Em 12 de janeiro de 1809, uma força marinha conjunta do Império Português e da Inglaterra tomou o controle de Caiena, capital da Guiana Francesa, brevemente anexando-a ao império colonial português em represália à invasão de Portugal por Napoleão.
A vinda da família real portuguesa ao Brasil em 1808, junto com toda a estrutura administrativa do Império Português, foi uma medida preventiva do príncipe regente João diante da iminente invasão francesa a Portugal. Embora manobrasse no campo diplomático, as relações indissolúveis com a Inglaterra (João, preso aos ingleses por tratado, até cogitou com o rei George III que os dois países declarassem uma guerra de fantasia para evitar a hostilidade com a França) e a volatilidade com que Napoleão tratava aliados de ocasião convenceram o príncipe português de que o mais seguro seria mover a corte para um lugar onde não pudesse ser capturada - o Rio de Janeiro funcionava como capital do império, enquanto o general Junot marchava sobre a casca oca que era Portugal, impedindo efetivamente que o império inteiro caísse. Isso não significa que Don João, em seu santuário tropical, tenha se mantido alheio às Guerras Napoleônicas.
Como a guerra envolvesse as metrópoles de vastos impérios coloniais, como Portugal, Inglaterra, Espanha, Holanda, ela era travada também longe da Europa. Em 1802, Napoleão, então cônsul da França, enviou um exército para esmagar a Revolução Haitiana (onde ex-escravos conquistaram a independência do país), mas foi notavelmente derrotado. Os ingleses, que até 1808 adotavam uma postura passivo-agressiva diante da incapacidade de uma invasão por terra por parte dos franceses e buscava furar o Bloqueio Continental aqui e ali (o fluxo de comércio com os Estados Unidos e o Brasil anulavam os danos do bloqueio na Europa), na América investiram agressivamente contra as colônias francesas, procurando estrangular o império napoleônico e, ao mesmo tempo, assimilar novas possessões. Na América do Norte, onde os britânicos eram senhores de quase tudo que hoje é o Canadá e os franceses tinham controle sobre o Quebec e uma enorme faixa de terra a oeste do Mississipi (a colônia da Louisiania, que recuperaram das mãos dos espanhóis por meio de um tratado em 1800 e que venderam amigavelmente aos Estados Unidos para levantar fundos para a guerra). Ali, ambos os lados, quando se viam incapazes de guerrear com seus próprios exércitos, armavam tribos nativas para que pudessem atacar fortes e colônias e fustigar o inimigo. Os Estados Unidos tentavam se manter alheios, mas conforme a guerra prosseguia, eles se viam mais envolvidos, até entrar em guerra aberta com o Canadá britânico por questões de fronteira em 1812.
As principais bases de operação de Napoleão no oeste do Atlântico eram os portos fortificados no Caribe, mantidos em cheque pela superioridade naval da marinha britânica. Na América do Sul, a presença francesa estava na Guiana, "pequena" faixa de terra ao norte da Bacia Amazônica usada basicamente para o cultivo de cana-de-açúcar ("pequena" em relação ao Brasil, pois possui cerca de 15% da extensão territorial da França continental). Caiena, sua capital situada na costa, era uma dessas cidades fortificadas onde navios da marinha francesa, piratas e corsários poderiam encontrar acolhida.
A Inglaterra precisaria suprimir o controle francês sobre esse ponto se quisesse assegurar suas rotas comerciais com a América. A crise causada pela interferência britânica nas colônias francesas no Caribe fizeram com que vários de seus governadores enviassem à França pedidos de socorro, então os ingleses sabiam que era a hora de atacar. Contudo, com grande parte da sua marinha comprometida com a patrulha do litoral norte-americano e Caribe, além dos navios empregados na proteção do território na Europa, os ingleses apelaram para seu único aliado incondicional que poderia agir na América do Sul: Portugal.
A França invadira Portugal em 1808 e tomara Lisboa apenas dois dias depois da família real ter zarpado. O general Junot ainda podia ver os últimos navios da esquadra portuguesa sumindo no horizonte. Isso frustrou os planos de depor a rainha e coroar algum títere, como Napoleão vinha fazendo em outras partes da Europa. A própria ocupação do território português, embora tenha sido invadido praticamente sem resistência, ficou impossibilitada porque os camponeses no caminho de Junot foram removidos de suas propriedades e tudo que podia ser aproveitado pelo invasor fora queimado. Também havia resistência no campo e nas cidades, de maneira que a ocupação francesa nunca chegou a ser tranquila. Mesmo a Espanha, sua aliada, não permaneceria colaboracionista por muito tempo.
João, que partira de sua terra com enorme pesar, tomava providências para que a nova capital, no Rio de Janeiro, tivesse condições de proteger a coroa em caso de uma improvável invasão francesa, ou, ao menos, pudesse assegurar uma autonomia quanto ao acesso a recursos estratégicos caso as rotas oceânicas fossem bloqueadas. Entre suas providências, ordenou o estabelecimento de toda a cadeia de produção de pólvora, e a fundação de um jardim de aclimatação para o cultivo de especiarias, o atual Jardim Botânico do Rio de Janeiro.
A marinha portuguesa no Brasil era tímida; apenas quatro naus haviam deixado Portugal junto com a família real, e os navios aqui eram apenas usados para patrulha e transporte, muito poucos aptos para a guerra. Porém, como a Inglaterra também estava limitada, o almirante Sidney Smith solicitou ao governo português o envio dos navios de que podia dispor para atacar Caiena. Dom João viu ali uma oportunidade (e os ingleses sabiam que veria) de não apenas fustigar a França, mas também de jogar para a mesa de negociações a questão da fronteira entre a Guiana Francesa e aquela parte do Grão-Pará que seria conhecida em tempos coloniais como Guiana Brasileira (ou Portuguesa), e que hoje constitui o estado do Amapá: desde fins do século XVIII, a França conseguira, através de tratados, avançar a fronteira da Guiana para além do rio Oiapoque, tomando o que hoje é o oeste e o norte do Amapá. Portugal pretendia recuperar essas terras e firmar a fronteira ao longo do Oiapoque.
Dom João respondeu mobilizando quatro naus: o Voador, o Vingança (as duas embarcações munidas de canhões, sendo que a última tinha no seu histórico a captura de um navio pirata a serviço da França em 1801), o Infante Dom Pedro, e o Leão, carregando 550 soldados sob comando do tenente-coronel Manuel Marques. Eles comporiam uma esquadra sob o comando do almirante James Lucas Yeo. A esquadra partiu de Belém no começo de dezembro de 1808, e ainda naquele mês bombardeou as colônias costeiras de Oiapoque e Aprouague.
No dia 6 de janeiro de 1809, diante das fortificações de Caiena, o almirante Yeo optou por atacar por terra ancoradouros ao longo do rio Maruhy para atrair soldados franceses para uma batalha campal. Ingleses e portugueses no primeiro momento tomaram duas fortificações e renderam cerca de 90 soldados dos 450 que guardavam a cidade. À medida em que os invasores avançavam, tomando mais fortes ao longo do Maruhy, o governador de Caiena, Victor Hugues respondia de maneira desastrada, sem conhecimento da posição ou do tamanho do inimigo, ora oferecendo combate em desvantagem, ora superestimando e recuando diante de forças bem menores. No dia 9, o almirante Yeo liderou pessoalmente o ataque à residência do governador, e iniciou a marcha para a cidade propriamente dita. No dia 12, Hugues assinou sua rendição. Dezessete soldados morreram nos confrontos, apenas um deles do lado anglo-português.
A entrada das tropas na cidade estava programada para o dia 14, mas no dia 13, uma enorme fragata francesa, o Topaze, se aproximou do porto. Desfalcada do Infante Dom Pedro, a esquadra anglo-portuguesa só dispunha da canhoneira britânica Confiance em posição de defesa, porém com metade da capacidade de fogo e sem tripulação. Se o Topaze, com seus canhões e um reforço para a guarnição local aportasse, a operação seria um fracasso. O capitão do navio, George Yeo, irmão do almirante, rapidamente contratou negros libertos locais para tripular o navio e manobrá-lo audaciosamente para uma posição de combate. Como o Topaze estivesse carregando mais de mil barris de farinha, seu capitão recebera ordens de evitar combate se isso pusesse a carga em risco. Então ele deu meia volta e sumiu no horizonte - o Topaze foi afundado dez dias depois num confronto com ingleses perto da ilha de Guadalupe.
No dia 14, enfim, a cidade abriu os portões e se rendeu. Soldados foram presos e armas apreendidas, e a administração entregue por Hughes e Yeo ao Marquês de Queluz. Ao invés de integrada à colônia do Brasil, foi criada ali a colônia de Caiena e Guiana. A colônia existiu sob controle português até 1815, quando os termos da sua devolução e o estabelecimento da fronteira ao longo do Oiapoque foram acertados entre o rei Luis XVIII e o príncipe regente no Congresso de Viena. Apenas em 1817 uma delegação francesa chegou a Caiena para tomar posse da colônia.
A breve presença portuguesa na Guiana Francesa, além de resultar no estabelecimento da fronteira entre o território e o Brasil, teve como consequência curiosa o enriquecimento dos jardins botânicos no Brasil. Os franceses haviam investido no plantio de especiarias na Guiana, e perto de Caiena havia um complexo de jardins de plantas de interesse econômico e estratégico. De posse desses jardins, os portugueses providenciaram o transporte de mudas e sementes de craveiros, caneleiras, pimenteiras, palmeiras, noz-moscada, frutas-pão, abacateiros, além de uma variedade de cana-de-açúcar local superior à que se plantava no Brasil, a cana-caiena, totalizando 86 espécies inexistentes no Brasil que foram remetidas a Belém, e de lá ao novo Jardim Botânico do Rio de Janeiro.
Neste dia também: Guerra de Biafra
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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017
Queda de Caiena
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sexta-feira, 27 de novembro de 2015
Despedida de Portugal
Em 27 de novembro de 1807, a rainha de Portugal Maria I, o príncipe regente dom João, sua família, e toda a corte portuguesa, embarcaram no porto de Lisboa, de onde zarpariam dois dias depois em direção ao Brasil. A corte portuguesa fixaria residência no Rio de Janeiro até 1816.
A Revolução Francesa, que substituiu o Antigo Regime monárquico por algo semelhante a uma República burguesa, colocou a França no centro das atenções de todas as potências europeias. Todas monarquias mais ou menos absolutistas ou controladas por antigas oligarquias agrárias e mercantis, uma após a outra abriram hostilidades contra o movimento revolucionário no centro do continente (e vice-versa). Nesse rebuliço, Napoleão Bonaparte chegou ao comando da França Revolucionária, e iniciou um movimento expansionista em todas as direções.
A situação de Portugal no cenário pós-revolucionário já era delicada quando Napoleão entrou em cena. Sua relação com a França dependia da relação da França com a Inglaterra, de quem Portugal já era um antigo aliado. Portugal não abriria mão do poder inglês ao seu lado. Em 1801, a crise diplomática entre França e Inglaterra jogaram Portugal e Espanha (aliada da França) um contra o outro na atabalhoada Guerra das Laranjas, que resultou na incorporação da cidade portuguesa de Olivença pelos espanhóis, e ganhos significativos da colônia do Brasil sobre territórios da América Espanhola no Sul e no Mato Grosso.
João, que viria a ser coroado como rei João VI apenas em 1816, já era o regente desde 1799, devido à deterioração do estado mental de sua mãe. Ele manobrara rapidamente para evitar uma guerra destrutiva no episódio da Guerra das Laranjas (que durou apenas o tempo suficiente para um embaixador português sair de Lisboa e encontrar as autoridades espanholas e francesas para um acordo). Mas conforme os eventos na Europa central iam se desenvolvendo (Napoleão vencera em 1805 uma grande coalizão militar, conquistando os mais poderosos reinos da Itália, e causando a dissolução do Sacro Império Romano), estava ficando claro para Portugal que sua aliança com os ingleses, contra quem Napoleão se esforçava em subjugar no campo da economia com o Bloqueio Continental, iria lhe custar caro. Como Portugal não tinha poderio militar para fazer frente à França, João tentava ganhar tempo evitando enlaces diplomáticos que os colocassem em lados francamente opostos. Ele chegou mesmo a sugerir a George III da Inglaterra que os dois declarassem uma guerra fictícia. Mas como Portugal não obedecia ao Bloqueio Continental (a Inglaterra continuava exportando seus produtos para a Europa via Portugal), isso não adiantaria.
Em agosto Napoleão enviou uma carta com demandas a dom João, exigindo a adesão ao Bloqueio, a declaração de guerra à Inglaterra, a prisão de todos os ingleses no país e sequestro de seus bens. Às pressas reuniu-se o Conselho de Estado, cujos membros estavam divididos entre pró-ingleses e pró-franceses. Por um momento, esses últimos conseguiram formar uma maioria (com participação ativa do embaixador francês em Lisboa, general Jean Lannes), e apresentaram ao príncipe regente a carta aceitando parte dos termos exigidos, com exceção da prisão e sequestro de bens de cidadãos, por serem contra princípios cristãos (para os quais Napoleão e o que restava dos revolucionários franceses não davam a mínima). Porém, a decisão veio tarde demais.
Em meados de outubro de 1807, cerca de 28 mil soldados franceses sob o marechal Junot entraram na Espanha, ainda aliada da França. Este foi o sinal de alerta para dom João de que a guerra viria em sua direção. Antes de qualquer hostilidade, João acionou o embaixador português em Londres, Sousa Coutinho, para firmar um acordo secreto com a Coroa britânica para lhe fornecer proteção durante a transferência de Lisboa ao Rio de Janeiro, em caso de invasão estrangeira. O Conselho português já havia deliberado que, em caso de risco extremo, os filhos de João seriam transferidos para o Brasil. O novo acordo previa o transporte e a escolta para toda a família real e seus tesouros, o corpo de ministros, secretários, militares, religiosos, cortesões, suas respectivas famílias e serviçais. Para manter as aparências, no mesmo dia em que o tratado secreto era assinado em Londres, João ordenou o fechamento de seus portos aos ingleses, e o Conde da Barca, ministro da defesa, desviou parte do efetivo português para defender os portos contra uma invasão inglesa. Era a última cartada para testar a real intenção da aliança franco-espanhola.
A caricatura de dom João VI no Brasil é de um sujeito indolente e deselegante, mas quando exposto às adversidades, estava sempre um passo à frente: cinco dias depois da assinatura do tratado (esquivando-se da complacência do partido pró-francês, que ainda aguardava o desenrolar dos acontecimentos no país vizinho), França e Espanha assinaram um acordo de cooperação militar, cujo prêmio incluía a divisão do reino de Portugal entre seus signatários, prevendo, inclusive, a cessão do norte de Portugal ao extinto Reino da Etrúria, governado anteriormente pela filha do rei da Espanha e conquistado por Napoleão. João tomou conhecimento deste tratado através de um jornal francês que o publicara por ordem de Napoleão, expedido por Sousa Coutinho, de Londres (o imperador esperava que a publicação chegasse mais rápido ao marechal Junot, em marcha forçada, do que um decreto levado por um mensageiro). Ainda em outubro, a última esperança de resistência na Espanha, uma conspiração liberal arquitetada pelo príncipe Fernando (que mais tarde seria coroado Fernando VII) foi descoberta, e o príncipe preso. Era a guerra. Em meados de novembro, Junot estava cruzando a fronteira. Embora o exército português praticamente não tenha oferecido resistência, a marcha dos invasores não foi fácil: os camponeses e os proprietários de terras se retiraram com tudo que podiam carregar, deixando para trás suas terras queimadas, sua produção destruída, inclusive equipamentos e instalações, para que os franceses e espanhóis não pudessem tomar proveito de nada. Essa tática de terra arrasada seria repetida pelos russos em 1812.
No dia 23 de novembro chegou oficialmente a notícia da invasão francesa. O general Lecor, designado por João para observar o movimento do inimigo, mandava notícias alarmantes da velocidade de marcha de Junot. Imediatamente, o príncipe regente tomou as providências para a fuga de Lisboa. Nos três dias seguintes, a família real e seu séquito, somando cerca de 15 mil pessoas e seus pertences, embarcaram numa numerosa esquadra formada por grande parte da marinha portuguesa (16 navios de guerra no total, além de 21 navios mercantes com cargas e mantimentos). Um soturno dom João era visto subindo e descendo o porto com lágrimas nos olhos, evitando de falar ao povo que assistia à cena sobressaltado. No embarque, as pessoas aflitas se aproximavam tanto que o príncipe precisava afastá-los com as mãos; outros diziam que elas as beijavam. Dona Maria pediu ao cocheiro que a levasse calmamente até o porto, porque não estava fugindo.
Cinco nomes foram designados a permanecer no país e constituir uma Junta Governativa, a qual foi instruída a não oferecer resistência os franceses. Apenas alguns navios de linha (grandes embarcações armadas com canhões que recebiam este nome porque se destinavam a combater alinhadas paralelamente a outras embarcações ou alvos terrestres) foram mantidos ao largo da costa portuguesa e colocados, por força de tratado, à disposição da marinha inglesa. Uma flotilha de navios de guerra ingleses os escoltou até a Ilha da Madeira, passando com alguma dificuldade por uma tempestade que dispersou a frota, nas sem casualidades. De lá, uma parte das naus inglesas regressou, restando quatro navios para cruzar o oceano até Salvador.
A contrapartida portuguesa ao apoio inglês para a retirada da família real seria a abertura dos portos brasileiros ao comércio com os ingleses, privilégio até então exclusivo dos portugueses. João oficializou o acordo por um decreto assim que chegou ao porto de Salvador, em janeiro de 1808, abrindo os portos brasileiros "às nações amigas". Este detalhe, acertado em um anexo do acordo secreto (que também cedia aos ingleses o comando sobre os fortes portugueses ao longo do rio Tejo e da Ilha da Madeira), teria enorme impacto na história do Brasil dali para frente. O comércio com o Brasil era um canal de escoamento para os comerciantes ingleses, cuja entrada na Europa continental estava limitada pelo Bloqueio Continental (violado clandestinamente aqui ou ali), e se tornou mais importante ainda quando Inglaterra e Estados Unidos entraram em guerra em 1812. Para o Brasil, a movimentação de capital (agilizada com a fundação do Banco do Brasil) e intercâmbio técnico permitiu um rápido desenvolvimento da colônia a partir do Rio de Janeiro. A infraestrutura montada por dom João, com a instituição de correios, imprensa, instituições acadêmicas, academias militares, uma fábrica de pólvora (outra medida em que dom João se antecipava a Napoleão, tornando possível fabricar pólvora no Brasil sem depender do tráfego oceânico e de possíveis bloqueios franceses, além de armar a colônia contra uma possível invasão), etc., e uma relação comercial saudável com a Inglaterra, fez a colônia prosperar. Quando João retornou a Portugal em 1816 para enfrentar as crises políticas que ocorriam na metrópole após a morte da rainha Maria, deixou seu herdeiro Pedro de Alcântara no Rio de Janeiro, cercado por uma emergente elite liberal que o influenciaria a tomar para si as rédeas da parte economicamente mais importante do Império Português.
Quanto à campanha francesa na Península Ibérica, Junot chegou a Lisboa apenas 4 dias após o embarque da família real, dois após a sua partida. Ele ainda conseguia ver os últimos navios sumirem no horizonte. Com a rainha e seu príncipe regente governando o Império Português no Brasil (na única vez em que uma colônia sediou uma corte europeia), o plano de substituir a casa real portuguesa por monarcas títeres foi por água abaixo. Apesar do comando de João para não haver resistência por parte da administração deixada no país, os portugueses não se entregariam facilmente. De fato, Junot nem conseguiu efetivamente ocupar Portugal, restringindo sua presença a uma estreita faixa entre a fronteira e Lisboa. Enquanto isso, na Espanha, Napoleão foi além de mandar prender o príncipe Fernando; como suspeitasse de que o imperador francês planejava substituí-lo por algum parente seu (como vinha fazendo em outros lugares), um incidente que resultou na prisão do ministro pró-francês Manuel de Godoy resultou na abdicação do rei Carlos VII em favor de Fernando. Napoleão tentou resolver o assunto forçando a renúncia de ambos ao trono e a coroação de seu irmão José Bonaparte. A interferência direta na monarquia, além da própria invasão a Portugal, foram extremamente impopulares entre os espanhois. A tomada de Madri pelo general Murat foi a gota d'água para revoltas generalizadas estourarem por toda a Espanha, transformando uma campanha relativamente simples de tomada de Portugal numa longa e desgastante guerra de guerrilha por toda a península (a Guerra Peninsular, que se desenvolveria para uma guerra formal com a entrada da Inglaterra), que no final iria a custar a Napoleão sua própria coroa.
A Revolução Francesa, que substituiu o Antigo Regime monárquico por algo semelhante a uma República burguesa, colocou a França no centro das atenções de todas as potências europeias. Todas monarquias mais ou menos absolutistas ou controladas por antigas oligarquias agrárias e mercantis, uma após a outra abriram hostilidades contra o movimento revolucionário no centro do continente (e vice-versa). Nesse rebuliço, Napoleão Bonaparte chegou ao comando da França Revolucionária, e iniciou um movimento expansionista em todas as direções.
A situação de Portugal no cenário pós-revolucionário já era delicada quando Napoleão entrou em cena. Sua relação com a França dependia da relação da França com a Inglaterra, de quem Portugal já era um antigo aliado. Portugal não abriria mão do poder inglês ao seu lado. Em 1801, a crise diplomática entre França e Inglaterra jogaram Portugal e Espanha (aliada da França) um contra o outro na atabalhoada Guerra das Laranjas, que resultou na incorporação da cidade portuguesa de Olivença pelos espanhóis, e ganhos significativos da colônia do Brasil sobre territórios da América Espanhola no Sul e no Mato Grosso.
João, que viria a ser coroado como rei João VI apenas em 1816, já era o regente desde 1799, devido à deterioração do estado mental de sua mãe. Ele manobrara rapidamente para evitar uma guerra destrutiva no episódio da Guerra das Laranjas (que durou apenas o tempo suficiente para um embaixador português sair de Lisboa e encontrar as autoridades espanholas e francesas para um acordo). Mas conforme os eventos na Europa central iam se desenvolvendo (Napoleão vencera em 1805 uma grande coalizão militar, conquistando os mais poderosos reinos da Itália, e causando a dissolução do Sacro Império Romano), estava ficando claro para Portugal que sua aliança com os ingleses, contra quem Napoleão se esforçava em subjugar no campo da economia com o Bloqueio Continental, iria lhe custar caro. Como Portugal não tinha poderio militar para fazer frente à França, João tentava ganhar tempo evitando enlaces diplomáticos que os colocassem em lados francamente opostos. Ele chegou mesmo a sugerir a George III da Inglaterra que os dois declarassem uma guerra fictícia. Mas como Portugal não obedecia ao Bloqueio Continental (a Inglaterra continuava exportando seus produtos para a Europa via Portugal), isso não adiantaria.
Em agosto Napoleão enviou uma carta com demandas a dom João, exigindo a adesão ao Bloqueio, a declaração de guerra à Inglaterra, a prisão de todos os ingleses no país e sequestro de seus bens. Às pressas reuniu-se o Conselho de Estado, cujos membros estavam divididos entre pró-ingleses e pró-franceses. Por um momento, esses últimos conseguiram formar uma maioria (com participação ativa do embaixador francês em Lisboa, general Jean Lannes), e apresentaram ao príncipe regente a carta aceitando parte dos termos exigidos, com exceção da prisão e sequestro de bens de cidadãos, por serem contra princípios cristãos (para os quais Napoleão e o que restava dos revolucionários franceses não davam a mínima). Porém, a decisão veio tarde demais.
Em meados de outubro de 1807, cerca de 28 mil soldados franceses sob o marechal Junot entraram na Espanha, ainda aliada da França. Este foi o sinal de alerta para dom João de que a guerra viria em sua direção. Antes de qualquer hostilidade, João acionou o embaixador português em Londres, Sousa Coutinho, para firmar um acordo secreto com a Coroa britânica para lhe fornecer proteção durante a transferência de Lisboa ao Rio de Janeiro, em caso de invasão estrangeira. O Conselho português já havia deliberado que, em caso de risco extremo, os filhos de João seriam transferidos para o Brasil. O novo acordo previa o transporte e a escolta para toda a família real e seus tesouros, o corpo de ministros, secretários, militares, religiosos, cortesões, suas respectivas famílias e serviçais. Para manter as aparências, no mesmo dia em que o tratado secreto era assinado em Londres, João ordenou o fechamento de seus portos aos ingleses, e o Conde da Barca, ministro da defesa, desviou parte do efetivo português para defender os portos contra uma invasão inglesa. Era a última cartada para testar a real intenção da aliança franco-espanhola.
A caricatura de dom João VI no Brasil é de um sujeito indolente e deselegante, mas quando exposto às adversidades, estava sempre um passo à frente: cinco dias depois da assinatura do tratado (esquivando-se da complacência do partido pró-francês, que ainda aguardava o desenrolar dos acontecimentos no país vizinho), França e Espanha assinaram um acordo de cooperação militar, cujo prêmio incluía a divisão do reino de Portugal entre seus signatários, prevendo, inclusive, a cessão do norte de Portugal ao extinto Reino da Etrúria, governado anteriormente pela filha do rei da Espanha e conquistado por Napoleão. João tomou conhecimento deste tratado através de um jornal francês que o publicara por ordem de Napoleão, expedido por Sousa Coutinho, de Londres (o imperador esperava que a publicação chegasse mais rápido ao marechal Junot, em marcha forçada, do que um decreto levado por um mensageiro). Ainda em outubro, a última esperança de resistência na Espanha, uma conspiração liberal arquitetada pelo príncipe Fernando (que mais tarde seria coroado Fernando VII) foi descoberta, e o príncipe preso. Era a guerra. Em meados de novembro, Junot estava cruzando a fronteira. Embora o exército português praticamente não tenha oferecido resistência, a marcha dos invasores não foi fácil: os camponeses e os proprietários de terras se retiraram com tudo que podiam carregar, deixando para trás suas terras queimadas, sua produção destruída, inclusive equipamentos e instalações, para que os franceses e espanhóis não pudessem tomar proveito de nada. Essa tática de terra arrasada seria repetida pelos russos em 1812.
No dia 23 de novembro chegou oficialmente a notícia da invasão francesa. O general Lecor, designado por João para observar o movimento do inimigo, mandava notícias alarmantes da velocidade de marcha de Junot. Imediatamente, o príncipe regente tomou as providências para a fuga de Lisboa. Nos três dias seguintes, a família real e seu séquito, somando cerca de 15 mil pessoas e seus pertences, embarcaram numa numerosa esquadra formada por grande parte da marinha portuguesa (16 navios de guerra no total, além de 21 navios mercantes com cargas e mantimentos). Um soturno dom João era visto subindo e descendo o porto com lágrimas nos olhos, evitando de falar ao povo que assistia à cena sobressaltado. No embarque, as pessoas aflitas se aproximavam tanto que o príncipe precisava afastá-los com as mãos; outros diziam que elas as beijavam. Dona Maria pediu ao cocheiro que a levasse calmamente até o porto, porque não estava fugindo.
Cinco nomes foram designados a permanecer no país e constituir uma Junta Governativa, a qual foi instruída a não oferecer resistência os franceses. Apenas alguns navios de linha (grandes embarcações armadas com canhões que recebiam este nome porque se destinavam a combater alinhadas paralelamente a outras embarcações ou alvos terrestres) foram mantidos ao largo da costa portuguesa e colocados, por força de tratado, à disposição da marinha inglesa. Uma flotilha de navios de guerra ingleses os escoltou até a Ilha da Madeira, passando com alguma dificuldade por uma tempestade que dispersou a frota, nas sem casualidades. De lá, uma parte das naus inglesas regressou, restando quatro navios para cruzar o oceano até Salvador.
A contrapartida portuguesa ao apoio inglês para a retirada da família real seria a abertura dos portos brasileiros ao comércio com os ingleses, privilégio até então exclusivo dos portugueses. João oficializou o acordo por um decreto assim que chegou ao porto de Salvador, em janeiro de 1808, abrindo os portos brasileiros "às nações amigas". Este detalhe, acertado em um anexo do acordo secreto (que também cedia aos ingleses o comando sobre os fortes portugueses ao longo do rio Tejo e da Ilha da Madeira), teria enorme impacto na história do Brasil dali para frente. O comércio com o Brasil era um canal de escoamento para os comerciantes ingleses, cuja entrada na Europa continental estava limitada pelo Bloqueio Continental (violado clandestinamente aqui ou ali), e se tornou mais importante ainda quando Inglaterra e Estados Unidos entraram em guerra em 1812. Para o Brasil, a movimentação de capital (agilizada com a fundação do Banco do Brasil) e intercâmbio técnico permitiu um rápido desenvolvimento da colônia a partir do Rio de Janeiro. A infraestrutura montada por dom João, com a instituição de correios, imprensa, instituições acadêmicas, academias militares, uma fábrica de pólvora (outra medida em que dom João se antecipava a Napoleão, tornando possível fabricar pólvora no Brasil sem depender do tráfego oceânico e de possíveis bloqueios franceses, além de armar a colônia contra uma possível invasão), etc., e uma relação comercial saudável com a Inglaterra, fez a colônia prosperar. Quando João retornou a Portugal em 1816 para enfrentar as crises políticas que ocorriam na metrópole após a morte da rainha Maria, deixou seu herdeiro Pedro de Alcântara no Rio de Janeiro, cercado por uma emergente elite liberal que o influenciaria a tomar para si as rédeas da parte economicamente mais importante do Império Português.
Quanto à campanha francesa na Península Ibérica, Junot chegou a Lisboa apenas 4 dias após o embarque da família real, dois após a sua partida. Ele ainda conseguia ver os últimos navios sumirem no horizonte. Com a rainha e seu príncipe regente governando o Império Português no Brasil (na única vez em que uma colônia sediou uma corte europeia), o plano de substituir a casa real portuguesa por monarcas títeres foi por água abaixo. Apesar do comando de João para não haver resistência por parte da administração deixada no país, os portugueses não se entregariam facilmente. De fato, Junot nem conseguiu efetivamente ocupar Portugal, restringindo sua presença a uma estreita faixa entre a fronteira e Lisboa. Enquanto isso, na Espanha, Napoleão foi além de mandar prender o príncipe Fernando; como suspeitasse de que o imperador francês planejava substituí-lo por algum parente seu (como vinha fazendo em outros lugares), um incidente que resultou na prisão do ministro pró-francês Manuel de Godoy resultou na abdicação do rei Carlos VII em favor de Fernando. Napoleão tentou resolver o assunto forçando a renúncia de ambos ao trono e a coroação de seu irmão José Bonaparte. A interferência direta na monarquia, além da própria invasão a Portugal, foram extremamente impopulares entre os espanhois. A tomada de Madri pelo general Murat foi a gota d'água para revoltas generalizadas estourarem por toda a Espanha, transformando uma campanha relativamente simples de tomada de Portugal numa longa e desgastante guerra de guerrilha por toda a península (a Guerra Peninsular, que se desenvolveria para uma guerra formal com a entrada da Inglaterra), que no final iria a custar a Napoleão sua própria coroa.
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
O Congresso de Viena
Em 1 de outubro de 1814, foi inaugurado o Congresso de Viena, uma enorme conferência entre representações diplomáticas de toda a Europa, para redefinir fronteiras, relações diplomáticas e comerciais entre as nações europeias após o fim do império de Napoleão.
Após a fracassada invasão à Rússia, a França começou a perder suas frágeis alianças com as antigas potências centrais da Áustria, da Prússia, dos principados alemães que compunham a Confederação Germânica, da Suécia, além da própria Rússia (até 1811, uma "parceira" no plano de Napoleão de estrangular a economia inglesa na Europa com o Bloqueio Continental). A Prússia, particularmente, se viu obrigada a participar da campanha russa sob Napoleão, o que levou muitos soldados e oficiais a desertarem para o lado russo. Após a retirada francesa no final de 1812, o comandante do exército prussiano Von Wartenburg assinou por conta própria um tratado com a Rússia, por intermédio do general prussiano Von Diebitsch, a serviço do Tzar, e esse tratado evoluiria para uma declaração de guerra "pela libertação dos povos germânicos" no começo do ano seguinte. A Suécia, forçada sob jugo francês após a invasão da Pomerânia (na época uma possessão sueca na Alemanha) e uma invasão punitiva à Finlândia pela Rússia (quando ainda aliada francesa), seguiu o mesmo caminho, assinando uma aliança com a Inglaterra, quando os ingleses sinalizaram positivamente sobre suas pretensões territoriais na Noruega (então sob a coroa dinamarquesa). Foi já com a guerra em curso na Alemanha que a Áustria finalmente se juntou aos aliados contra Napoleão.
Além do esforço de guerra renovado da Inglaterra e de uma nova coalizão no leste, a França também sofria para manter a Península Ibérica sob controle. A arrastada Guerra Peninsular consumira recursos materiais e humanos desde 1807, e embora sob o comando do marechal Junot o exército francês tenha alcançado Lisboa, uma contínua resistência tanto na Espanha como em Portugal, e também na América (a marinha luso-brasileira conquistou Caiena, capital da Guiana Francesa em 1809, e mesmo no Brasil a coroa portuguesa tomava providências para se armar contra possíveis ataques franceses), com apoio inglês, se tornou insustentavelmente desgastante, ameaçando o próprio prestígio de Napoleão na França. Após 1812, os exércitos conjuntos de Portugal, Espanha e Inglaterra empurraram os franceses de volta à França, enquanto Áustria, Prússia, Rússia, Suécia, e um crescente número de principados alemães tentavam encarniçadamente abrir caminho pela Alemanha. De abril a junho de 1813, cerca de 250 mil soldados de ambos os lados já haviam morrido em combate.
Em novembro de 1813, com a maior parte do exército francês já deslocado para o oeste do rio Reno, os aliados ofereceram a Napoleão uma proposta de paz, que garantia à França a posse da Bélgica, da Savóia (parte do sudeste da França e noroeste da Itália), e de todas as terras à esquerda do Reno e ao norte dos Pirineus, se Napoleão abrisse mão de todo o resto. O embaixador responsável por levar essa proposta a Napoleão foi o príncipe austríaco Metternich, que voltará à cena mais tarde. Napoleão, convicto da sua vitória final, recusou os termos e renovou as hostilidades, ordenando por decreto novas convocações para a reconstrução do seu exército. Novas derrotas (inclusive em território francês, graças ao avanço do Duque de Wellington a partir da Espanha) e tumultos internos fizeram o último aliado francês, a Dinamarca, sob ataque sueco, a se declarar pela coalizão. No começo de 1814, os aliados no leste conseguiram empurrar o exército francês cada vez mais (apesar de vitórias de Napoleão), até alcançarem Paris em março. Ali os generais franceses se recusaram a seguir ordens de levar a guerra para as ruas da cidade. Em 11 de abril, Napoleão abdicou e foi exilado para a ilha de Elba, na Itália. A monarquia foi restituída na França.
Acontece que com a guerra no continente por mais de 20 anos, houve o surgimento e a dissolução de impérios inteiros; em 1806 desapareceu o Sacro Império Romano, substituído em parte pela Confederação do Reno, criada por Napoleão, cujo império agora também desaparecera. Agora que os aliados venceram a guerra e restauraram um regime conservador na França, chegara a hora de decidir o que pertencia a quem. Os quatro principais poderes - Inglaterra, Áustria, Prússia e Rússia - decidiram entre si a partilha de territórios no Tratado de Chaumont, antes mesmo da rendição de Napoleão. O tratado continha uma cláusula que condicionava a paz à aceitação pela França das suas fronteiras antes das guerras revolucionárias, ao que Napoleão rejeitou, dando continuidade à guerra. Os termos de Chaumont foram replicados no Tratado de Paris, que era mais uma declaração de rendição, que perderia valor tão logo a guerra fosse restaurada entre eles. Além disso, o tratado versava sobre termos que influenciavam outros países, sem a sua participação ou arbitragem internacional. Por isso, mais tarde, para que as divisões acertadas em Chaumont pudessem ser aplicadas oficialmente (com ratificação da França), os aliados convocaram o Congresso de Viena, com a participação do seu ministro do exterior, Talleyrand, e representantes dos demais países, principados, ducados, e casas reinantes, inclusive países neutros, como os cantões suíços e os Estados Papais, totalizando mais de 200 delegações, e milhares de representantes. Além de delegados de empresas, lobistas, advogados, religiosos, de organizações patronais, interessados nas discussões e propensos a incluir os interesses das suas classes na pauta da nova ordem européia. A Condessa de Bernstorff se recordava de ouvir falar até de um visionário anônimo com uma Constituição comum pronta debaixo do braço, mas que não chegou a ter a oportunidade de mostrá-la a alguém.
Com a presença de tantos nobres, políticos e notáveis, o Congresso de Viena foi conduzido durante 10 meses, e as decisões eram acordadas tanto em reuniões formais, abertas ou fechadas, entre estadistas, ministros e embaixadores, como em bailes, festas e banquetes pelos palácios e teatros de Viena (descrita às vezes como "um enorme palácio"), sob a cortesia da casa reinante austríaca dos Habsburgo. A frivolidade dos encontros levou o idoso príncipe belga Carlos José de Ligne, célebre pelas suas tiradas espirituosas, a comentar que "O Congresso não anda, ele dança". Com tantos políticos de olho em seus próprios interesses, parecia impossível que se pudesse chegar a algum acordo sobre qualquer assunto (a cordialidade festiva entre eles nos encontros era menos uma demonstração de boa vontade do que uma forma de sondar os interesses dos rivais). Por isso, as principais negociações eram levadas a portas fechadas pelos representantes das quatro potências, e separadamente entre os poderes menos importantes (frequentemente com a supervisão de um observador das quatro potências).
Inicialmente, pretendia-se excluir a França das conversações. Príncipe Metternich, o representante austríaco, intentava encontrar seus aliados fora da cidade, no seu retiro em Baden. Como os dignatários preferissem Viena, Metternich conseguiu arranjar pelo menos quatro reuniões particulares entre eles. Mas em Viena, essas reuniões não ficaram em segredo por muito tempo. Talleyrand conseguiu se esgueirar para este círculo fechado em janeiro de 1815, propondo a Áustria e Inglaterra apoio na questão da partilha da Polônia (mais adiante). Com a ajuda do representante da Espanha, o Marquês de Labrador, apesar do desprezo um pelo outro, eles mantiveram as negociatas das quatro potências em cheque.
A habilidade de Metternich (responsável também por entreter os participantes do Congresso) serviu bem aos interesses da Áustria e seus aliados. Ele conseguiu que os príncipes alemães, soberanos de territórios às vezes restritos às próprias cidadelas onde viviam, e que chegavam a mais de 300 sob o Sacro Império Romano, concordassem em fundir seus países em unidades maiores e se unissem politicamente numa nova Confederação Alemã (cujo primeiro presidente seria o próprio imperador austríaco Francisco I), vizinha e aliada próxima da Prússia. Esta Confederação Alemã (agora com apenas 39 Estados) seria o embrião para a unificação alemã décadas mais tarde, e de sua união com a própria Prússia. A Áustria a Lombardia e o Vêneto, atual nordeste da Itália, incluindo a rica cidade de Veneza eram passados para a tutela dos Habsburgo, além de colocar sob sua proteção as terras cedidas à filha de Napoleão, Marie Louise, na Itália. Alguns membros dos Habsburgo foram nomeados para outros territórios na Itália, como a Toscana, para mitigar o corrente sentimento anti-austríaco na península. Durante o Congresso, a Áustria declarou guerra ao reino de Nápoles, governado por Joaquim Murat, irmão do ex-imperador francês, anexando-o em três semanas. Durante as negociações chegou também a notícia de que Napoleão escapara de Elba com 1200 homens e estava reunindo um exército no sul da França por conta própria. Metternich, ainda de pijamas, convocou os aliados e conseguiu que os quatro e a França cedessem 150 mil soldados cada e declarassem o general um fora-da-lei (o problema de Napoleão terminaria antes do fim do Congresso, em junho de 1815, na Batalha de Waterloo). A intromissão de Napoleão, no entanto, custou à França alguns territórios acordados anteriormente.
As conversas sobre a federalização da Alemanha foram as mais trabalhosas, mas nem de perto tão tensas quanto a mediação dos interesses da Prússia e da Rússia sobre a Polônia. Quando Napoleão conquistou a "Polônia", ela não existia mais como entidade geopolítica: estava dividida entre Prússia e Rússia. Napoleão chegou anunciando-se como libertador do povo polonês, e para enfatizar isso, criou o Grão-Ducado de Varsóvia, um reino independente mas que, na prática, era um Estado-cliente que servia para "acolchoar" a fronteira com a Rússia. O Tzar Alexandre I fazia questão do território correspondente ao Grão-Ducado (ele pretendia assumir o título de Rei da Polônia). A Áustria e a Inglaterra temiam que isso desse aos russos poder demais, preferindo uma partilha entre os dois vizinhos. Numa conversa, Metternich deixou escapar um comentário a Alexandre dando a entender que os dois países se equivaliam militarmente. O Tzar ameaçou deixar o Congresso e se recusou a encontrar Metternich novamente, colocando todas as outras negociações em risco. Ele teria chegado até a desafiar o diplomata austríaco para um duelo. No final, percebendo a articulação de Talleyrand com britânicos e austríacos, ele acabaria concordando com a partilha da Polônia (a maior parte do antigo Grão-Ducado tornava-se o Reino da Polônia, independente, mas sob influência russa), apoiando inclusive a anexação de parte da Saxônia (atualmente na Alemanha) pela Prússia. O Tzar, acreditando-se um "benfeitor da humanidade", ainda seria o articulador da Santa Aliança com a Áustria e a Prússia com vistas a reprimir novos movimentos liberais no continente.
Quanto às demais nações: a Dinamarca, cujo jovem rei Frederico VI era tido como uma das mais amáveis figuras presentes no Congresso, se viu obrigada a ceder a Noruega à Suécia. A Suécia, por sua vez, abriu mão da Finlândia, ocupada pelos russos desde 1809. A Suécia também cedeu a Pomerânia à Prússia, e a sua colônia caribenha em Guadalupe à França. A Holanda reconquistou sua independência, e incorporou a Bélgica, formando o Reino Unidos dos Países Baixos, sob o governo dos reis de Orange (Luxemburgo também seria governado pelos Orange, e incorporada à Confederação Alemã, dando aos príncipes holandeses, a exemplo das casas austríaca e prussiana poder de voto nas questões dos seus vizinhos). A Inglaterra assegurou a independência da cidade-estado de Hanover, uma parceira comercial protegida política da coroa britânica. A Savóia assegurava sua independência e ainda incorporaria a antiga potência comercial de Gênova. A França ficou reduzida à sua fronteira atual, e teve que ceder territórios coloniais no Caribe. A Espanha concordou, a contragosto, em devolver a Portugal a cidade de Olivença, conquistada na confusa Guerra das Laranjas de 1801, mas até hoje não efetuou a devolução (a Espanha perdeu territórios na América do Sul, hoje incorporados ao Brasil, que não eram mencionados no acordo). A Suíça teve o território ampliado com a incorporação de novos cantões nos alpes italianos e alemães, e teve a sua neutralidade reconhecida.
Este foi o novo mapa da Europa decidido no Congresso de Viena, e embora as unificações da Alemanha e da Itália tenham alterado as fronteiras, elas não alteraram fundamentalmente o equilíbrio de forças no cenário europeu (a casa reinante da Prússia governaria a Alemanha, e os Savóia governariam a Itália) até o início do século XX. É inevitável lançar críticas e apontar as origens óbvias dos problemas que levariam à deflagração da Primeira Guerra Mundial e das guerras civis e conflitos étnicos que ainda assombram o continente: os acertos de novas fronteiras e uniões políticas estavam baseadas na relação de posse das casas reinantes com a terra, e não em questões demográficas (a Áustria, que chegaria ao século XX sob o nome de Império Austro-Húngaro era tamanho caos étnico que eles literalmente se recusaram a assimilar os reinos dos Bálcãs quando tiveram oportunidade). Também pode-se criticar o tom conservador das decisões tomadas por representantes do Antigo Regime especificamente para frear o avanço da jovem burguesia sobre as questões políticas e sociais, incluindo direitos e liberdades civis conquistados na Revolução Francesa (no entanto, um ítem incluído no documento final do Congresso sob influência burguesa foi a abolição da escravidão, medida que seria implementada lentamente durante o século XIX na Europa e nas colônias e novos países sob sua influência direta). Mas é importante observar que, mesmo traçando fronteiras artificiais associadas às cabeças reinantes e não a quem vivia nelas, o Congresso cumpriu seu principal objetivo de promover a estabilidade política para evitar, nos anos seguintes, uma nova guerra total, como a que fora travada nos 20 anos anteriores. Apesar de guerras mais ou menos destrutivas pontuais entre vizinhos, e da ascensão inevitável do liberalismo, seguido pelo socialismo, abalando as estruturas políticas de cada país, é notável que tivesse que se passar 99 anos até que o continente novamente entrasse em convulsão, em 1914.
Após a fracassada invasão à Rússia, a França começou a perder suas frágeis alianças com as antigas potências centrais da Áustria, da Prússia, dos principados alemães que compunham a Confederação Germânica, da Suécia, além da própria Rússia (até 1811, uma "parceira" no plano de Napoleão de estrangular a economia inglesa na Europa com o Bloqueio Continental). A Prússia, particularmente, se viu obrigada a participar da campanha russa sob Napoleão, o que levou muitos soldados e oficiais a desertarem para o lado russo. Após a retirada francesa no final de 1812, o comandante do exército prussiano Von Wartenburg assinou por conta própria um tratado com a Rússia, por intermédio do general prussiano Von Diebitsch, a serviço do Tzar, e esse tratado evoluiria para uma declaração de guerra "pela libertação dos povos germânicos" no começo do ano seguinte. A Suécia, forçada sob jugo francês após a invasão da Pomerânia (na época uma possessão sueca na Alemanha) e uma invasão punitiva à Finlândia pela Rússia (quando ainda aliada francesa), seguiu o mesmo caminho, assinando uma aliança com a Inglaterra, quando os ingleses sinalizaram positivamente sobre suas pretensões territoriais na Noruega (então sob a coroa dinamarquesa). Foi já com a guerra em curso na Alemanha que a Áustria finalmente se juntou aos aliados contra Napoleão.
Além do esforço de guerra renovado da Inglaterra e de uma nova coalizão no leste, a França também sofria para manter a Península Ibérica sob controle. A arrastada Guerra Peninsular consumira recursos materiais e humanos desde 1807, e embora sob o comando do marechal Junot o exército francês tenha alcançado Lisboa, uma contínua resistência tanto na Espanha como em Portugal, e também na América (a marinha luso-brasileira conquistou Caiena, capital da Guiana Francesa em 1809, e mesmo no Brasil a coroa portuguesa tomava providências para se armar contra possíveis ataques franceses), com apoio inglês, se tornou insustentavelmente desgastante, ameaçando o próprio prestígio de Napoleão na França. Após 1812, os exércitos conjuntos de Portugal, Espanha e Inglaterra empurraram os franceses de volta à França, enquanto Áustria, Prússia, Rússia, Suécia, e um crescente número de principados alemães tentavam encarniçadamente abrir caminho pela Alemanha. De abril a junho de 1813, cerca de 250 mil soldados de ambos os lados já haviam morrido em combate.
Em novembro de 1813, com a maior parte do exército francês já deslocado para o oeste do rio Reno, os aliados ofereceram a Napoleão uma proposta de paz, que garantia à França a posse da Bélgica, da Savóia (parte do sudeste da França e noroeste da Itália), e de todas as terras à esquerda do Reno e ao norte dos Pirineus, se Napoleão abrisse mão de todo o resto. O embaixador responsável por levar essa proposta a Napoleão foi o príncipe austríaco Metternich, que voltará à cena mais tarde. Napoleão, convicto da sua vitória final, recusou os termos e renovou as hostilidades, ordenando por decreto novas convocações para a reconstrução do seu exército. Novas derrotas (inclusive em território francês, graças ao avanço do Duque de Wellington a partir da Espanha) e tumultos internos fizeram o último aliado francês, a Dinamarca, sob ataque sueco, a se declarar pela coalizão. No começo de 1814, os aliados no leste conseguiram empurrar o exército francês cada vez mais (apesar de vitórias de Napoleão), até alcançarem Paris em março. Ali os generais franceses se recusaram a seguir ordens de levar a guerra para as ruas da cidade. Em 11 de abril, Napoleão abdicou e foi exilado para a ilha de Elba, na Itália. A monarquia foi restituída na França.
Acontece que com a guerra no continente por mais de 20 anos, houve o surgimento e a dissolução de impérios inteiros; em 1806 desapareceu o Sacro Império Romano, substituído em parte pela Confederação do Reno, criada por Napoleão, cujo império agora também desaparecera. Agora que os aliados venceram a guerra e restauraram um regime conservador na França, chegara a hora de decidir o que pertencia a quem. Os quatro principais poderes - Inglaterra, Áustria, Prússia e Rússia - decidiram entre si a partilha de territórios no Tratado de Chaumont, antes mesmo da rendição de Napoleão. O tratado continha uma cláusula que condicionava a paz à aceitação pela França das suas fronteiras antes das guerras revolucionárias, ao que Napoleão rejeitou, dando continuidade à guerra. Os termos de Chaumont foram replicados no Tratado de Paris, que era mais uma declaração de rendição, que perderia valor tão logo a guerra fosse restaurada entre eles. Além disso, o tratado versava sobre termos que influenciavam outros países, sem a sua participação ou arbitragem internacional. Por isso, mais tarde, para que as divisões acertadas em Chaumont pudessem ser aplicadas oficialmente (com ratificação da França), os aliados convocaram o Congresso de Viena, com a participação do seu ministro do exterior, Talleyrand, e representantes dos demais países, principados, ducados, e casas reinantes, inclusive países neutros, como os cantões suíços e os Estados Papais, totalizando mais de 200 delegações, e milhares de representantes. Além de delegados de empresas, lobistas, advogados, religiosos, de organizações patronais, interessados nas discussões e propensos a incluir os interesses das suas classes na pauta da nova ordem européia. A Condessa de Bernstorff se recordava de ouvir falar até de um visionário anônimo com uma Constituição comum pronta debaixo do braço, mas que não chegou a ter a oportunidade de mostrá-la a alguém.
Com a presença de tantos nobres, políticos e notáveis, o Congresso de Viena foi conduzido durante 10 meses, e as decisões eram acordadas tanto em reuniões formais, abertas ou fechadas, entre estadistas, ministros e embaixadores, como em bailes, festas e banquetes pelos palácios e teatros de Viena (descrita às vezes como "um enorme palácio"), sob a cortesia da casa reinante austríaca dos Habsburgo. A frivolidade dos encontros levou o idoso príncipe belga Carlos José de Ligne, célebre pelas suas tiradas espirituosas, a comentar que "O Congresso não anda, ele dança". Com tantos políticos de olho em seus próprios interesses, parecia impossível que se pudesse chegar a algum acordo sobre qualquer assunto (a cordialidade festiva entre eles nos encontros era menos uma demonstração de boa vontade do que uma forma de sondar os interesses dos rivais). Por isso, as principais negociações eram levadas a portas fechadas pelos representantes das quatro potências, e separadamente entre os poderes menos importantes (frequentemente com a supervisão de um observador das quatro potências).
Inicialmente, pretendia-se excluir a França das conversações. Príncipe Metternich, o representante austríaco, intentava encontrar seus aliados fora da cidade, no seu retiro em Baden. Como os dignatários preferissem Viena, Metternich conseguiu arranjar pelo menos quatro reuniões particulares entre eles. Mas em Viena, essas reuniões não ficaram em segredo por muito tempo. Talleyrand conseguiu se esgueirar para este círculo fechado em janeiro de 1815, propondo a Áustria e Inglaterra apoio na questão da partilha da Polônia (mais adiante). Com a ajuda do representante da Espanha, o Marquês de Labrador, apesar do desprezo um pelo outro, eles mantiveram as negociatas das quatro potências em cheque.
A habilidade de Metternich (responsável também por entreter os participantes do Congresso) serviu bem aos interesses da Áustria e seus aliados. Ele conseguiu que os príncipes alemães, soberanos de territórios às vezes restritos às próprias cidadelas onde viviam, e que chegavam a mais de 300 sob o Sacro Império Romano, concordassem em fundir seus países em unidades maiores e se unissem politicamente numa nova Confederação Alemã (cujo primeiro presidente seria o próprio imperador austríaco Francisco I), vizinha e aliada próxima da Prússia. Esta Confederação Alemã (agora com apenas 39 Estados) seria o embrião para a unificação alemã décadas mais tarde, e de sua união com a própria Prússia. A Áustria a Lombardia e o Vêneto, atual nordeste da Itália, incluindo a rica cidade de Veneza eram passados para a tutela dos Habsburgo, além de colocar sob sua proteção as terras cedidas à filha de Napoleão, Marie Louise, na Itália. Alguns membros dos Habsburgo foram nomeados para outros territórios na Itália, como a Toscana, para mitigar o corrente sentimento anti-austríaco na península. Durante o Congresso, a Áustria declarou guerra ao reino de Nápoles, governado por Joaquim Murat, irmão do ex-imperador francês, anexando-o em três semanas. Durante as negociações chegou também a notícia de que Napoleão escapara de Elba com 1200 homens e estava reunindo um exército no sul da França por conta própria. Metternich, ainda de pijamas, convocou os aliados e conseguiu que os quatro e a França cedessem 150 mil soldados cada e declarassem o general um fora-da-lei (o problema de Napoleão terminaria antes do fim do Congresso, em junho de 1815, na Batalha de Waterloo). A intromissão de Napoleão, no entanto, custou à França alguns territórios acordados anteriormente.
As conversas sobre a federalização da Alemanha foram as mais trabalhosas, mas nem de perto tão tensas quanto a mediação dos interesses da Prússia e da Rússia sobre a Polônia. Quando Napoleão conquistou a "Polônia", ela não existia mais como entidade geopolítica: estava dividida entre Prússia e Rússia. Napoleão chegou anunciando-se como libertador do povo polonês, e para enfatizar isso, criou o Grão-Ducado de Varsóvia, um reino independente mas que, na prática, era um Estado-cliente que servia para "acolchoar" a fronteira com a Rússia. O Tzar Alexandre I fazia questão do território correspondente ao Grão-Ducado (ele pretendia assumir o título de Rei da Polônia). A Áustria e a Inglaterra temiam que isso desse aos russos poder demais, preferindo uma partilha entre os dois vizinhos. Numa conversa, Metternich deixou escapar um comentário a Alexandre dando a entender que os dois países se equivaliam militarmente. O Tzar ameaçou deixar o Congresso e se recusou a encontrar Metternich novamente, colocando todas as outras negociações em risco. Ele teria chegado até a desafiar o diplomata austríaco para um duelo. No final, percebendo a articulação de Talleyrand com britânicos e austríacos, ele acabaria concordando com a partilha da Polônia (a maior parte do antigo Grão-Ducado tornava-se o Reino da Polônia, independente, mas sob influência russa), apoiando inclusive a anexação de parte da Saxônia (atualmente na Alemanha) pela Prússia. O Tzar, acreditando-se um "benfeitor da humanidade", ainda seria o articulador da Santa Aliança com a Áustria e a Prússia com vistas a reprimir novos movimentos liberais no continente.
Quanto às demais nações: a Dinamarca, cujo jovem rei Frederico VI era tido como uma das mais amáveis figuras presentes no Congresso, se viu obrigada a ceder a Noruega à Suécia. A Suécia, por sua vez, abriu mão da Finlândia, ocupada pelos russos desde 1809. A Suécia também cedeu a Pomerânia à Prússia, e a sua colônia caribenha em Guadalupe à França. A Holanda reconquistou sua independência, e incorporou a Bélgica, formando o Reino Unidos dos Países Baixos, sob o governo dos reis de Orange (Luxemburgo também seria governado pelos Orange, e incorporada à Confederação Alemã, dando aos príncipes holandeses, a exemplo das casas austríaca e prussiana poder de voto nas questões dos seus vizinhos). A Inglaterra assegurou a independência da cidade-estado de Hanover, uma parceira comercial protegida política da coroa britânica. A Savóia assegurava sua independência e ainda incorporaria a antiga potência comercial de Gênova. A França ficou reduzida à sua fronteira atual, e teve que ceder territórios coloniais no Caribe. A Espanha concordou, a contragosto, em devolver a Portugal a cidade de Olivença, conquistada na confusa Guerra das Laranjas de 1801, mas até hoje não efetuou a devolução (a Espanha perdeu territórios na América do Sul, hoje incorporados ao Brasil, que não eram mencionados no acordo). A Suíça teve o território ampliado com a incorporação de novos cantões nos alpes italianos e alemães, e teve a sua neutralidade reconhecida.
Este foi o novo mapa da Europa decidido no Congresso de Viena, e embora as unificações da Alemanha e da Itália tenham alterado as fronteiras, elas não alteraram fundamentalmente o equilíbrio de forças no cenário europeu (a casa reinante da Prússia governaria a Alemanha, e os Savóia governariam a Itália) até o início do século XX. É inevitável lançar críticas e apontar as origens óbvias dos problemas que levariam à deflagração da Primeira Guerra Mundial e das guerras civis e conflitos étnicos que ainda assombram o continente: os acertos de novas fronteiras e uniões políticas estavam baseadas na relação de posse das casas reinantes com a terra, e não em questões demográficas (a Áustria, que chegaria ao século XX sob o nome de Império Austro-Húngaro era tamanho caos étnico que eles literalmente se recusaram a assimilar os reinos dos Bálcãs quando tiveram oportunidade). Também pode-se criticar o tom conservador das decisões tomadas por representantes do Antigo Regime especificamente para frear o avanço da jovem burguesia sobre as questões políticas e sociais, incluindo direitos e liberdades civis conquistados na Revolução Francesa (no entanto, um ítem incluído no documento final do Congresso sob influência burguesa foi a abolição da escravidão, medida que seria implementada lentamente durante o século XIX na Europa e nas colônias e novos países sob sua influência direta). Mas é importante observar que, mesmo traçando fronteiras artificiais associadas às cabeças reinantes e não a quem vivia nelas, o Congresso cumpriu seu principal objetivo de promover a estabilidade política para evitar, nos anos seguintes, uma nova guerra total, como a que fora travada nos 20 anos anteriores. Apesar de guerras mais ou menos destrutivas pontuais entre vizinhos, e da ascensão inevitável do liberalismo, seguido pelo socialismo, abalando as estruturas políticas de cada país, é notável que tivesse que se passar 99 anos até que o continente novamente entrasse em convulsão, em 1914.
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
Terra arrasada
Em 16 de setembro de 1812 Moscou ardia em chamas, num incêndio que destruiria 80% da cidade, mas que, de certa forma, salvaria toda a Rússia das garras de Napoleão.
A invasão da Rússia, iniciada em junho daquele ano, tinha um objetivo bem específico: Napoleão pretendia pressionar o Czar Alexandre I a desistir do comércio com a Inglaterra, estrangulando a economia do seu principal rival. A França já estava desde 1806 apertando o cinto dos ingleses com o Bloqueio Continental, onde as nações europeias se viam compelidas a não negociar com ingleses, sob ameaça de intervenção militar. Era assim que Napoleão via a possibilidade de arruinar a Inglaterra, uma nação insular e militarmente poderosa, praticamente impossível de ser tomada por uma invasão pelo mar naquele momento. Não obstante, a Rússia continuava a realizar comércio regular com a Inglaterra.
Em 1809, Napoleão tinha o governo efetivo da França, da Bélgica e de 1/4 da Itália (onde foi coroado cerimonialmente com a Coroa de Ferro da Lombardia), e mantinha sob controle, ou pela indicação de parentes seus como governantes, ou por alianças firmadas por interesse ou sob ameaça, quase toda a Europa Ocidental e Central, com exceção de Portugal (cuja aliança com a Inglaterra, especificamente, existe até hoje, e é a aliança entre dois países mais antiga ainda em vigência) e dos reinos independentes da Sicília e da Sardenha. Fora do seu alcance estavam os Bálcãs, sob domínio otomano, e a Rússia. A guerra contra a Inglaterra pela supremacia econômica do continente se espalhou para as colônias na África e na América.
Na Europa, a série de conquistas iniciada em 1803 só viu resistência na desgastante Guerra Peninsular, travada na Espanha apoiada pela Inglaterra e reforçada por portugueses, que resultou numa vitória custosa para Napoleão. Seus aliados já não eram tão leais, e sua popularidade na França vinha em queda, e mesmo com o continente quase todo sob controle, seu inimigo direto continuava a prosperar graças às colônias na América, na Ásia e na África subsaariana. De fato, a Inglaterra só sentiria um impacto significativo na sua economia com o fim das relações com os Estados Unidos na Guerra de 1812.
O Embargo Continental não estava se mostrando eficiente. E em alguns lugares, como na Holanda e em algumas cidades portuárias na própria França, a ausência de agentes comerciais britânicos esfriaram a economia (a crise holandesa foi particularmente forte, e o país só se manteve sob controle porque Napoleão nomeara seu irmão Luis Bonaparte como rei). A indústria têxtil da Bélgica prosperou como nunca sem a concorrência inglesa, mas como os produtos ingleses eram produzidos a custos menores, o consumidor comum na Europa continental sentiu o aumento dos preços. A França não tinha condições práticas para impedir o tráfego de navios ingleses na maioria dos portos, impedir o contrabando no continente, nem de promover um bloqueio efetivo no Atlântico. Mesmo Portugal, que se colocou fora do alcance francês transferindo toda a sua administração imperial para o Brasil (e que a França não conseguiu abocanhar com a Guerra Peninsular), continuou a ser um parceiro comercial dos ingleses na Europa sem grandes impedimentos. A ineficiência do Bloqueio ficou clara quando Napoleão abriu alguns portos ao comércio limitado com os britânicos em 1810.
Enquanto isso, a Rússia formalmente cooperava com Napoleão. As repetidas vitórias de Napoleão sobre a Áustria e a Prússia, em operação conjunta com os russos, persuadiram Alexandre I a se retirar da guerra em 1807. Era uma das forças políticas que pressionavam a Dinamarca (declarada neutra no primeiro momento das Guerras Napoleônicas) a ceder sua numerosa marinha para a França, e sua captura pelos ingleses levou os russos a irem à guerra contra seu antigo aliado. Em 1808, invadiu a Finlândia, na época pertencente à Suécia que se recusava a aderir ao Bloqueio Continental. Como o Bloqueio também não se revelou tão vantajoso para a Rússia, os russos começaram a fura-lo, aproveitando-se da rota marítima pelo Báltico assegurada pela captura, pelos britânicos, da marinha dinamarquesa. Em 1810, a Inglaterra tinha uma relação comercial bastante saudável com os russos, mesmo com o estado de guerra entre os dois países.
Existe uma linha bastante explorada que supõe que a saúde de Napoleão, naquela altura, já estava se deteriorando. Obeso e propenso a atitudes extravagantes, é possível que a sua saúde mental também estivesse em declínio, e isso poderia estar afetando as suas decisões. Ao saber que os russos não estavam respeitando o Bloqueio Continental, as relações entre Napoleão e Alexandre começaram a se deteriorar. Um dos pontos de conflito que ganharam mais ênfase na disputa diplomática que se seguiu foi a posse da Polônia, que ambos queriam como um Estado-satélite sob sua tutela (a França havia "libertado" a Polônia em 1807, então repartida entre Rússia, Prússia e Áustria, e se achava no direito de ditar a sua política). De fato, a Rússia assumiu uma postura agressiva, preparando uma invasão à Polônia depois de 1811. Napoleão reagiu com a invasão à Rússia, uma opção que a História mostrou fatal para a sua carreira, e à de outros aspirantes a conquistadores do continente.
Napoleão reuniu mais de 680 mil soldados do exército francês, reforçado por contingentes de todas as partes do seu império e aliados da ocasião, além de insuflar os poloneses com algum sentimento nacionalista, anunciando que a guerra viria novamente para sua terra, mas que, com sua ajuda, os franceses a levariam para os "agressores" russos. Da Espanha até a Polônia, Napoleão contava com uma infraestrutura de transporte e abastecimento que permitia o rápido deslocamento de um número enorme de soldados, equipamentos e suprimentos para o front. Ele esperava uma guerra de atrito a partir da fronteira ao longo do rio Niemen (que atravessou em Junho após uma última oferta de paz rechaçada pelos russos), e seus generais e suas tropas, veteranos de mais de uma década de guerras ininterruptas, estavam bem preparados para isso. Os russos, contudo, tinham seus próprios planos.
Tendo enfrentado o exército de Napoleão em batalha no passado, os russos entendiam a sua superioridade, e a vastidão do seu território tornava a sua defesa extremamente complicada. Num cenário como este, o agressor daria as cartas, e restaria aos russos tentar contra-atacar onde o inimigo pudesse ser achado, torcendo para que este, um passo à frente, não tenha tomado alguma posição estrategicamente crucial. A outra alternativa foi recuar. Recuar e devastar tudo atrás de si, para impedir que o inimigo se apossasse efetivamente do seu território. Isso havia sido feito com relativo sucesso por Vlad Tepes, contra uma invasão otomana na Transilvânia, e com notável êxito pelos portugueses na Guerra Peninsular.
Russos e franceses, nas primeiras semanas, se encontraram em batalha esporadicamente. Como não oferecessem muita resistência, os franceses avançavam rapidamente. Avançar muito rápido com um exército numeroso significa alongar demais as linhas de suprimentos, e atrasar o seu abastecimento. Em agosto, os russos encontraram um exército de 200 mil comandado por Napoleão em pessoa em Smolensk. Apesar de perdas equivalentes em ambos os lados, os russos bateram em retirada. Naquela altura, as tropas de Napoleão já racionavam comida e munição. Ao cruzar o Dnieper, os marechais russos ordenaram a destruição de tudo que pudesse servir ao inimigo: plantações e gado, florestas onde se pudesse obter madeira, casas ou qualquer lugar que pudesse servir de abrigo. A população era conduzida o mais rapidamente possível para o interior, e tudo que não pudesse ser carregado deveria ser destruído para não servir ao inimigo. A fortaleza de Smolensk, capturada pelos franceses, não lhes oferecia nada útil.
Os russos prosseguiram recuando e queimando tudo pelo caminho. A tática de terra arrasada pareceu aos franceses um caminho aberto e sem resistência ao coração da Rússia, e eles avançaram muito rapidamente. Napoleão em pessoa já havia tomado Vilnius, na Lituânia, nos primeiros dias de guerra, comprometendo o acesso da Rússia ao litoral báltico, e estava confiante de que sua marcha em direção a Moscou levaria a Rússia ao colapso. No entanto, como os franceses, na prática, não capturavam nada das terras por onde passavam, logo ficou evidente que, se não vencessem rapidamente a guerra, teriam que dar a meia volta, ou morrer de fome.
Logo em setembro os franceses alcançaram os arredores de Moscou. Uma batalha no dia 8 manteve os franceses estacionados na planície, dando tempo ao prefeito da cidade, seguindo orientações superiores, coordenar a sua evacuação. Aparentemente, foi ele quem planejou o incêndio: suas ordens eram de que tudo deveria ser incendiado, inclusive as igrejas. Quando os franceses entraram em Moscou, no dia 14, encontraram a cidade quase deserta e ardendo em chamas, ocupada apenas por estrangeiros residentes, servos, criminosos (as prisões foram deliberadamente abertas) e pessoas incapazes de fugir. No dia 15, Napoleão entrou no Kremlin, esperando que o ato simbólico de tomar controle da capital induzisse Alexandre a se render. De fato, como os russos abandonaram a cidade, as formalidades de guerra que os generais esperavam no ato de conquista de uma cidade importante - serem recebidos por representantes do governo local, que se encarregariam de abrigar e alimentar os soldados - não aconteceram, deixando Napoleão bastante desorientado. No dia 16, como o fogo se aproximasse do palácio, o Imperador foi removido às pressas para outro, na periferia da cidade, correndo temerariamente pela rua Arbat, que ardia dos dois lados. Em outubro, com suprimentos perigosamente escassos, sem sinal de que Alexandre se renderia nem da presença do exército russo, os franceses deixaram a cidade, planejando chegar à Polônia o mais rápido possível, antes do inverno.
Os russos haviam se retirado para o sul. Recebendo notícias de que Napoleão começara a se mover, os russos organizaram seus ataques a partir do sul, de maneira a orientar a marcha francesa pelo mesmo caminho até Smolensk, passando por centenas de quilômetros de terra arrasada novamente. Cavaleiros cossacos atacavam com rapidez quebrando a linha de marcha e dispersando unidades do corpo principal do exército. Os cavalos franceses, sem pasto, começaram a morrer de fome, e os que ainda resistiam eram mortos para alimentar os soldados, efetivamente dissolvendo o seu corpo de cavalaria. As carroças puxadas pelos animais, com armas, equipamentos, e peças de reposição, foram abandonadas. O frio crescente matava milhares, pois os franceses partiram em campanha em trajes de verão (os russos consideraram aquele inverno relativamente "ameno"). Tropas russas continuaram fustigando os franceses até a Batalha de Berezina, na Bielorrússia, onde eles os encurralaram na travessia do rio Berezina. Napoleão escapou com apenas metade do seu contingente (sua sorte foi o General Eblé ter desobedecido as ordens do Imperador de deixar para trás material para a construção de pontes). Em dezembro, apenas 22 mil soldados do exército napoleônico cruzaram de volta a fronteira com a Polônia. A perda de vidas durante a campanha a coloca entre as mais letais da História.
Napoleão retornou rapidamente à França após notícias de um golpe de Estado fracassado em novembro. O fiasco da invasão russa estremeceu sua reputação e a rede de alianças que mantinha o seu Império coeso. A Confederação do Reno, a Prússia, a Áustria e a Rússia renovaram a aliança com a Inglaterra e iniciaram uma contra-ofensiva que levaria à capitulação de Napoleão em 1815. A queda de Napoleão, e os subsequentes movimentos nacionalistas na Europa Central deram espaço à unificação da Alemanha e da Itália, e o estabelecimento das fronteiras e de um novo balanço de forças na Europa Ocidental. A Rússia (que reverencia a invasão napoleônica com o título de "Guerra Patriótica de 1812") repetiria a tática de terra arrasada quando Adolph Hitler ordenou a sua invasão em 1941. Hitler, para evitar a manobra defensiva que possibilitou aos russos encurralarem Napoleão na rota arruinada de Smolensk, ordenou a invasão em várias frentes da Ucrância até o Ártico, com o centro em direção a Moscou. A resistência russa durou o suficiente até o inverno, e os alemães perderam mais de 4 milhões de soldados até a sua total retirada, mudando, assim como aconteceu com Napoleão, o rumo da História.
A invasão da Rússia, iniciada em junho daquele ano, tinha um objetivo bem específico: Napoleão pretendia pressionar o Czar Alexandre I a desistir do comércio com a Inglaterra, estrangulando a economia do seu principal rival. A França já estava desde 1806 apertando o cinto dos ingleses com o Bloqueio Continental, onde as nações europeias se viam compelidas a não negociar com ingleses, sob ameaça de intervenção militar. Era assim que Napoleão via a possibilidade de arruinar a Inglaterra, uma nação insular e militarmente poderosa, praticamente impossível de ser tomada por uma invasão pelo mar naquele momento. Não obstante, a Rússia continuava a realizar comércio regular com a Inglaterra.
Em 1809, Napoleão tinha o governo efetivo da França, da Bélgica e de 1/4 da Itália (onde foi coroado cerimonialmente com a Coroa de Ferro da Lombardia), e mantinha sob controle, ou pela indicação de parentes seus como governantes, ou por alianças firmadas por interesse ou sob ameaça, quase toda a Europa Ocidental e Central, com exceção de Portugal (cuja aliança com a Inglaterra, especificamente, existe até hoje, e é a aliança entre dois países mais antiga ainda em vigência) e dos reinos independentes da Sicília e da Sardenha. Fora do seu alcance estavam os Bálcãs, sob domínio otomano, e a Rússia. A guerra contra a Inglaterra pela supremacia econômica do continente se espalhou para as colônias na África e na América.
Na Europa, a série de conquistas iniciada em 1803 só viu resistência na desgastante Guerra Peninsular, travada na Espanha apoiada pela Inglaterra e reforçada por portugueses, que resultou numa vitória custosa para Napoleão. Seus aliados já não eram tão leais, e sua popularidade na França vinha em queda, e mesmo com o continente quase todo sob controle, seu inimigo direto continuava a prosperar graças às colônias na América, na Ásia e na África subsaariana. De fato, a Inglaterra só sentiria um impacto significativo na sua economia com o fim das relações com os Estados Unidos na Guerra de 1812.
O Embargo Continental não estava se mostrando eficiente. E em alguns lugares, como na Holanda e em algumas cidades portuárias na própria França, a ausência de agentes comerciais britânicos esfriaram a economia (a crise holandesa foi particularmente forte, e o país só se manteve sob controle porque Napoleão nomeara seu irmão Luis Bonaparte como rei). A indústria têxtil da Bélgica prosperou como nunca sem a concorrência inglesa, mas como os produtos ingleses eram produzidos a custos menores, o consumidor comum na Europa continental sentiu o aumento dos preços. A França não tinha condições práticas para impedir o tráfego de navios ingleses na maioria dos portos, impedir o contrabando no continente, nem de promover um bloqueio efetivo no Atlântico. Mesmo Portugal, que se colocou fora do alcance francês transferindo toda a sua administração imperial para o Brasil (e que a França não conseguiu abocanhar com a Guerra Peninsular), continuou a ser um parceiro comercial dos ingleses na Europa sem grandes impedimentos. A ineficiência do Bloqueio ficou clara quando Napoleão abriu alguns portos ao comércio limitado com os britânicos em 1810.
Enquanto isso, a Rússia formalmente cooperava com Napoleão. As repetidas vitórias de Napoleão sobre a Áustria e a Prússia, em operação conjunta com os russos, persuadiram Alexandre I a se retirar da guerra em 1807. Era uma das forças políticas que pressionavam a Dinamarca (declarada neutra no primeiro momento das Guerras Napoleônicas) a ceder sua numerosa marinha para a França, e sua captura pelos ingleses levou os russos a irem à guerra contra seu antigo aliado. Em 1808, invadiu a Finlândia, na época pertencente à Suécia que se recusava a aderir ao Bloqueio Continental. Como o Bloqueio também não se revelou tão vantajoso para a Rússia, os russos começaram a fura-lo, aproveitando-se da rota marítima pelo Báltico assegurada pela captura, pelos britânicos, da marinha dinamarquesa. Em 1810, a Inglaterra tinha uma relação comercial bastante saudável com os russos, mesmo com o estado de guerra entre os dois países.
Existe uma linha bastante explorada que supõe que a saúde de Napoleão, naquela altura, já estava se deteriorando. Obeso e propenso a atitudes extravagantes, é possível que a sua saúde mental também estivesse em declínio, e isso poderia estar afetando as suas decisões. Ao saber que os russos não estavam respeitando o Bloqueio Continental, as relações entre Napoleão e Alexandre começaram a se deteriorar. Um dos pontos de conflito que ganharam mais ênfase na disputa diplomática que se seguiu foi a posse da Polônia, que ambos queriam como um Estado-satélite sob sua tutela (a França havia "libertado" a Polônia em 1807, então repartida entre Rússia, Prússia e Áustria, e se achava no direito de ditar a sua política). De fato, a Rússia assumiu uma postura agressiva, preparando uma invasão à Polônia depois de 1811. Napoleão reagiu com a invasão à Rússia, uma opção que a História mostrou fatal para a sua carreira, e à de outros aspirantes a conquistadores do continente.
Napoleão reuniu mais de 680 mil soldados do exército francês, reforçado por contingentes de todas as partes do seu império e aliados da ocasião, além de insuflar os poloneses com algum sentimento nacionalista, anunciando que a guerra viria novamente para sua terra, mas que, com sua ajuda, os franceses a levariam para os "agressores" russos. Da Espanha até a Polônia, Napoleão contava com uma infraestrutura de transporte e abastecimento que permitia o rápido deslocamento de um número enorme de soldados, equipamentos e suprimentos para o front. Ele esperava uma guerra de atrito a partir da fronteira ao longo do rio Niemen (que atravessou em Junho após uma última oferta de paz rechaçada pelos russos), e seus generais e suas tropas, veteranos de mais de uma década de guerras ininterruptas, estavam bem preparados para isso. Os russos, contudo, tinham seus próprios planos.
Tendo enfrentado o exército de Napoleão em batalha no passado, os russos entendiam a sua superioridade, e a vastidão do seu território tornava a sua defesa extremamente complicada. Num cenário como este, o agressor daria as cartas, e restaria aos russos tentar contra-atacar onde o inimigo pudesse ser achado, torcendo para que este, um passo à frente, não tenha tomado alguma posição estrategicamente crucial. A outra alternativa foi recuar. Recuar e devastar tudo atrás de si, para impedir que o inimigo se apossasse efetivamente do seu território. Isso havia sido feito com relativo sucesso por Vlad Tepes, contra uma invasão otomana na Transilvânia, e com notável êxito pelos portugueses na Guerra Peninsular.
Russos e franceses, nas primeiras semanas, se encontraram em batalha esporadicamente. Como não oferecessem muita resistência, os franceses avançavam rapidamente. Avançar muito rápido com um exército numeroso significa alongar demais as linhas de suprimentos, e atrasar o seu abastecimento. Em agosto, os russos encontraram um exército de 200 mil comandado por Napoleão em pessoa em Smolensk. Apesar de perdas equivalentes em ambos os lados, os russos bateram em retirada. Naquela altura, as tropas de Napoleão já racionavam comida e munição. Ao cruzar o Dnieper, os marechais russos ordenaram a destruição de tudo que pudesse servir ao inimigo: plantações e gado, florestas onde se pudesse obter madeira, casas ou qualquer lugar que pudesse servir de abrigo. A população era conduzida o mais rapidamente possível para o interior, e tudo que não pudesse ser carregado deveria ser destruído para não servir ao inimigo. A fortaleza de Smolensk, capturada pelos franceses, não lhes oferecia nada útil.
Os russos prosseguiram recuando e queimando tudo pelo caminho. A tática de terra arrasada pareceu aos franceses um caminho aberto e sem resistência ao coração da Rússia, e eles avançaram muito rapidamente. Napoleão em pessoa já havia tomado Vilnius, na Lituânia, nos primeiros dias de guerra, comprometendo o acesso da Rússia ao litoral báltico, e estava confiante de que sua marcha em direção a Moscou levaria a Rússia ao colapso. No entanto, como os franceses, na prática, não capturavam nada das terras por onde passavam, logo ficou evidente que, se não vencessem rapidamente a guerra, teriam que dar a meia volta, ou morrer de fome.
Logo em setembro os franceses alcançaram os arredores de Moscou. Uma batalha no dia 8 manteve os franceses estacionados na planície, dando tempo ao prefeito da cidade, seguindo orientações superiores, coordenar a sua evacuação. Aparentemente, foi ele quem planejou o incêndio: suas ordens eram de que tudo deveria ser incendiado, inclusive as igrejas. Quando os franceses entraram em Moscou, no dia 14, encontraram a cidade quase deserta e ardendo em chamas, ocupada apenas por estrangeiros residentes, servos, criminosos (as prisões foram deliberadamente abertas) e pessoas incapazes de fugir. No dia 15, Napoleão entrou no Kremlin, esperando que o ato simbólico de tomar controle da capital induzisse Alexandre a se render. De fato, como os russos abandonaram a cidade, as formalidades de guerra que os generais esperavam no ato de conquista de uma cidade importante - serem recebidos por representantes do governo local, que se encarregariam de abrigar e alimentar os soldados - não aconteceram, deixando Napoleão bastante desorientado. No dia 16, como o fogo se aproximasse do palácio, o Imperador foi removido às pressas para outro, na periferia da cidade, correndo temerariamente pela rua Arbat, que ardia dos dois lados. Em outubro, com suprimentos perigosamente escassos, sem sinal de que Alexandre se renderia nem da presença do exército russo, os franceses deixaram a cidade, planejando chegar à Polônia o mais rápido possível, antes do inverno.
Os russos haviam se retirado para o sul. Recebendo notícias de que Napoleão começara a se mover, os russos organizaram seus ataques a partir do sul, de maneira a orientar a marcha francesa pelo mesmo caminho até Smolensk, passando por centenas de quilômetros de terra arrasada novamente. Cavaleiros cossacos atacavam com rapidez quebrando a linha de marcha e dispersando unidades do corpo principal do exército. Os cavalos franceses, sem pasto, começaram a morrer de fome, e os que ainda resistiam eram mortos para alimentar os soldados, efetivamente dissolvendo o seu corpo de cavalaria. As carroças puxadas pelos animais, com armas, equipamentos, e peças de reposição, foram abandonadas. O frio crescente matava milhares, pois os franceses partiram em campanha em trajes de verão (os russos consideraram aquele inverno relativamente "ameno"). Tropas russas continuaram fustigando os franceses até a Batalha de Berezina, na Bielorrússia, onde eles os encurralaram na travessia do rio Berezina. Napoleão escapou com apenas metade do seu contingente (sua sorte foi o General Eblé ter desobedecido as ordens do Imperador de deixar para trás material para a construção de pontes). Em dezembro, apenas 22 mil soldados do exército napoleônico cruzaram de volta a fronteira com a Polônia. A perda de vidas durante a campanha a coloca entre as mais letais da História.
Napoleão retornou rapidamente à França após notícias de um golpe de Estado fracassado em novembro. O fiasco da invasão russa estremeceu sua reputação e a rede de alianças que mantinha o seu Império coeso. A Confederação do Reno, a Prússia, a Áustria e a Rússia renovaram a aliança com a Inglaterra e iniciaram uma contra-ofensiva que levaria à capitulação de Napoleão em 1815. A queda de Napoleão, e os subsequentes movimentos nacionalistas na Europa Central deram espaço à unificação da Alemanha e da Itália, e o estabelecimento das fronteiras e de um novo balanço de forças na Europa Ocidental. A Rússia (que reverencia a invasão napoleônica com o título de "Guerra Patriótica de 1812") repetiria a tática de terra arrasada quando Adolph Hitler ordenou a sua invasão em 1941. Hitler, para evitar a manobra defensiva que possibilitou aos russos encurralarem Napoleão na rota arruinada de Smolensk, ordenou a invasão em várias frentes da Ucrância até o Ártico, com o centro em direção a Moscou. A resistência russa durou o suficiente até o inverno, e os alemães perderam mais de 4 milhões de soldados até a sua total retirada, mudando, assim como aconteceu com Napoleão, o rumo da História.
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