em choque com suas vilas arrasadas e corpos despedaçados). Foi apenas após outro sismo semelhante ocorrido em 1933 (cujas ondas gigantes atingiram os 9 metros de altura no Hawaii) que o Japão começou a tomar medidas de prevenção a tsunamis.

Na década de 50, o governo japonês construiu um sistema de alerta de tsunamis com 300 sensores distribuídos ao redor do arquipélago. Centenas de abrigos anti-tsunami foram construídos, sobretudo na costa leste de Honshu. Em algumas áreas foram construídas barreiras ao longo da costa para dissipar ou frear o avanço de ondas gigantes. Em julho de 1978 um terremoto de 7,7 de magnitude com epicentro próximo a Sendai resultou na morte de 28 pessoas, apesar de danos materiais consideráveis. Para tornar as cidades estruturalmente mais seguras, o governo passou a regulamentar a construção de estruturas anti-terremoto, além de medidas de contingência com relação a transporte público e controle de massas, além de revisar o sistema de seguro contra terremotos. Outro tremor violento em Kobe, em 1995, que vitimou mais de 5 mil pessoas, contribuiu para o desenvolvimento de mais políticas de segurança.

A partir de 2003 ocorreram três eventos sísmicos importantes na planície de Sendai. O primeiro foi uma sequência de terremotos que culminaram com dois tremores acima dos 7 pontos de magnitude entre maio e julho de 2003, sem fatalidades. Em 2005, outro terremoto de 7,2 de magnitude causou o colapso de construções (houve mortes numa piscina coberta cujo telhado desabou). Nessa época Sendai estava testando um sistema de alerta preventivo de terremotos, e os habitantes da cidade foram avisados 16 segundos antes da primeira onda de choque atingir a cidade, possibilitando que a maioria se abrigasse em segurança. A vida retornou à normalidade no dia seguinte. Porém nada disso preparou o Japão para o terremoto seguido de tsunami de 2011. A onda gigante (quase 10 metros de altura) veio 50 minutos depois de um tremor de 9 pontos de magnitude (o quarto maior desde o início do século XX), venceu todas as barreiras anti-tsunami no litoral e penetrou 4 quilômetros terra adentro, vitimando mais de 15000 pessoas. A usina atômica de Fukushima ao sul ficou inabalada, mas as ondas gigantes invadiram os reatores, causando derretimento dos núcleos radioativos e a explosão de três dos reatores, provocando uma contaminação por radiação em larga escala (falhas na administração da usina tem sido apontados como causas cruciais para a crise). Até hoje o assentamento das placas após o movimento brusco de 2011 tem causado réplicas sensíveis na região, enquanto técnicos tentam controlar a radiação na usina

O sismo de 2011 está naquele intervalo de tempo previsto entre os grandes abalos nessa área, contando a partir do terremoto de 869.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

O Japão se abre para o mundo

Em 8 de julho de 1854, o comodoro Matthew Perry desembarca no Japão para entregar ao governo japonês um acordo para a abertura de relações com os Estados Unidos.

No começo da década de 1850, como toda economia industrializada do seu tempo, os EUA precisavam de mercado cada vez maior para os seus produtos. Os americanos já tinham uma ativa relação comercial com a China, mas havia fatores dificultando as coisas: as estações de abastecimento de carvão para navios a vapor na costa asiática eram quase todas francesas ou inglesas, o que encarecia o transporte. Havia, também, uma atividade considerável de baleeiros americanos caçando perto do Japão e sofrendo hostilidades, como veremos a seguir. Este país, em isolamento proposital havia 220 anos, era uma fronteira de mercado a ser explorada. O presidente Millward Fillmore, em 1852, autorizou uma expedição "diplomática" ao Japão, comandada por Perry, para propor ao governo local um tratado comercial. "Diplomática" entre aspas, porque a viagem seria feita em navios de guerra.

O Japão se isolou politicamente por meio de decretos assinados pelo shogun Tokugawa Iemitsu entre 1633 e 1639, proibindo estrangeiros de entrarem no Japão, e japoneses de saírem, sob pena de morte. Essas medidas foram uma reação à influência de missionários cristãos em terras japonesas (que fomentaram a rebelião armada de Shimabara contra o shogunato) e à influência europeia, sobretudo portuguesa e espanhola, nos negócios domésticos de maneira geral. Estabelecido o isolamento, apenas os holandeses, através de uma embaixada da Companhia das Índias Orientais Holandesas, tinham autorização para fazer negócios, sem, contudo, poder sair de sua ilha artificial na baía de Nagasaki. Outros quatro postos de comércio exterior, controlados por japoneses, mantinham o comércio ativo, embora de maneira naturalmente restrita, com a China, a Coreia, os Ainu (nativos do norte do Japão e territórios russos próximos), e o reino cliente insular de Ryukyu (hoje sob administração direta japonesa). Restringir e controlar o comércio exterior também fazia parte da estratégia de Tokugawa para manter o poder dos senhores locais (daimyo) em cheque e assegurar a supremacia do clã Tokugawa.

O comodoro Perry sabia bem que não seria apenas questão de desembarcar e discutir negócios com o shogun durante o chá. O Japão já respondera com hostilidade a tentativas estrangeiras de quebrar seu isolamento. Em 1647, uma frota de navios de guerra portugueses foi repelida em Nagasaki; uma comissão russa foi expulsa do país ao chegar ao mesmo porto em 1804; em 1811, um oficial russo foi preso ao desembarcar na ilha Kunashiri; em 1837, um comerciante americano na China tentou abrir relações com o Japão levando de volta três náufragos japoneses num navio de transporte, e ao chegar perto da costa, os japoneses responderam atirando, forçando-o a dar meia volta; em 1845, o capitão de um baleeiro americano resgatou 22 náufragos japoneses e os conduziu a Edo (atual Tóquio), e, apesar de ter conseguido se reunir com o governador local e oferecido presentes, foi convidado a nunca mais por os pés no país. Em 1848 o comandante americano James Glynn forçou a sua entrada pela baía de Nagasaki para pedir a libertação de 15 náufragos de um baleeiro americano feitos prisioneiros, alguns já mortos por maus tratos. Os holandeses interviram junto aos japoneses pela libertação dos sobreviventes. Este comandante Glynn recomendou ao governo dos Estados Unidos o uso da força para abrir relações diplomáticas e comerciais com o Japão.

A expedição de Perry contava com 8 navios armados para a guerra. O próprio Perry passou alguns meses lendo tudo que encontrou sobre o Japão, arregimentou diplomatas profissionais para aconselhá-lo, e contratou desterrados japoneses como intérpretes. Ele partiu da Virgínia e navegou para o leste. chegando a Ryukyu em maio de 1853, onde ostensivamente exibiu o poderio ofensivo de sua frota e sugeriu ameaças caso não fosse recebido pelo rei em pessoa. Ele sabia que suas ações seriam reportadas ao Japão (as ilhas eram dominadas politicamente pelo clã Satsuma, uma poderosa casa feudal japonesa), então sua diligência foi bem calculada. Dali ele levou 4 navios para o Japão.

Sua parada no Japão foi na baía de Edo, perto do porto de Uraga. Ele deliberadamente manobrou os navios e os alinhou com os canhões virados para a costa. Ele chegou a disparar com os canhões descarregados, alegando serem em comemoração ao Dia da Independência (mas claramente um sinal de intimidação). Barcos japoneses cercaram os navios, e um dignatário de Uraga entregou ao comodoro a ordem de que nenhuma embarcação estrangeira tinha permissão de aportar - Perry não o recebeu, permanecendo em sua cabine até ser recebido por uma autoridade à sua altura. Outro dignatário local contactou um dos capitães da frota para convencê-lo a levar os navios a Nagasaki, onde era feito o trabalho de diplomacia com estrangeiros, mas recebeu em retornou a ameaça de que Perry desembarcaria com tropas americanas para levar a carta do presidente dos Estados Unidos com o tratado pessoalmente ao palácio de Edo. Perry prosseguiu, mandando barcos a remo inspecionar as terras em volta, ameaçando abrir hostilidades caso os homens fossem perturbados.

Enquanto isso, o prefeito de Uraga mandou mensagem ao doente Tokugawa Ieyoshi, alertando que ele não teria como impedir um desembarque americano. O governo estava paralisado pela doença do shogun - em última análise, a única autoridade universalmente reconhecida no Japão - e pela ousadia dos americanos. Por fim, os autorizou a desembarcar na praia de Kurihama, o que Perry fez acompanhado de 250 marinheiros, sob uma salva de 13 tiros de canhão e hinos militares. Com o shogun impossibilitado, a carta do presidente Fillmore foi entregue a dois membros do conselho de anciãos, o corpo governante de fato na época. Perry se retirou no dia 17, prometendo retornar na primavera.

Depois do desembarque de Perry, o comando do shogunato entrou em parafuso. O velho Ieyoshi foi substituído pelo seu filho doente Iesada, de maneira que a administração continuou a cargo do conselho de anciãos. Contudo, não havia nesse conselho quem quisesse arriscar tomar uma atitude por conta própria. Eles consultaram (pela primeira vez) os daimyo para decidir o que fazer diante da ameaça americana, ao que metade respondeu que deveriam aceitar suas condições, e metade respondeu que não - mas todos concordaram que o Japão deveria fortalecer suas defesas no litoral. Essa demonstração de fraqueza e de indecisão para fazer valer a sua lei seriam cruciais para o futuro do shogunato Tokugawa mais à frente.

Perry retornou como prometido em fevereiro de 1854 com uma frota maior. Os japoneses estavam dispostos a aceitarem os termos da carta de Fillmore, mas se negavam a travar negociações em Edo, como Perry demandava. Depois de semanas neste impasse, em certo momento o comodoro ameaçou trazer 100 navios (mais do que os Estados Unidos possuíam na época) para destruir o Japão. Ele enfim desembarcou em Yokohama com 500 marinheiros e três bandas tocando o hino americano para assinar a Convenção de Kanagawa, que abria os portos de Shimoda e Hakodate aos navios americanos, garantia a segurança a náufragos americanos em terras japonesas, e o estabelecimento de um consulado. Os dois lados trocaram quinquilharias como presentes. Depois de uma nova parada em Ryukyu, Perry retornou triunfante aos Estados Unidos.

A princípio, as autoridades japonesas se escusaram alegando que o tratado não fora assinado pelo shogun, e que, portanto, não precisava ser obedecido, nem feria a soberania japonesa (embora ele tenha sido forçosamente ratificado mais tarde pelo próprio Imperador), e nem lhes trazia alguma desvantagem em particular. Mas a incapacidade do shogunato em fazer valer suas leis, ou sequer de impor sua autoridade sobre seus vassalos, levaria a um crescente descontentamento com o regime e o surgimento de vários movimentos nacionalistas, que planejavam restaurar o poder político do Imperador - por séculos uma figura meramente cerimonial, a quem os shoguns deviam reverência, mas ao mesmo tempo limitado pelas leis impostas pelos consecutivos shogunatos. Um tratado de 1858, em que os americanos, sob o argumento da agressividade bélica de britânicos e franceses nos seus negócios com a China, induziram o Japão a abrir mais concessões aos Estados Unidos, precipitou uma crise econômica (as transações eram feitas de maneira que os estrangeiros obtinham moedas de ouro japonesas a 1/3 do valor internacional, resultando numa rápida fuga de divisas), agitações populares, ataques a estrangeiros, e insurreições que levariam à conflagração de uma guerra civil. Em 1867, Yoshinobu, o último shogun Tokugawa, entregou seu cargo ao jovem imperador Meiji, líder espiritual da facção vencedora. Com sua liderança, o Japão, por tanto tempo isolado, entraria com força no cenário internacional.