segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Brasil na Primeira Guerra Mundial

Em 26 de outubro de 1917, o presidente Venceslau Braz assinou a declaração de guerra à Alemanha e aos Poderes Centrais, colocando o Brasil na Primeira Guerra Mundial ao lado da Tríplice Entente.

Com o advento da Primeira Guerra Mundial, em agosto de 1914, o governo brasileiro optou por declarar-se neutro. Havia vários motivos para isso. Um dos principais era a fragilidade da economia brasileira, predominantemente agrária e dependente dos mercados europeus e norte americanos - os barões do café eram lentamente substituídos no cenário político pelos novos industriais, principalmente paulistas, mas ainda seriam a base de sustentação da República até o fim dos anos 1920. O governo de Venceslau Braz (o presidente que comandou o país durante quase todo o período da guerra) chegou a abaixar os impostos de exportação de produtos agrícolas conforme os clientes europeus começaram a ter limitações econômicas para importá-los. Tomar partido de um lado significaria perder o mercado do outro. Com o correr da guerra, no entanto, países como o Reino Unido proibiram a importação de café, para reservar à marinha mercante que ainda sobrevivia espaço para artigos mais vitais (tanto alimentos como insumos para a indústria bélica), estrangulando a economia nacional. Outra razão era a adesão à Convenção de Haia, onde um dos acordos ratificados pelo Brasil previa a busca de soluções pacíficas para conflitos internacionais - como não havia sido provocado ou ameaçado diretamente pelo conflito na Europa, o Brasil, como também os Estados Unidos e demais países independentes da América, se abstiveram de entrar na guerra no primeiro momento.

Durante a guerra, a Alemanha impôs um bloqueio aos portos da Entente, patrulhando as águas com navios, mas especialmente com submarinos, cuja tecnologia os alemães haviam aperfeiçoado e investido mais do que qualquer outro país nos anos anteriores. Em certo momento, o bloqueio passou a se estender a todo navio, militar ou mercante, que pudesse ter como destino algum país inimigo. Patrulhas ostensivas no Atlântico depois de 1916 resultaram em diversos ataques a navios mercantes de nações neutras que comercializavam com a França ou a Inglaterra. Em maio de 1916, o navio mercante brasileiro Rio Branco foi afundado por um submarino alemão, mas como ele estava sob bandeira britânica, com tripulação norueguesa, e navegando em águas territoriais na zona de guerra, o governo não considerou o ataque uma agressão. Mas o ataque ao cargueiro a vapor Paraná em abril de 1917, carregado de café, resultando na morte de três brasileiros, fez a atitude do governo mudar.

No Brasil, durante a guerra, duas "facções" surgiram entre a população: os que eram contra a guerra e o militarismo, que incluía pacifistas, comunistas, anarquistas, associações comerciais e outras organizações civis, e os que eram a favor da guerra, entre nacionalistas e militares. O naufrágio do Paraná provocou uma polarização radical entre as duas correntes. Manifestações pró-guerra foram vistas em diversas cidades do país nos dias que se seguiram, iniciando-se no Rio de Janeiro. Em várias delas, as manifestações espiralizaram de forma violenta para um anti-germanismo radical, onde manifestantes atacavam estabelecimentos comerciais, fábricas, restaurantes, e propriedades de alemães ou descendentes. Por conta da forte colonização germânica, Porto Alegre e Petrópolis tiveram alguns dos episódios mais violentos, pouco depois da declaração de guerra (atos semelhantes aconteceram também nos meses que antecederam a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial). Lauro Müller, Ministro de Relações Exteriores de descendência alemã, renunciou, e o Brasil cortou relações diplomáticas com a Alemanha. As manifestações pró-guerra, contudo, não chegaram a se equiparar às manifestações anti-guerra, em frequência e número de participantes.

A partir de abril de 1917, três outros navios mercantes brasileiros foram atacados. Três dias depois que o cargueiro Macau foi torpedeado próximo à costa da Espanha, em 23 de outubro, Venceslau Braz declarou guerra oficialmente à Alemanha.

O envolvimento do Brasil na guerra foi tímido. Venceslau, que já havia enfrentado crises internas violentas, como a Revolta dos Sargentos de dezembro de 1915 (uma tentativa de golpe civil-militar para a implantação do parlamentarismo), a Guerra do Contestado (movimento camponês na fronteira de Santa Catarina e Paraná, inspirado em certo nível no messianismo nacionalista do mito de Dom Sebastião), relutava em enviar tropas para a Europa. O exército foi rapidamente aumentado com a incorporação de novos recrutas, mas não contava com equipamentos suficientes, e a rápida evolução das táticas na Europa deixavam os brasileiros, com sua experiência baseada em conflitos domésticos, extremamente defasados. Um corpo de sargentos e oficiais (20 tenentes sob o general Napoleão Aché) foi enviado ao front ocidental, mas não chegou a entrar em combate (mesmo assim, um terço dos oficiais foram promovidos por bravura). Foi também enviada uma missão médica para auxiliar no combate à Gripe Espanhola, que atacava com força a população civil em toda a Europa.

A marinha brasileira estava em melhores condições de oferecer ajuda efetiva aos países da Entente: contando com dois couraçados com poder de fogo considerável (um deles o Minas Gerais, embarcação na qual se iniciou a Revolta da Chibata de 1910), dois cruzadores, quatro contra-torpedeiros, um navio auxiliar e um rebocador. Esta força (cognominada Divisão Naval em Operações de Guerra) seria designada inicialmente para patrulhar a faixa equatorial do Atlântico entre o Nordeste do Brasil e o extremo oeste da África. A missão chegou a afundar um submarino alemão próximo ao Senegal, mas se deteve nas proximidades de Dacar por 4 meses devido ao caos causado pela Gripe na tripulação. Quando a frota chegou a Gibraltar para atuar no cenário do Mediterrâneo, o armistício já havia sido assinado.

Rodrigues Alves, o sucessor indicado pelos paulistas à presidência em 1918 (que venceria oficialmente as eleições com 99% dos votos), encomendara um relatório ao deputado Pandiá Calógeras com recomendações a serem adotadas a partir do final de 1918, quando assumiria. O Plano Calógeras consistia de um envio massivo de tropas brasileiras à França, às expensas de empréstimos junto a bancos americanos que seriam pagos com indenizações das nações derrotadas. As tropas, mal equipadas, seriam treinadas e armadas pelos próprio franceses. Rodrigues Alves não pôde tomar posse em novembro de 1918 por ter contraído a Gripe Espanhola, da qual morreria em janeiro seguinte. O armistício impediu que o Plano Calógeras fosse colocado em prática.

O governo tirou proveito da guerra para empreender dois objetivos: o primeiro, obter seu butim. Como enviara homens para o conflito, o Brasil ganhou o direito de participar das reuniões que definiriam o Tratado de Versailles, e recuperaria, a título de indenização, o pagamento com juros dos carregamentos de café perdidos no mar, bem como 70 navios alemães e austríacos capturados nos portos brasileiros desde 26 de outubro de 1917. O segundo benefício para o governo foi, após o ato da declaração de guerra, a instauração de um estado de emergência nacional, que deu poder ao Governo Federal de perseguir e prender os opositores mais vocais entre os que eram contra a guerra - especialmente anarquistas e comunistas inflados pelo êxito da Revolução Russa - sem, contudo, tomar ações proporcionais contra manifestantes anti-germânicos mais violentos. Por causa desse desequilíbrio de ações, os opositores acusavam o governo de usar a guerra como pretexto para imprimir perseguições políticas e distrair o povo dos problemas do país com retórica nacionalista.

A economia brasileira também foi aquecida com a nova demanda por alimentícios e a recuperação dos mercados de café. Também havia, durante a guerra, grande demanda por matérias primas e insumos para a construção, o que acelerou o processo de industrialização, principalmente em São Paulo. Após a guerra, esta demanda disparou devido às obras de reconstrução no Velho Continente, de maneira que a indústria brasileira, aproveitando-se do novo influxo de divisas vindas da agricultura e da chegada de imigrantes europeus fugidos da guerra, sofreu um crescimento sem precedentes - o que, no futuro, com o fortalecimento da nova burguesia industrial, abalaria as fundações da República Velha.

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