terça-feira, 21 de julho de 2015

O gatilho mais rápido do oeste

Em 21 de julho de 1865, o pistoleiro James "Wild Bill" Hickok matou o cowboy Davis Tutt em um duelo. É o primeiro, e um dos poucos duelos documentados entre dois pistoleiros no estilo eternizado nos filmes sobre o Velho Oeste americano, em que os oponentes se encaram esperando o outro sacar a pistola.

Tanto Tutt quanto Hickok tiveram passados obscuros. Tutt sobreviveu a uma guerra entre os Tutt e os Everett no Arkansas. Hickok passou a juventude envolvido em brigas e praticando tiro com pisola. Tutt lutou pelo exército confederado durante a Guerra Civil americana, Hickok serviu com o exército da União. Como muitos soldados sem família naquele conflito, ambos ficaram à deriva com o fim da guerra (Hickok fugia para o oeste acreditando ter matado um homem durante uma bebedeira), e vieram a se fixar na pequena Springfield, em Missouri, onde se conheceram em jogos de cartas no saloon do Hotel Lyon (atualmente o Old Southern Hotel). De alguma forma acabaram tornando-se amigos.

Por amizade, Tutt fazia negócios desvantajosos e emprestava dinheiro a Hickok para suas apostas nas cartas. Uma rivalidade parece ter surgido entre os dois por conta de uma mulher, Susanna Moore (sem relação com a personagem da música "Oh Susanna, não chores por mim..."), que tinha uma relação com Hickok, mas despertava o interesse de Tutt. Wild Bill começou então a se recusar a jogar nas mesmas mesas que Tutt, que começou a se sentar ao lado de outros jogadores e financiá-los para ajudá-los a vencer o amigo e tirar-lhe todo o dinheiro, participando nos lucros.

Em certa ocasião, Hickok havia ganho numa mesa de poker 200 dólares contra jogadores para quem Tutt emprestara dinheiro (ou seja, os 200 dólares eram, em última análise, seus). Como os jogadores assistidos por Tutt perdiam repetidamente, ele resolveu no ato cobrar uma dívida de 40 dólares da venda de um cavalo a Hickok. Ele pagou a quantia, mas Tutt ainda exigiu outros 35 por um empréstimo em outro jogo. Hickok se recusou, alegando que a dívida era de 25 dólares. E continuou jogando.

Encorajado por amigos armados presentes no saloon, Tutt pegou o relógio de bolso de Hickok como garantia pelo pagamento de sua dívida. Vendo-se em desvantagem, Hickok engoliu a raiva e pediu calmamente que Tutt colocasse o relógio sobre a mesa, mas não foi atendido. Além da humilhação de confiscar sua propriedade, Tutt deixou o saloon dando a impressão, diante dos presentes, que Hickok era um viciado e um mal pagador. A entourage de Tutt continuou ali, provocando Hickok na esperança de que, num surto de raiva, ele sacasse sua pistola e criasse uma situação para que o matassem.

Essas provocações continuaram por vários dias. Certo dia, no saloon, alguém lhe disse que Tutt pretendia usar o seu relógio na praça central da cidade no dia seguinte. Hickok perdeu a paciência e respondeu: "Ele não deveria atravessar aquela praça a menos que homens mortos possam andar", e foi para o seu quarto limpar suas pistolas. Tutt ficou logo sabendo do desafio. Com sua reputação em jogo, ele não podia se dar ao luxo de ignorá-lo e demonstrar covardia. Na manhã seguinte, ele estava na praça, com o relógio pendurado no seu bolso. Hickok ouviu o que estava acontecendo e foi para lá. Os dois inicialmente discutiram a devolução do relógio, mas Tutt agora cobrava 45 dólares em dívidas de jogo, segurando o relógio pela corrente. Deliberadamente tentando manter o controle, Hickok disse que não queria briga, e que seria melhor os dois tomarem um drink juntos.

Ninguém sabe muito bem o que aconteceu durante aquele dia, mas ao por do sol, os dois deixaram o saloon do Hotel Lyon armados. Hickok caminhou para a extremidade sul da praça, deixando Tutt sozinho - e com o relógio ainda pendurado - na extremidade oposta, a 70 metros de distância. As pessoas que circulavam por ali correram para se proteger. "Dave, estou aqui", gritou Hickok, exibindo sua pistola, "Não venha aqui com esse relógio". Tutt permaneceu imóvel, com a mão na arma.

Os dois se olharam em silêncio por um tempo, os corpos posicionados de lado. Então Tutt fez o primeiro movimento para sacar a pistola. Wild Bill Hickok reagiu mais rápido, sacando e apoiando a mão sobre o outro antebraço. Os tiros foram disparados simultaneamente, mas o de Hickok atingiu o peito de Tutt, atravessando o coração. "Rapazes, estou morto!". Ele cambaleou e caiu na rua. Hickok foi até lá e pegou seu relógio de volta.

Wild Bill foi preso sob acusação de assassinato. No julgamento, foi levado em consideração que ele estava defendendo a honra após uma humilhação pública, e que, durante o confronto, Hickok apenas sacou quando Tutt havia feito o movimento para atirar, apesar de inúmeras chances de tê-lo feito primeiro. No final, ele foi declarado inocente. O caso despertou o interesse da imprensa. Um articulista da Harper's New Monthly Magazine, Coronel George Nichols, foi a Springfield entrevistar Hickok. Sua entrevista incluía exageros, contando como Hickok matara "centenas" (Hickok matara 5 pessoas em sua vida, uma acidentalmente) e passara por diversas aventuras inverossímeis. Os jornais que circulavam no Oeste passaram a reproduzir partes da história, lançando sobre Hickok uma aura de heroísmo que o tornaria um símbolo e um ideal do valente homem do oeste. Hickok até tentou capitalizar em cima da fama repentina (chegou a ser xerife, a trabalhar no espetáculo itinerante de Buffalo Bill Cody, e a se casar com a famosa pistoleira Jane Calamidade), mas em 1876, com a visão (e a mira) debilitada, voltou à obscuridade. Ele morreu baleado numa briga de bar naquele ano.

A lenda de Wild Bill Hickok foi retratada exaustivamente em todas as mídias. Ele é personagem fácil em qualquer representação do Velho Oeste, ora como personagem principal, ora como mera referência enquanto representação estereotipada do pistoleiro, sendo interpretado por nomes como Gary Cooper ("Jornadas Heroicas"), Charles Bronson ("O Grande Búfalo Branco"), Jeff Bridges ("Wild Bill"), Roy Rogers ("Jovem Bill Hickok"), e Moe, dos Três Patetas. O duelo de pistolas como entre Hickok e Tutt, em que os pistoleiros se encaram antes de sacarem também é um tema recorrente nas dramatizações do Velho Oeste, embora quase sempre os pistoleiros sejam retratados de frente um para o outro, e não de lado (diminuindo a área do "alvo") como foi o caso.

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