Em 5 de junho de 1989 aconteceu isto:
Semanas antes, estudantes e jovens trabalhadores, com o apoio da população de Pequim e outras cidades, foram às ruas protestar contra diversas políticas do Partido Comunista Chinês (PCC), sobretudo quanto aos direitos civis e à repressão à liberdade de expressão. A China vinha de uma década de transição difícil que se seguiu ao fim do maoísmo e passava por uma grande reestruturação política e econômica. A estagnação da economia e divergências quanto aos rumos que a China deveria tomar enfraqueceram a autoridade do PCC, gerando a insatisfação.
Um político de posição liberal, Hu Yaobang, antigo secretário geral do PCC deposto por pressões internas de forças contrárias às suas ideias quanto a abertura de mercado, mobilidade social, controle da inflação e da corrupção no partido, morreu em abril. Estudantes universitários então compraram a briga e se reuniram em protesto na Praça Tiananmen (ou Praça da Paz Celestial, no centro de Pequim) por liberdade de expressão, de imprensa, e do fim do controle estatal dos meios de produção (defendiam que os trabalhadores deveriam exercer esse controle diretamente).
O protesto persistiu por vários dias, angariando crescente adesão popular em Pequim e em outras 400 cidades chinesas. Inicialmente o governo adotou um tom conciliador para debelar a crise. Mas como o protesto crescia dia a dia, chegando a reunir apenas na praça cerca de 1 milhão de pessoas, o governo passou a adotar uma estratégia mais radical. No dia 20 de maio o comando do PCC decretou lei marcial, e mobilizou 300 mil soldados em Pequim. Seu avanço foi retardado na periferia da cidade por manifestantes, que tentaram convencer soldados a desertarem, oferecendo a eles abrigo e comida.
O movimento atingiu massa crítica no final de maio, perdendo sua liderança e desorganizando-se gradualmente. O abastecimento, e aspectos básicos da ocupação, como higiene pessoal, ficaram comprometidos. Um dos principais líderes no início do movimento, o estudante Wang Dan, propôs recuar e reagrupar, mas sua opinião foi suplantada por vozes mais radicais. O grupo de Wang Dan tinha em sua posse um megafone, o principal método para coordenar as ações na praça. Logo eles perderam o controle do megafone, e cada um que o pegava se tornava temporariamente o líder. Em certo momento, manifestantes faziam correntes humanas nas ruas para evitar que outros fossem embora.
Enquanto isso, o PCC definiu o movimento como terrorista e contrarrevolucionário, convencendo-se de que havia influências ocidentais entre os estudantes. No dia 2 de junho o exército foi autorizado a limpar a praça com o que fosse necessário. As primeiras mortes em confrontos ocorreram naquela noite. Durante os dias 3 e 4, confrontos, prisões e execuções sumárias aconteceram na praça e em perseguições pelas ruas de Pequim. A contagem oficial de mortos na operação é de mais de 200, mas pode ter ultrapassado os 2 mil. Milhares foram presos, e aparentemente um deles ainda não foi solto até hoje.
No dia 5, uma coluna de pelo menos 15 blindados Type-59 rumava em direção à praça, já desocupada, pela Avenida Chang'an. Um morador não identificado, camisa branca e calças pretas, carregando uma bolsa e duas sacolas de supermercado atravessou a rua e parou no caminho dos veículos. O líder da coluna parou a poucos metros do homem, que gesticulava. Ele tentou manobrar em volta, mas o homem entrava no caminho. O tanque então desligou o motor, o que foi seguido pelo resto da coluna. O homem subiu no blindado, aparentemente falando através das escotilhas com quem estava lá dentro. Um oficial, aparentemente o comandante da operação, emerge e troca palavras com ele. O homem então desce e gesticula para que o blindado dê meia volta. Mas como a coluna voltava a avançar, ele corre de novo para frente, impedindo novamente o avanço. Já depois do fim do vídeo, dois homens também não identificado surgem e o retiram da rua.
Boa parte dos registros em foto e em filme do ocorrido sobreviveram à rápida ação de confisco da polícia secreta chinesa. Ninguém sabe quem é o homem de camisa branca nem o que aconteceu com ele. Rumores da época diziam que ele foi preso e executado fora dos holofotes para que ele não se tornasse um mártir. Se ele sobreviveu, deve ter sido um homem extremamente modesto para não se declarar, porque a sua atitude simbólica de resistência pacífica contra o esmagador poder de repressão do Estado, transmitida pela imprensa do mundo inteiro, se tornou uma das cenas mais icônicas do século XX. A revista Time elegeu o homem anônimo uma das 100 pessoas mais importantes do século.
sexta-feira, 5 de junho de 2015
quinta-feira, 4 de junho de 2015
Quando o gigante soviético temeu os anarquistas
No dia 4 de junho de 1919, Leon Trotsky, então ocupando o que seria o Ministério da Defesa da União Soviética, publicou uma ordem proibindo ao Território Livre, uma associação anarquista localizada no leste da Ucrânia, de eleger seu próprio congresso, difamando ainda o seu principal líder militar, Nestor Makhno, acusando-o de criminoso e incapaz. O Território Livre foi a primeira tentativa moderna e concreta de formação de uma comunidade anarquista em meio à Revolução Ucraniana, agregando comunas libertárias, sovietes e comunistas não alinhados com os bolsheviques.
Makhno, então um jovem anarquista, foi preso em 1907 e condenado à morte, pena convertida depois a prisão perpétua. Com a Revolução Russa, ele e outros presos políticos foram libertados. Makhno então organizou uma associação de camponeses, invadindo grandes propriedades rurais e redistribuindo as terras. A reputação de Makhno decidiu a sua sorte quando, em 1918, o comitê comunista que governava a Ucrânia revolucionária perdeu o controle, e um ex-general tzarista tentou assumir o poder. Como os camponeses se recusassem a apoiar tanto um como outro, boa parte deles se voltou para Makhno, de forma que, de repente, ele tinha boa parte do leste da Ucrânia sob seu alcance.
Nestor Makhno uniu-se a outros anarquistas e organizou um exército de voluntários, o Exército Revolucionário Insurrecional da Ucrânia (ou Exército Negro, por causa da bandeira preta anarquista), se opondo ativamente ao Exército Branco contrarrevolucionário, nacionalistas, alemães e austríacos (apoiadores do antigo regime ucraniano, mas ocupados demais no front da Primeira Guerra para dar suporte efetivo) e senhores locais com seus próprios pequenos exércitos que executavam raids contra camponeses e judeus. Nas regiões onde o Exército Negro atuava, os camponeses e trabalhadores da indústria decidiram abolir as regras do capitalismo, organizando-se em comunas, assembleias e conselhos livres, definindo-se como comunidades autogovernadas. As fileiras anarquistas cresceram na região devido às duras perseguições promovidas pelo novo governo bolshevique na Rússia.
Em 1918, as comunidades anarquistas se reuniram na cidade de Kharkov, num congresso que ficaria conhecido como Nabat ("Tambor"), para estabelecer uma plataforma unificada para promover as transformações sociais necessárias, aproveitando o vácuo de poder deixado na Ucrânia e o tumulto da guerra civil russa. O Nabat também optou por Makhno e seu bando para garantir a sua segurança. Os homens de Makhno, que chegaram a 15 mil, também atuaram na distribuição de panfletos e folhetins de divulgação das diretrizes do Nabat pelo país.
Sem a interferência de poderes externos, entre 1918 e 1920, o Nabat estabeleceu-se como o esqueleto básico de um Estado funcional, com secretários supervisionando sessões, contabilizando seus membros, e operando na divulgação de propaganda, além de representantes de cada comunidade votando em seu nome. Mas o funcionamento prático, as pautas, as votações, a aplicação das resoluções eram feitas respeitando um sentido fundamentalmente federalista, de maneira que as decisões votadas pela maioria serviam de guia para associações locais, mas não as obrigava a adotá-las se não fossem compatíveis com seus interesses. A independência e a liberdade de ação era vista como a forma mais alta de justiça social, e o ideal a ser perseguido e mantido. O Nabat contava com um intelectual conhecido como Volin, cujo trabalho era tecer uma teoria anarquista que contentasse as diversas e muitas vezes conflitantes correntes do movimento. Isso ajudou a confederação a manter o rumo.
A participação no Nabat também era voluntária e espontânea: os representantes eram escolhidos diretamente pelos membros de suas comunidades, e os membros do secretariado eram voluntários, pois o dinheiro envolvido, quando havia, era empregado apenas no custeio de operações específicas, caso fosse necessário contratar serviços não associados a alguma federação participante. De fato, a economia que se desenvolveu dentro das comunidades e entre si se baseava na troca livre e espontânea de bens - as comunidades rurais trocavam seus produtos com o que as comunidades urbanas tinham a oferecer, sem que houvesse dinheiro envolvido necessariamente. O território sob influência do Nabat ficou conhecido como Território Livre, englobando cerca de 7 milhões de pessoas.
O Nabat, em vista da sua oposição às "forças reacionárias" na Ucrânia, se alinhava com os bolsheviques, embora denunciasse seu aspecto totalitário. Os bolsheviques toleravam a existência e a oposição do Nabat por causa da força do Exército Negro de Makhno (também ele um crítico do Estado policial corrente na Rússia) no combate aos seus inimigos comuns na região, chegando a realizar operações em conjunto contra os Brancos. De fato, a autonomia do Nabat se expressava na forma de críticas à atuação do próprio Makhno e seu exército. Mas, quando a derrota dos contrarrevolucionários se mostrou inevitável, os russos começaram a se voltar contra os anarquistas. Os soviéticos temiam que o sucesso da experiência anarquista na Ucrânia inspirasse outras iniciativas semelhantes que pudessem fragilizar o poder de Moscou e colocar a revolução em risco. Foi neste momento em que Trotsky declarou ilegal o Nabat e iniciou uma perseguição a Makhno, acusando-o pessoalmente se ser um tiranete e um bandido, e que usava a sua influência para nomear amigos como líderes comunitários, tentando assim enfraquecer a sua influência junto aos camponeses. Ainda assim, Makhno manteve uma posição firme no Território Livre, e ainda realizou outras operações conjuntas com o Exército Vermelho.
Após a derrota final do Exército Branco em novembro de 1920, os vermelhos imediatamente se voltaram contra os negros. Em 26 de novembro, os soviéticos ucranianos prenderam e executaram companheiros próximos a Makhno. Como o Exército Vermelho avançasse maciçamente, assim como as Brigadas Punitivas das forças especiais de segurança soviéticas, prometendo a prisão e a execução não apenas de Nestor Makhno como de todos os anarquistas e simpatizantes, ele optou por recuar. Isso permitiu aos soviéticos prenderem e executarem lideranças do Nabat, virtualmente dando fim à sua existência ainda em dezembro.
Makhno continuou lutando contra o Exército Vermelho até meados de 1921, quando ele e 77 sobreviventes do Exército Negro fugiram para a Polônia, em direção à França. Ele publicou suas experiências na organização e funcionamento de federações anarquistas, enquanto trabalhava como carpinteiro. O intelectual Volin foi preso e expulso do país, passando a viver na Alemanha. Nenhuma experiência anarquista semelhante, antes ou depois do Nabat e do Território Livre, sobreviveu ou prosperou da mesma maneira ou com um alcance tão vasto, notavelmente sem violência na sua estrutura.
Makhno, então um jovem anarquista, foi preso em 1907 e condenado à morte, pena convertida depois a prisão perpétua. Com a Revolução Russa, ele e outros presos políticos foram libertados. Makhno então organizou uma associação de camponeses, invadindo grandes propriedades rurais e redistribuindo as terras. A reputação de Makhno decidiu a sua sorte quando, em 1918, o comitê comunista que governava a Ucrânia revolucionária perdeu o controle, e um ex-general tzarista tentou assumir o poder. Como os camponeses se recusassem a apoiar tanto um como outro, boa parte deles se voltou para Makhno, de forma que, de repente, ele tinha boa parte do leste da Ucrânia sob seu alcance.
Nestor Makhno uniu-se a outros anarquistas e organizou um exército de voluntários, o Exército Revolucionário Insurrecional da Ucrânia (ou Exército Negro, por causa da bandeira preta anarquista), se opondo ativamente ao Exército Branco contrarrevolucionário, nacionalistas, alemães e austríacos (apoiadores do antigo regime ucraniano, mas ocupados demais no front da Primeira Guerra para dar suporte efetivo) e senhores locais com seus próprios pequenos exércitos que executavam raids contra camponeses e judeus. Nas regiões onde o Exército Negro atuava, os camponeses e trabalhadores da indústria decidiram abolir as regras do capitalismo, organizando-se em comunas, assembleias e conselhos livres, definindo-se como comunidades autogovernadas. As fileiras anarquistas cresceram na região devido às duras perseguições promovidas pelo novo governo bolshevique na Rússia.
Em 1918, as comunidades anarquistas se reuniram na cidade de Kharkov, num congresso que ficaria conhecido como Nabat ("Tambor"), para estabelecer uma plataforma unificada para promover as transformações sociais necessárias, aproveitando o vácuo de poder deixado na Ucrânia e o tumulto da guerra civil russa. O Nabat também optou por Makhno e seu bando para garantir a sua segurança. Os homens de Makhno, que chegaram a 15 mil, também atuaram na distribuição de panfletos e folhetins de divulgação das diretrizes do Nabat pelo país.
Sem a interferência de poderes externos, entre 1918 e 1920, o Nabat estabeleceu-se como o esqueleto básico de um Estado funcional, com secretários supervisionando sessões, contabilizando seus membros, e operando na divulgação de propaganda, além de representantes de cada comunidade votando em seu nome. Mas o funcionamento prático, as pautas, as votações, a aplicação das resoluções eram feitas respeitando um sentido fundamentalmente federalista, de maneira que as decisões votadas pela maioria serviam de guia para associações locais, mas não as obrigava a adotá-las se não fossem compatíveis com seus interesses. A independência e a liberdade de ação era vista como a forma mais alta de justiça social, e o ideal a ser perseguido e mantido. O Nabat contava com um intelectual conhecido como Volin, cujo trabalho era tecer uma teoria anarquista que contentasse as diversas e muitas vezes conflitantes correntes do movimento. Isso ajudou a confederação a manter o rumo.
A participação no Nabat também era voluntária e espontânea: os representantes eram escolhidos diretamente pelos membros de suas comunidades, e os membros do secretariado eram voluntários, pois o dinheiro envolvido, quando havia, era empregado apenas no custeio de operações específicas, caso fosse necessário contratar serviços não associados a alguma federação participante. De fato, a economia que se desenvolveu dentro das comunidades e entre si se baseava na troca livre e espontânea de bens - as comunidades rurais trocavam seus produtos com o que as comunidades urbanas tinham a oferecer, sem que houvesse dinheiro envolvido necessariamente. O território sob influência do Nabat ficou conhecido como Território Livre, englobando cerca de 7 milhões de pessoas.
O Nabat, em vista da sua oposição às "forças reacionárias" na Ucrânia, se alinhava com os bolsheviques, embora denunciasse seu aspecto totalitário. Os bolsheviques toleravam a existência e a oposição do Nabat por causa da força do Exército Negro de Makhno (também ele um crítico do Estado policial corrente na Rússia) no combate aos seus inimigos comuns na região, chegando a realizar operações em conjunto contra os Brancos. De fato, a autonomia do Nabat se expressava na forma de críticas à atuação do próprio Makhno e seu exército. Mas, quando a derrota dos contrarrevolucionários se mostrou inevitável, os russos começaram a se voltar contra os anarquistas. Os soviéticos temiam que o sucesso da experiência anarquista na Ucrânia inspirasse outras iniciativas semelhantes que pudessem fragilizar o poder de Moscou e colocar a revolução em risco. Foi neste momento em que Trotsky declarou ilegal o Nabat e iniciou uma perseguição a Makhno, acusando-o pessoalmente se ser um tiranete e um bandido, e que usava a sua influência para nomear amigos como líderes comunitários, tentando assim enfraquecer a sua influência junto aos camponeses. Ainda assim, Makhno manteve uma posição firme no Território Livre, e ainda realizou outras operações conjuntas com o Exército Vermelho.
Após a derrota final do Exército Branco em novembro de 1920, os vermelhos imediatamente se voltaram contra os negros. Em 26 de novembro, os soviéticos ucranianos prenderam e executaram companheiros próximos a Makhno. Como o Exército Vermelho avançasse maciçamente, assim como as Brigadas Punitivas das forças especiais de segurança soviéticas, prometendo a prisão e a execução não apenas de Nestor Makhno como de todos os anarquistas e simpatizantes, ele optou por recuar. Isso permitiu aos soviéticos prenderem e executarem lideranças do Nabat, virtualmente dando fim à sua existência ainda em dezembro.
Makhno continuou lutando contra o Exército Vermelho até meados de 1921, quando ele e 77 sobreviventes do Exército Negro fugiram para a Polônia, em direção à França. Ele publicou suas experiências na organização e funcionamento de federações anarquistas, enquanto trabalhava como carpinteiro. O intelectual Volin foi preso e expulso do país, passando a viver na Alemanha. Nenhuma experiência anarquista semelhante, antes ou depois do Nabat e do Território Livre, sobreviveu ou prosperou da mesma maneira ou com um alcance tão vasto, notavelmente sem violência na sua estrutura.
quarta-feira, 3 de junho de 2015
O Projeto Madagascar
Em 3 de junho de 1940, o diplomata alemão Franz Rademacher expôs oficialmente um plano para a deportação de judeus em território nazista para a ilha de Madagascar.
Desde a ascensão nazista, em 1933, o "problema judaico" era um dos cernes das políticas raciais nazistas. Os judeus, acusados de controlar a economia alemã (apesar de sua grande maioria ser de proletários e profissionais liberais) e fomentar o Marxismo, "uma perversão judaica", tinham seus direitos cada vez mais cerceados: perdas progressivas de direitos civis, confinamento em bairros cercados e vigiados (guetos), confisco de bens, incentivos à emigração, depois vieram as deportações, o aprisionamento e confinamento em campos de concentração e trabalhos forçados. Mas mesmo aí os judeus continuavam sendo um "problema" para os nazistas, porque, em última análise, eles ainda tinham que mantê-los vivos de alguma forma.
O extermínio foi a "solução final", decidida em 1942 na Conferência de Wannsee, mas outras alternativas foram propostas anteriormente. Os incentivos à emigração não deram certo, porque poucos, mesmo com toda a repressão, queriam deixar voluntariamente seus lares (a guerra e o recrudescimento da repressão de fato aceleraram a emigração clandestina, sobretudo para a América). As deportações para campos de concentração no estrangeiro não eram tão úteis, porque esses campos ficavam em territórios controlados pelos alemães, e eles ainda teriam que manter os prisioneiros vivos - com a invasão da Polônia, por exemplo, a Alemanha se viu responsável pela vida de 3 milhões de judeus poloneses. Uma alternativa que foi levada a sério foi a deportação para Madagascar.
O Projeto Madagascar, ou as deportações forçadas para "longe", não eram exatamente uma novidade. A União Soviética criou, em 1934, um "Oblast" (região administrativa que corresponde a um estado) especificamente para os judeus soviéticos, onde poderiam exercer autogoverno, se expressar em sua língua (yiddish, não hebraico) e trabalhar livremente. Porém, nas regiões subdesenvolvidas próximas à fronteira com a Manchúria (a Região Autônoma Judaica ainda existe hoje, com o mesmo status, na Rússia, mas a população judaica residente não chega a 2 mil pessoas). Em 1937, o governo polonês estudou a possibilidade de reassentar seus judeus em Madagascar, mas o plano nunca foi adiante, porque os judeus presentes na comissão responsável pelo estudo estimaram que a ilha oferecia condições para menos de 1/10 da população pretendida. Em 1938, ideólogos nazistas examinavam essa possibilidade, e energia foi investida na elaboração do plano apresentado por Rademacher.
Madagascar ainda era uma colônia francesa subdesenvolvida, economicamente quase inerte, que, além de manter os judeus fora da Europa, impediria, por um longo tempo, que eles prosperassem. O plano de Rademacher incluía a transferência de Madagascar para a administração direta alemã como um dos termos de rendição da França, então sob ataque. Em seguida, Rademacher planejou a criação de um banco que usasse os fundos dos próprios correntistas judeus para custear o projeto. A segurança e organização seriam supervisionadas pela SS, de maneira que a colônia seria administrada como um Estado policial (proposta de Adolf Eichmann, contra um governo próprio judaico sob controle alemão pensado por Rademacher). A deportação seria feita em navios, com cerca de 1 milhão de judeus levados por ano durante 4 anos. Funções específicas foram distribuídas entre os ministérios alemães para viabilizar as diferentes etapas do projeto. A primeira providência prática foi a interrupção das deportações na Polônia e da construção do Gueto de Varsóvia, porque não teriam mais utilidade.
Porém, a derrota alemã na Batalha da Bretanha entre julho e outubro daquele ano, e a impossibilidade de conquista imediata da Inglaterra adiaram os planos. Os nazistas pretendiam usar a enorme marinha mercante britânica para realizar o transporte dos judeus para a África. Quando a batalha começou a pender para o lado inglês, em meados de agosto, o alto comando nazista começou a reconsiderar seus planos, e a construção de guetos e as deportações recomeçaram. O plano B, então, era a deportação em massa de judeus para a União Soviética através da Polônia (os soviéticos provavelmente se encarregariam ativamente de tornar as suas vidas o mais miseráveis possível, como eventualmente aconteceu fora do contexto da guerra), mas o fracasso do cerco a Moscou em 1941 levou os nazistas a se inclinarem sobre a possibilidade de extermínio sistemático nos campos de concentração instalados na Polônia.
Embora elaborado com a má intenção de isolar e dificultar ao máximo a vida dos judeus longe da Europa, empobrecidos ao extremo, em um lugar estranho e desprovido de infraestrutura, com a vigilância constante e restritiva da polícia nazista, e mesmo ainda com a possibilidade de mortes por inanição e doenças durante as longas viagens oceânicas, talvez os judeus europeus tivessem uma sorte melhor do que a que lhes aguardava até o fim da Segunda Guerra.
Desde a ascensão nazista, em 1933, o "problema judaico" era um dos cernes das políticas raciais nazistas. Os judeus, acusados de controlar a economia alemã (apesar de sua grande maioria ser de proletários e profissionais liberais) e fomentar o Marxismo, "uma perversão judaica", tinham seus direitos cada vez mais cerceados: perdas progressivas de direitos civis, confinamento em bairros cercados e vigiados (guetos), confisco de bens, incentivos à emigração, depois vieram as deportações, o aprisionamento e confinamento em campos de concentração e trabalhos forçados. Mas mesmo aí os judeus continuavam sendo um "problema" para os nazistas, porque, em última análise, eles ainda tinham que mantê-los vivos de alguma forma.
O extermínio foi a "solução final", decidida em 1942 na Conferência de Wannsee, mas outras alternativas foram propostas anteriormente. Os incentivos à emigração não deram certo, porque poucos, mesmo com toda a repressão, queriam deixar voluntariamente seus lares (a guerra e o recrudescimento da repressão de fato aceleraram a emigração clandestina, sobretudo para a América). As deportações para campos de concentração no estrangeiro não eram tão úteis, porque esses campos ficavam em territórios controlados pelos alemães, e eles ainda teriam que manter os prisioneiros vivos - com a invasão da Polônia, por exemplo, a Alemanha se viu responsável pela vida de 3 milhões de judeus poloneses. Uma alternativa que foi levada a sério foi a deportação para Madagascar.
O Projeto Madagascar, ou as deportações forçadas para "longe", não eram exatamente uma novidade. A União Soviética criou, em 1934, um "Oblast" (região administrativa que corresponde a um estado) especificamente para os judeus soviéticos, onde poderiam exercer autogoverno, se expressar em sua língua (yiddish, não hebraico) e trabalhar livremente. Porém, nas regiões subdesenvolvidas próximas à fronteira com a Manchúria (a Região Autônoma Judaica ainda existe hoje, com o mesmo status, na Rússia, mas a população judaica residente não chega a 2 mil pessoas). Em 1937, o governo polonês estudou a possibilidade de reassentar seus judeus em Madagascar, mas o plano nunca foi adiante, porque os judeus presentes na comissão responsável pelo estudo estimaram que a ilha oferecia condições para menos de 1/10 da população pretendida. Em 1938, ideólogos nazistas examinavam essa possibilidade, e energia foi investida na elaboração do plano apresentado por Rademacher.
Madagascar ainda era uma colônia francesa subdesenvolvida, economicamente quase inerte, que, além de manter os judeus fora da Europa, impediria, por um longo tempo, que eles prosperassem. O plano de Rademacher incluía a transferência de Madagascar para a administração direta alemã como um dos termos de rendição da França, então sob ataque. Em seguida, Rademacher planejou a criação de um banco que usasse os fundos dos próprios correntistas judeus para custear o projeto. A segurança e organização seriam supervisionadas pela SS, de maneira que a colônia seria administrada como um Estado policial (proposta de Adolf Eichmann, contra um governo próprio judaico sob controle alemão pensado por Rademacher). A deportação seria feita em navios, com cerca de 1 milhão de judeus levados por ano durante 4 anos. Funções específicas foram distribuídas entre os ministérios alemães para viabilizar as diferentes etapas do projeto. A primeira providência prática foi a interrupção das deportações na Polônia e da construção do Gueto de Varsóvia, porque não teriam mais utilidade.
Porém, a derrota alemã na Batalha da Bretanha entre julho e outubro daquele ano, e a impossibilidade de conquista imediata da Inglaterra adiaram os planos. Os nazistas pretendiam usar a enorme marinha mercante britânica para realizar o transporte dos judeus para a África. Quando a batalha começou a pender para o lado inglês, em meados de agosto, o alto comando nazista começou a reconsiderar seus planos, e a construção de guetos e as deportações recomeçaram. O plano B, então, era a deportação em massa de judeus para a União Soviética através da Polônia (os soviéticos provavelmente se encarregariam ativamente de tornar as suas vidas o mais miseráveis possível, como eventualmente aconteceu fora do contexto da guerra), mas o fracasso do cerco a Moscou em 1941 levou os nazistas a se inclinarem sobre a possibilidade de extermínio sistemático nos campos de concentração instalados na Polônia.
Embora elaborado com a má intenção de isolar e dificultar ao máximo a vida dos judeus longe da Europa, empobrecidos ao extremo, em um lugar estranho e desprovido de infraestrutura, com a vigilância constante e restritiva da polícia nazista, e mesmo ainda com a possibilidade de mortes por inanição e doenças durante as longas viagens oceânicas, talvez os judeus europeus tivessem uma sorte melhor do que a que lhes aguardava até o fim da Segunda Guerra.
terça-feira, 2 de junho de 2015
Os vândalos saqueiam Roma
Em 2 de junho de 455 d.C., os vândalos do rei Genserico iniciam um saque à cidade de Roma.
Décadas antes, os vândalos eram uma das tribos germânicas que, forçadas pelo avanço dos hunos na Europa Central (eles viviam na Panônia, atual Hungria, onde os hunos "escolheram" morar), se atiraram sobre as fronteiras do Império Romano, na Gália. Em seguida, eles rumaram para o sul, cruzaram os Pirineus e se estabeleceram na Espanha. Sob o rei Genserico, os vândalos, inflados em número por uma parte da tribo dos alanos, deixaram a Espanha e invadiram a província da África (que incluía Tunísia, parte da Argélia e norte da Líbia), tomando também a Sicília, a Sardenha, a Córsega, e as lhas Baleares e estabeleceram um reino naquela região do Mediterrâneo. A incapacidade do quase exaurido Império em retomar seus territórios forçou o imperador do ocidente Valentiniano III a prometer em casamento sua filha Eudócia ao herdeiro de Genserico, Hunerico, assegurando a paz entre os dois.
Em 454 ou antes, um influente senador e administrador público chamado Petronius Maximus teria perdido uma aposta contra o imperador, dando como garantia do pagamento seu anel de casamento. Valentiniano se aproveitou da situação para violentar a esposa de Petronius, a quem desejava. Ao saber do caso, o senador teria jurado vingança. Para isso, maquinou a morte do homem forte do imperador, Aécio, notável diplomata e general que havia contido a invasão de Átila, o Huno, anos antes, sugerindo a Valentiniano que ele seria um conspirador. Após a morte de Aécio, sob a promessa de recompensa, um dos soldados designados para a escolta de Petronius assassinou Valentiniano durante uma visita sua ao Campo de Marte. Ao final do dia, Petronius foi proclamado imperador.
Isso causou uma reviravolta na relação de Roma com os vândalos. Para assegurar sua posição e um sucessor, Petronius Maximus arranjou o casamento entre seu filho Palladius e a mesma Eudócia (a esposa de Valentiniano, Licínia Eudoxia, tenha grande influência política que precisava ser neutralizada). Genserico, ao saber, declarou que isso invalidava o acordo de paz entre os dois, e inflou velas para atacar a Itália. Petronius governava o Império do Ocidente havia dois meses. Quando soube da expedição vândala, Maximus desistiu de organizar as defesas da cidade (ele esperava um grande destacamento de Visigodos vindos da França, que não chegava) e tentou fugir. Mas foi apedrejado até a morte por uma turba furiosa do lado de fora da cidade, provavelmente também em fuga. No mesmo dia, o exército de Genserico desembarcou na Itália.
Alguns dias depois, os vândalos apareceram às portas de Roma. Boa parte dos seus habitantes haviam fugido, e a cidade estava praticamente desguarnecida. O Papa Leão I, a principal autoridade romana presente, e cuja diplomacia também foi importante contra Átila, implorou pessoalmente a Genserico para que os habitantes não fossem mortos e a cidade não fosse incendiada. Aparentemente Genserico teria concordado com isso, e a partir daí os vândalos tomaram Roma, pilhando tudo que podiam carregar durante duas semanas. Em um certo momento, já não havia mais nada de valor que pudesse ser levado, e os vândalos se entregaram à destruição sem sentido, derrubando símbolos de poder como templos, estátuas e colunas. A infraestrutura da cidade, porém, foi poupada.
Ao final desse tempo, com poucas mortes e destruições por fogo (mas enormes espólios e carregamentos de escravos), os vândalos se retiraram de volta para a África. Genserico reinaria vigorosamente por mais 22 anos sobre os vândalos em Cartago até sua morte, aos 88, sucedido pelo seu filho (que, afinal, se casara com Eudócia). Mas o reino visigodo não duraria muito, e em 80 anos já não existia mais. O Império Romano do Ocidente resistiria ainda menos. Mas a violência deste saque específico (houveram outros antes e depois, e muito piores do que este) ficou permanentemente registrada no imaginário ocidental. "Vândalos" e "bárbaros" se tornaram sinônimos entre si por muito tempo, e sinônimos de violência despropositada até hoje. "Vandalismo" está presente no nosso léxico como o ato de depredar ou destruir propriedade pública.
Décadas antes, os vândalos eram uma das tribos germânicas que, forçadas pelo avanço dos hunos na Europa Central (eles viviam na Panônia, atual Hungria, onde os hunos "escolheram" morar), se atiraram sobre as fronteiras do Império Romano, na Gália. Em seguida, eles rumaram para o sul, cruzaram os Pirineus e se estabeleceram na Espanha. Sob o rei Genserico, os vândalos, inflados em número por uma parte da tribo dos alanos, deixaram a Espanha e invadiram a província da África (que incluía Tunísia, parte da Argélia e norte da Líbia), tomando também a Sicília, a Sardenha, a Córsega, e as lhas Baleares e estabeleceram um reino naquela região do Mediterrâneo. A incapacidade do quase exaurido Império em retomar seus territórios forçou o imperador do ocidente Valentiniano III a prometer em casamento sua filha Eudócia ao herdeiro de Genserico, Hunerico, assegurando a paz entre os dois.
Em 454 ou antes, um influente senador e administrador público chamado Petronius Maximus teria perdido uma aposta contra o imperador, dando como garantia do pagamento seu anel de casamento. Valentiniano se aproveitou da situação para violentar a esposa de Petronius, a quem desejava. Ao saber do caso, o senador teria jurado vingança. Para isso, maquinou a morte do homem forte do imperador, Aécio, notável diplomata e general que havia contido a invasão de Átila, o Huno, anos antes, sugerindo a Valentiniano que ele seria um conspirador. Após a morte de Aécio, sob a promessa de recompensa, um dos soldados designados para a escolta de Petronius assassinou Valentiniano durante uma visita sua ao Campo de Marte. Ao final do dia, Petronius foi proclamado imperador.
Isso causou uma reviravolta na relação de Roma com os vândalos. Para assegurar sua posição e um sucessor, Petronius Maximus arranjou o casamento entre seu filho Palladius e a mesma Eudócia (a esposa de Valentiniano, Licínia Eudoxia, tenha grande influência política que precisava ser neutralizada). Genserico, ao saber, declarou que isso invalidava o acordo de paz entre os dois, e inflou velas para atacar a Itália. Petronius governava o Império do Ocidente havia dois meses. Quando soube da expedição vândala, Maximus desistiu de organizar as defesas da cidade (ele esperava um grande destacamento de Visigodos vindos da França, que não chegava) e tentou fugir. Mas foi apedrejado até a morte por uma turba furiosa do lado de fora da cidade, provavelmente também em fuga. No mesmo dia, o exército de Genserico desembarcou na Itália.
Alguns dias depois, os vândalos apareceram às portas de Roma. Boa parte dos seus habitantes haviam fugido, e a cidade estava praticamente desguarnecida. O Papa Leão I, a principal autoridade romana presente, e cuja diplomacia também foi importante contra Átila, implorou pessoalmente a Genserico para que os habitantes não fossem mortos e a cidade não fosse incendiada. Aparentemente Genserico teria concordado com isso, e a partir daí os vândalos tomaram Roma, pilhando tudo que podiam carregar durante duas semanas. Em um certo momento, já não havia mais nada de valor que pudesse ser levado, e os vândalos se entregaram à destruição sem sentido, derrubando símbolos de poder como templos, estátuas e colunas. A infraestrutura da cidade, porém, foi poupada.
Ao final desse tempo, com poucas mortes e destruições por fogo (mas enormes espólios e carregamentos de escravos), os vândalos se retiraram de volta para a África. Genserico reinaria vigorosamente por mais 22 anos sobre os vândalos em Cartago até sua morte, aos 88, sucedido pelo seu filho (que, afinal, se casara com Eudócia). Mas o reino visigodo não duraria muito, e em 80 anos já não existia mais. O Império Romano do Ocidente resistiria ainda menos. Mas a violência deste saque específico (houveram outros antes e depois, e muito piores do que este) ficou permanentemente registrada no imaginário ocidental. "Vândalos" e "bárbaros" se tornaram sinônimos entre si por muito tempo, e sinônimos de violência despropositada até hoje. "Vandalismo" está presente no nosso léxico como o ato de depredar ou destruir propriedade pública.
quinta-feira, 28 de maio de 2015
O eclipse de Tales
Em 28 de maio de 585 a.C., um eclipse solar interrompeu a Batalha de Halys entre os reis Ciaxares, da Média, e Aliates, da Lídia, levando-os a concordarem com uma trégua. Embora os antigos considerassem o eclipse um sinal de mal agouro - o que teria levado os dois exércitos a desistirem da batalha - este eclipse teria sido predito com precisão e antecedência por Tales de Mileto, possivelmente a primeira previsão de um eclipse na História.
A importância do registro dos eclipses solares na antiguidade, quando cada pedacinho do mundo possuía seu próprio critério de contagem do tempo em meses e anos (geralmente medido segundo os anos de reinado de alguém, ou em ciclos olímpicos, ou ancorado em alguma outra data importante de um acontecimento anterior real ou mitológico, e não raro alterados, substituídos ou "zerados" sem aviso) é crucial para se precisar as datas de acontecimentos naqueles tempos, pois, sabendo-se a velocidade do movimento dos astros, seus ciclos e a periodicidade em que ocorrem os alinhamentos, é possível determinar até os minutos em que um eclipse ocorreu em dada época e lugar. Este eclipse solar, por exemplo, ocorreu no final da tarde sobre o sul da Anatólia, local da batalha. Com todo nosso arcabouço teórico moderno isso é relativamente simples, mas como Tales de Mileto fez para prever o tal fenômeno é um mistério, já que a observação sistemática de eclipses solares só tomou ares científicos lá pelo século XVIII.
Heródoto, o primeiro historiador no sentido estrito, é a fonte sobre a batalha e o eclipse que teria ocorrido. Há quem argumente que talvez, por Heródoto estar escrevendo sobre um evento que não presenciou, tenha confundido os fatos ou negligenciado fontes (como ele costumava fazer conforme a sua narrativa se afastava do seu tempo presente ou do seu conhecimento prático) e o eclipse relatado tenha sido um eclipse lunar, que teria aterrorizado os exércitos se eles estivessem se preparando para lutar sob a lua cheia que deveria estar brilhando naquela noite. Os eclipses lunares também podem servir como pontos de referência para a marcação de datas, o que levaria a data em que ocorreu a batalha para poucos anos antes ou depois.
De qualquer forma, outros eclipses ajudam os historiadores a compreenderem a datação de eventos passados. Por exemplo, Heródoto registra o que era ponto pacífico no seu tempo sobre a partida da expedição de Xerxes da cidade lídia de Sardis contra a Grécia. Ela teria sido marcada por um eclipse solar. Um eclipse parcial ocorreu na Pérsia (distante de Sardis, mas poderia ter sido um sinal que seria transmitido ao rei pelo estupendo sistema de comunicação do Império Persa) em 2 de outubro de 480 a.C.. Os gregos posteriormente se referem à partida de Xerxes, ou datas com referências a ela (a travessia do Bósforo, a chegada à Macedônia, as batalhas das Guerras Pérsicas, etc.), para marcar seu tempo, eventualmente cruzando-as com seus próprios sistemas de medidas (com base nos anos de realização dos seus jogos em Olímpia, Delfos, Nemeia, ou Corinto), e por isso é relativamente fácil lidar com a cronologia da História helênica, depois romana, e por fim dar alguma precisão ao calendário cristão (embora aí até mesmo teólogos cristãos discordem sobre o nascimento de Jesus em cerca de 7 anos).
Outro eclipse registrado na Antiguidade que nos oferece uma âncora para entender a cronologia dos eventos, desta vez no Oriente Médio, é o eclipse de 15 de julho de 763 a.C. observado na Assíria, no "nono ano" do reinado de Assurdam III. Como se sabe que o eclipse ocorreu em julho, e o registro diz que ocorreu no mês "SIMANU", tem-se aí também a ferramenta para se fazer a correspondência entre os meses do calendário assírio e os do calendário gregoriano e interpretá-los com alguma precisão toda vez que aparecerem. Esse eclipse é citado numa lista de reis assírios, e com ele é possível localizar todos os seus reinados com bastante precisão.
Da mesma forma, os hititas - cuja civilização era quase legendária até ser redescoberta arqueologicamente no século XIX - têm a sua cronologia baseada na informação de um eclipse solar sobre Hatti, no centro da Turquia, durante o "décimo ano" do reinado de Mursilis II, o que, com todos os cruzamentos possíveis, situa o evento depois do meio dia de 24 de junho de 1312, ou em 13 de abril de 1308, datas relativamente próximas. Porém, na segunda data, a região de Hatti teria ficado apenas na penumbra, e isso durante as primeiras horas da manhã, e seria pouco notado. Assumindo a primeira data como a mais provável, sabe-se quando Mursilis começou a reinar, e quando reinaram seus antecessores, sucessores, e todas as campanhas militares promovidas pelos hititas, inclusive seus confrontos com os egípcios.
Quanto a Ciaxares e Aliates, o eclipse interrompeu a longa guerra entre seus dois reinos. Ciaxares morreu logo depois. Seu bisneto pela linhagem materna seria Ciro II, rei da Pérsia, e ele se encarregaria de dominar a Lídia cerca de 40 anos mais tarde.
A importância do registro dos eclipses solares na antiguidade, quando cada pedacinho do mundo possuía seu próprio critério de contagem do tempo em meses e anos (geralmente medido segundo os anos de reinado de alguém, ou em ciclos olímpicos, ou ancorado em alguma outra data importante de um acontecimento anterior real ou mitológico, e não raro alterados, substituídos ou "zerados" sem aviso) é crucial para se precisar as datas de acontecimentos naqueles tempos, pois, sabendo-se a velocidade do movimento dos astros, seus ciclos e a periodicidade em que ocorrem os alinhamentos, é possível determinar até os minutos em que um eclipse ocorreu em dada época e lugar. Este eclipse solar, por exemplo, ocorreu no final da tarde sobre o sul da Anatólia, local da batalha. Com todo nosso arcabouço teórico moderno isso é relativamente simples, mas como Tales de Mileto fez para prever o tal fenômeno é um mistério, já que a observação sistemática de eclipses solares só tomou ares científicos lá pelo século XVIII.
Heródoto, o primeiro historiador no sentido estrito, é a fonte sobre a batalha e o eclipse que teria ocorrido. Há quem argumente que talvez, por Heródoto estar escrevendo sobre um evento que não presenciou, tenha confundido os fatos ou negligenciado fontes (como ele costumava fazer conforme a sua narrativa se afastava do seu tempo presente ou do seu conhecimento prático) e o eclipse relatado tenha sido um eclipse lunar, que teria aterrorizado os exércitos se eles estivessem se preparando para lutar sob a lua cheia que deveria estar brilhando naquela noite. Os eclipses lunares também podem servir como pontos de referência para a marcação de datas, o que levaria a data em que ocorreu a batalha para poucos anos antes ou depois.
De qualquer forma, outros eclipses ajudam os historiadores a compreenderem a datação de eventos passados. Por exemplo, Heródoto registra o que era ponto pacífico no seu tempo sobre a partida da expedição de Xerxes da cidade lídia de Sardis contra a Grécia. Ela teria sido marcada por um eclipse solar. Um eclipse parcial ocorreu na Pérsia (distante de Sardis, mas poderia ter sido um sinal que seria transmitido ao rei pelo estupendo sistema de comunicação do Império Persa) em 2 de outubro de 480 a.C.. Os gregos posteriormente se referem à partida de Xerxes, ou datas com referências a ela (a travessia do Bósforo, a chegada à Macedônia, as batalhas das Guerras Pérsicas, etc.), para marcar seu tempo, eventualmente cruzando-as com seus próprios sistemas de medidas (com base nos anos de realização dos seus jogos em Olímpia, Delfos, Nemeia, ou Corinto), e por isso é relativamente fácil lidar com a cronologia da História helênica, depois romana, e por fim dar alguma precisão ao calendário cristão (embora aí até mesmo teólogos cristãos discordem sobre o nascimento de Jesus em cerca de 7 anos).
Outro eclipse registrado na Antiguidade que nos oferece uma âncora para entender a cronologia dos eventos, desta vez no Oriente Médio, é o eclipse de 15 de julho de 763 a.C. observado na Assíria, no "nono ano" do reinado de Assurdam III. Como se sabe que o eclipse ocorreu em julho, e o registro diz que ocorreu no mês "SIMANU", tem-se aí também a ferramenta para se fazer a correspondência entre os meses do calendário assírio e os do calendário gregoriano e interpretá-los com alguma precisão toda vez que aparecerem. Esse eclipse é citado numa lista de reis assírios, e com ele é possível localizar todos os seus reinados com bastante precisão.
Da mesma forma, os hititas - cuja civilização era quase legendária até ser redescoberta arqueologicamente no século XIX - têm a sua cronologia baseada na informação de um eclipse solar sobre Hatti, no centro da Turquia, durante o "décimo ano" do reinado de Mursilis II, o que, com todos os cruzamentos possíveis, situa o evento depois do meio dia de 24 de junho de 1312, ou em 13 de abril de 1308, datas relativamente próximas. Porém, na segunda data, a região de Hatti teria ficado apenas na penumbra, e isso durante as primeiras horas da manhã, e seria pouco notado. Assumindo a primeira data como a mais provável, sabe-se quando Mursilis começou a reinar, e quando reinaram seus antecessores, sucessores, e todas as campanhas militares promovidas pelos hititas, inclusive seus confrontos com os egípcios.
Quanto a Ciaxares e Aliates, o eclipse interrompeu a longa guerra entre seus dois reinos. Ciaxares morreu logo depois. Seu bisneto pela linhagem materna seria Ciro II, rei da Pérsia, e ele se encarregaria de dominar a Lídia cerca de 40 anos mais tarde.
quarta-feira, 27 de maio de 2015
Fogo debaixo da terra
Em 27 de maio de 1962, o carvão de uma mina sob a cidade americana de Centralia começou a pegar fogo. Ninguém tem certeza de como o incêndio se propagou, mas ele arde na cidade desde que um monte de lixo foi incendiado, e o fogo atingiu os veios de carvão mineral nos túneis de minas abandonadas sob o solo.
A cidade se preparava para as comemorações do Memorial Day, e uma das ações da prefeitura foi limpar os aterros irregulares e depositar todo o lixo em uma área de mineração na superfície abandonada desde 1935, criar um aterro lá, e botar fogo em tudo. Esse procedimento era ilegal, e não constava nos autos do conselho municipal, mas foi o que aconteceu.
Naquele dia, 5 voluntários do corpo de bombeiros local foram designados para supervisionar o fogo, usando água para controlar a fumaça e assegurar que ele não se espalharia pelas redondezas, caso atingisse algum veio de carvão mineral exposto por acaso. Isso era previsto, tanto que uma lei estadual proibia aterros sanitários sobre minas superficiais de carvão. No dia 29, quando o fogo já deveria ter se extinguido, chamas ainda eram observadas no local, novamente controladas. Na semana seguinte, o fogo voltou a arder no mesmo lugar, e fumaça era detectada em outros pontos da cidade, enquanto a prefeitura continuava despejando lixo no aterro. Os bombeiros então revolveram os detritos para tentar localizar algum foco de incêndio entre as camadas de lixo, quando descobriram uma fenda de mais de 4 metros de largura no chão e alguns metros de profundidade. Essa abertura dava acesso às antigas minas sob a cidade, e por ela as chamas na superfície teriam atingido os antigos depósitos de carvão.
Técnicos compareceram ao local e detectaram presença de monóxido de carbono na fumaça do aterro, indicando que o fogo havia se espalhado pelos veios de carvão. No entanto, a causa do incêndio foi ocultada pelas autoridades, por causa das irregularidades cometidas no processo. Enquanto se decidia o que fazer, técnicos continuavam as medições de monóxido de carbono, e no dia 9 de agosto, foram detectadas concentrações letais, e todas as minas ativas da região foram evacuadas.
Ficou decidido que uma escavadeira retiraria terra 60 metros além do perímetro do aterro para tentar isolar o incêndio. Na primeira escavada, o ar rico em oxigênio entrou pelo buraco e causou uma labareda, deixando claro que o fogo subterrâneo havia se espalhado por uma área maior do que o imaginado. A escavação continuou lentamente tentando cercar a área, mas não adiantaria nada.
Uma segunda tentativa incluiu o bombeamento de uma mistura de pedriscos e água nos túneis à frente do que se acreditava ser a direção e o limite do fogo naquele momento, mas o inverno impediu a operabilidade do projeto. Em abril do ano seguinte, fumaça emergia do solo a mais de 200 metros do aterro, na direção da rua principal de Centralia.
A vida continuou. O abandono das minas locais forçou a saída de algumas famílias em busca de emprego em outros lugares. Até que em 1979, o prefeito local, dono de um posto de gasolina, estava medindo o nível de combustível no seu reservatório, e achou que a vara usada estava muito quente. Ele mergulhou um termômetro e descobriu que a gasolina estava a 77ºC. Os cidadãos locais ficaram atentos. Quando, em 1981, um garoto caiu num buraco que se abriu no quintal de casa, e dese buraco emanava um vapor quente com doses letais de monóxido de carbono (o garoto foi salvo), ficou claro o perigo que a cidade corria. O governo americano interviu desapropriando as terras e indenizando as famílias. As construções desabitadas foram demolidas. O serviço postal americano cancelou o CEP de Centralia. A cidade vizinha de Byrnesville, ao sul, também foi afetada e abandonada.
O fogo no subsolo de Centralia continua ardendo até hoje numa área de 1,6 km², e ainda em expansão. O sinal da queima são emissões de fumaça tóxica em fissuras no solo espalhadas pela cidade. Na época do início do incêndio, viviam cerca de 1400 pessoas ali. Dez atualmente se recusam a abandonar o local e continuam vivendo ali nas 5 casas que não foram demolidas. Além delas, dos cemitérios, da igreja (localizada num morro afastado do incêndio), do edifício da prefeitura (onde os poucos moradores ainda se reúnem) e das ruas, só há mato. Estima-se que, no ritmo atual, o fogo continue queimando por pelo menos 250 anos. A cidade-fantasma fictícia de Silent Hill é baseada em Centralia.
A cidade se preparava para as comemorações do Memorial Day, e uma das ações da prefeitura foi limpar os aterros irregulares e depositar todo o lixo em uma área de mineração na superfície abandonada desde 1935, criar um aterro lá, e botar fogo em tudo. Esse procedimento era ilegal, e não constava nos autos do conselho municipal, mas foi o que aconteceu.
Naquele dia, 5 voluntários do corpo de bombeiros local foram designados para supervisionar o fogo, usando água para controlar a fumaça e assegurar que ele não se espalharia pelas redondezas, caso atingisse algum veio de carvão mineral exposto por acaso. Isso era previsto, tanto que uma lei estadual proibia aterros sanitários sobre minas superficiais de carvão. No dia 29, quando o fogo já deveria ter se extinguido, chamas ainda eram observadas no local, novamente controladas. Na semana seguinte, o fogo voltou a arder no mesmo lugar, e fumaça era detectada em outros pontos da cidade, enquanto a prefeitura continuava despejando lixo no aterro. Os bombeiros então revolveram os detritos para tentar localizar algum foco de incêndio entre as camadas de lixo, quando descobriram uma fenda de mais de 4 metros de largura no chão e alguns metros de profundidade. Essa abertura dava acesso às antigas minas sob a cidade, e por ela as chamas na superfície teriam atingido os antigos depósitos de carvão.
Técnicos compareceram ao local e detectaram presença de monóxido de carbono na fumaça do aterro, indicando que o fogo havia se espalhado pelos veios de carvão. No entanto, a causa do incêndio foi ocultada pelas autoridades, por causa das irregularidades cometidas no processo. Enquanto se decidia o que fazer, técnicos continuavam as medições de monóxido de carbono, e no dia 9 de agosto, foram detectadas concentrações letais, e todas as minas ativas da região foram evacuadas.
Ficou decidido que uma escavadeira retiraria terra 60 metros além do perímetro do aterro para tentar isolar o incêndio. Na primeira escavada, o ar rico em oxigênio entrou pelo buraco e causou uma labareda, deixando claro que o fogo subterrâneo havia se espalhado por uma área maior do que o imaginado. A escavação continuou lentamente tentando cercar a área, mas não adiantaria nada.
Uma segunda tentativa incluiu o bombeamento de uma mistura de pedriscos e água nos túneis à frente do que se acreditava ser a direção e o limite do fogo naquele momento, mas o inverno impediu a operabilidade do projeto. Em abril do ano seguinte, fumaça emergia do solo a mais de 200 metros do aterro, na direção da rua principal de Centralia.
A vida continuou. O abandono das minas locais forçou a saída de algumas famílias em busca de emprego em outros lugares. Até que em 1979, o prefeito local, dono de um posto de gasolina, estava medindo o nível de combustível no seu reservatório, e achou que a vara usada estava muito quente. Ele mergulhou um termômetro e descobriu que a gasolina estava a 77ºC. Os cidadãos locais ficaram atentos. Quando, em 1981, um garoto caiu num buraco que se abriu no quintal de casa, e dese buraco emanava um vapor quente com doses letais de monóxido de carbono (o garoto foi salvo), ficou claro o perigo que a cidade corria. O governo americano interviu desapropriando as terras e indenizando as famílias. As construções desabitadas foram demolidas. O serviço postal americano cancelou o CEP de Centralia. A cidade vizinha de Byrnesville, ao sul, também foi afetada e abandonada.
O fogo no subsolo de Centralia continua ardendo até hoje numa área de 1,6 km², e ainda em expansão. O sinal da queima são emissões de fumaça tóxica em fissuras no solo espalhadas pela cidade. Na época do início do incêndio, viviam cerca de 1400 pessoas ali. Dez atualmente se recusam a abandonar o local e continuam vivendo ali nas 5 casas que não foram demolidas. Além delas, dos cemitérios, da igreja (localizada num morro afastado do incêndio), do edifício da prefeitura (onde os poucos moradores ainda se reúnem) e das ruas, só há mato. Estima-se que, no ritmo atual, o fogo continue queimando por pelo menos 250 anos. A cidade-fantasma fictícia de Silent Hill é baseada em Centralia.
terça-feira, 26 de maio de 2015
A Coroa de Ferro da Lombardia
No dia 26 de maio de 1805, Napoleão coroou a si mesmo rei da Itália em Milão, colocando sobre sua cabeça a Coroa de Ferro da Lombardia.
Essa coroa, hoje guardada e exibida na Catedral de Monza, é uma das relíquias cristãs mais antigas das quais se tem registro que sobreviveram até o nosso tempo. Trata-se de uma banda circular de ferro, sobre a qual foi montado um aro composto por seis folhas batidas de ouro adornadas com pedras preciosas. É uma coroa pequena demais para ser encaixada em uma cabeça como imaginamos ao pensar em uma coroa.
Ela é uma relíquia cristã valiosa não por causa do ouro ou da pedraria, mas por causa do seu "esqueleto" de ferro. As diferentes versões da lenda convergem para a mãe do imperador romano Constantino I, Helena. Ela teria trazido pessoalmente os remanescentes da cruz em que Jesus foi crucificado de uma viagem à Palestina entre os anos de 326 e 328. Ela era cristã, e teria fundado várias igrejas e obras de caridade na região, e nesses caminhos teria descoberto três cruzes, e uma visão a levou a identificar as três como aquelas erigidas no Gólgota naquele dia, e qual delas era a cruz de Jesus.
Desde antes, os relicários de Cristo e dos apóstolos que circulavam pela Europa e Oriente Próximo tinham a reputação de possuírem propriedades sobrenaturais. Helena então trouxe pedaços da cruz, e ofereceu os cravos a Constantino. Um dos cravos foi martelado na parte de dentro do seu elmo; outro usado para ferrar o seu cavalo; outros foram enviados como presentes a cristãos proeminentes dentro e fora do Império. Dessa forma, um desses cravos chegou a Monza, no século VII, sede do reino dos lombardos. A princesa Theodelinda, a quem se atribui a evangelização daquela tribo germânica, teria encomendado a coroa montada sobre o aro obtido do cravo batido. Outra tradição diz que, após a morte de Constantino, seu elmo teria ficado em Constantinopla. Quando o rei visigodo Teodorico invadiu a Itália, os bizantinos teriam removido o aro do interior do elmo e enviado ao mesmo, que o teria usado como coroa. Mais tarde, os visigodos o passariam ao lombardos quando estes conquistaram o nordeste da Itália. Uma terceira hipótese mais recente é de que a coroa de ferro, com esse significado, teria chegado à Itália através dos francos, pois um dos netos do rei Luis, o Piedoso, teria recebido a relíquia de sua mãe e doado à igreja de Monza, da qual era benfeitor.
De qualquer maneira, a Coroa de Ferro é registrada oficialmente pela primeira vez na coroação de Henrique VII como rei da Itália - futuramente, sacro imperador romano - em 1311, mas ela pode ter sido usada antes, a começar por Carlos Magno. A própria Igreja, apesar de considerar a coroa um tesouro, teve ao longo dos séculos atitudes diferentes em relação à sua venerabilidade, e à autenticidade da sua origem, de maneira que a coroa nem sempre foi usada para legitimar o poder de um soberano sobre a Itália. Investigações conduzidas pela Igreja concluíram que, embora seja possível que ela tenha sido um dia montada sobre uma banda de ferro (testes de radiocarbono sobre as placas de ouro apontam para em torno do século VI, época aproximada estimada pelas tradições para a chegada da coroa à Itália), a que está lá hoje é constituída por 99% de prata - é possível que ela tenha sido substituída durante uma restauração feita no século XVI.
Numa atitude calculada para cimentar seu poder após a conquista da Itália, Napoleão rumou para Milão para ser coroado rei daquele país. Numa cerimônia grandiosa, sentado sobre um trono magnífico, ele foi homenageado e a ele foram investidas as insígnias reais pelo cardeal arcebispo de Milão. Ele subiu ao altar, pegou a Coroa de Ferro e a colocou sobre a cabeça, declarando "Deus a tem me dado, cuidado a qualquer um que a tocar", um gesto parecido com o que teve na sua coroação como Imperador da França, quando tomou a coroa das mãos do próprio Papa e a enterrou na cabeça antes que o mesmo terminasse seu discurso cerimonial.
Essa coroa, hoje guardada e exibida na Catedral de Monza, é uma das relíquias cristãs mais antigas das quais se tem registro que sobreviveram até o nosso tempo. Trata-se de uma banda circular de ferro, sobre a qual foi montado um aro composto por seis folhas batidas de ouro adornadas com pedras preciosas. É uma coroa pequena demais para ser encaixada em uma cabeça como imaginamos ao pensar em uma coroa.
Ela é uma relíquia cristã valiosa não por causa do ouro ou da pedraria, mas por causa do seu "esqueleto" de ferro. As diferentes versões da lenda convergem para a mãe do imperador romano Constantino I, Helena. Ela teria trazido pessoalmente os remanescentes da cruz em que Jesus foi crucificado de uma viagem à Palestina entre os anos de 326 e 328. Ela era cristã, e teria fundado várias igrejas e obras de caridade na região, e nesses caminhos teria descoberto três cruzes, e uma visão a levou a identificar as três como aquelas erigidas no Gólgota naquele dia, e qual delas era a cruz de Jesus.
Desde antes, os relicários de Cristo e dos apóstolos que circulavam pela Europa e Oriente Próximo tinham a reputação de possuírem propriedades sobrenaturais. Helena então trouxe pedaços da cruz, e ofereceu os cravos a Constantino. Um dos cravos foi martelado na parte de dentro do seu elmo; outro usado para ferrar o seu cavalo; outros foram enviados como presentes a cristãos proeminentes dentro e fora do Império. Dessa forma, um desses cravos chegou a Monza, no século VII, sede do reino dos lombardos. A princesa Theodelinda, a quem se atribui a evangelização daquela tribo germânica, teria encomendado a coroa montada sobre o aro obtido do cravo batido. Outra tradição diz que, após a morte de Constantino, seu elmo teria ficado em Constantinopla. Quando o rei visigodo Teodorico invadiu a Itália, os bizantinos teriam removido o aro do interior do elmo e enviado ao mesmo, que o teria usado como coroa. Mais tarde, os visigodos o passariam ao lombardos quando estes conquistaram o nordeste da Itália. Uma terceira hipótese mais recente é de que a coroa de ferro, com esse significado, teria chegado à Itália através dos francos, pois um dos netos do rei Luis, o Piedoso, teria recebido a relíquia de sua mãe e doado à igreja de Monza, da qual era benfeitor.
De qualquer maneira, a Coroa de Ferro é registrada oficialmente pela primeira vez na coroação de Henrique VII como rei da Itália - futuramente, sacro imperador romano - em 1311, mas ela pode ter sido usada antes, a começar por Carlos Magno. A própria Igreja, apesar de considerar a coroa um tesouro, teve ao longo dos séculos atitudes diferentes em relação à sua venerabilidade, e à autenticidade da sua origem, de maneira que a coroa nem sempre foi usada para legitimar o poder de um soberano sobre a Itália. Investigações conduzidas pela Igreja concluíram que, embora seja possível que ela tenha sido um dia montada sobre uma banda de ferro (testes de radiocarbono sobre as placas de ouro apontam para em torno do século VI, época aproximada estimada pelas tradições para a chegada da coroa à Itália), a que está lá hoje é constituída por 99% de prata - é possível que ela tenha sido substituída durante uma restauração feita no século XVI.
Numa atitude calculada para cimentar seu poder após a conquista da Itália, Napoleão rumou para Milão para ser coroado rei daquele país. Numa cerimônia grandiosa, sentado sobre um trono magnífico, ele foi homenageado e a ele foram investidas as insígnias reais pelo cardeal arcebispo de Milão. Ele subiu ao altar, pegou a Coroa de Ferro e a colocou sobre a cabeça, declarando "Deus a tem me dado, cuidado a qualquer um que a tocar", um gesto parecido com o que teve na sua coroação como Imperador da França, quando tomou a coroa das mãos do próprio Papa e a enterrou na cabeça antes que o mesmo terminasse seu discurso cerimonial.
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