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quinta-feira, 29 de outubro de 2015

A volta para casa

Em 29 de outubro de 539 a.C., o rei Ciro II da Pérsia foi recebido na Babilônia como seu conquistador e libertador, após ter vencido em batalha e aprisionado o antigo imperador Nabonido. Neste dia, entre seus primeiros decretos, Ciro autorizou os judeus mantidos cativos na Babilônia a retornarem a suas terras e reconstruírem seu templo em Jerusalém.

Ciro era um nobre da tribo dos parsas, que habitavam o sudoeste do Irã e se submetiam aos seus primos medas do norte, que fundaram um império poderoso o suficiente para entrar em franca competição com os rivais do Império Neo-Babilônico, na Mesopotâmia, e da Lídia, no centro-oeste da atual Turquia. Ciro, com astúcia quase legendária, subjugara os dois. Em ambos os casos, após as vitórias militares, procurou manter intactas as estruturas físicas, sociais e religiosas locais, concedendo perdão e empregando em seu conselho mais próximo seus próprios adversários (o rei Creso, da Lídia, seria um deles). Impiedoso na guerra e magnânimo na vitória, excepcionalmente tolerante e receptivo com a pluralidade dos povos conquistados, criativo e industrioso como governante, Ciro, mesmo sendo um estrangeiro, seria quase sempre aceito como seu novo senhor.

Na Babilônia não foi diferente. Depois de Nabucodonosor II expandir seu império até a fronteira com o Egito, conquistando o que restava da Palestina, seu filho foi morto e o trono usurpado um punhado de vezes. A administração imperial ruiu diante da displicência de Nabonido. Os babilônicos podem ter percebido essa decadência associando-a ao fato de Nabonido ser um devoto do deus lunar Sîn, negligenciando Marduque, o deus patrono da cidade da Babilônia. Como ele passasse a maior parte do tempo retirado em um oásis longe da cidade, seu filho Belsazar atuava como regente. A arrogância de Belsazar se mostra no momento em que Babilônia está sitiada pelos exércitos persas, e o soberano resolve promover um enorme banquete, enquanto os persas cavavam para desviar o rio Eufrates do seu curso e abrir caminho a pé até os portões da cidade. Nabonido estava lá, impotente, e fora preso no começo de outubro, quando o general Gobrias entrou na cidade sem resistência. No dia 29 Ciro chegava da sua vitória mais recente, em Opis, no rio Tigre (Nabonido estava na capital fugido do avanço persa), e proclamava-se "Rei da Babilônia, Suméria e Acade, Rei dos quatro cantos do mundo".

Ciro foi um personagem celebrado ao longo da História. Ao forjar um império na Pérsia que se tornaria um centro de irradiação de cultura para metade da Ásia, suas obras, seus editos e seus feitos foram cuidadosamente preservados. Seu túmulo é uma das últimas estruturas ainda de pé onde antes existia a antiga capital de Pasárgada. Mesmo que, depois de séculos, a escrita cuneiforme (com a qual os documentos persas eram registrados em mais de uma língua) deixasse de ser inteligível, a memória de Ciro como fundador de impérios, pai de nações, libertador e salvador continuaria a ser perpetuada. E um dos conduítes em que a memória do reinado de Ciro, especialmente da sua conquista da Babilônia, atravessou o tempo e perdurou na cultura ocidental é o Antigo Testamento. A documentação produzida pelos babilônicos e pelos persas é uma oportunidade rara de contextualizar uma parte significativa do Antigo Testamento e da História do Judaísmo e fixá-las no tempo.

Os judeus emergiram como uma das doze tribos hebraicas que habitavam a Palestina, e, por razões religiosas e políticas, individualizou-se das demais tribos, emancipando-se do antigo reino de Israel após a morte do rei Salomão. O reino de Judá, com capital em Jerusalém, perdurou firmando ou quebrando alianças alternadamente com seus vizinhos do norte (Israel), do oeste (Moabe e Amon) e do sul (Edom e Egito, do qual, boa parte do tempo, era um reino-cliente). 

Para os poderes da Ásia, a Palestina era vital para manter em cheque a influência do Egito na região, bem como uma possível cabeça-de-ponte para ambições maiores no antigo reino africano. Em cerca de 734 a.C. o rei assírio Tiglate-Pileser conquistara Israel e destruíra sua capital Samaria. Este é um evento relatado duplamente nos segundos livros de Reis e Crônicas. Os livros também falam da captura do povo e sua deportação para a Assíria. A Assíria, segundo suas próprias fontes (que detalham que foram precisamente 27290 israelitas deportados), realizava deportações em massa sistematicamente, com o objetivo de diluir qualquer unidade étnica que poderia ajudar os povos cativos a se organizarem em revoltas contra o poder vigente. É uma lógica que perdurou por longo tempo, com finalidades diversas. Os escravos africanos na América tiveram dificuldade em articular algum tipo de resistência contra seus senhores por terem sido dispersos nas colônias, e colocados juntos de indivíduos de outras etnias, com línguas e tradições diversas, e frequentemente alguma rivalidade histórica. 

Os israelitas foram levados a Assíria em pelo menos duas grandes levas, com talvez uma terceira ocorrendo já dentro do território Assírio para o leste, eliminando qualquer possibilidade de articulação entre eles. As tribos do norte começam a desaparecer do registro bíblico a partir deste evento, embora a Mishná dê a entender que, séculos depois, os judeus ainda tivessem notícia das tribos israelitas no exterior. As Tribos Perdidas de Israel se tornariam tema de lendas espalhadas pela Ásia. Em 1605 o missionário jesuíta Matteo Ricci encontrou uma comunidade de judeus vivendo na China com cerca de 10 a 12 famílias, cuja notícia na Europa rapidamente fez crescer a crença popular de que haviam sido encontradas as Tribos Perdidas.

Judá sobreviveu à Assíria, e fez o jogo diplomático do novo império caldeu que a sucedera (o Império Neo-Babilônico). Em troca da proteção da Babilônia, o rei de Judá Joaquim concordou em enviar filhos da nobreza judaica como reféns à corte de Nabucodonosor. Este estado de coisas durou até que uma revolta pró-Egito irrompeu em Judá e provocou uma expedição punitiva dos caldeus. O rei Jeconias, filho de Joaquim, foi deposto pelas armas e sucedido pelo seu tio Zedequias. Zedequias também procurou apoio no Egito e provocou uma segunda invasão babilônica, na qual Nabucodonosor tomou Jerusalém e destruiu o Templo de Salomão (e neste momento chama a atenção que a Arca da Aliança, a relíquia máxima dos antigos hebreus, guardada no centro do Templo não é mencionada na narrativa, nem seu paradeiro é citado posteriormente). Os sobreviventes, entre eles Zedequias, o profeta Jeremias, bem como os cativos de todas as outras cidades de Judá arrasadas nas semanas anteriores, foram conduzidos à Babilônia. Nem todas as cidades foram destruídas, e uma parte dos judeus pode ter ficado para trás, mas um contingente significativo de cerca de 20 mil pessoas foi levado. Isto aconteceu provavelmente em 586 a.C.. Quatro anos depois o administrador de Judá apontado pela Babilônia para manter a terra produtiva, Gedalias, um judeu, foi assassinado, causando uma fuga em massa para o Egito e, possivelmente, mais deportações.

Porém, diferente do que aconteceu na Assíria, de alguma forma os judeus conseguiram manter-se coesos enquanto unidade étnica e nacional. Durante o exílio a tradição oral começou a ser transcrita (com a invenção do alfabeto hebraico), e surgem aí os primeiros livros da Torá e a estabilização da teologia hebraica, que vinha por muito tempo oscilando entre o politeísmo e o monocultismo, fato lamentado no próprio texto bíblico como razão para a queda de Jerusalém e o cativeiro na Babilônia. A exemplo da hierarquia religiosa babilônica, os escribas se tornam doutores e autoridades na religião, e assumem um papel elevado na sociedade judaica. Os judeus tinham uma certa autonomia nos domínios neo-babilônicos, participando ativamente da vida econômica do império. Alguns, como Daniel (um dos jovens nobres levados no primeiro momento) e Ester tiveram seu lugar na corte. Mesmo assim, os judeus eram cidadãos de segunda classe em uma terra estranha, e assim permaneceram por mais de quarenta anos.

Os judeus tinham confiança em seus profetas. O último de seus grandes profetas, Isaías (cujo livro parece ter sido escrito, se não por três autores, pelo menos em épocas diferentes), previra o fim do cativeiro na Babilônia e a restauração do Templo em Jerusalém. Quando Ciro tomou a cidade, aprisionou seu rei, e autorizou os judeus a retornarem a Judá (a província babilônia de Yehud, incorporada ao império persa), ele se tornou um salvador também para eles. Mesmo Ciro observando rigorosamente os ritos religiosos locais enquanto esteve na cidade (algo lembrado num texto babilônico conhecido como Crônicas de Nabonido), e retendo para si uma firme fé no Zoroastrismo, o cumprimento da profecia do início do livro de Isaías fez com que ele, Ciro, viesse a ser chamado no mesmo livro por Messias:

Assim disse o SENHOR ao seu Messias, a Ciro, de quem tomo pela mão direita para abater as nações diante de si, e afrouxar os cinturões dos reis, a abrir as portas diante dele, e as portas não se fecharão” (Is 45.1)

Messias significa “ungido pelo Senhor”, e é uma palavra associada aos reis hebraicos ou seus sumo-sacerdotes, que eram ungidos com óleo sagrado durante a coroação. Ciro é o único personagem não hebraico a ser chamado Messias em toda a Bíblia, não apenas por ser um rei, mas por ser um ungido espiritualmente pelo Senhor. Era o salvador que redimira os judeus dos seus pecados e os reconduziriam à Terra Prometida, como as profecias previram. O profeta Esdras vai adiante, e descreve o que teria sido o Edito de Ciro, em que libertava os judeus do cativeiro. Ele abre seu livro alegando ter sido o Edito obra de inspiração do seu Deus:

No primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia (para que se cumprisse a palavra do SENHOR, pela boca de Jeremias), despertou o SENHOR o espírito de Ciro, rei da Pérsia, o qual fez passar pregão por todo o seu reino, como também por escrito...” (Ed 1:1)

Eventualmente, em períodos mais tardios, vivendo sob administradores menos piedosos, entre persas e gregos, os profetas novamente se voltaram para a promessa da vinda de um Messias entre eles, que redimiria pecados, unificaria as tribos, reconstruiria o Templo e operaria milagres, mas, do ponto de vista dos judeus, este ainda está por vir.

Ciro era engenhoso, e sempre tinha um plano em mente. Sua política de tolerância e promoção das identidades dos povos sob seu domínio, e pesados investimentos em infraestrutura e melhorias na qualidade de vida, resultava em populações leais e satisfeitas, minimizando a necessidade de uma presença militar repressiva em um território que se transformava no maior império que o mundo vira até então. Existe um registro na Babilônia de uma ordem sua para que todos os povos retornassem às suas terras. Os judeus em particular retornariam para um território tradicional que, convenientemente, era a porta de entrada para o Egito. Ciro precisava desse território para fortificar suas defesas contra o reino rival com o menor custo possível (era preferível ter a estreita faixa de terra do deserto do Negueve entre ele e o Egito do que, por exemplo, ter que defender toda a linha a leste dos rios Jordão e Orontes, ou do Eufrates), ou para usá-lo como base para uma campanha na África. Para firmar a aliança com os judeus, autorizou a construção do Templo em Jerusalém.


De qualquer forma, os judeus tinham negócios na Babilônia, e eles não retornaram todos ao mesmo tempo. O afluxo de judeus para Yehud foi gradual ao longo de cerca de vinte anos. Quando chegaram lá, tiveram que disputar espaço com as populações locais, judeus e samaritanos remanescentes ou caldeus e demais estrangeiros que ocuparam aquele vazio, que viviam entre as ruínas de Jerusalém e nas outras cidades que existiam. Por esta razão, passaram-se quase vinte anos até que a situação se estabilizasse. Foi apenas durante o reinado de Dario, em 521 a.C., e sob o estímulo financeiro do governador local Zorobabel, que as obras de reconstrução do Templo começaram (ele foi terminado em 516 a.C.). A pedra fundamental do Segundo Templo, colocada no exato local onde repousava a Arca da Aliança, ainda está lá, no interior do Domo da Rocha, mesquita construída em 691 sobre os seus escombros. Teria sido naquele local, ainda em escombros, que Maomé teria recebido a visita em sonho do anjo Gabriel, revelando-lhe os mistérios o Islã.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Justo entre as nações

Em 9 de outubro de 1974 faleceu Oskar Schindler, empresário membro do Partido Nazista, responsável direto pela sobrevivência de 1200 judeus, muitos dos quais já haviam sido encaminhados para a morte na câmara de gás em Auschwitz.

A história de Oskar Schindler é uma das mais célebres do período da Segunda Guerra Mundial. Jovem problemático (expulso da escola, preso após bebedeiras, filhos fora do casamento), membro do Partido Alemão dos Sudetos (braço do Partido Nazista na Tchecoslováquia), espião da inteligência alemã na Tchecoslováquia e na Polônia (onde contribuiu com informações para as invasões alemãs a estes países), constituiu riqueza com o mercado negro de comida, bebida, cigarros e artigos de luxo, e investiu em uma indústria de armas e munições nesse país, a serviço da Wehrmacht. Na sua fábrica, empregava muitos judeus poloneses que trabalhavam quase de graça, dando-lhe lucros formidáveis.

Como esses mesmos judeus eram visados pela polícia polonesa e pelos agentes alemães, ele procurava escondê-los, ou intervia em seu favor, não porque se importasse particularmente com eles de início, mas porque sua mão de obra era muito mais barata do que as de operários poloneses não-judeus. Em muitos casos, essas intervenções vinham na forma de subornos (usando sua rede de mercado negro para oferecer produtos estrangeiros ou objetos de valor expropriados pelos nazistas). Em uma ocasião, um agente da SS veio buscar uma família de trabalhadores judeus com documentos falsos. Ele ordenou ao chefe da família que arriasse as calças e andasse por ali para a sua diversão. Schindler argumentou que aquilo quebrava a disciplina da fábrica e prejudicaria o andamento da produção. Quando o oficial apontou a arma para o homem, Schindler gritou "não atire, e eu lhe dou uma bebida!". Os dois entraram no escritório e saíram abraçados e bêbados. A importância estratégica do seu negócio para os alemães dava-lhe uma vantagem nas negociações em torno dos seus empregados judeus.

Com o tempo, Schindler começou a abrigar as famílias dos seus empregados, dando-lhes empregos de fachada (inclusive para as crianças), para colocá-los sob sua proteção. Também recorria a seus homens de confiança (também judeus, que trabalhavam na parte administrativa da fábrica) para lhe indicarem judeus em campos de concentração que pudessem ser empregados. Como Schindler tinha conhecimento do funcionamento da Wehrmacht pela sua experiência como espião, e pelos contratos da sua fábrica, ele deduziu em algum momento em 1943 que os judeus estavam sendo presos para trabalhar em campos de trabalhos forçados, e os que não tinham condições, estavam sendo enviados para campos de extermínio. Foi essa realização do que os nazistas estavam fazendo com os judeus que o fizeram virar a mesa e tomar uma atitude irredutível de proteção aos judeus. Os repetidos subornos de oficiais nazistas, o emprego de crianças e mulheres que, na verdade, pouco produziam, e a própria manutenção dos seus empregados (alimentados e medicados na própria fábrica) começaram a drenar seus recursos rapidamente. Em um dos casos, o diretor do campo de concentração de Plaszow, um oficial da SS chamado Amon Göth, com uma fama de sádico que mantinha seus internos nas piores condições possíveis e os executava aleatoriamente exigiu que as fábricas da região fossem transportadas para dentro do campo. Schindler teve que suborná-lo não apenas para manter suas operações fora do campo, mas também para convencê-lo a mandar 450 trabalhadores judeus das outras fábricas próximas para a sua. O caso lhe rendeu uma semana na prisão, em decorrência de uma investigação de abuso de poder e corrupção contra Goth.

Quando os soviéticos começaram a avançar pela fronteira polonesa, os nazistas começaram a recuar e a fechar as operações, inclusive dos campos de prisioneiros. Os internos passaram a ser transportados para outros campos convertidos para funcionarem como campos de extermínio. A fábrica de Schindler também estava fadada a ser fechada. Oskar conseguiu convencer Berlim a manter a fábrica funcionando na Tchecoslováquia, com um projeto de produção de munição anti-tanques, garantindo que os judeus sob sua jurisdição seriam poupados. Além dos cerca de 1000 funcionários que já abrigava, Schindler acrescentou mais 200 nomes (funcionários de uma fábrica de tecidos que seria fechada) à sua lista de judeus que seriam encaminhados às novas instalações em Brunnlitz. O transporte deste contingente seria feito pelos trens que levavam demais judeus aos campos de Auschwitz e Gross-Rosen (então operando como campos de extermínio). Trezentas mulheres da lista de Schindler acabaram encaminhadas para o extermínio em Auschwitz, e foi graças a um pesado suborno que ele conseguiu a sua liberação. Além delas, outras 3000 mulheres foram reencaminhadas para fábricas nos Sudetos. No inverno de 1945, um trem com 250 judeus doentes demais para trabalhar (havia 20 mortos nos vagões) chegou a Brunnlitz, e Emilie, a esposa de Oskar, os encaminhou à fábrica, onde lhes deu abrigo e cuidados. A fábrica em si não produzia coisa alguma, e as suspeitas de que os Schindler estavam apenas abrigando judeus (o que os colocava em risco de pena de morte) os obrigava a distribuir propinas regularmente para evitar a sua prisão.

Toda esta carreira é belissimamente retratada em filmes (A Lista de Schindler, para quem ainda não assistiu), mas ela geralmente para por aí. A sua biografia segue, e não tem um final muito feliz. Sua vida foi atribulada depois da guerra.

Com a rendição da Alemanha, os judeus sob os cuidados de Schindler estava relativamente a salvo. Porém, o próprio Schindler corria o risco de ser capturado pelos soviéticos, que ocupavam a Tchecoslováquia, e julgado por crimes de guerra pela sua atividade como espião. Vários dos judeus que trabalhavam para ele redigiram uma carta a ser apresentada aos americanos atestando o seu papel em salvar as suas vidas. Com a carta, os Schindler reuniram tudo que lhes restava e fugiram para o oeste. Oficiais russos no caminho confiscaram o seu carro (e ficaram com um diamante escondido sob o banco), e eles continuaram a pé até a cidade fronteiriça de Lenora. Através de um oficial judeu americano, conseguiram passar à Suíça. No final do ano, conseguiram retornar à Alemanha. Mas os gastos com a manutenção de funcionários judeus numa fábrica que não fabricava nada, e as constantes propinas os deixaram completamente falidos. Oskar passou a ser sustentado com a ajuda vinda de organizações judaicas (às vezes, a ajuda consistia apenas em alimentos e cigarros, mas Schindler se constrangia em pedir mais). Judeus americanos criaram um fundo para recompensar o patrimônio confiscado de judeus na Europa, e gastos empreendidos à assistência de judeus durante a Guerra, e através dele Schindler resgatou cerca de 15 mil dólares. Não era o suficiente para tentar um novo negócio, mas o suficiente para emigrar à Argentina e tentar uma nova vida criando galinhas e nútrias (roedores de grande porte valorizados pela sua pele). Em 1958, depois de se divorciar de Emilie, ele fechou sua fazenda. Retornou à Alemanha, onde tentou abrir novos negócios que também fracassaram.

Entre 1963 (quando recebeu do governo de Israel o título honorífico de "Justo entre as nações") e a sua morte em 1974, Oskar viveu exclusivamente do dinheiro vindo de doações angariadas pelos sobreviventes da sua fábrica, a maioria vivendo em Israel e nos Estados Unidos. Nos seus últimos dias, viveu de favor no apartamento do amigo Heinrich Staehr, carregando consigo apenas uma maleta com fotos, cartas e recordações do tempo da guerra, inclusive uma cópia da sua lista de 1200 nomes. Com a saúde fragilizada por conta de um infarto, faleceu aos 66 anos em Hildesheim, na Baixa Saxônia. Seu desejo era ser enterrado em Jerusalém, porque "meus filhos estão lá". É o único membro do Partido Nazista sepultado em Israel.

Antes de fugir da Tchecoslováquia, seus funcionários lhe confeccionaram um anel, feito de um dente de ouro, onde gravaram: "Aquele que salva uma vida, salva o mundo inteiro".

sexta-feira, 31 de julho de 2015

A queda de Sefarad

O dia 31 de julho de 1492 foi a data limite, de acordo com o Decreto de Alhambra assinado pelos reis de Castela e Aragão, para que todos os judeus que viviam na Espanha e não se converteram ao cristianismo deixassem o país sob pena de morte.

A presença judaica na Europa remonta aos tempos romanos. Mesmo antes da Segunda Diáspora, ocorrida a partir de 70 d.C. quando Roma debelou uma rebelião na Judeia e destruiu o Segundo Templo em Jerusalém, colonos e mercadores judeus se estabeleceram em várias cidades do Império. O advento do cristianismo como religião oficial, e a queda do Império do Ocidente não interferiram muito na vida dos judeus num primeiro momento. As perseguições ocorriam pontualmente, sobretudo em cidades onde os judeus se congregassem em comunidades importantes ou concentrassem a atividade econômica - nesses episódios emergia a tese de que os judeus assassinaram Jesus, e todo tipo de superstição derivada disso, fazendo com que os cristãos se voltassem contra eles. Como resultado, as comunidades judaicas, às vezes, precisava se mudar e se dissolver para se congregar em outro lugar, até que fossem perseguidas novamente.

No século VIII a Península Ibérica caiu sob domínio islâmico. Os muçulmanos, no entanto, deixavam geralmente os judeus em paz, pois eram um dos "povos do livro" especificados no Alcorão como irmãos em fé - o Deus de Maomé é o Deus de Abraão, que é o Deus dos judeus e dos cristãos. Também existia uma afinidade étnica, expressa alegoricamente no Antigo Testamento: ambos os povos descendem de Abraão, mas os judeus descendem da linhagem de Isaque, e os árabes (incluindo os muçulmanos, pois nem todo árabe era ou é seguidor do Islã) de Ismael, seu meio-irmão mais velho. As línguas hebraica e árabe também são conectadas por uma ancestralidade em comum. Então, embora o policiamento religioso e a aplicação de impostos específicos aos judeus oscilassem de tempos em tempos, esse reconhecimento mútuo permitia que os judeus encontrassem mais facilidades sob domínio sarraceno do que em solo cristão. Os judeus identificavam a Espanha com Sefarad, uma terra citada no Antigo Testamento mas não claramente definida, que o profeta Obadias prometia que os judeus que viviam lá herdariam as cidades do Neguev (o deserto ao sul de Israel). E foi naquela Sefarad que a civilização judaica atingiu seu apogeu cultural desde os tempos bíblicos.

Durante a Idade Média, a vida para um judeu era mais fácil nos domínios muçulmanos do que cristãos, de modo que muitos judeus que viviam no ocidente (na França, na Itália, na Inglaterra) se deslocaram para a Península Ibérica. As coisas mudariam à medida em que os pequenos reinos cristãos no norte da Espanha promoviam a Reconquista e empurravam os muçulmanos para o sul. A hostilidade para com os judeus locais era a mesma que os cristãos nutriam pelos seus inimigos muçulmanos. A motivação para a Reconquista era religiosa, e os cristãos reassentados nos territórios conquistados marcavam seu território com violência. A maioria dos judeus sefaraditas fugia para o sul, para o que restava do Califado de Córdoba, ou aceitavam converter-se ao cristianismo.

Alguns desses cristãos novos acabaram se beneficiando do seu novo status religioso e seguiram prosperando. Corriam, então, boatos de que esses cristãos novos continuavam praticando o judaísmo em segredo (os espanhóis usavam o termo pejorativo "marrano", ou "porco" para esses criptojudeus), e se infiltravam nas igrejas para convencer outros cristãos a adotarem suas práticas. Isabela, rainha de Castela, e Fernando, rei de Aragão, se casaram em 1469, e começaram a coordenar iniciativas para investigar e expor os criptojudeus. Em 1478 os dois fizeram um pedido formal a Roma para a criação de um tribunal da Inquisição em Castela, a Inquisição Espanhola (que mais tarde teria outro tribunal em Aragão) para investigar as atividades de judeus e novos cristãos. Não há um registro fiel das atividades da Inquisição no século XV, mas entre 1540 e 1700 cerca de 87000 casos foram levados a julgamento, resultando em pelo menos 1300 execuções.

No Califado de Córdoba os judeus ainda gozavam de algumas liberdades, embora a fragilidade do país diante do avanço cristão ao norte o houvesse tornado, na prática, um Estado tributário dos reinos ibéricos. Em 1491, diante de uma invasão iminente, o emir de Córdoba assinou com Isabela o Tratado de Granada, que garantia aos muçulmanos e judeus que viviam ali proteção e liberdade religiosa. Castela e Aragão tomaram Granada e cerca de 200 mil muçulmanos e judeus permaneceram residindo na região. A maioria fugiu em seguida para o norte da África, alguns se converteram para evitarem serem molestados pelos conquistadores. Mas Isabela e Fernando começaram a traçar novos rumos para sua política com os judeus.

Em 1592 Francisco Jimenez de Cisneros passou a ser confessor da rainha Isabela. Este Cisneros, antissemita ferrenho (e, a título de curiosidade, um entusiasta da democratização dos papeis dos gêneros na religião), havia ordenado a queima de cópias do Alcorão e todos os livros de posse dos muçulmanos em praça pública após a queda de Granada, entre 4 e 5 mil exemplares (poupando, contudo, os tratados de medicina). Cisneros parece ter sido instrumental nas discussões que levaram à substituição do Tratado de Córdoba pelo Decreto de Alhambra. Convencida a rainha de que os judeus estavam pervertendo os cristãos, o Decreto (que também foi assinado por Fernando) previa um prazo de quatro meses a partir da sua publicação para que todos os judeus residentes em Castela e Aragão se convertessem ou deixassem o país. Dentro deste prazo, a partir do terceiro mês o governo deixaria de oferecer-lhes proteção, de maneira que um cristão que atacasse um judeu não seria punido. A eles era permitido levar seus pertences, exceto ouro, prata e moedas. A pena para os judeus que permanecessem nesses países seria a execução sumária. Aos que acobertassem ou oferecessem abrigo a um judeu, a pena seria o confisco de bens e direitos sobre heranças e títulos.

Começou então um novo êxodo. Mesmo que de 50 a 70 mil tenham se convertido, algo na casa de centenas de milhares optaram por deixar a Espanha. Metade fugiu para o vizinho Portugal, onde, em 1497 seriam forçados novamente a escolher entre a conversão e a fuga (os novos cristãos portugueses tiveram papel significativo na organização das primeiras expedições portuguesas ao Brasil). Uma parte dos judeus fugiu para o norte da África, onde ainda hoje existem comunidades no Marrocos, na Argélia e na Tunísia. Um grande número buscou abrigo no Império Otomano - o Sultão Bayazid II ofereceu asilo aos judeus e mandou navios para buscá-los na Espanha, levando-os em segurança a Tessalônica (Grécia) e Izmir (Turquia). Uma vez em domínio otomano, esses judeus se dispersaram nos Bálcãs, no Egito, na Síria, na Palestina e em outros territórios árabes. Uma minoria dos que foram para o leste seguiram para a Ásia Central, onde juntaram-se aos judeus de Bukhara (no Tajiquistão) e da Índia.

Durante as perseguições que se seguiram aos que insistiram em permanecer em seus lares, e entre os que enfrentaram as viagens ao estrangeiro, estima-se que as mortes tenham chegado a dezenas de milhares. Nos dias que antecederam o fim do prazo, rumores de que os judeus estavam engolindo metais e pedras preciosas para levá-los consigo fez com que populares perseguissem e assassinassem judeus para abrir suas barrigas e procurar por eles. Donos de navios espanhóis que ofereciam transporte aos fugitivos cobravam fortunas para o serviço, e atiravam os passageiros ao mar. Os que se converteram, além de terem que seguir estritamente os costumes católicos, precisavam se casar com cristãos para evitar as suspeitas de conspiração e subversão sob a vigilância da Inquisição. Uma boa parte destes cristãos novos eventualmente deixaria a Espanha para tentar a sorte, especialmente na Holanda, onde criptojudeus sefaradim se sentiam seguros o suficiente para renunciar à conversão e praticar abertamente a sua fé (a experiência, o conhecimento, e as conexões dos comerciantes judeus viriam a ser úteis para a crescente economia holandesa).

A diáspora dos judeus sefaraditas teve impacto em todas as regiões onde eles se reassentaram. Apesar do desmembramento demográfico, os sefaradim ainda nutririam uma identidade étnico-cultural que perdura até hoje. São reconhecidas comunidades numerosas de judeus com ascendência sefaradi em países como França, Estados Unidos, Argentina, Marrocos, Argentina, Bósnia, Panamá, e, antes da Segunda Guerra Mundial, também na Síria, Líbia, Egito, Irã, e boa parte da Europa Ocidental. A maioria dos sefaradim vive hoje em Israel.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

O Projeto Madagascar

Em 3 de junho de 1940, o diplomata alemão Franz Rademacher expôs oficialmente um plano para a deportação de judeus em território nazista para a ilha de Madagascar.

Desde a ascensão nazista, em 1933, o "problema judaico" era um dos cernes das políticas raciais nazistas. Os judeus, acusados de controlar a economia alemã (apesar de sua grande maioria ser de proletários e profissionais liberais) e fomentar o Marxismo, "uma perversão judaica", tinham seus direitos cada vez mais cerceados: perdas progressivas de direitos civis, confinamento em bairros cercados e vigiados (guetos), confisco de bens, incentivos à emigração, depois vieram as deportações, o aprisionamento e confinamento em campos de concentração e trabalhos forçados. Mas mesmo aí os judeus continuavam sendo um "problema" para os nazistas, porque, em última análise, eles ainda tinham que mantê-los vivos de alguma forma.

O extermínio foi a "solução final", decidida em 1942 na Conferência de Wannsee, mas outras alternativas foram propostas anteriormente. Os incentivos à emigração não deram certo, porque poucos, mesmo com toda a repressão, queriam deixar voluntariamente seus lares (a guerra e o recrudescimento da repressão de fato aceleraram a emigração clandestina, sobretudo para a América). As deportações para campos de concentração no estrangeiro não eram tão úteis, porque esses campos ficavam em territórios controlados pelos alemães, e eles ainda teriam que manter os prisioneiros vivos - com a invasão da Polônia, por exemplo, a Alemanha se viu responsável pela vida de 3 milhões de judeus poloneses. Uma alternativa que foi levada a sério foi a deportação para Madagascar.

O Projeto Madagascar, ou as deportações forçadas para "longe", não eram exatamente uma novidade. A União Soviética criou, em 1934, um "Oblast" (região administrativa que corresponde a um estado) especificamente para os judeus soviéticos, onde poderiam exercer autogoverno, se expressar em sua língua (yiddish, não hebraico) e trabalhar livremente. Porém, nas regiões subdesenvolvidas próximas à fronteira com a Manchúria (a Região Autônoma Judaica ainda existe hoje, com o mesmo status, na Rússia, mas a população judaica residente não chega a 2 mil pessoas). Em 1937, o governo polonês estudou a possibilidade de reassentar seus judeus em Madagascar, mas o plano nunca foi adiante, porque os judeus presentes na comissão responsável pelo estudo estimaram que a ilha oferecia condições para menos de 1/10 da população pretendida. Em 1938, ideólogos nazistas examinavam essa possibilidade, e energia foi investida na elaboração do plano apresentado por Rademacher.

Madagascar ainda era uma colônia francesa subdesenvolvida, economicamente quase inerte, que, além de manter os judeus fora da Europa, impediria, por um longo tempo, que eles prosperassem. O plano de Rademacher incluía a transferência de Madagascar para a administração direta alemã como um dos termos de rendição da França, então sob ataque. Em seguida, Rademacher planejou a criação de um banco que usasse os fundos dos próprios correntistas judeus para custear o projeto. A segurança e organização seriam supervisionadas pela SS, de maneira que a colônia seria administrada como um Estado policial (proposta de Adolf Eichmann, contra um governo próprio judaico sob controle alemão pensado por Rademacher). A deportação seria feita em navios, com cerca de 1 milhão de judeus levados por ano durante 4 anos. Funções específicas foram distribuídas entre os ministérios alemães para viabilizar as diferentes etapas do projeto. A primeira providência prática foi a interrupção das deportações na Polônia e da construção do Gueto de Varsóvia, porque não teriam mais utilidade.

Porém, a derrota alemã na Batalha da Bretanha entre julho e outubro daquele ano, e a impossibilidade de conquista imediata da Inglaterra adiaram os planos. Os nazistas pretendiam usar a enorme marinha mercante britânica para realizar o transporte dos judeus para a África. Quando a batalha começou a pender para o lado inglês, em meados de agosto, o alto comando nazista começou a reconsiderar seus planos, e a construção de guetos e as deportações recomeçaram. O plano B, então, era a deportação em massa de judeus para a União Soviética através da Polônia (os soviéticos provavelmente se encarregariam ativamente de tornar as suas vidas o mais miseráveis possível, como eventualmente aconteceu fora do contexto da guerra), mas o fracasso do cerco a Moscou em 1941 levou os nazistas a se inclinarem sobre a possibilidade de extermínio sistemático nos campos de concentração instalados na Polônia.

Embora elaborado com a má intenção de isolar e dificultar ao máximo a vida dos judeus longe da Europa, empobrecidos ao extremo, em um lugar estranho e desprovido de infraestrutura, com a vigilância constante e restritiva da polícia nazista, e mesmo ainda com a possibilidade de mortes por inanição e doenças durante as longas viagens oceânicas, talvez os judeus europeus tivessem uma sorte melhor do que a que lhes aguardava até o fim da Segunda Guerra.