segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Magyares

Em 10 de agosto de 955, uma confederação germânica sob a liderança do rei Oto I da Frância Oriental dispersou uma horda magyar na Batalha de Lechfeld, no sul da Alemanha.

O movimento constante de povos nômades sempre causaram enormes impactos na demografia nos continentes em que ocorreram. Nas Américas e na África, onde as ondas migratórias não foram registradas por escrito (exceto na Mesoamérica, cujo último movimento importante de povos é a descida dos Aztecas vindos do norte em direção ao centro do México), elas são conjecturadas com base em arqueologia e linguística. Mas na Europa, na Ásia, e no norte da África (sobretudo Egito), as sucessivas ondas migratórias foram registradas em profusão. Em alguns momentos, o choque entre povos nômades em movimento e civilizações foi tão violento que pareceu que o mundo que se conhecia estava para acabar - muitas vezes essa sensação de estar perto do fim era o que urgia os cronistas e historiadores a registrarem tudo que pudessem. Por isso as migrações dos povos eurasiáticos são mais bem compreendidas, embora suas causas primárias - o que motivou esses povos a saírem de suas terras e se baterem contra fortalezas e exércitos melhor armados e organizados - raramente sejam conhecidas.

No século IX, o Império Romano do Ocidente já não existia, e a Europa Ocidental era dominada por povos germânicos romanizados - os francos governavam uma confederação importante de povos germânicos na França e parte da Alemanha, e já impunham um limite à invasão moura na Espanha; uma outra confederação germânica convivia num reino derivado do Império de Carlos Magno, a Frância Oriental, onde hoje é a metade ocidental da Alemanha. O Império Romano do Oriente, ou Império Bizantino, ainda era relativamente saudável, ou pelo menos funcional, dominando terras na Itália, na Grécia e na Ásia, e tinha como principal preocupação os búlgaros empurrando suas fronteiras ao sul da do Danúbio. Esses búlgaros eram povos proto-eslávicos que se desprenderam do seu território original nas margens do Mar Negro e, ao longo do século VII assaltaram os Bizantinos e seus vizinhos ocidentais, até que um ramo fixou território no Danúbio e estabeleceu ali um êmulo do Império Bizantino - os khans búlgaros, designação para os chefes tribais de diversos povos eurasiáticos, governavam este Império Búlgaro como czares, "césares".

Os búlgaros, que se constituíam de várias tribos que compartilhavam da mesma língua, não estavam sozinhos. Acompanhando os búlgaros estava uma confederação distinta, de língua nem eslávica e nem sequer indo-européia, mas fino-úgrica, uma família linguística mais afim do turco e do mongol do que de qualquer outra língua europeia (exceto o suomi, ou finlandês, que compõe a família com o húngaro). Essas tribos viriam a ser conhecida no ocidente pelo nome da aldeia onde viviam, Onogur, na atual Bulgária - onogures, ongales, hunugures, unghrese (na Itália), ungar (na Alemanha), ungari, hungari (latim). Já o autônimo pelo qual se identificavam (e se identificam até hoje, a despeito desses exônimos em todas as línguas vizinhas) é magyar, nome de uma das tribos húngaras, possivelmente em uma referência obscura, talvez de um mito de formação nacional, a um certo Muaegris, um khan huno cuja tribo foi expulsa de território bizantino no século VI. Ao longo da história, o nacionalismo húngaro desenvolveu este mito para traçar a origem do povo magyar até Átila, o famoso khan dos hunos que desafiou o poder de Roma a partir da atual Hungria. Os bizaninos os chamavam em grego de "turcos".

Os magyares (ou magyarok, no plural em húngaro) viviam inicialmente subordinados ao Khaganato Kazar, um império turco ao norte do Cáucaso e na Rússia. A partir de 830 os kazares aparentemente sofriam uma crise econômica que gerou revoltas de diversos grupos étnicos e invasões estrangeiras. Entre os revoltosos estavam algumas tribos magyares, que, atacados por nômades turcos da tribo pechenegue, passaram para território búlgaro, através do qual entraram em contato com os reinos ocidentais. O acotovelamento entre os povos - pechenegues, búlgaros, avaros mais a oeste - a pujança material de Bizâncio e dos reinos germânicos, e a adequação das planícies na bacia dos Cárpatos para seus rebanhos direcionou os magyares para o centro da Europa. Por volta de 900, um certo Árpád liderou uma invasão em massa à quase desguarnecida antiga província romana da Panônia, então ocupada por pastores avaros e "romanos" (segundo a Gesta Hungarorum, do século XIII), e chegaram à "Cidade do Rei Átila", ou Aquincum, atual Budapest. Este Árpád é reverenciado como herói nacional, uma espécie de Moisés húngaro.

A exemplo dos hunos de Átila, a Hungria se tornou o centro de operações dos magyares, implementando ataques surpresas aos campos, cidades e castelos próximos na Grécia, Alemanha, na Itália e na França, com bandos alcançando até a Catalúnia, devastando e pilhando. Com uma cavalaria veloz e arqueiros montados sobre estribos, os ataques surpreendiam os exércitos europeus que, na alta Idade Média, eram uma mistura de infantaria leve composta de camponeses armados com o que podiam arranjar e nobres em pesadas armaduras, de maneira que os arqueiros montados húngaros, em ação coordenada, podiam massacrar rapidamente o inimigo mais lento. Com o centro da planície carpátia assegurado, os seguidos sucessos e os tesouros provenientes dos saques, subornos e tributos, permitiram uma expansão contínua das fronteiras húngaras em todas as direções por mais de 50 anos (os ataques ao Império Bizantino e aos territórios eslavos nos Bálcãs continuariam até pelo menos 971).

Em 955, Oto I, rei da Frância Oriental, soube de uma invasão de magyares na Bavária. Magyares já haviam atacado a Alemanha outras vezes, iniciando sempre a invasão do sudeste, fazendo uma curva na altura do Reno, passando pela França, virando ao sul para a Itália, e de lá regressando à Hungria antes que se pudesse reunir algum exército para lhes oferecer combate. Oto posicionou uma força a partir do Reno para forçar uma recuada da cavalaria húngara, enquanto movia outra força igual na sua perseguição, confrontando-os finalmente em Lechfeld, na Bavária. Com fileiras de veteranos pesadamente armados - as armaduras pesadas medievais se originaram de projetos básicos trazidos pelos alanos durante as invasões germânicas a Roma, desenvolvidos para suportar o ataque à distância de arqueiros montados, os germanos tentavam neutralizar sua desvantagem numérica. Com uma parede de metal e escudos, os saxões de Oto conseguiram encurtar a distância e provocar o combate corpo a corpo. Os magyares simularam uma fuga para induzir os germânicos a se dispersarem atrás deles, apenas para atacá-los em massa de volta, mas os defensores continuaram perseguindo-os em perfeita ordem. Os magyares debandaram, muitos tentaram se esconder em vilas e aldeias, mas os locais os massacraram. Vários líderes magyares morreram na batalha e durante a fuga. Embora as perdas de ambos os lados fossem proporcionais, a impossibilidade de vencer um exército naquele formato deve ter tido profundo impacto nas lideranças húngaras.

Foi a última vez que cavaleiros magyares tentaram invadir os reinos ocidentais. Também foi a última vez que uma tribo de nômades invadiu a Europa e se fixou por lá - os mongóis chegariam cerca de 3 séculos mais tarde, mas seriam gradualmente empurrados de volta para a Ásia pelos russos. Cerca de duas gerações depois da Batalha de Lechfeld, o rei Estevão I da Hungria se converteu ao catolicismo e recebeu a bênção do Papa (mais tarde seria canonizado). A Hungria gradualmente adotaria o estilo de vida das potências ocidentais, bem como sua tradição política, administrativa e militar - o exército, reunido sob duques e senhores feudais correspondentes, deixaria de contar com os arqueiros montados e adoraria a cavalaria pesada no seu lugar.

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