segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Jesse Owens

Em 3 de agosto de 1936 Adolph Hitler assistia o atleta americano Jesse Owens vencer a competição dos 100 metros rasos nos Jogos Olímpicos de Berlim, o primeiro dos seus quatro triunfos naquela competição.

James Cleveland Owens, o mais novo de dez irmãos, ficou conhecido como "Jesse" quando, na escola, foi perguntado por um professor como se chamava, e ele respondeu "J.C." ("Jay Cee"). Começou a praticar atletismo no colégio, e conseguiu uma bolsa universitária para seguir treinando em alto nível.

Jesse, com 21 anos, chegava aos jogos com 4 recordes mundiais atingidos no ano anterior, num mesmo dia: nos 100 metros rasos (na verdade, igualando o recorde existente de 9,4 segundos), no salto em distância, e nas provas não olímpicas das 220 jardas (algo próximo dos 200 metros rasos), e 220 jardas com barreiras. Muitas crônicas posteriores o colocam como uma "zebra" nas Olimpíadas que venceu um adversário gigante, mas na verdade ele era o favorito em suas provas. Pouco antes das competições, ele recebeu a visita do empresário alemão Adi Dassler, fundador da Adidas, que, ciente do seu ótimo prospecto, ofereceu-lhe seus novos calçados para corridas, tornando-o um dos primeiros garotos-propaganda da marca.

A final dos 100 metros rasos (definida após três rodadas eliminatórias, na segunda das quais bateu o recorde olímpico com 10,3 segundos) contava com Owens, seu colega de faculdade e principal adversário Ralph Metcalfe, e seu colega de revezamento 4x100 metros, Frank Wykoff. O único alemão era Erich Borchmeyer, integrante do revezamento alemão medalhista de prata no 4x100 metros nas Olimpíadas de Los Angeles. Ele era a zebra. Owens correu novamente para 10,3 segundos, com Metcalfe em segundo um décimo atrás e o holandês Osendarp em terceiro, o alemão apenas em quinto. A análise aqui é fria e com base em dados oficiais conhecidos, a vantagem de se escrever em retrospectiva. Mas o Estádio Olímpico de Berlim, com capacidade para 100 mil pessoas, contagiada pela extensa propaganda nazista de exaltação da raça ariana, estava exultante esperando uma vitória alemã, e a vitória do atleta negro foi recebida com espanto.

A lenda segue. Diz-se que Hitler, furioso, teria se recusado a cumprimentar o vencedor e se retirou do estádio. Hitler, de fato, vinha comparecendo às premiações para cumprimentar apenas os atletas alemães. A organização dos Jogos advertiu que Hitler deveria cumprimentar todos os atletas no pódio, ou nenhum deles. Depois disso, o führer optou por não participar mais das cerimônias. O próprio Jesse Owens recorda que, após a sua prova, Hitler, de sua tribuna, e ele, na pista, trocaram olhares e acenos, e em seguida o líder alemão teria deixado o estádio seguindo sua agenda (ou, como supunha Jesse, por causa do mau tempo que se formava).

Owens tinha suas razões para ter outra impressão de Hitler, a ponto de, algumas vezes, procurar a imprensa para desmitificar sua relação com ele (nos anos 60 ele teria mostrado a um jornalista alemão uma foto dos dois apertando as mãos nos bastidores da premiação dos 100 metros, algo alegadamente testemunhado por uns poucos presentes). A família de Owens veio do Alabama, fugindo de um sistema fortemente segregacionista. Quando chegou na Alemanha nazista, ele e outros atletas negros tinham liberdade de circular nos mesmos lugares e se hospedaram nos mesmos hotéis que os brancos, mesmo alemães. Quando retornou aos Estados Unidos, depois de um desfile em carro aberto, ele teve que usar o elevador de serviço para chegar à recepção em sua homenagem no hotel Waldorf-Astoria, em Nova Iorque. Owens e algumas testemunhas alegavam que Hitler realmente o cumprimentara após os 100 metros rasos (ora à distância, ora com um aperto de mãos). O presidente Franklin Roosevelt nunca o convidou para a Casa Branca, ao contrário de outros medalhistas - em campanha pelo candidato à presidência Alf Landon, Owens ressaltava que Hitler não o havia esnobado, enquanto Roosevelt nem lhe enviara um telegrama. De qualquer forma, a contra-propaganda americana se aproveitou do momento para mitificar Jesse Owens, que por seus próprios méritos já deveria ter sido lembrado como um atleta extraordinário.

A competição seguiu. No dia seguinte, Jesse passara por uma eliminatória difícil no salto em distância. Seu principal adversário na prova, esta sim, era o alemão Luz Long, recordista europeu, com o japonês Naoto Tajima (recordista mundial no salto triplo) correndo por fora. Long quebrou o recorde olímpico nas preliminares, pressionando Owens por um bom resultado. O americano havia queimado duas tentativas e precisava saltar pelo menos 7,15 metros para seguir para a final e parecia desanimado. Long, que ansiava pelo duelo com Jesse, então teria se aproximado e recomendado que o adversário desse mais folga da tábua de salto na sua última passada, pois sua melhor marca era tão superior às dos concorrentes que ele poderia sacrificar alguns centímetros para se classificar se saltasse bem. Ele saltou para 7,64 metros. Na final, Long quebrou novamente o recorde olímpico no penúltimo salto, mas já ali fora superado por Owens em 7 centímetros. Pressionado, o alemão queimou o último salto, e Owens estabeleceu novo recorde olímpico com 8,07 metros. Assim que confirmou o ouro, Luz Long foi abraçá-lo e posar com o americano para fotos. Sua atitude desportiva foi reconhecida postumamente com a medalha Pierre de Coubertin.

No dia 5 Jesse conquistou o ouro com alguma facilidade nos 200 metros rasos. Ele quebrara o recorde olímpico nas duas primeiras etapas eliminatórias, e só viu seu domínio ameaçado pelo compatriota Mack Robinson, que baixou esse recorde nas semi finais. Na final Robinson repetiu o recorde, mas Owens quebrou a marca mundial de 20,7 segundos para ficar com o terceiro ouro.

Sua última participação foi no revezamento 4x100 metros. Naquela altura, o atletismo alemão, justamente no evento de maior visibilidade dos Jogos, vinha sendo o grande fracasso da delegação. Ao final dos Jogos, a Alemanha terminaria líder do quadro de medalhas com 33 de ouro contra 24 dos Estados Unidos. Mas no atletismo, foram apenas 5 conquistas em 29 eventos, contra 14 triunfos americanos. Albert Speer, oficial do alto escalão nazista, dizia que Hitler estava tão aborrecido pelas vitórias americanas (além de Jesse, havia outros atletas negros, que, segundo Hitler, tinham vantagens físicas por serem mais primitivos) que ele cogitava propor a proibição de negros nas próximas competições olímpicas. Aconteceu que o time de revezamento dos Estados Unidos, atual campeão olímpico, contava com dois atletas judeus, Marty Glickman e Sam Stoller. Na manhã anterior à competição, o técnico americano decidiu substituir os dois por Jesse Owens e Ralph Metcalfe. As razões para isso nunca foram esclarecidas, mas parece ter sido uma manobra para evitar problemas com as políticas agressivamente antissemitas o governo alemão (a justificativa exposta pelo técnico aos atletas era de que os alemães estavam poupando seus melhores velocistas para essa prova; Owens teria insistido para que a equipe original fosse mantida, porque ele já tinha 3 ouros e estava cansado, mas lhe deixaram claro que deveria fazer o que era mandado). De qualquer maneira, a equipe americana venceu com larga margem, quebrando o recorde mundial duas vezes. A Alemanha não conseguiu sequer defender a prata de 1932 e ficou em terceiro. Foi a quarta medalha de ouro de Owens.

Jesse Owens teve a carreira encerrada abruptamente pouco depois dos Jogos, quando recusou um convite para uma competição na Suécia junto com a delegação americana e retornou aos Estados Unidos para correr por dinheiro - tornando-se formalmente um profissional, e, portanto, não elegível para o esporte. Quando os jogos voltaram a ser disputados, em 1948, Owens, com 33 anos, já se aventurava como dirigente de baseball numa liga para jogadores negros, e participava de eventos promocionais - ficou célebre por correr contra, e vencer, cavalos de corrida em tiros de 100 metros. Em vários momentos incorporou seu papel como atleta negro e ofereceu declarações em prol das lutas pelos direitos civis dos negros americanos. Viciado em cigarros depois que parou de correr, morreu de câncer em 1980.

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