Em 28 de julho de 1955 foi formada a Union Mundial pro Interlingua, uma associação para o estabelecimento e promoção da Interlíngua, um idioma artificial desenvolvido desde 1937 para ser uma língua auxiliar para a comunicação internacional. A Interlíngua competia na década de 1950 com outra língua auxiliar, o Esperanto, como o idioma artificial mais usado no mundo, circulando, principalmente, nas comunicações do meio acadêmico.
A história e a evolução das línguas é um assunto absolutamente fascinante. A língua é um dos aspectos de identidade cultural mais óbvios e poderosos que existem em qualquer sociedade humana, sobrepondo-se muitas vezes aos aspectos étnico e religioso. E, contudo, como toda cultura, é formidavelmente dinâmica. As línguas tem semelhanças e diferenças entre si que possibilitam que sejam agrupadas em categorias taxonômicas que lembram a classificação dos seres vivos de Linnaeus. Seguindo as suas ramificações até a base, vemos que elas possuem origens em comum. Através dessas relações, e da sua distribuição geográfica no presente e no passado, o conhecimento linguístico pode contribuir com a História propriamente dita, a Antropologia, a Arqueologia, a Genética, e a própria Paleontologia, para entender como os povos se relacionam, quais as suas origens, que caminhos percorreram - depois, as causas, os porquês, os comos, as consequências desses movimentos, as relações sociais, econômicas e culturais formadas, e um espectro quase infinito de linhas de estudo.
Como sempre aconteceu de povos com línguas diferentes e mutuamente ininteligíveis viverem próximos, as trocas entre eles precisava ser mediadas através de uma língua. Algumas vezes, mas nem sempre, a língua estabelecida foi a língua do vizinho mais poderoso, como o Inglês na maior parte do mundo no final do século XX. Algumas vezes foi a língua dos comerciantes, como o Aramaico no Oriente Médio, mesmo depois das conquistas persa, macedônica, romana e árabe. Por causa das diferenças de línguas nativas, essas línguas "universais" são adotadas para possibilitar as relações entre os diferentes povos. São chamadas em latim de "lingua franca", ou a "língua usada pelos francos" que dominava o comércio no leste do Mediterrâneo a partir do século XI ("franco", por sua vez, era como todo europeu era genericamente conhecido fora da Europa, devido ao embate entre muçulmanos e francos nos Pirineus, acrescido da presença francesa na Palestina desde a Primeira Cruzada), que na verdade era um amálgama de línguas do norte da Itália e do Occitano do sul da França, com termos em Bérbere, Turco, Francês, Grego e Árabe, mas que era a forma com que todos os comerciantes se comunicavam naquela região, a despeito de suas línguas maternas.
Exemplos são muitos e extensos, então para dar sequência ao raciocínio, vou direto para o exemplo da história do Latim para escorregar dali em direção ao tema principal.
Os gregos nunca estabeleceram impérios territorialmente expressivos em território europeu sob uma liderança unificada, estendendo sua influência direta em direção à Ásia. Mas suas colônias distribuídas pela bacia do Mediterrâneo, e a predominância de mercadores gregos, fez com que mesmo os romanos, controlando um império de fato na região e submetendo os gregos ao seu domínio, preservassem o Grego como a língua do comércio, principalmente na Ásia. Sua reverência pela cultura grega fez com que o Grego se tornasse também a língua da cultura e da filosofia (os gregos foram os únicos povos não itálicos que os romanos não consideravam "bárbaros"). O imperador Marco Aurélio escreveu suas Meditações em grego. O Latim, a língua materna romana, evidentemente continuou em uso corrente, mas dentro do mundo romano, dentro das próprias cidades, a distância entre as classes sociais (patrícios, cavaleiros e plebeus, além dos escravos) e o seu acesso diferenciado à educação e à literatura fez emergir dois tipos de Latim: o Latim Clássico, com sua gramática original mantida quase intacta, falada entre os patrícios e usada na religião e pelo governo em discursos, documentos e atos públicos, e o Latim Vulgar, com erros, aglutinações, abreviações, e incorporação de termos estrangeiros, falado pelos plebeus.
Com o fim do Império no Ocidente, o Grego assumiu a posição de língua oficial do Império do Oriente, centrado na antiga cidade grega de Bizâncio e governando boa parte do que, um dia, foi o mundo helênico (sua derrocada veio depois da expansão árabe ao sul, turca ao leste, e eslava ao oeste, isolando o grego na Grécia e no mar Egeu). No Ocidente, a desintegração do Império não significou a desintegração da língua, que continuou a ser usada por alguns séculos como língua franca entre os diferentes povos que ocuparam suas antigas províncias, embora o homem comum usasse, no máximo, adaptações de suas línguas ancestrais ao Latim corrente. A Igreja Católica, com sua missão de espalhar o evangelho, para manter o controle sobre suas próprias atividades, continuou a usar o Latim em sua liturgia. Como o Latim, na prática, havia caído em desuso no correr da Idade Média (na própria Itália, o Latim Vulgar já se descaracterizara na direção da língua italiana moderna pelo menos desde o século XIII), ele permaneceu em uso na religião, e, principalmente no começo da Idade Moderna, como a língua com a qual os intelectuais europeus se comunicavam entre si. Até hoje, embora com cada vez menos frequência, o Latim é adotado em textos científicos, sob o pretexto de ser uma língua "morta", ou seja, que não é nativa de ninguém e que, assim, não favoreceria pesquisadores de nenhum país. Mas como o Latim é a raiz de várias línguas modernas (línguas românicas, como as línguas ibéricas, Francês, Italiano, Romeno), incluindo línguas não diretamente ligadas a ela, como as línguas germânicas, mas que tiveram uma influência do latim que outras, como o mandarim ou o vietnamita não possuem.
Enquanto o latim continuou preservado para situações específicas, as língua franca das relações econômicas oscilavam entre as nações que detinham o controle sobre o comércio. Espanhol e Holandês foram de alguma forma populares em seu tempo, assim como o Árabe e a própria lingua franca original, mas a primeira língua franca moderna, aquela que todo mundo que pretendia ser "alguém na vida" precisava apender, foi provavelmente o francês. Primeiro porque a França sempre teve uma posição proeminente no cenário político da Europa Ocidental. Segundo, porque o francês também era a língua da côrte na Inglaterra, devido principalmente à ascendência normanda da nobreza britânica. Dieu et mon droit, "Deus e meu direito", escrito assim em francês ainda é o lema oficial dos monarcas britânicos. De maneira que foi o francês, e não o inglês, a língua franca da alta sociedade europeia e a língua culta ao redor do mundo à medida em que o Império Britânico alcançava territórios em todos os continentes e oceanos. A crise que se seguiu à Primeira Guerra Mundial começou a inclinar o eixo econômico e político mundial em direção aos Estados Unidos. Com o advento da massificação dos meios de comunicação, o desenvolvimento local das indústrias cinematográfica e fonográfica, e a rápida ascensão econômica e cultural antes e depois da Segunda Guerra Mundial, o Inglês se tornou definitivamente a língua mundial da cultura e dos negócios.
Contudo, a Primeira Guerra marcou um momento de profunda crise cultural na Europa. O historiador Eric Hobsbaum usava a tese de que o século XX começara de verdade em 1917, quando a Revolução Russa surge como resultado de uma quebra de paradigmas que caracterizava a vistosa era dos impérios coloniais do século XIX. Existe aí uma desestabilização de identidades. Começava a busca por uma alternativa ao Francês, ao Inglês, e mesmo ao Latim como língua internacional. O Esperanto é uma língua que havia sido construída no final do século XIX por um dentista criado numa cidade dividida entre poloneses, alemães, russos e judeus, cada comunidade falando seu próprio idioma. Ele juntou elementos românicos, semitas, eslávicos e germânicos com esse objetivo. Ao final da Guerra existia uma comunidade particularmente numerosa de falantes na fronteira entre a Bélgica e a Alemanha. Durante um congresso da Liga das Nações em Praga, o Esperanto foi proposto como língua oficial da organização, e a proposta foi votada por dez dos onze delegados presentes - a moção não foi aprovada por causa do voto contrário do delegado francês. O Esperanto, a exemplo de outras línguas auxiliares como o Ido e o Novial, encontrou apoio e adeptos entre anarquistas e comunistas, por seu conceito fundamentalmente transnacionalista.
Os movimentos pelo desenvolvimento de línguas auxiliares nos anos 1920 inspiraram a socialite americana Alice Vanderbilt Morris a estabelecer a Associação Internacional de Línguas Auxiliares, grupo de estudos que desenvolveria a Interlíngua nos anos seguintes. Mesmo depois da morte de Vanderbilt e da dissolução da associação, a Interlíngua continuou a ser empregada, expandindo-se ao ponto de ser adotada como a língua dos resumos de artigos de cerca de 30 revistas científicas internacionais até o final dos anos 1970. A Union Mundial pro Interlingua continua promovendo estudos colaborativos e encorajando a publicação de trabalhos em Interlíngua. A versão Interlíngua da Wikipédia possui atualmente 14471 artigos.
A crítica maior às propostas correntes de línguas auxiliares está na alegação de que elas não cumprem sua proposta fundamental, que é o estabelecimento de uma língua que possa ser facilmente assimilada por falantes de qualquer língua do mundo, sem favorecer qualquer língua existente. Todas as línguas auxiliares existentes e reconhecidas atualmente se baseiam nos idiomas indo-europeus (grande tronco linguístico que inclui línguas românicas, germânicas, eslávicas, iranianas e as línguas indianas derivadas do Sânscrito), sobretudo os europeus, alienando inúmeras outras línguas. De fato, essa é declaradamente a matriz do Esperanto. A Interlíngua é algo bastante parecido com o Castelhano. O Novial une elementos fortemente germânicos e eslávicos. O Ido cai mais para o lado das línguas românicas, e a Língua Franca Nova e a Interglossa se encaixariam facilmente nas línguas latinas. Uma proposta mais ampla recente, a Lingwa de Planeta, que reuniria as línguas mais faladas do mundo, ainda está em desenvolvimento.
A despeito do apoio inicial ao Esperanto como língua auxiliar internacional e de alguns milhões de falantes, por conta das críticas e do seu teor transnacionalista nenhuma dessas línguas chegou a ser aplicada sistematicamente nos sistemas educacionais de país algum do mundo.
Neste dia também: a coroação de Pepino, o Breve, rei dos francos em Merovíngios e Carolíngios.
terça-feira, 28 de julho de 2015
segunda-feira, 27 de julho de 2015
O cristianismo chega ao Japão
Em 27 de julho de 1549, o missionário jesuíta, e futuro santo, Francisco Xavier chegou ao Japão. Foi a primeira missão cristã naquele país.
Francisco, cofundador da Companhia de Jesus, teve um papel muito significativo na expansão do catolicismo na Índia (especialmente Goa, principal cidade sob controle português na Ásia e sua base de operações), na China, e nas Filipinas, enquanto viajava sob a comenda do rei João III de Portugal. Em 1547, em Malacca, na atual Malásia, enquanto oficiava um casamento, ele foi apresentado a um samurai japonês exilado chamado Anjiro. Foi o primeiro japonês que se tem notícia a se converter ao cristianismo, e exerceu influência na decisão de Francisco de tomar o caminho do Japão. Xavier estudou avidamente tudo que se sabia sobre o Japão, usando também as informações trazidas por Anjiro.
O Japão só era conhecido dos europeus através dos relatos de mercadores portugueses que eventualmente passavam pela ilha de "Cipango". De fato, mercadores portugueses introduziram as armas de fogo no Japão em 1493 e continuariam a ser seus principais fornecedores de salitre para pólvora, o que se tornaria instrumental, uma geração depois, na guerra civil conhecida como Sengoku. A notícia que chegava a Francisco Xavier era de que o povo japonês era "razoável", e que o trabalho com eles seria muito mais produtivo do que com os "pagãos" na Índia. Acompanhado de Anjiro (batizado como Paulo de Santa Fé) e outros três jesuítas, munido de presentes ao "Rei do Japão", ele partiu de Guangzhou (antigamente conhecida como Cantão), na China.
Chegar ao Japão foi simples. Talvez tenha sido a parte mais simples da missão. Os problemas começaram quando o navio não obteve permissão para aportar, até que, em meados de agosto, eles desembarcaram em Kagoshima, na ilha de Kyushu. O daimyo local, Shimazu Takahisa, recebeu amistosamente Francisco como um dignatário do rei de Portugal e sua companhia, mas logo depois proibiu radicalmente a conversão do seu povo ao cristianismo sob pena de morte. Em Yamaguchi, Mori Motonari (personagem que inspirou Hidetora Ichimonji, personagem principal do filme Ran, de Akira Kurosawa), daimyo local, permitiu que Francisco pregasse ali. Mas isso não simplificou muito as coisas.
Francisco de Assis encontrou barreiras culturais que ele não havia encontrado na Índia, onde a evangelização vinha sendo feita de maneira acidentada. A primeira, a da língua, tornou a pregação direta da Palavra impossível. Francisco recorria a pinturas que trazia da Virgem Maria e do Menino Jesus para tentar explicar conceitos básicos. Vez ou outra, em pregações, ele lia textos das Escrituras traduzidos para o japonês (no alfabeto latino, tentando reproduzir os sons das palavras), sem qualquer fluência na língua. Imagine-se lendo um texto em romanji (o japonês escrito em alfabeto romano), sem ter como saber exatamente seu conteúdo, diante de uma plateia de japoneses nativos.
A segunda barreira era a própria base religiosa do Japão. Todos os japoneses eram adeptos do budismo ou do xintoísmo. Para eles, um Deus que tenha criado tudo, inclusive o mal, não podia ser um bom deus. A danação aos não conversos também perturbava os nativos, que combatiam a ideia de que seus antepassados estivessem sofrendo no inferno. Entre os japoneses ainda corriam o boato de que os cristãos comiam carne humana, provavelmente derivado do ato simbólico de se comer a hóstia representando o corpo de Cristo no ato da comunhão. Francisco tentou se adaptar ao vocabulário local traduzindo "Deus" para "Dainichi", que é o termo usado pela escola Shingon de budismo para designar o aspecto do vazio de Buda (Anjiro, budista de origem, teria sido responsável por isso). Embora isso lhe tenha rendido uma simpatia dos monges Shingon, assim que perceberam que a ideia do Dainichi pregado era diferente, e que a religião oferecida era uma concorrente, rapidamente retiraram esse apoio. O próprio Francisco, quando notou que Dainichi era uma "divindade local", optou por apresentar Deus como "Deuso", possivelmente o primeiro exemplo de transliteração de uma palavra estrangeira para o japonês. Logo "Deuso" foi distorcido para "Daiuso", que significa "grande mentira". A elite da cidade de Yamaguchi entendia que o que estava sendo pregado era uma nova forma de budismo.
A terceira barreira dizia respeito à própria apresentação visual de Francisco e seus auxiliares. A pobreza material ostentada pelos jesuítas era considerada vulgar pelos japoneses, dos quais mesmo os mais humildes seguiam regras de etiqueta e refinamento que não eram observadas na Europa ou na Índia. A humildade da sua aparência lhe fechou a porta mais importante: sua visita ao palácio imperial em Kyoto, para uma audiência com o Imperador, foi barrada por causa das suas vestimentas inadequadas. Para tentar ganhar a simpatia com demonstrações de poder, durante uma visita ao prefeito da cidade de Nagate, Francisco exibiu-se luxuosamente vestido, assistido afetadamente por cavalheiros e serviçais ricamente paramentados (representados por seus companheiros de missão), apresentando-se como representante do reino de Portugal e oferecendo a ele presentes do seu próprio tesouro, que recebera na Índia (muitos dos quais haviam sido destinados ao Imperador).
A quarta barreia era política. Sendo a política caracteristicamente fluída, essa barreira deixou de existir em alguns momentos. Francisco Xavier chegou ao Japão num momento tumultuado, onde o shogunato Ashikaga tinha sua autoridade questionada em várias partes do país, de modo que a instabilidade política nas províncias e as alternâncias das alianças podiam mudar as regras do jogo a qualquer momento. Os jesuítas entendiam a estrutura hierárquica do Japão feudal, e que portanto seria mais proveitoso tentar conquistar as elites, e deixar que elas se encarregassem de promover conversões em suas terras. Na verdade, fazia parte do plano inicial converter o Imperador, e, a partir da sua influência, converter todo o país em pouco tempo. Mas a delegação jesuíta nunca conseguiu contactá-lo. De qualquer maneira, alguns daimyos aceitaram a conversão e até encorajaram a conversão dos seus vassalos, mas visando apenas as vantagens que isso traria no comércio com os portugueses. Em Yamaguchi, a disputa interna pelo poder na família Shimazu pode ter levado a cordialidade inicial à hostilidade aberta nos poucos meses em que a missão esteve oficialmente na cidade (ou talvez tenham sido as agitações causadas pela sua pregação veemente contra a sodomia, na época amplamente aceita no Japão). Anos mais tarde, a influência da política japonesa sobre o cristianismo levaria a situações contraditórias, como a publicação de editos imperiais banindo a religião do país logo após a concessão de permissões do shogun, enquanto alguns daimyos (notadamente os rebeldes Oda Nobunaga e Date Masamune) faziam "corpo mole" para cumprir a lei contra os cristãos em suas terras.
Não obstante, a missão de Francisco Xavier terminou após dois anos com relativo sucesso. Depois de voltar à Índia em 1551, pelo menos três congregações cristãs continuaram a funcionar nas cidades de Hirado, Yamaguchi e Bungo de maneira independente e clandestina. Quando o padre jesuíta, Gaspar Vilela, chegou ao Japão em 1556, foi recebido por cristãos na atual cidade de Oita, onde permaneceu o companheiro de Xavier, padre Cosme de Torres. O daimyo Otomo Yoshishige, que conheceu Francisco em Oita, aceitou o batismo 27 anos depois, recebendo o nome do futuro santo. O Japão chegou a ter cerca de 130 mil convertidos durante o período Sengoku antes de um edito imperial de banimento total da religião. Ao longo da história os cristãos seriam intermitentemente protegidos ou violentamente reprimidos até que, durante a Restauração Meiji no começo do século XX a liberdade religiosa foi assegurada. Cerca de 2% da população japonesa atual é adepta do cristianismo, entre católicos, protestantes, e ortodoxos, a maioria entre imigrantes e seus descendentes.
Neste dia também: Forte Negro
Francisco, cofundador da Companhia de Jesus, teve um papel muito significativo na expansão do catolicismo na Índia (especialmente Goa, principal cidade sob controle português na Ásia e sua base de operações), na China, e nas Filipinas, enquanto viajava sob a comenda do rei João III de Portugal. Em 1547, em Malacca, na atual Malásia, enquanto oficiava um casamento, ele foi apresentado a um samurai japonês exilado chamado Anjiro. Foi o primeiro japonês que se tem notícia a se converter ao cristianismo, e exerceu influência na decisão de Francisco de tomar o caminho do Japão. Xavier estudou avidamente tudo que se sabia sobre o Japão, usando também as informações trazidas por Anjiro.
O Japão só era conhecido dos europeus através dos relatos de mercadores portugueses que eventualmente passavam pela ilha de "Cipango". De fato, mercadores portugueses introduziram as armas de fogo no Japão em 1493 e continuariam a ser seus principais fornecedores de salitre para pólvora, o que se tornaria instrumental, uma geração depois, na guerra civil conhecida como Sengoku. A notícia que chegava a Francisco Xavier era de que o povo japonês era "razoável", e que o trabalho com eles seria muito mais produtivo do que com os "pagãos" na Índia. Acompanhado de Anjiro (batizado como Paulo de Santa Fé) e outros três jesuítas, munido de presentes ao "Rei do Japão", ele partiu de Guangzhou (antigamente conhecida como Cantão), na China.
Chegar ao Japão foi simples. Talvez tenha sido a parte mais simples da missão. Os problemas começaram quando o navio não obteve permissão para aportar, até que, em meados de agosto, eles desembarcaram em Kagoshima, na ilha de Kyushu. O daimyo local, Shimazu Takahisa, recebeu amistosamente Francisco como um dignatário do rei de Portugal e sua companhia, mas logo depois proibiu radicalmente a conversão do seu povo ao cristianismo sob pena de morte. Em Yamaguchi, Mori Motonari (personagem que inspirou Hidetora Ichimonji, personagem principal do filme Ran, de Akira Kurosawa), daimyo local, permitiu que Francisco pregasse ali. Mas isso não simplificou muito as coisas.
Francisco de Assis encontrou barreiras culturais que ele não havia encontrado na Índia, onde a evangelização vinha sendo feita de maneira acidentada. A primeira, a da língua, tornou a pregação direta da Palavra impossível. Francisco recorria a pinturas que trazia da Virgem Maria e do Menino Jesus para tentar explicar conceitos básicos. Vez ou outra, em pregações, ele lia textos das Escrituras traduzidos para o japonês (no alfabeto latino, tentando reproduzir os sons das palavras), sem qualquer fluência na língua. Imagine-se lendo um texto em romanji (o japonês escrito em alfabeto romano), sem ter como saber exatamente seu conteúdo, diante de uma plateia de japoneses nativos.
A segunda barreira era a própria base religiosa do Japão. Todos os japoneses eram adeptos do budismo ou do xintoísmo. Para eles, um Deus que tenha criado tudo, inclusive o mal, não podia ser um bom deus. A danação aos não conversos também perturbava os nativos, que combatiam a ideia de que seus antepassados estivessem sofrendo no inferno. Entre os japoneses ainda corriam o boato de que os cristãos comiam carne humana, provavelmente derivado do ato simbólico de se comer a hóstia representando o corpo de Cristo no ato da comunhão. Francisco tentou se adaptar ao vocabulário local traduzindo "Deus" para "Dainichi", que é o termo usado pela escola Shingon de budismo para designar o aspecto do vazio de Buda (Anjiro, budista de origem, teria sido responsável por isso). Embora isso lhe tenha rendido uma simpatia dos monges Shingon, assim que perceberam que a ideia do Dainichi pregado era diferente, e que a religião oferecida era uma concorrente, rapidamente retiraram esse apoio. O próprio Francisco, quando notou que Dainichi era uma "divindade local", optou por apresentar Deus como "Deuso", possivelmente o primeiro exemplo de transliteração de uma palavra estrangeira para o japonês. Logo "Deuso" foi distorcido para "Daiuso", que significa "grande mentira". A elite da cidade de Yamaguchi entendia que o que estava sendo pregado era uma nova forma de budismo.
A terceira barreira dizia respeito à própria apresentação visual de Francisco e seus auxiliares. A pobreza material ostentada pelos jesuítas era considerada vulgar pelos japoneses, dos quais mesmo os mais humildes seguiam regras de etiqueta e refinamento que não eram observadas na Europa ou na Índia. A humildade da sua aparência lhe fechou a porta mais importante: sua visita ao palácio imperial em Kyoto, para uma audiência com o Imperador, foi barrada por causa das suas vestimentas inadequadas. Para tentar ganhar a simpatia com demonstrações de poder, durante uma visita ao prefeito da cidade de Nagate, Francisco exibiu-se luxuosamente vestido, assistido afetadamente por cavalheiros e serviçais ricamente paramentados (representados por seus companheiros de missão), apresentando-se como representante do reino de Portugal e oferecendo a ele presentes do seu próprio tesouro, que recebera na Índia (muitos dos quais haviam sido destinados ao Imperador).
A quarta barreia era política. Sendo a política caracteristicamente fluída, essa barreira deixou de existir em alguns momentos. Francisco Xavier chegou ao Japão num momento tumultuado, onde o shogunato Ashikaga tinha sua autoridade questionada em várias partes do país, de modo que a instabilidade política nas províncias e as alternâncias das alianças podiam mudar as regras do jogo a qualquer momento. Os jesuítas entendiam a estrutura hierárquica do Japão feudal, e que portanto seria mais proveitoso tentar conquistar as elites, e deixar que elas se encarregassem de promover conversões em suas terras. Na verdade, fazia parte do plano inicial converter o Imperador, e, a partir da sua influência, converter todo o país em pouco tempo. Mas a delegação jesuíta nunca conseguiu contactá-lo. De qualquer maneira, alguns daimyos aceitaram a conversão e até encorajaram a conversão dos seus vassalos, mas visando apenas as vantagens que isso traria no comércio com os portugueses. Em Yamaguchi, a disputa interna pelo poder na família Shimazu pode ter levado a cordialidade inicial à hostilidade aberta nos poucos meses em que a missão esteve oficialmente na cidade (ou talvez tenham sido as agitações causadas pela sua pregação veemente contra a sodomia, na época amplamente aceita no Japão). Anos mais tarde, a influência da política japonesa sobre o cristianismo levaria a situações contraditórias, como a publicação de editos imperiais banindo a religião do país logo após a concessão de permissões do shogun, enquanto alguns daimyos (notadamente os rebeldes Oda Nobunaga e Date Masamune) faziam "corpo mole" para cumprir a lei contra os cristãos em suas terras.
Não obstante, a missão de Francisco Xavier terminou após dois anos com relativo sucesso. Depois de voltar à Índia em 1551, pelo menos três congregações cristãs continuaram a funcionar nas cidades de Hirado, Yamaguchi e Bungo de maneira independente e clandestina. Quando o padre jesuíta, Gaspar Vilela, chegou ao Japão em 1556, foi recebido por cristãos na atual cidade de Oita, onde permaneceu o companheiro de Xavier, padre Cosme de Torres. O daimyo Otomo Yoshishige, que conheceu Francisco em Oita, aceitou o batismo 27 anos depois, recebendo o nome do futuro santo. O Japão chegou a ter cerca de 130 mil convertidos durante o período Sengoku antes de um edito imperial de banimento total da religião. Ao longo da história os cristãos seriam intermitentemente protegidos ou violentamente reprimidos até que, durante a Restauração Meiji no começo do século XX a liberdade religiosa foi assegurada. Cerca de 2% da população japonesa atual é adepta do cristianismo, entre católicos, protestantes, e ortodoxos, a maioria entre imigrantes e seus descendentes.
Neste dia também: Forte Negro
sexta-feira, 24 de julho de 2015
A redescoberta de Macchu Picchu
Em 24 de julho de 1911, a expedição liderada pelo explorador e político americano Hiram Bingham III encontrou a cidade inca de Macchu Picchu, no Peru. A divulgação da descoberta foi a primeira notícia sobre a cidade para o mundo.
Macchu Picchu foi uma cidade erguida ao longo do reinado do imperadores incas Pachacute e Tupac. Seu plano urbanístico parece ter sido baseado em outras cidades incas nos Andes, como Choquequirao, com construções retangulares de pedra e várias construções com três lados, características do estilo inca, sobre terraços escavados sobre a crista e o topo das montanhas. A cidade ficava a 80 km da moderna Cuzco, também uma antiga cidade inca com a qual estava conectada por uma estrada pavimentada, que ainda era trafegável quando Bingham chegou lá. A cidade foi construida na crista entre as montanhas Macchu Picchu (da qual herdou o nome) e Huayna Picchu, a 2430 metros de altitude, com o rio Urubamba cavando um vale profundo a oeste, sul e leste, com penhascos de 450 metros de altura. Sobre o vale os incas construíram pelo menos duas pontes estreitas conectando a cidade às estradas ao sul. Além das pontes, havia ainda duas estradas pelas montanhas que levavam a Cuzco. As entradas para Macchu Picchu podiam ser bloqueadas, de maneira que a cidade podia ser facilmente defendida em caso de ataque.
Macchu Picchu parece ter sido uma cidade cuidadosamente planejada, com toda a sua estrutura de terraços, onde o alimento cultivado provavelmente tornava a cidade autossuficiente, com escoamento de água, organização urbanística, etc. Foi erguida em algumas décadas, em oposição a um sítio ocupado há tempos e que é lentamente transformado e adaptado de acordo com as necessidades de momento. De maneira que o motivo da construção, ou a função para a qual a cidade foi erigida, ainda não é muito bem compreendida. Ela possuía um distrito residencial (com bairros separados entre as diferentes classes sociais), templos, edifícios públicos, quartéis, monumentos. Foram localizados em alguns templos e praças detalhes arquitetônicos que indicam terem funcionado ali observatórios astronômicos - algo essencial para uma cultura agrária desenvolvida. Festivais religiosos em homenagem aos astros - ao Sol, à Lua, à passagem das estações do ano - e rituais de iniciação associados eram celebrados nos templos e nas praças. O local também era um centro ativo de comércio, comprando e vendendo produtos produzidos em várias partes do continente. A cidade, pela possibilidade de se isolar em caso de ataque inimigo, e por estar a mais de 1000 metros abaixo da altitude de Cuzco (com um clima mais ameno), poderia ter servido de retiro para a realeza.
Macchu Picchu teve seu período de atividade entre o fim do século XV e meados do século XVI. Em 1572, data da dissolução do último Império Inca, ela foi completamente abandonada, deixada praticamente intacta. É certo que os espanhóis nunca pisaram em seu solo, porque o sítio encontrado em 1911 não tinha os sinais de depredação de outras cidades conquistadas ou ocupadas. A população ali pode ter morrido ou se dispersado por causa de doenças de origem europeia que varreram o território inca, como a varíola. Os conquistadores até tomaram nota de uma cidade chamada "Poccho", que eles nunca encontraram.
Bingham, que era historiador, havia estado no Peru anos antes após uma convenção no Chile. A convite do presidente peruano, ele organizou uma expedição aos sítios incas naquele país em 1911 com o objetivo específico de localizar a cidade perdida de Vitcos. Usando documentos da época da conquista espanhola, ele seguiu pelo rio Urubamba por uma estrada recém construída. Com a orientação de nativos, a expedição passou por algumas ruínas já conhecidas, mas nenhuma delas seria Vitcos (antes de avançar na história, eles eventualmente encontraram Vitcos mais tarde). Um fazendeiro lhe deu a direção de um complexo de ruínas no alto de uma montanha nas cercanias onde ele conhecia um casal de índios quéchua, que viviam lá. Seguindo por uma ponte de troncos sobre o rio, subindo pela estrada em zigue-zague, que hoje parte da vila de Aguascalientes, eles chegaram ao sítio indicado. Exceto por alguns terraços limpos e cultivados pelos quéchua residentes, a maior parte das ruínas estava tomada por um mato alto que dificultava a observação do local como um todo. Como não havia, nos registros espanhóis, informação sobre Macchu Picchu, Bingham pensou inicialmente se tratar das ruínas de Vilcabamba Velha (ruínas que ele visitara naquela viagem sem saber).
Foi no ano seguinte, com ajuda da prefeitura de Cuzco e da National Geographic Society, que Bingham limpou o sítio e pôde descrever Macchu Picchu e seus artefatos. Muitos dos tesouros encontrados foram levados para a universidade de Yale, onde trabalhavam, e permanecem como parte do seu acervo até hoje. Na época, a descoberta de um sítio inca quase intocado despertou a desconfiança e a cobiça, principalmente de donos de terras locais, que, frustradamente, exigiam o pagamento de diárias para o acampamento da equipe de trabalho. Eles espalhavam boatos que Bingham estava extraindo clandestinamente os objetos mais valiosos para vendê-los na Bolívia. Afinal, a National Geographic publicou tudo em detalhes em 1913, gerando publicidade mundial. Um livro publicado pelo historiador em 1948, romanceando a sua expedição, reacendeu o interesse no local, estimulando uma nova onda de turismo, que até hoje gera renda para as cidades no entorno.
Macchu Picchu foi uma cidade erguida ao longo do reinado do imperadores incas Pachacute e Tupac. Seu plano urbanístico parece ter sido baseado em outras cidades incas nos Andes, como Choquequirao, com construções retangulares de pedra e várias construções com três lados, características do estilo inca, sobre terraços escavados sobre a crista e o topo das montanhas. A cidade ficava a 80 km da moderna Cuzco, também uma antiga cidade inca com a qual estava conectada por uma estrada pavimentada, que ainda era trafegável quando Bingham chegou lá. A cidade foi construida na crista entre as montanhas Macchu Picchu (da qual herdou o nome) e Huayna Picchu, a 2430 metros de altitude, com o rio Urubamba cavando um vale profundo a oeste, sul e leste, com penhascos de 450 metros de altura. Sobre o vale os incas construíram pelo menos duas pontes estreitas conectando a cidade às estradas ao sul. Além das pontes, havia ainda duas estradas pelas montanhas que levavam a Cuzco. As entradas para Macchu Picchu podiam ser bloqueadas, de maneira que a cidade podia ser facilmente defendida em caso de ataque.
Macchu Picchu parece ter sido uma cidade cuidadosamente planejada, com toda a sua estrutura de terraços, onde o alimento cultivado provavelmente tornava a cidade autossuficiente, com escoamento de água, organização urbanística, etc. Foi erguida em algumas décadas, em oposição a um sítio ocupado há tempos e que é lentamente transformado e adaptado de acordo com as necessidades de momento. De maneira que o motivo da construção, ou a função para a qual a cidade foi erigida, ainda não é muito bem compreendida. Ela possuía um distrito residencial (com bairros separados entre as diferentes classes sociais), templos, edifícios públicos, quartéis, monumentos. Foram localizados em alguns templos e praças detalhes arquitetônicos que indicam terem funcionado ali observatórios astronômicos - algo essencial para uma cultura agrária desenvolvida. Festivais religiosos em homenagem aos astros - ao Sol, à Lua, à passagem das estações do ano - e rituais de iniciação associados eram celebrados nos templos e nas praças. O local também era um centro ativo de comércio, comprando e vendendo produtos produzidos em várias partes do continente. A cidade, pela possibilidade de se isolar em caso de ataque inimigo, e por estar a mais de 1000 metros abaixo da altitude de Cuzco (com um clima mais ameno), poderia ter servido de retiro para a realeza.
Macchu Picchu teve seu período de atividade entre o fim do século XV e meados do século XVI. Em 1572, data da dissolução do último Império Inca, ela foi completamente abandonada, deixada praticamente intacta. É certo que os espanhóis nunca pisaram em seu solo, porque o sítio encontrado em 1911 não tinha os sinais de depredação de outras cidades conquistadas ou ocupadas. A população ali pode ter morrido ou se dispersado por causa de doenças de origem europeia que varreram o território inca, como a varíola. Os conquistadores até tomaram nota de uma cidade chamada "Poccho", que eles nunca encontraram.
Bingham, que era historiador, havia estado no Peru anos antes após uma convenção no Chile. A convite do presidente peruano, ele organizou uma expedição aos sítios incas naquele país em 1911 com o objetivo específico de localizar a cidade perdida de Vitcos. Usando documentos da época da conquista espanhola, ele seguiu pelo rio Urubamba por uma estrada recém construída. Com a orientação de nativos, a expedição passou por algumas ruínas já conhecidas, mas nenhuma delas seria Vitcos (antes de avançar na história, eles eventualmente encontraram Vitcos mais tarde). Um fazendeiro lhe deu a direção de um complexo de ruínas no alto de uma montanha nas cercanias onde ele conhecia um casal de índios quéchua, que viviam lá. Seguindo por uma ponte de troncos sobre o rio, subindo pela estrada em zigue-zague, que hoje parte da vila de Aguascalientes, eles chegaram ao sítio indicado. Exceto por alguns terraços limpos e cultivados pelos quéchua residentes, a maior parte das ruínas estava tomada por um mato alto que dificultava a observação do local como um todo. Como não havia, nos registros espanhóis, informação sobre Macchu Picchu, Bingham pensou inicialmente se tratar das ruínas de Vilcabamba Velha (ruínas que ele visitara naquela viagem sem saber).
Foi no ano seguinte, com ajuda da prefeitura de Cuzco e da National Geographic Society, que Bingham limpou o sítio e pôde descrever Macchu Picchu e seus artefatos. Muitos dos tesouros encontrados foram levados para a universidade de Yale, onde trabalhavam, e permanecem como parte do seu acervo até hoje. Na época, a descoberta de um sítio inca quase intocado despertou a desconfiança e a cobiça, principalmente de donos de terras locais, que, frustradamente, exigiam o pagamento de diárias para o acampamento da equipe de trabalho. Eles espalhavam boatos que Bingham estava extraindo clandestinamente os objetos mais valiosos para vendê-los na Bolívia. Afinal, a National Geographic publicou tudo em detalhes em 1913, gerando publicidade mundial. Um livro publicado pelo historiador em 1948, romanceando a sua expedição, reacendeu o interesse no local, estimulando uma nova onda de turismo, que até hoje gera renda para as cidades no entorno.
quinta-feira, 23 de julho de 2015
A Chacina da Candelária
Na noite de 23 de julho de 1993, pouco antes da meia noite, seis menores de idade (o mais novo com 11 anos) e dois maiores em situação de rua foram assassinados e um número incerto foi ferido enquanto dormiam nos arredores da igreja da Candelária, no Rio de Janeiro.
As ruas do Centro do Rio são o lar de centenas de pessoas sem teto. São pessoas de todos os tipos, origens e índoles: indivíduos ou famílias de imigrantes, desafortunados que fogem ou são expulsos de casa, idosos senis, doentes mentais ou portadores de doenças incapacitantes e deficiências, viciados em drogas e bebidas (aos quais estão especialmente expostos), que trabalham em subempregos, em bicos, vivem de doações e esmolas ou dedicam-se a pequenos roubos. Durante o dia circulam pelas ruas ocupados em seus afazeres ou escondidos das autoridades. À noite, com as ruas vazias (o Centro do Rio tem uma população residente de cerca de 40 mil pessoas), reúnem-se sob as marquises dos prédios e praças em grupos onde protegem-se uns aos outros da chuva, do frio e de agressões. O grupo da Candelária era constituído de cerca de 70 pessoas, entre menores, homens e mulheres, com todo tipo de perfil.
Testemunhas disseram que, na manhã do dia 22, alguns menores do grupo que se abrigava perto da Candelária atiraram pedras em uma viatura da Polícia Militar enquanto um menor era apreendido, quebrando um vidro e atingindo um policial. Na época, a região da Candelária era um dos focos mais importantes de assaltos a pedestres no centro da cidade, e comerciantes, com seus negócios prejudicados, denunciavam constantemente as ações de menores e jovens baseados nas cercanias da igreja. O menor apreendido teria sido acusado de roubo.
Os policiais gritaram ameaças e se retiraram. Como os meninos eram constantemente ameaçados, não deram importância. Na noite do dia seguinte, quando a maior parte do grupo (entre 40 e 50 pessoas) já estava reunida para passar a noite, dois Chevettes (um taxi e outro carro amarelo descaracterizado) com placas cobertas pararam em frente à igreja. Seus ocupantes desceram, se aproximaram e abriram fogo. No primeiro momento, alguns tentaram fugir e foram baleados. Meia dúzia de garotos que dormiam sobre uma banca de jornal foram executados com tiros na cabeça
Antes da chacina propriamente dita, porém, os executores capturaram Wagner dos Santos, de 21 anos, e mais dois menores que vagavam pela Rua Acre, os jogaram para dentro do carro amarelo e os balearam (Wagner recebeu 4 tiros, incluindo um na nuca). Depois da execução, Wagner e os corpos das outras vítimas foram "desovados" perto do Museu de Arte Moderna. Wagner, de alguma forma, sobreviveu, e se tornou testemunha principal do caso. Por conta disso sofreu outro atentado quase um ano depois enquanto mendigava na estação Central do Brasil (recebendo mais quatro tiros), após o que recebeu atendimento do serviço de proteção à testemunha. Foi levado à Suíça onde, surdo, cego de um olho e debilitado pela intoxicação por chumbo devido aos projéteis, vive sob cuidados.
Outro sobrevivente da chacina, Sandro Rosa do Nascimento, escapou se fingindo de morto. Posteriormente foi acolhido por projetos sociais, mas desligado da família, com dificuldades de aprendizado e socialização e viciado em drogas, passou a viver na marginalidade. Sete anos depois ele protagonizou o sequestro de um ônibus da linha 174, no bairro do Jardim Botânico, que resultou na morte de uma refém (alvejada à queima roupa por um policial), e do próprio Sandro, estrangulado no interior da viatura após ser imobilizado e algemado.
A investigação sobre a Chacina da Candelária levou à acusação de participação direta de três policiais militares da ativa e um que já havia sido expulso da corporação. Este último, Maurício da Conceição, resistiu à prisão e foi morto durante o processo. Um quinto acusado foi condenado a dois anos de prisão por portar uma das armas usadas no crime, mas sua participação na chacina ainda não foi comprovada (hoje ele ainda aguarda julgamento). Outros três acusados foram inocentados. Um sobrevivente ainda reconheceu um nono elemento, e a perícia identificou um projétil retirado de uma das vítimas disparado pela arma do seu padrasto, mas ele não foi indiciado. Os três condenados à pena máxima, devido ao regime de progressão, estão soltos desde antes de completados 20 anos de reclusão. Um deles teve o indulto suspenso e é considerado foragido.
A Chacina da Candelária foi notícia no mundo inteiro, e despertou debates sobre a relação entre o modelo de desenvolvimento das economias emergentes e a marginalização de parte da sua população, e como as suas cidades lidam com este problema. Surgiram projetos sociais, inclusive ligados à Arquidiocese do Rio (cujo arcebispo na época, Don Eugênio Sales, praticamente exigiu dos fiéis que, enquanto crianças em situação de rua continuassem a ser mortas, ninguém se esquecesse daquela data) dedicados a resgatar e socializar jovens e adultos em situação de rua. Mesmo assim, daquele grupo de 70 moradores de rua da Candelária em julho de 1993, 44 foram assassinados nos últimos 22 anos por policiais, grupos de extermínio, justiceiros, ou em confrontos com traficantes de drogas e outros moradores de rua, e quase todos os demais tem paradeiro desconhecido. De janeiro a agosto de 2013, 195 moradores de rua foram assassinados no Brasil, e desses crimes, apenas 13 foram investigados.
As ruas do Centro do Rio são o lar de centenas de pessoas sem teto. São pessoas de todos os tipos, origens e índoles: indivíduos ou famílias de imigrantes, desafortunados que fogem ou são expulsos de casa, idosos senis, doentes mentais ou portadores de doenças incapacitantes e deficiências, viciados em drogas e bebidas (aos quais estão especialmente expostos), que trabalham em subempregos, em bicos, vivem de doações e esmolas ou dedicam-se a pequenos roubos. Durante o dia circulam pelas ruas ocupados em seus afazeres ou escondidos das autoridades. À noite, com as ruas vazias (o Centro do Rio tem uma população residente de cerca de 40 mil pessoas), reúnem-se sob as marquises dos prédios e praças em grupos onde protegem-se uns aos outros da chuva, do frio e de agressões. O grupo da Candelária era constituído de cerca de 70 pessoas, entre menores, homens e mulheres, com todo tipo de perfil.
Testemunhas disseram que, na manhã do dia 22, alguns menores do grupo que se abrigava perto da Candelária atiraram pedras em uma viatura da Polícia Militar enquanto um menor era apreendido, quebrando um vidro e atingindo um policial. Na época, a região da Candelária era um dos focos mais importantes de assaltos a pedestres no centro da cidade, e comerciantes, com seus negócios prejudicados, denunciavam constantemente as ações de menores e jovens baseados nas cercanias da igreja. O menor apreendido teria sido acusado de roubo.
Os policiais gritaram ameaças e se retiraram. Como os meninos eram constantemente ameaçados, não deram importância. Na noite do dia seguinte, quando a maior parte do grupo (entre 40 e 50 pessoas) já estava reunida para passar a noite, dois Chevettes (um taxi e outro carro amarelo descaracterizado) com placas cobertas pararam em frente à igreja. Seus ocupantes desceram, se aproximaram e abriram fogo. No primeiro momento, alguns tentaram fugir e foram baleados. Meia dúzia de garotos que dormiam sobre uma banca de jornal foram executados com tiros na cabeça
Antes da chacina propriamente dita, porém, os executores capturaram Wagner dos Santos, de 21 anos, e mais dois menores que vagavam pela Rua Acre, os jogaram para dentro do carro amarelo e os balearam (Wagner recebeu 4 tiros, incluindo um na nuca). Depois da execução, Wagner e os corpos das outras vítimas foram "desovados" perto do Museu de Arte Moderna. Wagner, de alguma forma, sobreviveu, e se tornou testemunha principal do caso. Por conta disso sofreu outro atentado quase um ano depois enquanto mendigava na estação Central do Brasil (recebendo mais quatro tiros), após o que recebeu atendimento do serviço de proteção à testemunha. Foi levado à Suíça onde, surdo, cego de um olho e debilitado pela intoxicação por chumbo devido aos projéteis, vive sob cuidados.
Outro sobrevivente da chacina, Sandro Rosa do Nascimento, escapou se fingindo de morto. Posteriormente foi acolhido por projetos sociais, mas desligado da família, com dificuldades de aprendizado e socialização e viciado em drogas, passou a viver na marginalidade. Sete anos depois ele protagonizou o sequestro de um ônibus da linha 174, no bairro do Jardim Botânico, que resultou na morte de uma refém (alvejada à queima roupa por um policial), e do próprio Sandro, estrangulado no interior da viatura após ser imobilizado e algemado.
A investigação sobre a Chacina da Candelária levou à acusação de participação direta de três policiais militares da ativa e um que já havia sido expulso da corporação. Este último, Maurício da Conceição, resistiu à prisão e foi morto durante o processo. Um quinto acusado foi condenado a dois anos de prisão por portar uma das armas usadas no crime, mas sua participação na chacina ainda não foi comprovada (hoje ele ainda aguarda julgamento). Outros três acusados foram inocentados. Um sobrevivente ainda reconheceu um nono elemento, e a perícia identificou um projétil retirado de uma das vítimas disparado pela arma do seu padrasto, mas ele não foi indiciado. Os três condenados à pena máxima, devido ao regime de progressão, estão soltos desde antes de completados 20 anos de reclusão. Um deles teve o indulto suspenso e é considerado foragido.
A Chacina da Candelária foi notícia no mundo inteiro, e despertou debates sobre a relação entre o modelo de desenvolvimento das economias emergentes e a marginalização de parte da sua população, e como as suas cidades lidam com este problema. Surgiram projetos sociais, inclusive ligados à Arquidiocese do Rio (cujo arcebispo na época, Don Eugênio Sales, praticamente exigiu dos fiéis que, enquanto crianças em situação de rua continuassem a ser mortas, ninguém se esquecesse daquela data) dedicados a resgatar e socializar jovens e adultos em situação de rua. Mesmo assim, daquele grupo de 70 moradores de rua da Candelária em julho de 1993, 44 foram assassinados nos últimos 22 anos por policiais, grupos de extermínio, justiceiros, ou em confrontos com traficantes de drogas e outros moradores de rua, e quase todos os demais tem paradeiro desconhecido. De janeiro a agosto de 2013, 195 moradores de rua foram assassinados no Brasil, e desses crimes, apenas 13 foram investigados.
terça-feira, 21 de julho de 2015
O gatilho mais rápido do oeste
Em 21 de julho de 1865, o pistoleiro James "Wild Bill" Hickok matou o cowboy Davis Tutt em um duelo. É o primeiro, e um dos poucos duelos documentados entre dois pistoleiros no estilo eternizado nos filmes sobre o Velho Oeste americano, em que os oponentes se encaram esperando o outro sacar a pistola.
Tanto Tutt quanto Hickok tiveram passados obscuros. Tutt sobreviveu a uma guerra entre os Tutt e os Everett no Arkansas. Hickok passou a juventude envolvido em brigas e praticando tiro com pisola. Tutt lutou pelo exército confederado durante a Guerra Civil americana, Hickok serviu com o exército da União. Como muitos soldados sem família naquele conflito, ambos ficaram à deriva com o fim da guerra (Hickok fugia para o oeste acreditando ter matado um homem durante uma bebedeira), e vieram a se fixar na pequena Springfield, em Missouri, onde se conheceram em jogos de cartas no saloon do Hotel Lyon (atualmente o Old Southern Hotel). De alguma forma acabaram tornando-se amigos.
Por amizade, Tutt fazia negócios desvantajosos e emprestava dinheiro a Hickok para suas apostas nas cartas. Uma rivalidade parece ter surgido entre os dois por conta de uma mulher, Susanna Moore (sem relação com a personagem da música "Oh Susanna, não chores por mim..."), que tinha uma relação com Hickok, mas despertava o interesse de Tutt. Wild Bill começou então a se recusar a jogar nas mesmas mesas que Tutt, que começou a se sentar ao lado de outros jogadores e financiá-los para ajudá-los a vencer o amigo e tirar-lhe todo o dinheiro, participando nos lucros.
Em certa ocasião, Hickok havia ganho numa mesa de poker 200 dólares contra jogadores para quem Tutt emprestara dinheiro (ou seja, os 200 dólares eram, em última análise, seus). Como os jogadores assistidos por Tutt perdiam repetidamente, ele resolveu no ato cobrar uma dívida de 40 dólares da venda de um cavalo a Hickok. Ele pagou a quantia, mas Tutt ainda exigiu outros 35 por um empréstimo em outro jogo. Hickok se recusou, alegando que a dívida era de 25 dólares. E continuou jogando.
Encorajado por amigos armados presentes no saloon, Tutt pegou o relógio de bolso de Hickok como garantia pelo pagamento de sua dívida. Vendo-se em desvantagem, Hickok engoliu a raiva e pediu calmamente que Tutt colocasse o relógio sobre a mesa, mas não foi atendido. Além da humilhação de confiscar sua propriedade, Tutt deixou o saloon dando a impressão, diante dos presentes, que Hickok era um viciado e um mal pagador. A entourage de Tutt continuou ali, provocando Hickok na esperança de que, num surto de raiva, ele sacasse sua pistola e criasse uma situação para que o matassem.
Essas provocações continuaram por vários dias. Certo dia, no saloon, alguém lhe disse que Tutt pretendia usar o seu relógio na praça central da cidade no dia seguinte. Hickok perdeu a paciência e respondeu: "Ele não deveria atravessar aquela praça a menos que homens mortos possam andar", e foi para o seu quarto limpar suas pistolas. Tutt ficou logo sabendo do desafio. Com sua reputação em jogo, ele não podia se dar ao luxo de ignorá-lo e demonstrar covardia. Na manhã seguinte, ele estava na praça, com o relógio pendurado no seu bolso. Hickok ouviu o que estava acontecendo e foi para lá. Os dois inicialmente discutiram a devolução do relógio, mas Tutt agora cobrava 45 dólares em dívidas de jogo, segurando o relógio pela corrente. Deliberadamente tentando manter o controle, Hickok disse que não queria briga, e que seria melhor os dois tomarem um drink juntos.
Ninguém sabe muito bem o que aconteceu durante aquele dia, mas ao por do sol, os dois deixaram o saloon do Hotel Lyon armados. Hickok caminhou para a extremidade sul da praça, deixando Tutt sozinho - e com o relógio ainda pendurado - na extremidade oposta, a 70 metros de distância. As pessoas que circulavam por ali correram para se proteger. "Dave, estou aqui", gritou Hickok, exibindo sua pistola, "Não venha aqui com esse relógio". Tutt permaneceu imóvel, com a mão na arma.
Os dois se olharam em silêncio por um tempo, os corpos posicionados de lado. Então Tutt fez o primeiro movimento para sacar a pistola. Wild Bill Hickok reagiu mais rápido, sacando e apoiando a mão sobre o outro antebraço. Os tiros foram disparados simultaneamente, mas o de Hickok atingiu o peito de Tutt, atravessando o coração. "Rapazes, estou morto!". Ele cambaleou e caiu na rua. Hickok foi até lá e pegou seu relógio de volta.
Wild Bill foi preso sob acusação de assassinato. No julgamento, foi levado em consideração que ele estava defendendo a honra após uma humilhação pública, e que, durante o confronto, Hickok apenas sacou quando Tutt havia feito o movimento para atirar, apesar de inúmeras chances de tê-lo feito primeiro. No final, ele foi declarado inocente. O caso despertou o interesse da imprensa. Um articulista da Harper's New Monthly Magazine, Coronel George Nichols, foi a Springfield entrevistar Hickok. Sua entrevista incluía exageros, contando como Hickok matara "centenas" (Hickok matara 5 pessoas em sua vida, uma acidentalmente) e passara por diversas aventuras inverossímeis. Os jornais que circulavam no Oeste passaram a reproduzir partes da história, lançando sobre Hickok uma aura de heroísmo que o tornaria um símbolo e um ideal do valente homem do oeste. Hickok até tentou capitalizar em cima da fama repentina (chegou a ser xerife, a trabalhar no espetáculo itinerante de Buffalo Bill Cody, e a se casar com a famosa pistoleira Jane Calamidade), mas em 1876, com a visão (e a mira) debilitada, voltou à obscuridade. Ele morreu baleado numa briga de bar naquele ano.
A lenda de Wild Bill Hickok foi retratada exaustivamente em todas as mídias. Ele é personagem fácil em qualquer representação do Velho Oeste, ora como personagem principal, ora como mera referência enquanto representação estereotipada do pistoleiro, sendo interpretado por nomes como Gary Cooper ("Jornadas Heroicas"), Charles Bronson ("O Grande Búfalo Branco"), Jeff Bridges ("Wild Bill"), Roy Rogers ("Jovem Bill Hickok"), e Moe, dos Três Patetas. O duelo de pistolas como entre Hickok e Tutt, em que os pistoleiros se encaram antes de sacarem também é um tema recorrente nas dramatizações do Velho Oeste, embora quase sempre os pistoleiros sejam retratados de frente um para o outro, e não de lado (diminuindo a área do "alvo") como foi o caso.
Tanto Tutt quanto Hickok tiveram passados obscuros. Tutt sobreviveu a uma guerra entre os Tutt e os Everett no Arkansas. Hickok passou a juventude envolvido em brigas e praticando tiro com pisola. Tutt lutou pelo exército confederado durante a Guerra Civil americana, Hickok serviu com o exército da União. Como muitos soldados sem família naquele conflito, ambos ficaram à deriva com o fim da guerra (Hickok fugia para o oeste acreditando ter matado um homem durante uma bebedeira), e vieram a se fixar na pequena Springfield, em Missouri, onde se conheceram em jogos de cartas no saloon do Hotel Lyon (atualmente o Old Southern Hotel). De alguma forma acabaram tornando-se amigos.
Por amizade, Tutt fazia negócios desvantajosos e emprestava dinheiro a Hickok para suas apostas nas cartas. Uma rivalidade parece ter surgido entre os dois por conta de uma mulher, Susanna Moore (sem relação com a personagem da música "Oh Susanna, não chores por mim..."), que tinha uma relação com Hickok, mas despertava o interesse de Tutt. Wild Bill começou então a se recusar a jogar nas mesmas mesas que Tutt, que começou a se sentar ao lado de outros jogadores e financiá-los para ajudá-los a vencer o amigo e tirar-lhe todo o dinheiro, participando nos lucros.
Em certa ocasião, Hickok havia ganho numa mesa de poker 200 dólares contra jogadores para quem Tutt emprestara dinheiro (ou seja, os 200 dólares eram, em última análise, seus). Como os jogadores assistidos por Tutt perdiam repetidamente, ele resolveu no ato cobrar uma dívida de 40 dólares da venda de um cavalo a Hickok. Ele pagou a quantia, mas Tutt ainda exigiu outros 35 por um empréstimo em outro jogo. Hickok se recusou, alegando que a dívida era de 25 dólares. E continuou jogando.
Encorajado por amigos armados presentes no saloon, Tutt pegou o relógio de bolso de Hickok como garantia pelo pagamento de sua dívida. Vendo-se em desvantagem, Hickok engoliu a raiva e pediu calmamente que Tutt colocasse o relógio sobre a mesa, mas não foi atendido. Além da humilhação de confiscar sua propriedade, Tutt deixou o saloon dando a impressão, diante dos presentes, que Hickok era um viciado e um mal pagador. A entourage de Tutt continuou ali, provocando Hickok na esperança de que, num surto de raiva, ele sacasse sua pistola e criasse uma situação para que o matassem.
Essas provocações continuaram por vários dias. Certo dia, no saloon, alguém lhe disse que Tutt pretendia usar o seu relógio na praça central da cidade no dia seguinte. Hickok perdeu a paciência e respondeu: "Ele não deveria atravessar aquela praça a menos que homens mortos possam andar", e foi para o seu quarto limpar suas pistolas. Tutt ficou logo sabendo do desafio. Com sua reputação em jogo, ele não podia se dar ao luxo de ignorá-lo e demonstrar covardia. Na manhã seguinte, ele estava na praça, com o relógio pendurado no seu bolso. Hickok ouviu o que estava acontecendo e foi para lá. Os dois inicialmente discutiram a devolução do relógio, mas Tutt agora cobrava 45 dólares em dívidas de jogo, segurando o relógio pela corrente. Deliberadamente tentando manter o controle, Hickok disse que não queria briga, e que seria melhor os dois tomarem um drink juntos.
Ninguém sabe muito bem o que aconteceu durante aquele dia, mas ao por do sol, os dois deixaram o saloon do Hotel Lyon armados. Hickok caminhou para a extremidade sul da praça, deixando Tutt sozinho - e com o relógio ainda pendurado - na extremidade oposta, a 70 metros de distância. As pessoas que circulavam por ali correram para se proteger. "Dave, estou aqui", gritou Hickok, exibindo sua pistola, "Não venha aqui com esse relógio". Tutt permaneceu imóvel, com a mão na arma.
Os dois se olharam em silêncio por um tempo, os corpos posicionados de lado. Então Tutt fez o primeiro movimento para sacar a pistola. Wild Bill Hickok reagiu mais rápido, sacando e apoiando a mão sobre o outro antebraço. Os tiros foram disparados simultaneamente, mas o de Hickok atingiu o peito de Tutt, atravessando o coração. "Rapazes, estou morto!". Ele cambaleou e caiu na rua. Hickok foi até lá e pegou seu relógio de volta.
Wild Bill foi preso sob acusação de assassinato. No julgamento, foi levado em consideração que ele estava defendendo a honra após uma humilhação pública, e que, durante o confronto, Hickok apenas sacou quando Tutt havia feito o movimento para atirar, apesar de inúmeras chances de tê-lo feito primeiro. No final, ele foi declarado inocente. O caso despertou o interesse da imprensa. Um articulista da Harper's New Monthly Magazine, Coronel George Nichols, foi a Springfield entrevistar Hickok. Sua entrevista incluía exageros, contando como Hickok matara "centenas" (Hickok matara 5 pessoas em sua vida, uma acidentalmente) e passara por diversas aventuras inverossímeis. Os jornais que circulavam no Oeste passaram a reproduzir partes da história, lançando sobre Hickok uma aura de heroísmo que o tornaria um símbolo e um ideal do valente homem do oeste. Hickok até tentou capitalizar em cima da fama repentina (chegou a ser xerife, a trabalhar no espetáculo itinerante de Buffalo Bill Cody, e a se casar com a famosa pistoleira Jane Calamidade), mas em 1876, com a visão (e a mira) debilitada, voltou à obscuridade. Ele morreu baleado numa briga de bar naquele ano.
A lenda de Wild Bill Hickok foi retratada exaustivamente em todas as mídias. Ele é personagem fácil em qualquer representação do Velho Oeste, ora como personagem principal, ora como mera referência enquanto representação estereotipada do pistoleiro, sendo interpretado por nomes como Gary Cooper ("Jornadas Heroicas"), Charles Bronson ("O Grande Búfalo Branco"), Jeff Bridges ("Wild Bill"), Roy Rogers ("Jovem Bill Hickok"), e Moe, dos Três Patetas. O duelo de pistolas como entre Hickok e Tutt, em que os pistoleiros se encaram antes de sacarem também é um tema recorrente nas dramatizações do Velho Oeste, embora quase sempre os pistoleiros sejam retratados de frente um para o outro, e não de lado (diminuindo a área do "alvo") como foi o caso.
segunda-feira, 20 de julho de 2015
Rolo, o Andarilho
Em 20 de julho do anno Domini 911, Rolo, líder de um bando de vikings dinamarqueses, foi derrotado por barões franceses na batalha de Chartres. A presença de Rolo e seus vikings na França foi decisivo para o futuro daquela parte da Europa.
No século IX, toda a costa européia, da Alemanha até a Sicília, sofria ataques de vikings baseados na Noruega, na Dinamarca, e, em menor escala, na Suécia - os vikings suecos controlavam o Mar Báltico e faziam incursões na Finlândia e no interior da Rússia, comercializando com persas e árabes, e seus reis enviando embaixadas até Constantinopla. A própria Inglaterra e a Irlanda viveram sob o regime de senhores nórdicos que controlavam grande parte da Grã-Bretanha sob uma confederação conhecida como Danelaw, ou "Lei dos Dinamarqueses", também presente em muitas partes da Alemanha. A herança da presença dinamarquesa e norueguesa na Inglaterra é sentida até hoje, com nomes de cidades (Norwick, Holdenby, Durham), topônimos (Ravenscar, Rawcliffe, Melfort), sobrenomes (Hawksworth, Beckingham, Swansea) e vocabulário (newby, awesome, saga) de origem dinamarquesa. Dublin, capital da Irlanda, nasceu como um ancoradouro e povoado de vikings noruegueses.
O que impulsionou os vikings a atacarem a costa européia a partir do século IX ainda é nebuloso. Ao contrário das tribos germânicas na Europa Central, aparentemente não houve invasões forçando o deslocamento dos povos nórdicos em direção ao sul nessa época (movimento que os povos germânicos fizeram cerca de 1000 anos antes, por razões mais nebulosas ainda). Possivelmente uma explosão demográfica seguida de problemas climáticos ou outra crise sistêmica podem ter motivado os povos da Escandinávia a buscarem terras mais abundantes além-mar. No século IX, a Islândia e a Groenlândia (a "Terra Verde") eram muito mais propícias a atividades agropecuárias do que hoje, e lá se estabeleceram postos avançados da civilização escandinava - expedições partindo da Islândia, usando a Groenlândia como ponte, permitiram o breve estabelecimento de colônias na América do Norte. Com o correr dos anos e um breve resfriamento do clima (a Pequena Idade do Gelo antes do fim da Idade Média) levou ao fim das colônias na Groenlândia, mas a Islândia perdurou.
A pujança material das culturas europeias pós-romanas (especialmente os tesouros eclesiásticos) podem ter sido um chamariz para relações comerciais predatórias. Na costa francesa, os vikings ganharam temível reputação ao atacar aldeias e cidades, pilhando tudo que podiam carregar. Seus barcos longos e estreitos permitiam que eles navegassem rapidamente vários quilômetros rio acima, de maneira que o interior também estava vulnerável - houve incursões devastadoras ao longo dos rios Garonne, Loire e Sena, com pelo menos cinco ataques a Paris entre 845 e 886, chegando até a vila de Bèze, a mais de 350 km do litoral em linha reta. Os franceses chamavam indistintamente os vikings noruegueses e dinamarqueses de "normandos", "homens do norte" ("viking" é um autônimo que pode significar "navegantes" ou "remadores" e passou a ser usado de forma mais generalizada para circunscrever os povos escandinavos pré-cristãos somente a partir do século XIX). Por todo o século IX os franceses tiveram que conviver com os normandos, ora parceiros comerciais, ora destruidores de cidades e violadores de igrejas.
Em algum momento impreciso no fim do século IX, o guerreiro Rolo, um viking de origem incerta (norueguês ou dinamarquês), mas provavelmente nobre, chegou ao norte da França depois de muitas andanças pela Irlanda, Escócia e Bretanha - o que lhe rendeu a alcunha de "Ganger Hrolfr", ou "Rolo, o Andarilho", nas sagas islandesas. Os fatos da vida de Rolo e a forma como ele acabou liderando um bando de dezenas de milhares de dinamarqueses radicados na costa nordeste da França são tampouco confiáveis, uma vez que a primeira vez em que o seu nome aparece em crônicas francesas é pelo menos três décadas depois de assumir uma proeminência como líder viking, mas ainda pouco antes da sua morte. As crônicas posteriores, como não podiam deixar de ser, atribuem origens fantásticas e feitos extraordinários e contradizentes acerca de Rolo e suas andanças, mas nada disso é confiável. Algumas dessas fontes afirmam que Rolo já era um líder ativo no assalto a Rouen em 876, no cerco a Paris entre 885 e 886 e em toda a campanha do Sena naquele período. Num ataque a Bayeux, ele tomou Poppa, filha do conde de Rennes, como amante.
Em 911, Rolo comandou o cerco a Chartres. Naquela altura, Ricardo, duque da Burgundia, conseguiu organizar um pequeno exército para expulsar os normandos. Contudo, as suas forças talvez não chegassem à metade dos normandos. A batalha é mal documentada, mas conta a lenda que o bispo Gantelme trouxe para o campo de batalha o manto original que vestia a Virgem Maria, e isso teria inspirado os defensores e/ou afugentado os vikings pagãos. O fato é que Chartres não foi destruída - o lugar seria fortificado e sobreviveria para se tornar um importante centro religioso na França.
De qualquer forma, o rei da França, Carlos, o Simples, já estava considerando os normandos de Rolo formidáveis o suficiente para ter como seus aliados. A derrota em Chartres também pode ter incentivado Rolo, que já se aproximava dos 70 anos, a entrar em conversas com dignatários franceses. Algumas semanas depois de Chartres (no "outono" daquele ano), Rolo assinou o Tratado de Saint-Clair-sur-Epte, onde o rei lhe concedia todas as terras entre o rio Epte (um modesto afluente do Sena a meio caminho entre Paris e Rouen) e o mar. Em troca, Rolo e seus normandos tornariam a terra produtiva, contribuiriam com impostos à coroa, e se disponibilizariam a tomar parte em suas guerras. Carlos acrescentou uma cláusula que cedia aos normando a Bretanha, até então não conquistada pelos francos, cláusula que teria sido efetivada após a morte do rei bretão Alan I (mas anulada quando seu filho Alan II veio da Inglaterra e expulsou os normandos de lá). Aparentemente, Carlos e Rolo também entraram em termos como parte da preparação para uma invasão à Lotaríngia, reino-irmão da França na atual zona de fronteira entre o território normando, Alemanha e Países Baixos. Como demonstração de boa vontade, Rolo aceitou ser batizado e casou-se com Gisele, filha de Carlos.
O território cedido aos normandos, com acréscimos posteriores, ficaria conhecido como Normandia. O casamento de Rolo com Gisele, embora tenha se tornado tema de canções e trovas ao longo da Idade Média, não lhe deu filhos, mas de sua união com Poppa nasceu a linhagem de mandatários da Normandia (a partir de seu bisneto Ricardo II, eles seriam oficialmente duques). Na quinta geração depois de Rolo veio Guilherme, o Conquistador, que tomaria de assalto a Grã-Bretanha e daria fim aos reis anglo-saxões naquela ilha. A incursão de Guilherme também daria início a um imbróglio dinástico tremendo entre franceses e ingleses que suscitariam repetidas guerras por séculos - a rainha Elizabeth II ainda retém, informalmente, o título de "Duque" (apesar de mulher) da Normandia no território das Ilhas do Canal, possessões britânicas no Canal da Mancha próximas à costa francesa que faziam parte da Normandia nos tempos em que os reis ingleses também eram duques daquelas terras (os nativos a saúdam como "Duque"). Quanto a Rolo, se você ainda acha graça quando lê esse nome e tenta imaginar um viking poderoso, ele é a inspiração para outros nomes comuns hoje, como Rolf, Rodolfo e Raul (Hrolfr teria ainda sido batizado Roberto no ato da conversão). Uma versão anacrônica de Rolo o coloca como irmão do semi-lendário rei viking Ragnar Lodbrock no popular seriado Vikings, embora supostamente haja uma distância de algumas décadas entre a morte deste e as aventuras de Rolo na França.
No século IX, toda a costa européia, da Alemanha até a Sicília, sofria ataques de vikings baseados na Noruega, na Dinamarca, e, em menor escala, na Suécia - os vikings suecos controlavam o Mar Báltico e faziam incursões na Finlândia e no interior da Rússia, comercializando com persas e árabes, e seus reis enviando embaixadas até Constantinopla. A própria Inglaterra e a Irlanda viveram sob o regime de senhores nórdicos que controlavam grande parte da Grã-Bretanha sob uma confederação conhecida como Danelaw, ou "Lei dos Dinamarqueses", também presente em muitas partes da Alemanha. A herança da presença dinamarquesa e norueguesa na Inglaterra é sentida até hoje, com nomes de cidades (Norwick, Holdenby, Durham), topônimos (Ravenscar, Rawcliffe, Melfort), sobrenomes (Hawksworth, Beckingham, Swansea) e vocabulário (newby, awesome, saga) de origem dinamarquesa. Dublin, capital da Irlanda, nasceu como um ancoradouro e povoado de vikings noruegueses.
O que impulsionou os vikings a atacarem a costa européia a partir do século IX ainda é nebuloso. Ao contrário das tribos germânicas na Europa Central, aparentemente não houve invasões forçando o deslocamento dos povos nórdicos em direção ao sul nessa época (movimento que os povos germânicos fizeram cerca de 1000 anos antes, por razões mais nebulosas ainda). Possivelmente uma explosão demográfica seguida de problemas climáticos ou outra crise sistêmica podem ter motivado os povos da Escandinávia a buscarem terras mais abundantes além-mar. No século IX, a Islândia e a Groenlândia (a "Terra Verde") eram muito mais propícias a atividades agropecuárias do que hoje, e lá se estabeleceram postos avançados da civilização escandinava - expedições partindo da Islândia, usando a Groenlândia como ponte, permitiram o breve estabelecimento de colônias na América do Norte. Com o correr dos anos e um breve resfriamento do clima (a Pequena Idade do Gelo antes do fim da Idade Média) levou ao fim das colônias na Groenlândia, mas a Islândia perdurou.
A pujança material das culturas europeias pós-romanas (especialmente os tesouros eclesiásticos) podem ter sido um chamariz para relações comerciais predatórias. Na costa francesa, os vikings ganharam temível reputação ao atacar aldeias e cidades, pilhando tudo que podiam carregar. Seus barcos longos e estreitos permitiam que eles navegassem rapidamente vários quilômetros rio acima, de maneira que o interior também estava vulnerável - houve incursões devastadoras ao longo dos rios Garonne, Loire e Sena, com pelo menos cinco ataques a Paris entre 845 e 886, chegando até a vila de Bèze, a mais de 350 km do litoral em linha reta. Os franceses chamavam indistintamente os vikings noruegueses e dinamarqueses de "normandos", "homens do norte" ("viking" é um autônimo que pode significar "navegantes" ou "remadores" e passou a ser usado de forma mais generalizada para circunscrever os povos escandinavos pré-cristãos somente a partir do século XIX). Por todo o século IX os franceses tiveram que conviver com os normandos, ora parceiros comerciais, ora destruidores de cidades e violadores de igrejas.
Em algum momento impreciso no fim do século IX, o guerreiro Rolo, um viking de origem incerta (norueguês ou dinamarquês), mas provavelmente nobre, chegou ao norte da França depois de muitas andanças pela Irlanda, Escócia e Bretanha - o que lhe rendeu a alcunha de "Ganger Hrolfr", ou "Rolo, o Andarilho", nas sagas islandesas. Os fatos da vida de Rolo e a forma como ele acabou liderando um bando de dezenas de milhares de dinamarqueses radicados na costa nordeste da França são tampouco confiáveis, uma vez que a primeira vez em que o seu nome aparece em crônicas francesas é pelo menos três décadas depois de assumir uma proeminência como líder viking, mas ainda pouco antes da sua morte. As crônicas posteriores, como não podiam deixar de ser, atribuem origens fantásticas e feitos extraordinários e contradizentes acerca de Rolo e suas andanças, mas nada disso é confiável. Algumas dessas fontes afirmam que Rolo já era um líder ativo no assalto a Rouen em 876, no cerco a Paris entre 885 e 886 e em toda a campanha do Sena naquele período. Num ataque a Bayeux, ele tomou Poppa, filha do conde de Rennes, como amante.
Em 911, Rolo comandou o cerco a Chartres. Naquela altura, Ricardo, duque da Burgundia, conseguiu organizar um pequeno exército para expulsar os normandos. Contudo, as suas forças talvez não chegassem à metade dos normandos. A batalha é mal documentada, mas conta a lenda que o bispo Gantelme trouxe para o campo de batalha o manto original que vestia a Virgem Maria, e isso teria inspirado os defensores e/ou afugentado os vikings pagãos. O fato é que Chartres não foi destruída - o lugar seria fortificado e sobreviveria para se tornar um importante centro religioso na França.
De qualquer forma, o rei da França, Carlos, o Simples, já estava considerando os normandos de Rolo formidáveis o suficiente para ter como seus aliados. A derrota em Chartres também pode ter incentivado Rolo, que já se aproximava dos 70 anos, a entrar em conversas com dignatários franceses. Algumas semanas depois de Chartres (no "outono" daquele ano), Rolo assinou o Tratado de Saint-Clair-sur-Epte, onde o rei lhe concedia todas as terras entre o rio Epte (um modesto afluente do Sena a meio caminho entre Paris e Rouen) e o mar. Em troca, Rolo e seus normandos tornariam a terra produtiva, contribuiriam com impostos à coroa, e se disponibilizariam a tomar parte em suas guerras. Carlos acrescentou uma cláusula que cedia aos normando a Bretanha, até então não conquistada pelos francos, cláusula que teria sido efetivada após a morte do rei bretão Alan I (mas anulada quando seu filho Alan II veio da Inglaterra e expulsou os normandos de lá). Aparentemente, Carlos e Rolo também entraram em termos como parte da preparação para uma invasão à Lotaríngia, reino-irmão da França na atual zona de fronteira entre o território normando, Alemanha e Países Baixos. Como demonstração de boa vontade, Rolo aceitou ser batizado e casou-se com Gisele, filha de Carlos.
O território cedido aos normandos, com acréscimos posteriores, ficaria conhecido como Normandia. O casamento de Rolo com Gisele, embora tenha se tornado tema de canções e trovas ao longo da Idade Média, não lhe deu filhos, mas de sua união com Poppa nasceu a linhagem de mandatários da Normandia (a partir de seu bisneto Ricardo II, eles seriam oficialmente duques). Na quinta geração depois de Rolo veio Guilherme, o Conquistador, que tomaria de assalto a Grã-Bretanha e daria fim aos reis anglo-saxões naquela ilha. A incursão de Guilherme também daria início a um imbróglio dinástico tremendo entre franceses e ingleses que suscitariam repetidas guerras por séculos - a rainha Elizabeth II ainda retém, informalmente, o título de "Duque" (apesar de mulher) da Normandia no território das Ilhas do Canal, possessões britânicas no Canal da Mancha próximas à costa francesa que faziam parte da Normandia nos tempos em que os reis ingleses também eram duques daquelas terras (os nativos a saúdam como "Duque"). Quanto a Rolo, se você ainda acha graça quando lê esse nome e tenta imaginar um viking poderoso, ele é a inspiração para outros nomes comuns hoje, como Rolf, Rodolfo e Raul (Hrolfr teria ainda sido batizado Roberto no ato da conversão). Uma versão anacrônica de Rolo o coloca como irmão do semi-lendário rei viking Ragnar Lodbrock no popular seriado Vikings, embora supostamente haja uma distância de algumas décadas entre a morte deste e as aventuras de Rolo na França.
sexta-feira, 10 de julho de 2015
O estado de Maracaju
Em 10 de julho de 1932, a parte sul do antigo estado do Mato Grosso teria declarado sua emancipação, criando o estado de Maracaju, para apoiar São Paulo na Revolução Constitucionalista.
Em primeiro lugar, confesso a negligência com a data de 9 de julho, quando São Paulo declarou guerra a Getúlio Vargas, porque, por ser um conflito com alguns meses de duração, haveria pretexto em outras datas para falar dele e de aspectos específicos dele. Bom, aqui está.
A Revolução de 1932 é resultado de uma rede complexa de acontecimentos que se seguiram à crise econômica internacional de 1929. Na ocasião, o café era o principal produto de exportação do Brasil, a principal fonte de divisas para o estado de São Paulo, e a principal fonte de poder da política paulista durante todo o Império e a República Velha. Em aliança com os produtores de leite de Minas Gerais, os políticos paulistas e mineiros alternavam a indicação de candidatos à presidência da República (mesmo que esses candidatos fossem nativos de outros estados, como o macaense Washington Luís, radicado politicamente em São Paulo), invariavelmente vitoriosos, garantindo uma continuidade nas políticas de interesse de ambos os grupos (a Política do Café com Leite).
Durante a primeira parte do século XX, a prosperidade do café propiciou o processo de industrialização. Com a crise, o mercado internacional do café praticamente deixou de existir do dia para a noite, levando, além dos industriais, os grandes proprietários de terras e seus afilhados políticos à ruína. Mas um detalhe a mais seria determinante para a evolução dos eventos que culminariam com a Revolução: em 1929, antes da crise, o presidente Washington Luís nomeou, com vasto apoio de lideranças estaduais, para sua sucessão o paulista Júlio Prestes, preterindo um político alinhado com os mineiros. Neste momento, a bancada mineira no Congresso Nacional se uniu à bancadas gaúcha e paraibana (as três bancadas que se opuseram à indicação de Prestes), com Getúlio Vargas candidato à presidência.
Ter um candidato abertamente em oposição à situação política nunca assustou os conservadores. Com um processo eleitoral nebuloso, até hoje existem dúvidas acerca dos resultados oficiais dos pleitos durante a República Velha. Mas sua base política agora mergulhara no caos. Isto inflamou os discursos da Aliança Liberal contra o poder vigente abalado, ameaçando desde setembro de 1929 uma revolução em caso de derrota nas eleições. Os políticos ainda alinhados com os paulistas previam uma reação do estado em caso de agressão.
A eleição se deu em março de 1930 com larga vantagem de Prestes sobre Vargas (90% dos votos válidos para o paulista). Os mais radicais na Aliança Liberal, alegando fraude nas eleições, resolveram enfim pegar em armas após o assassinato do vice da chapa, João Pessoa (cuja morte não teve motivos políticos), em julho. Forças gaúchas e mineiras principalmente chegaram ao Rio de Janeiro a tempo de impedir a posse de Júlio Prestes. Eles derrubaram Washington Luís e empossaram Getúlio Vargas como "chefe do governo provisório" - que logo se tornaria efetivamente permanente quando Getúlio suspendeu a Constituição, dissolveu o Congresso Nacional e os congressos estaduais (que contavam com câmaras de deputados e senados independentes), e nomeou interventores para todos os estados, exceto Minas Gerais. Nomeou também membros dos movimentos tenentistas dos anos 20 - históricos opositores das oligarquias paulistas - para posições de comando do exército e da polícia militar, inclusive em São Paulo.
Vargas seguiu governando "provisoriamente" por decreto, dando ares óbvios de ditadura ao regime. Com o poder político centralizado e aliados fiéis em postos estratégicos onde poderia haver focos de resistência, fortaleceu também a posição central do governo federal no controle da economia, tentando insular o Brasil do efeito da especulação de capital. Isso também incluiu a intervenção no setor agrícola. Também baixou leis que davam benefícios aos trabalhadores às custas dos empregadores. Exílios, militarização e o controle da imprensa também foram empregados.
A situação em São Paulo começou a se deteriorar quando o minoritário Partido Democrático de São Paulo, que trabalhou na campanha de Getúlio, não conseguiu indicar um interventor para o estado. A administração provisória nos primeiros dias da revolução de 1930 ficou a cargo de um grupo liderado pelo tenente João Alberto. A ingerência de João Alberto precipitou uma crise econômica e política que levou a uma sucessão rápida de interventores no estado. A insatisfação popular, insuflada pela imprensa local e por discursos políticos inflamados contra Getúlio, denunciando a ditadura que se instalara no Brasil especificamente para esmagar São Paulo, levou o governo federal a indicar um paulista não alinhado com Vargas como interventor, Pedro de Toledo. Mesmo assim, 200 mil pessoas se reuniram em janeiro de 1932 na Praça da Sé, na capital paulista, para um comício contra Vargas. Outros grandes comícios ocorreram no estado nos meses seguintes. O teor do discurso era a ilegalidade do regime Vargas, o desrespeito à Constituição (a Constituição de 1891 fora suspensa mas ainda não substituída), e o achacamento proposital da economia do estado.. A principal demanda, uma nova Constituição que estabelecesse os limites entre os poderes e restaurasse a legalidade. O Partido Democrático de São Paulo passou para a oposição. A ele se juntaria o MMDC, grupo contrarrevolucionário criado após a morte de 5 jovens por partidários de Vargas, e sancionado pelo governo paulista.
Como Júlio Prestes havia sido indicado em 17 dos 20 estados da federação, e eleito com 90% dos votos, e como o pretexto para a agitação política era a necessidade de uma nova Constituição (cuja assembleia constituinte Vargas aceitou convocar semanas antes), os líderes paulistas supunham contar com a adesão de pelo menos uma boa parte do país na sua causa. Em 9 de julho foi proclamada uma convocação para os paulistas pegarem em armas contra o governo Vargas. O general matogrossense Bertoldo Klinger foi um dos que apoiaram a iniciativa, e arregimentou todas as tropas leais do seu estado. No dia 10, ele teria proclamado a independência do estado de Maracaju, e levou seus comandados para lutar em São Paulo.
A iniciativa paulista malogrou na medida em que Minas Gerais (cuja força política de maior expressão era o ex-presidente "café com leite" Artur Bernardes) e o Rio Grande do Sul (o estado mais bem armado) optaram por apoiar o governo federal (apenas a facção liderada por Borges de Medeiros se juntou aos paulistas). Paulistas e matogrossenses, basicamente soldados, policiais militares e recrutas não treinados e lutando com suas próprias armas, se dispuseram a atacar alvos do governo federal e do exército. As frentes de batalha se definiram entre o Vale do Paraíba, o sul e o leste de São Paulo. Os poucos gaúchos do lado da Revolução fustigavam colunas do exército regular do estado com táticas de guerrilha enquanto marchavam para o front. Mas o avanço das forças federais, muito mais numerosas e bem armadas, contando com veículos blindados, aviões de bombardeio e um serviço de propaganda e inteligência sofisticados, contiveram esse avanço. Com as fronteiras do estado fechadas (inclusive o porto de Santos) e seus paióis e fábricas de armas bombardeadas, a economia enfraquecida, logo os paulistas, apesar das contribuições de seus cidadãos, se viram limitados em seus armamentos, a ponto de, em certo momento, soldados usarem matracas para simular o som de metralhadoras em batalha. A derrota veio em 2 de outubro, véspera do aniversário de posse de Getúlio, com a rendição dos líderes constitucionalistas para o general getulista Góis Monteiro.
Quanto ao estado de Maracaju, sua existência oscila entre o fato e o imaginário. O fato é que o comandante do exército na cidade de Campo Grande, general Klinger, se solidarizava abertamente com o comandante de São Paulo, exonerado por Getúlio Vargas, e trabalhou para levar tropas matogrossenses leais à causa constitucionalista para lutar no front. Mas a instituição de Campo Grande como capital (provisória) do estado (de Mato Grosso, não de Maracaju) foi oficializada por decreto do interventor do estado, Vespasiano Martins, e publicada no Diário Oficial mais de duas semanas depois da suposta declaração de independência de Klinger. É possível mesmo que a mudança da capital de Cuiabá para Campo Grande tenha sido manobrado pelo governo federal para inibir os esforços de guerra na região sob influência de Bertoldo Klinger. O impasse está no fato de que Vespasiano era ao mesmo tempo o interventor do Mato Grosso nomeado pelo presidente, e governador do Mato Grosso (como um todo) pelos constitucionalistas. A existência "virtual" do estado de Maracaju se comprova pela fronteira fechada entre seu território e São Paulo, pois assim ocorreu porque o estado de Mato Grosso como um todo estava sujeito a Getúlio - teria sido providencial aos insurgentes que Maracaju tivesse existido de fato, possibilitando a importação de armamentos pela fronteira com o Paraguai.
Com a derrota em 2 de outubro, Klinger foi preso e exilado, e o que ele chamava de estado de Maracaju deixou de existir. De qualquer forma, o estado do Mato Grosso do Sul, emancipado em 1979, assumiu os contornos básicos do que teria sido o estado de Maracaju, e herdou a sua memória como parte da sua identidade histórica.
Em primeiro lugar, confesso a negligência com a data de 9 de julho, quando São Paulo declarou guerra a Getúlio Vargas, porque, por ser um conflito com alguns meses de duração, haveria pretexto em outras datas para falar dele e de aspectos específicos dele. Bom, aqui está.
A Revolução de 1932 é resultado de uma rede complexa de acontecimentos que se seguiram à crise econômica internacional de 1929. Na ocasião, o café era o principal produto de exportação do Brasil, a principal fonte de divisas para o estado de São Paulo, e a principal fonte de poder da política paulista durante todo o Império e a República Velha. Em aliança com os produtores de leite de Minas Gerais, os políticos paulistas e mineiros alternavam a indicação de candidatos à presidência da República (mesmo que esses candidatos fossem nativos de outros estados, como o macaense Washington Luís, radicado politicamente em São Paulo), invariavelmente vitoriosos, garantindo uma continuidade nas políticas de interesse de ambos os grupos (a Política do Café com Leite).
Durante a primeira parte do século XX, a prosperidade do café propiciou o processo de industrialização. Com a crise, o mercado internacional do café praticamente deixou de existir do dia para a noite, levando, além dos industriais, os grandes proprietários de terras e seus afilhados políticos à ruína. Mas um detalhe a mais seria determinante para a evolução dos eventos que culminariam com a Revolução: em 1929, antes da crise, o presidente Washington Luís nomeou, com vasto apoio de lideranças estaduais, para sua sucessão o paulista Júlio Prestes, preterindo um político alinhado com os mineiros. Neste momento, a bancada mineira no Congresso Nacional se uniu à bancadas gaúcha e paraibana (as três bancadas que se opuseram à indicação de Prestes), com Getúlio Vargas candidato à presidência.
Ter um candidato abertamente em oposição à situação política nunca assustou os conservadores. Com um processo eleitoral nebuloso, até hoje existem dúvidas acerca dos resultados oficiais dos pleitos durante a República Velha. Mas sua base política agora mergulhara no caos. Isto inflamou os discursos da Aliança Liberal contra o poder vigente abalado, ameaçando desde setembro de 1929 uma revolução em caso de derrota nas eleições. Os políticos ainda alinhados com os paulistas previam uma reação do estado em caso de agressão.
A eleição se deu em março de 1930 com larga vantagem de Prestes sobre Vargas (90% dos votos válidos para o paulista). Os mais radicais na Aliança Liberal, alegando fraude nas eleições, resolveram enfim pegar em armas após o assassinato do vice da chapa, João Pessoa (cuja morte não teve motivos políticos), em julho. Forças gaúchas e mineiras principalmente chegaram ao Rio de Janeiro a tempo de impedir a posse de Júlio Prestes. Eles derrubaram Washington Luís e empossaram Getúlio Vargas como "chefe do governo provisório" - que logo se tornaria efetivamente permanente quando Getúlio suspendeu a Constituição, dissolveu o Congresso Nacional e os congressos estaduais (que contavam com câmaras de deputados e senados independentes), e nomeou interventores para todos os estados, exceto Minas Gerais. Nomeou também membros dos movimentos tenentistas dos anos 20 - históricos opositores das oligarquias paulistas - para posições de comando do exército e da polícia militar, inclusive em São Paulo.
Vargas seguiu governando "provisoriamente" por decreto, dando ares óbvios de ditadura ao regime. Com o poder político centralizado e aliados fiéis em postos estratégicos onde poderia haver focos de resistência, fortaleceu também a posição central do governo federal no controle da economia, tentando insular o Brasil do efeito da especulação de capital. Isso também incluiu a intervenção no setor agrícola. Também baixou leis que davam benefícios aos trabalhadores às custas dos empregadores. Exílios, militarização e o controle da imprensa também foram empregados.
A situação em São Paulo começou a se deteriorar quando o minoritário Partido Democrático de São Paulo, que trabalhou na campanha de Getúlio, não conseguiu indicar um interventor para o estado. A administração provisória nos primeiros dias da revolução de 1930 ficou a cargo de um grupo liderado pelo tenente João Alberto. A ingerência de João Alberto precipitou uma crise econômica e política que levou a uma sucessão rápida de interventores no estado. A insatisfação popular, insuflada pela imprensa local e por discursos políticos inflamados contra Getúlio, denunciando a ditadura que se instalara no Brasil especificamente para esmagar São Paulo, levou o governo federal a indicar um paulista não alinhado com Vargas como interventor, Pedro de Toledo. Mesmo assim, 200 mil pessoas se reuniram em janeiro de 1932 na Praça da Sé, na capital paulista, para um comício contra Vargas. Outros grandes comícios ocorreram no estado nos meses seguintes. O teor do discurso era a ilegalidade do regime Vargas, o desrespeito à Constituição (a Constituição de 1891 fora suspensa mas ainda não substituída), e o achacamento proposital da economia do estado.. A principal demanda, uma nova Constituição que estabelecesse os limites entre os poderes e restaurasse a legalidade. O Partido Democrático de São Paulo passou para a oposição. A ele se juntaria o MMDC, grupo contrarrevolucionário criado após a morte de 5 jovens por partidários de Vargas, e sancionado pelo governo paulista.
Como Júlio Prestes havia sido indicado em 17 dos 20 estados da federação, e eleito com 90% dos votos, e como o pretexto para a agitação política era a necessidade de uma nova Constituição (cuja assembleia constituinte Vargas aceitou convocar semanas antes), os líderes paulistas supunham contar com a adesão de pelo menos uma boa parte do país na sua causa. Em 9 de julho foi proclamada uma convocação para os paulistas pegarem em armas contra o governo Vargas. O general matogrossense Bertoldo Klinger foi um dos que apoiaram a iniciativa, e arregimentou todas as tropas leais do seu estado. No dia 10, ele teria proclamado a independência do estado de Maracaju, e levou seus comandados para lutar em São Paulo.
A iniciativa paulista malogrou na medida em que Minas Gerais (cuja força política de maior expressão era o ex-presidente "café com leite" Artur Bernardes) e o Rio Grande do Sul (o estado mais bem armado) optaram por apoiar o governo federal (apenas a facção liderada por Borges de Medeiros se juntou aos paulistas). Paulistas e matogrossenses, basicamente soldados, policiais militares e recrutas não treinados e lutando com suas próprias armas, se dispuseram a atacar alvos do governo federal e do exército. As frentes de batalha se definiram entre o Vale do Paraíba, o sul e o leste de São Paulo. Os poucos gaúchos do lado da Revolução fustigavam colunas do exército regular do estado com táticas de guerrilha enquanto marchavam para o front. Mas o avanço das forças federais, muito mais numerosas e bem armadas, contando com veículos blindados, aviões de bombardeio e um serviço de propaganda e inteligência sofisticados, contiveram esse avanço. Com as fronteiras do estado fechadas (inclusive o porto de Santos) e seus paióis e fábricas de armas bombardeadas, a economia enfraquecida, logo os paulistas, apesar das contribuições de seus cidadãos, se viram limitados em seus armamentos, a ponto de, em certo momento, soldados usarem matracas para simular o som de metralhadoras em batalha. A derrota veio em 2 de outubro, véspera do aniversário de posse de Getúlio, com a rendição dos líderes constitucionalistas para o general getulista Góis Monteiro.
Quanto ao estado de Maracaju, sua existência oscila entre o fato e o imaginário. O fato é que o comandante do exército na cidade de Campo Grande, general Klinger, se solidarizava abertamente com o comandante de São Paulo, exonerado por Getúlio Vargas, e trabalhou para levar tropas matogrossenses leais à causa constitucionalista para lutar no front. Mas a instituição de Campo Grande como capital (provisória) do estado (de Mato Grosso, não de Maracaju) foi oficializada por decreto do interventor do estado, Vespasiano Martins, e publicada no Diário Oficial mais de duas semanas depois da suposta declaração de independência de Klinger. É possível mesmo que a mudança da capital de Cuiabá para Campo Grande tenha sido manobrado pelo governo federal para inibir os esforços de guerra na região sob influência de Bertoldo Klinger. O impasse está no fato de que Vespasiano era ao mesmo tempo o interventor do Mato Grosso nomeado pelo presidente, e governador do Mato Grosso (como um todo) pelos constitucionalistas. A existência "virtual" do estado de Maracaju se comprova pela fronteira fechada entre seu território e São Paulo, pois assim ocorreu porque o estado de Mato Grosso como um todo estava sujeito a Getúlio - teria sido providencial aos insurgentes que Maracaju tivesse existido de fato, possibilitando a importação de armamentos pela fronteira com o Paraguai.
Com a derrota em 2 de outubro, Klinger foi preso e exilado, e o que ele chamava de estado de Maracaju deixou de existir. De qualquer forma, o estado do Mato Grosso do Sul, emancipado em 1979, assumiu os contornos básicos do que teria sido o estado de Maracaju, e herdou a sua memória como parte da sua identidade histórica.
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