terça-feira, 20 de outubro de 2015

Piratas do Caribe

Em 20 de outubro, a embarcação Revenge foi abordada por um navio inglês, e seu capitão, o pirata Calico Jack, preso, junto com a sua tripulação.

A partir do segundo quartel do século XVII, a colonização de América e Caribe ocorria a pleno vapor. As colônias se tornavam grandes centros de produção de matéria prima e manufaturados de pouco valor agregado para a Europa. No Caribe, a riqueza dos colonos locais vinha da cana-de-açúcar e derivados, principalmente açúcar, melado e rum. Do continente vinham ouro, prata, cobre e pedras preciosas. Mais ao norte começaram a prosperar as fazendas de algodão, cujo processamento em fios e tecidos motivaria o desenvolvimento técnico que determinaria o início da Revolução Industrial no final do século seguinte. O tráfego de navios mercantes de um lado a outro do Atlântico era intenso, não apenas de mercadorias e dinheiro obtido com a sua venda, mas também de recursos financeiros vindos da Europa, ou saindo das colônias na forma de impostos. A riqueza era tanta que mergulhadores se arriscavam no fundo do mar para tentar resgatar tesouros de navios naufragados (até hoje existem grupos de exploradores especializados em tesouros perdidos em naufrágios da época). Mesmo assim, o controle que as metrópoles tinham sobre o mar tão longe das suas capitais era relativamente frouxo. Principalmente quando qualquer uma delas - Espanha, França, Inglaterra, Holanda - se envolvia em alguma guerra no Velho Continente, o que acontecia praticamente o tempo todo (e frequentemente envolvendo as quatro nações em combinações de alianças antagônicas), e precisava mobilizar sua marinha. Navios com cargas valiosas com pouca proteção eram alvo fácil de piratas, sobretudo nas áreas de maior tráfego, como o Caribe, as costas da América do Norte, Central, e norte da América do Sul.

No Caribe a pirataria começou ainda na primeira metade do século XVII, a partir da Ilha Tortuga, ao norte do Haiti, para onde colonos especializados na caça de animais silvestres na ilha de Hispaniola foram deslocados durante o processo de "limpeza" desta ilha para a plantação de cana-de-açúcar. Em Tortuga, cujo litoral rochoso era fácil de ser defendido, esses colonos começaram a abordar navios, especialmente os que voltavam para a Europa com as valiosas cargas de produtos das colônias, as quais revendiam. Muitos se especializavam em apreender navios e suas tripulações e oferecê-los em troca de resgate, outros armavam-se com o butim para realizar saques em terra ou no mar. Alguns constituíam frotas imponentes, e eram protegidos, ou até encorajados, a engajarem-se na captura de navios de determinadas nacionalidades. Logo vários portos na Jamaica (principalmente Port Royal, então colônia inglesa, de onde partiam contínuos ataques a navios espanhóis), em Cuba, nas Bahamas, em ilhas menores do Caribe, e mesmo na Louisiana (atualmente nos Estados Unidos, mas à época sob domínio francês) se tornavam centros de pirataria e contrabando, onde embarcações e suas cargas podiam ser compradas, vendidas, ou conquistadas em disputas mais ou menos pacíficas, e onde tripulações podiam ser contratadas.

No final do século XVII, mudanças políticas na Europa, como a queda da dinastia Stuart, apoiada pela França, na Inglaterra, colocaram em oposição os piratas de Tortuga (comissionados pela França) e Port Royal (chancelados pela Inglaterra), ao mesmo tempo em que a Espanha era afetada por uma crise econômica que restringia a sua atividade comercial na América. Além disso, as colônias espanholas mais visadas, como Maracaibo na Venezuela e Tolú na Colômbia, já haviam sido exauridas por constantes ataques de piratas. Em momentos de crise na Europa, os administradores coloniais apostariam na atividade de piratas para aumentar o influxo de riquezas e uma maneira de manter o crescimento de colônias rivais em cheque, de maneira que eles eram tolerados localmente, embora as coroas determinassem a sua ilegalidade.

No início do século XVIII a guerra pela sucessão do trono espanhol, que envolvia de um lado e de outro as quatro potências coloniais, havia terminado, boa parte das suas marinhas de guerra desfeitas, e os marinheiros experientes e piratas empregados como mercenários passaram a explorar o renovado fluxo de comércio da América para a Europa. A oportunidade de emprego junto às companhias coloniais de comércio tirou muitos piratas da ilegalidade, e os que permaneciam em atividades criminosas já não eram mais tão bem quistos pelos administradores coloniais. Um dos últimos refúgios da pirataria foi o porto de Nassau, nas Bahamas, refundado por piratas ingleses abastecidos com um vasto tesouro recuperado de um navio naufragado na costa da Florida - a ilha de Nova Providência, onde fica Nassau, ficaria conhecida como "República dos Piratas". O novo governador, Woodes Rogers, ele mesmo um antigo capitão do mar mercenário, estabeleceu-se no comando das Bahamas em 1719.

Era em Nassau que o inglês Jack Rackham, conhecido como Calico Jack por causa do tipo de tecido que o vestia, tinha sua base de operações. Ele era contramestre do Ranger, um veleiro sob o comando do pirata Charles Vane. Em 1718, o Ranger estava abordando pequenas embarcações perto de Nova Iorque, quando encontraram uma caravela francesa, maior e mais bem armada. Vane optou por fugir, mas Rackham, expressando sua contrariedade diante do desperdício de um valioso butim, ensaiou um motim, apoiado pela maior parte da tripulação. Quando chegaram em terra, Jack convocou uma votação entre os homens, e Vane foi removido do cargo de capitão do Ranger. Vane ficou com outro veleiro menor de propriedade do bando e quinze marujos que o apoiaram. O capitão, que tentara emular as práticas e a fama do famoso Barba Negra, atraíra para si a inveja de outros piratas, e, depois que foi localizado naufragado numa ilha junto a Honduras por outro pirata, foi preso e entregue às autoridades.

Jack foi escolhido novo capitão do Ranger, e criou sua própria reputação. A começar por perseguir e capturar o tal navio francês. Em dezembro de 1718 capturou o navio jamaicano Kingston, com um grande carregamento que deixaria sua tripulação financeiramente confortável por algum tempo. Navegando o Kingston, Jack se aproximou demais de Port Royal, e os mercadores locais, ao verem a bandeira preta com uma caveira no mastro do navio, contrataram mercenários para persegui-lo e resgatá-lo. Jack fugiu para Cuba, para transferir a carga do Kingston para o Ranger. Quando os inimigos viram o Kingstom aportado, o capturaram e mandaram homens em terra para perseguir Jack e seus homens. Eles se esconderam nas matas, e evitaram a captura. Em outra ocasião, Calico Jack estava em Cuba em situação parecida, quando um navio de guerra espanhol, acompanhado de um veleiro menor inglês, que patrulhava a costa cubana, entrou no porto. Os espanhóis viram o navio pirata de Calico Jack no porto e se prepararam para capturá-lo, mas como a maré estava baixa, o grande navio espanhol não podia se aproximar. Quando caiu a noite, Jack e seus homens saíram em barcos a remo e abordaram o veleiro inglês. Quando amanheceu, os espanhóis decidiram bombardear o Ranger, levando-o ao fundo da baía - mas Calico Jack, de posse do novo veleiro, partiu sorrateiramente e escapou mais uma vez.

Em 1718, como consequência da demanda por marujos experientes na marinha mercante, o rei George I da Inglaterra ofereceu perdão a todos os piratas que decidissem abandonar a clandestinidade e se empregassem em navios mercantes. Calico Jack então aportou em Nova Providência para estudar o assunto. Em Nassau, ele se apresentou ao governador Woodes Rogers suplicando pelo perdão, alegando que ele e seus homens foram levados à pirataria por Charles Vane. Rogers e Vane tiveram problemas no passado (por duas vezes Rogers tentou capturá-lo em vão), e isso pode tê-lo convencido a conceder o perdão real a Jack.

Nesse meio tempo, se apaixonou por uma pirata irlandesa chamada Anne Bonny, na época casada com o pirata James Bonny. Quando as autoridades perceberam os dois juntos, Anne passou a ser procurada pela justiça por adultério, cuja punição seria o açoite. Jack, que já gastara grande parte da sua fortuna com a nova amante, oferecera enviar uma boa quantia ao seu marido para "comprar" o seu divórcio, mas Anne teria se recusado a ser vendida "como um animal". Os dois reuniram nova tripulação e fugiram de Nassau num veleiro roubado, e retornaram à pirataria. Anne permaneceu à bordo vestida de homem com o nome de "Adam", pois era comum os marujos se recusarem a trabalhar com uma mulher na tripulação. De alguma maneira não bem esclarecida, outra pirata chamada Mary Read também teria sido empregada na tripulação de Calico Jack. Anne teria visto um dos marujos e o achado bonito, até saber que era Mary, também vestida de homem. As duas participaram ativamente das abordagens a pequenas embarcações no Caribe, causando consternação principalmente entre os navios pesqueiros no litoral jamaicano.

Os problemas que Calico Jack estava causando na Jamaica fizeram Woodes Rogers publicar uma nova ordem de prisão ao pirata e sua tripulação, em setembro de 1720. Eles foram encontrados ancorados perto do porto de Bry, na Jamaica. O único relato contemporâneo a respeito (do ex-pirata, Capitão Charles Johnson, em um livro de 1722) conta que a tripulação do navio de Calico Jack (na época, o veleiro Revenge) estava embriagada, e durante a abordagem apenas Anne e Mary ofereceram resistência. Aparentemente, ao ser apresentado às autoridades ou antes, Jack teria tentado negociar a soltura das duas mulheres, mas elas se livraram da condenação por pirataria alegando estarem grávidas. Calico Jack e o resto da sua tripulação foram condenados à forca ("Se você tivesse lutado como um homem, não precisaria morrer como um cão", teria dito Anne Bonny), e expostos em gaiolas na entrada do porto de Kingston, como advertência contra a pirataria.

Com melhores oportunidades no comércio formal e sem a conivência dos governos coloniais, a era dos piratas no Caribe estava chegando ao fim. O último pirata a ser reconhecido como tal foi o franco-americano Jean Laffite, cuja longa carreira de aventuras no mar pode ter incluído o resgate de Napoleão, exilado na ilha de Santa Helena no Atlântico Sul em 1815 e levado-o para a Louisiania, onde existe um mito local de que tenha se refugiado até sua morte em 1821.

A bandeira de Calico Jack, preta com uma caveira e um par de espadas cruzadas, foi usada na série de filmes Piratas do Caribe, como a bandeira do navio Pérola Negra.

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