sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A AIDS vem a público

Em 28 de agosto de 1981 o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos publicou uma nota reconhecendo a alta incidência de infecções pulmonares de origem fúngica (pneumocistose) e de sarcomas de Kaposi (uma espécie de tumor hipodérmico causado por um tipo de vírus da herpes), doenças então muito raras, em pacientes homossexuais e usuários de drogas injetáveis.

A ocorrência dessas doenças chamava a atenção, porque são mais comuns em pacientes imunodeprimidos, e porque o aumento súbito da sua ocorrência se dava em pacientes dessas categorias especificamente. Os cientistas ficaram perdidos tentando associar o grupo com as doenças e o que poderia estar possivelmente causando a imunodepressão nessas pessoas. O primeiro grupo de estudos do governo americano a acompanhar o surto o designava como "Sarcoma de Karposi e infecções oportunistas", por falta de conhecimento sobre o quadro. Além da pneumocistose e do sarcoma de Karposi, os pacientes também apresentavam nódulos linfáticos inchados, fraqueza generalizada, dores musculares, falta de apetite, perda de peso, e propensão a outras infecções raras típicas de imunodepressão.

Refinando os dados sobre os pacientes, identificaram que, além de homossexuais e usuários de drogas injetáveis (sobretudo heroína), também estavam vulneráveis hemofílicos e haitianos. A imprensa começou a divulgar a nova síndrome como "deficiência imunológica relacionada aos gays". A imprensa brasileira enfatizava que essa nova doença parecia estar surgindo especificamente no seio das comunidades gays.

Com todos os dados que se conhecia, em 1982 fixou-se um nome mais abrangente: Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, cuja sigla em inglês é AIDS.

Foi apenas em 1983 que dois grupos de estudo identificaram um retrovírus presente no sangue de pacientes de AIDS capaz de atacar especificamente linfócitos do tipo T, que são linfócitos que sinalizam às demais células do sistema imunológico a presença de agentes infecciosos no sangue. De alguma forma, esse vírus desativava as células T sem destruí-las, impossibilitando a reação do sistema imunológico. Os dois grupos acreditavam ter identificado vírus diferentes, mas em 1986 concluiu-se que eles eram o mesmo, o vírus da imunodeficiência humana, ou HIV.

Entre 1981 e 1986, o HIV se espalhou rapidamente, devido ao desconhecimento sobre a sua causa, e as suas formas de contágio. Desde o primeiro momento, parecia claro que, fosse o que fosse, poderia ser transmissível pelo sangue. Como não se conhecia o vírus nem outra maneira de se detectar a doença pelo sangue apenas, muitos hemofílicos e pessoas submetidas a transfusões de sangue acabaram infectadas. Sem um tratamento adequado, os pacientes de AIDS definhavam rapidamente, e podiam morrer de doenças banais como um resfriado em poucos meses. A persistência da síndrome em homossexuais continuava chamando a atenção. Não tardou para que religiosos atribuíssem a AIDS a algum tipo de punição divina contra a sodomia e outros comportamentos ímpios (apesar de tudo, ainda há hoje quem defenda esta tese, negando mesmo a própria existência do HIV).

Cientistas suspeitavam de trocas de fluidos corporais, especificamente sêmen. Informações desencontradas e uma imprensa que vendia o pânico, fizeram com que os pacientes de AIDS fossem estigmatizados, excluídos do convívio social, mesmo hostilizados - "agora aguenta". Havia medo de contágio pelo toque, pela saliva, pelo ar. Isso também prejudicou gravemente as condições dos pacientes em tratamento. Eu sou uma pessoa que cresceu nos anos 80, e lembro da histeria que que se criou em torno da AIDS, e do temor constante entre as crianças da minha idade de "pegar AIDS" de objetos enferrujados (o que evitava que pegássemos tétano, na verdade) ou por contato físico, e que, se você se distraísse e "pegasse", era uma sentença de humilhação e morte certas. Nomes de grande notoriedade midiática - artistas, principalmente - sucumbiram à doença, conferindo-lhe notoriedade extraordinária e contribuindo para um pânico generalizado naquele primeiro momento.

Tão logo o HIV foi identificado como a causa da AIDS (e, na verdade, de um processo do qual a AIDS, ou o quadro de imunodepressão, é a etapa mais avançada), e ficou estabelecido que o contágio só é possível através de troca de sangue e sêmen, irrestrito aos antigos "grupos de risco" (homossexuais e usuários de drogas injetáveis), os veículos de comunicação passaram a exibir mensagens de governos e organizações não governamentais alertando para o uso estrito de agulhas e seringas descartáveis (eu passei a infância fazendo exames de sangue pelo menos uma vez por ano, e só a partir da segunda metade dos anos 80 as enfermeiras obedeciam ao ritual de abrir as novas agulhas na minha frente para mostrar que eram novas) e camisinhas nas relações sexuais, mesmo sem penetração vaginal. Os bancos de sangue passaram a ter um controle cada vez mais estrito (ainda assim, em 1986 o sociólogo Herbert de Souza, hemofílico, contraiu o HIV em uma transfusão), assim como a assepsia de materiais cirúrgicos e do seu descarte. Em 1987 entrou no mercado a azidotimidina, ou o AZT, um anti-retroviral que freava a reprodução do HIV no organismo e retardava o seu progresso. O AZT permitiu um aumento significativo na sobrevida dos portadores do vírus, porém não seria a cura; sua dose máxima é limitada pelo seu efeito tóxico sobre as mitocôndrias e outros efeitos colaterais no metabolismo humano, possibilitando ainda a reprodução do vírus em taxas menores.

De qualquer forma, o vírus HIV, transmissível por relações sexuais, transformou radicalmente o comportamento da geração que cresceu nos anos 70 sob a cultura da liberdade sexual. O "amor livre" foi sepultado por motivo de saúde pública. A geração que cresceu com medo da AIDS se tornou sexualmente mais conservadora, no que diz respeito à franqueza com que lida com o sexo e assuntos relacionados - não necessariamente à sua prática na intimidade. Essa falta de abertura quanto ao sexo vitimou principalmente mulheres, cujos parceiros sexuais mantinham seus casos com terceiras(os) em sigilo e praticavam sexo sem proteção em casa, disseminando o vírus para um grupo que, no começo da epidemia, parecia bastante "seguro". No continente africano, onde supõe-se que o HIV tenha evoluído de um vírus imunodepressor similar típico de outras espécies de primatas, a falta de informação e as crenças populares levaram ao mito de que o sexo com uma virgem poderia purificar um homem da doença. Atualmente, quase 5% dos adultos entre 15 e 49 anos na África subsaariana são portadores de HIV (chegando a um pico de 26% de toda a população adulta da África do Sul).

Com o correr dos anos, o conhecimento sobre o HIV e suas variedades, e sobre o próprio metabolismo humano permitiu o desenvolvimento de novas drogas que, combinadas, permitem aos portadores de HIV uma sobrevida longa e produtiva, sem o característico definhamento físico que estigmatizava os "aidéticos" até meados dos anos 1990 (alguns pacientes morrem de velhice ou doenças não relacionadas com a imunodepressão após 15, 20 anos com o vírus). Com isso, a geração que nasceu nos anos 90, e a geração do "amor livre" dos anos 70, perderam o medo da AIDS. Isso se reflete num aumento na transmissão do HIV entre adolescentes (que, segundo a análise de Drauzio Varella, "acham que ninguém mais morre de AIDS", e que caso aconteça é só tomar uns remédios distribuídos gratuitamente pelo SUS), e adultos acima dos 50 anos (cuja vida sexual é prolongada com o uso de medicamentos estimulantes, e se iniciaram sexualmente numa época em que não existia um hábito de se usar camisinhas, necessárias, na sua visão, apenas quando existia o risco de gravidez). Tudo isso a despeito das outras doenças sexualmente transmissíveis com efeitos nocivos, como herpes, gonorreia, hepatite C e sífilis, para as quais o tratamento não é simples. Isso se traduz nos dados de pesquisas sobre novos infectados no Brasil: um acentuado declínio entre meados dos anos 1990 e 2001, e um novo aumento contínuo a partir de 2005 até 2015. Homens heterossexuais acima de 13 anos de idade compõe atualmente a maior proporção de portadores de HIV no país por gênero/idade/orientação sexual.

Há em torno de 734 mil soropositivos no Brasil, e cerca de 400 mil destas recebem do Sistema Único de Saúde o coquetel anti-retroviral e por ele realizam exames periódicos. Cerca de 5,7 óbitos para cada 100 mil habitantes em 2013 eram em decorrência da AIDS, proporção que vem decrescendo nos últimos 10 anos. Ainda não existe um remédio que elimine o HIV, ou neutralize o seu efeito imunodepressor.

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