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segunda-feira, 24 de abril de 2017

A Guerra de Tróia

Segundo a datação baseada nas concatenações de Eratóstenes, que coincide com o período em que o estrato VII do sítio arqueológico de Hissarlik teria sido catastroficamente queimado, o dia 24 de abril de 1184 a.C. teria sido o dia em que uma grande confederação micênica destruiu a cidade de Tróia.

As fontes primárias do que sabemos de Tróia são os poemas épicos de Homero, Ilíada e Odisséia, cujos supostos fatos históricos estão costurados com mitos, recursos estilísticos, licenças poéticas, anacronismos, e possivelmente, com outros episódios históricos de sítios e batalhas anteriores ou posteriores. A identificação do sítio de Hissarlik (que em turco significa "Lugar da Fortaleza"), no litoral da Turquia, como a mais provável localização da antiga Tróia, nos dá os dados mais objetivos do que pode ter acontecido. O local, hoje situado a 6,5 km da costa, havia sido habitado sucessivamente por diversas culturas desde o Neolítico, e destruído várias vezes. O estrato VII corresponde ao maior perímetro alcançado por uma cidade naquele local, construído sobre uma colina formada sobre ruínas anteriores, e teria sido destruído na época em que se supõe que a Guerra de Tróia tenha acontecido. O conhecimento, ou a atribuição desta localidade a Tróia parece ter subsistido por muito tempo, pois há indícios de que Alexandre da Macedônia passou ali para prestar tributo 800 anos depois da data suposta para a destruição da cidade. Há muita contextualização histórica sobre o que pode ou não ter acontecido, juntando a literatura pré-clássica com a arqueologia e o que se conhece do mundo ao redor de tudo isso.

A civilização micênica consistia de uma colcha de retalhos de pequenos reinos e cidades-estado que cobriam o Peloponeso e o sul da Grécia, e que, no seu apogeu, estendia sua esfera de influência sobre Creta, ilhas do Egeu e do Mar Jônico. O nome da civilização deriva da sua cidade mais importante, Micenas, no oeste do Peloponeso, que floresceu com o comércio marítimo, especialmente após o primeiro colapso da civilização minoica, na Ilha de Creta, a partir de 1450 a.C.. A Guerra de Tróia aconteceu no momento em que o mundo micênico estava para ser alterado profundamente com a gradativa e particularmente violenta invasão da tribo dos dórios, vindos do norte. Esses dórios, falantes de um dialeto grego, obliterariam a Grécia de tal maneira que o outrora opulento mundo micênico, produtor de obras arquitetônicas e artísticas sem paralelos no Mediterrâneo do seu tempo, permaneceria praticamente em "silêncio" por cerca de 600 anos, deixando um vácuo de poder no Mediterrâneo que seria preenchido pelos fenícios. A guerra teria sido, em última análise, provocada pelo estrangulamento da economia micênica na Grécia devido ao avanço dos dórios, e então os aliados micênicos (os "Aqueus" de Homero) procuraram abrir caminhos para a expansão econômica em direção à Ásia. Mas Tróia estava no caminho, capitaneando uma outra confederação de pequenos reinos no noroeste da Turquia (a "Trôade"), dominando as rotas comerciais que vinham do Império Hitita, no leste, e chegavam ao Mediterrâneo.

A versão poética de Homero coloca a Guerra de Tróia como o clímax de uma disputa entre deuses; Helena foi um dos três bebês nascido de um ovo posto por Leda depois de ser seduzida por Zeus transformado em cisne. Seus irmãos, Cástor e Pólux, nascidos para serem atletas e guerreiros extraordinários (com a participação em vários ciclos mitológicos, como a expedição dos argonautas), resgataram a pequena Helena, reconhecidamente a mulher (embora tivesse talvez 10 anos de idade) mais bela de toda a Grécia, quando foi raptada pelo herói Teseu, e levada em segurança a Esparta. Ali, foi tomada em casamento pelo rei Menelau, personagem de personalidade fraca e dependente, que enviara seu ousado irmão Agamenon, rei de Micenas, para participar do concurso de lutas e habilidades mediados pelos irmãos da princesa - Agamenon receberia a mão da meia-irmã de Helena, Clitemnestra. 

Quando chegou-se a este estado de coisas, Zeus havia organizado um banquete de casamento ao herói Peleu e à deusa Tétis (pais do herói aqueu Aquiles), porém a deusa da discórdia Éris não fora convidada. Ela se apresentou ao banquete com uma maçã de ouro, que seria entregue à mais bela das deusas. Como Hera, Atena e Afrodite se candidatassem e houvesse desacordo sobre qual das três mereceria o prêmio, Zeus escolheu o príncipe troiano Páris para julgá-las, pois ele já havia provado ser justo em julgamentos anteriores. As três deusas desfilaram diante do mortal, mas foi preciso que ele as examinasse uma a uma, nuas. Na ocasião, cada deusa tentou persuadi-lo com uma recompensa pela sua escolha: Hera ofereceu a ele o poder sobre todos os reinos da Europa e da Ásia; Atena lhe ofereceu sabedoria e habilidade na guerra para que suas conquistas não tivessem limites; Afrodite prometeu a Páris a mão da mais bela mulher do mundo, Helena. A deusa do amor foi a eleita.

Atena e Hera não deixariam barato. Quando Páris foi enviado por seu pai Príamo, rei de Tróia, em missão diplomática a Esparta, o príncipe foi arrebatado por Helena, e, possivelmente após tê-la violentado, fugiu com ela de volta a Tróia. Como a cidade asiática fosse poderosa demais para o exército de Menelau sozinho - e como Menelau não tinha o respeito de seus pares - ele recorreu a Agamenon para arregimentar e liderar uma confederação helênica contra Tróia para resgatar Helena e vingar a sua desonra. A partir do posicionamento de Afrodite a favor de Páris, e Atena e Hera junto aos aqueus, todos os deuses do Olimpo, semideuses e heróis míticos tomariam partido de um lado ou de outro.

Os 1186 navios contados por Homero no porto de Áulis (teriam sido mais se o rei de Creta tivesse enviado as 50 naus que prometera, e não apenas uma transportando 49 miniaturas de barro) ficaram presos ali por falta de ventos até que o adivinho Caucas revelou que Agamenon precisaria sacrificar uma filha para aplacar a deusa Ártemis - a morte da pobre Ifigênia é o tema da trágica Ifigênia em Aulis, de Eurípides. Entre a reunião em Áulis e a chegada às praias de Troia teriam transcorrido quase 10 anos. Os eventos da Ilíada correspondem ao último ano da guerra, especificamente os 52 dias entre o desembarque das tropas até a morte do príncipe troiano Heitor, capitão das defesas da cidade, pelas mãos do enfurecido Aquiles. O poema seguinte, Odisseia, encontra Odisseus embarcando em sua jornada de volta para casa depois da guerra. O momento da queda de Troia, curiosamente, não é narrado "ao vivo" em nenhuma das fontes (apenas em retrospectiva no segundo poema), mas ela teria ocorrido quando, depois da morte de Aquiles, seu guerreiro mais poderoso, e diante de um impasse, já que as defesas da cidade não davam sinal de que cairiam (Tróia ainda recebia reforços vindos do interior e do estrangeiro), Odisseus surgiu com a ideia de construir um cavalo com a madeira dos barcos parados na praia e presenteá-lo aos inimigos. Com a praia vazia, os troianos foram convencidos de que os aqueus haviam ido embora e levaram o cavalo para o interior das muralhas. Uma vez lá dentro, à noite, guerreiros gregos escondidos no estômago da estátua saíram e destruíram a cidade por dentro. Helena foi enfim resgatada e trazida de volta a Menelau, que passara a maior parte do ataque escondido em sua tenda, delegando comando a Agamenon. A Odisseia, acompanhando o filho de Odisseus, Telêmaco, em busca de informações sobre o paradeiro do pai, revela uma Helena enfadada da vida com Menelau.

De qualquer maneira, a queda de Tróia, que poderia ter representado o apogeu, ou uma nova era para a civilização micênica, pode ser tratada como o seu canto do cisne, uma vez que as invasões dóricas, propiciadas por graves crises sociais e econômicas em Micenas e todas as outras grandes cidades em volta, varreriam quase toda a Grécia (notadamente, Atenas teria sido poupada) logo em seguida e a transformariam para sempre. A destruição de Tróia teria sido uma medida desesperada. Nos séculos seguintes à invasão dórica e ao colapso de Micenas, povos vindos do mar se abateram desesperadamente contra os reinos cananitas, os hititas e o Egito, e alguns conjecturam que esses "Povos do Mar", como os egípcios os chamavam, seriam os povos, incluindo os aqueus, deslocados pelos invasores dóricos na Europa e no Mediterrâneo.

Os poemas de Homero com certeza foram construídos e preservados oralmente por cantores ao longo dos séculos seguintes (colocando em cheque a identidade de "Homero" como apenas uma pessoa), e foram finalmente compilados por escrito entre 600 e 700 anos depois daquele evento. Eles são a última memória daquela civilização. E também são a matéria prima, o mito fundador da identidade helênica, e a matriz de praticamente toda a literatura ocidental até hoje.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

A queda de Esparta

Em 5 de agosto de 371 a.C., Esparta sofreu um revés decisivo depois de se tornar o poder hegemônico do mundo helênico pós-Guerra do Peloponeso, ao ser derrotada por um exército tebano menos numeroso na Batalha de Leuctra.

A Guerra do Peloponeso foi uma guerra fratricida entre as ligas ateniense (Liga de Delos) e espartana (Liga do Peloponeso), rivalidade surgida durante a agressiva ascensão ateniense no Mediterrâneo na segunda metade do século V a.C., e alimentada com dinheiro persa que, vendo-se impossibilitado de conquistar a Grécia continental, procurou desestabilizar a região a seu favor apoiando Esparta. A guerra e eventos correlatos (como um surto de peste em Atenas em 430 a.C.) fragilizou a economia do mundo grego e as relações entre as metrópoles e suas colônias, especialmente na Itália e na França. Porém, com a vitória final de Esparta, dentro da Grécia propriamente dita aquela cidade-estado militarística se tornou o tênue núcleo de influência na política da região.

Tebas, por outro lado, manteve seu papel tradicional como a principal cidade da região da Beócia, o "antebraço" montanhoso de terra que liga tanto a Ática (a península onde se situa Atenas) e o Peloponeso (a península onde se localiza Esparta) ao resto da Europa. Durante as Guerras Pérsicas, Tebas se manteve pragmaticamente do lado dos invasores, vendo ali uma oportunidade de suplantar Atenas e Esparta como o poder máximo do mundo grego, com a bênção dos seus prováveis conquistadores. Os persas acabaram recuando, e Tebas viu a ascenção das duas cidades rivais. Com o advento da Guerra do Peloponeso, Tebas atuou do lado espartano em reconhecimento ao apoio destes quando Tebas deixou de presidir a confederação de cidades beócias, a Liga Beócia, em consequência da sua aliança com os persas.

Com o fim da guerra, Tebas começou a alterar as regras da Liga quanto à eleição de delegados para o conselho militar (os beotarcas), favorecendo a si mesma em detrimento das menores cidades federadas. Esparta insistia que todos os membros da Liga Beócia deveriam ter o mesmo tratamento, e atuou para dissolvê-la, chegando a ocupar Tebas com uma guarnição e designando delegados para administrar a cidade. Em 378 a.C. uma revolta resultou na expulsão dos espartanos e na deflagração de um conflito armado, inicialmente de proporções modestas. No primeiro momento, Esparta havia conseguido posicionar uma guarnição na cidade de Tespias, mas seu capitão, por conta própria, resolveu se aproveitar da situação para tentar um assalto ao porto ateniense do Pireu, trazendo Atenas para o conflito ao lado de Tebas.

As potências de Atenas e Esparta estavam novamente em guerra, enquanto Tebas lutava na Beócia para expulsar os espartanos e reconquistar sua influência na região. Em 373 Tebas reconquistou Plateia, pequena cidade beócia que teve papel importante na expulsão dos persas e era tida como aliada e em grande estima por Atenas. Por isso, muitos plateus se refugiaram lá, e suas queixas contra Tebas tiveram grande impacto na opinião pública. Logo Atenas procurou mediar um acordo de paz entre ela, Tebas e Esparta. No ato da assinatura, o general tebano Epaminondas alegou que ele deveria assinar por toda a Beócia, não apenas por Tebas. O rei espartano Agesilaus II resolveu o impasse excluindo Tebas do tratado, assinando a paz apenas com Atenas. Esparta entendia que precisava esmagar a rebeldia tebana para assegurar sua hegemonia. O estado de guerra continuaria entre as duas cidades, embora os combates fossem raros.

Esparta, que tradicionalmente possuía dois reis, enviou um exército de talvez 10 mil hoplitas de sua base avançada em Fócis, no sudoeste da Beócia, sob comando do rei Cleômbrotos. Os espartanos avançaram uma boa distância antes da notícia chegar a Tebas. Na ocasião, Tebas havia restaurado sua supremacia sobre a Liga Beócia, e eleito seus quatro beotarcas. Foi com a diferença de um voto entre eles que os beócios, sob comando de Epaminondas, relutantemente concordaram em mobilizar um exército para enfrentar Esparta.

Os dois exércitos se encontraram perto da vila de Leuctra, a pouco mais de 10 quilômetros de Tebas. O primeiro ataque, à distância, fez com que os tebanos que seguiam o exército (escudeiros, comerciantes, prestadores de serviço em geral) corressem para trás das filas. Os tebanos estavam em desvantagem numérica, e isso, incidentemente, fortaleceu as suas linhas. Um ataque da cavalaria espartana foi repelido, e o seu recuo causou uma certa confusão na linha espartana, impedindo um ataque direto. Epaminondas então tomou a ofensiva de uma maneira pouco ortodoxa para um exército grego - ao invés de compor as falanges como uma linha uniforme em largura e profundidade, com os melhores soldados à direita, ele concentrou suas forças no flanco esquerdo (colunas de 50 homens de profundidade, contra 12 do flanco espartano) sob liderança do colega beotarco Pelópidas, atacando em diagonal primeiramente por ali, quebrando o flanco direito espartano. Ali tombou Cleômbrotos, e começou a debandada do seu exército. A chegada de um reforço da Tessália persuadiu os espartanos a recuarem de volta à Lacedemônia, ao invés de reagrupar e tentar uma nova ofensiva.

A vitória em Leuctra permitiu a Tebas expandir sua influência inconteste não apenas na Beócia, mas em grande parte da Grécia, suplantando seus rivais históricos - a derrota desmitificou a superioridade militar de Esparta. O balanço de forças, contudo, continuou pendendo para um lado ou para o outro. Nove anos mais tarde, Tebas venceu novamente Esparta na Batalha de Mantineia (onde Epaminondas e Agesilaus se encontraram novamente), obliterando o controle espartano sobre o próprio Peloponeso, porém perdendo, por outro lado, o valioso Epaminondas. Com os dois lados enfraquecidos, haveria pouca resistência contra o avanço - pela habilidade militar e política - da Macedônia sobre a Grécia. Mais do que um novo equilíbrio de poderes, a batalha trouxe uma inovação para os exércitos gregos: a formação oblíqua de Epaminondas, que tornava seu exército muito mais flexível contra a rigidez formal da falange grega tradicional. Esse estilo de combate inspiraria Filipe II (que estudou em Tebas) e Alexandre, o Grande, e possibilitaria as suas contínuas vitórias contra gregos e persas e a consequente expansão do mundo grego sobre a Ásia e o Egito sob domínio macedônio.