Em 26 de junho de 1740, cerca de trezentos espanhóis (muitos não eram soldados) derrotaram 170 britânicos que defendiam o Forte Mose, na Florida. Esta batalha foi parte da Guerra da Orelha de Jenkins.
É, a História é pontilhada de conflitos assim. Pode-se dizer que muitas guerras de larga escala tiveram as mesmas motivações das menores escaramuças, a diferença aparecendo na configuração das redes diplomáticas e interesses globais em cada momento.
A Guerra da Orelha de Jenkins veio na esteira de décadas de conflitos em que Espanha e Inglaterra estiveram em lados opostos, embora, em 1713, a Espanha tenha assegurado à Inglaterra o monopólio ("asiento") do tráfico de escravos para suas colônias na América, com o privilégio adicional de transportarem 500 toneladas de mercadorias por ano. Essa relação de morde-e-assopra entre os dois países veio ao fim quando, pressionado por um sentimento geral anti-hispânico, a Inglaterra moveu suas tropas para as Índias Ocidentais e Gibraltar. A Espanha exigiu reparação financeira, e como a Inglaterra se negou, o rei Filipe V da Espanha rasgou o contrato de asiento. Em outubro de 1739 veio a declaração de guerra. Eventualmente este conflito, onde a Espanha se saiu melhor, foi tolhido pela guerra generalizada na Europa pela sucessão do trono austríaco (onde os dois países novamente se colocaram em lados opostos).
O nome desse conflito específico deriva de um incidente em 1731, quando um barco espanhol abordou um navio inglês perto da Florida, e o comandante espanhol cortou a orelha do capitão Robert Jenkins, acusando-o de contrabando. Jenkins foi convocado em 1738 pelo Parlamento inglês a testemunhar sobre o caso, e exibiu a todos a própria orelha decepada. Com todos os problemas diplomáticos com a Espanha naquele momento, a orelha do capitão Jenkins teria sido a gota d'água para os ingleses.
Houve muitas guerras motivadas por motivos banais, e várias dessas acabaram conhecidas por nomes curiosos. Eu selecionei dez:
1: A Guerra do Cão Perdido entre Grécia e Bulgária em 1925 começou quando um cachorro fugiu e seu dono grego o perseguiu através da fronteira, sendo morto por soldados búlgaros. A Grécia exigiu reparação e chegou a tomar uma cidade fronteiriça da Bulgária, e precisou da Liga das Nações intervir para resolver o caso.
2: A Guerra da Lagosta foi travada entre Brasil e França 1961 e 1963, quando a marinha brasileira resolveu impedir que barcos franceses pescassem lagostas fora do espaço marítimo brasileiro, alegando que as lagostas migram, de maneira que os franceses estariam lesando os pescadores brasileiros. O Brasil, acreditem, nunca perdeu uma guerra, e saiu vitorioso desta, ampliando suas águas territoriais.
3: A Guerra do Banco de Ouro de 1900 aconteceu quando o imperador de Ashanti, já irritado pela presença britânica na região do atual Gana, se sentiu ultrajado quando a autoridade britânica exigiu que ele devolvesse o tal banco de ouro, que ele usava como trono e que fora presenteado ao seu país pelos europeus. O imperador declarou guerra, e Ashanti terminaria incorporado à colônia da Costa do Ouro. A comandante maior do exército ashante era a irmã do imperador.
4: A Guerra do Porco de 1859 começou quando um fazendeiro americano vivendo na ilha de San Juan, um território disputado na fronteira do Oregon com a Colúmbia Britânica, viu um porco comendo suas batatas e atirou nele. O dono do porco, um irlandês empregado de uma companhia britânica, foi tirar satisfação. Ele recusou a oferta de 10 dólares pelo porco morto. O fazendeiro, ultrajado, disse que o irlandês é quem tinha que pagar pela invasão do seu porco. Autoridades britânicas interviram para prender o fazendeiro, e colonos americanos pediram por uma ação militar. A única ação militar no conflito, que perdurou por 13 anos, foram as trocas de insultos entre os soldados dos dois países e nenhum morto (exceto o porco). Ao final os EUA ganharam os direitos sobre a ilha.
5: A Guerra das Laranjas foi travada entre Espanha e Portugal em 1801 quando quando a França, aliada da Espanha, que estava em paz com Portugal, exigiu que Portugal se aliasse a ela contra a Inglaterra, de quem Portugal também era aliado. A diplomacia portuguesa se atrapalhou toda (com razão). Um diplomata português foi enviado a Madri para acertar um acordo com a França sem saber que a Espanha estava declarando guerra (a Espanha, por sua vez, precisava decidir rápido se declarava guerra a Portugal ou se sujeitava a uma invasão francesa). O próprio governo português só ficou sabendo da declaração de guerra 10 dias depois da primeira invasão. A Espanha acabou ocupando (até hoje) a cidade de Olivença, enquanto portugueses tomaram parte do território espanhol na América, onde hoje é o oeste do Rio Grande do Sul e uma porção do Mato Grosso. Manuel de Godoy, ministro espanhol à frente do exército, ao chegar a Olivença pegou uma laranja de um pé e a enviou para a rainha da Espanha, com a mensagem de que marcharia para Lisboa. Quando a laranja chegou, um segundo diplomata português já tinha acertado um acordo de paz com espanhóis e franceses.
6: A Guerra dos 335 anos foi travada entre a Holanda e o minúsculo arquipélago inglês das Ilhas Scilly. Aconteceu que em 1651 os parlamentaristas completaram seu domínio sobre a Grã-Bretanha, e os monarquistas da Cornuália se refugiaram em Scilly. Os holandeses, por sua vez, ofereceram aliança à Inglaterra - porém, especificamente, aos parlamentaristas, que estavam vencendo a guerra civil. Como resultado, navios holandeses eram atacados por embarcações monarquistas baseadas em Scilly. Um almirante holandês foi tirar satisfação, e como os representantes de Scilly se recusassem a atendê-lo, ele declarou guerra contra o arquipélago. Com o tempo, os monarquistas voltariam ao poder, e a Holanda confirmaria sua aliança com a Inglaterra... esquecendo-se completamente das ilhas Scilly. Como um tratado de paz nunca foi formalizado, essa guerra, que não teve um tiro disparado, durou 335 anos.
7: A Guerra do Futebol começou numa partida de desempate pelas eliminatórias da Copa do Mundo em 1969 entre El Salvador e Honduras. Os dois países viviam em tensão por causa de imigrações ilegais do primeiro para o segundo, e reformas agrárias do segundo para controlar o primeiro, e o sentimento nacionalista era calculadamente inflamado pelos dois governos. O primeiro jogo, em Tegucigalpa, resultou em violência generalizada, pelo qual o governo salvadorenho exigiu uma retratação. Como ela não viesse, no segundo jogo, em San Salvador, houve mais quebra-quebra. Ao final do terceiro jogo, na Cidade do México, El Salvador alegou que a violência do primeiro jogo contra torcedores do seu país constituía genocídio e declarou guerra. O exército salvadorenho invadiu Honduras e por pouco não chegou à capital. A OTAN precisou intervir para provocar um cessar-fogo.
8: A Guerra de Lijar começou quando o rei Alfonso XII da Espanha foi agredido por populares numa visita a Paris. Embora o incidente não tivesse causado grandes problemas diplomáticos, por algum motivo o prefeito da cidade espanhola de Lijar se sentiu ultrajado, e declarou guerra à França. Nem os lijarenses marcharam os 800 km até a fronteira, nem a França deu bola, mas a declaração de guerra formal persistiu até que na década de 1970 o prefeito local, convencido das boas intenções da França após o tratamento cordial cedido ao novo rei Juan Carlos II em visita oficial, convidou o embaixador francês para selar a paz. Diz uma anedota que quando o Juan Carlos visitou Lijar, teriam lhe dito que "uma hora esses franceses iam desistir".
9: A Guerra do Barril de Carvalho ocorreu em 1325, depois de um longo período de rivalidade entre as cidades italianas de Modena e Bolonha, quando alguns soldados de Modena entraram em Bolonha e roubaram um balde de madeira que ficava num poço no centro da cidade. Os bolonheses formaram um exército de 32 mil homens (uma quantidade respeitável para os padrões da época) para atacar os vizinhos, que contavam com 7000 soldados. Mas, na única batalha travada, em Zappolino, Modena saiu vitoriosa. O tal balde está exposto na Torre da Ghirlandina, na Catedral de Modena. As facções rivais que controlavam as duas cidades só fariam as pazes definitivamente em 1529.
10: As Guerras do Bacalhau tiveram motivo semelhante à Guerra da Lagosta: embarcações inglesas que pescavam bacalhau foram abordadas pela guarda costeira da Islândia, que alegava estarem operando em águas suas por direito. A resposta britânica foi mais incisiva do que a francesa no caso anterior: em três episódios, a marinha inglesa moveu dezenas de navios de guerra para assegurar a segurança de seus pesqueiros contra meia dúzia de barcos de patrulha islandeses. Nenhum tiro foi disparado, e o atrito se resumia às embarcações dos dois países tomando posições de batalha, e chegando tão perto umas das outras quanto possível (a única vítima foi engenheiro islandês eletrocutado na casa de máquinas de seu barco quando este se chocou contra uma fragata britânica). A OTAN atuou persuadindo os britânicos a recuarem algumas vezes, mas a coisa ficou séria quando a Islândia ameaçou deixar a organização e comprar navios militares soviéticos para lidar com o problema. No final, a Islândia ampliou suas águas territoriais.
sexta-feira, 26 de junho de 2015
quinta-feira, 25 de junho de 2015
Massacre em Little Bighorn
No dia 25 de junho de 1876, uma coalizão de guerreiros Sioux das tribos Lakota, Cheyenne do norte e Arapaho, liderados por Touro Sentado e Cavalo Louco, combateram a 7ª Cavalaria do exército americano perto do rio Little Bighorn, no estado de Montana.
Na segunda metade do século XIX americanos vindos do leste começaram a se estabelecer no interior do país, pelos mais variados motivos (um deles, a promessa do governo americano em ceder terras públicas aos cidadãos que se comprometessem a ocupá-las e torná-las produtivas). Obviamente essas terras não estavam desocupadas: nas Grandes Planícies no norte do país diversas tribos iam e vinham caçando bisões ali havia cerca de 9 mil anos. Naquela época, eram dominadas principalmente por tribos Sioux.
Nessa região existe uma serra chamada Black Hills (He Sápa, em Sioux Lakota), considerada sagrada pelos nativos, mas que aos poucos vinha sendo explorada por garimpeiros atrás de rumores da existência de ouro. Em 1874, o general George Custer, um veterano da Guerra Civil de grande renome, anunciou oficialmente a descoberta de ouro ali, iniciando grande fluxo de garimpeiros e colonos em direção às Black Hills. Além da ocupação irregular nas colinas, colonos americanos atacavam os rebanhos remanescentes de bisões, principal fonte de alimento e proteção contra o frio dos Sioux, para remover sua valiosa pele, deixando montanhas de carcaças a apodrecer nos campos. Os nativos consideravam essa atividade uma afronta ao tratado de Fort Laramie, assinado após uma embaraçosa derrota do exército diante dos Lakota Oglala comandados por Nuvem Vermelha, e onde o governo dos Estados Unidos se comprometia a respeitar a autonomia da reserva indígena definida na ocasião, sobretudo as Black Hills. As ações do governo para deter o fluxo de mineradores foram tímidas.
Em 1875 uma delegação liderada por Cauda Pintada, dos Minneconjou, acompanhado do próprio Nuvem Vermelha e Chifre Solitário, signatários de Fort Laramie, foi a Washington se reunir com o presidente Ulysses Grant, exigindo a retirada dos colonos brancos de seu território. Como o Congresso fez uma contra-proposta de comprar as terras e realocar as tribos locais em uma reserva em Oklahoma, a comitiva se retirou insultada. Sem uma solução (mas sem o aval de seus chefes), em breve começariam os ataques a garimpos, fazendas, e caravanas. Uma estrada de ferro, a Northern Pacific Railroad, foi traçada para passar por dentro de território Lakota, e as obras estavam paradas por causa das hostilidades. Os guerreiros Touro Sentado, dos Hunkpapa, e Cavalo Louco, dos Lakota Oglala, se tornaram os líderes mais notórios dos bandos hostis aos colonos.
Para evitar uma declaração de guerra unilateral, o governo enviou, pelos funcionários das suas agências de assuntos indígenas, uma ordem para que todos os Sioux retornassem para a sua reserva no fim de janeiro de 1876, ou que enfrentassem ação militar. Parte atendeu o chamado, mas muitos ficaram imobilizados pelo inverno e não puderam comparecer a tempo. O bando de Touro Sentado simplesmente não mandou notícia, e isso já era esperado. Por causa disso, os Estados Unidos declararam guerra aos nativos.
Custer, liderando a 7ª Cavalaria, foi encarregado de patrulhar os vales dos rios Rosebud e Little Bighorn. Rosebud era um foco importante de resistência, onde o bando liderado por Cavalo Louco contivera uma coluna de cerca de 1300 homens sob o General George Crook no dia 17 de junho. Na manhã de 25 de junho, um batedor indígena avistou do alto de um morro uma grande aldeia perto do rio Little Bighorn Era uma aldeia formada por Lakota, Cheyenne do norte e Arapaho, três das maiores tribos das planícies. Custer divisou um ataque surpresa, e organizou seus homens em três batalhões. Em seguida, um vigia e o próprio Custer foram ao ponto de observação e tiveram dificuldade em localizar a aldeia, mas conseguiam ver ao longe as fogueiras dos soldados. Assumindo que seu acampamento seria visível também pelos índios, e com a notícia de que batedores viram guerreiros seguindo sua trilha, ele se apressou em lançar o ataque imediatamente.
Custer subestimou o número e a posição do inimigo. A companhia de Custer tinha 647 homens e havia sido planejada para lidar com o bando de Touro Sentado, que se imaginava ter 800 guerreiros montados. O que ele não sabia é que essa estimativa era acurada no inverno, quando a campanha foi planejada. Inspirados pelos assaltos bem sucedidos, muitos jovens se uniram ao bando durante a primavera, chegando a provavelmente mais de 2000 guerreiros.
O primeiro movimento foi um avanço de cavalaria até a boca do rio Reno (batizado em homenagem ao comandante desse pelotão), onde soldados abriram fogo a esmo sobre a aldeia, esperando atrair os guerreiros. Eles teriam matado ali mulheres e crianças, parentes de Bile, o chefe local. Após 20 minutos, cerca de 500 guerreiros se posicionaram no seu flanco esquerdo, e embora só tivessem uma baixa, os soldados recuaram para uma colina. Um reforço veio em seguida, sob comando do capitão Benteen, que estava passando por perto em uma missão de reconhecimento e recebera uma mensagem para se unir a Custer. As duas colunas passaram a tarde se posicionando para proteger os feridos de Reno, ouvindo um pesado tiroteio vindo do norte, mas sem visão do que estava acontecendo.
O tiroteio vinha de onde estava colocada a coluna comandada por Custer. Ele teria enviado Reno para uma primeira carga para atrair os guerreiros para fora da aldeia, enquanto ele avançaria com seus 210 homens para atacá-la sem resistência. Porém, como Reno ficou isolado, os guerreiros de Touro Sentado e Cavalo Louco se voltaram para a coluna de Custer, que tentava atravessar o Little Bighorn para alcançar a aldeia, sem proteção. O próprio Custer teria sido alvejado no início do ataque (os Cheyenne defendem que foi uma guerreira chamada em português Mulher Estrada Filhote de Bisão, ou Brava Mulher que derrubou Custer do seu cavalo). Os cavaleiros precisavam desmontar para proteger os feridos, que caíam rapidamente sob o fogo intenso. É possível que Custer tenha encontrado resistência ao longo do rio e optado por recuar para uma colina próxima antes de cair (que viria a ser conhecida como Colina do Confronto Final, Last Stand Hill), mas impedido de tomar uma posição defensiva por causa do grupo que deixava o ataque a Reno e Benteen.
Sem liderança, os soldados tentavam abrir caminho para fugir, apenas para regressar sob fogo. O pelotão de Cavalo Doido desbaratou o último foco de resistência organizada, e os indígenas passaram a perseguir e executar todos que ainda podiam correr. Ao fim da tarde, encurralados, absolutamente todos os homens de Custer estavam mortos. Toda a batalha é recontada em conjectura e com base em relatos de indígenas que podem ou não tê-la testemunhado, porque nenhum soldado americano a presenciou e sobreviveu para escrever um relatório. Os homens de Reno só vieram a ter noção do que havia acontecido quando, contornando o morro, viram os Lakota atirando nos últimos moribundos no chão. Durante a noite, e no dia seguinte, Touro Sentado e Cavalo Louco atacaram Reno e Benteen entrincheirados no morro, mas acabaram recuando quando chegaram reforços da terceira coluna organizada por Custer no dia anterior.
O massacre em Little Bighorn foi recebido com choque. Nos próximos meses a ação militar recrudesceria na área, e a guerra contra os índios duraria, de maneira intermitente, até a "desforra" no massacre em Wounded Knee em 1890. A grande congregação de Lakota, Cheyenne e Arapaho acabaria se dissolvendo por questões práticas - o pasto era incapaz de alimentar toda a sua montaria, e a caça se tornava escassa para alimentar toda aquela população. Desarticulados, desalojados e famintos, os indígenas não ofereceriam mais muita resistência. Sob a ameaça de terem suas rações cortadas, os líderes das tribos que viviam em reserva aceitariam um tratado de paz que cederia as Black Hills à jurisdição federal - até hoje os Sioux repudiam o acordo como ilegítimo e em 1980 chegaram a recusar uma generosa compensação em dinheiro. Touro Sentado fugiria para o Canadá, e mais tarde se juntaria à trupe de Buffalo Bill e seu famoso show itinerante. Cavalo Louco se entregou em meados de 1877, e sua rendição deu fim à guerra contra os Sioux de 1876-1877. Ele acabaria morto sob custódia.
Tanto George Custer como Touro Sentado e Cavalo Louco se tornariam parte da cultura popular americana, retratados, parodiados e emulados em livros, pinturas, filmes, desenhos animados, brinquedos e video games.
Na segunda metade do século XIX americanos vindos do leste começaram a se estabelecer no interior do país, pelos mais variados motivos (um deles, a promessa do governo americano em ceder terras públicas aos cidadãos que se comprometessem a ocupá-las e torná-las produtivas). Obviamente essas terras não estavam desocupadas: nas Grandes Planícies no norte do país diversas tribos iam e vinham caçando bisões ali havia cerca de 9 mil anos. Naquela época, eram dominadas principalmente por tribos Sioux.
Nessa região existe uma serra chamada Black Hills (He Sápa, em Sioux Lakota), considerada sagrada pelos nativos, mas que aos poucos vinha sendo explorada por garimpeiros atrás de rumores da existência de ouro. Em 1874, o general George Custer, um veterano da Guerra Civil de grande renome, anunciou oficialmente a descoberta de ouro ali, iniciando grande fluxo de garimpeiros e colonos em direção às Black Hills. Além da ocupação irregular nas colinas, colonos americanos atacavam os rebanhos remanescentes de bisões, principal fonte de alimento e proteção contra o frio dos Sioux, para remover sua valiosa pele, deixando montanhas de carcaças a apodrecer nos campos. Os nativos consideravam essa atividade uma afronta ao tratado de Fort Laramie, assinado após uma embaraçosa derrota do exército diante dos Lakota Oglala comandados por Nuvem Vermelha, e onde o governo dos Estados Unidos se comprometia a respeitar a autonomia da reserva indígena definida na ocasião, sobretudo as Black Hills. As ações do governo para deter o fluxo de mineradores foram tímidas.
Em 1875 uma delegação liderada por Cauda Pintada, dos Minneconjou, acompanhado do próprio Nuvem Vermelha e Chifre Solitário, signatários de Fort Laramie, foi a Washington se reunir com o presidente Ulysses Grant, exigindo a retirada dos colonos brancos de seu território. Como o Congresso fez uma contra-proposta de comprar as terras e realocar as tribos locais em uma reserva em Oklahoma, a comitiva se retirou insultada. Sem uma solução (mas sem o aval de seus chefes), em breve começariam os ataques a garimpos, fazendas, e caravanas. Uma estrada de ferro, a Northern Pacific Railroad, foi traçada para passar por dentro de território Lakota, e as obras estavam paradas por causa das hostilidades. Os guerreiros Touro Sentado, dos Hunkpapa, e Cavalo Louco, dos Lakota Oglala, se tornaram os líderes mais notórios dos bandos hostis aos colonos.
Para evitar uma declaração de guerra unilateral, o governo enviou, pelos funcionários das suas agências de assuntos indígenas, uma ordem para que todos os Sioux retornassem para a sua reserva no fim de janeiro de 1876, ou que enfrentassem ação militar. Parte atendeu o chamado, mas muitos ficaram imobilizados pelo inverno e não puderam comparecer a tempo. O bando de Touro Sentado simplesmente não mandou notícia, e isso já era esperado. Por causa disso, os Estados Unidos declararam guerra aos nativos.
Custer, liderando a 7ª Cavalaria, foi encarregado de patrulhar os vales dos rios Rosebud e Little Bighorn. Rosebud era um foco importante de resistência, onde o bando liderado por Cavalo Louco contivera uma coluna de cerca de 1300 homens sob o General George Crook no dia 17 de junho. Na manhã de 25 de junho, um batedor indígena avistou do alto de um morro uma grande aldeia perto do rio Little Bighorn Era uma aldeia formada por Lakota, Cheyenne do norte e Arapaho, três das maiores tribos das planícies. Custer divisou um ataque surpresa, e organizou seus homens em três batalhões. Em seguida, um vigia e o próprio Custer foram ao ponto de observação e tiveram dificuldade em localizar a aldeia, mas conseguiam ver ao longe as fogueiras dos soldados. Assumindo que seu acampamento seria visível também pelos índios, e com a notícia de que batedores viram guerreiros seguindo sua trilha, ele se apressou em lançar o ataque imediatamente.
Custer subestimou o número e a posição do inimigo. A companhia de Custer tinha 647 homens e havia sido planejada para lidar com o bando de Touro Sentado, que se imaginava ter 800 guerreiros montados. O que ele não sabia é que essa estimativa era acurada no inverno, quando a campanha foi planejada. Inspirados pelos assaltos bem sucedidos, muitos jovens se uniram ao bando durante a primavera, chegando a provavelmente mais de 2000 guerreiros.
O primeiro movimento foi um avanço de cavalaria até a boca do rio Reno (batizado em homenagem ao comandante desse pelotão), onde soldados abriram fogo a esmo sobre a aldeia, esperando atrair os guerreiros. Eles teriam matado ali mulheres e crianças, parentes de Bile, o chefe local. Após 20 minutos, cerca de 500 guerreiros se posicionaram no seu flanco esquerdo, e embora só tivessem uma baixa, os soldados recuaram para uma colina. Um reforço veio em seguida, sob comando do capitão Benteen, que estava passando por perto em uma missão de reconhecimento e recebera uma mensagem para se unir a Custer. As duas colunas passaram a tarde se posicionando para proteger os feridos de Reno, ouvindo um pesado tiroteio vindo do norte, mas sem visão do que estava acontecendo.
O tiroteio vinha de onde estava colocada a coluna comandada por Custer. Ele teria enviado Reno para uma primeira carga para atrair os guerreiros para fora da aldeia, enquanto ele avançaria com seus 210 homens para atacá-la sem resistência. Porém, como Reno ficou isolado, os guerreiros de Touro Sentado e Cavalo Louco se voltaram para a coluna de Custer, que tentava atravessar o Little Bighorn para alcançar a aldeia, sem proteção. O próprio Custer teria sido alvejado no início do ataque (os Cheyenne defendem que foi uma guerreira chamada em português Mulher Estrada Filhote de Bisão, ou Brava Mulher que derrubou Custer do seu cavalo). Os cavaleiros precisavam desmontar para proteger os feridos, que caíam rapidamente sob o fogo intenso. É possível que Custer tenha encontrado resistência ao longo do rio e optado por recuar para uma colina próxima antes de cair (que viria a ser conhecida como Colina do Confronto Final, Last Stand Hill), mas impedido de tomar uma posição defensiva por causa do grupo que deixava o ataque a Reno e Benteen.
Sem liderança, os soldados tentavam abrir caminho para fugir, apenas para regressar sob fogo. O pelotão de Cavalo Doido desbaratou o último foco de resistência organizada, e os indígenas passaram a perseguir e executar todos que ainda podiam correr. Ao fim da tarde, encurralados, absolutamente todos os homens de Custer estavam mortos. Toda a batalha é recontada em conjectura e com base em relatos de indígenas que podem ou não tê-la testemunhado, porque nenhum soldado americano a presenciou e sobreviveu para escrever um relatório. Os homens de Reno só vieram a ter noção do que havia acontecido quando, contornando o morro, viram os Lakota atirando nos últimos moribundos no chão. Durante a noite, e no dia seguinte, Touro Sentado e Cavalo Louco atacaram Reno e Benteen entrincheirados no morro, mas acabaram recuando quando chegaram reforços da terceira coluna organizada por Custer no dia anterior.
O massacre em Little Bighorn foi recebido com choque. Nos próximos meses a ação militar recrudesceria na área, e a guerra contra os índios duraria, de maneira intermitente, até a "desforra" no massacre em Wounded Knee em 1890. A grande congregação de Lakota, Cheyenne e Arapaho acabaria se dissolvendo por questões práticas - o pasto era incapaz de alimentar toda a sua montaria, e a caça se tornava escassa para alimentar toda aquela população. Desarticulados, desalojados e famintos, os indígenas não ofereceriam mais muita resistência. Sob a ameaça de terem suas rações cortadas, os líderes das tribos que viviam em reserva aceitariam um tratado de paz que cederia as Black Hills à jurisdição federal - até hoje os Sioux repudiam o acordo como ilegítimo e em 1980 chegaram a recusar uma generosa compensação em dinheiro. Touro Sentado fugiria para o Canadá, e mais tarde se juntaria à trupe de Buffalo Bill e seu famoso show itinerante. Cavalo Louco se entregou em meados de 1877, e sua rendição deu fim à guerra contra os Sioux de 1876-1877. Ele acabaria morto sob custódia.
Tanto George Custer como Touro Sentado e Cavalo Louco se tornariam parte da cultura popular americana, retratados, parodiados e emulados em livros, pinturas, filmes, desenhos animados, brinquedos e video games.
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quarta-feira, 24 de junho de 2015
Morre Gardel
Em 24 de junho de 1935, uma colisão entre aviões na pista do aeroporto de Medelín, na Colômbia, tirou a vida de Carlos Gardel e vários empresários e músicos ligados a ele, entre eles o compositor paulista Alfredo Le Pera.
Gardel, nascido Charles Gardes na França em 1890, imigrou aos dois anos com sua mãe para a Argentina, estabelecendo-se em um cortiço na rua Uruguay, no bairro San Nicolas, onde hoje funciona um estacionamento em frente à uma concessionária de automóveis de propriedade de José Froilán Gonzalez, ex-piloto de Fórmula 1, em Buenos Aires. Ao longo da infância e adolescência, Gardel e sua mãe alugaram vários outros imóveis, sempre próximo ao eixo da Rua Corrientes, endereço boêmio onde havia vários teatros, bares e restaurantes.
Garoto ainda, Gardel ajudava sua mãe, que trabalhava como passadeira, empregando-se aqui e ali. Nos teatros trabalhou com uma companhia como claque - espectadores contratados para reagir conforme o número, influenciando a plateia - como figurante, e ajudando nos bastidores. Assim ele tinha a oportunidade de ver e conhecer artistas importantes, como o barítono espanhol Sagi Barba (com quem teve algumas aulas de canto) e o italiano Titta Ruffo, considerado um dos maiores da ópera italiana do seu tempo. Na adolescência seus amigos o levavam ao bar Traverso, onde os donos, impressionados com a qualidade da sua voz, lhe deram as primeiras oportunidades. Esta família Traverso estava associada Partido Autonomista Nacional, no poder havia muitos anos, e de certa forma dominava a vizinhança do bairro de Abasto, de maneira que Gardel conseguiu engrenar na carreira graças a sua relação com políticos conservadores.
O começo, de outra forma, teria sido difícil. O tipo mais popular de música portenha era a payada, uma espécie de repente de origem espanhola. Gardel não tinha a habilidade necessária para a improvisação em verso típica daquele estilo, mas pela sua voz, muita gente trabalhou para que o seu caminho se abrisse. Cantando da payada à ópera, Gardel se tornou figura conhecida Buenos Aires afora, se tornando um enorme sucesso no Uruguai ao lado do local José Razzano. Mas foi apenas em 1917 que ele cantou um tango pela primeira vez: La Noche Triste, de Samuel Castriota e Pascual Contursi. A sua gravação naquele ano é considerada o nascimento do tango-canção.
O novo estilo de tango foi recebido com ressalvas. Considerava-se o tango um estilo de música vulgar, uma "caricatura da música e da literatura", segundo o músico de tango tradicional Gabino Ezeiza. De fato, o tango estava associado às comunidades negras da periferia de Buenos Aires (Ezeiza era negro), e nem os artistas mais tradicionais e nem a alta sociedade portenha estavam preparadas para esse novo paradigma. Uma montagem teatral de 1918 incluía Manolita Poli, de 9 anos, cantando La Noche Triste à moda de Gardel, conquistando o público. A partir daí, Gardel investiu cada vez mais no tango, e em poucos anos já era o estilo mais popular de música na capital argentina.
A popularização recente dos discos de vinil permitiu que Gardel fosse ouvido e conhecido na Europa. Em 1923, com Razzano, fez um tour na Espanha. Pouco depois, sem Razzano (impossibilitado de cantar por causa de uma lesão nas cordas vocais), retornou à Espanha (onde gravou pela primeira vez com um microfone) e foi à França, onde o tango já era apreciado antes, e onde Gardel fez grande sucesso. Em 1933 apresentou-se em Nova Iorque.
Carlos Gardel, além de ter uma voz e uma interpretação de destaque, também era bem apessoado. Em 1930 ele estreou no cinema, com filmagens suas interpretando tango, e sua imagem se tornou um produto tão valioso quanto sua voz, sobretudo com o público feminino. No começo da carreira ele chegara a pesar 120 quilos, tratou de baixar para 76. Gardel tinha consciência de que sua aparência atraía público feminino, e, para dar a impressão de estar disponível, manteve quase em segredo seu relacionamento com Isabel del Valle, que começou em 1920 e durou até a sua morte.
Foi trabalhando com cinema que Gardel conheceu Le Pera, em Paris. O paulista se tornou roteirista dos seus filmes e letrista de suas músicas, e os dois trabalharam juntos na Europa e nos Estados Unidos. Da parceria surgiram tangos devastadoramente famosos, como Por Una Cabeza, El Día Que Me Quieras, e Mi Buenos Aires Querido (que você, leitor, deve ter lido entonando mentalmente a melodia dos seus respectivos versos). Os dois viajavam para promover o lançamento do filme El Día Que Me Quieras, produzido nos Estados Unidos, quando um problema na decolagem causou a colisão do seu avião em Medelín.
Após sua morte, Gardel se tornou um objeto de culto na Argentina e no Uruguai. Os uruguaios até hoje reivindicam o nascimento do cantor para a cidade de Tacuarembó, baseado em uma certidão de nascimento aparentemente forjada - Gardel, como era francês de nascimento, teria problemas com o governo da França por não ter se alistado durante a Primeira Guerra Mundial e tentou conseguir cidadania uruguaia com esse documento. Os lugares onde Gardel morou e se apresentou estão marcados com placas e monumentos em Buenos Aires, no chamado Circuito Gardel, e sua última residência, em Abasto, é um museu. Sua versão do tango se tornou um paradigma para esse estilo musical, e suas músicas parte da cultura popular no mundo todo; Por Una Cabeza é a música tema da icônica cena de dança interpretada por Al Pacino no filme Perfume de Mulher.
Neste dia também: A Batalha de Moira
Gardel, nascido Charles Gardes na França em 1890, imigrou aos dois anos com sua mãe para a Argentina, estabelecendo-se em um cortiço na rua Uruguay, no bairro San Nicolas, onde hoje funciona um estacionamento em frente à uma concessionária de automóveis de propriedade de José Froilán Gonzalez, ex-piloto de Fórmula 1, em Buenos Aires. Ao longo da infância e adolescência, Gardel e sua mãe alugaram vários outros imóveis, sempre próximo ao eixo da Rua Corrientes, endereço boêmio onde havia vários teatros, bares e restaurantes.
Garoto ainda, Gardel ajudava sua mãe, que trabalhava como passadeira, empregando-se aqui e ali. Nos teatros trabalhou com uma companhia como claque - espectadores contratados para reagir conforme o número, influenciando a plateia - como figurante, e ajudando nos bastidores. Assim ele tinha a oportunidade de ver e conhecer artistas importantes, como o barítono espanhol Sagi Barba (com quem teve algumas aulas de canto) e o italiano Titta Ruffo, considerado um dos maiores da ópera italiana do seu tempo. Na adolescência seus amigos o levavam ao bar Traverso, onde os donos, impressionados com a qualidade da sua voz, lhe deram as primeiras oportunidades. Esta família Traverso estava associada Partido Autonomista Nacional, no poder havia muitos anos, e de certa forma dominava a vizinhança do bairro de Abasto, de maneira que Gardel conseguiu engrenar na carreira graças a sua relação com políticos conservadores.
O começo, de outra forma, teria sido difícil. O tipo mais popular de música portenha era a payada, uma espécie de repente de origem espanhola. Gardel não tinha a habilidade necessária para a improvisação em verso típica daquele estilo, mas pela sua voz, muita gente trabalhou para que o seu caminho se abrisse. Cantando da payada à ópera, Gardel se tornou figura conhecida Buenos Aires afora, se tornando um enorme sucesso no Uruguai ao lado do local José Razzano. Mas foi apenas em 1917 que ele cantou um tango pela primeira vez: La Noche Triste, de Samuel Castriota e Pascual Contursi. A sua gravação naquele ano é considerada o nascimento do tango-canção.
O novo estilo de tango foi recebido com ressalvas. Considerava-se o tango um estilo de música vulgar, uma "caricatura da música e da literatura", segundo o músico de tango tradicional Gabino Ezeiza. De fato, o tango estava associado às comunidades negras da periferia de Buenos Aires (Ezeiza era negro), e nem os artistas mais tradicionais e nem a alta sociedade portenha estavam preparadas para esse novo paradigma. Uma montagem teatral de 1918 incluía Manolita Poli, de 9 anos, cantando La Noche Triste à moda de Gardel, conquistando o público. A partir daí, Gardel investiu cada vez mais no tango, e em poucos anos já era o estilo mais popular de música na capital argentina.
A popularização recente dos discos de vinil permitiu que Gardel fosse ouvido e conhecido na Europa. Em 1923, com Razzano, fez um tour na Espanha. Pouco depois, sem Razzano (impossibilitado de cantar por causa de uma lesão nas cordas vocais), retornou à Espanha (onde gravou pela primeira vez com um microfone) e foi à França, onde o tango já era apreciado antes, e onde Gardel fez grande sucesso. Em 1933 apresentou-se em Nova Iorque.
Carlos Gardel, além de ter uma voz e uma interpretação de destaque, também era bem apessoado. Em 1930 ele estreou no cinema, com filmagens suas interpretando tango, e sua imagem se tornou um produto tão valioso quanto sua voz, sobretudo com o público feminino. No começo da carreira ele chegara a pesar 120 quilos, tratou de baixar para 76. Gardel tinha consciência de que sua aparência atraía público feminino, e, para dar a impressão de estar disponível, manteve quase em segredo seu relacionamento com Isabel del Valle, que começou em 1920 e durou até a sua morte.
Foi trabalhando com cinema que Gardel conheceu Le Pera, em Paris. O paulista se tornou roteirista dos seus filmes e letrista de suas músicas, e os dois trabalharam juntos na Europa e nos Estados Unidos. Da parceria surgiram tangos devastadoramente famosos, como Por Una Cabeza, El Día Que Me Quieras, e Mi Buenos Aires Querido (que você, leitor, deve ter lido entonando mentalmente a melodia dos seus respectivos versos). Os dois viajavam para promover o lançamento do filme El Día Que Me Quieras, produzido nos Estados Unidos, quando um problema na decolagem causou a colisão do seu avião em Medelín.
Após sua morte, Gardel se tornou um objeto de culto na Argentina e no Uruguai. Os uruguaios até hoje reivindicam o nascimento do cantor para a cidade de Tacuarembó, baseado em uma certidão de nascimento aparentemente forjada - Gardel, como era francês de nascimento, teria problemas com o governo da França por não ter se alistado durante a Primeira Guerra Mundial e tentou conseguir cidadania uruguaia com esse documento. Os lugares onde Gardel morou e se apresentou estão marcados com placas e monumentos em Buenos Aires, no chamado Circuito Gardel, e sua última residência, em Abasto, é um museu. Sua versão do tango se tornou um paradigma para esse estilo musical, e suas músicas parte da cultura popular no mundo todo; Por Una Cabeza é a música tema da icônica cena de dança interpretada por Al Pacino no filme Perfume de Mulher.
Neste dia também: A Batalha de Moira
terça-feira, 23 de junho de 2015
Cesarion, o último faraó
Em 23 de junho de 47 a.C. nasceu Cesarion, filho de Cleópatra e Júlio César.
Cesarion nasceu após uma visita de Júlio César a Cleópatra, no Egito. A faraó havia assistido César durante a guerra civil contra os partidários de Pompeu, que terminaria assassinado enquanto buscava refúgio no Egito. Cleópatra sustentava que ele era filho de César - então cônsul e a figura mais proeminente de Roma, de quem o Egito se tornara um Estado-satélite. Nos seus primeiros dois anos de vida, ele e sua mãe viveram em Roma como convidados de César. O general romano, contudo, nunca assumiu a paternidade do menino, tendo já se comprometido em testamento com a adoção de seu sobrinho-neto Otaviano como seu herdeiro. Cesarion seria o primeiro e único filho biológico de César. Cleópatra retornou com ele rapidamente para o Egito, e o proclamou Faraó.
O assassinato de César em março de 44 a.C. fragilizou a posição de Cleópatra e a soberania do Egito. Se seguiu uma guerra civil, onde o Triunvirato de Otaviano, Marco Antonio e Marco Emílio Lépido saiu vitorioso. A República foi provisoriamente repartida entre os três, ficando Antonio encarregado da administração das províncias orientais. Enquanto visitava suas novas possessões, Antonio encontrou-se com Cleópatra em Tarso, onde participaram de um grande banquete. Os dois passaram o inverno juntos, e o romance resultou em um par de gêmeos.
Já casado com a irmã de Otaviano, Otávia, e sentindo-se negligenciado por Roma quanto à sua campanha contra o Império Parta, Antonio partiu para o Egito em 37 a.C. em busca de suporte financeiro. Nesse momento, Otaviano expandia seu controle sobre a parte ocidental de Roma, forçando a aposentadoria de Lépido, assumindo seus domínios na África, e reforçando, com sua presença, seu favor diante do senado. Embora entre os dois não houvesse ainda uma ruptura política formal, parece que Antonio começou a se mover no sentido de fortalecer sua posição no oriente para fazer frente ao poder de Otaviano, apoiando-se no Egito.
Ele começou a distribuir províncias para os filhos de Cleópatra (Cesario e os seus). Em uma dessas medidas, em 34 a.C., ele também reconheceu Cesarion como filho legítimo e herdeiro de César. Além de receber como doação terras públicas, seu novo status oficial de "deus" e "filho de um deus" (porque César fora proclamado deus em 42 a.C.) irritou demais Roma. O senado vetou as doações e considerou um ultraje à dignidade do cidadão romano a deificação de um estrangeiro. Mas foi o reconhecimento de Cesarion como herdeiro de César que mais preocupou Otaviano, pois toda a sua popularidade derivava do testamento em que o general romano o tornava herdeiro por adoção. Um filho legítimo, mesmo fora do testamento, poderia ter mais apoio popular do que um adotivo (e que Antonio acusava de ter forjado os documentos da adoção).
Como o acordo do Triunvirato não seria renovado em 33 a.C., a guerra foi inevitável. Otaviano declarou guerra ao Egito (uma medida aceitável pelo senado, ao invés de declarar guerra contra outro romano), mas Antonio logo mobilizou o que pôde para defender Cleópatra e seus filhos. A enorme popularidade do jovem Otaviano, a despeito do prestígio de Antonio servindo ao lado de Julio César na gália, fez com que grande parte das tropas sob este desertassem em favor do rival. Após uma derrota naval em Actium em 30 a.C., Antonio voltou ao Egito e cometeu suicídio. Antes de fazer o mesmo, a rainha tentou negociar com Otaviano pela vida de Cesarion. Com o Egito conquistado, essa era uma questão que ainda o incomodava.
Cleópatra teria enviado Cesarion para a Índia, possivelmente anos antes, com soldados e tesouros. Mas quando estava para embarcar em um porto da Etiópia, teria sido convencido por um de seus guardiões a retornar a Alexandria, pois Otaviano o teria convidado a assumir o trono do Egito (Cesarion já tinha 17 anos). Segundo Plutarco, Cesarion retornou apenas para ser executado. "Dois Césares são demais", teria sido a resposta de Otaviano à súplica de Cleópatra.
Com a morte de Cesarion, Otaviano se tornou o único herdeiro legítimo de César disponível. Seguindo a conquista do Egito, Otaviano, no posto de cônsul, baixou uma série de decretos que mantinham uma aparência de república a Roma, mas que lhe atribuía poderes inigualáveis. Ele criou as fundações do Império Romano, do qual seria declarado imperador em 27 a.C.
Já o Egito caiu sob jugo romano, como ocorreu outras vezes no passado sob persas e macedônios (de cujo general Ptolomeu Cesarion descendia), mas mesmo os monarcas persas e macedônios seriam entronizados e reconhecidos pelo Egito como faraós das 27ª, 31ª, 32ª, e 33ª dinastias. Após cerca de 3200 anos, o Egito não existia mais como entidade política. Embora uma única lista tardia incluísse imperadores romanos na lista de reis do Egito até o século III d.C., Cesarion, conhecido também como Ptolomeu XV, foi o último faraó nativo.
Cesarion nasceu após uma visita de Júlio César a Cleópatra, no Egito. A faraó havia assistido César durante a guerra civil contra os partidários de Pompeu, que terminaria assassinado enquanto buscava refúgio no Egito. Cleópatra sustentava que ele era filho de César - então cônsul e a figura mais proeminente de Roma, de quem o Egito se tornara um Estado-satélite. Nos seus primeiros dois anos de vida, ele e sua mãe viveram em Roma como convidados de César. O general romano, contudo, nunca assumiu a paternidade do menino, tendo já se comprometido em testamento com a adoção de seu sobrinho-neto Otaviano como seu herdeiro. Cesarion seria o primeiro e único filho biológico de César. Cleópatra retornou com ele rapidamente para o Egito, e o proclamou Faraó.
O assassinato de César em março de 44 a.C. fragilizou a posição de Cleópatra e a soberania do Egito. Se seguiu uma guerra civil, onde o Triunvirato de Otaviano, Marco Antonio e Marco Emílio Lépido saiu vitorioso. A República foi provisoriamente repartida entre os três, ficando Antonio encarregado da administração das províncias orientais. Enquanto visitava suas novas possessões, Antonio encontrou-se com Cleópatra em Tarso, onde participaram de um grande banquete. Os dois passaram o inverno juntos, e o romance resultou em um par de gêmeos.
Já casado com a irmã de Otaviano, Otávia, e sentindo-se negligenciado por Roma quanto à sua campanha contra o Império Parta, Antonio partiu para o Egito em 37 a.C. em busca de suporte financeiro. Nesse momento, Otaviano expandia seu controle sobre a parte ocidental de Roma, forçando a aposentadoria de Lépido, assumindo seus domínios na África, e reforçando, com sua presença, seu favor diante do senado. Embora entre os dois não houvesse ainda uma ruptura política formal, parece que Antonio começou a se mover no sentido de fortalecer sua posição no oriente para fazer frente ao poder de Otaviano, apoiando-se no Egito.
Ele começou a distribuir províncias para os filhos de Cleópatra (Cesario e os seus). Em uma dessas medidas, em 34 a.C., ele também reconheceu Cesarion como filho legítimo e herdeiro de César. Além de receber como doação terras públicas, seu novo status oficial de "deus" e "filho de um deus" (porque César fora proclamado deus em 42 a.C.) irritou demais Roma. O senado vetou as doações e considerou um ultraje à dignidade do cidadão romano a deificação de um estrangeiro. Mas foi o reconhecimento de Cesarion como herdeiro de César que mais preocupou Otaviano, pois toda a sua popularidade derivava do testamento em que o general romano o tornava herdeiro por adoção. Um filho legítimo, mesmo fora do testamento, poderia ter mais apoio popular do que um adotivo (e que Antonio acusava de ter forjado os documentos da adoção).
Como o acordo do Triunvirato não seria renovado em 33 a.C., a guerra foi inevitável. Otaviano declarou guerra ao Egito (uma medida aceitável pelo senado, ao invés de declarar guerra contra outro romano), mas Antonio logo mobilizou o que pôde para defender Cleópatra e seus filhos. A enorme popularidade do jovem Otaviano, a despeito do prestígio de Antonio servindo ao lado de Julio César na gália, fez com que grande parte das tropas sob este desertassem em favor do rival. Após uma derrota naval em Actium em 30 a.C., Antonio voltou ao Egito e cometeu suicídio. Antes de fazer o mesmo, a rainha tentou negociar com Otaviano pela vida de Cesarion. Com o Egito conquistado, essa era uma questão que ainda o incomodava.
Cleópatra teria enviado Cesarion para a Índia, possivelmente anos antes, com soldados e tesouros. Mas quando estava para embarcar em um porto da Etiópia, teria sido convencido por um de seus guardiões a retornar a Alexandria, pois Otaviano o teria convidado a assumir o trono do Egito (Cesarion já tinha 17 anos). Segundo Plutarco, Cesarion retornou apenas para ser executado. "Dois Césares são demais", teria sido a resposta de Otaviano à súplica de Cleópatra.
Com a morte de Cesarion, Otaviano se tornou o único herdeiro legítimo de César disponível. Seguindo a conquista do Egito, Otaviano, no posto de cônsul, baixou uma série de decretos que mantinham uma aparência de república a Roma, mas que lhe atribuía poderes inigualáveis. Ele criou as fundações do Império Romano, do qual seria declarado imperador em 27 a.C.
Já o Egito caiu sob jugo romano, como ocorreu outras vezes no passado sob persas e macedônios (de cujo general Ptolomeu Cesarion descendia), mas mesmo os monarcas persas e macedônios seriam entronizados e reconhecidos pelo Egito como faraós das 27ª, 31ª, 32ª, e 33ª dinastias. Após cerca de 3200 anos, o Egito não existia mais como entidade política. Embora uma única lista tardia incluísse imperadores romanos na lista de reis do Egito até o século III d.C., Cesarion, conhecido também como Ptolomeu XV, foi o último faraó nativo.
segunda-feira, 22 de junho de 2015
"Não obstante, ela se move"
Em 22 de junho de 1633, Galileu Galilei recebeu sua condenação da Santa Inquisição por causa da sua defesa da tese de que a Terra gira em torno do sol.
Durante a Renascença, a Europa viveu um período de rápido desenvolvimento filosófico, técnico e científico. Em parte graças à redescoberta de obras e autores gregos (além de Aristóteles, cujo conhecimento enciclopédico, porém engessado por convicções sem bases experimentais, sobreviveu muito bem durante a Idade Média), árabes, e ao intercâmbio comercial e intelectual com a Índia e a China. As navegações transoceânicas literalmente aumentaram o tamanho do mundo para o intelectual europeu - que, com o advento da imprensa, tinha agora à sua disposição muito mais literatura disponível do que jamais poderia ter na era dos manuscritos - e pensadores de todas as áreas se apressaram em investigar o que havia ainda a ser descoberto. Até fins do século XVII, autores europeus haviam conseguido avanços notáveis em ciências, como a matemática, a cartografia, a botânica, e a astronomia.
A astronomia deve muito a Nicolau Copérnico, cujas observações o levaram a concluir que o sol estava no centro de um sistema, em torno do qual os planetas, incluindo a Terra, gravitavam em órbitas mais ou menos constantemente concêntricas. Sua tese foi exposta minunciosamente, e em toda sua tecnicalidade, no seu livro Da Revolução dos Orbes Celestes, de 1543. Num mundo moldado em torno da crença de que o homem era o centro do universo, e a Terra o seu cenário permanente, a alegação de que a Terra era apenas mais um dentre vários mundos girando em torno do sol era uma ameaça franca à credibilidade da Igreja e ao status quo montado sobre ela - embora, fora do mundo cristão, e mesmo muito antes dele, muitos suspeitassem de que as coisas transcorriam de outra maneira. Com o recrudescimento da Santa Inquisição como parte da Contra-Reforma católica, em 1616 a Igreja moveu o Da Revolução para seu índice de livros proibidos.
Galileu teve acesso ao Da Revolução anos antes, e teria dado a entender que concordava com sua tese em carta a Johann Kepler enquanto lecionava matemática em Pádua. Em 1609, ele construiu seu próprio telescópio baseado nas descrições do telescópio inventado no ano anterior por Hans Lippershey, e além de passar usar o projeto geral para construir telescópios de boa qualidade para a venda (o que lhe rendeu alguma riqueza), com ele passou a observar mais intimamente as estrelas e os planetas que até então só podiam ser vistos a olho nu. Galileu observou luas em Júpiter (Ganimede, Calisto, Io e Europa, conhecidas hoje como "satélites galileanos"), o que por si só rompia com a cosmologia de Aristóteles, que não acreditava ser possível que "planetas" orbitassem outros planetas. Ele também avistou os anéis de Saturno, e o planeta Netuno, que ele não chegou a reconhecer como tal, devido à sua dificuldade em segui-lo o suficiente para caracterizar seu movimento como o dos outros planetas. Viu manchas solares, cometas, e descreveu crateras na Lua, que se achava ser, antes, uma esfera translúcida e perfeita.
Sua observação de Vênus o levou a confirmar a tese heliocêntrica de Copérnico. Em Vênus ele viu claramente a ocorrência de fases, como as da lua. Como o movimento de Vênus não era ao redor, e nem dependente, da Terra, ele provava experimentalmente que aquele planeta girava em torno do sol, e a existência do movimento de translação. Tycho Brahe, antes dele, propôs um sistema em que o Sol era orbitado por Mercúrio e Vênus, e esse pequeno "sistema solar" orbitava em torno da Terra, junto com os outros planetas conhecidos, o que Galileu e outros cientistas consideravam "insatisfatório". Em 1615, em um ensaio, Galileu cautelosamente propôs que a teoria heliocêntrica não se opunha à Bíblia (cujo salmo 104, por exemplo, explicitamente diz que "O Senhor colocou a Terra sobre suas fundações; ela não pode ser movida"), pois certos trechos do texto sagrado deviam ser lido como poesia ou alegorias. No ano em que Da Revolução foi proibido, Galileu foi intimado a renunciar à tese heliocêntrica pela Inquisição.
Galileu formalmente acatou a decisão da Inquisição, mas continuou trabalhando sobre suas observações e os cálculos deixados por Copérnico e outros que continuaram trabalhando em outros campos da astronomia. Ele dizia estar trabalhando num livro sobre a mudança das marés. Mas na realidade estava compondo uma tese na forma de um debate de quatro dias (em que cada dia ele se concentra em um assunto) entre um filósofo a favor do heliocentrismo, outro a favor das cosmologias ptolomaicas e aristotélicas, e um leigo neutro. Ali ele expõe as contradições dos resultados obtidos pela observação e experimentação contra o empirismo filosófico. Esse formato foi uma sugestão do próprio Papa Urbano VIII, um progressista que testemunhou a favor da obra de Copérnico em 1616, e seu amigo. O personagem leigo afinal inclina-se a favor do heliocentrista, indicando a posição de Galileu sobre o assunto. O aristotélico, Simplício (que em italiano também pode significar "simplório"), também não é dos mais brilhantes, e é uma espécie de crítica ao obscurantismo eclesiástico.
Diálogos Sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo foi publicado em 1632. Em 1633 Galileu se apresentou diante do Santo Ofício. A Inquisição o acusava de heresia ao defender o copernicismo. O Papa particularmente não deve ter ficado feliz de encontrar suas próprias teorias astronômicas na voz de Simplício. Por quatro meses a Inquisição interrogou Galileu, que defendeu-se alegando que, desde 1616, não advogara mais publicamente a tese de Copérnico. Mas ao final desse período, doente e sob ameaça de tortura, Galileu cedeu. Além de uma pena de prisão perpétua, alterada para prisão domiciliar, e da proibição da publicação do Diálogos, o astrônomo foi obrigado a renunciar, negar, e depreciar publicamente a tese heliocêntrica. Contudo, uma anedota popular que corria ainda quando Galileu era vivo dizia que, ao final de sua exposição contra o seu modelo de sistema solar, ele teria dito a famosa frase em desafio:
"E pur si muove". "Não obstante, ela (a Terra) se move".
Durante a Renascença, a Europa viveu um período de rápido desenvolvimento filosófico, técnico e científico. Em parte graças à redescoberta de obras e autores gregos (além de Aristóteles, cujo conhecimento enciclopédico, porém engessado por convicções sem bases experimentais, sobreviveu muito bem durante a Idade Média), árabes, e ao intercâmbio comercial e intelectual com a Índia e a China. As navegações transoceânicas literalmente aumentaram o tamanho do mundo para o intelectual europeu - que, com o advento da imprensa, tinha agora à sua disposição muito mais literatura disponível do que jamais poderia ter na era dos manuscritos - e pensadores de todas as áreas se apressaram em investigar o que havia ainda a ser descoberto. Até fins do século XVII, autores europeus haviam conseguido avanços notáveis em ciências, como a matemática, a cartografia, a botânica, e a astronomia.
A astronomia deve muito a Nicolau Copérnico, cujas observações o levaram a concluir que o sol estava no centro de um sistema, em torno do qual os planetas, incluindo a Terra, gravitavam em órbitas mais ou menos constantemente concêntricas. Sua tese foi exposta minunciosamente, e em toda sua tecnicalidade, no seu livro Da Revolução dos Orbes Celestes, de 1543. Num mundo moldado em torno da crença de que o homem era o centro do universo, e a Terra o seu cenário permanente, a alegação de que a Terra era apenas mais um dentre vários mundos girando em torno do sol era uma ameaça franca à credibilidade da Igreja e ao status quo montado sobre ela - embora, fora do mundo cristão, e mesmo muito antes dele, muitos suspeitassem de que as coisas transcorriam de outra maneira. Com o recrudescimento da Santa Inquisição como parte da Contra-Reforma católica, em 1616 a Igreja moveu o Da Revolução para seu índice de livros proibidos.
Galileu teve acesso ao Da Revolução anos antes, e teria dado a entender que concordava com sua tese em carta a Johann Kepler enquanto lecionava matemática em Pádua. Em 1609, ele construiu seu próprio telescópio baseado nas descrições do telescópio inventado no ano anterior por Hans Lippershey, e além de passar usar o projeto geral para construir telescópios de boa qualidade para a venda (o que lhe rendeu alguma riqueza), com ele passou a observar mais intimamente as estrelas e os planetas que até então só podiam ser vistos a olho nu. Galileu observou luas em Júpiter (Ganimede, Calisto, Io e Europa, conhecidas hoje como "satélites galileanos"), o que por si só rompia com a cosmologia de Aristóteles, que não acreditava ser possível que "planetas" orbitassem outros planetas. Ele também avistou os anéis de Saturno, e o planeta Netuno, que ele não chegou a reconhecer como tal, devido à sua dificuldade em segui-lo o suficiente para caracterizar seu movimento como o dos outros planetas. Viu manchas solares, cometas, e descreveu crateras na Lua, que se achava ser, antes, uma esfera translúcida e perfeita.
Sua observação de Vênus o levou a confirmar a tese heliocêntrica de Copérnico. Em Vênus ele viu claramente a ocorrência de fases, como as da lua. Como o movimento de Vênus não era ao redor, e nem dependente, da Terra, ele provava experimentalmente que aquele planeta girava em torno do sol, e a existência do movimento de translação. Tycho Brahe, antes dele, propôs um sistema em que o Sol era orbitado por Mercúrio e Vênus, e esse pequeno "sistema solar" orbitava em torno da Terra, junto com os outros planetas conhecidos, o que Galileu e outros cientistas consideravam "insatisfatório". Em 1615, em um ensaio, Galileu cautelosamente propôs que a teoria heliocêntrica não se opunha à Bíblia (cujo salmo 104, por exemplo, explicitamente diz que "O Senhor colocou a Terra sobre suas fundações; ela não pode ser movida"), pois certos trechos do texto sagrado deviam ser lido como poesia ou alegorias. No ano em que Da Revolução foi proibido, Galileu foi intimado a renunciar à tese heliocêntrica pela Inquisição.
Galileu formalmente acatou a decisão da Inquisição, mas continuou trabalhando sobre suas observações e os cálculos deixados por Copérnico e outros que continuaram trabalhando em outros campos da astronomia. Ele dizia estar trabalhando num livro sobre a mudança das marés. Mas na realidade estava compondo uma tese na forma de um debate de quatro dias (em que cada dia ele se concentra em um assunto) entre um filósofo a favor do heliocentrismo, outro a favor das cosmologias ptolomaicas e aristotélicas, e um leigo neutro. Ali ele expõe as contradições dos resultados obtidos pela observação e experimentação contra o empirismo filosófico. Esse formato foi uma sugestão do próprio Papa Urbano VIII, um progressista que testemunhou a favor da obra de Copérnico em 1616, e seu amigo. O personagem leigo afinal inclina-se a favor do heliocentrista, indicando a posição de Galileu sobre o assunto. O aristotélico, Simplício (que em italiano também pode significar "simplório"), também não é dos mais brilhantes, e é uma espécie de crítica ao obscurantismo eclesiástico.
Diálogos Sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo foi publicado em 1632. Em 1633 Galileu se apresentou diante do Santo Ofício. A Inquisição o acusava de heresia ao defender o copernicismo. O Papa particularmente não deve ter ficado feliz de encontrar suas próprias teorias astronômicas na voz de Simplício. Por quatro meses a Inquisição interrogou Galileu, que defendeu-se alegando que, desde 1616, não advogara mais publicamente a tese de Copérnico. Mas ao final desse período, doente e sob ameaça de tortura, Galileu cedeu. Além de uma pena de prisão perpétua, alterada para prisão domiciliar, e da proibição da publicação do Diálogos, o astrônomo foi obrigado a renunciar, negar, e depreciar publicamente a tese heliocêntrica. Contudo, uma anedota popular que corria ainda quando Galileu era vivo dizia que, ao final de sua exposição contra o seu modelo de sistema solar, ele teria dito a famosa frase em desafio:
"E pur si muove". "Não obstante, ela (a Terra) se move".
sexta-feira, 19 de junho de 2015
Tragédias em Spa-Francorchamps
No dia 19 de junho de 1960, o australiano Jack Brabham venceu o Grande Prêmio da Bélgica em Spa-Francorchamps. Esta corrida foi marcada pelos acidentes fatais dos pilotos Chris Bristow e Alan Stacey, a primeira e única vez em que dois pilotos faleceram numa mesma corrida de Fórmula 1.
O circuito de Spa-Francorchamps usado atualmente possui 7004 metros de extensão, e é o maior circuito do calendário da Fórmula 1. No enanto, é um mero resquício do seu desenho original. Inicialmente, a pista de corridas de Spa-Francorchamps foi desenhada ao longo das estradas na região de Ardenes que perfaziam um triângulo, ligando nos seus três vértices as cidades de Francorchamps, Malmedy e Stavelot, passando por várias aldeias e vilas no caminho, como Masta, Mé, Burneville, Cheneux e Rivage, que davam nomes às curvas. Neste percurso, de mais de 15 km, os pilotos percorriam longuíssimas retas e curvas de raio longo. A primeira corrida oficial foi realizada em 1922, e a primeira edição das 24 Horas de Spa (em 1924 e disputada até hoje) tomou lugar nesse traçado.
Em 1960 a corrida seria disputada num traçado mais curto e mais veloz: a antiga subida até o topo do vale da Água Vermelha que terminava em uma curva fechada em U foi cortada por um S rápido em subida ligando diretamente o cotovelo da La Source com a reta Kemmel, tomando a forma da atual curva Eau Rouge; onde a estrada que vinha de Masta chegava em Stavelot, ela voltava através de um retorno fechado em direção a Francorchamps (trecho por onde passa a atual curva Blachimont e leva à reta dos boxes). Ali foi desenhada uma curva aberta e veloz ligando diretamente as duas retas.
Essa reforma da pista, feita nos anos 50, ainda conservava as características de uma estrada pública comum: a pista era bordeada por calçadas, postes, cercas e casas, ocasionalmente com alguns fardos de feno separando espectadores de carros atingindo 280 km/h. Em caso de acidente, as longas distâncias dificultavam o socorro, tanto na parte de comunicação, como no acesso de ambulâncias à pista e o transporte aos hospitais mais próximos. Era um circuito muito veloz, e muito perigoso, mas até aquele ponto, nenhum piloto da categoria havia se acidentado gravemente ali. E os pilotos de corrida daquele tempo aceitavam o perigo como parte do esporte.
Na vila de Burneville a estrada entre Francorchamps e Malmedy fazia uma longa curva à direita de cerca de 800 metros em descida. Perto do seu ápice e da sua saída, a pista era rodeada de barrancos dos dois lados. No lado de fora, o barranco chegava a 4 metros de altura, terminando numa casa e em uma passagem de carros, onde em 1966 a Cooper do suíço Jo Bonnier acabou pendurada depois de uma rodada. "Reta" é uma definição grosseira da pista que vinha antes da Burneville. Saindo da reta Kennel, a maior reta do traçado atual, onde hoje se faz um S fechado à direita antigamente se tomava à esquerda, e a pista seguia por mais de um quilômetro com leves desvios para um lado e para o outro, de maneira que o piloto tinha pouco tempo para alinhar a direção e fazer uma tomada segura no curvão. Num tempo em que os recursos aerodinâmicos eram basicamente inexistentes - os carros eram como charutos com rodas, cuja superfície de contato com o asfalto era bem menor do que o pneu de um carro de rua atual - a estabilidade do bólido nas curvas dependia do controle do piloto na direção, e no trabalho de freio, acelerador e câmbio, tracionando o tempo todo e forçando a parte traseira a orientar o carro no traçado correto.
Durante os treinos, o principal piloto de fábrica da equipe Lotus, o inglês Stirling Moss, rodou e bateu na Burneville devido a uma quebra na transmissão, sendo ejetado no gramado ao lado da pista, com fraturas nas duas pernas, no rosto e na coluna. À medida em que outros pilotos passavam pelo local, alguns paravam para prestar socorro. Àquela altura todos no circuito sabiam do acidente de Moss e o socorro estava sendo prestado, mas quase ao mesmo tempo, outro piloto da Lotus, Mike Taylor, se acidentara em outro ponto da pista, fraturando o pescoço. Demorou para darem falta dele, e mais de meia hora para uma ambulância chegar. Tanto Moss como Taylor sobreviveram, mas enquanto o primeiro voltaria a correr ainda naquele ano, o segundo ficou tetraplégico.
Ainda um jovem na época, Jim Clark, que viria a criar uma reputação de um piloto inabalável e infalível, tremeu nas bases ao ver dois companheiros de equipe correndo risco de morte por causa de falhas mecânicas. Ele largava na décima posição, no meio do grid. A largada foi autorizada com mecânicos ainda na pista. Na volta 13 ele viu outra Lotus, de Innes Ireland, rodar furiosamente no curvão Burneville, dando cinco giros antes de parar atravessado. Ao engatar a primeira, Ireland pensou que o câmbio tivesse quebrado. Ele acelerou fundo, e de repente as rodas giraram e ele foi catapultado para baixo do barranco. Ele nada sofreu.
Chris Bristow era um piloto jovem e ferozmente competitivo, que largara à frente de Clark no seu quarto Grande Prêmio Poucos minutos depois do abandono de Ireland, pilotando uma Cooper en perseguição à Ferrari de Willie Mairesse, Bristow entrou na Burneville pelo lado de fora. Ele teria tentado trazer o carro para dentro, mas perdeu o controle e capotou várias vezes, quase acertando Mairesse. Aparentemente, quando seu carro parou fora da pista, na parte de dentro da curva, em chamas, ele já estava morto - seu corpo todo quebrado foi arremessado na direção de uma cerca de arame farpado, que decepou sua cabeça. Clark disse que quase desistiu de correr de uma vez por todas quando viu seu corpo arrastado por um fiscal como um boneco de pano, e depois ao constatar sangue no seu próprio carro, não se sabe como. Ele passou a detestar o circuito de Spa até o fim da vida.
A fatalidade não interrompeu o Grande Prêmio. Jack Brabham seguia firme na liderança com outra Cooper seguido de longe pelo companheiro de equipe Bruce McLaren. Alan Stacey vinha em sexto, com mais uma Lotus. Stacey tinha ido com Ireland ao hospital na noite anterior visitar Mike Taylor. Taylor e Ireland estavam escalados para dividir um carro nas 24 Horas de Le Mans, e Taylor oferecera na ocasião seu lugar a Stacey. Este Alan Stacey tivera parte da perna direita amputada na adolescência por causa de um acidente de moto, e corria com uma prótese. Era muito difícil para ele acelerar e usar a embreagem com o mesmo pé, como faziam os outros pilotos. Mesmo tirar o pé do acelerador exigia que ele movimentasse todo o quadril dentro do cockpit.
Apenas 5 voltas depois do acidente fatal de Bristow, Alan Stacey saía da Burneville poucos metros depois dos destroços do carro de Chris Bristow, com aceleração total, a 190 km/h. Foi quando um pássaro passou na sua frente e acertou em cheio o seu rosto. Os pilotos usavam capacetes abertos (alguns usavam apenas gorros de couro) e óculos. Ele perdeu a consciência com o impacto. Seu carro deu uma guinada para a esquerda, atravessou alguns arbustos, e caiu numa ribanceira, pegando fogo. Quando o socorro chegou, ele estava morto.
A corrida seguiu até o final com vitória de Brabham, futuro campeão daquele ano. O mesmo traçado de Spa-Francorchamps seria usado continuamente até 1969, quando toda a organização do campeonato decidiu boicotar a corrida por falta de segurança. Em 1979 ele ganharia o seu traçado básico atual, excluindo toda a parte veloz entre Malmedy, Burneville, Masta e Stavelot. Em 1966 o futuro tricampeão Jackie Stewart sofreu um acidente na mesma curva Burneville - pilotando no seco, encontrou a pista subitamente molhada na curva devido à chuva naquele ponto e perdeu o controle do carro, caindo da ribanceira sobre o telhado de um celeiro - e a partir daquele momento ele lideraria o movimento dos pilotos pelo aumento da segurança nos carros e circuitos que levou ao desenvolvimento de um esporte automobilístico tremendamente mais seguro.
O circuito de Spa-Francorchamps usado atualmente possui 7004 metros de extensão, e é o maior circuito do calendário da Fórmula 1. No enanto, é um mero resquício do seu desenho original. Inicialmente, a pista de corridas de Spa-Francorchamps foi desenhada ao longo das estradas na região de Ardenes que perfaziam um triângulo, ligando nos seus três vértices as cidades de Francorchamps, Malmedy e Stavelot, passando por várias aldeias e vilas no caminho, como Masta, Mé, Burneville, Cheneux e Rivage, que davam nomes às curvas. Neste percurso, de mais de 15 km, os pilotos percorriam longuíssimas retas e curvas de raio longo. A primeira corrida oficial foi realizada em 1922, e a primeira edição das 24 Horas de Spa (em 1924 e disputada até hoje) tomou lugar nesse traçado.
Em 1960 a corrida seria disputada num traçado mais curto e mais veloz: a antiga subida até o topo do vale da Água Vermelha que terminava em uma curva fechada em U foi cortada por um S rápido em subida ligando diretamente o cotovelo da La Source com a reta Kemmel, tomando a forma da atual curva Eau Rouge; onde a estrada que vinha de Masta chegava em Stavelot, ela voltava através de um retorno fechado em direção a Francorchamps (trecho por onde passa a atual curva Blachimont e leva à reta dos boxes). Ali foi desenhada uma curva aberta e veloz ligando diretamente as duas retas.
Essa reforma da pista, feita nos anos 50, ainda conservava as características de uma estrada pública comum: a pista era bordeada por calçadas, postes, cercas e casas, ocasionalmente com alguns fardos de feno separando espectadores de carros atingindo 280 km/h. Em caso de acidente, as longas distâncias dificultavam o socorro, tanto na parte de comunicação, como no acesso de ambulâncias à pista e o transporte aos hospitais mais próximos. Era um circuito muito veloz, e muito perigoso, mas até aquele ponto, nenhum piloto da categoria havia se acidentado gravemente ali. E os pilotos de corrida daquele tempo aceitavam o perigo como parte do esporte.
Na vila de Burneville a estrada entre Francorchamps e Malmedy fazia uma longa curva à direita de cerca de 800 metros em descida. Perto do seu ápice e da sua saída, a pista era rodeada de barrancos dos dois lados. No lado de fora, o barranco chegava a 4 metros de altura, terminando numa casa e em uma passagem de carros, onde em 1966 a Cooper do suíço Jo Bonnier acabou pendurada depois de uma rodada. "Reta" é uma definição grosseira da pista que vinha antes da Burneville. Saindo da reta Kennel, a maior reta do traçado atual, onde hoje se faz um S fechado à direita antigamente se tomava à esquerda, e a pista seguia por mais de um quilômetro com leves desvios para um lado e para o outro, de maneira que o piloto tinha pouco tempo para alinhar a direção e fazer uma tomada segura no curvão. Num tempo em que os recursos aerodinâmicos eram basicamente inexistentes - os carros eram como charutos com rodas, cuja superfície de contato com o asfalto era bem menor do que o pneu de um carro de rua atual - a estabilidade do bólido nas curvas dependia do controle do piloto na direção, e no trabalho de freio, acelerador e câmbio, tracionando o tempo todo e forçando a parte traseira a orientar o carro no traçado correto.
Durante os treinos, o principal piloto de fábrica da equipe Lotus, o inglês Stirling Moss, rodou e bateu na Burneville devido a uma quebra na transmissão, sendo ejetado no gramado ao lado da pista, com fraturas nas duas pernas, no rosto e na coluna. À medida em que outros pilotos passavam pelo local, alguns paravam para prestar socorro. Àquela altura todos no circuito sabiam do acidente de Moss e o socorro estava sendo prestado, mas quase ao mesmo tempo, outro piloto da Lotus, Mike Taylor, se acidentara em outro ponto da pista, fraturando o pescoço. Demorou para darem falta dele, e mais de meia hora para uma ambulância chegar. Tanto Moss como Taylor sobreviveram, mas enquanto o primeiro voltaria a correr ainda naquele ano, o segundo ficou tetraplégico.
Ainda um jovem na época, Jim Clark, que viria a criar uma reputação de um piloto inabalável e infalível, tremeu nas bases ao ver dois companheiros de equipe correndo risco de morte por causa de falhas mecânicas. Ele largava na décima posição, no meio do grid. A largada foi autorizada com mecânicos ainda na pista. Na volta 13 ele viu outra Lotus, de Innes Ireland, rodar furiosamente no curvão Burneville, dando cinco giros antes de parar atravessado. Ao engatar a primeira, Ireland pensou que o câmbio tivesse quebrado. Ele acelerou fundo, e de repente as rodas giraram e ele foi catapultado para baixo do barranco. Ele nada sofreu.
Chris Bristow era um piloto jovem e ferozmente competitivo, que largara à frente de Clark no seu quarto Grande Prêmio Poucos minutos depois do abandono de Ireland, pilotando uma Cooper en perseguição à Ferrari de Willie Mairesse, Bristow entrou na Burneville pelo lado de fora. Ele teria tentado trazer o carro para dentro, mas perdeu o controle e capotou várias vezes, quase acertando Mairesse. Aparentemente, quando seu carro parou fora da pista, na parte de dentro da curva, em chamas, ele já estava morto - seu corpo todo quebrado foi arremessado na direção de uma cerca de arame farpado, que decepou sua cabeça. Clark disse que quase desistiu de correr de uma vez por todas quando viu seu corpo arrastado por um fiscal como um boneco de pano, e depois ao constatar sangue no seu próprio carro, não se sabe como. Ele passou a detestar o circuito de Spa até o fim da vida.
A fatalidade não interrompeu o Grande Prêmio. Jack Brabham seguia firme na liderança com outra Cooper seguido de longe pelo companheiro de equipe Bruce McLaren. Alan Stacey vinha em sexto, com mais uma Lotus. Stacey tinha ido com Ireland ao hospital na noite anterior visitar Mike Taylor. Taylor e Ireland estavam escalados para dividir um carro nas 24 Horas de Le Mans, e Taylor oferecera na ocasião seu lugar a Stacey. Este Alan Stacey tivera parte da perna direita amputada na adolescência por causa de um acidente de moto, e corria com uma prótese. Era muito difícil para ele acelerar e usar a embreagem com o mesmo pé, como faziam os outros pilotos. Mesmo tirar o pé do acelerador exigia que ele movimentasse todo o quadril dentro do cockpit.
Apenas 5 voltas depois do acidente fatal de Bristow, Alan Stacey saía da Burneville poucos metros depois dos destroços do carro de Chris Bristow, com aceleração total, a 190 km/h. Foi quando um pássaro passou na sua frente e acertou em cheio o seu rosto. Os pilotos usavam capacetes abertos (alguns usavam apenas gorros de couro) e óculos. Ele perdeu a consciência com o impacto. Seu carro deu uma guinada para a esquerda, atravessou alguns arbustos, e caiu numa ribanceira, pegando fogo. Quando o socorro chegou, ele estava morto.
A corrida seguiu até o final com vitória de Brabham, futuro campeão daquele ano. O mesmo traçado de Spa-Francorchamps seria usado continuamente até 1969, quando toda a organização do campeonato decidiu boicotar a corrida por falta de segurança. Em 1979 ele ganharia o seu traçado básico atual, excluindo toda a parte veloz entre Malmedy, Burneville, Masta e Stavelot. Em 1966 o futuro tricampeão Jackie Stewart sofreu um acidente na mesma curva Burneville - pilotando no seco, encontrou a pista subitamente molhada na curva devido à chuva naquele ponto e perdeu o controle do carro, caindo da ribanceira sobre o telhado de um celeiro - e a partir daquele momento ele lideraria o movimento dos pilotos pelo aumento da segurança nos carros e circuitos que levou ao desenvolvimento de um esporte automobilístico tremendamente mais seguro.
quinta-feira, 18 de junho de 2015
Início da colonização japonesa no Brasil
Em 18 de junho de 1908, o navio Kassato-Maru aportou em Santos, litoral de São Paulo, transportando 781 imigrantes japoneses. Foi a primeira onda migratória de caráter oficial de japoneses para o Brasil.
Em 1850 foi proibido o tráfico negreiro no Brasil. Com o tempo, outras restrições ao trabalho escravo tornaram cada vez mais difícil manter a mão de obra nas grandes propriedades rurais - a impossibilidade de aumentar a produção agrícola, especialmente de commodities como o café, sem aumentar a mão de obra escrava, e mesmo seu eventual colapso, era o principal argumento dos defensores do escravagismo. O trabalho escravo negro nas lavouras moldou a sociedade de tal forma que os brancos brasileiros ou portugueses se deslocaram para atividades liberais, e para atraí-los para o campo seria necessário pagar-lhes um salário maior do que os proprietários estavam dispostos a pagar.
Os fazendeiros voltaram suas atenções para a possibilidade de contratar imigrantes - trabalhadores sem ocupação, moradia, ou qualquer tipo de raiz que os faria aceitar trabalhar pelos mais baixos salários, mesmo com a mão de obra local escassa. Dessa forma, a imigração de europeus, majoritariamente da Itália, da Alemanha, e depois da Espanha e do leste europeu, começou a substituir os negros, em grande parte agora libertos e altamente qualificados para o serviço, como mão de obra rural. Políticos brasileiros e grande parte da sociedade viam com bons olhos o aporte especificamente de trabalhadores europeus no país. Em 1890, um decreto presidencial incentivava a imigração de europeus, mas quanto a asiáticos e africanos, sua entrada no país dependia de autorização do Congresso Nacional. Uma lei de 1892 anulou essa limitação.
Havia um movimento anti-asiático em toda a América, incluindo o Brasil, em grande parte devido às recentes Guerras do Ópio, na China. Eram vistos como indolentes e insubmissos. Os japoneses, cujo país abrira-se ao contato com o ocidente havia menos de 50 anos, especificamente, eram considerados inassimiláveis, devido às grandes diferenças culturais. Em "conversas de bar" (porém, na voz de intelectuais e políticos da época), o "asiático" era tido como uma raça inferior.
O Japão, por outro lado, tinha seus próprios problemas. Décadas de estabilidade interna após a queda do shogunato, e melhoras significativas na qualidade de vida derivadas do intercâmbio tecnológico com as nações ocidentais fizeram com que a população japonesa inflasse rapidamente. A superpopulação, a carência de terras agricultáveis e o desemprego causado pela mecanização da agricultura fizeram com que o governo incentivasse a emigração. As primeiras levas migratórias foram para Estados Unidos (inicialmente, Hawaii), Peru e México, e depois, com a conquista de parte da China e da Coréia, para estes países também (quase todos os colonos japoneses deixariam Coréia e Taiwan depois do fim da Segunda Guerra Mundial).
As necessidades dos dois países convergiram. Em 1905 um ministro japonês veio a São Paulo, principal estado produtor de café, avaliar a possibilidade de um acordo de imigração no Brasil. Em seu relatório, ele notou a crescente economia agrária e a receptividade do povo. Seu relatório foi divulgado em todo o Japão, acendendo um interesse na emigração. Em 1906, por conta própria, o advogado Saburo Kumabe reuniu um grupo de voluntários e apressou-se em vir com a família ao Brasil, estabelecendo uma colônia agrícola em Conceição de Macabu, no Rio de Janeiro, no ano seguinte. Enquanto isso, o governo japonês criava a Companhia Imperial de Colonização, encarregada de providenciar informação, trâmites legais e a logística para operar o transporte e estabelecimento de emigrantes.
O governo brasileiro firmou um acordo com a Companhia com duas exigências: uma sobre a contribuição do governo brasileiro para o pagamento das passagens e o seu ressarcimento posterior, e outra sobre o número de imigrantes que deveriam chegar aqui: 3 mil famílias. Isso criou um problema para o Japão, porque os inscritos para a viagem eram quase todos homens solteiros. O Brasil não abriria mão desta condição, porque queria imigrantes permanentes, e solteiros não se interessariam em fixar raízes por aqui (isso era tão importante que o governo depois abriu mão do número mínimo de imigrantes, desde que viessem em famílias). Então as prefeituras japonesas que recebiam os pedidos de emigração começaram a promover, em questão de semanas, casamentos de fachada e adoções forjadas para que o total de 600 homens e 181 mulheres inscritos constituíssem algo parecido com famílias. Apesar do recrutamento ser preferencialmente para o trabalho nas fazendas de café paulistas, poucos emigrantes tinham experiência no campo: havia policiais, professores, sacerdotes, advogados, operadores de máquinas.
O Kassato-Maru foi originalmente um navio-hospital da marinha russa batizado Kazan, que foi capturado ou oferecido como indenização ao término da guerra Russo-Japonesa de 1905. Passou a ser um navio de passageiros, usado para o transporte de tropas para a Manchúria, depois para o transporte de imigrantes para a América. Em 1908 foi fretado pela Companhia Imperial de Colonização para a viagem ao Brasil. O navio partiu em 28 de abril, viajando para o oeste, passando por Cingapura, África do Sul, e, finalmente, Santos. O mesmo navio acabou convertido em cargueiro, e depois requisitado pela marinha de guerra japonesa. Ele foi afundado por aviões russos em 1945.
Do porto de Santos, os imigrantes foram levados a São Paulo, onde foram distribuídos para seis fazendas no interior. Cada fazenda tinha seu intérprete. Mas a estrutura de acolhimento e o sistema de trabalho pode ter sido um choque: as acomodações eram precárias, pequenas cabanas sem mobília, algumas incapazes de acomodar mais de três pessoas, e o trabalho era supervisionado por capatazes, que até pouco tempo lidavam com escravos. O Kassato-Maru partiu do Japão com quase dois meses de atraso, de maneira que, quando os japoneses começaram a trabalhar nas fazendas, parte da colheita estava perdida. Os salários naquele primeiro ano foram tão baixos que as famílias mal conseguiam comida suficiente para sobreviver, quanto menos guardar dinheiro. Os colonos se queixavam de trabalhar em regime semelhante ao de escravidão. Por intervenção da Companhia, os colonos foram trazidos de volta a São Paulo e designados para outros trabalhos, como na construção de estradas de ferro, ou em outros tipos de fazenda. Mas poucos permaneceram trabalhando na terra. Em 1910, apenas 1/4 deles continuavam no interior de São Paulo. Os demais foram para a capital (onde trabalhavam como empregados domésticos e no comércio), para Santos, Rio de Janeiro, Minas, ou Argentina.
De qualquer maneira, foi a partir desta primeira leva de imigrantes que se iniciou um fluxo contínuo (com interrupções temporárias) de imigrantes japoneses para o Brasil. Hoje o país conta com a maior população de descendentes de japoneses fora do Japão, com cerca de 1,5 milhão de pessoas.
Em 1850 foi proibido o tráfico negreiro no Brasil. Com o tempo, outras restrições ao trabalho escravo tornaram cada vez mais difícil manter a mão de obra nas grandes propriedades rurais - a impossibilidade de aumentar a produção agrícola, especialmente de commodities como o café, sem aumentar a mão de obra escrava, e mesmo seu eventual colapso, era o principal argumento dos defensores do escravagismo. O trabalho escravo negro nas lavouras moldou a sociedade de tal forma que os brancos brasileiros ou portugueses se deslocaram para atividades liberais, e para atraí-los para o campo seria necessário pagar-lhes um salário maior do que os proprietários estavam dispostos a pagar.
Os fazendeiros voltaram suas atenções para a possibilidade de contratar imigrantes - trabalhadores sem ocupação, moradia, ou qualquer tipo de raiz que os faria aceitar trabalhar pelos mais baixos salários, mesmo com a mão de obra local escassa. Dessa forma, a imigração de europeus, majoritariamente da Itália, da Alemanha, e depois da Espanha e do leste europeu, começou a substituir os negros, em grande parte agora libertos e altamente qualificados para o serviço, como mão de obra rural. Políticos brasileiros e grande parte da sociedade viam com bons olhos o aporte especificamente de trabalhadores europeus no país. Em 1890, um decreto presidencial incentivava a imigração de europeus, mas quanto a asiáticos e africanos, sua entrada no país dependia de autorização do Congresso Nacional. Uma lei de 1892 anulou essa limitação.
Havia um movimento anti-asiático em toda a América, incluindo o Brasil, em grande parte devido às recentes Guerras do Ópio, na China. Eram vistos como indolentes e insubmissos. Os japoneses, cujo país abrira-se ao contato com o ocidente havia menos de 50 anos, especificamente, eram considerados inassimiláveis, devido às grandes diferenças culturais. Em "conversas de bar" (porém, na voz de intelectuais e políticos da época), o "asiático" era tido como uma raça inferior.
O Japão, por outro lado, tinha seus próprios problemas. Décadas de estabilidade interna após a queda do shogunato, e melhoras significativas na qualidade de vida derivadas do intercâmbio tecnológico com as nações ocidentais fizeram com que a população japonesa inflasse rapidamente. A superpopulação, a carência de terras agricultáveis e o desemprego causado pela mecanização da agricultura fizeram com que o governo incentivasse a emigração. As primeiras levas migratórias foram para Estados Unidos (inicialmente, Hawaii), Peru e México, e depois, com a conquista de parte da China e da Coréia, para estes países também (quase todos os colonos japoneses deixariam Coréia e Taiwan depois do fim da Segunda Guerra Mundial).
As necessidades dos dois países convergiram. Em 1905 um ministro japonês veio a São Paulo, principal estado produtor de café, avaliar a possibilidade de um acordo de imigração no Brasil. Em seu relatório, ele notou a crescente economia agrária e a receptividade do povo. Seu relatório foi divulgado em todo o Japão, acendendo um interesse na emigração. Em 1906, por conta própria, o advogado Saburo Kumabe reuniu um grupo de voluntários e apressou-se em vir com a família ao Brasil, estabelecendo uma colônia agrícola em Conceição de Macabu, no Rio de Janeiro, no ano seguinte. Enquanto isso, o governo japonês criava a Companhia Imperial de Colonização, encarregada de providenciar informação, trâmites legais e a logística para operar o transporte e estabelecimento de emigrantes.
O governo brasileiro firmou um acordo com a Companhia com duas exigências: uma sobre a contribuição do governo brasileiro para o pagamento das passagens e o seu ressarcimento posterior, e outra sobre o número de imigrantes que deveriam chegar aqui: 3 mil famílias. Isso criou um problema para o Japão, porque os inscritos para a viagem eram quase todos homens solteiros. O Brasil não abriria mão desta condição, porque queria imigrantes permanentes, e solteiros não se interessariam em fixar raízes por aqui (isso era tão importante que o governo depois abriu mão do número mínimo de imigrantes, desde que viessem em famílias). Então as prefeituras japonesas que recebiam os pedidos de emigração começaram a promover, em questão de semanas, casamentos de fachada e adoções forjadas para que o total de 600 homens e 181 mulheres inscritos constituíssem algo parecido com famílias. Apesar do recrutamento ser preferencialmente para o trabalho nas fazendas de café paulistas, poucos emigrantes tinham experiência no campo: havia policiais, professores, sacerdotes, advogados, operadores de máquinas.
O Kassato-Maru foi originalmente um navio-hospital da marinha russa batizado Kazan, que foi capturado ou oferecido como indenização ao término da guerra Russo-Japonesa de 1905. Passou a ser um navio de passageiros, usado para o transporte de tropas para a Manchúria, depois para o transporte de imigrantes para a América. Em 1908 foi fretado pela Companhia Imperial de Colonização para a viagem ao Brasil. O navio partiu em 28 de abril, viajando para o oeste, passando por Cingapura, África do Sul, e, finalmente, Santos. O mesmo navio acabou convertido em cargueiro, e depois requisitado pela marinha de guerra japonesa. Ele foi afundado por aviões russos em 1945.
Do porto de Santos, os imigrantes foram levados a São Paulo, onde foram distribuídos para seis fazendas no interior. Cada fazenda tinha seu intérprete. Mas a estrutura de acolhimento e o sistema de trabalho pode ter sido um choque: as acomodações eram precárias, pequenas cabanas sem mobília, algumas incapazes de acomodar mais de três pessoas, e o trabalho era supervisionado por capatazes, que até pouco tempo lidavam com escravos. O Kassato-Maru partiu do Japão com quase dois meses de atraso, de maneira que, quando os japoneses começaram a trabalhar nas fazendas, parte da colheita estava perdida. Os salários naquele primeiro ano foram tão baixos que as famílias mal conseguiam comida suficiente para sobreviver, quanto menos guardar dinheiro. Os colonos se queixavam de trabalhar em regime semelhante ao de escravidão. Por intervenção da Companhia, os colonos foram trazidos de volta a São Paulo e designados para outros trabalhos, como na construção de estradas de ferro, ou em outros tipos de fazenda. Mas poucos permaneceram trabalhando na terra. Em 1910, apenas 1/4 deles continuavam no interior de São Paulo. Os demais foram para a capital (onde trabalhavam como empregados domésticos e no comércio), para Santos, Rio de Janeiro, Minas, ou Argentina.
De qualquer maneira, foi a partir desta primeira leva de imigrantes que se iniciou um fluxo contínuo (com interrupções temporárias) de imigrantes japoneses para o Brasil. Hoje o país conta com a maior população de descendentes de japoneses fora do Japão, com cerca de 1,5 milhão de pessoas.
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