terça-feira, 28 de julho de 2015

Línguas

Em 28 de julho de 1955 foi formada a Union Mundial pro Interlingua, uma associação para o estabelecimento e promoção da Interlíngua, um idioma artificial desenvolvido desde 1937 para ser uma língua auxiliar para a comunicação internacional. A Interlíngua competia na década de 1950 com outra língua auxiliar, o Esperanto, como o idioma artificial mais usado no mundo, circulando, principalmente, nas comunicações do meio acadêmico.

A história e a evolução das línguas é um assunto absolutamente fascinante. A língua é um dos aspectos de identidade cultural mais óbvios e poderosos que existem em qualquer sociedade humana, sobrepondo-se muitas vezes aos aspectos étnico e religioso. E, contudo, como toda cultura, é formidavelmente dinâmica. As línguas tem semelhanças e diferenças entre si que possibilitam que sejam agrupadas em categorias taxonômicas que lembram a classificação dos seres vivos de Linnaeus. Seguindo as suas ramificações até a base, vemos que elas possuem origens em comum. Através dessas relações, e da sua distribuição geográfica no presente e no passado, o conhecimento linguístico pode contribuir com a História propriamente dita, a Antropologia, a Arqueologia, a Genética, e a própria Paleontologia, para entender como os povos se relacionam, quais as suas origens, que caminhos percorreram - depois, as causas, os porquês, os comos, as consequências desses movimentos, as relações sociais, econômicas e culturais formadas, e um espectro quase infinito de linhas de estudo.

Como sempre aconteceu de povos com línguas diferentes e mutuamente ininteligíveis viverem próximos, as trocas entre eles precisava ser mediadas através de uma língua. Algumas vezes, mas nem sempre, a língua estabelecida foi a língua do vizinho mais poderoso, como o Inglês na maior parte do mundo no final do século XX. Algumas vezes foi a língua dos comerciantes, como o Aramaico no Oriente Médio, mesmo depois das conquistas persa, macedônica, romana e árabe. Por causa das diferenças de línguas nativas, essas línguas "universais" são adotadas para possibilitar as relações entre os diferentes povos. São chamadas em latim de "lingua franca", ou a "língua usada pelos francos" que dominava o comércio no leste do Mediterrâneo a partir do século XI ("franco", por sua vez, era como todo europeu era genericamente conhecido fora da Europa, devido ao embate entre muçulmanos e francos nos Pirineus, acrescido da presença francesa na Palestina desde a Primeira Cruzada), que na verdade era um amálgama de línguas do norte da Itália e do Occitano do sul da França, com termos em Bérbere, Turco, Francês, Grego e Árabe, mas que era a forma com que todos os comerciantes se comunicavam naquela região, a despeito de suas línguas maternas.

Exemplos são muitos e extensos, então para dar sequência ao raciocínio, vou direto para o exemplo da história do Latim para escorregar dali em direção ao tema principal.

Os gregos nunca estabeleceram impérios territorialmente expressivos em território europeu sob uma liderança unificada, estendendo sua influência direta em direção à Ásia. Mas suas colônias distribuídas pela bacia do Mediterrâneo, e a predominância de mercadores gregos, fez com que mesmo os romanos, controlando um império de fato na região e submetendo os gregos ao seu domínio, preservassem o Grego como a língua do comércio, principalmente na Ásia. Sua reverência pela cultura grega fez com que o Grego se tornasse também a língua da cultura e da filosofia (os gregos foram os únicos povos não itálicos que os romanos não consideravam "bárbaros"). O imperador Marco Aurélio escreveu suas Meditações em grego. O Latim, a língua materna romana, evidentemente continuou em uso corrente, mas dentro do mundo romano, dentro das próprias cidades, a distância entre as classes sociais (patrícios, cavaleiros e plebeus, além dos escravos) e o seu acesso diferenciado à educação e à literatura fez emergir dois tipos de Latim: o Latim Clássico, com sua gramática original mantida quase intacta, falada entre os patrícios e usada na religião e pelo governo em discursos, documentos e atos públicos, e o Latim Vulgar, com erros, aglutinações, abreviações, e incorporação de termos estrangeiros, falado pelos plebeus.

Com o fim do Império no Ocidente, o Grego assumiu a posição de língua oficial do Império do Oriente, centrado na antiga cidade grega de Bizâncio e governando boa parte do que, um dia, foi o mundo helênico (sua derrocada veio depois da expansão árabe ao sul, turca ao leste, e eslava ao oeste, isolando o grego na Grécia e no mar Egeu). No Ocidente, a desintegração do Império não significou a desintegração da língua, que continuou a ser usada por alguns séculos como língua franca entre os diferentes povos que ocuparam suas antigas províncias, embora o homem comum usasse, no máximo, adaptações de suas línguas ancestrais ao Latim corrente. A Igreja Católica, com sua missão de espalhar o evangelho, para manter o controle sobre suas próprias atividades, continuou a usar o Latim em sua liturgia. Como o Latim, na prática, havia caído em desuso no correr da Idade Média (na própria Itália, o Latim Vulgar já se descaracterizara na direção da língua italiana moderna pelo menos desde o século XIII), ele permaneceu em uso na religião, e, principalmente no começo da Idade Moderna, como a língua com a qual os intelectuais europeus se comunicavam entre si. Até hoje, embora com cada vez menos frequência, o Latim é adotado em textos científicos, sob o pretexto de ser uma língua "morta", ou seja, que não é nativa de ninguém e que, assim, não favoreceria pesquisadores de nenhum país. Mas como o Latim é a raiz de várias línguas modernas (línguas românicas, como as línguas ibéricas, Francês, Italiano, Romeno), incluindo línguas não diretamente ligadas a ela, como as línguas germânicas, mas que tiveram uma influência do latim que outras, como o mandarim ou o vietnamita não possuem.

Enquanto o latim continuou preservado para situações específicas, as língua franca das relações econômicas oscilavam entre as nações que detinham o controle sobre o comércio. Espanhol e Holandês foram de alguma forma populares em seu tempo, assim como o Árabe e a própria lingua franca original, mas a primeira língua franca moderna, aquela que todo mundo que pretendia ser "alguém na vida" precisava apender, foi provavelmente o francês. Primeiro porque a França sempre teve uma posição proeminente no cenário político da Europa Ocidental. Segundo, porque o francês também era a língua da côrte na Inglaterra, devido principalmente à ascendência normanda da nobreza britânica. Dieu et mon droit, "Deus e meu direito", escrito assim em francês ainda é o lema oficial dos monarcas britânicos. De maneira que foi o francês, e não o inglês, a língua franca da alta sociedade europeia e a língua culta ao redor do mundo à medida em que o Império Britânico alcançava territórios em todos os continentes e oceanos. A crise que se seguiu à Primeira Guerra Mundial começou a inclinar o eixo econômico e político mundial em direção aos Estados Unidos. Com o advento da massificação dos meios de comunicação, o desenvolvimento local das indústrias cinematográfica e fonográfica, e a rápida ascensão econômica e cultural antes e depois da Segunda Guerra Mundial, a língua comum, o Inglês se tornou definitivamente a língua mundial da cultura e dos negócios.

Contudo, a Primeira Guerra marcou um momento de profunda crise cultural na Europa. o historiador Eric Hobsbaum usava a tese de que o século XX começara de verdade em 1917, quando a Revolução Russa surge como resultado de uma quebra de paradigmas que caracterizava a vistosa era dos impérios coloniais do século XIX. Existe aí uma desestabilização de identidades. Começava a busca por uma alternativa ao Francês, ao Inglês, e mesmo ao Latim como língua internacional. O Esperanto é uma língua que havia sido construída no final do século XIX por um dentista criado numa cidade dividida entre poloneses, alemães, russos e judeus, cada comunidade falando seu próprio idioma. Ele juntou elementos românicos, semitas, eslávicos e germânicos com esse objetivo. Ao final da Guerra existia uma comunidade particularmente numerosa de falantes na fronteira entre a Bélgica e a Alemanha. Durante um congresso da Liga das Nações em Praga, o Esperanto foi proposto como língua oficial da organização, e a proposta foi votada por dez dos onze delegados presentes - a moção não foi aprovada por causa do voto contrário do delegado francês. O Esperanto, a exemplo de outras línguas auxiliares como o Ido e o Novial, encontrou apoio e adeptos entre anarquistas e comunistas, por seu conceito fundamentalmente transnacionalista.

Os movimentos pelo desenvolvimento de línguas auxiliares nos anos 1920 inspiraram a socialite americana Alice Vanderbilt Morris a estabelecer a Associação Internacional de Línguas Auxiliares, grupo de estudos que desenvolveria a Interlíngua nos anos seguintes. Mesmo depois da morte de Vanderbilt e da dissolução da associação, a Interlíngua continuou a ser empregada, expandindo-se ao ponto de ser adotada como a língua dos resumos de artigos de cerca de 30 revistas científicas internacionais até o final dos anos 1970. A Union Mundial pro Interlingua continua promovendo estudos colaborativos e encorajando a publicação de trabalhos em Interlíngua. A versão Interlíngua da Wikipédia possui atualmente 14471 artigos.

A crítica maior às propostas correntes de línguas auxiliares está na alegação de que elas não cumprem sua proposta fundamental, que é o estabelecimento de uma língua que possa ser facilmente assimilada por falantes de qualquer língua do mundo, sem favorecer qualquer língua existente. Todas as línguas auxiliares existentes e reconhecidas atualmente se baseiam nos idiomas indo-europeus (grande tronco linguístico que inclui línguas românicas, germânicas, eslávicas, iranianas e as línguas indianas derivadas do Sânscrito), sobretudo os europeus, alienando inúmeras outras línguas. De fato, essa é declaradamente a matriz do Sânscrito. A Interlíngua é algo bastante parecido com o Castelhano. O Novial une elementos fortemente germânicos e eslávicos. O Ido cai mais para o lado das línguas românicas, e a Língua Franca Nova e a Interglossa se encaixariam facilmente nas línguas latinas. Uma proposta mais ampla recente, a Lingwa de Planeta, que reuniria as línguas mais faladas do mundo, ainda está em desenvolvimento.

A despeito do apoio inicial ao Esperanto como língua auxiliar internacional e de alguns milhões de falantes, por conta das críticas e do seu teor transnacionalista nenhuma dessas línguas chegou a ser aplicada sistematicamente nos sistemas educacionais de país algum do mundo.

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