sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A expedição Kon-Tiki e a ciência aventureira

Em 7 de agosto de 1947, a expedição liderada pelo norueguês Thor Heyerdahl, terminou quando sua embarcação, a balsa Kon-Tiki, se chocou contra recifes no arquipélago de Tuamotu.

Um assunto tradicionalmente quente nas ciências humanas é a origem dos povos americanos. Sabendo, pelo registro fóssil e arqueológico, que o homem moderno surgiu na África e seguiu um caminho para a Europa, para a Ásia, e chegou na Austrália, a presença humana na América antes da chegada dos europeus sempre intrigou muita gente. Houve, e ainda há, correntes que defendem uma rota migratória vinda da Sibéria, passando pelo congelado Estreito de Bering no Alaska, e chegando à América do Sul vinda do norte; outra corrente defende uma ou mais ondas migratórias vindas das ilhas do Pacífico, chegando na costa oeste da América do Sul e/ou Central, e de lá se difundindo para o resto do continente; outra, mais recente, defende a chegada dos primeiros americanos vindos da África subsaariana pelo Oceano Atlântico; e há os que defendem duas ou mais teorias.

Enquanto escrevia um projeto sobre espécies vegetais usadas como alimento, me deparei com vários trabalhos etnobotânicos e arqueobotânicos que apontavam para uma convergência no uso de determinadas espécies na América, na Ásia e na Polinésia: espécies de Lagenaria, uma cabaceira, e de algodão cultivadas por indígenas americanos teriam mais semelhança genética com espécies dos mesmos gêneros cultivadas na Ásia do que das suas outras parentes americanas. De maneira semelhante, a presença da batata-doce, espécie nativa da América, na dieta dos ilhéus do Pacífico descrita por navegantes europeus do século XVII indicaria algum grau de contato entre essas regiões tão afastadas do globo. Eu também trabalhava no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, para onde o famoso fóssil de Luzia - um crânio caracteristicamente africano, o mais antigo fóssil humano do continente - era guardado e estudado. Então naquele período, enquanto tentava me concentrar na botânica, eu entrei em contato com as várias teorias sobre a ocupação humana na América.

A ciência tem avançado bastante rápido nos últimos 50 anos para responder essas e outras perguntas. Mas até que o conhecimento e as metodologias chegassem ao refinamento atual, a disputa era muito acirrada, as correntes teóricas eram pesadamente influenciadas por tendências políticas e etnocêntricas, e atraía a atenção de leigos e exploradores. Um desses exploradores era o biólogo e etnógrafo Thor Heyerdahl. Enquanto fazia faculdade de biologia, Heyerdahl se interessou nos polinésios, acessando vasta literatura acerca de suas culturas, suas línguas seus mitos, e suas relações com outros povos. Seu primeiro contato com eles foi na ilha de Fatu Hiva, nas Ilhas Marquesas, Polinésia Francesa. Sua estada na ilha foi publicada em livro - veículo pelo qual se tornaria uma celebridade ao longo do século XX.

Embora tivesse atingido um nível de erudição a respeito dos polinésios, Heyerdahl não teve formação acadêmica em antropologia (assim como eu não tenho de História), de maneira que seus métodos e teorias foram repetidamente considerados equivocados - uma crítica comum aos seus projetos é de que ele selecionava teorias que queria provar, e moldava seus métodos especificamente para prová-las, sem testar outras hipóteses possíveis. No final da vida, isso o levou a uma expedição arqueológica infrutífera no Azerbaijão, acreditando, por meio de evidências que ele mesmo escolheu, que ali havia sido a origem dos povos proto-germânicos (aceitando que o mito de Odim conduzindo seu povo da terra de Asir representava a memória de um líder tribal conduzindo uma migração a partir do lugar com o nome mais próximo possível que ele encontrou). Não obstante, sua pesquisa literária o ajudou a reproduzir, por exemplo, embarcações típicas usadas no Rio Nilo no Egito Faraônico, no litoral do Golfo Pérsico do período sumério, e, mais importante aqui, um barco tradicional polinésio, com as tecnologias disponíveis respectivamente. Com um navio feito de papiro, por exemplo, ele conseguiu atravessar o Atlântico partindo do Marrocos (algo que os Egípcios não tentaram, mas demonstrando que poderia ser possível).

Ao contrário do que a maioria das pesquisas em diversos campos apontava, Thor era adepto de uma teoria que atribuía aos povos do oeste da América do Sul a colonização da Ilha de Páscoa e um contato difuso e ativo com as ilhas polinésias - ou, quiçá, teriam sido os ancestrais dos atuais povos polinésios. Os argumentos dessa teoria estariam espalhados em mitos americanos, como o de homens brancos barbados que teriam sido derrotados pelos ancestrais dos povos andinos e ido embora pelo mar - ele descrevia os nativos remanescentes dos Rapanui de Páscoa como de "pele branca", muito diferente dos polinésios de pele mais escura; o estilo de escultura dos moais (as colossais cabeças de pedra espalhadas pela ilha) que lembrariam os estilos contemporâneos encontrados no Peru; e um mito local que fala sobre dois povos que entraram em guerra em determinado momento, precipitando o colapso da civilização na ilha (um desses povos seria de imigrantes americanos). Para tentar provar essa teoria, Heyerdahl construiu, com base em literatura e em suas próprias observações, o Kon-Tiki (nome que homenageia o deus inca Viracocha, que teria sido o líder dos tais homens brancos em sua fuga pelo mar), uma balsa rústica no modelo polinésio que poderia ter sido construída com tecnologia neolítica.

Com uma tripulação de 6 homens, o Kon-Tiki partiu de Callao, Peru, no final de abril, e navegou pelo Pacífico aproveitando a Corrente de Humboldt por 101 dias, até atingir Tuamotu, quase 7 mil quilômetros a oeste. Thor Heyerdahl celebrou o feito como a prova de que precisava para demonstrar que os povos antigos da América do Sul poderiam ter colonizado as ilhas do Pacífico.

Do ponto de vista científico, a expedição só prova que um homem com treinamento militar (Heyerdahl serviu na Segunda Guerra Mundial) e outros com conhecimentos especializados em engenharia e comunicações eram capazes de levar uma embarcação rústica através do oceano com suprimentos planejados. O único elemento fiel ao que hipotéticos navegantes sul-americanos poderiam ter a disposição era o barco. Além de tripulantes munidos de conhecimento moderno aplicável à expedição, o Kon-Tiki zarpou rebocado por um navio alguns quilômetros além da costa; viajou com mais de mil litros de água potável, parte dela armazenada em latas; conquanto levasse alimentos frescos a bordo, como frutas e tubérculos (além de peixes que se reuniam sob as tábuas da balsa), a tripulação recorria a comida enlatada provida por um navio militar americano, com o qual os tripulantes mantinham contato via rádio. O teste da capacidade de navegação em si pode ser questionado porque Heyerdahl e outros membros tinham relógios de pulso, um instrumento extremamente útil para calcular longitudes, além do óbvio conhecimento do que a Terra é mais ou menos esférica e existia terras esperando além mar. Heyerdahl passou boa parte da vida se defendendo de críticas assim (na expedição do Marrocos à América, ele tentou anular o efeito da tripulação munida de conhecimento moderno escalando para tanto pessoas de várias nacionalidades e ocupações não relacionadas com navegação oceânica).

Recentemente, um levantamento genético entre amostras dos Rapanui da Ilha de Páscoa revelou uma similaridade de 76% com o genótipo polinésio, com 8% de influência americana e 16% europeia. A análise mais minuciosa aponta que a carga genética europeia era relativamente recente e poderia se dever ao contato com navegantes europeus (embora o grupo teste tenha sido escolhido entre aqueles que afirmavam não ter ascendência europeia na família), enquanto a carga americana deva ter entrado na composição entre os séculos XIII e XVI - quando a ilha de Páscoa já havia sido colonizada. Se houve esse contato entre Rapanui e nativos americanos, então pelo menos isso a expedição Kon-Tiki parece corroborar.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

A queda de Esparta

Em 5 de agosto de 371 a.C., Esparta sofreu um revés decisivo depois de se tornar o poder hegemônico do mundo helênico pós-Guerra do Peloponeso, ao ser derrotada por um exército tebano menos numeroso na Batalha de Leuctra.

A Guerra do Peloponeso foi uma guerra fratricida entre as ligas ateniense (Liga de Delos) e espartana (Liga do Peloponeso), rivalidade surgida durante a agressiva ascensão ateniense no Mediterrâneo na segunda metade do século V a.C., e alimentada com dinheiro persa que, vendo-se impossibilitado de conquistar a Grécia continental, procurou desestabilizar a região a seu favor apoiando Esparta. A guerra e eventos correlatos (como um surto de peste em Atenas em 430 a.C.) fragilizou a economia do mundo grego e as relações entre as metrópoles e suas colônias, especialmente na Itália e na França. Porém, com a vitória final de Esparta, dentro da Grécia propriamente dita aquela cidade-estado militarística se tornou o tênue núcleo de influência na política da região.

Tebas, por outro lado, manteve seu papel tradicional como a principal cidade da região da Beócia, o "antebraço" montanhoso de terra que liga tanto a Ática (a península onde se situa Atenas) e o Peloponeso (a península onde se localiza Esparta) ao resto da Europa. Durante as Guerras Pérsicas, Tebas se manteve pragmaticamente do lado dos invasores, vendo ali uma oportunidade de suplantar Atenas e Esparta como o poder máximo do mundo grego, com a bênção dos seus prováveis conquistadores. Os persas acabaram recuando, e Tebas viu a ascenção das duas cidades rivais. Com o advento da Guerra do Peloponeso, Tebas atuou do lado espartano em reconhecimento ao apoio destes quando Tebas deixou de presidir a confederação de cidades beócias, a Liga Beócia, em consequência da sua aliança com os persas.

Com o fim da guerra, Tebas começou a alterar as regras da Liga quanto à eleição de delegados para o conselho militar (os beotarcas), favorecendo a si mesma em detrimento das menores cidades federadas. Esparta insistia que todos os membros da Liga Beócia deveriam ter o mesmo tratamento, e atuou para dissolvê-la, chegando a ocupar Tebas com uma guarnição e designando delegados para administrar a cidade. Em 378 a.C. uma revolta resultou na expulsão dos espartanos e na deflagração de um conflito armado, inicialmente de proporções modestas. No primeiro momento, Esparta havia conseguido posicionar uma guarnição na cidade de Tespias, mas seu capitão, por conta própria, resolveu se aproveitar da situação para tentar um assalto ao porto ateniense do Pireu, trazendo Atenas para o conflito ao lado de Tebas.

As potências de Atenas e Esparta estavam novamente em guerra, enquanto Tebas lutava na Beócia para expulsar os espartanos e reconquistar sua influência na região. Em 373 Tebas reconquistou Plateia, pequena cidade beócia que teve papel importante na expulsão dos persas e era tida como aliada e em grande estima por Atenas. Por isso, muitos plateus se refugiaram lá, e suas queixas contra Tebas tiveram grande impacto na opinião pública. Logo Atenas procurou mediar um acordo de paz entre ela, Tebas e Esparta. No ato da assinatura, o general tebano Epaminondas alegou que ele deveria assinar por toda a Beócia, não apenas por Tebas. O rei espartano Agesilaus II resolveu o impasse excluindo Tebas do tratado, assinando a paz apenas com Atenas. Esparta entendia que precisava esmagar a rebeldia tebana para assegurar sua hegemonia. O estado de guerra continuaria entre as duas cidades, embora os combates fossem raros.

Esparta, que tradicionalmente possuía dois reis, enviou um exército de talvez 10 mil hoplitas de sua base avançada em Fócis, no sudoeste da Beócia, sob comando do rei Cleômbrotos. Os espartanos avançaram uma boa distância antes da notícia chegar a Tebas. Na ocasião, Tebas havia restaurado sua supremacia sobre a Liga Beócia, e eleito seus quatro beotarcas. Foi com a diferença de um voto entre eles que os beócios, sob comando de Epaminondas, relutantemente concordaram em mobilizar um exército para enfrentar Esparta.

Os dois exércitos se encontraram perto da vila de Leuctra, a pouco mais de 10 quilômetros de Tebas. O primeiro ataque, à distância, fez com que os tebanos que seguiam o exército (escudeiros, comerciantes, prestadores de serviço em geral) corressem para trás das filas. Os tebanos estavam em desvantagem numérica, e isso, incidentemente, fortaleceu as suas linhas. Um ataque da cavalaria espartana foi repelido, e o seu recuo causou uma certa confusão na linha espartana, impedindo um ataque direto. Epaminondas então tomou a ofensiva de uma maneira pouco ortodoxa para um exército grego - ao invés de compor as falanges como uma linha uniforme em largura e profundidade, com os melhores soldados à direita, ele concentrou suas forças no flanco esquerdo (colunas de 50 homens de profundidade, contra 12 do flanco espartano) sob liderança do colega beotarco Pelópidas, atacando em diagonal primeiramente por ali, quebrando o flanco direito espartano. Ali tombou Cleômbrotos, e começou a debandada do seu exército. A chegada de um reforço da Tessália persuadiu os espartanos a recuarem de volta à Lacedemônia, ao invés de reagrupar e tentar uma nova ofensiva.

A vitória em Leuctra permitiu a Tebas expandir sua influência inconteste não apenas na Beócia, mas em grande parte da Grécia, suplantando seus rivais históricos - a derrota desmitificou a superioridade militar de Esparta. O balanço de forças, contudo, continuou pendendo para um lado ou para o outro. Nove anos mais tarde, Tebas venceu novamente Esparta na Batalha de Mantineia (onde Epaminondas e Agesilaus se encontraram novamente), obliterando o controle espartano sobre o próprio Peloponeso, porém perdendo, por outro lado, o valioso Epaminondas. Com os dois lados enfraquecidos, haveria pouca resistência contra o avanço - pela habilidade militar e política - da Macedônia sobre a Grécia. Mais do que um novo equilíbrio de poderes, a batalha trouxe uma inovação para os exércitos gregos: a formação oblíqua de Epaminondas, que tornava seu exército muito mais flexível contra a rigidez formal da falange grega tradicional. Esse estilo de combate inspiraria Filipe II (que estudou em Tebas) e Alexandre, o Grande, e possibilitaria as suas contínuas vitórias contra gregos e persas e a consequente expansão do mundo grego sobre a Ásia e o Egito sob domínio macedônio.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Vida e lenda de Dom Sebastião

Em 4 de agosto de 1578, Dom Sebastião I de Portugal tombou na Batalha do Alcácer Quibir.

Sebastião ascendeu ao trono aos três anos de idade. Durante o período de regência de sua avó, a Imperatriz Catarina da Áustria, e do Cardeal Henrique de Évora, cunhado de Catarina, o Império Português interrompeu sua expansão colonial e entrou na defensiva. Com a proeminência do cardeal no governo, e a educação religiosa do jovem Sebastião entre os jesuítas, o governo português se deteve em assuntos religiosos ao invés de aprimorar a administração das suas colônias. Com Portugal na defensiva, outra potência marítima da época, o Império Otomano (que disputava o domínio do Mediterrâneo com Veneza, mas pouco se aventurava fora dele) arriscava ataques diretos, ou por meio de piratas, aos navios portugueses próximos à costa do Marrocos. Portugal já possuía algumas fortalezas na costa marroquina, porém era muito custoso mantê-las, já que as fontes de recursos mais próximas estavam de posse dos mouros.

Surgem aí, portanto, três motivos que convergiram para um plano geral de conquista do Marrocos - a expansão do cristianismo para o vizinho muçulmano mais próximo, a erradicação da pirataria muçulmana em águas portuguesas, e a viabilização da presença portuguesa já existente no norte da África. Dois eventos ainda estavam por vir que mergulhariam Portugal numa guerra afoita contra o reino africano.

Em 1562, uma enorme força marroquina liderada por Mulei Mohammed cercou a fortaleza portuguesa de Mazagão, na costa marroquina. Nos três meses de cerco, 25 mil soldados marroquinos pereceram, contra 17 defensores portugueses. A resistência insuflou a moral portuguesa e o ego de Sebastião, que ainda era uma criança.

O jovem rei, que assumiria o cargo em 1568 aos 14 anos, crescera convencido de que estava destinado a realizar grandes proezas como rei e em nome da cristandade. Ele advogava uma cruzada católica contra os mouros, e iniciou imediatamente preparativos para tal campanha. Ele próprio havia aceitado prontamente um pedido do Papa para uma cruzada contra os turcos no oriente (ele já havia mesmo articulado uma estratégia com seus aliados persas para um ataque em duas frentes), mas acabou sendo dissuadido com muito esforço. No entanto, por conta própria, acompanhado apenas por alguns fidalgos e poucos soldados, e sem qualquer planejamento, Sebastião navegou secretamente até as cidades marroquinas de Ceuta e Tânger (possessões portuguesas na época), com o espírito de usá-las como ponte para conquistar o país, fosse como fosse. Em Tânger, as defesas marroquinas, à visão do rei de Portugal em pessoa, recuaram pensando que ele estivesse acompanhado de um exército. Sebastião regressou frustrado, com a ideia fixa de conquistar o Marrocos. Contudo, para esta causa não encontrou apoio - Filipe II, rei da Espanha e seu primo, em conferência privada, não só não quis participar da campanha, como preferiu adiar o casamento de uma de suas filhas com o rei português, com medo de que ele realmente seguisse seu plano e a deixasse viúva.

Por fim, em 1576, o sultão Mulei Mohammed (o mesmo comandante do cerco a Mazagão) foi deposto por seu tio, com apoio de um exército turco, e fez um pedido de ajuda a Dom Sebastião, prometendo-lhe mais concessões de terras no seu país, entregando-lhe, de pronto, a fortaleza de Arzila, que o rei anterior, João III, abandonara. Foi o pretexto para o rei português lançar sua tão sonhada cruzada que vinha preparando havia pelo menos 10 anos - a despeito da reação negativa de toda sua côrte, seus ministros, do clero, e de sua avó. Suas reuniões com ministros, contudo, não eram sobre a viabilidade de uma expedição ao Marrocos, mas para resolver os detalhes de como realizá-la de maneira eficiente.

Dom Sebastião partiu à frente de uma grande frota, com mais de 23 mil soldados (12 mil portugueses, os demais estrangeiros comandados por amigos seus e mercenários) e 40 peças de artilharia. O exército desembarcou em Tânger, onde juntou-se a Mohammed e 6 mil mouros, e seguiu por terra, passando por Arzila, em direção a Alcácer Quibir. A costa marroquina é árida, e a marcha por terra desgastou as tropas. De fato, Sebastião não se dera ao trabalho de dar ouvidos aos conselhos do aliado marroquino, e não fazia sequer ideia do tamanho do exército do seu inimigo, o sultão Mulei el-Malek. Perto de Alcácer Quibir, el-Malek surgiu um exército pelo menos duas vezes maior. Embora conseguisse avançar pelo centro, as linhas portuguesas foram cercadas pelos flancos pela numerosa cavalaria moura, e em 4 horas a batalha terminou com metade do exército português morto, e a outra metade capturada (cujos resgates custaram a ruína econômica da coroa portuguesa). Mulei el-Malek, que estava doente, morreu enquanto tentava montar seu cavalo. Mulei Mohammed se afogou enquanto tentava fugir cruzando o rio. Já Dom Sebastião foi visto pela última vez com seus amigos avançando com a espada em punho em direção ao inimigo.

Cerca de 100 sobreviventes conseguiram regressar a Portugal. Nenhum deles, nem os soldados resgatados posteriormente, contudo, produziu algum relato confiável do paradeiro de Dom Sebastião. Seu desaparecimento deixou o trono português vago, pois não tinha filhos (seria sucedido pelo velho cardeal Henrique, antes de passar para Filipe II da Espanha, que promoveria a União Ibérica). Logo se espalhou o boato, na própria côrte, de que Sebastião estava vivo e retornaria para governar o país. Mesmo que isso demorasse, o boato, transformado em mito, se tornou um motivo nacionalista na população durante a União Ibérica (embora Filipe tenha tentado mitigar o movimento alegando ter recebido dos marroquinos os restos mortais de Sebastião e os enterrado no Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa). Os trovadores João de Castro e Gonçalo Annes Bandarra deram ares místicos ao retorno de Sebastião, como a profetização de um Messias. O personagem tomou contornos similares aos do Rei Arthur, o rei-herói que deixou a Inglaterra para a misteriosa ilha de Avalon, mas voltaria para salvar seu país. No fim da União Ibérica, quando João de Bragança aparecia como o favorito ao trono português, era corrente a crença de que ele lutaria com Dom Sebastião ao seu lado para livrar Portugal do domínio espanhol (se tornando efetivamente Dom João IV). Dom Sebastião seguiu até pelo menos o século XX como um símbolo patriótico português, presente na literatura e na música. No Brasil, o mito de que Dom Sebastião retornaria para reclamar a coroa inspirou os movimentos populares de Canudos (Antonio Conselheiro via na monarquia brasileira, a única forma de governo legítima pela vontade divina, e que Dom Sebastião viria para restaurá-la) e do Contestado (corria a lenda de que Dom Sebastião lutava entre os revoltosos). Mais recentemente, o mito de Dom Sebastião foi evocado na novela brasileira Mandacaru, como figura que legitima a pretensão meio louca do cangaceiro Zebedeu a tornar-se rei da cidade de Jatobá.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Jesse Owens

Em 3 de agosto de 1936 Adolph Hitler assistia o atleta americano Jesse Owens vencer a competição dos 100 metros rasos nos Jogos Olímpicos de Berlim, o primeiro dos seus quatro triunfos naquela competição.

James Cleveland Owens, o mais novo de dez irmãos, ficou conhecido como "Jesse" quando, na escola, foi perguntado por um professor como se chamava, e ele respondeu "J.C." ("Jay Cee"). Começou a praticar atletismo no colégio, e conseguiu uma bolsa universitária para seguir treinando em alto nível.

Jesse, com 21 anos, chegava aos jogos com 4 recordes mundiais atingidos no ano anterior, num mesmo dia: nos 100 metros rasos (na verdade, igualando o recorde existente de 9,4 segundos), no salto em distância, e nas provas não olímpicas das 220 jardas (algo próximo dos 200 metros rasos), e 220 jardas com barreiras. Muitas crônicas posteriores o colocam como uma "zebra" nas Olimpíadas que venceu um adversário gigante, mas na verdade ele era o favorito em suas provas. Pouco antes das competições, ele recebeu a visita do empresário alemão Adi Dassler, fundador da Adidas, que, ciente do seu ótimo prospecto, ofereceu-lhe seus novos calçados para corridas, tornando-o um dos primeiros garotos-propaganda da marca.

A final dos 100 metros rasos (definida após três rodadas eliminatórias, na segunda das quais bateu o recorde olímpico com 10,3 segundos) contava com Owens, seu colega de faculdade e principal adversário Ralph Metcalfe, e seu colega de revezamento 4x100 metros, Frank Wykoff. O único alemão era Erich Borchmeyer, integrante do revezamento alemão medalhista de prata no 4x100 metros nas Olimpíadas de Los Angeles. Ele era a zebra. Owens correu novamente para 10,3 segundos, com Metcalfe em segundo um décimo atrás e o holandês Osendarp em terceiro, o alemão apenas em quinto. A análise aqui é fria e com base em dados oficiais conhecidos, a vantagem de se escrever em retrospectiva. Mas o Estádio Olímpico de Berlim, com capacidade para 100 mil pessoas, contagiada pela extensa propaganda nazista de exaltação da raça ariana, estava exultante esperando uma vitória alemã, e a vitória do atleta negro foi recebida com espanto.

A lenda segue. Diz-se que Hitler, furioso, teria se recusado a cumprimentar o vencedor e se retirou do estádio. Hitler, de fato, vinha comparecendo às premiações para cumprimentar apenas os atletas alemães. A organização dos Jogos advertiu que Hitler deveria cumprimentar todos os atletas no pódio, ou nenhum deles. Depois disso, o führer optou por não participar mais das cerimônias. O próprio Jesse Owens recorda que, após a sua prova, Hitler, de sua tribuna, e ele, na pista, trocaram olhares e acenos, e em seguida o líder alemão teria deixado o estádio seguindo sua agenda (ou, como supunha Jesse, por causa do mau tempo que se formava).

Owens tinha suas razões para ter outra impressão de Hitler, a ponto de, algumas vezes, procurar a imprensa para desmitificar sua relação com ele (nos anos 60 ele teria mostrado a um jornalista alemão uma foto dos dois apertando as mãos nos bastidores da premiação dos 100 metros, algo alegadamente testemunhado por uns poucos presentes). A família de Owens veio do Alabama, fugindo de um sistema fortemente segregacionista. Quando chegou na Alemanha nazista, ele e outros atletas negros tinham liberdade de circular nos mesmos lugares e se hospedaram nos mesmos hotéis que os brancos, mesmo alemães. Quando retornou aos Estados Unidos, depois de um desfile em carro aberto, ele teve que usar o elevador de serviço para chegar à recepção em sua homenagem no hotel Waldorf-Astoria, em Nova Iorque. Owens e algumas testemunhas alegavam que Hitler realmente o cumprimentara após os 100 metros rasos (ora à distância, ora com um aperto de mãos). O presidente Franklin Roosevelt nunca o convidou para a Casa Branca, ao contrário de outros medalhistas - em campanha pelo candidato à presidência Alf Landon, Owens ressaltava que Hitler não o havia esnobado, enquanto Roosevelt nem lhe enviara um telegrama. De qualquer forma, a contra-propaganda americana se aproveitou do momento para mitificar Jesse Owens, que por seus próprios méritos já deveria ter sido lembrado como um atleta extraordinário.

A competição seguiu. No dia seguinte, Jesse passara por uma eliminatória difícil no salto em distância. Seu principal adversário na prova, esta sim, era o alemão Luz Long, recordista europeu, com o japonês Naoto Tajima (recordista mundial no salto triplo) correndo por fora. Long quebrou o recorde olímpico nas preliminares, pressionando Owens por um bom resultado. O americano havia queimado duas tentativas e precisava saltar pelo menos 7,15 metros para seguir para a final e parecia desanimado. Long, que ansiava pelo duelo com Jesse, então teria se aproximado e recomendado que o adversário desse mais folga da tábua de salto na sua última passada, pois sua melhor marca era tão superior às dos concorrentes que ele poderia sacrificar alguns centímetros para se classificar se saltasse bem. Ele saltou para 7,64 metros. Na final, Long quebrou novamente o recorde olímpico no penúltimo salto, mas já ali fora superado por Owens em 7 centímetros. Pressionado, o alemão queimou o último salto, e Owens estabeleceu novo recorde olímpico com 8,07 metros. Assim que confirmou o ouro, Luz Long foi abraçá-lo e posar com o americano para fotos. Sua atitude desportiva foi reconhecida postumamente com a medalha Pierre de Coubertin.

No dia 5 Jesse conquistou o ouro com alguma facilidade nos 200 metros rasos. Ele quebrara o recorde olímpico nas duas primeiras etapas eliminatórias, e só viu seu domínio ameaçado pelo compatriota Mack Robinson, que baixou esse recorde nas semi finais. Na final Robinson repetiu o recorde, mas Owens quebrou a marca mundial de 20,7 segundos para ficar com o terceiro ouro.

Sua última participação foi no revezamento 4x100 metros. Naquela altura, o atletismo alemão, justamente no evento de maior visibilidade dos Jogos, vinha sendo o grande fracasso da delegação. Ao final dos Jogos, a Alemanha terminaria líder do quadro de medalhas com 33 de ouro contra 24 dos Estados Unidos. Mas no atletismo, foram apenas 5 conquistas em 29 eventos, contra 14 triunfos americanos. Albert Speer, oficial do alto escalão nazista, dizia que Hitler estava tão aborrecido pelas vitórias americanas (além de Jesse, havia outros atletas negros, que, segundo Hitler, tinham vantagens físicas por serem mais primitivos) que ele cogitava propor a proibição de negros nas próximas competições olímpicas. Aconteceu que o time de revezamento dos Estados Unidos, atual campeão olímpico, contava com dois atletas judeus, Marty Glickman e Sam Stoller. Na manhã anterior à competição, o técnico americano decidiu substituir os dois por Jesse Owens e Ralph Metcalfe. As razões para isso nunca foram esclarecidas, mas parece ter sido uma manobra para evitar problemas com as políticas agressivamente antissemitas o governo alemão (a justificativa exposta pelo técnico aos atletas era de que os alemães estavam poupando seus melhores velocistas para essa prova; Owens teria insistido para que a equipe original fosse mantida, porque ele já tinha 3 ouros e estava cansado, mas lhe deixaram claro que deveria fazer o que era mandado). De qualquer maneira, a equipe americana venceu com larga margem, quebrando o recorde mundial duas vezes. A Alemanha não conseguiu sequer defender a prata de 1932 e ficou em terceiro. Foi a quarta medalha de ouro de Owens.

Jesse Owens teve a carreira encerrada abruptamente pouco depois dos Jogos, quando recusou um convite para uma competição na Suécia junto com a delegação americana e retornou aos Estados Unidos para correr por dinheiro - tornando-se formalmente um profissional, e, portanto, não elegível para o esporte. Quando os jogos voltaram a ser disputados, em 1948, Owens, com 33 anos, já se aventurava como dirigente de baseball numa liga para jogadores negros, e participava de eventos promocionais - ficou célebre por correr contra, e vencer, cavalos de corrida em tiros de 100 metros. Em vários momentos incorporou seu papel como atleta negro e ofereceu declarações em prol das lutas pelos direitos civis dos negros americanos. Viciado em cigarros depois que parou de correr, morreu de câncer em 1980.

Neste dia também: Colombo parte de Palos de la Frontera em direção à América

sexta-feira, 31 de julho de 2015

A queda de Sefarad

O dia 31 de julho de 1492 foi a data limite, de acordo com o Decreto de Alhambra assinado pelos reis de Castela e Aragão, para que todos os judeus que viviam na Espanha e não se converteram ao cristianismo deixassem o país sob pena de morte.

A presença judaica na Europa remonta aos tempos romanos. Mesmo antes da Segunda Diáspora, ocorrida a partir de 70 d.C. quando Roma debelou uma rebelião na Judeia e destruiu o Segundo Templo em Jerusalém, colonos e mercadores judeus se estabeleceram em várias cidades do Império. O advento do cristianismo como religião oficial, e a queda do Império do Ocidente não interferiram muito na vida dos judeus num primeiro momento. As perseguições ocorriam pontualmente, sobretudo em cidades onde os judeus se congregassem em comunidades importantes ou concentrassem a atividade econômica - nesses episódios emergia a tese de que os judeus assassinaram Jesus, e todo tipo de superstição derivada disso, fazendo com que os cristãos se voltassem contra eles. Como resultado, as comunidades judaicas, às vezes, precisava se mudar e se dissolver para se congregar em outro lugar, até que fossem perseguidas novamente.

No século VIII a Península Ibérica caiu sob domínio islâmico. Os muçulmanos, no entanto, deixavam geralmente os judeus em paz, pois eram um dos "povos do livro" especificados no Alcorão como irmãos em fé - o Deus de Maomé é o Deus de Abraão, que é o Deus dos judeus e dos cristãos. Também existia uma afinidade étnica, expressa alegoricamente no Antigo Testamento: ambos os povos descendem de Abraão, mas os judeus descendem da linhagem de Isaque, e os árabes (incluindo os muçulmanos, pois nem todo árabe era ou é seguidor do Islã) de Ismael, seu meio-irmão mais velho. As línguas hebraica e árabe também são conectadas por uma ancestralidade em comum. Então, embora o policiamento religioso e a aplicação de impostos específicos aos judeus oscilassem de tempos em tempos, esse reconhecimento mútuo permitia que os judeus encontrassem mais facilidades sob domínio sarraceno do que em solo cristão. Os judeus identificavam a Espanha com Sefarad, uma terra citada no Antigo Testamento mas não claramente definida, que o profeta Obadias prometia que os judeus que viviam lá herdariam as cidades do Neguev (o deserto ao sul de Israel). E foi naquela Sefarad que a civilização judaica atingiu seu apogeu cultural desde os tempos bíblicos.

Durante a Idade Média, a vida para um judeu era mais fácil nos domínios muçulmanos do que cristãos, de modo que muitos judeus que viviam no ocidente (na França, na Itália, na Inglaterra) se deslocaram para a Península Ibérica. As coisas mudariam à medida em que os pequenos reinos cristãos no norte da Espanha promoviam a Reconquista e empurravam os muçulmanos para o sul. A hostilidade para com os judeus locais era a mesma que os cristãos nutriam pelos seus inimigos muçulmanos. A motivação para a Reconquista era religiosa, e os cristãos reassentados nos territórios conquistados marcavam seu território com violência. A maioria dos judeus sefaraditas fugia para o sul, para o que restava do Califado de Córdoba, ou aceitavam converter-se ao cristianismo.

Alguns desses cristãos novos acabaram se beneficiando do seu novo status religioso e seguiram prosperando. Corriam, então, boatos de que esses cristãos novos continuavam praticando o judaísmo em segredo (os espanhóis usavam o termo pejorativo "marrano", ou "porco" para esses criptojudeus), e se infiltravam nas igrejas para convencer outros cristãos a adotarem suas práticas. Isabela, rainha de Castela, e Fernando, rei de Aragão, se casaram em 1469, e começaram a coordenar iniciativas para investigar e expor os criptojudeus. Em 1478 os dois fizeram um pedido formal a Roma para a criação de um tribunal da Inquisição em Castela, a Inquisição Espanhola (que mais tarde teria outro tribunal em Aragão) para investigar as atividades de judeus e novos cristãos. Não há um registro fiel das atividades da Inquisição no século XV, mas entre 1540 e 1700 cerca de 87000 casos foram levados a julgamento, resultando em pelo menos 1300 execuções.

No Califado de Córdoba os judeus ainda gozavam de algumas liberdades, embora a fragilidade do país diante do avanço cristão ao norte o houvesse tornado, na prática, um Estado tributário dos reinos ibéricos. Em 1491, diante de uma invasão iminente, o emir de Córdoba assinou com Isabela o Tratado de Granada, que garantia aos muçulmanos e judeus que viviam ali proteção e liberdade religiosa. Castela e Aragão tomaram Granada e cerca de 200 mil muçulmanos e judeus permaneceram residindo na região. A maioria fugiu em seguida para o norte da África, alguns se converteram para evitarem serem molestados pelos conquistadores. Mas Isabela e Fernando começaram a traçar novos rumos para sua política com os judeus.

Em 1592 Francisco Jimenez de Cisneros passou a ser confessor da rainha Isabela. Este Cisneros, antissemita ferrenho (e, a título de curiosidade, um entusiasta da democratização dos papeis dos gêneros na religião), havia ordenado a queima de cópias do Alcorão e todos os livros de posse dos muçulmanos em praça pública após a queda de Granada, entre 4 e 5 mil exemplares (poupando, contudo, os tratados de medicina). Cisneros parece ter sido instrumental nas discussões que levaram à substituição do Tratado de Córdoba pelo Decreto de Alhambra. Convencida a rainha de que os judeus estavam pervertendo os cristãos, o Decreto (que também foi assinado por Fernando) previa um prazo de quatro meses a partir da sua publicação para que todos os judeus residentes em Castela e Aragão se convertessem ou deixassem o país. Dentro deste prazo, a partir do terceiro mês o governo deixaria de oferecer-lhes proteção, de maneira que um cristão que atacasse um judeu não seria punido. A eles era permitido levar seus pertences, exceto ouro, prata e moedas. A pena para os judeus que permanecessem nesses países seria a execução sumária. Aos que acobertassem ou oferecessem abrigo a um judeu, a pena seria o confisco de bens e direitos sobre heranças e títulos.

Começou então um novo êxodo. Mesmo que de 50 a 70 mil tenham se convertido, algo na casa de centenas de milhares optaram por deixar a Espanha. Metade fugiu para o vizinho Portugal, onde, em 1497 seriam forçados novamente a escolher entre a conversão e a fuga (os novos cristãos portugueses tiveram papel significativo na organização das primeiras expedições portuguesas ao Brasil). Uma parte dos judeus fugiu para o norte da África, onde ainda hoje existem comunidades no Marrocos, na Argélia e na Tunísia. Um grande número buscou abrigo no Império Otomano - o Sultão Bayazid II ofereceu asilo aos judeus e mandou navios para buscá-los na Espanha, levando-os em segurança a Tessalônica (Grécia) e Izmir (Turquia). Uma vez em domínio otomano, esses judeus se dispersaram nos Bálcãs, no Egito, na Síria, na Palestina e em outros territórios árabes. Uma minoria dos que foram para o leste seguiram para a Ásia Central, onde juntaram-se aos judeus de Bukhara (no Tajiquistão) e da Índia.

Durante as perseguições que se seguiram aos que insistiram em permanecer em seus lares, e entre os que enfrentaram as viagens ao estrangeiro, estima-se que as mortes tenham chegado a dezenas de milhares. Nos dias que antecederam o fim do prazo, rumores de que os judeus estavam engolindo metais e pedras preciosas para levá-los consigo fez com que populares perseguissem e assassinassem judeus para abrir suas barrigas e procurar por eles. Donos de navios espanhóis que ofereciam transporte aos fugitivos cobravam fortunas para o serviço, e atiravam os passageiros ao mar. Os que se converteram, além de terem que seguir estritamente os costumes católicos, precisavam se casar com cristãos para evitar as suspeitas de conspiração e subversão sob a vigilância da Inquisição. Uma boa parte destes cristãos novos eventualmente deixaria a Espanha para tentar a sorte, especialmente na Holanda, onde criptojudeus sefaradim se sentiam seguros o suficiente para renunciar à conversão e praticar abertamente a sua fé (a experiência, o conhecimento, e as conexões dos comerciantes judeus viriam a ser úteis para a crescente economia holandesa).

A diáspora dos judeus sefaraditas teve impacto em todas as regiões onde eles se reassentaram. Apesar do desmembramento demográfico, os sefaradim ainda nutririam uma identidade étnico-cultural que perdura até hoje. São reconhecidas comunidades numerosas de judeus com ascendência sefaradi em países como França, Estados Unidos, Argentina, Marrocos, Argentina, Bósnia, Panamá, e, antes da Segunda Guerra Mundial, também na Síria, Líbia, Egito, Irã, e boa parte da Europa Ocidental. A maioria dos sefaradim vive hoje em Israel.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

A Defenestração de Praga

No dia 30 de julho de 1419, seguidores do pastor Jan Hus invadiram o prédio do Concelho Municipal de Praga e arremessaram para a morte sete de seus membros pela janela, no incidente que ficaria conhecido como a Primeira Defenestração de Praga.

A crise da Igreja Católica que levou à Reforma Protestante no século XVI começou bem antes. No século XIV o teólogo inglês John Wycliffe causou comoção com os seus discursos a respeito da necessidade de reformas centradas nas proposições bíblicas que atingiam diretamente a estrutura do clero e suas relações políticas (chegou ao ponto de atacar diretamente o Papa Gregório XI por não seguir o ideal cristão de pobreza material). Seus livros foram proibidos, Wycliffe considerado herético, e seus seguidores perseguidos. Contudo, um de seus livros, Trialogus, acabou nas mãos do padre Jan Hus, na Boêmia. As teses reformistas de Wycliffe o influenciariam, embora, inicialmente, ele as condenasse publicamente.

A Boêmia era um reino mais ou menos independente do Sacro Império Romano. Os últimos sacro imperadores era também reis da Boêmia. No final do século XIV, Venceslau IV da Boêmia era também o sacro imperador eleito, mas formalmente não governava o império porque a coroação dependia da bênção papal. Ele mesmo não fez muito esforço para procurar o Papa, uma vez que sua posição na Boêmia era frágil e mantida com dificuldade. Contudo, a crise na Igreja levou ao Cisma Ocidental, onde a liderança estava dividida entre o Papa em Roma, e um Antipapa em Avignon. Venceslau era simpático a Bento XIII, Antipapa em Avignon, e via o Papa romano Gregório XII como um obstáculo à sua coroação como sacro imperador. Venceslau também era simpático ao crescente movimento nacionalista tcheco, incorporado na Universidade de Praga, e com Jan Hus na sua liderança. Como Venceslau era visto como um reformista (antes de Bento, ele apoiara a eleição do reformista romano Urbano VI, e mais tarde apoiaria Alexandre V, Anti-antipapa, se isso fosse um título), Hus logo se sentiu seguro suficiente para tornar públicas suas críticas à Igreja. Suas quatro demandas eram:

-Liberdade de pregação da Palavra de Deus (na língua vernacular e por qualquer ministro, independente de ordenação; Wycliffe em pessoa trabalhou numa tradução da Vulgata para o inglês);
-Celebração da Comunhão dos dois tipos (o corpo e o sangue de Cristo, pão e vinho) tanto para os padres como para os fiéis;
-A abdicação de qualquer poder secular do clero;
-Punições iguais para pecados mortais, independente da posição social.

Hus traduziu o Trialogus para o tcheco, e a partir daí a obra circulou também na Polônia, na Hungria e na Áustria. Jan Hus se tornou extremamente popular entre os nacionalistas, que chegaram a declarar, enquanto queimavam as bulas papais que condenavam suas teses, que eles deveriam obedecer Hus, e não a Igreja. Três deles acabariam decapitados, o que geraria enfrentamentos entre católicos e hussitas. Cada vez mais Hus conquistava mais adeptos ao ponto de Venceslau defender publicamente Jan Hus contra a Igreja, enquanto os hussitas se revoltavam em crescente violência a cada condenação do papado de Roma e do Arcebispo de Praga contra suas reformas.

O impasse entre Venceslau e o Papa de Roma fez com que o eleitorado alemão votasse a sua deposição e elegesse para seu lugar seu irmão Sigismundo, Grão-Duque de Luxemburgo. Sigismundo também era herdeiro do trono da Boêmia, de maneira que era do seu interesse apaziguar os ânimos naquele país. Ele promoveu um concílio em Constança em 1414, na fronteira da Alemanha com a Suíça, para por fim às divergências entre católicos e hussitas. Jan Hus atendeu ao convite de bom grado. Mas boatos de que ele fugiria do debate enfureceram Sigismundo, responsável pelo seu convite e sua segurança (à boca miúda, foi aconselhado a não confiar num herético). O processo terminou com a sua prisão, condenação e execução em 1415.

Os hussitas na Boêmia e em seus núcleos nos países vizinhos, contudo, reagiram com violência. Muitos confrontos violentos entre hussitas e católicos resultaram em mortes e prisões por todos os lados. No fim de julho de 1419 alguns hussitas estavam presos em praga, e o padre reformista Jan Zelivsky, acompanhado de membros da sua paróquia, estava se dirigindo para o Concelho Municipal de Praga para tentar negociar sua libertação. O padre foi atingido por uma pedra vinda supostamente do prédio. A turba revoltada invadiu o Concelho, tomou o juiz local, o prefeito, e membros do Concelho, os levou ao alto da torre do edifício e os jogou pela janela.

A Defenestração de Praga foi o ponto final do debate entre o status quo católico e o reformismo hussita. O rei Venceslau morreu logo depois de saber do ocorrido (talvez tenha tido um infarto). Hussitas passaram a atacar alvos católicos, enquanto a nobreza nacionalista tcheca confiscava suas propriedades. Sigismundo, agora rei, recorreu às armas para assegurar sua ascensão ao trono, enquanto o Papa Martinho V convocava o Ocidente para uma Cruzada contra a heresia hussita. A guerra que se seguiu durou quase 15 anos, e chegou até Joana D'Arc (que enviou um ultimato aos hussitas ameaçando liderar pessoalmente uma cruzada caso eles não renunciassem à sua heresia, semanas antes de ser presa). A Igreja aceitaria com restrições as reformas a respeito da comunhão e da pregação da Palavra. Os radicais que se recusavam a aceitar o acordo foram mortos em batalha ou presos. Os demais se reorganizaram em partidos, praticando seus cultos clandestinamente, ou foram reabsorvidos pela Igreja.

O movimento reformista hussita expôs publicamente as contradições da Igreja, e a fagulha que restou do movimento ajudou a acender a chama da Revolta Protestante. O luteranismo acabaria absorvendo as fraternidades hussitas sobreviventes, enquanto a reação católica tomaria de assalto a Boêmia. A Europa seria envolvida em novas guerras religiosas entre católicos e protestantes, e em 1618, outro incidente em Praga terminaria com uma segunda defenestração de dignatários católicos do prédio da Chancelaria Boêmia por rebeldes protestantes.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

A Armada Espanhola

Em 29 de julho de 1588, uma numerosa esquadra inglesa venceu a Armada Espanhola perto da costa de Gravelines, atual Bélgica, impossibilitando definitivamente uma invasão espanhola à Inglaterra.

Durante o século XVI, as questões religiosas começaram a interferir nas questões dinásticas, sobretudo na Inglaterra Tudor, cujo rei Henrique VIII fundara o Anglicanismo com o intuito de romper a dependência de Roma nas sua decisões domésticas (particularmente no seu direito ao divórcio). Enquanto isso, a família Habsburgo plantava suas sementes em casamentos reais, de maneira que um dos filhos do Sacro Imperador Romano Carlos V, Filipe, tornara-se ainda jovem, rei de Nápoles e reclamante do trono do finado Reino de Jerusalém. Isto o qualificava a um casamento com igualdade de condições com Maria I, rainha da Inglaterra, e sua prima (o que o tornaria, também rei da Irlanda). Em 1556 seu pai, que também era rei da Espanha, morreu, deixando-o, como Filipe II, no trono espanhol com suas possessões ultramarinas, além de territórios em Milão, a região do Franche Comté na França, os Países Baixos e Luxemburgo. Em 1558 assumiu também o trono de Portugal, de cuja falecida princesa Maria Manuela fora casado por 8 anos. Quando Maria I morreu, dois anos depois, Filipe foi obrigado pelo acordo de casamento a ceder o trono a Elizabeth I, a filha anglicana da união de Henrique VIII e Ana Bolena, pois seu papel de rei emanava da sua união com Maria, "até a morte".

No primeiro momento, Filipe, um monarca pragmático, lidou com a perda da Inglaterra de maneira política. Ele chegou a propor casamento com Elizabeth, mas, como viria a ser sua característica, a nova rainha cultivava uma imagem de castidade e postergou a resposta até Filipe perder o interesse e procurar outra alternativa. Ainda assim ele procurou manter relações cordiais com a Inglaterra, defendendo Elizabeth de questionamentos sobre a sua legitimidade diante da ameaça do Papa de excomunhão.

A questão religiosa aproximou Elizabeth dos protestantes holandeses, formalmente súditos rebeldes de Filipe. Como resultado desta aliança, embarcações inglesas começaram a atacar navios espanhóis carregados de produtos do Novo Mundo em atos de pirataria (o capitão Francis Drake, secretamente a serviço da rainha, alçaria grande fama atacando navios e alguns dos principais portos espanhóis). Em 1585 Elizabeth formalizou a aliança no Tratado de Nonsuch, fornecendo tropas e suprimentos aos protestantes holandeses contra a coroa espanhola. Filipe considerou o tratado uma declaração de guerra.

Na época, a Escócia gozava de independência e era governada por outra Maria, parente distante dos Tudor. Enquanto Elizabeth era protestante, e, portanto, tinha seu direito à coroa questionada pela Igreja Católica, Maria era católica. Conspirações dentro da própria corte escocesa a levaram à prisão e à deportação para a Inglaterra, onde viveu muitos anos sob custódia. Ela foi presa uma última vez em 1586, acusada de colaborar com um plano para assassinar Elizabeth. Filipe havia assinado em 1584 um tratado com a França católica para a colaboração mútua contra os protestantes, e isso incluiu esforços conjuntos para restaurar Maria de volta ao trono escocês - e talvez elevá-la ao trono inglês.

A execução da rainha escocesa em 1587 provocou uma mudança radical de planos: Filipe tentaria diretamente invadir a Inglaterra para tirar Elizabeth do poder. Para isso ele ordenou a mobilização de grande parte da marinha espanhola, armando 130 navios de grande e médio portes com 2500 canhões e 18000 soldados. Era a Grande e Felicíssima Armada Espanhola. Demorou dois dias inteiros até que todos os navios deixassem o porto de Lisboa em direção ao Canal da Mancha, especificamente à Ilha de Wight, junto à costa inglesa, onde esperariam reforços vindos do ducado de Parma para a invasão propriamente dita.

Uma operação deste tamanho não passou despercebida dos ingleses, que mobilizaram sua própria frota para interceptar o maciço ataque espanhol. Ao longo do trajeto, os ingleses promoveram algumas escaramuças, mas sem grandes efeitos para um lado ou outro. Porém, impediu o avanço da Armada para a Ilha de Wight, forçando-a em direção a Calais, na França, onde ela aguardaria os reforços de Parma e escoltaria suas barcaças pela travessia da Mancha. A posição dos navios espanhóis, de quilha profunda, no raso porto de Calais era vulnerável na medida em que navios holandeses especialistas em águas rasas se aproximavam e isolavam as águas entre os navios espanhóis e a costa, impossibilitando o embarque dos soldados parmigianos em terra (que não estariam prontos para tanto em menos de uma semana). Em 28 de julho de 1588, os ingleses se aproveitaram da indecisão e sacrificaram alguns navios, incendiando-os nas águas rasas junto a Calais e os mandando em direção à frota inimiga. Os navios espanhóis partiram em confusão em direção a Flandres, com os ingleses no seu encalço.

No dia seguinte, em Gravelines, o almirante espanhol, o Duque de Medina Sidonia, tentou reorganizar sua frota. Mas logo os ingleses, capitaneados por Francis Drake, abandonaram a tática de atirar à distância e decidiram por um bombardeio em massa à curta distância. Até então, Drake procurava fustigar o inimigo à longa distância, evitando o alcance dos canhões espanhóis, mas sem resultados. Os espanhóis, por outro lado, tinham em mente outro modelo de combate naval: a abordagem direta e captura das embarcações inimigas com a força dos soldados a bordo. De modo que o ataque frontal dos ingleses em Gravelines foi devastador. Com os navios posicionados de maneira que os espanhóis ficavam de barlavento, os ingleses miravam os cascos junto à linha da água, de forma que, quando os inimigos manobrassem, a água penetrasse naturalmente, levando-os a pique. A batalha durou oito horas, até que a munição dos navios britânicos acabou. Cinco navios espanhóis foram perdidos, e muitos avariados. Devido à posição insustentável, e suspeitando que os ingleses estariam prontos para mais abordagens no mar e protegidos em terra, Medina Sidonia teve que abandonar os reforços de Parma no continente e seguir em movimento.

No final, a invasão de larga escala se transformou numa longa e penosa viagem em volta das Ilhas Britânicas. Com os navios avariados e pouca experiência naquelas águas, a maior parte dos navios espanhóis viria a naufragar próximo às costas da Escócia e da Irlanda, onde de 10 a 20 mil homens, entre soldados e marujos, perderam a vida (em afogamentos, por forme, doenças, ou executados por tropas inglesas e populações locais). Dos 130 navios que deixaram Lisboa em abril, apenas 67 chegaram aos portos de Espanha e Portugal. A guerra entre o império de Filipe II e a Inglaterra e os rebeldes protestantes na Holanda continuaria ainda por vários anos. Apesar do mal planejamento da expedição e de um comando questionável (o Duque de Medina Segovia não tinha qualquer experiência no mar), e a despeito do entusiasmo inglês que se seguiu à derrota da Armada (Elizabeth lançou no ano seguinte a sua Contra-Armada, que também fracassou), a Espanha ainda conseguiria manter por várias décadas a sua superioridade nos mares e seu controle sobre Portugal e suas colônias. Para a Inglaterra e o movimento protestante, a vitória sobre a Armada era um sinal de afirmação divina da doutrina protestante e da soberania de Elizabeth I.