Na noite do dia 17 de junho de 1462, Vlad III, príncipe da Valáquia (ninguém menos do que Vlad, o Empalador, a pessoa que inspirou o personagem do Conde Drácula) tentou pessoalmente assassinar o sultão otomano Mehmed II, o conquistador de Constantinopla, então o soberano mais poderoso do mundo, em algum lugar na atual Romênia.
Mehmed II assombrou o mundo ao tomar Constantinopla em 1453. Mesmo que o Império Bizantino definhasse a olhos vistos por séculos e estivesse praticamente restrito à cidade, existia uma crença na inexpugnabilidade da cidade, que já sofrera tantos cercos antes (inclusive dois assédios turcos) e conseguiu se sustentar. Então sua queda foi um choque, e Mehmed, agora com os dois pés fincados na Europa se tornou uma espécie de inimigo comum da cristandade. O Papa Pio II chegou a convocar uma cruzada em 1459 contra os turcos para retomar a cidade.
Os otomanos, na verdade, enfrentavam grandes problemas para manter a estabilidade nos territórios recém conquistados na Europa. Revoltas na Albânia e na Bósnia, focos de resistência na Grécia e na Sérvia. O sultão então optou por assegurar territórios estratégicos para facilitar as suas defesas. Vlad, então príncipe da Valáquia, havia sido o único soberano cristão a demonstrar entusiasmo com a ideia de uma cruzada contra os turcos. Ocorre que a Valáquia controlava a margem esquerda do rio Danúbio, e os turcos estavam na margem oposta, e Mehmed decidiu que seria estratégico controlar o rio, por cuja extensão navegável os cristãos poderiam enviar tropas desde a Áustria. A hostilidade de Vlad era o pretexto ideal para iniciar uma campanha.
A Valáquia mantinha sua independência à base de pagamentos anuais da Jizya, uma taxa específica para não-muçulmanos, os quais Vlad se recusava a pagar desde 1459. No ano seguinte, representantes turcos foram enviados ao país para cobrar a dívida e requerer o envio de mil rapazes para serem treinados como Janízaros, o corpo de elite do exército otomano. Vlad mandou executar os emissários. Forças turcas então atravessaram o Danúbio e começaram a raptar meninos por conta própria. Vlad os encontrou e mandou que os empalasse.
Quando Mehmed enviou mensagem solicitando que Vlad fosse a Constantinopla negociar, o príncipe respondeu dizendo que o não pagamento da Jizya se devia às baixas reservas por conta da sua guerra contra os colonos alemães da Transilvânia, e que ele não poderia deixar a Valáquia com medo de uma invasão húngara, mas que mandaria ouro assim que pudesse, e se encontraria com o sultão se ele enviasse um designatário turco de confiança para o seu lugar enquanto estivesse fora.
Vlad havia sido refém de Mehmed por 5 anos, e eles se conheciam muito bem. Era tudo uma encenação. Vlad contava com apoio do rei da Hungria. Mehmed sabia. Ele enviou o governador de Nicópolis para se encontrar com Vlad, mas secretamente com ordem de prendê-lo e levá-lo ao sultão. Suspeitando da boa vontade de Mehmed em atender seu pedido, Vlad emboscou a embaixada otomana, matou todos os seus cavaleiros e capturou o governador. Disfarçado de turco, cuja língua ele dominava, liderou seus soldados até a fortaleza onde seria realizado o encontro e a invadiu, destruindo-a e matando seus defensores. Em seguida, lançou uma invasão à Bulgária, matando soldados e civis turcos, vitimando mais de 23 mil pessoas, seus corpos empalados. Vlad contabilizou meticulosamente todas as suas vítimas em cartas para o rei da Hungria. Uma força de 18 mil turcos foi desbaratada, e mais 10 mil mortos entraram na sua conta.
Em 1462, Mehmed reagiu reunindo um exército de 90 a 150 mil homens (ou até 400 mil, dependendo da fonte) e 120 canhões para cruzar o Danúbio. Eles avançavam penosamente sobre uma terra devastada e abandonada deixada para trás pelo exército de Vlad. Além de escaramuças com sua cavalaria, Vlad enviava doentes de lepra, tuberculose, sífilis e peste para interagir com os turcos e disseminar doenças. Acumulando fracassos, os turcos, cansados da marcha e tendo que deixar para trás seus próprios doentes, acamparam a caminho da capital valaquiana de Targoviste.
Vlad, em pessoa, se utilizou novamente do disfarce para entrar no acampamento turco e localizar a tenda de Mehmed. Ao cair da noite, Vlad trouxe seus soldados, cerca de 30 mil, iluminando o acampamento com archotes, enquanto os turcos estavam dentro de suas barracas - aparentemente o sultão deixara ordem para que os soldados não saíssem de suas tendas, o que explicaria a demora em responder ao ataque. Os valáquios atacaram os animais que estavam ao relento e vários turcos que se apressaram para ver o que estava acontecendo, enquanto Vlad cavalgava diretamente em direção a Mehmed. Mas ele errou o caminho. Quando se revelou, percebeu que estava na tenda do Grão-Vizir. No final, Mehmed fugiu, e a hesitação de um comandante valáquio impediu uma vitória total. Ao amanhecer Vlad recuou para as montanhas.
Mesmo com a moral baixa (dizia-se que Mehmed fugiu correndo e, se não tivesse sido contido, teria ido até Constantinopla sem olhar para trás), os turcos marcharam para a capital. Ao chegarem lá, encontraram a cidadela deserta... mas com cerca de 20 mil turcos empalados diante das muralhas, ou na beirada das ruas (incluindo o governador de Nicópolis, que deveria ter capturado Vlad meses antes). Dizia-se que Mehmed retornou a Constantinopla doente por causa daquela visão.
Vlad ganhou enorme reputação (tanto como herói da cristandade, especialmente na Europa oriental, mas também como maníaco e assassino cruel entre turcos e alemães), mas nas idas e vindas da política nos Cárpatos, sem apoio adequado (pois Vlad executara e empalara vários nobres locais), ele não foi capaz de impedir o inexorável avanço otomano na região. Cronistas da época diziam que Vlad foi abandonado pelos seus aliados, capturado em batalha, decapitado, e sua cabeça, conservada em mel, levada para Constantinopla e exibida publicamente numa estaca, para provar que estava morto.
Ou será que não? :P
quarta-feira, 17 de junho de 2015
terça-feira, 16 de junho de 2015
As proezas do Sultão Murad IV
Em 16 de junho de 1612 nasceu Murad IV, o último sultão a seguir a tradição guerreira dos sultões otomanos.
Murad sucedeu seu tio, Mustafá I, um homem fraco de meia idade e com problemas mentais que era mantido no trono por uma facção de cortesãos sob o pretexto de ser o parente mais velho de seu irmão, Ahmed I. As últimas décadas antes da ascensão de Murad viram o Império Otomano descambar para a tirania de líderes locais, banditismo, e descontrole político e fiscal. Mustafá foi deposto quando o governador da cidade de Erzurum resolveu marchar para Istambul para vingar a morte de Osman II, um sobrinho de Mustafá que havia sido entronizado e assassinado durante seu reinado por causa de intrigas palacianas.
Murad era o irmão mais novo de Osman, e uma outra facção o elegeu o novo sultão. Ele tinha apenas 11 anos, e sua mãe assumiu a regência. Porém ela não foi capaz de debelar a corrupção e impor ordem no império A Pérsia havia tomado quase todo o atual Iraque quase sem resistência, e rebeliões internas pipocavam aqui e ali. Em 1632, um grupo de Janízaros - o corpo de elite do exército otomano, formado por garotos cristãos raptados ou "recrutados" nas províncias, criados como muçulmanos numa espécie de fraternidade, treinados e armados para serem absolutamente leais ao sultão - invadiu o palácio Topkapi, entrou no quarto do sultão e assassinou o Grão-Vizir. Murad, já um jovem adulto, resolveu que era hora de impor sua autoridade para deixar de ser um joguete e terminar como seu irmão Osman.
Ele começou a identificar e reprimir os que enriqueciam ilicitamente - sua repressão vinha na forma de humilhações públicas, prisões e execuções. Os militares foram disciplinados por meio de mais de 500 execuções, apenas de oficiais. Já os soldados que fossem vistos aceitando suborno deveriam ser executados na mesma hora, e não teriam sequer a dignidade de um enterro. O Grande Mufti, a maior autoridade da Lei Islâmica, teve o mesmo fim, assim como vários de seus parentes. Ele proibiu certas amenidades, como o consumo de álcool, tabaco e café, sob pena de morte - ele mesmo se encarregava de fiscalizar os estabelecimentos comerciais de Istambul, vestindo trajes civis. Ironicamente, o sultão era um amante de vinhos.
Murad, porém, devia ter muita dificuldade para se misturar: extraordinariamente forte, dizia-se dele que era um campeão na luta livre, conseguindo lutar contra sete oponentes de uma só vez. Apesar de exímio arqueiro e atirador, suas armas favoritas eram uma maça que pesava 60 quilos e ele empunhava com uma mão só, e uma espada gigantesca, pesando 50 quilos. Essas armas existem e estão expostas no Museu do Palácio Topkapi, em Istambul.
Em 1635 Murad se apresentou no front oriental, onde seu exército reestruturado tentava conter o avanço persa. Todo armado e paramentado, ele cavalgava com seus soldados, participava das batalhas, e acampava com eles, inspirando respeito e admiração. Assim ele retomou a Armênia e avançou até Tabriz, no atual Irã, retornando em triunfo a Istambul. Como seus comandantes não conseguissem manter os territórios, Murad voltou ao front três anos depois e tomou Bagdá, reassumindo controle otomano sobre todo o Iraque. O tratado de paz acordado em Zuhab em 1639 entre otomanos e persas praticamente definiu a fronteira ocidental do Irã com o Iraque e a Turquia como conhecemos hoje. A tomada de Bagdá também seria a última vez em que um sultão otomano participaria de uma batalha.
Enquanto isso, o reino formado por Lituânia e Polônia entrou em guerra com a Rússia. Murad mandou o governador da Bulgária pilhar o que pudesse na Ucrânia, sob influência polonesa, enquanto ele mesmo pagava nômades tátaros para saquear Moscou. Quando a Polônia-Lituânia saiu vitoriosa e mandou embaixadores se queixarem da Murad quanto às pilhagens na Ucrânia, o sultão alegou que o governador, que havia traído seu pai anos antes, havia agido por conta própria e mandou matá-lo, a contento de seus novos aliados.
Anos de descontrole com a bebida - dizia-se que, bêbado, Murad corria pelas ruas da cidade nu, com espada em punho, atacando quem aparecesse pela frente - o levaram a contrair cirrose. À beira da morte ele teria ordenado a execução de seu irmão mais novo Ibrahim, que havia vivido quase toda sua vida em confinamento (ele teria sido executado com seus irmãos por Murad, se sua mãe não tivesse intervindo por conta de sua fragilidade física e mental). Se isso tivesse sido levado a cabo, toda a dinastia otomana teria morrido junto, pois Murad não deixara filhos homens, e isso deve ter freado as mãos dos seus guardas. Ibrahim viveria para se tornar Ibrahim I ("O Louco"), sob cujo reinado - grandemente influenciado por cortesões e pelo seu harém - o Império mergulhou novamente no caos. Ibrahim seria deposto e executado com o aval de sua própria mãe.
Murad sucedeu seu tio, Mustafá I, um homem fraco de meia idade e com problemas mentais que era mantido no trono por uma facção de cortesãos sob o pretexto de ser o parente mais velho de seu irmão, Ahmed I. As últimas décadas antes da ascensão de Murad viram o Império Otomano descambar para a tirania de líderes locais, banditismo, e descontrole político e fiscal. Mustafá foi deposto quando o governador da cidade de Erzurum resolveu marchar para Istambul para vingar a morte de Osman II, um sobrinho de Mustafá que havia sido entronizado e assassinado durante seu reinado por causa de intrigas palacianas.
Murad era o irmão mais novo de Osman, e uma outra facção o elegeu o novo sultão. Ele tinha apenas 11 anos, e sua mãe assumiu a regência. Porém ela não foi capaz de debelar a corrupção e impor ordem no império A Pérsia havia tomado quase todo o atual Iraque quase sem resistência, e rebeliões internas pipocavam aqui e ali. Em 1632, um grupo de Janízaros - o corpo de elite do exército otomano, formado por garotos cristãos raptados ou "recrutados" nas províncias, criados como muçulmanos numa espécie de fraternidade, treinados e armados para serem absolutamente leais ao sultão - invadiu o palácio Topkapi, entrou no quarto do sultão e assassinou o Grão-Vizir. Murad, já um jovem adulto, resolveu que era hora de impor sua autoridade para deixar de ser um joguete e terminar como seu irmão Osman.
Ele começou a identificar e reprimir os que enriqueciam ilicitamente - sua repressão vinha na forma de humilhações públicas, prisões e execuções. Os militares foram disciplinados por meio de mais de 500 execuções, apenas de oficiais. Já os soldados que fossem vistos aceitando suborno deveriam ser executados na mesma hora, e não teriam sequer a dignidade de um enterro. O Grande Mufti, a maior autoridade da Lei Islâmica, teve o mesmo fim, assim como vários de seus parentes. Ele proibiu certas amenidades, como o consumo de álcool, tabaco e café, sob pena de morte - ele mesmo se encarregava de fiscalizar os estabelecimentos comerciais de Istambul, vestindo trajes civis. Ironicamente, o sultão era um amante de vinhos.
Murad, porém, devia ter muita dificuldade para se misturar: extraordinariamente forte, dizia-se dele que era um campeão na luta livre, conseguindo lutar contra sete oponentes de uma só vez. Apesar de exímio arqueiro e atirador, suas armas favoritas eram uma maça que pesava 60 quilos e ele empunhava com uma mão só, e uma espada gigantesca, pesando 50 quilos. Essas armas existem e estão expostas no Museu do Palácio Topkapi, em Istambul.
Em 1635 Murad se apresentou no front oriental, onde seu exército reestruturado tentava conter o avanço persa. Todo armado e paramentado, ele cavalgava com seus soldados, participava das batalhas, e acampava com eles, inspirando respeito e admiração. Assim ele retomou a Armênia e avançou até Tabriz, no atual Irã, retornando em triunfo a Istambul. Como seus comandantes não conseguissem manter os territórios, Murad voltou ao front três anos depois e tomou Bagdá, reassumindo controle otomano sobre todo o Iraque. O tratado de paz acordado em Zuhab em 1639 entre otomanos e persas praticamente definiu a fronteira ocidental do Irã com o Iraque e a Turquia como conhecemos hoje. A tomada de Bagdá também seria a última vez em que um sultão otomano participaria de uma batalha.
Enquanto isso, o reino formado por Lituânia e Polônia entrou em guerra com a Rússia. Murad mandou o governador da Bulgária pilhar o que pudesse na Ucrânia, sob influência polonesa, enquanto ele mesmo pagava nômades tátaros para saquear Moscou. Quando a Polônia-Lituânia saiu vitoriosa e mandou embaixadores se queixarem da Murad quanto às pilhagens na Ucrânia, o sultão alegou que o governador, que havia traído seu pai anos antes, havia agido por conta própria e mandou matá-lo, a contento de seus novos aliados.
Anos de descontrole com a bebida - dizia-se que, bêbado, Murad corria pelas ruas da cidade nu, com espada em punho, atacando quem aparecesse pela frente - o levaram a contrair cirrose. À beira da morte ele teria ordenado a execução de seu irmão mais novo Ibrahim, que havia vivido quase toda sua vida em confinamento (ele teria sido executado com seus irmãos por Murad, se sua mãe não tivesse intervindo por conta de sua fragilidade física e mental). Se isso tivesse sido levado a cabo, toda a dinastia otomana teria morrido junto, pois Murad não deixara filhos homens, e isso deve ter freado as mãos dos seus guardas. Ibrahim viveria para se tornar Ibrahim I ("O Louco"), sob cujo reinado - grandemente influenciado por cortesões e pelo seu harém - o Império mergulhou novamente no caos. Ibrahim seria deposto e executado com o aval de sua própria mãe.
segunda-feira, 15 de junho de 2015
A Carta Magna
Em 15 de junho de 1215, há exatos 800 anos, o rei João da Inglaterra selou a Carta Magna, tornado oficial o corpo básico de leis que regularia o poder real, a legislação inglesa e suas relações institucionais pelos séculos seguintes.
Governar um país na Europa no início da Idade Média, sem a assistência de um sistema judicial baseado em leis uniformes e estáveis e jurisprudência, era uma faca de dois gumes. Por um lado, dava ao rei o direito de governar seu país conforme aprouvesse a si e a seus aliados da nobreza e do clero. Por outro lado, o rei precisava constantemente decidir (ou delegar juízes para fazê-lo sob seu próprio julgamento) sobre disputas pessoais, sobre propriedade, definir leis para casos específicos que nunca se repetiriam, ou reinterpretar leis antigas feitas para outros contextos históricos e sociais. Ou ele podia simplesmente deixar isso nas mãos de burocratas e ir caçar. Contudo, embora seu cargo tivesse legitimidade na bênção papal, a força do monarca e a estabilidade da sua posição dependiam da sua eficiência e equilíbrio como gestor, pois se negligenciasse os anseios da plebe, causaria revoltas populares; se resolvesse tomar medidas muito populares, perderia o suporte dos nobres; se fosse contra a Igreja, provavelmente perderia o apoio de ambos. Pois o seu próprio direito ao trono era uma questão de acordos de cavalheiros entre as forças dominantes. O poder, na teoria, estava todo nas mãos dos reis, mas a insegurança jurídica fragilizava enormemente todo o aparelho estatal e o próprio tecido social. Com o tempo, o Direito Romano, em pleno vigor no Império Bizantino e sobrevivendo em parte na forma de sistemas legais germânicos, foi sendo redescoberto e estudado no ocidente, levando ao desenvolvimento do sistema legal no mundo feudal de França, Inglaterra e Alemanha.
O que sucedeu com João foi mais ou menos decorrente do desequilíbrio e falta de clareza de limites entre poderes. João havia perdido grande parte dos territórios ingleses no oeste da atual França para o rei francês Filipe II (por causa disso, João ficou conhecido como "João Sem Terras"). Em parte, as sucessivas derrotas foram facilitadas pelos seus próprios aliados franceses, que reclamavam de taxações excessivas das suas propriedades em troca de proteção real e viam em João pouca boa vontade para com suas demandas particulares. As campanhas para retomar suas terras foram viabilizadas pelo aumento de impostos sobre propriedades. Mas seu fracasso - e os custos adicionais em tributos e compensações - fez com que os barões ingleses também se levantassem contra si.
Revoltas baronais não eram novidade na Inglaterra. Desde que Guilherme, o Conquistador tomou a coroa, todos os reis ingleses tiveram sua legitimidade questionada. O caso de João é que todos os seus irmãos estavam mortos (João era o mais jovem, assumindo depois que seu irmão Ricardo morreu a caminho de Jerusalém), e seus filhos muito jovens para liderarem uma revolta, então os barões tiveram que encarar a realidade de ter que fazer um acordo com o rei.
Para apaziguar os senhores de terras, João convocou um concelho em Londres e em Oxford para discutir reformas e tentar chegar a um acordo. Os rebeldes se apresentaram armados e desconfiados, trazendo consigo seus próprios soldados. João, por sua vez, contratou mercenários na França, mas hesitou em exibí-los para demonstrar força com medo de suscitar uma guerra civil na qual teria muito pouco apoio. Como os rebeldes recusassem a mediação do Papa (solicitada por João, e que não lhes seria vantajosa), o Arcebispo de Canterbury, Stephen Langton, assumiu a liderança das negociações, porém trabalhando junto a eles para a elaboração de demandas que fossem mutuamente interessantes.
Em 10 de junho, os rebeldes apresentaram o seu documento. Ele previa a proteção dos direitos da Igreja, providências contra prisões arbitrárias, acesso à justiça, e limitações às taxações e pagamentos dos senhores de terras à coroa. Versava sobre os direitos dos homens livres (basicamente, os próprios senhores de terras, excluindo servos e trabalhadores presos em semelhança à escravidão aos seus senhores por força de dívidas). Para colocar o poder real em cheque, foi proposta a criação de um concelho de 25 barões para monitorar a conformidade dos atos reais à lei. Em caso de transgressão, as propriedades reais seriam confiscadas até que seus erros fossem reparados.
O Papa Inocêncio III, por fim, respondeu aos apelos de João, excomungando os barões rebeldes e declarando-os pior do que os sarracenos, pois João declarara-se um cruzado, enfatizando sua posição de vassalo do Papa, dois anos antes. Mas já era tarde. No dia 15, João pressionou seu selo real sobre a Carta Magna, oficializando seu consentimento às demandas rebeldes.
O resultado imediato não foi bem o que as partes em contenda esperavam. Nem João nem os barões, cujo concelho de 25 racharia em questão de dias, se esforçaram em implementar as reformas. Uma das cláusulas inseridas no documento como parte do acordo de paz seria que os nobres deixassem Londres com seus soldados, o que eles se recusaram a fazer. Eles alegavam que o apelo de João ao Papa era uma transgressão, pois a cláusula 61 especificava que o rei " estava proibido de buscar algo de ninguém". Eles aproveitaram o momento para tomar o Castelo de Rochester, de propriedade do Arcebispo de Canterbury. João respondeu com seus mercenários franceses e vassalos leais, e a guerra civil eclodiu. Ela duraria cerca de um ano, sem solução clara, até a morte de João, por disenteria.
Porém, o efeito da Magna Carta se faria sentir aí. Os barões, em meio à guerra, convidaram o príncipe Luís, da França (futuro rei Luís VIII) para liderá-los e ofereceram-lhe a coroa. Mas com a morte do rei, o jovem Henrique III, de nove anos, foi coroado, e seus conselheiros compuseram uma nova versão da Carta Magna, menos conflituosa (extinguindo o concelho). Isso fez com que a aliança com o príncipe francês, que viria a ser mais um rei totalitário a quem os nobres ingleses teriam que se sujeitar no futuro, perdesse o sentido, e os fizesse voltar seu apoio a Henrique. A sua influência seria ainda mais duradoura, inspirando códigos de leis por toda Europa, e, depois, nos Estados Unidos, estruturando e regulando o Estado, dando autonomia à Igreja, e protegendo direitos civis. A Carta seria reescrita e ajustada várias vezes, e três das suas cláusulas originais estão até hoje em vigor nas leis da Inglaterra e do País de Gales.
Governar um país na Europa no início da Idade Média, sem a assistência de um sistema judicial baseado em leis uniformes e estáveis e jurisprudência, era uma faca de dois gumes. Por um lado, dava ao rei o direito de governar seu país conforme aprouvesse a si e a seus aliados da nobreza e do clero. Por outro lado, o rei precisava constantemente decidir (ou delegar juízes para fazê-lo sob seu próprio julgamento) sobre disputas pessoais, sobre propriedade, definir leis para casos específicos que nunca se repetiriam, ou reinterpretar leis antigas feitas para outros contextos históricos e sociais. Ou ele podia simplesmente deixar isso nas mãos de burocratas e ir caçar. Contudo, embora seu cargo tivesse legitimidade na bênção papal, a força do monarca e a estabilidade da sua posição dependiam da sua eficiência e equilíbrio como gestor, pois se negligenciasse os anseios da plebe, causaria revoltas populares; se resolvesse tomar medidas muito populares, perderia o suporte dos nobres; se fosse contra a Igreja, provavelmente perderia o apoio de ambos. Pois o seu próprio direito ao trono era uma questão de acordos de cavalheiros entre as forças dominantes. O poder, na teoria, estava todo nas mãos dos reis, mas a insegurança jurídica fragilizava enormemente todo o aparelho estatal e o próprio tecido social. Com o tempo, o Direito Romano, em pleno vigor no Império Bizantino e sobrevivendo em parte na forma de sistemas legais germânicos, foi sendo redescoberto e estudado no ocidente, levando ao desenvolvimento do sistema legal no mundo feudal de França, Inglaterra e Alemanha.
O que sucedeu com João foi mais ou menos decorrente do desequilíbrio e falta de clareza de limites entre poderes. João havia perdido grande parte dos territórios ingleses no oeste da atual França para o rei francês Filipe II (por causa disso, João ficou conhecido como "João Sem Terras"). Em parte, as sucessivas derrotas foram facilitadas pelos seus próprios aliados franceses, que reclamavam de taxações excessivas das suas propriedades em troca de proteção real e viam em João pouca boa vontade para com suas demandas particulares. As campanhas para retomar suas terras foram viabilizadas pelo aumento de impostos sobre propriedades. Mas seu fracasso - e os custos adicionais em tributos e compensações - fez com que os barões ingleses também se levantassem contra si.
Revoltas baronais não eram novidade na Inglaterra. Desde que Guilherme, o Conquistador tomou a coroa, todos os reis ingleses tiveram sua legitimidade questionada. O caso de João é que todos os seus irmãos estavam mortos (João era o mais jovem, assumindo depois que seu irmão Ricardo morreu a caminho de Jerusalém), e seus filhos muito jovens para liderarem uma revolta, então os barões tiveram que encarar a realidade de ter que fazer um acordo com o rei.
Para apaziguar os senhores de terras, João convocou um concelho em Londres e em Oxford para discutir reformas e tentar chegar a um acordo. Os rebeldes se apresentaram armados e desconfiados, trazendo consigo seus próprios soldados. João, por sua vez, contratou mercenários na França, mas hesitou em exibí-los para demonstrar força com medo de suscitar uma guerra civil na qual teria muito pouco apoio. Como os rebeldes recusassem a mediação do Papa (solicitada por João, e que não lhes seria vantajosa), o Arcebispo de Canterbury, Stephen Langton, assumiu a liderança das negociações, porém trabalhando junto a eles para a elaboração de demandas que fossem mutuamente interessantes.
Em 10 de junho, os rebeldes apresentaram o seu documento. Ele previa a proteção dos direitos da Igreja, providências contra prisões arbitrárias, acesso à justiça, e limitações às taxações e pagamentos dos senhores de terras à coroa. Versava sobre os direitos dos homens livres (basicamente, os próprios senhores de terras, excluindo servos e trabalhadores presos em semelhança à escravidão aos seus senhores por força de dívidas). Para colocar o poder real em cheque, foi proposta a criação de um concelho de 25 barões para monitorar a conformidade dos atos reais à lei. Em caso de transgressão, as propriedades reais seriam confiscadas até que seus erros fossem reparados.
O Papa Inocêncio III, por fim, respondeu aos apelos de João, excomungando os barões rebeldes e declarando-os pior do que os sarracenos, pois João declarara-se um cruzado, enfatizando sua posição de vassalo do Papa, dois anos antes. Mas já era tarde. No dia 15, João pressionou seu selo real sobre a Carta Magna, oficializando seu consentimento às demandas rebeldes.
O resultado imediato não foi bem o que as partes em contenda esperavam. Nem João nem os barões, cujo concelho de 25 racharia em questão de dias, se esforçaram em implementar as reformas. Uma das cláusulas inseridas no documento como parte do acordo de paz seria que os nobres deixassem Londres com seus soldados, o que eles se recusaram a fazer. Eles alegavam que o apelo de João ao Papa era uma transgressão, pois a cláusula 61 especificava que o rei " estava proibido de buscar algo de ninguém". Eles aproveitaram o momento para tomar o Castelo de Rochester, de propriedade do Arcebispo de Canterbury. João respondeu com seus mercenários franceses e vassalos leais, e a guerra civil eclodiu. Ela duraria cerca de um ano, sem solução clara, até a morte de João, por disenteria.
Porém, o efeito da Magna Carta se faria sentir aí. Os barões, em meio à guerra, convidaram o príncipe Luís, da França (futuro rei Luís VIII) para liderá-los e ofereceram-lhe a coroa. Mas com a morte do rei, o jovem Henrique III, de nove anos, foi coroado, e seus conselheiros compuseram uma nova versão da Carta Magna, menos conflituosa (extinguindo o concelho). Isso fez com que a aliança com o príncipe francês, que viria a ser mais um rei totalitário a quem os nobres ingleses teriam que se sujeitar no futuro, perdesse o sentido, e os fizesse voltar seu apoio a Henrique. A sua influência seria ainda mais duradoura, inspirando códigos de leis por toda Europa, e, depois, nos Estados Unidos, estruturando e regulando o Estado, dando autonomia à Igreja, e protegendo direitos civis. A Carta seria reescrita e ajustada várias vezes, e três das suas cláusulas originais estão até hoje em vigor nas leis da Inglaterra e do País de Gales.
sexta-feira, 12 de junho de 2015
A Declaração de Direitos da Virgínia
Em 12 de junho de 1776, em meio à Revolução Americana, representantes das colônias se congregavam clandestinamente em Williamsburg, na colônia da Virgínia. As Convenções da Virgínia pavimentaram legalmente o processo de independência dos Estados Unidos. Nesse dia, foi aprovada a Declaração de Direitos da Virgínia.
Durante a preparação da Constituição da Virgínia e da Declaração de Independência dos Estados Unidos, George Mason, um patriota durante a revolução americana, levou a votação um documento à parte, inspirado em parte na Declaração de Direitos de 1689, na Inglaterra, e na obra de Jonh Locke. Mais tarde, a Declaração de Direitos da Virgínia foi incorporada ao primeiro artigo da Constituição daquele estado, vigente até hoje.
Originalmente, a Declaração continha 10 artigos, posteriormente acrescidos de mais seis. O documento versa sobre os direitos do homem, e dos fundamentos de um governo republicano democrático. Resumindo muito, e com alguns comentários:
1- Todos nascem iguais e livres, e têm, e não lhes podem ser negados, os direitos à vida, à liberdade, à propriedade, à segurança e à felicidade (uma emenda à primeira seção introduziu a condição "when they enter into a state of society", ou "quando eles - os homens - entram num estado de sociedade", o que isentava donos de escravos a observarem esses direitos, já que escravos não participavam da sociedade, e podiam ser encarados como propriedade);
2- O poder emana do povo, e deve ser exercido para o povo;
3- Um governo deve ser instituído para benefício comum, proteção e segurança do povo. E em caso de falha em algum desses propósitos, a maioria da comunidade tem o direito inalienável de reformá-lo, alterá-lo ou aboli-lo;
4- Nenhum homem ou grupo deve receber tratamento excepcional ou privilégios, e nenhum cargo deve ser hereditário;
5- Deve existir separação e independência entre poderes executivo, legislativo e judiciário (o documento previa provisões especiais para os membros desses, já que estavam em plena revolta contra o domínio britânico, e operavam na ilegalidade sob o ponto de vista da metrópole);
6- A participação política é livre, e todo homem tem direito ao voto, e o voto deve ser livre e expresso sem consequências ao eleitor ("todo homem", "all men", e aí a redação não deixa claro se se refere apenas aos homens, ou a todo ser humano. Isso fez com que o direito feminino ao voto precisasse de mais 200 anos para ser implementado em sua plenitude nos Estados Unidos);
7- A suspensão ou execução de quaisquer leis, por qualquer autoridade, sem o consentimento dos representantes do povo, não deve ser exercida;
8- Todo homem tem direito à ampla defesa, ao julgamento imparcial, a não produzir provas contra si mesmo, e a não ser privado de liberdade sem julgamento;
9- Nenhum tipo de tortura ou restrição excessiva ou impeditiva à liberdade (como a cobrança de fianças em valores impossíveis de serem pagos) deve ser permitida;
10- Nenhum tipo de mandado de busca, apreensão ou prisão deve ser expedido sob suspeita ou acusações sem evidências;
11- Querelas a respeito de propriedades, ou ações de homem contra homem, devem ser levados a juri, cuja decisão será sagrada;
12- A liberdade de imprensa é um dos bastiões da liberdade, e nunca poderá ser restringido;
13- Uma milícia regulada, composta pelo povo, treinado em armas, é a defesa apropriada e segura de um Estado livre. Exércitos em tempos de paz devem ser evitados como um perigo à liberdade, e sua subordinação e comando devem emanar do poder civil;
14- Nenhuma forma paralela de governo deve ser estabelecida dentro dos limites da Virgínia;
15- Nenhum governo livre pode ser preservado sem a firme aderência à justiça, moderação, temperança, frugalidade e virtude;
16- A religião e a prática religiosa podem ser dirigidas apenas por razão e convicção, não por força ou violência, e portanto todos os homens tem iguais direitos de exercer livremente sua religião, e é dever mútuo de todos praticarem a tolerância, amor e caridade uns aos outros (o texto insere isso num contexto cristão, mas a proposta original desta seção, de James Madison, previa um contexto mais amplo).
A Declaração dos Direitos da Virgínia foi o primeiro documento inserido em uma constituição de um Estado moderno a proteger direitos individuais gerais, defendendo a igualdade entre todos os cidadãos, a proteger o direito à propriedade, e a definir um Estado servidor em que seus governantes não estejam acima dos direitos civis. A Declaração foi usada como base para a Carta de Direitos de 1789, incorporada à Constituição dos Estados Unidos na forma das suas dez emendas originais, e também serviu de inspiração para a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, publicada na França revolucionária também em 1789, por sua vez, precursora da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948.
Durante a preparação da Constituição da Virgínia e da Declaração de Independência dos Estados Unidos, George Mason, um patriota durante a revolução americana, levou a votação um documento à parte, inspirado em parte na Declaração de Direitos de 1689, na Inglaterra, e na obra de Jonh Locke. Mais tarde, a Declaração de Direitos da Virgínia foi incorporada ao primeiro artigo da Constituição daquele estado, vigente até hoje.
Originalmente, a Declaração continha 10 artigos, posteriormente acrescidos de mais seis. O documento versa sobre os direitos do homem, e dos fundamentos de um governo republicano democrático. Resumindo muito, e com alguns comentários:
1- Todos nascem iguais e livres, e têm, e não lhes podem ser negados, os direitos à vida, à liberdade, à propriedade, à segurança e à felicidade (uma emenda à primeira seção introduziu a condição "when they enter into a state of society", ou "quando eles - os homens - entram num estado de sociedade", o que isentava donos de escravos a observarem esses direitos, já que escravos não participavam da sociedade, e podiam ser encarados como propriedade);
2- O poder emana do povo, e deve ser exercido para o povo;
3- Um governo deve ser instituído para benefício comum, proteção e segurança do povo. E em caso de falha em algum desses propósitos, a maioria da comunidade tem o direito inalienável de reformá-lo, alterá-lo ou aboli-lo;
4- Nenhum homem ou grupo deve receber tratamento excepcional ou privilégios, e nenhum cargo deve ser hereditário;
5- Deve existir separação e independência entre poderes executivo, legislativo e judiciário (o documento previa provisões especiais para os membros desses, já que estavam em plena revolta contra o domínio britânico, e operavam na ilegalidade sob o ponto de vista da metrópole);
6- A participação política é livre, e todo homem tem direito ao voto, e o voto deve ser livre e expresso sem consequências ao eleitor ("todo homem", "all men", e aí a redação não deixa claro se se refere apenas aos homens, ou a todo ser humano. Isso fez com que o direito feminino ao voto precisasse de mais 200 anos para ser implementado em sua plenitude nos Estados Unidos);
7- A suspensão ou execução de quaisquer leis, por qualquer autoridade, sem o consentimento dos representantes do povo, não deve ser exercida;
8- Todo homem tem direito à ampla defesa, ao julgamento imparcial, a não produzir provas contra si mesmo, e a não ser privado de liberdade sem julgamento;
9- Nenhum tipo de tortura ou restrição excessiva ou impeditiva à liberdade (como a cobrança de fianças em valores impossíveis de serem pagos) deve ser permitida;
10- Nenhum tipo de mandado de busca, apreensão ou prisão deve ser expedido sob suspeita ou acusações sem evidências;
11- Querelas a respeito de propriedades, ou ações de homem contra homem, devem ser levados a juri, cuja decisão será sagrada;
12- A liberdade de imprensa é um dos bastiões da liberdade, e nunca poderá ser restringido;
13- Uma milícia regulada, composta pelo povo, treinado em armas, é a defesa apropriada e segura de um Estado livre. Exércitos em tempos de paz devem ser evitados como um perigo à liberdade, e sua subordinação e comando devem emanar do poder civil;
14- Nenhuma forma paralela de governo deve ser estabelecida dentro dos limites da Virgínia;
15- Nenhum governo livre pode ser preservado sem a firme aderência à justiça, moderação, temperança, frugalidade e virtude;
16- A religião e a prática religiosa podem ser dirigidas apenas por razão e convicção, não por força ou violência, e portanto todos os homens tem iguais direitos de exercer livremente sua religião, e é dever mútuo de todos praticarem a tolerância, amor e caridade uns aos outros (o texto insere isso num contexto cristão, mas a proposta original desta seção, de James Madison, previa um contexto mais amplo).
A Declaração dos Direitos da Virgínia foi o primeiro documento inserido em uma constituição de um Estado moderno a proteger direitos individuais gerais, defendendo a igualdade entre todos os cidadãos, a proteger o direito à propriedade, e a definir um Estado servidor em que seus governantes não estejam acima dos direitos civis. A Declaração foi usada como base para a Carta de Direitos de 1789, incorporada à Constituição dos Estados Unidos na forma das suas dez emendas originais, e também serviu de inspiração para a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, publicada na França revolucionária também em 1789, por sua vez, precursora da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948.
quarta-feira, 10 de junho de 2015
A morte de Alexandre, o Grande
O dia 10 de junho (mas possivelmente no dia 11) de 323 é a data de falecimento de Alexandre III, rei da Macedônia, conhecido na posteridade como Alexandre, o Grande, pouco mais de um mês antes de completar 33 anos de idade.
Alexandre, filho do competente Filipe II da Macedônia, foi um rolo compressor que conquistou e unificou em torno de si, pela força ou pela persuasão, as cidades-estado, ligas e alianças regionais da Grécia continental e insular (Esparta se recusou a fazer parte e foi deixada em paz), além de conquistar a Trácia, grande parte da atual Bulgária, historicamente fora do mundo grego propriamente dito. Em seguida, partiu com 40 mil soldados e 120 navios em direção às cidades helênicas sob domínio persa na Ásia, com vitórias decisivas contra os exércitos de Dario III em Granicus e Issus. Conquistou a inexpugnável cidade fenícia de Tiro. "Libertou" o Egito, onde foi coroado faraó. Avançou em direção ao coração da Pérsia, derrotando definitivamente Dario em Gaugamela, perto do Rio Tigre. Foi coroado rei e libertador na Babilônia. Enfrentou focos de resistência persa aqui e acolá enquanto tomava cidades, fundava outras, e marcava seu território pelo interior da Ásia. Expandiu seu domínio até as proximidades de Fergana, na fronteira com a China. Atravessou o rio Indo, onde foi finalmente rechaçado pelo rei Porus. Depois de enfrentar dissenções entre os soldados cansados da guerra, finalmente marchou de volta pelo sul, alcançando a Babilônia, onde morreu. Tudo isso em apenas 11 anos.
A causa da morte de Alexandre segue em mistério. As fontes antigas concordam que ocorreu de 10 a 15 dias após uma bebedeira, pouco tempo depois da morte de Hefestion, seu amante. Alguns insinuaram que ele tivesse sido envenenado. Outros, que tenha contraído alguma doença (o quadro descrito por Plutarco, por exemplo, sugere meningite). O fato é que Alexandre morreu sem herdeiros (seu filho com a princesa bactriana Roxana ainda não havia nascido). Seu testamento incluía exigências como a conquista da Arábia, a circunavegação da África, e a promoção do deslocamento de populações asiáticas para a Europa e vice-versa, visando o seu enriquecimento cultural e fortalecimento de laços de amizade (ideia que os gregos detestavam), e por isso, segundo o historiador Diodoro Sículo, teria sido descartado entre os altos comandantes alexandrinos. No seu leito de morte, eles teriam perguntado ao rei quem deveria governar no seu lugar, ao que ele teria respondido "o mais forte". Já outros alegam que Alexandre estava incapacitado de falar perto da morte; ele teria, num último gesto, passado seu anel a seu segurança Perdicas.
Perdicas defendia que todos deveriam esperar o nascimento do filho de Roxana, do qual ele e outros companheiros próximos de Alexandre seriam seus guardiões. Meleagro, comandante da infantaria, defendia que Filipe, meio-irmão de Alexandre, deveria ser o herdeiro. Os dois partidos entraram em acordo, e eventualmente Alexandre IV e Filipe III foram apontados reis. Contudo, como um era um bebê e o outro um nobre pouco reconhecido entre os militares, possivelmente com problemas mentais (embora Alexandre tivesse muito apreço por ele), este equilíbrio de forças foi capaz de evitar uma guerra civil apenas até o assassinato de Perdicas, o guardião do bebê e regente. Então, vários generais, cada um encastelado em uma parte do império, começaram a guerrear entre si.
O vasto império alexandrino foi, por fim, dividido em quatro partes leais a cada um dos seus companheiros: o Egito sob controle de Ptolomeu I, a Ásia Menor e a Trácia sob Lisímaco, Macedônia e Grécia sob Cassandro, e a maior parte da Ásia sob Seleuco. Embora desses, Ptolomeu e Seleuco tenham conseguido estabilizar seus territórios e governar com eficiência grandes porções de terras, nenhum dos reinos nascidos do império de Alexandre resistiria ao avanço de Roma, no oeste, e da Pártia, no leste. No ano 30 a.C., a última soberana descendente dos herdeiros de Alexandre, Cleópatra VII, cujo poder no Egito já dependia da boa vontade de Roma, cometeu suicídio.
A efemeridade do império de Alexandre contrasta com a permanência do seu legado em diferentes formas. Muitas cidades, algumas habitadas até hoje (Alexandria, no Egito, Iskenderun, na Turquia, e Kandahar, no Afeganistão, por exemplo), foram por ele fundadas para que seus soldados pudessem se estabelecer se assim quisessem. Até hoje, várias comunidades nos vales do Afeganistão traçam sua ancestralidade a soldados macedônios que ficaram para trás. A cidade de Tiro, que no momento da sua conquista era uma ilha inexpugnável, passou a ser permanentemente ligada ao continente por um istmo artificial de terra e entulho construído pelos homens de Alexandre para alcançá-la, e sobre o qual a moderna Tiro está assentada. A imagem e o símbolo de Alexandre como o conquistador do mundo que morreu jovem, com a coroa de louros, reproduzida em moedas, altos relevos e estátuas, passou a ser a inspiração para futuros imperadores - os cristãos dos primeiros séculos, antes de definirem Jesus como um homem branco com barba e cabelo comprido, usavam a efígie de Alexandre para representá-lo. A vastidão do seu império, e de seus herdeiros, proporcionou ao helenismo - o modo de vida grego, com sua filosofia, sua religião, sua arte, sua língua, suas técnicas - circulassem pela Ásia e influenciassem enormemente o novo mundo desfraldado para os gregos. A filosofia grega também influenciou de maneira indelével o hinduísmo e o budismo na Índia.
Diz-se que quando Julio César, ao se perceber com 32 anos como mero questor na Espanha, teria chorado diante de uma estátua de Alexandre, em Cádiz, ao perceber que, naquela idade, Alexandre já havia conquistado o mundo.
Alexandre, filho do competente Filipe II da Macedônia, foi um rolo compressor que conquistou e unificou em torno de si, pela força ou pela persuasão, as cidades-estado, ligas e alianças regionais da Grécia continental e insular (Esparta se recusou a fazer parte e foi deixada em paz), além de conquistar a Trácia, grande parte da atual Bulgária, historicamente fora do mundo grego propriamente dito. Em seguida, partiu com 40 mil soldados e 120 navios em direção às cidades helênicas sob domínio persa na Ásia, com vitórias decisivas contra os exércitos de Dario III em Granicus e Issus. Conquistou a inexpugnável cidade fenícia de Tiro. "Libertou" o Egito, onde foi coroado faraó. Avançou em direção ao coração da Pérsia, derrotando definitivamente Dario em Gaugamela, perto do Rio Tigre. Foi coroado rei e libertador na Babilônia. Enfrentou focos de resistência persa aqui e acolá enquanto tomava cidades, fundava outras, e marcava seu território pelo interior da Ásia. Expandiu seu domínio até as proximidades de Fergana, na fronteira com a China. Atravessou o rio Indo, onde foi finalmente rechaçado pelo rei Porus. Depois de enfrentar dissenções entre os soldados cansados da guerra, finalmente marchou de volta pelo sul, alcançando a Babilônia, onde morreu. Tudo isso em apenas 11 anos.
A causa da morte de Alexandre segue em mistério. As fontes antigas concordam que ocorreu de 10 a 15 dias após uma bebedeira, pouco tempo depois da morte de Hefestion, seu amante. Alguns insinuaram que ele tivesse sido envenenado. Outros, que tenha contraído alguma doença (o quadro descrito por Plutarco, por exemplo, sugere meningite). O fato é que Alexandre morreu sem herdeiros (seu filho com a princesa bactriana Roxana ainda não havia nascido). Seu testamento incluía exigências como a conquista da Arábia, a circunavegação da África, e a promoção do deslocamento de populações asiáticas para a Europa e vice-versa, visando o seu enriquecimento cultural e fortalecimento de laços de amizade (ideia que os gregos detestavam), e por isso, segundo o historiador Diodoro Sículo, teria sido descartado entre os altos comandantes alexandrinos. No seu leito de morte, eles teriam perguntado ao rei quem deveria governar no seu lugar, ao que ele teria respondido "o mais forte". Já outros alegam que Alexandre estava incapacitado de falar perto da morte; ele teria, num último gesto, passado seu anel a seu segurança Perdicas.
Perdicas defendia que todos deveriam esperar o nascimento do filho de Roxana, do qual ele e outros companheiros próximos de Alexandre seriam seus guardiões. Meleagro, comandante da infantaria, defendia que Filipe, meio-irmão de Alexandre, deveria ser o herdeiro. Os dois partidos entraram em acordo, e eventualmente Alexandre IV e Filipe III foram apontados reis. Contudo, como um era um bebê e o outro um nobre pouco reconhecido entre os militares, possivelmente com problemas mentais (embora Alexandre tivesse muito apreço por ele), este equilíbrio de forças foi capaz de evitar uma guerra civil apenas até o assassinato de Perdicas, o guardião do bebê e regente. Então, vários generais, cada um encastelado em uma parte do império, começaram a guerrear entre si.
O vasto império alexandrino foi, por fim, dividido em quatro partes leais a cada um dos seus companheiros: o Egito sob controle de Ptolomeu I, a Ásia Menor e a Trácia sob Lisímaco, Macedônia e Grécia sob Cassandro, e a maior parte da Ásia sob Seleuco. Embora desses, Ptolomeu e Seleuco tenham conseguido estabilizar seus territórios e governar com eficiência grandes porções de terras, nenhum dos reinos nascidos do império de Alexandre resistiria ao avanço de Roma, no oeste, e da Pártia, no leste. No ano 30 a.C., a última soberana descendente dos herdeiros de Alexandre, Cleópatra VII, cujo poder no Egito já dependia da boa vontade de Roma, cometeu suicídio.
A efemeridade do império de Alexandre contrasta com a permanência do seu legado em diferentes formas. Muitas cidades, algumas habitadas até hoje (Alexandria, no Egito, Iskenderun, na Turquia, e Kandahar, no Afeganistão, por exemplo), foram por ele fundadas para que seus soldados pudessem se estabelecer se assim quisessem. Até hoje, várias comunidades nos vales do Afeganistão traçam sua ancestralidade a soldados macedônios que ficaram para trás. A cidade de Tiro, que no momento da sua conquista era uma ilha inexpugnável, passou a ser permanentemente ligada ao continente por um istmo artificial de terra e entulho construído pelos homens de Alexandre para alcançá-la, e sobre o qual a moderna Tiro está assentada. A imagem e o símbolo de Alexandre como o conquistador do mundo que morreu jovem, com a coroa de louros, reproduzida em moedas, altos relevos e estátuas, passou a ser a inspiração para futuros imperadores - os cristãos dos primeiros séculos, antes de definirem Jesus como um homem branco com barba e cabelo comprido, usavam a efígie de Alexandre para representá-lo. A vastidão do seu império, e de seus herdeiros, proporcionou ao helenismo - o modo de vida grego, com sua filosofia, sua religião, sua arte, sua língua, suas técnicas - circulassem pela Ásia e influenciassem enormemente o novo mundo desfraldado para os gregos. A filosofia grega também influenciou de maneira indelével o hinduísmo e o budismo na Índia.
Diz-se que quando Julio César, ao se perceber com 32 anos como mero questor na Espanha, teria chorado diante de uma estátua de Alexandre, em Cádiz, ao perceber que, naquela idade, Alexandre já havia conquistado o mundo.
terça-feira, 9 de junho de 2015
A derrocada de Nero
O dia 9 de junho foi uma data auspiciosa na vida do imperador romano Nero. No ano 53 ele se casou com Claudia Octávia, uma prima e irmã adotiva, filha do seu tio-avô e antecessor Claudio. No ano 62, Claudia, exilada pelo próprio marido, foi levada ao suicídio. E em 68 foi a vez de Nero dar fim à própria vida.
Nero foi o último imperador da dinastia Júlio-Claudiana, que começa com o herdeiro legal de Júlio César, Augusto, que se casou com Lívia Drusila, da família Claudiana, e teve como herdeiro seu enteado Tibério. Dizia-se que a família Claudiana tinha uma veia boa e uma veia má. Além da própria Lívia, uma conspiradora extremamente astuta que provavelmente influenciou na morte dos filhos legítimos de Augusto debaixo do seu nariz para levar Tibério ao poder, e de Tibério, um político cortês que levava uma vida particular chocantemente depravada, a família ainda gerou Calígula, de má fama eterna como um tiranete impiedoso e suscetível a ímpetos de loucura. Da veia boa, existiram Cláudio Druso, primeiro filho de Lívia, um militar de carreira ilibada que morreu (ou talvez tenha sido morto) jovem, seu segundo filho Germânico, também militar extremamente popular por sua beleza, habilidade, vitórias e boa reputação (pai de Calígula, diga-se de passagem), e Claudio, seu irmão mais novo que se tornaria imperador, um sujeito modesto, sem ambições, com problemas físicos e que se dedicava às letras, embora tivesse seus deslizes. E Nero, neto de Germânico por sua filha Agripina, irmã de Calígula.
Nero herdou uma má reputação como imperador louco que faz sombra sobre a de Calígula. Porém, ao contrário deste, Nero soube tomar as rédeas do governo e usar o assassinato como recurso para a manutenção de sua posição - e não por mera extravagância como de seu tio. Sobretudo, entendia a necessidade de ser popular junto ao povo, para o qual implementou diversas obras de utilidade pública, como teatros, ginásios, banhos, templos, promovendo festivais e espetáculos para o povão. O próprio Nero participava de corridas, competições musicais e teatrais, para deleite do público. Em uma ocasião, quase morreu ao ser atirado de sua carruagem enquanto participava dos Jogos Olímpicos na Grécia. Por causa disso, a aristocracia romana, incluindo alguns cronistas da época, pintava o demônio em Nero, atribuindo a ele atos de loucura injustificada, como o incêndio em Roma, e o assassinato de sua segunda mulher enquanto estava grávida. Contudo, ele reinou por 14 anos, notavelmente mais do que políticos equilibrados apenas sobre a volúvel influência sobre o exército ou o senado (cujo poder foi lentamente minado ao longo do reinado de Nero).
Mas Nero tem no seu currículo atitudes suficientes para ter uma reputação controversa sem a necessidade de difamações. Várias fontes contemporâneas atestam que Nero teria sido responsável pelo assassinato de seu primo Britânico, filho de Claudio, nos primeiros meses de reinado. Sua mãe Agripina, então com grande influência em seu governo, escapou de um atentado em que seu navio teria afundado ou encalhado propositadamente, mas quando ela sobreviveu, Nero teria ordenado sua execução de maneira que parecesse suicídio. Sêneca, o poeta estoico que servia a Nero como conselheiro, e com quem ele passou, em determinado momento, a discordar sistematicamente, foi acusado de participar de uma conspiração para assassiná-lo e condenado ao suicídio, embora não haja evidência de que ele tenha tomado parte na conspiração.
Quanto a Claudia Octávia, seu casamento com Nero foi arranjado enquanto Claudio ainda era vivo, para consolidar a posição de Nero como herdeiro. Octávia, aparentemente, era da veia boa dos Claudianos: uma jovem dama, educada e "virtuosa". Nero a achava uma chata, a acusava de ser estéril, e a teria agredido várias vezes em público. Apesar de infeliz no casamento, ela era bastante popular entre os plebeus, provavelmente por incorporar essa "virtude" da mulher romana. Nero acabaria desistindo de levar uma vida com ela, e se interessou por Popeia Sabina, esposa do futuro imperador Oto. Por causa desse affair, e da gravidez de Popeia, Nero se divorciou de Octávia e a baniu para a ilha atualmente conhecida como Ventatene, uma ilha rochosa que servia de prisão para onde seus antecessores baniram suas parentes por comportamento impróprio (incluindo a mãe e a avó de Nero). Porém, ao saber disso, o povo foi às ruas com estátuas e mensagens de Octávia pedindo o seu retorno. Assustado, Nero concordou, apenas para ordenar o seu suicídio. A exemplo de Sêneca, Octávia abriu as veias dos braços e mergulhou numa banheira quente, como os romanos ritualmente faziam e consideravam a maneira digna de tirar a própria vida.
O destino de Popeia é incerto. Ela foi a esposa que Nero teria matado quando estava grávida, mas a tomar pelo desespero do imperador pela sua morte, o assassinato é pouco provável. O historiador Cassio Dio (um dos difamadores de Nero) supõe que ele possa ter se deitado sobre ela e causado o aborto que teria levado sua vida junto por acidente. A reação de Nero após sua morte foi exacerbada - Popeia foi embalsamada e depositada no Mausoléu de Augusto com honras divinas. Dois anos depois, Nero ordenou que um jovem liberto parecido com Popeia fosse castrado e se casasse com ele.
Em 68, Caio Vindex, governador da província da Galia Lugdunensis, apoiado por Sérvio Galba, governador da Espanha, se rebelou contra a política fiscal de Nero. Lúcio Vergínio, governador da Germania Superior, venceu Vindex, e suas tropas tentaram aclamá-lo imperador. Como Vergínio se recusava a atuar contra Nero, as tropas se voltaram a favor do rival Galba. O prefeito pretoriano abandonou Nero e jurou lealdade ao governador rebelde. Com a situação instável, Nero tentou fugir de Roma, mas seus oficiais se recusaram a ajudá-lo. O imperador ruminou sobre o que fazer, considerando pedir asilo ao império rival da Pártia, entregar-se a Galba, ou pedir perdão ao povo. Nero então foi dormir. Ele teria acordado no meio da noite e encontrado o palácio deserto. Nenhum amigo respondia aos seus chamados, nem sequer um gladiador que pudesse matá-lo. Um liberto chamado Phaon ofereceu sua vila para que Nero pudesse se esconder. Lá, ele ordenou que outros libertos lhe preparassem uma cova. Antes de anoitecer, um mensageiro chegou com a notícia de que o senado havia declarado Nero inimigo público e que era procurado (segundo Tácito, o senado, na verdade, esperava que com isso Nero se apresentasse, e juntos pudessem discutir uma solução, já que ele era o último imperador da sua dinastia, à qual quase todos os senadores haviam servido a vida inteira). Mas, desesperado, Nero então decidiu pelo suicídio. Primeiro pediu que um dos libertos se matasse na sua frente para lhe dar coragem. Conforme o som de cavalos se aproximasse, Nero, sem coragem ainda para tirar a própria vida, pediu a seu secretário que o preparasse abrindo suas veias.
No final, o senado, de fato, declarou Nero inimigo público. Galba foi prudentemente declarado imperador pelo senado, mas sua autoridade foi questionada em outras partes do império. Vitellius, governador da Germania Inferior foi aclamado pelas legiões estacionadas no rio Reno, e Oto, amigo de Nero a despeito do seu relacionamento com Popeia, tinha a Guarda Pretoriana ao seu lado. Os três se sucederam em menos de um ano, e a guerra civil só terminou quando o veterano general Vespasiano levou suas legiões do oriente a Roma e foi aclamado imperador no final do ano 69 (o Ano dos Quatro Imperadores), iniciando uma nova dinastia, a dinastia Flaviana.
Nero foi o último imperador da dinastia Júlio-Claudiana, que começa com o herdeiro legal de Júlio César, Augusto, que se casou com Lívia Drusila, da família Claudiana, e teve como herdeiro seu enteado Tibério. Dizia-se que a família Claudiana tinha uma veia boa e uma veia má. Além da própria Lívia, uma conspiradora extremamente astuta que provavelmente influenciou na morte dos filhos legítimos de Augusto debaixo do seu nariz para levar Tibério ao poder, e de Tibério, um político cortês que levava uma vida particular chocantemente depravada, a família ainda gerou Calígula, de má fama eterna como um tiranete impiedoso e suscetível a ímpetos de loucura. Da veia boa, existiram Cláudio Druso, primeiro filho de Lívia, um militar de carreira ilibada que morreu (ou talvez tenha sido morto) jovem, seu segundo filho Germânico, também militar extremamente popular por sua beleza, habilidade, vitórias e boa reputação (pai de Calígula, diga-se de passagem), e Claudio, seu irmão mais novo que se tornaria imperador, um sujeito modesto, sem ambições, com problemas físicos e que se dedicava às letras, embora tivesse seus deslizes. E Nero, neto de Germânico por sua filha Agripina, irmã de Calígula.
Nero herdou uma má reputação como imperador louco que faz sombra sobre a de Calígula. Porém, ao contrário deste, Nero soube tomar as rédeas do governo e usar o assassinato como recurso para a manutenção de sua posição - e não por mera extravagância como de seu tio. Sobretudo, entendia a necessidade de ser popular junto ao povo, para o qual implementou diversas obras de utilidade pública, como teatros, ginásios, banhos, templos, promovendo festivais e espetáculos para o povão. O próprio Nero participava de corridas, competições musicais e teatrais, para deleite do público. Em uma ocasião, quase morreu ao ser atirado de sua carruagem enquanto participava dos Jogos Olímpicos na Grécia. Por causa disso, a aristocracia romana, incluindo alguns cronistas da época, pintava o demônio em Nero, atribuindo a ele atos de loucura injustificada, como o incêndio em Roma, e o assassinato de sua segunda mulher enquanto estava grávida. Contudo, ele reinou por 14 anos, notavelmente mais do que políticos equilibrados apenas sobre a volúvel influência sobre o exército ou o senado (cujo poder foi lentamente minado ao longo do reinado de Nero).
Mas Nero tem no seu currículo atitudes suficientes para ter uma reputação controversa sem a necessidade de difamações. Várias fontes contemporâneas atestam que Nero teria sido responsável pelo assassinato de seu primo Britânico, filho de Claudio, nos primeiros meses de reinado. Sua mãe Agripina, então com grande influência em seu governo, escapou de um atentado em que seu navio teria afundado ou encalhado propositadamente, mas quando ela sobreviveu, Nero teria ordenado sua execução de maneira que parecesse suicídio. Sêneca, o poeta estoico que servia a Nero como conselheiro, e com quem ele passou, em determinado momento, a discordar sistematicamente, foi acusado de participar de uma conspiração para assassiná-lo e condenado ao suicídio, embora não haja evidência de que ele tenha tomado parte na conspiração.
Quanto a Claudia Octávia, seu casamento com Nero foi arranjado enquanto Claudio ainda era vivo, para consolidar a posição de Nero como herdeiro. Octávia, aparentemente, era da veia boa dos Claudianos: uma jovem dama, educada e "virtuosa". Nero a achava uma chata, a acusava de ser estéril, e a teria agredido várias vezes em público. Apesar de infeliz no casamento, ela era bastante popular entre os plebeus, provavelmente por incorporar essa "virtude" da mulher romana. Nero acabaria desistindo de levar uma vida com ela, e se interessou por Popeia Sabina, esposa do futuro imperador Oto. Por causa desse affair, e da gravidez de Popeia, Nero se divorciou de Octávia e a baniu para a ilha atualmente conhecida como Ventatene, uma ilha rochosa que servia de prisão para onde seus antecessores baniram suas parentes por comportamento impróprio (incluindo a mãe e a avó de Nero). Porém, ao saber disso, o povo foi às ruas com estátuas e mensagens de Octávia pedindo o seu retorno. Assustado, Nero concordou, apenas para ordenar o seu suicídio. A exemplo de Sêneca, Octávia abriu as veias dos braços e mergulhou numa banheira quente, como os romanos ritualmente faziam e consideravam a maneira digna de tirar a própria vida.
O destino de Popeia é incerto. Ela foi a esposa que Nero teria matado quando estava grávida, mas a tomar pelo desespero do imperador pela sua morte, o assassinato é pouco provável. O historiador Cassio Dio (um dos difamadores de Nero) supõe que ele possa ter se deitado sobre ela e causado o aborto que teria levado sua vida junto por acidente. A reação de Nero após sua morte foi exacerbada - Popeia foi embalsamada e depositada no Mausoléu de Augusto com honras divinas. Dois anos depois, Nero ordenou que um jovem liberto parecido com Popeia fosse castrado e se casasse com ele.
Em 68, Caio Vindex, governador da província da Galia Lugdunensis, apoiado por Sérvio Galba, governador da Espanha, se rebelou contra a política fiscal de Nero. Lúcio Vergínio, governador da Germania Superior, venceu Vindex, e suas tropas tentaram aclamá-lo imperador. Como Vergínio se recusava a atuar contra Nero, as tropas se voltaram a favor do rival Galba. O prefeito pretoriano abandonou Nero e jurou lealdade ao governador rebelde. Com a situação instável, Nero tentou fugir de Roma, mas seus oficiais se recusaram a ajudá-lo. O imperador ruminou sobre o que fazer, considerando pedir asilo ao império rival da Pártia, entregar-se a Galba, ou pedir perdão ao povo. Nero então foi dormir. Ele teria acordado no meio da noite e encontrado o palácio deserto. Nenhum amigo respondia aos seus chamados, nem sequer um gladiador que pudesse matá-lo. Um liberto chamado Phaon ofereceu sua vila para que Nero pudesse se esconder. Lá, ele ordenou que outros libertos lhe preparassem uma cova. Antes de anoitecer, um mensageiro chegou com a notícia de que o senado havia declarado Nero inimigo público e que era procurado (segundo Tácito, o senado, na verdade, esperava que com isso Nero se apresentasse, e juntos pudessem discutir uma solução, já que ele era o último imperador da sua dinastia, à qual quase todos os senadores haviam servido a vida inteira). Mas, desesperado, Nero então decidiu pelo suicídio. Primeiro pediu que um dos libertos se matasse na sua frente para lhe dar coragem. Conforme o som de cavalos se aproximasse, Nero, sem coragem ainda para tirar a própria vida, pediu a seu secretário que o preparasse abrindo suas veias.
No final, o senado, de fato, declarou Nero inimigo público. Galba foi prudentemente declarado imperador pelo senado, mas sua autoridade foi questionada em outras partes do império. Vitellius, governador da Germania Inferior foi aclamado pelas legiões estacionadas no rio Reno, e Oto, amigo de Nero a despeito do seu relacionamento com Popeia, tinha a Guarda Pretoriana ao seu lado. Os três se sucederam em menos de um ano, e a guerra civil só terminou quando o veterano general Vespasiano levou suas legiões do oriente a Roma e foi aclamado imperador no final do ano 69 (o Ano dos Quatro Imperadores), iniciando uma nova dinastia, a dinastia Flaviana.
segunda-feira, 8 de junho de 2015
Um tiro no vazio
Em 8 de junho de 1959, a marinha americana e o sistema postal dos Estados Unidos fizeram um teste de lançamento de correspondência via foguete guiado do tipo Regulus, lançado a partir de um submarino situado no norte da Flórida, em direção à base naval de Jacksonville, naquele estado. O foguete chegou com sucesso ao seu destino em 22 minutos.
Comunicação a distância sempre foi um desafio para a humanidade. A capacidade de enviar e captar informações rápida e eficientemente determinava, por exemplo, o sucesso de uma batalha (sabendo de antemão a aproximação de um exército, seus números e sua composição, enviando mensagens de auxílio a aliados, interceptando informações da rede de inteligência inimiga, ou enviando mensagens de paz antes que os soldados cheguem às vias de fato), ou a possibilidade de adoção calculada de métodos, estratégias, tecnologias antes desconhecidas para o bem comum. A necessidade das pessoas de enviar mensagens para outras que poderiam colaborar (ou impedir) com seus planos também sempre foi uma preocupação.
A comunicação direta à distância na pré-história sempre foi limitada a curtas distâncias, basicamente circulando e se difundindo lentamente de uma aldeia ou tribo nômade para outra conforme houvessem contatos casuais. Criar sinais que pudessem ser vistos à distância, como piras em chamas no alto de montanhas, bandeiras, reflexos de luz, soar de tambores ou outros instrumentos, ou colunas de fumaça nítidas e controladas configurando sinais pré combinados no céu, tiveram seu momento e sua utilidade, mas pecavam na confidenciabilidade do seu conteúdo e na necessidade de se capturar e interpretar com precisão um sinal que não poderia ser repetido. A eletricidade permitiu transmissão de sinais por fio (códigos sonoros, como o Morse, telefonia por fios de cobre e fibra ótica) ou por ondas eletromagnéticas (rádio, satélite), mas isso já no nosso tempo, e com seus próprios problemas.
Mesmo dessa forma rudimentar, antes da invenção da escrita populações no Mediterrâneo obtinham obsidiana produzida em minas no Oriente Médio a 900 km de distância. Eles sabiam que havia obsidiana lá, e comerciantes chegavam até eles com mercadoria para atender uma demanda local porque viajantes levavam essa informação entre um lugar e outro enquanto se deslocavam de acordo com seus próprios interesses. O Egito Antigo foi um ávido consumidor de lápis lázuli extraído no Afeganistão.
As redes de informação à distância evoluíram com as rotas comerciais - era por aí que fluíam as informações sobre novos materiais, novas tecnologias, novas armas e táticas, mesmo movimentos de povos e guerras distantes. O ferro, por exemplo, era um metal conhecido, embora raro e difícil de se trabalhar, encontrado no Oriente Médio e usado como ornamento, até que por volta de 1200 a.C., no centro da Anatólia, começou a se desenvolver novos métodos para a fundição de ferro. As armas de ferro usados pelos hititas para enfrentar as civilizações da baixa Idade do Bronze no rio Eufrates, na Palestina e, sobretudo, o Egito, provocaram uma revolução mundial na indústria bélica, na agricultura e na produção de instrumentos domésticos que definiram uma era inteira, a Idade do Ferro.
Se as informações fluíam pelas rotas comerciais, elas fluíam na velocidade que era possível. A pé, em carroças, barcos, caravanas, ou sobre o lombo de cavalos, sempre houve uma limitação para a velocidade com que uma informação gerada num ponto podia chegar a outro. O Império Persa construiu um sistema que explorava e otimizava a velocidade do seu veículo mais rápido disponível (o cavalo) para fazer com que mensagens circulassem o mais rapidamente possível, o que foi crucial para o estabelecimento e manutenção do Império Aquemênida, o maior do mundo até então. As estradas, ligando as principais cidades do império, eram pavimentadas, traçadas de maneira a evitar passagens muito intrincadas. Entre as capitais de Susa, a leste do rio Trigre, e Sardis, na atual Turquia, havia 111 estações, constantemente abastecidas com comida, água, acomodações para pernoite, e cavalos alimentados e descansados, de maneira que um mensageiro poderia fazer seu cavalo correr o mais rápido possível o tempo todo, trocá-lo por um cavalo descansado na próxima parada e seguir viagem a toda velocidade. Esse sistema, melhorado depois pelos romanos, foi o sistema de correios mais rápido do mundo até a invenção da locomotiva a vapor. Em alguns lugares em que sistemas semelhantes foram estabelecidos, muitos entrepostos acabaram evoluindo para novas cidades.
A invenção das locomotivas e barcos a vapor aceleraram a forma com que informação passou a ser trocada, mas, logicamente, ainda tinha suas próprias limitações de velocidade, especialmente num tempo em que o telégrafo já estava se desenvolvendo. Uma locomotiva a vapor no início do século XX era o meio de transporte mais rápido que se conhecia, mas ainda não era o objeto mais rápido. Projéteis impulsionados por explosões de pólvora gradualmente suplantaram o arco e a flecha no campo militar, e também inspiraram ideias. Em 1810 o escritor alemão Heinrich von Kleist propôs que se instalassem canhões ou morteiros fixos que atirassem projéteis ocos contendo cartas em locais abertos onde seriam recolhidos e distribuídos - ou levados ao próximo canhão e atirados a outra localidade, assim sucessivamente até se chegar ao seu destino. Ele calculava que era possível transpor uma distância de 300 km em metade de um dia desta maneira.
Foguetes, com propulsão própria, começaram a ser usados ainda no século XIX, e conforme sua autonomia de voo e precisão avançavam, eles se tornavam candidatos óbvios como veículos de correio rápido e de longa distância. Engenheiros alemães no final da década de 1920 calculavam ser possível percorrer um arco de 5 mil km com um foguete, cuja cápsula estaria equipada com um para-quedas, para evitar danos materiais e a integridade da correspondência. Existiam até esquemas para o lançamento sobre montanhas. Áustria, Alemanha, Inglaterra, Holanda, até Cuba fizeram seus testes. Um engenheiro inglês chamado Stephen Smith fez cerca de 270 testes com cerca de 20 foguetes providos pelo governo britânico na Índia - embora tenha tido algum progresso, o grande desafio ainda era acertar o alvo com segurança e efetivamente entregar a mensagem.
Como ficaria evidente durante a Segunda Guerra Mundial e os embaraçosos projetos de foguetes de longo alcance na Alemanha nazista, a ciência de foguetes ainda estava longe de produzir um meio rápido, seguro e preciso de envio de correspondência a longa distância. A aviação, por outro lado, avançava a passos largos, e mesmo na década de 1920 o correio aéreo era o meio pelo qual mensagens eram transportadas a médias e curtas distâncias na Europa e na América. Não obstante, os Estados Unidos continuaram perseguindo o desenvolvimento do correio via foguetes. A propulsão, a autonomia de vôo, e o relativo controle da rota só começaram a dar mostras de que isso seria viável já avançando nos anos 50.
Quando os americanos testaram o "rocket mail" via submarino, os aviões comerciais de grande porte já cruzavam o Atlântico regularmente, com capacidade para entregar toneladas de cartas e embrulhos de um continente a outro em menos de um dia. Por mais que os oficiais responsáveis pela operação tenham louvado a façanha como o início de uma nova era, a ideia do "rocket mail" foi logo depois abandonada em favor do correio aéreo. No final, foi um tiro no vazio.
Comunicação a distância sempre foi um desafio para a humanidade. A capacidade de enviar e captar informações rápida e eficientemente determinava, por exemplo, o sucesso de uma batalha (sabendo de antemão a aproximação de um exército, seus números e sua composição, enviando mensagens de auxílio a aliados, interceptando informações da rede de inteligência inimiga, ou enviando mensagens de paz antes que os soldados cheguem às vias de fato), ou a possibilidade de adoção calculada de métodos, estratégias, tecnologias antes desconhecidas para o bem comum. A necessidade das pessoas de enviar mensagens para outras que poderiam colaborar (ou impedir) com seus planos também sempre foi uma preocupação.
A comunicação direta à distância na pré-história sempre foi limitada a curtas distâncias, basicamente circulando e se difundindo lentamente de uma aldeia ou tribo nômade para outra conforme houvessem contatos casuais. Criar sinais que pudessem ser vistos à distância, como piras em chamas no alto de montanhas, bandeiras, reflexos de luz, soar de tambores ou outros instrumentos, ou colunas de fumaça nítidas e controladas configurando sinais pré combinados no céu, tiveram seu momento e sua utilidade, mas pecavam na confidenciabilidade do seu conteúdo e na necessidade de se capturar e interpretar com precisão um sinal que não poderia ser repetido. A eletricidade permitiu transmissão de sinais por fio (códigos sonoros, como o Morse, telefonia por fios de cobre e fibra ótica) ou por ondas eletromagnéticas (rádio, satélite), mas isso já no nosso tempo, e com seus próprios problemas.
Mesmo dessa forma rudimentar, antes da invenção da escrita populações no Mediterrâneo obtinham obsidiana produzida em minas no Oriente Médio a 900 km de distância. Eles sabiam que havia obsidiana lá, e comerciantes chegavam até eles com mercadoria para atender uma demanda local porque viajantes levavam essa informação entre um lugar e outro enquanto se deslocavam de acordo com seus próprios interesses. O Egito Antigo foi um ávido consumidor de lápis lázuli extraído no Afeganistão.
As redes de informação à distância evoluíram com as rotas comerciais - era por aí que fluíam as informações sobre novos materiais, novas tecnologias, novas armas e táticas, mesmo movimentos de povos e guerras distantes. O ferro, por exemplo, era um metal conhecido, embora raro e difícil de se trabalhar, encontrado no Oriente Médio e usado como ornamento, até que por volta de 1200 a.C., no centro da Anatólia, começou a se desenvolver novos métodos para a fundição de ferro. As armas de ferro usados pelos hititas para enfrentar as civilizações da baixa Idade do Bronze no rio Eufrates, na Palestina e, sobretudo, o Egito, provocaram uma revolução mundial na indústria bélica, na agricultura e na produção de instrumentos domésticos que definiram uma era inteira, a Idade do Ferro.
Se as informações fluíam pelas rotas comerciais, elas fluíam na velocidade que era possível. A pé, em carroças, barcos, caravanas, ou sobre o lombo de cavalos, sempre houve uma limitação para a velocidade com que uma informação gerada num ponto podia chegar a outro. O Império Persa construiu um sistema que explorava e otimizava a velocidade do seu veículo mais rápido disponível (o cavalo) para fazer com que mensagens circulassem o mais rapidamente possível, o que foi crucial para o estabelecimento e manutenção do Império Aquemênida, o maior do mundo até então. As estradas, ligando as principais cidades do império, eram pavimentadas, traçadas de maneira a evitar passagens muito intrincadas. Entre as capitais de Susa, a leste do rio Trigre, e Sardis, na atual Turquia, havia 111 estações, constantemente abastecidas com comida, água, acomodações para pernoite, e cavalos alimentados e descansados, de maneira que um mensageiro poderia fazer seu cavalo correr o mais rápido possível o tempo todo, trocá-lo por um cavalo descansado na próxima parada e seguir viagem a toda velocidade. Esse sistema, melhorado depois pelos romanos, foi o sistema de correios mais rápido do mundo até a invenção da locomotiva a vapor. Em alguns lugares em que sistemas semelhantes foram estabelecidos, muitos entrepostos acabaram evoluindo para novas cidades.
A invenção das locomotivas e barcos a vapor aceleraram a forma com que informação passou a ser trocada, mas, logicamente, ainda tinha suas próprias limitações de velocidade, especialmente num tempo em que o telégrafo já estava se desenvolvendo. Uma locomotiva a vapor no início do século XX era o meio de transporte mais rápido que se conhecia, mas ainda não era o objeto mais rápido. Projéteis impulsionados por explosões de pólvora gradualmente suplantaram o arco e a flecha no campo militar, e também inspiraram ideias. Em 1810 o escritor alemão Heinrich von Kleist propôs que se instalassem canhões ou morteiros fixos que atirassem projéteis ocos contendo cartas em locais abertos onde seriam recolhidos e distribuídos - ou levados ao próximo canhão e atirados a outra localidade, assim sucessivamente até se chegar ao seu destino. Ele calculava que era possível transpor uma distância de 300 km em metade de um dia desta maneira.
Foguetes, com propulsão própria, começaram a ser usados ainda no século XIX, e conforme sua autonomia de voo e precisão avançavam, eles se tornavam candidatos óbvios como veículos de correio rápido e de longa distância. Engenheiros alemães no final da década de 1920 calculavam ser possível percorrer um arco de 5 mil km com um foguete, cuja cápsula estaria equipada com um para-quedas, para evitar danos materiais e a integridade da correspondência. Existiam até esquemas para o lançamento sobre montanhas. Áustria, Alemanha, Inglaterra, Holanda, até Cuba fizeram seus testes. Um engenheiro inglês chamado Stephen Smith fez cerca de 270 testes com cerca de 20 foguetes providos pelo governo britânico na Índia - embora tenha tido algum progresso, o grande desafio ainda era acertar o alvo com segurança e efetivamente entregar a mensagem.
Como ficaria evidente durante a Segunda Guerra Mundial e os embaraçosos projetos de foguetes de longo alcance na Alemanha nazista, a ciência de foguetes ainda estava longe de produzir um meio rápido, seguro e preciso de envio de correspondência a longa distância. A aviação, por outro lado, avançava a passos largos, e mesmo na década de 1920 o correio aéreo era o meio pelo qual mensagens eram transportadas a médias e curtas distâncias na Europa e na América. Não obstante, os Estados Unidos continuaram perseguindo o desenvolvimento do correio via foguetes. A propulsão, a autonomia de vôo, e o relativo controle da rota só começaram a dar mostras de que isso seria viável já avançando nos anos 50.
Quando os americanos testaram o "rocket mail" via submarino, os aviões comerciais de grande porte já cruzavam o Atlântico regularmente, com capacidade para entregar toneladas de cartas e embrulhos de um continente a outro em menos de um dia. Por mais que os oficiais responsáveis pela operação tenham louvado a façanha como o início de uma nova era, a ideia do "rocket mail" foi logo depois abandonada em favor do correio aéreo. No final, foi um tiro no vazio.
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