terça-feira, 10 de novembro de 2015

A maldição do Diamante Hope

Em 10 de novembro de 1958, o carteiro James G. Todd entregou em mãos à direção do Instituto Smithsonian um pacote contendo o Diamante Hope, famoso pela sua reputação de trazer má sorte aos seus possuidores.

O Diamante Hope é uma pedra de 1,1 bilhão de anos, aproximadamente elíptica, de 9,1 gramas, tom distintamente azulado. Foi obtido de uma rocha de kimberlita extraída de uma mina em Andhra Pradesh, na Índia, no século XVIII, e trazido à França. Conhecido como "Azul Francês", pertenceu ao rei Luis XIV da França e seus sucessores, Luís XV e XVI. Durante a Revolução Francesa, enquanto Luis XVI estava sitiado no Palácio das Tulherias, o diamante foi roubado junto com grande parte das jóias da coroa. Ele teria sido partido em dois ou três (o maior fragmento se tornaria o atual Diamante Hope) e contrabandeado para a Inglaterra. Lá, teria sido passado de mão em mão até chegar a um banqueiro e romancista londrino chamado Thomas Hope (de onde a pedra deriva seu nome). Em 1902 deixou a família Hope e foi eventualmente adquirido pelo sultão otomano Abdul Hamid II, que o vendeu para cobrir dívidas pessoais. Passou pela socialite americana Evalyn Walsh McLean, cuja extravagância contribuiu para popularizar a fama do diamante (a pedra, já encrustada num medalhão rodeado por diamantes menores, era exibido em eventos públicos, e escondido em brincadeiras durante as festas da família, embora fosse mantido sob vigilância, com um segurança especialmente contratado para manter o olho na joia). Um colecionador de jóias, Harry Winston, o comprou após a morte da senhora McLean. Ele o doou ao Instituto Smithsonian, onde faz parte hoje da coleção mineralógica e está em exposição no seu museu, em Washington.

O diamante foi primeiro trazido à Europa por um comerciante francês chamado Jean-Baptiste Tavernier. Sua origem nunca ficou muito clara. No final do século XIX e início do século XX, o problema da origem do diamante, e rumores sobre o destino dos seus proprietários, alimentaram artigos de jornais, especialmente no Império Britânico (onde o público vitoriano era especialmente ávido consumidor de histórias sobre mistérios e exotismos), que reproduziam esses rumores como fatos, mas sem qualquer tipo de comprovação. A própria Evalyn McLean capitalizou sobre essas lendas urbanas para elevar o valor de venda da pedra, que ela legou aos seus netos (mas acabou vendida pelos seus tutores). As lendas se tornaram tão elaboradas que incluem entre as vítimas personagens cuja existência sequer pode ser atestada historicamente, quanto menos as suas mortes. No entanto, ajudam a despertar a curiosidade acerca do belo diamante.

Tavernier poderia tê-lo comprado, ou, como popularmente se difundiu, roubado-o de uma estátua da deusa Sita; diamante estaria encrustado em um dos seus olhos ou na sua testa. O diamante teria sido amaldiçoado pelos sacerdotes locais. O aventureiro o vendeu ao rei da França, e como parte do pagamento, recebeu um título nobiliárquico. Tavernier fez fortuna comprando pedras preciosas no oriente e negociando-as na Europa. Morreu em Moscou aos 84 anos. As lendas dizem, no entanto, que ele morreu retalhado por cães em Istambul, durante uma última viajem à Pérsia.

Embora Luis XIV tenha tido igualmente vida longa e um próspero reinado (morreu aos 76 de uma gangrena), sua amante, Madame de Montespan, foi acusada de assassinar uma concorrente e exilada. Seu ministro das finanças, Nicholas Fouquet, teria caído em desgraça depois de usar o diamante em uma festa (foi deposto, preso e executado por traição). Seu bisneto Luis XV envolveu-se na Guerra dos Sete Anos, em que a coalização de que a França participava foi derrotada, obrigando-o a ceder grandes territórios a Espanha e Inglaterra na América, e Bélgica e Luxemburgo aos Habsburgo, e morreu aos 64 de varíola (por medo de infecção, seu corpo não foi embalsamado, mas banhado em álcool e cal; seu funeral foi acompanhado por apenas um cortesão). E Luis XVI e Maria Antonieta foram presos e decapitados pelos revolucionários, que também estupraram e despedaçaram sua confidente, a Princesa de Lamballe (dizem que seu corpo ainda foi arrastado até um café, colocado sobre uma mesa, onde os presentes brindavam à sua morte).

Ao chegar à Inglaterra, o diamante teria ido para as mãos do joalheiro holandês Wilhelm Fals (cuja existência é meramente conjectural), que teria lapidado a pedra partida e lhe dado uma forma aproximada à que apresenta hoje. Seu filho Hendrick o teria matado e roubado a pedra. Hendrick a revendeu a Daniel Eliason (este sim um personagem histórico) e cometeu suicídio algum tempo depois.

O próximo dono notório do Diamante Hope foi o próprio Thomas Hope, que o comprou de Eliason. Hope era um romântico, artista de vanguarda que rivalizava com o próprio Lorde Byron, e logo depois de morto, sua viúva se casou com um nobre inglês, e os dois se desfizeram de quase todas as suas obras e celebrados trabalhos de decoração. A quarta geração da família vendeu o diamante para pagar suas dívidas em 1902 - o último Hope, Lorde Francis, foi traído pela esposa, que se apaixonou pelo capitão do navio em que viajavam no ano anterior. A moça em questão, a atriz May Yohe, se casou diversas vezes e morreu pobre. A própria Yohe procurou a imprensa algumas vezes e, nessas ocasiões, insinuou que devia seus repetidos infortúnios ao diamante.

O joalheiro Simon Frankel (que teria seu negócio arruinado durante a Grande Depressão) comprou a jóia e depois a vendeu a um Jacques Colet, que cometeu suicídio. O príncipe russo Ivan Kanitovski o comprou de Colet, e foi assassinado na Revolução Russa. Enquanto estava em sua posse, ele o emprestou à atriz Lorens Ledue, a quem teria matado com um tiro quando apareceu no palco usando o diamante.

Em 1908 o sultão otomano o comprou e o vendeu pouco tempo depois. Dois funcionários que teriam tomado o diamante em mãos tiveram mortes trágicas (um deles tentou roubar o diamante e foi enforcado). Abdul Hamid se tornou tão paranoico que cortou fundos do exército temendo que ele - ou qualquer outra organização - pudesse destroná-lo a qualquer momento, o que acabou causando revolta entre os militares e alimentando a Revolução dos Jovens Turcos, o embrião da Revolução Turca que aboliria a monarquia em 1922. Como consequência, foi deposto em favor do irmão, e viveu em cárcere privado de 1909 a 1918 (ele teria morrido esfaqueado por uma de suas concubinas).

O joalheiro grego Simon Montharides comprou em seguida e revendeu o diamante (não se tem documentação que prove a sua posse do diamante, e não se sabe se ele o comprou do sultão, ou se o vendeu a ele, ou se existiu realmente). Ele, sua esposa e seu filho teriam morrido quando sua carruagem caiu de um precipício.

Evalyn McLean comprou do famoso joalheiro Pierre Cartier, que compôs o medalhão atual onde a pedra está engastada atualmente, e fomentava os rumores sobre sua maldição. Após comprar a pedra, o filho mais velho dos McLean morreu atropelado em frente de casa. Outra filha, casada aos 19 anos com um velho senador, suicidou-se com uma overdose de soníferos. Nas ocasiões festivas em que exibia o medalhão aos convidados, o teria emprestado a Warren Harding e sua esposa Florence. Harding chegou à presidência dos Estados Unidos em 1921, e morreu de problemas cardiorrespiratórios no meio do seu mandato, enquanto parte do seu gabinete era investigada por corrupção. Florence morreu um ano depois de falência dos rins. Evalyn, que se viciara em morfina, se divorciou do marido Edward, dono do jornal Washington Post, em termos litigiosos em 1932. Edward começou a apresentar problemas psiquiátricos, teve que vender o jornal para saldar dívidas, morrendo em um asilo 9 anos depois.

Os herdeiros dos McLean, ainda lidando com as dívidas do casal, venderam a joia a Harry Winston, que foi convencido a doá-la ao Smithsonian (a família Winston não parece ter sofrido qualquer infortúnio extraordinário que pudessem atribuir ao diamante). O carteiro que entregou o pacote ao instituto, James Todd, sofreu dois acidentes graves, um em que um caminhão esmagou sua perna, e outro de carro em que feriu a cabeça. Sua esposa morreu de ataque cardíaco, seu cachorro morreu enforcado na própria coleira, e sua casa foi destruída em um incêndio. No entanto, ele não acreditava na maldição, e alegava ter tido sorte porque seus quatro filhos não estavam dentro de casa quando aconteceu.

Espero que escrever sobre o Diamante Hope não me inclua na maldição.

Um comentário:

  1. Pédepatomangalôtrêsvez! huahuahua
    Galera do Smithsonian que se cuide!

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