Em 13 de outubro de 54 d.C., o imperador romano Cláudio sucumbiu a um envenenamento.
Cláudio nasceu no seio da família mais poderosa de Roma do seu tempo. De fato, no núcleo da primeira dinastia reinante do Império Romano, a dinastia Júlio-Claudiana formada a partir de Otaviano, filho adotivo de Júlio César, e seguida pelo tio de Cláudio, Tibério. Roma fora governada pelos dois por um total de 63 anos, vivendo um período de expansão, estabilidade interna e institucional, e prosperidade como os mais velhos nunca haviam visto.
Apesar da estabilidade política, garantida pela habilidade de Otaviano e Tibério na condução da coisa pública, a questão dinástica que conduziria Cláudio ao poder não é nada simples.
Otaviano fora escolhido em testamento por Júlio César antes de morrer como seu sucessor legal, o que lhe dava prestígio para assumir, apesar de ter apenas 19 anos, um lugar entre os veteranos generais Marco Antonio e Lépido no triunvirato que governou Roma durante a guerra civil que se seguiu. A guerra, que começou contra os assassinos de César, terminou com a vitória de Otaviano sobre Antonio e sua coroação no ano 27 a.C.. Otaviano reinou por 40 anos, tempo no qual transformou a si mesmo numa figura monárquica (Imperator, incorporando ao seu nome os títulos de Augustus Caesar), gradualmente enfraquecendo as instituições republicanas do consulado e do senado. A República Romana, virulentamente anti-monarquista, viria a aceitar a ideia de ter um cidadão sobre os demais, a ser sucedido por herdeiros de sangue ou adoção.
Durante a guerra civil entra em cena uma jovem chamada Lívia. Da antiga e prestigiosa família (gens) dos Cláudios, Lívia parece ter persuadido Otaviano a se divorciar de sua segunda esposa, Scribonia, para ficar consigo (Otaviano se divorciou no dia em que Scribonia dava à luz sua única filha Júlia). De família de origem plebeia, a união de Otaviano com Lívia trouxe benefícios para ambos. A astúcia de Lívia era infernal, e com ela protegia o marido das intrigas palacianas, ao mesmo tempo em que Otaviano, igualmente sagaz, mantinha suas maquinações permanentemente em cheque. Os dois viveram juntos por 43 anos, mas não tiveram filhos. Lívia trazia de seu casamento anterior com seu primo Tibério Cláudio Nero (nomes que se repetem muito na família) dois filhos, Tibério (igualmente Tibério Cláudio Nero) e Druso.
No entanto, Otaviano tinha como favorito um sobrinho seu chamado Marcelo, com quem casou a filha Júlia tendo em vistas legitimá-lo como sucessor. Lívia, por sua vez, também tinha seu favorito, o mais velho Tibério - político e militar hábil, mas emocionalmente inseguro e influenciável. Marcelo morreu dois anos depois do seu casamento, e cronistas antigos como Cassio Dio sugeriam que teria sido envenenado por Lívia. Talvez pressentindo alguma armação da esposa, Otaviano voltou-se ao seu amigo Agripa (com quem também casou Júlia), veterano da guerra civil, nomeando-lhe para importantes cargos administrativos. Seus filhos Gaio e Lúcio também figuravam entre os favoritos à sua sucessão. Os dois também morreram no auge do vigor físico de doenças misteriosas com dois anos de intervalo entre si (Tácito também sugere a participação de Lívia). Com os dois fora do caminho, finalmente Tibério caíra nas graças do imperador. Seu irmão Druso morrera pouco antes dos dois rapazes, supostamente devido à queda de um cavalo (dessa vez, a suspeita recai sobre Otaviano, alvo de críticas suas escritas em carta entre a queda do cavalo e sua morte).
Druso era um militar competente de quem Otaviano gostava muito. Estava encarregado da principal frente de combate nas fronteiras do império, na Germania Inferior. Os legionários sob seu comando também o adoravam (após a sua morte eles erigiram uma torre de tijolos em sua homenagem, que existe até hoje em Mainz, na Alemanha). Druso se casara com Antonia, filha de Marco Antonio, e teve com ela três filhos: Germânico, Livilla, e Cláudio. Germânico era um militar tão competente e carismático quanto Druso, em parte herdando seu prestígio, e em grande parte construindo sua própria carreira com vitórias decisivas contra os germânicos no norte. Livilla era o oposto do ideal de modéstia e austeridade da mulher romana. E Cláudio, o mais novo, era visto como uma aberração.
As descrições de Cláudio, do seu temperamento, comportamento, características físicas, nos levam a supor que ele teve algum problema congênito ao nascer. Ele tinha dificuldades de fala e locomoção ("claudius", coincidentemente, significa "manco"), tinha crises de gagueira, tiques nervosos ou espasmos que pioravam quando sob stress, especialmente quando se pronunciava em público. Seu quadro se parece com paralisia cerebral. Era intelectualmente saudável, dedicando sua vida aos livros, mas seu aspecto físico o levava a ser tratado pela própria família como um retardado, e mantido longe dos olhos do público, embora Otaviano se interessasse pelos seus estudos (Cláudio escreveu uma História dos Etruscos, que seria possivelmente a fonte mais valiosa sobre aquele povo se o livro tivesse sobrevivido até o nosso tempo). Suas limitações físicas talvez o tenham mantido em "segurança" enquanto as cabeças caíam à sua volta.
As maquinações de Lívia levaram Tibério ao poder (foi nos primeiros anos de Tibério que Germânico foi morto), e ela continuou desempenhando um papel central na política romana até seus últimos anos. A harmonia entre os dois desapareceu à medida em que aumentava o ressentimento de Tibério pela mãe, a quem devia seu próprio posto. Quando ela morreu, Tibério mandou seu sobrinho-neto Calígula (filho de Germânico) em seu lugar para lhe prestar as últimas homenagens. Tibério passou os seus últimos anos isolado na ilha de Capri, entregue a orgias sexuais e bebedeiras (sua paranóia devido a uma tentativa de golpe armado pelo prefeito pretoriano Sejano, cria de Lívia e com quem Livilla tinha um caso, o tornou ainda mais recluso). No final, Tibério era tão impopular que, ao receber a notícia da sua morte, o povo celebrou nas ruas, apenas para ficar em silêncio quando se soube que ele estava se recuperando, e voltar a festejar quando se soube da sua morte pelas mãos do próprio sobrinho-neto. Sem Lívia para regular o ambiente em torno do trono, Tibério, cujo único filho já estava morto, entregou em testamento seu cargo para Calígula e seu neto Gemelo.
O primeiro ato de Calígula foi anular o testamento de Tibério e mandar executar Gemelo.
Depois de mais de 60 anos de estabilidade, Calígula governou Roma como um louco. Apesar de ter tentado manter uma aparência republicana nos primeiros meses e promovendo o bem público, ele tomou rapidamente outro rumo depois de uma suposta tentativa de envenenamento. Empreendeu perseguições e execuções sem julgamento, não poupando sequer suas irmãs, que também eram suas amantes. Seu tio Cláudio, com suas deficiências, era mantido por perto para a sua diversão, como uma espécie de bobo, em quem convidados dos banquetes eram encorajados a atirarem caroços de frutas. Patrocinando eventos teatrais e jogos de proporções gigantescas, levou o império à sua primeira crise econômica (houve um ponto em que a fome afetou o império porque Calígula havia requisitado todos os navios disponíveis para construir uma ponte de mais de 3 quilômetros perto de Puteoli, simulando a ponte de Xerxes sobre o Estreito de Bósforo, sobre a qual cavalgou sozinho em seu cavalo Incitato usando a armadura de Alexandre, o Grande). No final, o senado, os patrícios e os cavaleiros queriam se ver livres dele. Calígula foi assassinado durante um festival de teatro por Cassio Querea, prefeito pretoriano constantemente humilhado em público pelo imperador.
Além de Calígula, vários nobres ligados a ele e familiares (incluindo sua esposa "oficial" Cesonia e sua filha de dois anos) também foram assassinados. Cláudio, que estava no palácio, entendeu que mesmo estando fora da cena política ele poderia ser o próximo, e se escondeu. Um guarda pretoriano o encontrou atrás de uma cortina e o chamou, talvez em tom sarcástico, de "princeps". Enquanto tudo estava confuso, o guarda o escoltou para o acampamento da guarda pretoriana, talvez para discutir o seu preço, ou, talvez ainda, usá-lo como títere. Os senadores, incluindo os conspiradores, se reuniram às pressas, e rapidamente se dividiram em facções, incapazes de concordar com o nome do próximo imperador. O único nome seguro e com alguma legitimidade que ainda tinham era o pobre Cláudio (que, por segurança, se recusou a atender à reunião em pessoa).
Aos 50 anos, de aberração e bobo da corte a imperador de Roma. Cláudio procurou assegurar sua posição perdoando os senadores envolvidos no assassinato de Calígula, assim como perdoando certas dívidas e distribuindo subornos (como, por exemplo, na forma de um aumento substancial no soldo da guarda pretoriana), ao mesmo tempo em que reafirmava aos que não o conheciam que ele era da linhagem de Augusto, até mesmo de Júlio César (alterou seu nome para Tibério Cláudio César Augusto Germânico, nomes de todos os notáveis que o precederam). Também lançou uma ambiciosa e bem sucedida invasão à Grã-Bretanha, usando-se de quatro legiões, elefantes de guerra, incontáveis navios, efetivamente submetendo várias tribos célticas que habitavam a ilha e assegurando uma nova posição romana por lá, pavimentando o caminho para a sua subsequente colonização. Por causa disso, foi consagrado com um desfile em triunfo pelas ruas de Roma e aclamado como deus vivo. Cláudio também cativava o povo com seu gosto pelos jogos, promovendo certa vez uma encenação de uma batalha naval, colocando dois navios autênticos dentro de um estádio inundado, com marinheiros e soldados a bordo, simulando a Batalha do Lago Fucino. Também era um legislador razoável, com uma paixão particular pela função de magistrado.
Cláudio não teve sorte com as mulheres. Depois de dois noivados cancelados (o primeiro por problemas políticos, o segundo pela morte súbita da noiva no dia do casamento), casou-se quatro vezes com mulheres que lhe eram indiferentes, abusivas ou manipuladoras. A terceira esposa, Messalina, tomou vários amantes a ponto de competir com uma prostituta conhecida para saber quem conseguiria ter mais relações com homens diferentes durante uma noite, pelo que "messalina" se tornou sinônimo de prostituta, e foi executada por conspiração e adultério (Messalina se casou em público com um amante enquanto Cláudio supervisionava a chegada de navios de grãos no porto de Ostia). A última esposa, sua sobrinha Agripina, tinha um filho, que também era neto de Germânico, chamado Lúcio Domício, ou Nero (o último e mais famoso Nero da dinastia Júlio-Claudiana).
Nero já tinha 12 anos, era 4 anos mais velho que o jovem Britânico, filho de Cláudio e Messalina. Agripina convenceu Cláudio a adotar Nero, para assegurar uma sucessão segura ao trono. A exemplo de Tibério, deixou em testamento o seu posto para Nero e Britânico, sendo o primeiro encarregado dos negócios públicos até o segundo atingir a maioridade. Em certo momento, Agripina, cujo casamento era meramente por interesse, e Cláudio, que entrara no negócio atraído pela sua beleza física, passaram a brigar constantemente, e nos seus lamentos, Cláudio teria lembrado que Britânico chegaria à maioridade e traria novo brilho à sua família. Com a posição de Nero ameaçada, Agripina teria planejado sua morte por envenenamento, possivelmente fazendo-o comer cogumelos tóxicos. A dose teria sido mal calculada, de modo que a agonia teria demorado horas, e requerido uma outra dose. Meses depois de um funeral com honras divinas, seu filho Britânico foi morto pelo próprio Nero, que se tornou o último imperador da sua dinastia.
Os dois romances de Robert Graves - "Eu, Claudius, Imperador", e "Claudius, o Deus, e Messalina" - narrados em primeira pessoa, são as principais recriações e as obras literárias modernas mais completas sobre a vida de Cláudio e a crueldade dos bastidores da política romana que o conduziram ao poder e levaram à sua queda.
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terça-feira, 13 de outubro de 2015
quarta-feira, 9 de setembro de 2015
Águias perdidas na floresta de Teutoburgo
Em 9 de setembro do ano 9 d.C., três legiões romanas foram aniquiladas por uma coalizão de tribos germânicas na Batalha de Teutoburgo.
Nos seus últimos anos, a República Romana avançou suas fronteiras sobre a Gália, atual França, estabelecendo uma nova linha de fronteira ao longo do rio Reno. A Gália havia muito era habitada por povos celtas, que viviam assentados em vilas e aldeias e cultivavam a terra, de maneira que aquele novo território se tornou prontamente uma valiosa aquisição para a economia romana, ao mesmo tempo em que o modo de vida romano não pareceria tão estranho aos povos nativos, que continuariam vivendo e produzindo mais ou menos como já vinham fazendo. A conquista da Gália rendeu ao seu comandante, Júlio César, prestígio suficiente para se tornar a figura mais influente de todo aquele império "republicano", desencadeando uma série de eventos que levaria à transformação de Roma em um império de fato, sob seu herdeiro Otaviano Augusto.
A nova fronteira se mostrou bastante prática. Era possível navegar em vias fluviais do Mediterrâneo até a foz do Reno, na Holanda, com curtas passagens por terra, evitando a longa e perigosa volta pelo Atlântico. Além disso, como a Gália já possuía uma infraestrutura de abastecimento de homens e víveres, as fortalezas fronteiriças poderiam ser sustentadas sem grandes dispêndios. A nascente do Reno, nos Alpes, fica a poucos quilômetros de terreno montanhoso da nascente do rio Danúbio, que os romanos também controlavam em todo o seu curso. A linha Reno-Danúbio era tão eficaz que sustentou a fronteira do império na Europa, a despeito de todos os seus problemas e crises internas, até meados do século V. Quando consolidada a conquista da Gália, os romanos dividiram as terras ao longo do Reno em duas províncias, a Germania Superior e a Germania Inferior.
O nome Germania derivava da designação genérica que os romanos davam aos povos que habitavam o norte da Europa. De fato, foi o próprio Júlio César quem primeiro reportou os povos "bárbaros" das florestas do norte como "germanos", mais especificamente Germani Cisrhenani ("germanos d'além Reno"). Além do Reno, várias tribos de uma mesma família linguística, que hoje conhecemos como germânica, vinham migrando do norte, da Escandinávia e do norte da Alemanha e da Polônia desde pelo menos o século VIII a.C., deslocando os povos célticos que ali habitavam em direção à Gália ou à Grã-Bretanha. Foi esse movimento migratório de tribos germânicas em direção ao sul e à Gália (a Bélgica já era ocupada por tribos germânicas) que motivou a campanha de César. Esses povos migrantes ainda estavam completando o período formativo de sua própria civilização, habitando aldeias esparsas e praticando a agricultura e pastoreio rústicos em torno de suas vilas, deixando a maior parte das florestas intocadas. A visão de um observador romano olhando para o leste da nova fronteira, na Bélgica, seria de uma região assombrosamente selvagem e primitiva, e seus habitantes igualmente selvagens. Essa região inóspita para o estilo de vida romano ficou conhecida como Germania Magna.
César advogava que os germanos, a contrário dos celtas, eram violentos e incivilizados, representavam um perigo para os romanos, e por isso precisavam ser conquistados. Durante o governo de Otaviano, Roma fortificou sua fronteira ao longo do Reno. Apesar de todas as vantagens, Otaviano via com bons olhos o avanço da fronteira sobre a porção de terras cobertas por florestas da Germania Magna até o rio Elba, que corta o centro da atual Alemanha, reduzindo significativamente a extensão de fronteira a ser defendida, e absorvendo um grande contingente de germanos para o seu império. Na virada do milênio, uma confederação de tribos germânicas mais próximas à fronteira romana, "march men", "homens da fronteira", ou marcomanos, vinham fustigando as posições romanas na Germania Superior. Essa força súbita dos marcomanos se devia ao movimento causado pela campanha bem sucedida de Nero Cláudio Druso (pai do futuro imperador Cláudio) em 9 a.C., e outra liderada por Tibério (outro futuro imperador), chegando a atravessar o rio Wesser, que atravessa a atual cidade de Bremen (cuja foz está a cerca de 50 km da foz do Elba), que levou esses marcomanos a entrar em território ocupado por outras tribos e estabelecer alianças. O rei eleito entre eles, Maroboduo, ainda teve que suportar uma campanha ainda maior, com mais de 80 mil soldados romanos Germania adentro, no ano 6 d.C.. Ele conseguiu se sustentar porque Tibério teve que recuar para atender a uma rebelião na Ilíria.
Com os marcomanos acuados, Otaviano lançou mão de Públio Quntículo Varo, administrador experiente e impiedoso, para consolidar a ocupação romana na Germania, onde já contavam com pelo menos dois fortes. A seu serviço, apenas três legiões, a XVII, a XVIII e a XIX (as três legiões com experiência contra os germanos na campanha anterior), enquanto outras estavam mobilizadas na Ilíria. Foi neste momento em que Armínio entrou em cena.
A campanha de Druso trouxe para Roma como refém Armínio, jovem de família nobre da tribo germânica dos queruscos. Armínio foi educado e treinado nas artes militares, chegando a conseguir cidadania romana e uma posição na classe dos equites ("cavaleiros", geralmente funcionários públicos, donos de negócios, algo que se poderia comparar com uma classe burguesa). Sua posição e nascimento lhe garantiam influência sobre outros germanos dentro do império, e assim ele liderou um destacamento de queruscos a serviço dos romanos durante a conquista da Panonia (atual Hungria). No ano 7 d.C., ele retornou à Germania além do Reno, conquistando a lealdade das tribos recém subjugadas por Roma, tribos anteriormente inimigas entre si, ganhando a confiança de Públio Varo. Mas logo ele começou a conspirar contra os romanos.
Em 9 d.C., Armínio procurou Varo para denunciar uma rebelião no norte da Germania. Com a orientação de Armínio, Varo conduziu suas três legiões em direção à foz do Wesser, em terreno desconhecido. Em um certo momento, o chefe germânico deixou o destacamento sob pretexto de arregimentar as tribos locais para dar suporte à expedição. Mas assim que saiu das vistas de Varo, Armínio começou a comandar uma série de ataques às guarnições romanas deixadas para trás, cortando comunicações e linhas de suprimentos. Os romanos não marchavam em formação de combate, e enfrentavam um temporal, com terreno encharcado e estreito, estendendo a linha de marcha em talvez 20 quilômetros. Varo não mandara nenhum batedor à frente confiando nas direções de Armínio. Em 7 de setembro, na floresta de Teutoburgo, perto de Onasbrück, os germanos comandados por Armínio saíram em torrentes das florestas ao redor para combater o exército desorganizado. A reação de Varo e seus comandantes foi imediata, mas o conhecimento militar de Armínio foi decisivo, direcionando seus homens para responder às manobras defensivas romanas, concentrando-os em pontos específicos da linha inimiga onde pudesse impor alguma superioridade numérica.
Os romanos sustentaram o ataque até a noite, quando montaram um acampamento fortificado perto da atual Ostercappeln, de onde tentaram uma retirada organizada na manhã seguinte. Muitos dos que tentaram deixar o acampamento, contudo, foram abatidos pelos germanos que inundavam as florestas ao redor. Os que escaparam deveram sua sorte à chuva, que inutilizava as cordas dos arcos e encharcava os escudos dos agressores posicionados para impedir sua fuga. Na noite seguinte, os romanos arriscaram uma marcha pela passagem estreita entre a floresta e a colina de Kalkriese, em Onnasbrück. Ali, os germanos cavaram uma trincheira bloqueando o caminho, e na margem da floresta levantaram uma barreira de terra. Na manhã de 9 de setembro, os romanos foram emboscados e aniquilados. Os que não tombaram pelas espadas e dardos germânicos, suicidaram-se à maneira considerada digna pelos militares romanos, atirando-se sobre suas próprias espadas para evitar serem capturados. Cerca de 20 mil dos 30 mil legionários romanos foram mortos. Armínio enviou a cabeça de Varo a Maroboduo, que àquela altura estava atacando o Danúbio. As águias de bronze, que vinham sobre os estandartes de cada legião, se tornaram tesouros para os germanos.
A derrota de Varo foi recebida com assombro em Roma. A Germania Magna foi abandonada, e as guarnições de fronteira voltaram a reforçar as defesas ao longo do Reno. Ela significou o fim da expansão romana no norte da Europa continental, embora os romanos, eventualmente, enviassem expedições punitivas contra germanos quando estes atacavam a fronteira. A mais importante dessas expedições, liderada por um filho de Druso, Germânico, já sob o governo de seu tio Tibério, resgatou duas das três águias imperiais em poder de Armínio, o que fez de Germânico um herói em Roma e arruinou o poder de Armínio entre seus aliados. Uma campanha em 41 d.C. recuperou a terceira águia, e uma última nove anos depois derrotou um bando da tribo dos catos na outra margem do Reno e resgatou alguns prisioneiros romanos das legiões de Varo, mantidos em cativeiro havia 40 anos. Apesar das campanhas punitivas bem sucedidas - a campanha de Germânico arrasou as tribos locais durante dois anos - os romanos nunca mais tentaram povoar a região. É possível que, com o tempo, a ideia de avançar a fronteira até o Elba tenha sido vista com mais reservas, devido às dificuldades logísticas - as rotas de abastecimento teriam que ser feitas por terra, ou por navegação oceânica. A numeração das três legiões perdidas nunca mais foi utilizada.
A derrota em Teutoburgo poderia ter sido mais trágica para Roma se não fosse uma rivalidade repentina surgida entre Armínio e Maroboduo - o rei marcomano, ao receber a cabeça de Varo com uma proposta de aliança, recusou-a e a enviou de volta a Otaviano em sinal de respeito, e quando Germânico marchou contra o querusco, Maroboduo se manteve neutro. A união entre os dois chefes germânicos, atacando simultaneamente em dois pontos da fronteira, poderia ter comprometido o domínio romano no Danúbio e na própria Gália. Ao invés disso, eles entraram em guerra em 17 d.C.. Uma manobra romana devolveu aos marcomanos um nobre local sob sua tutela, e Maroboduo fugiu para a Itália, onde morreu após 18 anos na prisão. Armínio morreu em 21 d.C., assassinado por rivais queruscos.
A Germania Magna, da qual os romanos abriram mão após Teutoburgo, continuou a ser o caldeirão onde as tribos germânicas se desenvolviam e se moviam, e apoiavam seus eventuais ataques às fronteiras. Um surto de movimentos migratórios em cadeia, originados pela migração dos hunos vindos do norte do Mar Negro no século IV, empurraria as tribos germânicas furiosamente contra as fronteiras do império até que elas não resistissem mais. Sob essa perspectiva, Teutoburgo poderia representar a primeira grande derrota do Império Romano, uma com consequências fatais a longo prazo. Os povos germânicos que furaram o bloqueio e estabeleceram-se em território romano, e os que permaneceram no centro e no norte da Europa, contribuíram para a formação étnico-linguística e a reorganização política e social do continente (e do mundo afora) até os dias de hoje.
Nos seus últimos anos, a República Romana avançou suas fronteiras sobre a Gália, atual França, estabelecendo uma nova linha de fronteira ao longo do rio Reno. A Gália havia muito era habitada por povos celtas, que viviam assentados em vilas e aldeias e cultivavam a terra, de maneira que aquele novo território se tornou prontamente uma valiosa aquisição para a economia romana, ao mesmo tempo em que o modo de vida romano não pareceria tão estranho aos povos nativos, que continuariam vivendo e produzindo mais ou menos como já vinham fazendo. A conquista da Gália rendeu ao seu comandante, Júlio César, prestígio suficiente para se tornar a figura mais influente de todo aquele império "republicano", desencadeando uma série de eventos que levaria à transformação de Roma em um império de fato, sob seu herdeiro Otaviano Augusto.
A nova fronteira se mostrou bastante prática. Era possível navegar em vias fluviais do Mediterrâneo até a foz do Reno, na Holanda, com curtas passagens por terra, evitando a longa e perigosa volta pelo Atlântico. Além disso, como a Gália já possuía uma infraestrutura de abastecimento de homens e víveres, as fortalezas fronteiriças poderiam ser sustentadas sem grandes dispêndios. A nascente do Reno, nos Alpes, fica a poucos quilômetros de terreno montanhoso da nascente do rio Danúbio, que os romanos também controlavam em todo o seu curso. A linha Reno-Danúbio era tão eficaz que sustentou a fronteira do império na Europa, a despeito de todos os seus problemas e crises internas, até meados do século V. Quando consolidada a conquista da Gália, os romanos dividiram as terras ao longo do Reno em duas províncias, a Germania Superior e a Germania Inferior.
O nome Germania derivava da designação genérica que os romanos davam aos povos que habitavam o norte da Europa. De fato, foi o próprio Júlio César quem primeiro reportou os povos "bárbaros" das florestas do norte como "germanos", mais especificamente Germani Cisrhenani ("germanos d'além Reno"). Além do Reno, várias tribos de uma mesma família linguística, que hoje conhecemos como germânica, vinham migrando do norte, da Escandinávia e do norte da Alemanha e da Polônia desde pelo menos o século VIII a.C., deslocando os povos célticos que ali habitavam em direção à Gália ou à Grã-Bretanha. Foi esse movimento migratório de tribos germânicas em direção ao sul e à Gália (a Bélgica já era ocupada por tribos germânicas) que motivou a campanha de César. Esses povos migrantes ainda estavam completando o período formativo de sua própria civilização, habitando aldeias esparsas e praticando a agricultura e pastoreio rústicos em torno de suas vilas, deixando a maior parte das florestas intocadas. A visão de um observador romano olhando para o leste da nova fronteira, na Bélgica, seria de uma região assombrosamente selvagem e primitiva, e seus habitantes igualmente selvagens. Essa região inóspita para o estilo de vida romano ficou conhecida como Germania Magna.
César advogava que os germanos, a contrário dos celtas, eram violentos e incivilizados, representavam um perigo para os romanos, e por isso precisavam ser conquistados. Durante o governo de Otaviano, Roma fortificou sua fronteira ao longo do Reno. Apesar de todas as vantagens, Otaviano via com bons olhos o avanço da fronteira sobre a porção de terras cobertas por florestas da Germania Magna até o rio Elba, que corta o centro da atual Alemanha, reduzindo significativamente a extensão de fronteira a ser defendida, e absorvendo um grande contingente de germanos para o seu império. Na virada do milênio, uma confederação de tribos germânicas mais próximas à fronteira romana, "march men", "homens da fronteira", ou marcomanos, vinham fustigando as posições romanas na Germania Superior. Essa força súbita dos marcomanos se devia ao movimento causado pela campanha bem sucedida de Nero Cláudio Druso (pai do futuro imperador Cláudio) em 9 a.C., e outra liderada por Tibério (outro futuro imperador), chegando a atravessar o rio Wesser, que atravessa a atual cidade de Bremen (cuja foz está a cerca de 50 km da foz do Elba), que levou esses marcomanos a entrar em território ocupado por outras tribos e estabelecer alianças. O rei eleito entre eles, Maroboduo, ainda teve que suportar uma campanha ainda maior, com mais de 80 mil soldados romanos Germania adentro, no ano 6 d.C.. Ele conseguiu se sustentar porque Tibério teve que recuar para atender a uma rebelião na Ilíria.
Com os marcomanos acuados, Otaviano lançou mão de Públio Quntículo Varo, administrador experiente e impiedoso, para consolidar a ocupação romana na Germania, onde já contavam com pelo menos dois fortes. A seu serviço, apenas três legiões, a XVII, a XVIII e a XIX (as três legiões com experiência contra os germanos na campanha anterior), enquanto outras estavam mobilizadas na Ilíria. Foi neste momento em que Armínio entrou em cena.
A campanha de Druso trouxe para Roma como refém Armínio, jovem de família nobre da tribo germânica dos queruscos. Armínio foi educado e treinado nas artes militares, chegando a conseguir cidadania romana e uma posição na classe dos equites ("cavaleiros", geralmente funcionários públicos, donos de negócios, algo que se poderia comparar com uma classe burguesa). Sua posição e nascimento lhe garantiam influência sobre outros germanos dentro do império, e assim ele liderou um destacamento de queruscos a serviço dos romanos durante a conquista da Panonia (atual Hungria). No ano 7 d.C., ele retornou à Germania além do Reno, conquistando a lealdade das tribos recém subjugadas por Roma, tribos anteriormente inimigas entre si, ganhando a confiança de Públio Varo. Mas logo ele começou a conspirar contra os romanos.
Em 9 d.C., Armínio procurou Varo para denunciar uma rebelião no norte da Germania. Com a orientação de Armínio, Varo conduziu suas três legiões em direção à foz do Wesser, em terreno desconhecido. Em um certo momento, o chefe germânico deixou o destacamento sob pretexto de arregimentar as tribos locais para dar suporte à expedição. Mas assim que saiu das vistas de Varo, Armínio começou a comandar uma série de ataques às guarnições romanas deixadas para trás, cortando comunicações e linhas de suprimentos. Os romanos não marchavam em formação de combate, e enfrentavam um temporal, com terreno encharcado e estreito, estendendo a linha de marcha em talvez 20 quilômetros. Varo não mandara nenhum batedor à frente confiando nas direções de Armínio. Em 7 de setembro, na floresta de Teutoburgo, perto de Onasbrück, os germanos comandados por Armínio saíram em torrentes das florestas ao redor para combater o exército desorganizado. A reação de Varo e seus comandantes foi imediata, mas o conhecimento militar de Armínio foi decisivo, direcionando seus homens para responder às manobras defensivas romanas, concentrando-os em pontos específicos da linha inimiga onde pudesse impor alguma superioridade numérica.
Os romanos sustentaram o ataque até a noite, quando montaram um acampamento fortificado perto da atual Ostercappeln, de onde tentaram uma retirada organizada na manhã seguinte. Muitos dos que tentaram deixar o acampamento, contudo, foram abatidos pelos germanos que inundavam as florestas ao redor. Os que escaparam deveram sua sorte à chuva, que inutilizava as cordas dos arcos e encharcava os escudos dos agressores posicionados para impedir sua fuga. Na noite seguinte, os romanos arriscaram uma marcha pela passagem estreita entre a floresta e a colina de Kalkriese, em Onnasbrück. Ali, os germanos cavaram uma trincheira bloqueando o caminho, e na margem da floresta levantaram uma barreira de terra. Na manhã de 9 de setembro, os romanos foram emboscados e aniquilados. Os que não tombaram pelas espadas e dardos germânicos, suicidaram-se à maneira considerada digna pelos militares romanos, atirando-se sobre suas próprias espadas para evitar serem capturados. Cerca de 20 mil dos 30 mil legionários romanos foram mortos. Armínio enviou a cabeça de Varo a Maroboduo, que àquela altura estava atacando o Danúbio. As águias de bronze, que vinham sobre os estandartes de cada legião, se tornaram tesouros para os germanos.
A derrota de Varo foi recebida com assombro em Roma. A Germania Magna foi abandonada, e as guarnições de fronteira voltaram a reforçar as defesas ao longo do Reno. Ela significou o fim da expansão romana no norte da Europa continental, embora os romanos, eventualmente, enviassem expedições punitivas contra germanos quando estes atacavam a fronteira. A mais importante dessas expedições, liderada por um filho de Druso, Germânico, já sob o governo de seu tio Tibério, resgatou duas das três águias imperiais em poder de Armínio, o que fez de Germânico um herói em Roma e arruinou o poder de Armínio entre seus aliados. Uma campanha em 41 d.C. recuperou a terceira águia, e uma última nove anos depois derrotou um bando da tribo dos catos na outra margem do Reno e resgatou alguns prisioneiros romanos das legiões de Varo, mantidos em cativeiro havia 40 anos. Apesar das campanhas punitivas bem sucedidas - a campanha de Germânico arrasou as tribos locais durante dois anos - os romanos nunca mais tentaram povoar a região. É possível que, com o tempo, a ideia de avançar a fronteira até o Elba tenha sido vista com mais reservas, devido às dificuldades logísticas - as rotas de abastecimento teriam que ser feitas por terra, ou por navegação oceânica. A numeração das três legiões perdidas nunca mais foi utilizada.
A derrota em Teutoburgo poderia ter sido mais trágica para Roma se não fosse uma rivalidade repentina surgida entre Armínio e Maroboduo - o rei marcomano, ao receber a cabeça de Varo com uma proposta de aliança, recusou-a e a enviou de volta a Otaviano em sinal de respeito, e quando Germânico marchou contra o querusco, Maroboduo se manteve neutro. A união entre os dois chefes germânicos, atacando simultaneamente em dois pontos da fronteira, poderia ter comprometido o domínio romano no Danúbio e na própria Gália. Ao invés disso, eles entraram em guerra em 17 d.C.. Uma manobra romana devolveu aos marcomanos um nobre local sob sua tutela, e Maroboduo fugiu para a Itália, onde morreu após 18 anos na prisão. Armínio morreu em 21 d.C., assassinado por rivais queruscos.
A Germania Magna, da qual os romanos abriram mão após Teutoburgo, continuou a ser o caldeirão onde as tribos germânicas se desenvolviam e se moviam, e apoiavam seus eventuais ataques às fronteiras. Um surto de movimentos migratórios em cadeia, originados pela migração dos hunos vindos do norte do Mar Negro no século IV, empurraria as tribos germânicas furiosamente contra as fronteiras do império até que elas não resistissem mais. Sob essa perspectiva, Teutoburgo poderia representar a primeira grande derrota do Império Romano, uma com consequências fatais a longo prazo. Os povos germânicos que furaram o bloqueio e estabeleceram-se em território romano, e os que permaneceram no centro e no norte da Europa, contribuíram para a formação étnico-linguística e a reorganização política e social do continente (e do mundo afora) até os dias de hoje.
terça-feira, 9 de junho de 2015
A derrocada de Nero
O dia 9 de junho foi uma data auspiciosa na vida do imperador romano Nero. No ano 53 ele se casou com Claudia Octávia, uma prima e irmã adotiva, filha do seu tio-avô e antecessor Claudio. No ano 62, Claudia, exilada pelo próprio marido, foi levada ao suicídio. E em 68 foi a vez de Nero dar fim à própria vida.
Nero foi o último imperador da dinastia Júlio-Claudiana, que começa com o herdeiro legal de Júlio César, Augusto, que se casou com Lívia Drusila, da família Claudiana, e teve como herdeiro seu enteado Tibério. Dizia-se que a família Claudiana tinha uma veia boa e uma veia má. Além da própria Lívia, uma conspiradora extremamente astuta que provavelmente influenciou na morte dos filhos legítimos de Augusto debaixo do seu nariz para levar Tibério ao poder, e de Tibério, um político cortês que levava uma vida particular chocantemente depravada, a família ainda gerou Calígula, de má fama eterna como um tiranete impiedoso e suscetível a ímpetos de loucura. Da veia boa, existiram Cláudio Druso, primeiro filho de Lívia, um militar de carreira ilibada que morreu (ou talvez tenha sido morto) jovem, seu segundo filho Germânico, também militar extremamente popular por sua beleza, habilidade, vitórias e boa reputação (pai de Calígula, diga-se de passagem), e Claudio, seu irmão mais novo que se tornaria imperador, um sujeito modesto, sem ambições, com problemas físicos e que se dedicava às letras, embora tivesse seus deslizes. E Nero, neto de Germânico por sua filha Agripina, irmã de Calígula.
Nero herdou uma má reputação como imperador louco que faz sombra sobre a de Calígula. Porém, ao contrário deste, Nero soube tomar as rédeas do governo e usar o assassinato como recurso para a manutenção de sua posição - e não por mera extravagância como de seu tio. Sobretudo, entendia a necessidade de ser popular junto ao povo, para o qual implementou diversas obras de utilidade pública, como teatros, ginásios, banhos, templos, promovendo festivais e espetáculos para o povão. O próprio Nero participava de corridas, competições musicais e teatrais, para deleite do público. Em uma ocasião, quase morreu ao ser atirado de sua carruagem enquanto participava dos Jogos Olímpicos na Grécia. Por causa disso, a aristocracia romana, incluindo alguns cronistas da época, pintava o demônio em Nero, atribuindo a ele atos de loucura injustificada, como o incêndio em Roma, e o assassinato de sua segunda mulher enquanto estava grávida. Contudo, ele reinou por 14 anos, notavelmente mais do que políticos equilibrados apenas sobre a volúvel influência sobre o exército ou o senado (cujo poder foi lentamente minado ao longo do reinado de Nero).
Mas Nero tem no seu currículo atitudes suficientes para ter uma reputação controversa sem a necessidade de difamações. Várias fontes contemporâneas atestam que Nero teria sido responsável pelo assassinato de seu primo Britânico, filho de Claudio, nos primeiros meses de reinado. Sua mãe Agripina, então com grande influência em seu governo, escapou de um atentado em que seu navio teria afundado ou encalhado propositadamente, mas quando ela sobreviveu, Nero teria ordenado sua execução de maneira que parecesse suicídio. Sêneca, o poeta estoico que servia a Nero como conselheiro, e com quem ele passou, em determinado momento, a discordar sistematicamente, foi acusado de participar de uma conspiração para assassiná-lo e condenado ao suicídio, embora não haja evidência de que ele tenha tomado parte na conspiração.
Quanto a Claudia Octávia, seu casamento com Nero foi arranjado enquanto Claudio ainda era vivo, para consolidar a posição de Nero como herdeiro. Octávia, aparentemente, era da veia boa dos Claudianos: uma jovem dama, educada e "virtuosa". Nero a achava uma chata, a acusava de ser estéril, e a teria agredido várias vezes em público. Apesar de infeliz no casamento, ela era bastante popular entre os plebeus, provavelmente por incorporar essa "virtude" da mulher romana. Nero acabaria desistindo de levar uma vida com ela, e se interessou por Popeia Sabina, esposa do futuro imperador Oto. Por causa desse affair, e da gravidez de Popeia, Nero se divorciou de Octávia e a baniu para a ilha atualmente conhecida como Ventatene, uma ilha rochosa que servia de prisão para onde seus antecessores baniram suas parentes por comportamento impróprio (incluindo a mãe e a avó de Nero). Porém, ao saber disso, o povo foi às ruas com estátuas e mensagens de Octávia pedindo o seu retorno. Assustado, Nero concordou, apenas para ordenar o seu suicídio. A exemplo de Sêneca, Octávia abriu as veias dos braços e mergulhou numa banheira quente, como os romanos ritualmente faziam e consideravam a maneira digna de tirar a própria vida.
O destino de Popeia é incerto. Ela foi a esposa que Nero teria matado quando estava grávida, mas a tomar pelo desespero do imperador pela sua morte, o assassinato é pouco provável. O historiador Cassio Dio (um dos difamadores de Nero) supõe que ele possa ter se deitado sobre ela e causado o aborto que teria levado sua vida junto por acidente. A reação de Nero após sua morte foi exacerbada - Popeia foi embalsamada e depositada no Mausoléu de Augusto com honras divinas. Dois anos depois, Nero ordenou que um jovem liberto parecido com Popeia fosse castrado e se casasse com ele.
Em 68, Caio Vindex, governador da província da Galia Lugdunensis, apoiado por Sérvio Galba, governador da Espanha, se rebelou contra a política fiscal de Nero. Lúcio Vergínio, governador da Germania Superior, venceu Vindex, e suas tropas tentaram aclamá-lo imperador. Como Vergínio se recusava a atuar contra Nero, as tropas se voltaram a favor do rival Galba. O prefeito pretoriano abandonou Nero e jurou lealdade ao governador rebelde. Com a situação instável, Nero tentou fugir de Roma, mas seus oficiais se recusaram a ajudá-lo. O imperador ruminou sobre o que fazer, considerando pedir asilo ao império rival da Pártia, entregar-se a Galba, ou pedir perdão ao povo. Nero então foi dormir. Ele teria acordado no meio da noite e encontrado o palácio deserto. Nenhum amigo respondia aos seus chamados, nem sequer um gladiador que pudesse matá-lo. Um liberto chamado Phaon ofereceu sua vila para que Nero pudesse se esconder. Lá, ele ordenou que outros libertos lhe preparassem uma cova. Antes de anoitecer, um mensageiro chegou com a notícia de que o senado havia declarado Nero inimigo público e que era procurado (segundo Tácito, o senado, na verdade, esperava que com isso Nero se apresentasse, e juntos pudessem discutir uma solução, já que ele era o último imperador da sua dinastia, à qual quase todos os senadores haviam servido a vida inteira). Mas, desesperado, Nero então decidiu pelo suicídio. Primeiro pediu que um dos libertos se matasse na sua frente para lhe dar coragem. Conforme o som de cavalos se aproximasse, Nero, sem coragem ainda para tirar a própria vida, pediu a seu secretário que o preparasse abrindo suas veias.
No final, o senado, de fato, declarou Nero inimigo público. Galba foi prudentemente declarado imperador pelo senado, mas sua autoridade foi questionada em outras partes do império. Vitellius, governador da Germania Inferior foi aclamado pelas legiões estacionadas no rio Reno, e Oto, amigo de Nero a despeito do seu relacionamento com Popeia, tinha a Guarda Pretoriana ao seu lado. Os três se sucederam em menos de um ano, e a guerra civil só terminou quando o veterano general Vespasiano levou suas legiões do oriente a Roma e foi aclamado imperador no final do ano 69 (o Ano dos Quatro Imperadores), iniciando uma nova dinastia, a dinastia Flaviana.
Nero foi o último imperador da dinastia Júlio-Claudiana, que começa com o herdeiro legal de Júlio César, Augusto, que se casou com Lívia Drusila, da família Claudiana, e teve como herdeiro seu enteado Tibério. Dizia-se que a família Claudiana tinha uma veia boa e uma veia má. Além da própria Lívia, uma conspiradora extremamente astuta que provavelmente influenciou na morte dos filhos legítimos de Augusto debaixo do seu nariz para levar Tibério ao poder, e de Tibério, um político cortês que levava uma vida particular chocantemente depravada, a família ainda gerou Calígula, de má fama eterna como um tiranete impiedoso e suscetível a ímpetos de loucura. Da veia boa, existiram Cláudio Druso, primeiro filho de Lívia, um militar de carreira ilibada que morreu (ou talvez tenha sido morto) jovem, seu segundo filho Germânico, também militar extremamente popular por sua beleza, habilidade, vitórias e boa reputação (pai de Calígula, diga-se de passagem), e Claudio, seu irmão mais novo que se tornaria imperador, um sujeito modesto, sem ambições, com problemas físicos e que se dedicava às letras, embora tivesse seus deslizes. E Nero, neto de Germânico por sua filha Agripina, irmã de Calígula.
Nero herdou uma má reputação como imperador louco que faz sombra sobre a de Calígula. Porém, ao contrário deste, Nero soube tomar as rédeas do governo e usar o assassinato como recurso para a manutenção de sua posição - e não por mera extravagância como de seu tio. Sobretudo, entendia a necessidade de ser popular junto ao povo, para o qual implementou diversas obras de utilidade pública, como teatros, ginásios, banhos, templos, promovendo festivais e espetáculos para o povão. O próprio Nero participava de corridas, competições musicais e teatrais, para deleite do público. Em uma ocasião, quase morreu ao ser atirado de sua carruagem enquanto participava dos Jogos Olímpicos na Grécia. Por causa disso, a aristocracia romana, incluindo alguns cronistas da época, pintava o demônio em Nero, atribuindo a ele atos de loucura injustificada, como o incêndio em Roma, e o assassinato de sua segunda mulher enquanto estava grávida. Contudo, ele reinou por 14 anos, notavelmente mais do que políticos equilibrados apenas sobre a volúvel influência sobre o exército ou o senado (cujo poder foi lentamente minado ao longo do reinado de Nero).
Mas Nero tem no seu currículo atitudes suficientes para ter uma reputação controversa sem a necessidade de difamações. Várias fontes contemporâneas atestam que Nero teria sido responsável pelo assassinato de seu primo Britânico, filho de Claudio, nos primeiros meses de reinado. Sua mãe Agripina, então com grande influência em seu governo, escapou de um atentado em que seu navio teria afundado ou encalhado propositadamente, mas quando ela sobreviveu, Nero teria ordenado sua execução de maneira que parecesse suicídio. Sêneca, o poeta estoico que servia a Nero como conselheiro, e com quem ele passou, em determinado momento, a discordar sistematicamente, foi acusado de participar de uma conspiração para assassiná-lo e condenado ao suicídio, embora não haja evidência de que ele tenha tomado parte na conspiração.
Quanto a Claudia Octávia, seu casamento com Nero foi arranjado enquanto Claudio ainda era vivo, para consolidar a posição de Nero como herdeiro. Octávia, aparentemente, era da veia boa dos Claudianos: uma jovem dama, educada e "virtuosa". Nero a achava uma chata, a acusava de ser estéril, e a teria agredido várias vezes em público. Apesar de infeliz no casamento, ela era bastante popular entre os plebeus, provavelmente por incorporar essa "virtude" da mulher romana. Nero acabaria desistindo de levar uma vida com ela, e se interessou por Popeia Sabina, esposa do futuro imperador Oto. Por causa desse affair, e da gravidez de Popeia, Nero se divorciou de Octávia e a baniu para a ilha atualmente conhecida como Ventatene, uma ilha rochosa que servia de prisão para onde seus antecessores baniram suas parentes por comportamento impróprio (incluindo a mãe e a avó de Nero). Porém, ao saber disso, o povo foi às ruas com estátuas e mensagens de Octávia pedindo o seu retorno. Assustado, Nero concordou, apenas para ordenar o seu suicídio. A exemplo de Sêneca, Octávia abriu as veias dos braços e mergulhou numa banheira quente, como os romanos ritualmente faziam e consideravam a maneira digna de tirar a própria vida.
O destino de Popeia é incerto. Ela foi a esposa que Nero teria matado quando estava grávida, mas a tomar pelo desespero do imperador pela sua morte, o assassinato é pouco provável. O historiador Cassio Dio (um dos difamadores de Nero) supõe que ele possa ter se deitado sobre ela e causado o aborto que teria levado sua vida junto por acidente. A reação de Nero após sua morte foi exacerbada - Popeia foi embalsamada e depositada no Mausoléu de Augusto com honras divinas. Dois anos depois, Nero ordenou que um jovem liberto parecido com Popeia fosse castrado e se casasse com ele.
Em 68, Caio Vindex, governador da província da Galia Lugdunensis, apoiado por Sérvio Galba, governador da Espanha, se rebelou contra a política fiscal de Nero. Lúcio Vergínio, governador da Germania Superior, venceu Vindex, e suas tropas tentaram aclamá-lo imperador. Como Vergínio se recusava a atuar contra Nero, as tropas se voltaram a favor do rival Galba. O prefeito pretoriano abandonou Nero e jurou lealdade ao governador rebelde. Com a situação instável, Nero tentou fugir de Roma, mas seus oficiais se recusaram a ajudá-lo. O imperador ruminou sobre o que fazer, considerando pedir asilo ao império rival da Pártia, entregar-se a Galba, ou pedir perdão ao povo. Nero então foi dormir. Ele teria acordado no meio da noite e encontrado o palácio deserto. Nenhum amigo respondia aos seus chamados, nem sequer um gladiador que pudesse matá-lo. Um liberto chamado Phaon ofereceu sua vila para que Nero pudesse se esconder. Lá, ele ordenou que outros libertos lhe preparassem uma cova. Antes de anoitecer, um mensageiro chegou com a notícia de que o senado havia declarado Nero inimigo público e que era procurado (segundo Tácito, o senado, na verdade, esperava que com isso Nero se apresentasse, e juntos pudessem discutir uma solução, já que ele era o último imperador da sua dinastia, à qual quase todos os senadores haviam servido a vida inteira). Mas, desesperado, Nero então decidiu pelo suicídio. Primeiro pediu que um dos libertos se matasse na sua frente para lhe dar coragem. Conforme o som de cavalos se aproximasse, Nero, sem coragem ainda para tirar a própria vida, pediu a seu secretário que o preparasse abrindo suas veias.
No final, o senado, de fato, declarou Nero inimigo público. Galba foi prudentemente declarado imperador pelo senado, mas sua autoridade foi questionada em outras partes do império. Vitellius, governador da Germania Inferior foi aclamado pelas legiões estacionadas no rio Reno, e Oto, amigo de Nero a despeito do seu relacionamento com Popeia, tinha a Guarda Pretoriana ao seu lado. Os três se sucederam em menos de um ano, e a guerra civil só terminou quando o veterano general Vespasiano levou suas legiões do oriente a Roma e foi aclamado imperador no final do ano 69 (o Ano dos Quatro Imperadores), iniciando uma nova dinastia, a dinastia Flaviana.
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