No dia 9 de julho de 869, um potente terremoto de pelo menos 8,4 na escala de magnitude de momento perto da costa japonesa atingiu a região de Sanriku, a costa nordeste da ilha de Honshu onde fica hoje a cidade de Sendai. Foi o primeiro terremoto precisamente datado e registrado na História do Japão. Possivelmente o tremor tenha atingido 9,0 nessa escala, devido à extensão do estrago, semelhante ao tremor ocorrido na mesma região em 2011.
O arquipélago japonês é resultado do encontro de três placas tectônicas (as placas Eurasiática, de Okhotsk, e das Filipinas) e a direta influência de outra (do Pacífico). Da convergência e sobreposição das quatro placas, a crosta terrestre se elevou, erguendo o assoalho marinho até se tornar uma cadeia de montanhas. A zona de tensão também deu origem a vários vulcões (10% de todos os vulcões ativos do mundo), e a constante fricção e acomodação das placas tectônicas e a atividade vulcânica tornam o Japão altamente propício a terremotos e maremotos (cerca de 20% de toda a atividade sísmica do mundo é registrada no Japão anualmente). Nos 30 dias que precedem este post, foram registrados 36 tremores de terra no país com pelo menos 4,1 de magnitude (o de anteontem, 6,3 em Nemuro, na ilha de Hokkaido, e exatamente 5 horas atrás um outro de 5,1 no litoral da prefeitura de Iwate).
O litoral nordeste da ilha de Honshu é a região mais suscetível a terremotos e maremotos, porque é a parte do arquipélago que está em contato com a placa do Pacífico, cujo movimento de expansão em direção ao Japão é mais veloz do que movimento das demais placas da área. A placa do Pacífico é constituída basicamente de basalto mais denso do que as rochas graníticas da placa de Okhotsk (onde aquela parte de Honshu está localizada), então ela mergulha por baixo do Japão próximo ao litoral. Como consequência do impacto e do atrito, os sismos naquela região costumam ser mais potentes. E como eles costumam ocorrer no fundo do mar, maremotos são particularmente comuns ali. Os maremotos são os reflexos mais temíveis dos terremotos do nordeste do Japão, porque mesmo que você se proteja do tremor de terra ficando em lugares abertos ou construindo edifícios à prova de abalos, as ondas gigantes viajam a grande velocidade varrendo tudo à sua frente, carregando grandes objetos e árvores, que colidem com estruturas aumentando a extensão dos danos, e nem sempre você tem tempo para correr a algum local mais alto. O maremoto no Oceano Índico de 2004, com ondas de até 30 metros de altura atingindo em cheio o Sudeste Asiático e o Sri Lanka, e chegando tão longe quanto a África do Sul, foi uma das catástrofes naturais mais letais que já ocorreram no planeta.
O terremoto de 869 foi seguido de ondas gigantes que varreram a as planícies da atual Prefeitura de Miyagi por 4 quilômetros terra adentro. Na época não havia grandes concentrações de pessoas na região ou cidades importantes, de maneira que as fatalidades e os danos materiais foram bem baixos para a potência estimada do abalo - um relatório da época notifica mais de 1000 mortos e a perda de rebanhos e alguns templos, especialmente devido às ondas gigantes. Foi o primeiro sismo registrado no Japão com uma data precisa, mas depósitos sedimentares na planície de Sendai indicam uma periodicidade de 800-1100 anos para sismos dessa magnitude nos últimos 3000 anos
A cidade de Sendai, a principal da região atualmente, foi estabelecida em 1600 pelo daimyo Date Masamune (figura que se tornaria folclórica e facilmente reconhecível como um samurai com uma lua crescente fazendo as vezes de chifres no seu capacete) em território recentemente conquistado. A planície de Sendai lhe parecia um lugar mais apropriado do que seu antigo palácio em Iwadeyama, pois era mais central em relação às suas terras, e mais próximo de Edo (atual Tóquio), a capital do shogunato. A cidade foi planejada com avenidas e linhas retas, cujo plano se manteve até hoje, reproduzido nas cidades conurbadas na Prefeitura de Miyagi, em volta de Sendai. O advento de uma ferrovia no final do século XIX ligando a Tóquio proporcionou grande crescimento populacional. A região de Miyagi comporta hoje 2,3 milhões de habitantes, quase metade deles vivendo em Sendai (a cidade possui uma densidade média de 1300 habitantes/km², chegando a quase 7000 em algumas áreas).
À medida em que Sendai e as vilas vizinhas foram se desenvolvendo, os repetidos terremotos e maremotos se tornaram cada vez mais mortíferos. Em 1611 um maremoto causado por um abalo na zona de subdução da Placa do Pacífico devastou toda a costa de Sendai (vitimando ali mais de 1700 pessoas e 3000 cavalos) até a ilha de Hokkaido, atingindo em cheio a Prefeitura de Iwate, ao norte de Miyagi, com ondas de mais de 20 metros de altura. Aparentemente foi a primeira vez que a palavra "tsunami" foi usada para descrever as ondas gigantes. Um maremoto maior ainda, com ondas de 38 metros de altura, ceifou 22 mil vidas em 1896 (os pescadores deixaram a costa pela manhã e não sentiram as ondas em mar aberto, mas ao voltarem no dia seguinte se depararam em choque com suas vilas arrasadas e corpos despedaçados). Foi apenas após outro sismo semelhante ocorrido em 1933 (cujas ondas gigantes atingiram os 9 metros de altura no Hawaii) que o Japão começou a tomar medidas de prevenção a tsunamis.
Na década de 50, o governo japonês construiu um sistema de alerta de tsunamis com 300 sensores distribuídos ao redor do arquipélago. Centenas de abrigos anti-tsunami foram construídos, sobretudo na costa leste de Honshu. Em algumas áreas foram construídas barreiras ao longo da costa para dissipar ou frear o avanço de ondas gigantes. Em julho de 1978 um terremoto de 7,7 de magnitude com epicentro próximo a Sendai resultou na morte de 28 pessoas, apesar de danos materiais consideráveis. Para tornar as cidades estruturalmente mais seguras, o governo passou a regulamentar a construção de estruturas anti-terremoto, além de medidas de contingência com relação a transporte público e controle de massas, além de revisar o sistema de seguro contra terremotos. Outro tremor violento em Kobe, em 1995, que vitimou mais de 5 mil pessoas, contribuiu para o desenvolvimento de mais políticas de segurança.
A partir de 2003 ocorreram três eventos sísmicos importantes na planície de Sendai. O primeiro foi uma sequência de terremotos que culminaram com dois tremores acima dos 7 pontos de magnitude entre maio e julho de 2003, sem fatalidades. Em 2005, outro terremoto de 7,2 de magnitude causou o colapso de construções (houve mortes numa piscina coberta cujo telhado desabou). Nessa época Sendai estava testando um sistema de alerta preventivo de terremotos, e os habitantes da cidade foram avisados 16 segundos antes da primeira onda de choque atingir a cidade, possibilitando que a maioria se abrigasse em segurança. A vida retornou à normalidade no dia seguinte. Porém nada disso preparou o Japão para o terremoto seguido de tsunami de 2011. A onda gigante (quase 10 metros de altura) veio 50 minutos depois de um tremor de 9 pontos de magnitude (o quarto maior desde o início do século XX), venceu todas as barreiras anti-tsunami no litoral e penetrou 4 quilômetros terra adentro, vitimando mais de 15000 pessoas. A usina atômica de Fukushima ao sul ficou inabalada, mas as ondas gigantes invadiram os reatores, causando derretimento dos núcleos radioativos e a explosão de três dos reatores, provocando uma contaminação por radiação em larga escala (falhas na administração da usina tem sido apontados como causas cruciais para a crise). Até hoje o assentamento das placas após o movimento brusco de 2011 tem causado réplicas sensíveis na região, enquanto técnicos tentam controlar a radiação na usina
O sismo de 2011 está naquele intervalo de tempo previsto entre os grandes abalos nessa área, contando a partir do terremoto de 869.
quinta-feira, 9 de julho de 2015
quarta-feira, 8 de julho de 2015
O Japão se abre para o mundo
Em 8 de julho de 1854, o comodoro Matthew Perry desembarca no Japão para entregar ao governo japonês um acordo para a abertura de relações com os Estados Unidos.
No começo da década de 1850, como toda economia industrializada do seu tempo, os EUA precisavam de mercado cada vez maior para os seus produtos. Os americanos já tinham uma ativa relação comercial com a China, mas havia fatores dificultando as coisas: as estações de abastecimento de carvão para navios a vapor na costa asiática eram quase todas francesas ou inglesas, o que encarecia o transporte. Havia, também, uma atividade considerável de baleeiros americanos caçando perto do Japão e sofrendo hostilidades, como veremos a seguir. Este país, em isolamento proposital havia 220 anos, era uma fronteira de mercado a ser explorada. O presidente Millward Fillmore, em 1852, autorizou uma expedição "diplomática" ao Japão, comandada por Perry, para propor ao governo local um tratado comercial. "Diplomática" entre aspas, porque a viagem seria feita em navios de guerra.
O Japão se isolou politicamente por meio de decretos assinados pelo shogun Tokugawa Iemitsu entre 1633 e 1639, proibindo estrangeiros de entrarem no Japão, e japoneses de saírem, sob pena de morte. Essas medidas foram uma reação à influência de missionários cristãos em terras japonesas (que fomentaram a rebelião armada de Shimabara contra o shogunato) e à influência europeia, sobretudo portuguesa e espanhola, nos negócios domésticos de maneira geral. Estabelecido o isolamento, apenas os holandeses, através de uma embaixada da Companhia das Índias Orientais Holandesas, tinham autorização para fazer negócios, sem, contudo, poder sair de sua ilha artificial na baía de Nagasaki. Outros quatro postos de comércio exterior, controlados por japoneses, mantinham o comércio ativo, embora de maneira naturalmente restrita, com a China, a Coreia, os Ainu (nativos do norte do Japão e territórios russos próximos), e o reino cliente insular de Ryukyu (hoje sob administração direta japonesa). Restringir e controlar o comércio exterior também fazia parte da estratégia de Tokugawa para manter o poder dos senhores locais (daimyo) em cheque e assegurar a supremacia do clã Tokugawa.
O comodoro Perry sabia bem que não seria apenas questão de desembarcar e discutir negócios com o shogun durante o chá. O Japão já respondera com hostilidade a tentativas estrangeiras de quebrar seu isolamento. Em 1647, uma frota de navios de guerra portugueses foi repelida em Nagasaki; uma comissão russa foi expulsa do país ao chegar ao mesmo porto em 1804; em 1811, um oficial russo foi preso ao desembarcar na ilha Kunashiri; em 1837, um comerciante americano na China tentou abrir relações com o Japão levando de volta três náufragos japoneses num navio de transporte, e ao chegar perto da costa, os japoneses responderam atirando, forçando-o a dar meia volta; em 1845, o capitão de um baleeiro americano resgatou 22 náufragos japoneses e os conduziu a Edo (atual Tóquio), e, apesar de ter conseguido se reunir com o governador local e oferecido presentes, foi convidado a nunca mais por os pés no país. Em 1848 o comandante americano James Glynn forçou a sua entrada pela baía de Nagasaki para pedir a libertação de 15 náufragos de um baleeiro americano feitos prisioneiros, alguns já mortos por maus tratos. Os holandeses interviram junto aos japoneses pela libertação dos sobreviventes. Este comandante Glynn recomendou ao governo dos Estados Unidos o uso da força para abrir relações diplomáticas e comerciais com o Japão.
A expedição de Perry contava com 8 navios armados para a guerra. O próprio Perry passou alguns meses lendo tudo que encontrou sobre o Japão, arregimentou diplomatas profissionais para aconselhá-lo, e contratou desterrados japoneses como intérpretes. Ele partiu da Virgínia e navegou para o leste. chegando a Ryukyu em maio de 1853, onde ostensivamente exibiu o poderio ofensivo de sua frota e sugeriu ameaças caso não fosse recebido pelo rei em pessoa. Ele sabia que suas ações seriam reportadas ao Japão (as ilhas eram dominadas politicamente pelo clã Satsuma, uma poderosa casa feudal japonesa), então sua diligência foi bem calculada. Dali ele levou 4 navios para o Japão.
Sua parada no Japão foi na baía de Edo, perto do porto de Uraga. Ele deliberadamente manobrou os navios e os alinhou com os canhões virados para a costa. Ele chegou a disparar com os canhões descarregados, alegando serem em comemoração ao Dia da Independência (mas claramente um sinal de intimidação). Barcos japoneses cercaram os navios, e um dignatário de Uraga entregou ao comodoro a ordem de que nenhuma embarcação estrangeira tinha permissão de aportar - Perry não o recebeu, permanecendo em sua cabine até ser recebido por uma autoridade à sua altura. Outro dignatário local contactou um dos capitães da frota para convencê-lo a levar os navios a Nagasaki, onde era feito o trabalho de diplomacia com estrangeiros, mas recebeu em retornou a ameaça de que Perry desembarcaria com tropas americanas para levar a carta do presidente dos Estados Unidos com o tratado pessoalmente ao palácio de Edo. Perry prosseguiu, mandando barcos a remo inspecionar as terras em volta, ameaçando abrir hostilidades caso os homens fossem perturbados.
Enquanto isso, o prefeito de Uraga mandou mensagem ao doente Tokugawa Ieyoshi, alertando que ele não teria como impedir um desembarque americano. O governo estava paralisado pela doença do shogun - em última análise, a única autoridade universalmente reconhecida no Japão - e pela ousadia dos americanos. Por fim, os autorizou a desembarcar na praia de Kurihama, o que Perry fez acompanhado de 250 marinheiros, sob uma salva de 13 tiros de canhão e hinos militares. Com o shogun impossibilitado, a carta do presidente Fillmore foi entregue a dois membros do conselho de anciãos, o corpo governante de fato na época. Perry se retirou no dia 17, prometendo retornar na primavera.
Depois do desembarque de Perry, o comando do shogunato entrou em parafuso. O velho Ieyoshi foi substituído pelo seu filho doente Iesada, de maneira que a administração continuou a cargo do conselho de anciãos. Contudo, não havia nesse conselho quem quisesse arriscar tomar uma atitude por conta própria. Eles consultaram (pela primeira vez) os daimyo para decidir o que fazer diante da ameaça americana, ao que metade respondeu que deveriam aceitar suas condições, e metade respondeu que não - mas todos concordaram que o Japão deveria fortalecer suas defesas no litoral. Essa demonstração de fraqueza e de indecisão para fazer valer a sua lei seriam cruciais para o futuro do shogunato Tokugawa mais à frente.
Perry retornou como prometido em fevereiro de 1854 com uma frota maior. Os japoneses estavam dispostos a aceitarem os termos da carta de Fillmore, mas se negavam a travar negociações em Edo, como Perry demandava. Depois de semanas neste impasse, em certo momento o comodoro ameaçou trazer 100 navios (mais do que os Estados Unidos possuíam na época) para destruir o Japão. Ele enfim desembarcou em Yokohama com 500 marinheiros e três bandas tocando o hino americano para assinar a Convenção de Kanagawa, que abria os portos de Shimoda e Hakodate aos navios americanos, garantia a segurança a náufragos americanos em terras japonesas, e o estabelecimento de um consulado. Os dois lados trocaram quinquilharias como presentes. Depois de uma nova parada em Ryukyu, Perry retornou triunfante aos Estados Unidos.
A princípio, as autoridades japonesas se escusaram alegando que o tratado não fora assinado pelo shogun, e que, portanto, não precisava ser obedecido, nem feria a soberania japonesa (embora ele tenha sido forçosamente ratificado mais tarde pelo próprio Imperador), e nem lhes trazia alguma desvantagem em particular. Mas a incapacidade do shogunato em fazer valer suas leis, ou sequer de impor sua autoridade sobre seus vassalos, levaria a um crescente descontentamento com o regime e o surgimento de vários movimentos nacionalistas, que planejavam restaurar o poder político do Imperador - por séculos uma figura meramente cerimonial, a quem os shoguns deviam reverência, mas ao mesmo tempo limitado pelas leis impostas pelos consecutivos shogunatos. Um tratado de 1858, em que os americanos, sob o argumento da agressividade bélica de britânicos e franceses nos seus negócios com a China, induziram o Japão a abrir mais concessões aos Estados Unidos, precipitou uma crise econômica (as transações eram feitas de maneira que os estrangeiros obtinham moedas de ouro japonesas a 1/3 do valor internacional, resultando numa rápida fuga de divisas), agitações populares, ataques a estrangeiros, e insurreições que levariam à conflagração de uma guerra civil. Em 1867, Yoshinobu, o último shogun Tokugawa, entregou seu cargo ao jovem imperador Meiji, líder espiritual da facção vencedora. Com sua liderança, o Japão, por tanto tempo isolado, entraria com força no cenário internacional.
No começo da década de 1850, como toda economia industrializada do seu tempo, os EUA precisavam de mercado cada vez maior para os seus produtos. Os americanos já tinham uma ativa relação comercial com a China, mas havia fatores dificultando as coisas: as estações de abastecimento de carvão para navios a vapor na costa asiática eram quase todas francesas ou inglesas, o que encarecia o transporte. Havia, também, uma atividade considerável de baleeiros americanos caçando perto do Japão e sofrendo hostilidades, como veremos a seguir. Este país, em isolamento proposital havia 220 anos, era uma fronteira de mercado a ser explorada. O presidente Millward Fillmore, em 1852, autorizou uma expedição "diplomática" ao Japão, comandada por Perry, para propor ao governo local um tratado comercial. "Diplomática" entre aspas, porque a viagem seria feita em navios de guerra.
O Japão se isolou politicamente por meio de decretos assinados pelo shogun Tokugawa Iemitsu entre 1633 e 1639, proibindo estrangeiros de entrarem no Japão, e japoneses de saírem, sob pena de morte. Essas medidas foram uma reação à influência de missionários cristãos em terras japonesas (que fomentaram a rebelião armada de Shimabara contra o shogunato) e à influência europeia, sobretudo portuguesa e espanhola, nos negócios domésticos de maneira geral. Estabelecido o isolamento, apenas os holandeses, através de uma embaixada da Companhia das Índias Orientais Holandesas, tinham autorização para fazer negócios, sem, contudo, poder sair de sua ilha artificial na baía de Nagasaki. Outros quatro postos de comércio exterior, controlados por japoneses, mantinham o comércio ativo, embora de maneira naturalmente restrita, com a China, a Coreia, os Ainu (nativos do norte do Japão e territórios russos próximos), e o reino cliente insular de Ryukyu (hoje sob administração direta japonesa). Restringir e controlar o comércio exterior também fazia parte da estratégia de Tokugawa para manter o poder dos senhores locais (daimyo) em cheque e assegurar a supremacia do clã Tokugawa.
O comodoro Perry sabia bem que não seria apenas questão de desembarcar e discutir negócios com o shogun durante o chá. O Japão já respondera com hostilidade a tentativas estrangeiras de quebrar seu isolamento. Em 1647, uma frota de navios de guerra portugueses foi repelida em Nagasaki; uma comissão russa foi expulsa do país ao chegar ao mesmo porto em 1804; em 1811, um oficial russo foi preso ao desembarcar na ilha Kunashiri; em 1837, um comerciante americano na China tentou abrir relações com o Japão levando de volta três náufragos japoneses num navio de transporte, e ao chegar perto da costa, os japoneses responderam atirando, forçando-o a dar meia volta; em 1845, o capitão de um baleeiro americano resgatou 22 náufragos japoneses e os conduziu a Edo (atual Tóquio), e, apesar de ter conseguido se reunir com o governador local e oferecido presentes, foi convidado a nunca mais por os pés no país. Em 1848 o comandante americano James Glynn forçou a sua entrada pela baía de Nagasaki para pedir a libertação de 15 náufragos de um baleeiro americano feitos prisioneiros, alguns já mortos por maus tratos. Os holandeses interviram junto aos japoneses pela libertação dos sobreviventes. Este comandante Glynn recomendou ao governo dos Estados Unidos o uso da força para abrir relações diplomáticas e comerciais com o Japão.
A expedição de Perry contava com 8 navios armados para a guerra. O próprio Perry passou alguns meses lendo tudo que encontrou sobre o Japão, arregimentou diplomatas profissionais para aconselhá-lo, e contratou desterrados japoneses como intérpretes. Ele partiu da Virgínia e navegou para o leste. chegando a Ryukyu em maio de 1853, onde ostensivamente exibiu o poderio ofensivo de sua frota e sugeriu ameaças caso não fosse recebido pelo rei em pessoa. Ele sabia que suas ações seriam reportadas ao Japão (as ilhas eram dominadas politicamente pelo clã Satsuma, uma poderosa casa feudal japonesa), então sua diligência foi bem calculada. Dali ele levou 4 navios para o Japão.
Sua parada no Japão foi na baía de Edo, perto do porto de Uraga. Ele deliberadamente manobrou os navios e os alinhou com os canhões virados para a costa. Ele chegou a disparar com os canhões descarregados, alegando serem em comemoração ao Dia da Independência (mas claramente um sinal de intimidação). Barcos japoneses cercaram os navios, e um dignatário de Uraga entregou ao comodoro a ordem de que nenhuma embarcação estrangeira tinha permissão de aportar - Perry não o recebeu, permanecendo em sua cabine até ser recebido por uma autoridade à sua altura. Outro dignatário local contactou um dos capitães da frota para convencê-lo a levar os navios a Nagasaki, onde era feito o trabalho de diplomacia com estrangeiros, mas recebeu em retornou a ameaça de que Perry desembarcaria com tropas americanas para levar a carta do presidente dos Estados Unidos com o tratado pessoalmente ao palácio de Edo. Perry prosseguiu, mandando barcos a remo inspecionar as terras em volta, ameaçando abrir hostilidades caso os homens fossem perturbados.
Enquanto isso, o prefeito de Uraga mandou mensagem ao doente Tokugawa Ieyoshi, alertando que ele não teria como impedir um desembarque americano. O governo estava paralisado pela doença do shogun - em última análise, a única autoridade universalmente reconhecida no Japão - e pela ousadia dos americanos. Por fim, os autorizou a desembarcar na praia de Kurihama, o que Perry fez acompanhado de 250 marinheiros, sob uma salva de 13 tiros de canhão e hinos militares. Com o shogun impossibilitado, a carta do presidente Fillmore foi entregue a dois membros do conselho de anciãos, o corpo governante de fato na época. Perry se retirou no dia 17, prometendo retornar na primavera.
Depois do desembarque de Perry, o comando do shogunato entrou em parafuso. O velho Ieyoshi foi substituído pelo seu filho doente Iesada, de maneira que a administração continuou a cargo do conselho de anciãos. Contudo, não havia nesse conselho quem quisesse arriscar tomar uma atitude por conta própria. Eles consultaram (pela primeira vez) os daimyo para decidir o que fazer diante da ameaça americana, ao que metade respondeu que deveriam aceitar suas condições, e metade respondeu que não - mas todos concordaram que o Japão deveria fortalecer suas defesas no litoral. Essa demonstração de fraqueza e de indecisão para fazer valer a sua lei seriam cruciais para o futuro do shogunato Tokugawa mais à frente.
Perry retornou como prometido em fevereiro de 1854 com uma frota maior. Os japoneses estavam dispostos a aceitarem os termos da carta de Fillmore, mas se negavam a travar negociações em Edo, como Perry demandava. Depois de semanas neste impasse, em certo momento o comodoro ameaçou trazer 100 navios (mais do que os Estados Unidos possuíam na época) para destruir o Japão. Ele enfim desembarcou em Yokohama com 500 marinheiros e três bandas tocando o hino americano para assinar a Convenção de Kanagawa, que abria os portos de Shimoda e Hakodate aos navios americanos, garantia a segurança a náufragos americanos em terras japonesas, e o estabelecimento de um consulado. Os dois lados trocaram quinquilharias como presentes. Depois de uma nova parada em Ryukyu, Perry retornou triunfante aos Estados Unidos.
A princípio, as autoridades japonesas se escusaram alegando que o tratado não fora assinado pelo shogun, e que, portanto, não precisava ser obedecido, nem feria a soberania japonesa (embora ele tenha sido forçosamente ratificado mais tarde pelo próprio Imperador), e nem lhes trazia alguma desvantagem em particular. Mas a incapacidade do shogunato em fazer valer suas leis, ou sequer de impor sua autoridade sobre seus vassalos, levaria a um crescente descontentamento com o regime e o surgimento de vários movimentos nacionalistas, que planejavam restaurar o poder político do Imperador - por séculos uma figura meramente cerimonial, a quem os shoguns deviam reverência, mas ao mesmo tempo limitado pelas leis impostas pelos consecutivos shogunatos. Um tratado de 1858, em que os americanos, sob o argumento da agressividade bélica de britânicos e franceses nos seus negócios com a China, induziram o Japão a abrir mais concessões aos Estados Unidos, precipitou uma crise econômica (as transações eram feitas de maneira que os estrangeiros obtinham moedas de ouro japonesas a 1/3 do valor internacional, resultando numa rápida fuga de divisas), agitações populares, ataques a estrangeiros, e insurreições que levariam à conflagração de uma guerra civil. Em 1867, Yoshinobu, o último shogun Tokugawa, entregou seu cargo ao jovem imperador Meiji, líder espiritual da facção vencedora. Com sua liderança, o Japão, por tanto tempo isolado, entraria com força no cenário internacional.
terça-feira, 7 de julho de 2015
Habemus panem
Em 7 de julho de 1928 o pão de forma fatiado e ensacado industrialmente foi introduzido no mercado americano.
O pão é uma pequena maravilha culinária que se faz misturando farinha de algum material vegetal rico em amido - grãos como trigo, cevada, painço, centeio, aveia, arroz, milho, ou raízes como mandioca, inhame, araruta - com água e assado ao fogo. Os pães mais antigos, possivelmente produzidos a partir de 30 mil anos atrás, eram basicamente grandes biscoitos achatados, crocantes e maciços feitos com material vegetal, especialmente rizomas de plantas silvestres ricos em amido. No Oriente Médio, sobretudo após a revolução agrícola do período neolítico, onde grãos como trigo e cevada eram as fontes de carboidratos mais comuns e facilmente cultiváveis, a receita do pão passava naturalmente pelo processo de fermentação, pois os próprios grãos continham esporos de fungos que entravam em atividade quando se misturava a farinha com a água, fazendo com que os pães fossem mais macios, mesmo os assados em formato achatado (o pão sírio ou árabe que conhecemos é um desenvolvimento desse método). Os judeus ritualisticamente preparam pães não fermentados durante a páscoa, assim como católicos na eucaristia. A "mágica" do fermento só foi decifrada em 1857, quando Louis Pasteur deduziu que o processo de fermentação ocorria através de atividade biológica de fungos associados à massa, e não por reações químicas espontâneas.
Como grãos, água e fogo eram recursos abundantes, o pão se tornou facilmente o alimento básico e principal fonte de carboidrato de praticamente toda sociedade agrária do mundo. Mesmo na Amazônia, onde grãos não podiam ser cultivados facilmente (embora o milho estivesse razoavelmente bem difundido), a farinha de mandioca supria essa carência, se tornando, inclusive, um produto importante de exportação, aquecendo a economia e possibilitando o intercâmbio cultural e tecnológico nas aldeias ao longo das rotas comerciais que iam do baixo Amazonas até o Equador. A tapioca, uma espécie de pãozinho chato assado sobre uma frigideira feito com uma farinha seca bem fina de mandioca, deixou de ser uma iguaria de cozinhas regionais do Norte e Nordeste do Brasil para ganhar as prateleiras de supermercado das capitais do Sudeste devido a um trabalho oportunista de publicidade - a mandioca é desprovida de glúten, proteína típica do trigo e presente na farinha branca cuja digestão difícil pode provocar gases e irritação no intestino. Eu nem precisei disso para me tornar um adepto!
O pão sempre figurou como fonte importante de alimento, e a adesão ao pão na dieta está geralmente ligada à disponibilidade geral de outras fontes de alimento, como carnes, raízes, e frutas. Em tempos de escassez, recorre-se ao pão. No Haiti, onde a escassez é generalizada e muito do solo do país já foi esgotado, as famílias mais pobres, nos piores momentos, tentam "simular" um pão usando cinzas no complemento à farinha. Houve casos em que a dependência do pão causou problemas. Na Europa central e mais ao norte, o centeio sempre foi um dos principais grãos cultivados e fonte de farinha para pães. Acontece que, ocasionalmente, as espigas do centeio são infestadas por um fungo da espécie Claviceps purpurea (conhecido em francês como "ergot"), rico em alcaloides e que aparece como uma coisa comprida e escura bastante conspícua que normalmente faz com que a espiga seja descartada. Em tempos de escassez, mesmo essas espigas contaminadas eram aproveitadas e moídas. Os alcaloides do fungo são preservados no cozimento da massa, e causam diversas reações: vasoconstrição (que pode levar a gangrena das extremidades, descamação da pele e feridas), associado a um quadro neurológico complexo, que inclui convulsões, espasmos, coceiras, comportamento psicótico, enjoos, delírio. O quadro, conhecido hoje como ergotismo, foi associado durante a Idade Média a interferência divina ou de santos (os delírios podiam ser interpretados como mensagens divinas), conhecida como "fogo de Santo Antônio", porque freis antoninos na França se tornaram especialistas no tratamento dos doentes.
Enfim, o pão de forma fatiado foi uma pequena revolução na indústria alimentícia. A receita não era nova. O "loaf of bread", a massa retangular de farinha de trigo macia e de casca fina assada dentro de uma forma retangular, que nós conhecemos como pão de forma, já era produzido nos Estados Unidos desde o começo do século XX (quando a farinha de trigo se tornou artigo popular no país). Quem produzia esse pão para o comércio, o vendia por peça, e ficava a cargo do consumidor cortar as fatias. Se alguém se lembra do filme Tempos Modernos (1936), há uma cena em que Carlitos sai do seu barraco para um mergulho (batendo a cabeça no fundo do "lago", que é pouco mais que uma poça d'água), enquanto sua companheira (Paulette Goddard) corta algumas fatias grossas de pão de forma, e com elas faz enormes sanduíches de presunto que eles mal conseguem morder. Quem assa pães de forma em casa sabe a dificuldade que é cortar as fatias manualmente com a precisão do pão de forma do supermercado.
O processo industrial para fatiar e ensacar o pão de forma havia sido inventado por Otto Frederick Rohwedder em 1912, mas o protótipo da máquina foi destruído num incêndio. Um primeiro modelo funcional foi vendido a uma empresa na pequena cidade de Chillicothe, que começou a vender o pão de forma fatiado. As fatias, finas e padronizadas, induziam o consumidor a consumir o pão mais rapidamente e com menos desperdícios. Também, como havia mais fatias disponíveis num pão do que se fosse cortado manualmente, todo a indústria de pastas, geleias, manteiga, recheios e coberturas diversas sentiu um "boom" nos negócios com a popularização desse tipo de pão. Hoje em dia o pão de forma fatiado industrialmente é popular em vários países do mundo e comercializado das mais diferentes maneiras - fatias mais grossas, mais finas, porções menores, maiores, com casca, sem casca, e inúmeras variações da receita básica e no tipo de farinha empregada, de acordo com as demandas de mercado.
O pão é uma pequena maravilha culinária que se faz misturando farinha de algum material vegetal rico em amido - grãos como trigo, cevada, painço, centeio, aveia, arroz, milho, ou raízes como mandioca, inhame, araruta - com água e assado ao fogo. Os pães mais antigos, possivelmente produzidos a partir de 30 mil anos atrás, eram basicamente grandes biscoitos achatados, crocantes e maciços feitos com material vegetal, especialmente rizomas de plantas silvestres ricos em amido. No Oriente Médio, sobretudo após a revolução agrícola do período neolítico, onde grãos como trigo e cevada eram as fontes de carboidratos mais comuns e facilmente cultiváveis, a receita do pão passava naturalmente pelo processo de fermentação, pois os próprios grãos continham esporos de fungos que entravam em atividade quando se misturava a farinha com a água, fazendo com que os pães fossem mais macios, mesmo os assados em formato achatado (o pão sírio ou árabe que conhecemos é um desenvolvimento desse método). Os judeus ritualisticamente preparam pães não fermentados durante a páscoa, assim como católicos na eucaristia. A "mágica" do fermento só foi decifrada em 1857, quando Louis Pasteur deduziu que o processo de fermentação ocorria através de atividade biológica de fungos associados à massa, e não por reações químicas espontâneas.
Como grãos, água e fogo eram recursos abundantes, o pão se tornou facilmente o alimento básico e principal fonte de carboidrato de praticamente toda sociedade agrária do mundo. Mesmo na Amazônia, onde grãos não podiam ser cultivados facilmente (embora o milho estivesse razoavelmente bem difundido), a farinha de mandioca supria essa carência, se tornando, inclusive, um produto importante de exportação, aquecendo a economia e possibilitando o intercâmbio cultural e tecnológico nas aldeias ao longo das rotas comerciais que iam do baixo Amazonas até o Equador. A tapioca, uma espécie de pãozinho chato assado sobre uma frigideira feito com uma farinha seca bem fina de mandioca, deixou de ser uma iguaria de cozinhas regionais do Norte e Nordeste do Brasil para ganhar as prateleiras de supermercado das capitais do Sudeste devido a um trabalho oportunista de publicidade - a mandioca é desprovida de glúten, proteína típica do trigo e presente na farinha branca cuja digestão difícil pode provocar gases e irritação no intestino. Eu nem precisei disso para me tornar um adepto!
O pão sempre figurou como fonte importante de alimento, e a adesão ao pão na dieta está geralmente ligada à disponibilidade geral de outras fontes de alimento, como carnes, raízes, e frutas. Em tempos de escassez, recorre-se ao pão. No Haiti, onde a escassez é generalizada e muito do solo do país já foi esgotado, as famílias mais pobres, nos piores momentos, tentam "simular" um pão usando cinzas no complemento à farinha. Houve casos em que a dependência do pão causou problemas. Na Europa central e mais ao norte, o centeio sempre foi um dos principais grãos cultivados e fonte de farinha para pães. Acontece que, ocasionalmente, as espigas do centeio são infestadas por um fungo da espécie Claviceps purpurea (conhecido em francês como "ergot"), rico em alcaloides e que aparece como uma coisa comprida e escura bastante conspícua que normalmente faz com que a espiga seja descartada. Em tempos de escassez, mesmo essas espigas contaminadas eram aproveitadas e moídas. Os alcaloides do fungo são preservados no cozimento da massa, e causam diversas reações: vasoconstrição (que pode levar a gangrena das extremidades, descamação da pele e feridas), associado a um quadro neurológico complexo, que inclui convulsões, espasmos, coceiras, comportamento psicótico, enjoos, delírio. O quadro, conhecido hoje como ergotismo, foi associado durante a Idade Média a interferência divina ou de santos (os delírios podiam ser interpretados como mensagens divinas), conhecida como "fogo de Santo Antônio", porque freis antoninos na França se tornaram especialistas no tratamento dos doentes.
Enfim, o pão de forma fatiado foi uma pequena revolução na indústria alimentícia. A receita não era nova. O "loaf of bread", a massa retangular de farinha de trigo macia e de casca fina assada dentro de uma forma retangular, que nós conhecemos como pão de forma, já era produzido nos Estados Unidos desde o começo do século XX (quando a farinha de trigo se tornou artigo popular no país). Quem produzia esse pão para o comércio, o vendia por peça, e ficava a cargo do consumidor cortar as fatias. Se alguém se lembra do filme Tempos Modernos (1936), há uma cena em que Carlitos sai do seu barraco para um mergulho (batendo a cabeça no fundo do "lago", que é pouco mais que uma poça d'água), enquanto sua companheira (Paulette Goddard) corta algumas fatias grossas de pão de forma, e com elas faz enormes sanduíches de presunto que eles mal conseguem morder. Quem assa pães de forma em casa sabe a dificuldade que é cortar as fatias manualmente com a precisão do pão de forma do supermercado.
O processo industrial para fatiar e ensacar o pão de forma havia sido inventado por Otto Frederick Rohwedder em 1912, mas o protótipo da máquina foi destruído num incêndio. Um primeiro modelo funcional foi vendido a uma empresa na pequena cidade de Chillicothe, que começou a vender o pão de forma fatiado. As fatias, finas e padronizadas, induziam o consumidor a consumir o pão mais rapidamente e com menos desperdícios. Também, como havia mais fatias disponíveis num pão do que se fosse cortado manualmente, todo a indústria de pastas, geleias, manteiga, recheios e coberturas diversas sentiu um "boom" nos negócios com a popularização desse tipo de pão. Hoje em dia o pão de forma fatiado industrialmente é popular em vários países do mundo e comercializado das mais diferentes maneiras - fatias mais grossas, mais finas, porções menores, maiores, com casca, sem casca, e inúmeras variações da receita básica e no tipo de farinha empregada, de acordo com as demandas de mercado.
segunda-feira, 6 de julho de 2015
O Islã chega ao Egito
Em 6 de julho de 640 d.C., um exército árabe liderado por Amr ibn al-A'as derrotou um exército bizantino mais numeroso perto de Heliópolis, no Egito.
No momento da morte de Maomé, os árabes muçulmanos já controlavam toda a Península Arábica, e seus sucessores, os califas Abu Bakr e Omar, expandiram as fronteiras para o norte, conquistando a Síria do Império Bizantino e tomando praticamente de assalto a Pérsia sassânida. Era o momento propício para os árabes recém unificados ampliarem seus territórios, porque seus vizinhos bizantinos e sassânidas haviam acabado de travar uma guerra de atrito por uma geração inteira, e estavam economicamente e militarmente exaustos. E o rico Egito, então sob controle bizantino, estava logo ali.
A invasão do Egito começou aparentemente despretensiosa - ou temerária. Amr partiu com apenas 4000 soldados recrutados de tribos árabes e alguns mercenários conversos para tomar a província economicamente mais importante do Império Bizantino. O califa Omar, ao saber da iniciativa, ordenou em carta encaminhada por um mensageiro o recuo do pequeno exército para esperar por reforços. Mas o comandante, desconfiando do teor da mensagem, convenceu o mensageiro (que não sabia do conteúdo da carta) a seguir com ele para o Egito. Quando ele, enfim, discutiu com seus homens as ordens do Califa, eles já estavam no Egito, e, portanto, deveriam seguir em frente. Quando recebeu alguma resposta, Omar não teve escolha a não ser arregimentar um novo exército em Medina para despachá-lo ao Egito.
A marcha pelo leste do Egito foi tranquila. Tomaram algumas vilas sem resistência. Reforçados por beduínos do Sinai, os árabes conquistaram a fortaleza de Pelusium sem muita luta. A resistência bizantina apareceu durante o cerco a Bilbeis, a um dia de marcha de Memphis. A resistência ali ocorreu quando os bizantinos rejeitaram os termos de Amr de se converterem, ou pagarem a jizya - a taxa cobrada pelos muçulmanos aos praticantes de outras religiões em seu território - a despeito das intenções do governador do Egito, Ciro, que se contentava em se render e pagar a Jizya. Bilbeis também caiu. Amr marchou então para a fortaleza de Babilônia, onde hoje fica o Cairo, e ali finalmente os árabes se viram num impasse - seus 4 mil homens eram incapazes de tomar o forte, e desmembrar o exército para desviar ou tomar outras posições era inviável. Em julho de 640, antes de al-A'as enviar um pedido de reforço ao califa, um contingente de 16 mil homens já estava a caminho.
Babilônia ficava a poucas horas de marcha de Heliópolis, um antigo centro cerimonial e cultural. Amr decidiu direcionar a maioria das suas forças com os novos reforços para tomar Heliópolis, enquanto um pequeno contingente mantinha Babilônia imobilizada. Teodoro, comandante bizantino no Egito, mobilizou 20 mil soldados para enfrentar os cerca de 15 mil árabes. Diante de Heliópolis, o comandante árabe, consciente da desvantagem numérica, organizou seu exército em três destacamentos que se deslocaram rapidamente, confundindo os bizantinos: um terço foi para o leste e se posicionou em uma colina fora das vistas do comandante inimigo; outro terço manteve posição, oferecendo combate; um último terço se deslocou para o sul, bloqueando a rota de fuga. Os bizantinos atacaram o centro reduzido dos árabes sem preocupações. Ou Teodoro não despachara batedores para avaliar as posições inimigas, ou não lhes deu ouvidos, porque imediatamente os árabes desceram as colinas e atacaram os bizantinos pelo flanco e retaguarda, causando grande confusão. Os que sobreviveram ao massacre foram aniquilados enquanto tentavam fugir pelo sul. A vitória foi quase completa - Teodoro e alguns poucos soldados conseguiram escapar com vida.
Bizantinos e árabes ainda se encontrariam algumas vezes até a queda de Alexandria, em novembro de 641. Mas a derrota em Heliópolis selou definitivamente o destino do Egito. Os gregos, que governavam Bizâncio, eram uma pequena elite no Egito, de maneira que o sucesso da invasão árabe acabou instigando um levante da maioria de egípcios nativos, sobretudo de cristãos monofisistas (cuja fé era herética para a ortodoxia bizantina), que consideraram que a Jizya e o governo islâmico seriam preferíveis aos impostos e à má vontade do governo bizantino. Os árabes conquistaram rapidamente o interior do país com a conivência dos nativos, e de fato o governo de Amr ibn al-A'as foi benevolente para com os cristãos, aplicando a lei islâmica estritamente de modo a isentá-los do serviço militar e várias outras obrigações civis e permitir seu culto, desde que pagassem a Jizya (em dinheiro ou espécie), Mais tarde, o Califado Omíada que se seguiu endureceu seus impostos, induzindo os egípcios em dificuldades a se converterem (espontaneamente, ou à força), determinando a supremacia islâmica e o arabismo sobre o cristianismo no país. O Império Bizantino, por sua vez, perdia a sua principal fonte de grãos e o controle inconteste do Mediterrâneo - havia séculos, transformado num "lago" romano. Abalado economicamente e sem forças para resistir, os gregos perderiam rapidamente o resto de seus territórios na África, possibilitando aos árabes chegarem tão longe quanto o sul da França (onde foram brecados pelos francos) e expandirem o Islã em poucas gerações a um território tão vasto quanto o cristianismo nos séculos anteriores.
No momento da morte de Maomé, os árabes muçulmanos já controlavam toda a Península Arábica, e seus sucessores, os califas Abu Bakr e Omar, expandiram as fronteiras para o norte, conquistando a Síria do Império Bizantino e tomando praticamente de assalto a Pérsia sassânida. Era o momento propício para os árabes recém unificados ampliarem seus territórios, porque seus vizinhos bizantinos e sassânidas haviam acabado de travar uma guerra de atrito por uma geração inteira, e estavam economicamente e militarmente exaustos. E o rico Egito, então sob controle bizantino, estava logo ali.
A invasão do Egito começou aparentemente despretensiosa - ou temerária. Amr partiu com apenas 4000 soldados recrutados de tribos árabes e alguns mercenários conversos para tomar a província economicamente mais importante do Império Bizantino. O califa Omar, ao saber da iniciativa, ordenou em carta encaminhada por um mensageiro o recuo do pequeno exército para esperar por reforços. Mas o comandante, desconfiando do teor da mensagem, convenceu o mensageiro (que não sabia do conteúdo da carta) a seguir com ele para o Egito. Quando ele, enfim, discutiu com seus homens as ordens do Califa, eles já estavam no Egito, e, portanto, deveriam seguir em frente. Quando recebeu alguma resposta, Omar não teve escolha a não ser arregimentar um novo exército em Medina para despachá-lo ao Egito.
A marcha pelo leste do Egito foi tranquila. Tomaram algumas vilas sem resistência. Reforçados por beduínos do Sinai, os árabes conquistaram a fortaleza de Pelusium sem muita luta. A resistência bizantina apareceu durante o cerco a Bilbeis, a um dia de marcha de Memphis. A resistência ali ocorreu quando os bizantinos rejeitaram os termos de Amr de se converterem, ou pagarem a jizya - a taxa cobrada pelos muçulmanos aos praticantes de outras religiões em seu território - a despeito das intenções do governador do Egito, Ciro, que se contentava em se render e pagar a Jizya. Bilbeis também caiu. Amr marchou então para a fortaleza de Babilônia, onde hoje fica o Cairo, e ali finalmente os árabes se viram num impasse - seus 4 mil homens eram incapazes de tomar o forte, e desmembrar o exército para desviar ou tomar outras posições era inviável. Em julho de 640, antes de al-A'as enviar um pedido de reforço ao califa, um contingente de 16 mil homens já estava a caminho.
Babilônia ficava a poucas horas de marcha de Heliópolis, um antigo centro cerimonial e cultural. Amr decidiu direcionar a maioria das suas forças com os novos reforços para tomar Heliópolis, enquanto um pequeno contingente mantinha Babilônia imobilizada. Teodoro, comandante bizantino no Egito, mobilizou 20 mil soldados para enfrentar os cerca de 15 mil árabes. Diante de Heliópolis, o comandante árabe, consciente da desvantagem numérica, organizou seu exército em três destacamentos que se deslocaram rapidamente, confundindo os bizantinos: um terço foi para o leste e se posicionou em uma colina fora das vistas do comandante inimigo; outro terço manteve posição, oferecendo combate; um último terço se deslocou para o sul, bloqueando a rota de fuga. Os bizantinos atacaram o centro reduzido dos árabes sem preocupações. Ou Teodoro não despachara batedores para avaliar as posições inimigas, ou não lhes deu ouvidos, porque imediatamente os árabes desceram as colinas e atacaram os bizantinos pelo flanco e retaguarda, causando grande confusão. Os que sobreviveram ao massacre foram aniquilados enquanto tentavam fugir pelo sul. A vitória foi quase completa - Teodoro e alguns poucos soldados conseguiram escapar com vida.
Bizantinos e árabes ainda se encontrariam algumas vezes até a queda de Alexandria, em novembro de 641. Mas a derrota em Heliópolis selou definitivamente o destino do Egito. Os gregos, que governavam Bizâncio, eram uma pequena elite no Egito, de maneira que o sucesso da invasão árabe acabou instigando um levante da maioria de egípcios nativos, sobretudo de cristãos monofisistas (cuja fé era herética para a ortodoxia bizantina), que consideraram que a Jizya e o governo islâmico seriam preferíveis aos impostos e à má vontade do governo bizantino. Os árabes conquistaram rapidamente o interior do país com a conivência dos nativos, e de fato o governo de Amr ibn al-A'as foi benevolente para com os cristãos, aplicando a lei islâmica estritamente de modo a isentá-los do serviço militar e várias outras obrigações civis e permitir seu culto, desde que pagassem a Jizya (em dinheiro ou espécie), Mais tarde, o Califado Omíada que se seguiu endureceu seus impostos, induzindo os egípcios em dificuldades a se converterem (espontaneamente, ou à força), determinando a supremacia islâmica e o arabismo sobre o cristianismo no país. O Império Bizantino, por sua vez, perdia a sua principal fonte de grãos e o controle inconteste do Mediterrâneo - havia séculos, transformado num "lago" romano. Abalado economicamente e sem forças para resistir, os gregos perderiam rapidamente o resto de seus territórios na África, possibilitando aos árabes chegarem tão longe quanto o sul da França (onde foram brecados pelos francos) e expandirem o Islã em poucas gerações a um território tão vasto quanto o cristianismo nos séculos anteriores.
sexta-feira, 3 de julho de 2015
Extinções
No dia 3 de julho de 1844, dois islandeses estrangularam e mataram as duas últimas grandes aucas, ou araus-grandes, aves marinhas que habitavam os rochedos do Atlântico Norte, selando a extinção da espécie.
As grandes aucas eram aves incapazes de voar, que andavam desajeitadamente em terra, onde se reproduziam e se abrigavam do frio do inverno, e nadavam com agilidade para caçar pequenos peixes. Tinham o tamanho, a forma aproximada, e as cores dos pinguins, porém com um bico mais robusto. Apesar da semelhança com essas aves marinhas do sul, pertencia à ordem das gaivotas.
Supõe-se que elas tenham tido seu habitat comprometido com o fim da última era glacial, ficando restritas a redutos muito isolados, fora do alcance de predadores como o urso polar e as focas. Em tempos históricos, homens caçaram esta ave pelas suas plumas, usadas para encher travesseiros. Essa caça adicional foi o impacto necessário para o declínio final da espécie. Sua raridade já no século XVI chamava tanta atenção que ela recebeu proteção oficial em 1553. Em St. John, no Canadá, pessoas flagradas transportando ovos ou penas de aucas recebiam castigos físicos em público. Apesar disso, seu habitat ficou tão restrito que o último local de procriação era o rochedo de Eldey, no sudoeste da Islândia, um monólito escarpado de 3000 m² e a 77 metros acima do mar, onde compartilhavam o habitat com outras aves marinhas. No final, os museus, antevendo a extinção das aves, começaram a encomendar a sua captura na ilha para adicionar os exemplares empalhados em suas coleções. Embora tenha sido descrita por Carl Linnaeus em 1753 (o nome científico é Pinguinum impennis), a espécie nunca chegou a ser observada na natureza ou descrita em seu habitat por um naturalista. De maneira que tudo que se sabe dela deriva da memória de caçadores e observadores casuais, e deduções com base na sua anatomia, especialmente nos tecidos preservados em líquido.
A história das grandes aucas é a história de todas as espécies animais que tiveram a desventura de ter no ser humano um inimigo natural inesperado. A caça além da necessidade de alimentação e abrigo, e a retração do seu habitat natural por conta da atividade humana colocou frente a frente com o ser humano espécies de animais que não evoluíram para se defender de nós ou suportar esta predação adicional. Isso ocorreu principalmente em ambientes insulares, onde os animais evoluíram em isolamento, mas também em ambientes continentais, onde espécies coevoluíram com o ser humano até que este se tornou a espécie dominante. Não faltam exemplos de animais extintos em tempos históricos especificamente por causa da interferência humana - ou caça, ou destruição de habitats, ou introdução antrópica de outras espécies mais agressivas. Aqui vão alguns:
1: O Palaeopropithecus era um gênero com três espécies de lêmures gigantes arborícolas desprovidos de cauda (por isso chamado às vezes de "lêmur-preguiça gigante") que habitavam o centro e o oeste de Madagascar. Conviveram com seres humanos por quase 2000 anos, e se extinguiram por volta do século XVI. Não se tem certeza porque este tipo de lêmur veio a desaparecer enquanto outros primatas da ilha sobrevivem até hoje, mas sabe-se que eles foram caçados para servir de alimento aos habitantes da ilha e seus ossos usados na fabricação de ferramentas. Possivelmente eram lentos, o que os teria tornado presas mais fáceis.
2: Ainda de Madagascar, o formidável Aepyornis (ou "ave-elefante"), gênero com talvez quatro espécies de aves gigantescas incapazes de voar. Aepyornis maximus podia atingir 3 metros de altura e 400 kg. Seus ovos podiam ter 34 centímetros de altura, 160 vezes mais volumoso do que o ovo de uma galinha. Quando os primeiros navegadores europeus passaram pela ilha e viram esses ovos, pensaram ser de um roc, uma espécie de água descomunal capaz de erguer um elefante com suas patas que Marco Polo descrevera em seus relatos sobre o oriente. Curiosamente, há poucos indícios de caça dessas aves por parte dos malgaxes. É possível que, inicialmente, os homens tenham competido com esses animais formidáveis por espaço, já que elas eram fortes e velozes o suficiente para matar um ser humano, e estavam amplamente distribuídas. Mas os ovos eram vulneráveis, e possivelmente usados como alimento (ou propositadamente destruídos). A introdução de aves domésticas ou comensais pode ter, também, colocado os Aepyornis em contato com doenças para as quais não possuía resistência. Ela se extinguiu por volta do ano 1000.
3: Meiolanis platyceps foi uma espécie de jabuti gigante que sobreviveu na ilha da Nova Caledônia até fins do século V a.C.. Tratava-se de um animal com 2,5 metros de comprimento (a segunda maior tartaruga terrestre de que se tem notícia), onde a cabeça, ornada com protuberâncias semelhantes a chifres, era tão grande que impedia que ela a recolhesse para dentro do casco. Ela sobreviveu apenas 300 anos à caça dos novos habitantes humanos da ilha, que se alimentavam da sua carne.
4: O elefante sírio (Elephas maximus sbsp. asurus) conviveu por dezenas de milhares de anos com a presença humana no Oriente Médio, que caçava o animal e usava suas presas para a confecção de objetos. Com o advento das civilizações e da intensificação das trocas comerciais, os objetos decorativos feitos com o marfim do elefante sírio se tornaram artigos de alto valor comercial, que os arameus exploraram avidamente. É possível que essa subspécie do elefante asiático tenha sido extinta por volta de 500 ou 400 a.C.. Contudo, houve um momento em que o Império Selêucida passou a importar elefantes da Índia e empregá-los para diversos fins (especialmente militares) por todo seu império, inclusive no Oriente Médio. É impossível distinguir exatamente se os elefantes na Síria, nessa época, eram da subspécie nativa, ou um elefante indiano selêucida, pois a diferença entre as duas subespécies estava na distribuição geográfica original, e numa ligeira diferença média de tamanho. Haníbal, o general cartaginês que invadiu a Itália durante a Segunda Guerra Púnica com uma coluna de elefantes de guerra entre suas tropas, adotara um elefante asiático imenso que ele batizou de Surus, ou "O Sírio". Talvez tenha sido um indiano selêucida formidável, mas se trava-se de um elefante sírio, pode ter sido o último.
5: Moa-nalo é o nome de uma série de espécies de patos nativos das ilhas havaianas. Eram descendentes de patos migratórios vindos provavelmente na América do Norte que se estabeleceram no arquipélago há mais de 3 milhões de anos e perderam a capacidade de voar. Eram grandes, possuíam grandes bicos serrilhados ou laminados semelhantes aos de tartarugas, e foram os maiores herbívoros do Hawaii (razão pela qual há diversas espécies vegetais de pequeno porte com espinhos ou tóxicas por lá). Quando os polinésios chegaram, as aves, dóceis, foram presas fáceis não apenas para humanos, como para animais domésticos, como porcos. Os últimos morreram na virada do primeiro milênio d.C..
6: A moa (várias espécies da família Dinornithiformes) e a água de Haast (Harpagornis moorei) eram os maiores animais da Nova Zelândia. As moas eram aves corredoras, desprovidas de asas que podiam alcançar até 3,5 metros de altura quando totalmente eretas. Eram herbívoras, e, a despeito do tamanho, tinham seu próprio inimigo natural: a águia de Haast tinha até três metros de envergadura. Porém a sua envergadura não diz sobre as suas dimensões gerais, porque, como uma caçadora de ambientes florestais, ela tinha asas proporcionalmente curtas para manobrar entre as árvores enquanto se abatia sobre a presa. Seu pé, aberto da ponta do tarso até a ponta do primeiro dedo, podia chegar a quase 50 cm de comprimento, e a mandíbula media quase 12 cm; ela mergulhava sobre as moas, cravava suas garras em suas costas ou seu pescoço derrubando-as no chão, e bicava em pontos vitais para abatê-las. Toda essa relação ecológica foi subitamente interrompida com a chegada dos Maori próximo a 1280. As moas foram caçadas até a extinção perto de 1400, e a água de Haast, sem a sua caça, também desapareceu.
7: O tilacino, ou lobo da Tasmânia, era um marsupial carnívoro restrito à ilha da Tasmânia, no sul da Austrália. Como um predador de topo de cadeia, sua população nunca foi muito numerosa na ilha, embora espécies aparentadas tenham vivido por toda a Austrália e Nova Guiné. Nesses dois lugares, a competição por caça e abrigo com homens e o dingo, um cão que chegou ao domínio australiano, levou ao seu fim, mas ainda assim ele subsistiu bem na Tasmânia até fins do século XIX. Os novos colonos europeus trouxeram consigo cães, gatos e raposas, que competiam com o lobo da Tasmânia por alimento e território. Além disso, os tilacinos foram deliberadamente caçados por fazendeiros, que os responsabilizava pela perda de galinhas, ovelhas, coelhos e outros animais de criação. O caso do tilacino é um dos mais célebres, porque trata-se de um caso de extinção que foi largamente monitorado por naturalistas e pela imprensa no começo do século XX (existe um registro em vídeo dos últimos tilacinos em cativeiro). O último exemplar morreu num zoológico australiano em 1936. Apenas dois meses depois o governo australiano decretou uma lei protegendo a espécie.
8: O rinoceronte negro ocidental (Diceros bicornis sbsp. longipes) foi muito caçado, principalmente entre o fim do século XIX e o início do século XX por causa do seu chifre, usado em misturas e poções mágicas, medicinais e afrodisíacas, confecção de instrumentos rituais, ou como troféu de caça. Sua população, contudo, se recuperou na década de 1930 com medidas para preservação, chegando a ser a subespécie mais comum de rinocerontes no mundo, com quase 850 mil indivíduos na natureza. Entre 1970 e 1995 a caça retomou um ritmo tão violento que, ao final do período, existiam apenas 2500 rinocerontes. Em 2006 o último foi avistado no seu território natural, no norte do Camarões, e em 2011 foi declarado extinto.
9: A vaca marinha de Steller (Hydrodamalis gigas) era um sirênio, parente do peixe-boi, que habitava o Pacífico norte. Era o maior da sua ordem, e o maior mamífero dos tempos modernos, fora as baleias, chegando a 9 metros de comprimento. Quando a vaca marinha foi avistada pela primeira vez por europeus em meados do século XVIII, sua população já era bem reduzida, e 27 anos depois ela estava extinta. As vacas marinhas foram caçadas por seu couro, sua gordura (um excelente combustível) e sua carne, mas as circunstâncias que a levaram à extinção podem ser mais complexas. A caça ostensiva de focas por nativos e europeus no Mar de Bering e arredores reduziu a população destas, que são as principais predadoras de ouriços do mar. Os ouriços, por sua vez, atacam os kelps, as algas gigantes das quais as vacas marinhas se alimentavam. Com menos focas, os ouriços proliferaram, as florestas de algas escassearam, e a breve caça adicional pôs fim a esta espécie.
10: O íbex dos Pireneus (Capra pyrenaica subsp. pyrenaica) era uma espécie de cabra de grandes chifres curvos e anelados, nativa das montanhas de mesmo nome entre a Espanha e a França. Seu habitat hostil à ocupação humana o manteve relativamente seguro até fins da Idade Média, escalando as montanhas na primavera, e descendo para pastar nas partes baixas no inverno. Porém, a caça combinada com a introdução de espécies domésticas reduziram sua população a 100 no começo do século XX. A espécie foi protegida e monitorada por muitos anos, mas o comprometimento do seu habitat, a disseminação de doenças e sua população criticamente reduzida impediram que ela se recuperasse, e o último indivíduo morreu em 2000 esmagado por uma árvore. A ciência tentou dar a sua contribuição: em 2003, o íbex dos pireneus foi escolhido para ser clonado, usando-se material coletado do último indivíduo vivo em 1999. O material genético foi introduzido em zigotos de cabras domésticas, e implantados em 208 fêmeas diferentes. Apenas uma gestação vingou. Em 2009 nasceu um filhote de íbex dos Pireneus, tornando-se o primeiro mamífero a ser "desextinto". Porém o filhote nasceu com má formação dos pulmões, e sobreviveu apenas por 7 minutos, causando a extinção da espécie pela segunda vez.
As grandes aucas eram aves incapazes de voar, que andavam desajeitadamente em terra, onde se reproduziam e se abrigavam do frio do inverno, e nadavam com agilidade para caçar pequenos peixes. Tinham o tamanho, a forma aproximada, e as cores dos pinguins, porém com um bico mais robusto. Apesar da semelhança com essas aves marinhas do sul, pertencia à ordem das gaivotas.
Supõe-se que elas tenham tido seu habitat comprometido com o fim da última era glacial, ficando restritas a redutos muito isolados, fora do alcance de predadores como o urso polar e as focas. Em tempos históricos, homens caçaram esta ave pelas suas plumas, usadas para encher travesseiros. Essa caça adicional foi o impacto necessário para o declínio final da espécie. Sua raridade já no século XVI chamava tanta atenção que ela recebeu proteção oficial em 1553. Em St. John, no Canadá, pessoas flagradas transportando ovos ou penas de aucas recebiam castigos físicos em público. Apesar disso, seu habitat ficou tão restrito que o último local de procriação era o rochedo de Eldey, no sudoeste da Islândia, um monólito escarpado de 3000 m² e a 77 metros acima do mar, onde compartilhavam o habitat com outras aves marinhas. No final, os museus, antevendo a extinção das aves, começaram a encomendar a sua captura na ilha para adicionar os exemplares empalhados em suas coleções. Embora tenha sido descrita por Carl Linnaeus em 1753 (o nome científico é Pinguinum impennis), a espécie nunca chegou a ser observada na natureza ou descrita em seu habitat por um naturalista. De maneira que tudo que se sabe dela deriva da memória de caçadores e observadores casuais, e deduções com base na sua anatomia, especialmente nos tecidos preservados em líquido.
A história das grandes aucas é a história de todas as espécies animais que tiveram a desventura de ter no ser humano um inimigo natural inesperado. A caça além da necessidade de alimentação e abrigo, e a retração do seu habitat natural por conta da atividade humana colocou frente a frente com o ser humano espécies de animais que não evoluíram para se defender de nós ou suportar esta predação adicional. Isso ocorreu principalmente em ambientes insulares, onde os animais evoluíram em isolamento, mas também em ambientes continentais, onde espécies coevoluíram com o ser humano até que este se tornou a espécie dominante. Não faltam exemplos de animais extintos em tempos históricos especificamente por causa da interferência humana - ou caça, ou destruição de habitats, ou introdução antrópica de outras espécies mais agressivas. Aqui vão alguns:
1: O Palaeopropithecus era um gênero com três espécies de lêmures gigantes arborícolas desprovidos de cauda (por isso chamado às vezes de "lêmur-preguiça gigante") que habitavam o centro e o oeste de Madagascar. Conviveram com seres humanos por quase 2000 anos, e se extinguiram por volta do século XVI. Não se tem certeza porque este tipo de lêmur veio a desaparecer enquanto outros primatas da ilha sobrevivem até hoje, mas sabe-se que eles foram caçados para servir de alimento aos habitantes da ilha e seus ossos usados na fabricação de ferramentas. Possivelmente eram lentos, o que os teria tornado presas mais fáceis.
2: Ainda de Madagascar, o formidável Aepyornis (ou "ave-elefante"), gênero com talvez quatro espécies de aves gigantescas incapazes de voar. Aepyornis maximus podia atingir 3 metros de altura e 400 kg. Seus ovos podiam ter 34 centímetros de altura, 160 vezes mais volumoso do que o ovo de uma galinha. Quando os primeiros navegadores europeus passaram pela ilha e viram esses ovos, pensaram ser de um roc, uma espécie de água descomunal capaz de erguer um elefante com suas patas que Marco Polo descrevera em seus relatos sobre o oriente. Curiosamente, há poucos indícios de caça dessas aves por parte dos malgaxes. É possível que, inicialmente, os homens tenham competido com esses animais formidáveis por espaço, já que elas eram fortes e velozes o suficiente para matar um ser humano, e estavam amplamente distribuídas. Mas os ovos eram vulneráveis, e possivelmente usados como alimento (ou propositadamente destruídos). A introdução de aves domésticas ou comensais pode ter, também, colocado os Aepyornis em contato com doenças para as quais não possuía resistência. Ela se extinguiu por volta do ano 1000.
3: Meiolanis platyceps foi uma espécie de jabuti gigante que sobreviveu na ilha da Nova Caledônia até fins do século V a.C.. Tratava-se de um animal com 2,5 metros de comprimento (a segunda maior tartaruga terrestre de que se tem notícia), onde a cabeça, ornada com protuberâncias semelhantes a chifres, era tão grande que impedia que ela a recolhesse para dentro do casco. Ela sobreviveu apenas 300 anos à caça dos novos habitantes humanos da ilha, que se alimentavam da sua carne.
4: O elefante sírio (Elephas maximus sbsp. asurus) conviveu por dezenas de milhares de anos com a presença humana no Oriente Médio, que caçava o animal e usava suas presas para a confecção de objetos. Com o advento das civilizações e da intensificação das trocas comerciais, os objetos decorativos feitos com o marfim do elefante sírio se tornaram artigos de alto valor comercial, que os arameus exploraram avidamente. É possível que essa subspécie do elefante asiático tenha sido extinta por volta de 500 ou 400 a.C.. Contudo, houve um momento em que o Império Selêucida passou a importar elefantes da Índia e empregá-los para diversos fins (especialmente militares) por todo seu império, inclusive no Oriente Médio. É impossível distinguir exatamente se os elefantes na Síria, nessa época, eram da subspécie nativa, ou um elefante indiano selêucida, pois a diferença entre as duas subespécies estava na distribuição geográfica original, e numa ligeira diferença média de tamanho. Haníbal, o general cartaginês que invadiu a Itália durante a Segunda Guerra Púnica com uma coluna de elefantes de guerra entre suas tropas, adotara um elefante asiático imenso que ele batizou de Surus, ou "O Sírio". Talvez tenha sido um indiano selêucida formidável, mas se trava-se de um elefante sírio, pode ter sido o último.
5: Moa-nalo é o nome de uma série de espécies de patos nativos das ilhas havaianas. Eram descendentes de patos migratórios vindos provavelmente na América do Norte que se estabeleceram no arquipélago há mais de 3 milhões de anos e perderam a capacidade de voar. Eram grandes, possuíam grandes bicos serrilhados ou laminados semelhantes aos de tartarugas, e foram os maiores herbívoros do Hawaii (razão pela qual há diversas espécies vegetais de pequeno porte com espinhos ou tóxicas por lá). Quando os polinésios chegaram, as aves, dóceis, foram presas fáceis não apenas para humanos, como para animais domésticos, como porcos. Os últimos morreram na virada do primeiro milênio d.C..
6: A moa (várias espécies da família Dinornithiformes) e a água de Haast (Harpagornis moorei) eram os maiores animais da Nova Zelândia. As moas eram aves corredoras, desprovidas de asas que podiam alcançar até 3,5 metros de altura quando totalmente eretas. Eram herbívoras, e, a despeito do tamanho, tinham seu próprio inimigo natural: a águia de Haast tinha até três metros de envergadura. Porém a sua envergadura não diz sobre as suas dimensões gerais, porque, como uma caçadora de ambientes florestais, ela tinha asas proporcionalmente curtas para manobrar entre as árvores enquanto se abatia sobre a presa. Seu pé, aberto da ponta do tarso até a ponta do primeiro dedo, podia chegar a quase 50 cm de comprimento, e a mandíbula media quase 12 cm; ela mergulhava sobre as moas, cravava suas garras em suas costas ou seu pescoço derrubando-as no chão, e bicava em pontos vitais para abatê-las. Toda essa relação ecológica foi subitamente interrompida com a chegada dos Maori próximo a 1280. As moas foram caçadas até a extinção perto de 1400, e a água de Haast, sem a sua caça, também desapareceu.
7: O tilacino, ou lobo da Tasmânia, era um marsupial carnívoro restrito à ilha da Tasmânia, no sul da Austrália. Como um predador de topo de cadeia, sua população nunca foi muito numerosa na ilha, embora espécies aparentadas tenham vivido por toda a Austrália e Nova Guiné. Nesses dois lugares, a competição por caça e abrigo com homens e o dingo, um cão que chegou ao domínio australiano, levou ao seu fim, mas ainda assim ele subsistiu bem na Tasmânia até fins do século XIX. Os novos colonos europeus trouxeram consigo cães, gatos e raposas, que competiam com o lobo da Tasmânia por alimento e território. Além disso, os tilacinos foram deliberadamente caçados por fazendeiros, que os responsabilizava pela perda de galinhas, ovelhas, coelhos e outros animais de criação. O caso do tilacino é um dos mais célebres, porque trata-se de um caso de extinção que foi largamente monitorado por naturalistas e pela imprensa no começo do século XX (existe um registro em vídeo dos últimos tilacinos em cativeiro). O último exemplar morreu num zoológico australiano em 1936. Apenas dois meses depois o governo australiano decretou uma lei protegendo a espécie.
8: O rinoceronte negro ocidental (Diceros bicornis sbsp. longipes) foi muito caçado, principalmente entre o fim do século XIX e o início do século XX por causa do seu chifre, usado em misturas e poções mágicas, medicinais e afrodisíacas, confecção de instrumentos rituais, ou como troféu de caça. Sua população, contudo, se recuperou na década de 1930 com medidas para preservação, chegando a ser a subespécie mais comum de rinocerontes no mundo, com quase 850 mil indivíduos na natureza. Entre 1970 e 1995 a caça retomou um ritmo tão violento que, ao final do período, existiam apenas 2500 rinocerontes. Em 2006 o último foi avistado no seu território natural, no norte do Camarões, e em 2011 foi declarado extinto.
9: A vaca marinha de Steller (Hydrodamalis gigas) era um sirênio, parente do peixe-boi, que habitava o Pacífico norte. Era o maior da sua ordem, e o maior mamífero dos tempos modernos, fora as baleias, chegando a 9 metros de comprimento. Quando a vaca marinha foi avistada pela primeira vez por europeus em meados do século XVIII, sua população já era bem reduzida, e 27 anos depois ela estava extinta. As vacas marinhas foram caçadas por seu couro, sua gordura (um excelente combustível) e sua carne, mas as circunstâncias que a levaram à extinção podem ser mais complexas. A caça ostensiva de focas por nativos e europeus no Mar de Bering e arredores reduziu a população destas, que são as principais predadoras de ouriços do mar. Os ouriços, por sua vez, atacam os kelps, as algas gigantes das quais as vacas marinhas se alimentavam. Com menos focas, os ouriços proliferaram, as florestas de algas escassearam, e a breve caça adicional pôs fim a esta espécie.
10: O íbex dos Pireneus (Capra pyrenaica subsp. pyrenaica) era uma espécie de cabra de grandes chifres curvos e anelados, nativa das montanhas de mesmo nome entre a Espanha e a França. Seu habitat hostil à ocupação humana o manteve relativamente seguro até fins da Idade Média, escalando as montanhas na primavera, e descendo para pastar nas partes baixas no inverno. Porém, a caça combinada com a introdução de espécies domésticas reduziram sua população a 100 no começo do século XX. A espécie foi protegida e monitorada por muitos anos, mas o comprometimento do seu habitat, a disseminação de doenças e sua população criticamente reduzida impediram que ela se recuperasse, e o último indivíduo morreu em 2000 esmagado por uma árvore. A ciência tentou dar a sua contribuição: em 2003, o íbex dos pireneus foi escolhido para ser clonado, usando-se material coletado do último indivíduo vivo em 1999. O material genético foi introduzido em zigotos de cabras domésticas, e implantados em 208 fêmeas diferentes. Apenas uma gestação vingou. Em 2009 nasceu um filhote de íbex dos Pireneus, tornando-se o primeiro mamífero a ser "desextinto". Porém o filhote nasceu com má formação dos pulmões, e sobreviveu apenas por 7 minutos, causando a extinção da espécie pela segunda vez.
quinta-feira, 2 de julho de 2015
A Noite das Facas Longas
Entre 30 de junho e 2 de julho de 1934, esquadrões da SS e da Gestapo levaram a cabo a Operação Colibri, mais tarde conhecida como a Noite das Facas Longas, um extenso expurgo de alas do Partido Nazista não alinhadas com Adolf Hitler e outros opositores. Foi o último passo da escalada nazista ao poder supremo na Alemanha.
Um dos ítens do Tratado de Versailles assinado pelos participantes da Primeira Guerra Mundial era a limitação do exército alemão em 100 mil homens. Ex militares descontentes, ou desorientados com sua nova vida civil, se organizaram em milícias irregulares de mercenários conhecidas como Freikorps, que permaneceram em atividade durante todo o regime de Weimar, engajando-se ativamente em ações violentas contra ou a favor do novo governo alemão e seus apoiadores. Como também atuavam contra núcleos marxistas, o próprio governo se omitia em reprimí-los (o Ministério da Defesa empregou Freikorpse para reprimir a formação de um Estado soviético na Bavária em 1918, e eliminar o levante comunista liderado por Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo em 1919).
Na Alemanha pós-guerra surgiu um conceito muito particular de socialismo, o "Socialismo Prussiano", moldado por um sentimento fortemente anti-britânico, que rejeitava o liberalismo e a democracia parlamentarista, e advogava um socialismo dissociado do marxismo (que era um socialismo "britânico"), onde a igualdade entre os alemães emergiria não de rupturas econômicas e sociais entre burgueses e proletários, ou seja, da luta de classes, mas de qualidades coletivas romanticamente inerentes ao povo alemão - criatividade, disciplina, produtividade, preocupação com o bem maior, e auto sacrifício. A revolução socialista não passaria pela coletivização da propriedade privada, mas pelo corporativismo e o senso de responsabilidade coletiva, unidade e orgulho nacional. O ideólogo dessa modalidade de socialismo, Oswald Spengler, declarou ipsis literis: "Marx ist tot", Marx está morto.
O Socialismo Prussiano como chamado ao ultranacionalismo caiu como uma luva na Alemanha derrotada, e foi o trilho que orientou a ideologia da grande maioria das Freikorpse e associações políticas baseadas nelas. Entre elas, o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. É extremamente comum ver pessoas associando os nazistas aos "comunistas" porque o nome do partido inclui a palavra "Socialista" e sua bandeira a cor vermelha, e também marxistas incautos embaraçados tentando contornar o assunto desastradamente, mas a verdade é que o Nacional Socialismo, contraído na palavra "nazismo", refere-se ao Socialismo Prussiano virulentamente anti comunista e ultranacionalista (o marxismo é profundamente transnacional). As diretrizes nazistas quanto à unidade racial ariana derivam diretamente dessa doutrina - a unidade nacional só seria possível com a eliminação, voluntária ou forçada, de elementos estranhos à "raça alemã", os judeus, ciganos, eslavos, africanos, deficientes físicos e mentais, homossexuais, e grupos insubmissos como Testemunhas de Jeová e opositores políticos, como os próprios comunistas.
Houve um incidente nos primórdios do Partido Nacional Socialista, quando era o Partido dos Trabalhadores Alemães. Um de seus fundadores, Gottfried Fedder, terminou seu discurso no comitê em Munique, quando um convidado, um certo professor Baumann, argumentou que o programa do partido não se opunha propriamente ao capitalismo e que a Bavária devia se separar da Prússia e tomar seu próprio caminho. Adolf Hitler, originalmente um militar bávaro infiltrado, o rebateu com sua veemência oratória que lhe seria característica, conquistando a maioria presente, e expulsando o professor da reunião. Hitler foi abordado por outro fundador do partido, Anton Drexler, um rábico nacionalista e antissemita, e convidado a integrar as suas linhas. Hitler se tornaria o principal porta-voz do partido, e um dos idealizadores do seu programa oficial, um programa fundamentalmente antissemítico, anticapitalista, antidemocrático, antimarxista e antiliberal, ao mesmo tempo. No mesmo dia em que Hitler expunha esse programa a uma platéia de 2000 pessoas, o partido mudou de nome. O programa agregava Freikorpse dominadas por ideologias similares, incluindo membros notórios dessas facções, como Ernst Röhm e Heinrich Himmler. O grupo de Himmler (o "Batalhão de Choque da Baixa Bavária") foi inteiramente absorvido pelos nazistas.
Hitler se tornou líder do partido em 1921, após ameaçar abandoná-lo se não fosse instituído como tal no lugar de Drexler (outros líderes menos simpáticos a Hitler também foram expulsos). Ao mesmo tempo, uma Freikorps interna surgia no partido, os Camisas Marrons, ou SA (de "Sturmabteilung"), liderada por Röhm, que fazia o "trabalho sujo" de recrutamento e intimidação, enquanto Hitler se encarregava da política. Em 1923 a França ocupou a região do Ruhr, largamente industrializada, como parte do acordo pelo não ressarcimento pelos danos da Primeira Guerra pelo governo alemão, causando caos econômico no país. Com esse cenário, e sentindo a robustez do partido, Hitler tentou um golpe a partir de Munique, mas foi "traído" pelos militares que não apoiaram a revolta (apesar de algumas promessas) e foi preso. Na cadeia, escreveu no Mein Kampf sua visão indissociável de que a soberania alemã dependia da eliminação dos judeus (que ele acreditava serem os operadores do liberalismo europeu e americano que esmagavam a economia alemã, e ao mesmo tempo engendradores do marxismo, essa "perversão judaica").
Ao sair da cadeia, Hitler reformulou o Partido Nazista em torno de si mesmo, decidindo entrar no jogo democrático do período de Weimar. Ainda assim, a SA continuou operando de maneira semi-independente a favor dos nazistas. A SS (a polícia interna do partido) surgiu como uma espécie de segurança pessoal de Hitler, e acabaria assumindo, no limite da legalidade, alguns papéis da SA, porém com membros exclusivamente afiliados ao partido. Embora sem muito sucesso nas primeiras eleições (nas quais contestava abertamente os resultados oficiais), em parte por conta da relativa estabilidade econômica de meados dos anos 1920, o partido crescia graças a um trabalho primoroso de propaganda e uma estrutura rigorosamente eficiente de recrutamento.
Gregor Strasser, um antigo membro de uma Freikorps de extrema direita e ex-SA, participante da tentativa de golpe de 1923, era o encarregado da propaganda. Com sua capacidade de organização, foi responsável direto pelo fortalecimento dos nazistas fora da Bavária, em regiões menos desenvolvidas no norte e no leste, bem como Alemanha afora. Mas houve um detalhe. Seu irmão Otto, também político e membro do partido, tinha inclinações mais à esquerda, com uma visão ligeiramente mais ortodoxa do socialismo, acreditando na intervenção do Estado em ações baseadas na luta de classes em favor dos trabalhadores. Os dois, juntos, trabalhavam num jornal do partido, e como Otto atuava como jornalista, o teor do Berliner Arbeiterzeitung (e posteriormente de outro jornal dos irmãos, o Nationaler Sozialist) estava mais à esquerda do que a direção do partido pretendia. Otto foi expulso em 1930 e Gregor permaneceu no cargo, gozando de grande prestígio no núcleo nazista de Berlim. O novo secretário de propaganda, porém, passaria a ser Joseph Goebbels, que baniria o jornal dos irmãos Strasser. Hitler, então, veio a público para se opor à corrente de esquerda de Gregor (academicamente conhecida como Strasserismo).
Com a crise econômica do começo dos anos 1930, os nazistas deixaram de ter apenas uma militância forte para ganhar o apoio da classe média. Com uma representatividade significativa no parlamento alemão, o chanceler Kurt von Schleicher ofereceu a Gregor Strasser a vice-chancelaria, na esperança de que, alimentando a corrente de esquerda, ele desarticularia o Partido Nazista. Hitler ordenou que ele recusasse. Pouco depois Strasser deixou o partido.
Em 1932 Hitler perdeu a eleição presidencial para o velho conservador Paul von Hindenburg, que compôs com ele um governo de coalizão. Quatro semanas depois da nomeação de Hitler ao cargo de Chanceler, ocorreu um incêncio do parlamento, causado, segundo apurado na época, por um solitário comunista holandês (as dúvidas de que ele teria conseguido agir sozinho joga uma luz na possibilidade dos nazistas terem orquestrado o ato). Foi o pretexto para Hitler declarar que havia um golpe comunista à vista. Ele convenceu Hindenburg a suspender liberdades civis e a ordenar a prisão de todos os membros do Partido Comunista da Alemanha, inclusive os seus parlamentares. Sem franca oposição, Hitler passou a governar com o parlamento dominado pelos nazistas. Contudo, havia ainda dois empecilhos para exercer o poder político total. Além do Strasserismo, irradiado entre opositores dentro e fora do partido, ainda havia a SA.
A SA continuava operando clandestinamente em conluio com os nazistas na repressão violenta a manifestações contrárias ao regime. Contudo, ainda assim ela mantinha autonomia, por exemplo, no recrutamento: um relatório de 1933 denunciava que 70% dos recrutas eram ex comunistas, além de um grande número de homossexuais (inclusive Röhm), o que contrastava com o rigor quanto à afiliação ao Partido Nazista. Essa independência também significava que não havia financiamento oficial à corporação, obtido por extorsão a comerciantes e pagamento de resgates. Ernst Röhm levava a sério a veia "socialista" do Nacional Socialismo, cobrava reformas genuinamente socialistas do regime, e dizia que a revolução havia apenas começado. Sua visão à esquerda preocupava os industriais que financiavam o partido, e a autonomia da SA, cada vez maior e melhor armada, punha Hitler em conflito com o exército regular (ainda limitado pelo Tratado de Versailles). Hindenburg, aliado incondicional das forças armadas, pressionou Hitler para dar um fim à SA, sob a ameaça dissolver a chancelaria e decretar lei marcial. Hitler hesitava em agir contra seu amigo Röhm, mas a pressão política era insustentável.
Para eliminar Röhm, Strasser e outros dissidentes, os nazistas contaram com a SS (ao contrário da SA, extremamente disciplinada e sob estrito controle do círculo mais próximo a Hitler) e a Gestapo, o serviço secreto que os nazistas haviam aparelhado, e também estava sob controle cerrado. No final de junho Hitler se encontrou com Röhm em um resort perto de Munique, e ordenou sua prisão. Com os principais membros da SA presos, Hitler telefonou para Hermann Goering em Berlim e disse o código: "Colibri". Imediatamente, esquadrões da SS e da Gestapo localizaram, prenderam e executaram pelo menos 85 opositores, entre membros da SA, associados de Strasser (incluindo Gregor), políticos conservadores e alguns desafetos pessoais de Hitler (como o delegado que ordenou a sua prisão em 1921). Röhm também foi executado em sua cela com três tiros no peito, após ter recusado o suicídio. Havia uma lista prévia com os nomes destas pessoas marcadas para morrer. Um oficial da Gestapo dizia ter visto Hitler, de volta a Berlim, recebendo essa lista e conferindo os nomes um a um, enquanto Goering e Himmler descreviam ao seu ouvido como cada um foi executado.
Estima-se que mais de 100 pessoas, alguns por acidente, outros por conveniência, tenham sido mortas nos ataques que ficariam conhecidos como a Noite das Facas Longas. Os nazistas se encarregaram de amenizar o horror e a publicidade inevitável das execuções sumárias divulgando boatos de conspirações comunistas, ou sobre um suposto financiamento francês a Röhm (cuja sexualidade, conhecida desde o início pelo comando nazista, fora intencionalmente exposta) para assassinar Hitler. Documentos sobre a organização do ataque foram queimados. No dia 13 de julho Hitler discursou em rede nacional, onde alegou ter agido rapidamente como "o juiz supremo do povo alemão" para eliminar traidores e "cauterizar até a carne as úlceras" da nação para trazer novamente a ordem e a segurança, e alertar a todos que os que levantassem a mão contra o Estado encontrariam a morte. Sem oposição política (Hindenburg recebeu em seu gabinete um memorando solicitando sua intervenção junto à Suprema Corte para investigar as ações de Hitler, que ele ignorou), com apoio efusivo do empresariado alemão e do exército, e a opinião pública inabalada, a Alemanha chegou a um ponto sem volta.
P.S.: Ontem faleceu Sir Nicholas Winton, corretor de ações britânico que visitou a turismo a Tchecoslováquia semanas antes da ocupação nazista em 1938. Alertado por um amigo residente em Praga do que os judeus estariam sujeitos naquele país sob o nazismo, ele sozinho organizou a fuga e a adoção por famílias britânicas (atendendo às exigências da lei britânica) de 669 crianças judias, Ele conseguiu chegar de trem e embarcar as crianças clandestinamente na Holanda, então fechada para imigrantes judeus. Um último trem com 250 crianças foi interceptado antes de sair de Praga, quando a guerra já estava declarada. A maioria dos pais daquelas crianças morreu em Auschwitz.
Um dos ítens do Tratado de Versailles assinado pelos participantes da Primeira Guerra Mundial era a limitação do exército alemão em 100 mil homens. Ex militares descontentes, ou desorientados com sua nova vida civil, se organizaram em milícias irregulares de mercenários conhecidas como Freikorps, que permaneceram em atividade durante todo o regime de Weimar, engajando-se ativamente em ações violentas contra ou a favor do novo governo alemão e seus apoiadores. Como também atuavam contra núcleos marxistas, o próprio governo se omitia em reprimí-los (o Ministério da Defesa empregou Freikorpse para reprimir a formação de um Estado soviético na Bavária em 1918, e eliminar o levante comunista liderado por Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo em 1919).
Na Alemanha pós-guerra surgiu um conceito muito particular de socialismo, o "Socialismo Prussiano", moldado por um sentimento fortemente anti-britânico, que rejeitava o liberalismo e a democracia parlamentarista, e advogava um socialismo dissociado do marxismo (que era um socialismo "britânico"), onde a igualdade entre os alemães emergiria não de rupturas econômicas e sociais entre burgueses e proletários, ou seja, da luta de classes, mas de qualidades coletivas romanticamente inerentes ao povo alemão - criatividade, disciplina, produtividade, preocupação com o bem maior, e auto sacrifício. A revolução socialista não passaria pela coletivização da propriedade privada, mas pelo corporativismo e o senso de responsabilidade coletiva, unidade e orgulho nacional. O ideólogo dessa modalidade de socialismo, Oswald Spengler, declarou ipsis literis: "Marx ist tot", Marx está morto.
O Socialismo Prussiano como chamado ao ultranacionalismo caiu como uma luva na Alemanha derrotada, e foi o trilho que orientou a ideologia da grande maioria das Freikorpse e associações políticas baseadas nelas. Entre elas, o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. É extremamente comum ver pessoas associando os nazistas aos "comunistas" porque o nome do partido inclui a palavra "Socialista" e sua bandeira a cor vermelha, e também marxistas incautos embaraçados tentando contornar o assunto desastradamente, mas a verdade é que o Nacional Socialismo, contraído na palavra "nazismo", refere-se ao Socialismo Prussiano virulentamente anti comunista e ultranacionalista (o marxismo é profundamente transnacional). As diretrizes nazistas quanto à unidade racial ariana derivam diretamente dessa doutrina - a unidade nacional só seria possível com a eliminação, voluntária ou forçada, de elementos estranhos à "raça alemã", os judeus, ciganos, eslavos, africanos, deficientes físicos e mentais, homossexuais, e grupos insubmissos como Testemunhas de Jeová e opositores políticos, como os próprios comunistas.
Houve um incidente nos primórdios do Partido Nacional Socialista, quando era o Partido dos Trabalhadores Alemães. Um de seus fundadores, Gottfried Fedder, terminou seu discurso no comitê em Munique, quando um convidado, um certo professor Baumann, argumentou que o programa do partido não se opunha propriamente ao capitalismo e que a Bavária devia se separar da Prússia e tomar seu próprio caminho. Adolf Hitler, originalmente um militar bávaro infiltrado, o rebateu com sua veemência oratória que lhe seria característica, conquistando a maioria presente, e expulsando o professor da reunião. Hitler foi abordado por outro fundador do partido, Anton Drexler, um rábico nacionalista e antissemita, e convidado a integrar as suas linhas. Hitler se tornaria o principal porta-voz do partido, e um dos idealizadores do seu programa oficial, um programa fundamentalmente antissemítico, anticapitalista, antidemocrático, antimarxista e antiliberal, ao mesmo tempo. No mesmo dia em que Hitler expunha esse programa a uma platéia de 2000 pessoas, o partido mudou de nome. O programa agregava Freikorpse dominadas por ideologias similares, incluindo membros notórios dessas facções, como Ernst Röhm e Heinrich Himmler. O grupo de Himmler (o "Batalhão de Choque da Baixa Bavária") foi inteiramente absorvido pelos nazistas.
Hitler se tornou líder do partido em 1921, após ameaçar abandoná-lo se não fosse instituído como tal no lugar de Drexler (outros líderes menos simpáticos a Hitler também foram expulsos). Ao mesmo tempo, uma Freikorps interna surgia no partido, os Camisas Marrons, ou SA (de "Sturmabteilung"), liderada por Röhm, que fazia o "trabalho sujo" de recrutamento e intimidação, enquanto Hitler se encarregava da política. Em 1923 a França ocupou a região do Ruhr, largamente industrializada, como parte do acordo pelo não ressarcimento pelos danos da Primeira Guerra pelo governo alemão, causando caos econômico no país. Com esse cenário, e sentindo a robustez do partido, Hitler tentou um golpe a partir de Munique, mas foi "traído" pelos militares que não apoiaram a revolta (apesar de algumas promessas) e foi preso. Na cadeia, escreveu no Mein Kampf sua visão indissociável de que a soberania alemã dependia da eliminação dos judeus (que ele acreditava serem os operadores do liberalismo europeu e americano que esmagavam a economia alemã, e ao mesmo tempo engendradores do marxismo, essa "perversão judaica").
Ao sair da cadeia, Hitler reformulou o Partido Nazista em torno de si mesmo, decidindo entrar no jogo democrático do período de Weimar. Ainda assim, a SA continuou operando de maneira semi-independente a favor dos nazistas. A SS (a polícia interna do partido) surgiu como uma espécie de segurança pessoal de Hitler, e acabaria assumindo, no limite da legalidade, alguns papéis da SA, porém com membros exclusivamente afiliados ao partido. Embora sem muito sucesso nas primeiras eleições (nas quais contestava abertamente os resultados oficiais), em parte por conta da relativa estabilidade econômica de meados dos anos 1920, o partido crescia graças a um trabalho primoroso de propaganda e uma estrutura rigorosamente eficiente de recrutamento.
Gregor Strasser, um antigo membro de uma Freikorps de extrema direita e ex-SA, participante da tentativa de golpe de 1923, era o encarregado da propaganda. Com sua capacidade de organização, foi responsável direto pelo fortalecimento dos nazistas fora da Bavária, em regiões menos desenvolvidas no norte e no leste, bem como Alemanha afora. Mas houve um detalhe. Seu irmão Otto, também político e membro do partido, tinha inclinações mais à esquerda, com uma visão ligeiramente mais ortodoxa do socialismo, acreditando na intervenção do Estado em ações baseadas na luta de classes em favor dos trabalhadores. Os dois, juntos, trabalhavam num jornal do partido, e como Otto atuava como jornalista, o teor do Berliner Arbeiterzeitung (e posteriormente de outro jornal dos irmãos, o Nationaler Sozialist) estava mais à esquerda do que a direção do partido pretendia. Otto foi expulso em 1930 e Gregor permaneceu no cargo, gozando de grande prestígio no núcleo nazista de Berlim. O novo secretário de propaganda, porém, passaria a ser Joseph Goebbels, que baniria o jornal dos irmãos Strasser. Hitler, então, veio a público para se opor à corrente de esquerda de Gregor (academicamente conhecida como Strasserismo).
Com a crise econômica do começo dos anos 1930, os nazistas deixaram de ter apenas uma militância forte para ganhar o apoio da classe média. Com uma representatividade significativa no parlamento alemão, o chanceler Kurt von Schleicher ofereceu a Gregor Strasser a vice-chancelaria, na esperança de que, alimentando a corrente de esquerda, ele desarticularia o Partido Nazista. Hitler ordenou que ele recusasse. Pouco depois Strasser deixou o partido.
Em 1932 Hitler perdeu a eleição presidencial para o velho conservador Paul von Hindenburg, que compôs com ele um governo de coalizão. Quatro semanas depois da nomeação de Hitler ao cargo de Chanceler, ocorreu um incêncio do parlamento, causado, segundo apurado na época, por um solitário comunista holandês (as dúvidas de que ele teria conseguido agir sozinho joga uma luz na possibilidade dos nazistas terem orquestrado o ato). Foi o pretexto para Hitler declarar que havia um golpe comunista à vista. Ele convenceu Hindenburg a suspender liberdades civis e a ordenar a prisão de todos os membros do Partido Comunista da Alemanha, inclusive os seus parlamentares. Sem franca oposição, Hitler passou a governar com o parlamento dominado pelos nazistas. Contudo, havia ainda dois empecilhos para exercer o poder político total. Além do Strasserismo, irradiado entre opositores dentro e fora do partido, ainda havia a SA.
A SA continuava operando clandestinamente em conluio com os nazistas na repressão violenta a manifestações contrárias ao regime. Contudo, ainda assim ela mantinha autonomia, por exemplo, no recrutamento: um relatório de 1933 denunciava que 70% dos recrutas eram ex comunistas, além de um grande número de homossexuais (inclusive Röhm), o que contrastava com o rigor quanto à afiliação ao Partido Nazista. Essa independência também significava que não havia financiamento oficial à corporação, obtido por extorsão a comerciantes e pagamento de resgates. Ernst Röhm levava a sério a veia "socialista" do Nacional Socialismo, cobrava reformas genuinamente socialistas do regime, e dizia que a revolução havia apenas começado. Sua visão à esquerda preocupava os industriais que financiavam o partido, e a autonomia da SA, cada vez maior e melhor armada, punha Hitler em conflito com o exército regular (ainda limitado pelo Tratado de Versailles). Hindenburg, aliado incondicional das forças armadas, pressionou Hitler para dar um fim à SA, sob a ameaça dissolver a chancelaria e decretar lei marcial. Hitler hesitava em agir contra seu amigo Röhm, mas a pressão política era insustentável.
Para eliminar Röhm, Strasser e outros dissidentes, os nazistas contaram com a SS (ao contrário da SA, extremamente disciplinada e sob estrito controle do círculo mais próximo a Hitler) e a Gestapo, o serviço secreto que os nazistas haviam aparelhado, e também estava sob controle cerrado. No final de junho Hitler se encontrou com Röhm em um resort perto de Munique, e ordenou sua prisão. Com os principais membros da SA presos, Hitler telefonou para Hermann Goering em Berlim e disse o código: "Colibri". Imediatamente, esquadrões da SS e da Gestapo localizaram, prenderam e executaram pelo menos 85 opositores, entre membros da SA, associados de Strasser (incluindo Gregor), políticos conservadores e alguns desafetos pessoais de Hitler (como o delegado que ordenou a sua prisão em 1921). Röhm também foi executado em sua cela com três tiros no peito, após ter recusado o suicídio. Havia uma lista prévia com os nomes destas pessoas marcadas para morrer. Um oficial da Gestapo dizia ter visto Hitler, de volta a Berlim, recebendo essa lista e conferindo os nomes um a um, enquanto Goering e Himmler descreviam ao seu ouvido como cada um foi executado.
Estima-se que mais de 100 pessoas, alguns por acidente, outros por conveniência, tenham sido mortas nos ataques que ficariam conhecidos como a Noite das Facas Longas. Os nazistas se encarregaram de amenizar o horror e a publicidade inevitável das execuções sumárias divulgando boatos de conspirações comunistas, ou sobre um suposto financiamento francês a Röhm (cuja sexualidade, conhecida desde o início pelo comando nazista, fora intencionalmente exposta) para assassinar Hitler. Documentos sobre a organização do ataque foram queimados. No dia 13 de julho Hitler discursou em rede nacional, onde alegou ter agido rapidamente como "o juiz supremo do povo alemão" para eliminar traidores e "cauterizar até a carne as úlceras" da nação para trazer novamente a ordem e a segurança, e alertar a todos que os que levantassem a mão contra o Estado encontrariam a morte. Sem oposição política (Hindenburg recebeu em seu gabinete um memorando solicitando sua intervenção junto à Suprema Corte para investigar as ações de Hitler, que ele ignorou), com apoio efusivo do empresariado alemão e do exército, e a opinião pública inabalada, a Alemanha chegou a um ponto sem volta.
P.S.: Ontem faleceu Sir Nicholas Winton, corretor de ações britânico que visitou a turismo a Tchecoslováquia semanas antes da ocupação nazista em 1938. Alertado por um amigo residente em Praga do que os judeus estariam sujeitos naquele país sob o nazismo, ele sozinho organizou a fuga e a adoção por famílias britânicas (atendendo às exigências da lei britânica) de 669 crianças judias, Ele conseguiu chegar de trem e embarcar as crianças clandestinamente na Holanda, então fechada para imigrantes judeus. Um último trem com 250 crianças foi interceptado antes de sair de Praga, quando a guerra já estava declarada. A maioria dos pais daquelas crianças morreu em Auschwitz.
quarta-feira, 1 de julho de 2015
Então eles vieram por mim
Em 01 de julho de 1937 o pastor luterano Martin Niemöller foi preso, acusado de "atividades contra o Estado" pelo regime nazista.
O reverendo Niemöller era um conservador e um nacionalista notório, como eram de maneira geral os líderes das igrejas luteranas alemãs. Diante da campanha ultranacionalista que levou o partido nazista ao poder em 1933, ele deu as boas vindas ao novo chanceler Adolph Hitler. Ele apoiava a perseguição aos comunistas (que ele via como promotores do ateísmo) e deixava transparecer opiniões antissemitas em seus sermões, embora ele discordasse das políticas racistas contra a etnia em si, protegendo judeus convertidos ou cristãos filhos de judeus na sua igreja.
O ponto de tensão entre Niemöller e o programa nazista veio desse detalhe. Niemöller, junto com outros pastores protestantes, se opunha à perseguição determinada por raça, uma vez que suas igrejas abrigavam fiéis de todas as etnias, inclusive de origem judaica. Em 1934 ele ajudou a fundar a Igreja Congregacional em resposta à pressão do governo em "nazificar" as igrejas protestantes. Essa exigência do governo batia de frente com uma promessa que Hitler lhe fez pessoalmente antes de se tornar chanceler de que protegeria a igreja e que não haveria aprisionamentos e confinamento de judeus na Alemanha. No entanto, até pelo menos 1935, o reverendo ainda atacava os judeus de fé, insinuando em pregações que eles estavam sofrendo um castigo merecido.
A sua atitude ambivalente, possivelmente uma aposta dupla em pretos e vermelhos, acabou dando errado. A sua resistência em levar para as igrejas o programa nazista acabou levando-o para a prisão. Depois de 8 meses encarcerado, ele foi condenado a 7 meses de prisão e multa. Como ele já havia cumprido o termo em prisão provisória, foi liberado imediatamente sob pagamento de multa. Mas ao deixar o tribunal, foi novamente preso por agentes da Gestapo e conduzido ao campo de concentração de Sachsenhausen.
Confinado junto a outros presos políticos cujas prisões ele apoiara antes, sujeito agora às mesmas privações, violências, e vendo suas vidas ceifadas sem qualquer piedade, Niemöller refletiu profundamente sobre suas atitudes e reconheceu o erro em apoiar Hitler. Eventualmente ele seria transferido para o campo de Dachau, e de lá, em 1945, seria transportado para a Áustria, mas o transporte foi abandonado pela SS em vista do crescente avanço aliado em direção à Alemanha. Ali ele foi libertado.
A partir de 1946, Niemöller passou a pedir perdão pela sua inação diante dos abusos dos nazistas contra determinados setores do povo alemão, admitindo sua própria culpa e exortando os demais alemães a fazerem o mesmo. Foi dele a iniciativa da Declaração de Stuttgart, em que as igrejas protestantes assumem a responsabilidade de não protegerem as pessoas da violência do Estado. O reverendo ainda se tornaria um ativista do pacifismo, a favor do desarmamento nuclear e contra a Guerra do Vietnã.
O reconhecimento da responsabilidade civil de proteger o direito do cidadão como o seu próprio é sintetizado no célebre poema de sua autoria, derivado das suas pregações, e que os usuários do facebook já devem ter lido com alguma autoria apócrifa, preferencialmente de Berthold Brecht... Esse não é o poema demagogo de algum "esquerdopata", nem uma modinha da "esquerda caviar" de se condoer por pessoas com quem realmente não se importam tanto assim. É a confissão de alguém que achava que estava por cima da carne seca e que não devia nada a ninguém, até que seus aliados se voltaram contra ele e lhe tiraram tudo, como ele mesmo havia permitido que fizessem com quem ele pensava que merecia:
"Primeiro eles vieram pelos socialistas, mas eu não me opus-
Porque eu não era um socialista.
Então eles vieram pelos sindicalistas, e eu não me opus-
Porque eu não era um sindicalista.
Então eles vieram pelos judeus, e eu não me opus-
Porque eu não era um judeu.
Então eles vieram por mim - e não havia mais ninguém para falar por mim."
O reverendo Niemöller era um conservador e um nacionalista notório, como eram de maneira geral os líderes das igrejas luteranas alemãs. Diante da campanha ultranacionalista que levou o partido nazista ao poder em 1933, ele deu as boas vindas ao novo chanceler Adolph Hitler. Ele apoiava a perseguição aos comunistas (que ele via como promotores do ateísmo) e deixava transparecer opiniões antissemitas em seus sermões, embora ele discordasse das políticas racistas contra a etnia em si, protegendo judeus convertidos ou cristãos filhos de judeus na sua igreja.
O ponto de tensão entre Niemöller e o programa nazista veio desse detalhe. Niemöller, junto com outros pastores protestantes, se opunha à perseguição determinada por raça, uma vez que suas igrejas abrigavam fiéis de todas as etnias, inclusive de origem judaica. Em 1934 ele ajudou a fundar a Igreja Congregacional em resposta à pressão do governo em "nazificar" as igrejas protestantes. Essa exigência do governo batia de frente com uma promessa que Hitler lhe fez pessoalmente antes de se tornar chanceler de que protegeria a igreja e que não haveria aprisionamentos e confinamento de judeus na Alemanha. No entanto, até pelo menos 1935, o reverendo ainda atacava os judeus de fé, insinuando em pregações que eles estavam sofrendo um castigo merecido.
A sua atitude ambivalente, possivelmente uma aposta dupla em pretos e vermelhos, acabou dando errado. A sua resistência em levar para as igrejas o programa nazista acabou levando-o para a prisão. Depois de 8 meses encarcerado, ele foi condenado a 7 meses de prisão e multa. Como ele já havia cumprido o termo em prisão provisória, foi liberado imediatamente sob pagamento de multa. Mas ao deixar o tribunal, foi novamente preso por agentes da Gestapo e conduzido ao campo de concentração de Sachsenhausen.
Confinado junto a outros presos políticos cujas prisões ele apoiara antes, sujeito agora às mesmas privações, violências, e vendo suas vidas ceifadas sem qualquer piedade, Niemöller refletiu profundamente sobre suas atitudes e reconheceu o erro em apoiar Hitler. Eventualmente ele seria transferido para o campo de Dachau, e de lá, em 1945, seria transportado para a Áustria, mas o transporte foi abandonado pela SS em vista do crescente avanço aliado em direção à Alemanha. Ali ele foi libertado.
A partir de 1946, Niemöller passou a pedir perdão pela sua inação diante dos abusos dos nazistas contra determinados setores do povo alemão, admitindo sua própria culpa e exortando os demais alemães a fazerem o mesmo. Foi dele a iniciativa da Declaração de Stuttgart, em que as igrejas protestantes assumem a responsabilidade de não protegerem as pessoas da violência do Estado. O reverendo ainda se tornaria um ativista do pacifismo, a favor do desarmamento nuclear e contra a Guerra do Vietnã.
O reconhecimento da responsabilidade civil de proteger o direito do cidadão como o seu próprio é sintetizado no célebre poema de sua autoria, derivado das suas pregações, e que os usuários do facebook já devem ter lido com alguma autoria apócrifa, preferencialmente de Berthold Brecht... Esse não é o poema demagogo de algum "esquerdopata", nem uma modinha da "esquerda caviar" de se condoer por pessoas com quem realmente não se importam tanto assim. É a confissão de alguém que achava que estava por cima da carne seca e que não devia nada a ninguém, até que seus aliados se voltaram contra ele e lhe tiraram tudo, como ele mesmo havia permitido que fizessem com quem ele pensava que merecia:
"Primeiro eles vieram pelos socialistas, mas eu não me opus-
Porque eu não era um socialista.
Então eles vieram pelos sindicalistas, e eu não me opus-
Porque eu não era um sindicalista.
Então eles vieram pelos judeus, e eu não me opus-
Porque eu não era um judeu.
Então eles vieram por mim - e não havia mais ninguém para falar por mim."
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