Em 8 de maio de 1794, o químico Antoine Lavoisier e mais 27 acusados foram condenados e executados em Paris por atividades anti-revolucionárias.
Lavoisier nasceu em 1743 no seio de uma família nobre, e aos 16 anos começou a estudar ferozmente vários campos das ciências naturais e da matemática. A despeito de ter se formado advogado como seu pai (embora nunca tenha exercito a função), Lavoisier seguiu assistindo aulas e palestras sobre ciências naturais, e associando-se a pesquisadores proeminentes. Evidentemente sua posição social lhe abriu muitas portas (a ponto de, aos 23 anos ser condecorado com uma medalha de ouro pelo rei Luís XV por um trabalho sobre a iluminação das ruas de Paris), mas seu talento o fez aproveitar ao máximo cada oportunidade.
A contribuição mais notável de Lavoisier para a ciência foi na compreensão do fenômeno da combustão. Ele percebeu que a combustão e calcinação (ou seja, a transformação, após a queima, de um sólido em outro sólido) de uma substância em estado puro resultava no acréscimo de peso do mesmo elemento, embora o sistema total mantivesse sua massa constante. Após realizar experimentos com diferentes elementos, e agregando trabalhos feitos por colegas britânicos, ele enfim deduziu que a combustão era o processo pelo qual uma substância reagia com outras presentes no ar, que eram agregadas à substância original durante a queima com liberação de energia. Ele ainda não conhecia a composição química da atmosfera nem o papel do oxigênio na promoção da combustão - ele deduziria mais tarde a existência do oxigênio e do hidrogênio. Suas aferições precisas de massa, e a precisão dos resultados produzidos com essa metodologia, seriam incorporadas à metodologia de todos os trabalhos em química no futuro. Lavoisier também seria um dos que defenderia o estabelecimento do sistema métrico decimal em substituição à miríade de sistemas de medidas adotadas anteriormente, além de um sistema nomenclatural para a química semelhante ao proposto por Carl Linnaeus para a biologia. Suas observações sobre as reações químicas, e a verificação de que a massa total dos reagentes é igual à massa total dos produtos, o levou a cunhar a famosa frase: "Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma".
Graças aos seus trabalhos sobre combustão, em 1775 Lavoisier foi nomeado para a Comissão da Pólvora, órgão governamental que substituiria uma empresa particular no suprimento de pólvora para a França, e sua enorme capacidade de organização de fato fez com que o suprimento e a qualidade da pólvora entregue ao governo superasse em muito o que se tinha antes, a ponto de gerar receita para o Tesouro. A Comissão lhe forneceu uma casa e um laboratório no Arsenal Real, onde viveu e trabalhou até 1792.
Lavoisier, enquanto cientista, foi um produto do Iluminismo, corrente filosófica que estimulava a investigação metódica do mundo natural e humano, confrontando visões dogmáticas (de ordem religiosa ou qualquer outra) sobre a construção do mundo e da sociedade. O Iluminismo estava impregnado no sistema educacional no qual Lavoisier se formou. Contudo, o químico nunca questionou a natureza da legitimidade do poder político e da ordem social, ou ao menos nunca percebeu a profundidade do abismo que separavam as classes sociais na França, e o que disso viria a resultar - o que lhe custaria a vida mais adiante.
Aos 26 anos, Lavoisier adquiriu parte da Ferme générale (ou "Fazenda Geral"), uma companhia a serviço do governo que estimava quanto de imposto seria arrecadado ao longo do ano, antecipando o repasse desta quantia ao governo francês, em troca do direito de executar, por conta própria, o recolhimento dos impostos da população ("Fazenda", no caso, tinha o duplo sentido de ter sua origem e principal função o recolhimento de impostos das propriedades rurais, e ser ela mesmo uma "fazenda de impostos" para o governo). Lavoisier chegou mesmo a se casar com Marie-Anne Paulze, filha de um dos membros da Ferme générale (Marie-Anne, apesar de ter apenas 13 anos quando se casou, era excepcionalmente culta, e não só auxiliava o marido no laboratório, mas produzia ilustrações, e traduzia trabalhos científicos do inglês para o francês, bem como sua correspondência, especialmente com Joseph Priestley, químico que também descobrira paralelamente o oxigênio). Na Ferme générale, Lavoisier bancou a construção de um muro em torno de Paris, direcionando as saídas da cidade para que a companhia pudesse posicionar guarnições nestes locais específicos e recolher impostos sobre qualquer produto que entrasse ou saísse da cidade, evitando sobremaneira a evasão e o contrabando na capital.
Como tivesse a prerrogativa de recolher os impostos, a Ferme générale era, naturalmente, mal vista pela população. Mas além da função ingrata, agravada pelo complicado sistema tributário francês, a truculência com que tratava sonegadores e contrabandistas (que podiam ser punidos com mais rigor do que criminosos mais violentos), bem como a enorme riqueza acumulada pelos seus diretores, saltavam aos olhos. Quando eclodiu a Revolução Francesa em 1789, um dos elementos que mais inflamavam as opiniões era a questão dos impostos, a maneira como eram recolhidos, e o seu destino. No plenário da assembleia nacional, os fazendeiros-gerais eram abertamente chamados de "predadores". O novo governo revolucionário dissolveu a empresa em 1791, destituindo seus diretores (entre eles Lavoisier) e funcionários.
Lavoisier escapou da ira revolucionária neste primeiro momento, mas foi forçado a deixar seu posto na Comissão da Pólvora. Ele reconhecia que o sistema de governo era falho e precisava de profundas reformas; quando foi encarregado por Luis XVI para avaliar a possibilidade de introdução de novas culturas e tipos de gado nas fazendas francesas, ele concluiu que seria inútil introduzir qualquer novidade no campo, pois os camponeses estavam tão empobrecidos e pressionados pela carga tributária que eles não podiam investir em nada além do que já estavam adaptados a cultivar. Já destituído de cargos, apresentou um projeto de reforma da educação ao Congresso, acreditando poder reformar o sistema de dentro para fora com o poder da razão. Porém, a Revolução evoluía a despeito dos esforços - de revolucionários moderados e conservadores - para contê-la, e rumava para sua fase mais sinistra, conhecida como "Reino do Terror".
Maximilien de Robespierre encabeçava a cúpula revolucionária que assumira a administração pública a partir da queda de Luís XVI. À medida em que o novo governo tomava corpo, a jovem burguesia francesa que atropelara os velhos oligarcas dava espaço a soluções moderadas ou conservadoras às reivindicações em pauta que agradassem a ambos. Robespierre, por outro lado, mantinha sua veia radical ao permitir a interferência dos "sans culottes", como as classes mais baixas eram conhecidas, e sua popularidade crescia à medida em que se posicionava contra as instituições tradicionais de poder. A França também fora desafiada pelos seus vizinhos absolutistas na Guerra da Primeira Coalizão, e a capacidade de mobilizar a população era vital para conter o conflito e manter a estabilidade interna. A primeira vítima ilustre dessa radicalização do movimento revolucionário foi o próprio Luís XVI, a cujo perdão ou punição simbólica Robespierre se opunha. O governo começou a perseguir e cortar as cabeças de membros do parlamento, antigos políticos, e, eventualmente, qualquer um que representasse ou mesmo defendesse de alguma forma o poder monárquico.
A partir de 1793, a Revolução voltou-se contra as sociedades científicas. Sob pedido do Abade Gregório, congressista católico e nacionalista rábico que influenciou a nova política de língua única na França (que tradicionalmente compunha-se do francês falado em grande parte do país, mais 33 dialetos diferentes), a Academia de Ciências, da qual faziam parte Lavoisier e nomes ilustres, como o matemático Pierre Laplace e o estrangeiro Joseph Louis Lagrange (a favor de quem Lavoisier interferiu para que lhe poupasse a vida e os bens) foi fechada. Por fim, em novembro de 1793, Lavoisier, junto com outros 27 diretores da antiga Ferme générale foram presos. Sua defesa apelou ao juiz Jean Baptiste Coffinhal, alegando serem os trabalhos e experimentos de Lavoisier úteis ao país, ao que o juiz teria respondido: "A República não precisa de cientistas e químicos". Ele seria considerado culpado das acusações de roubar o povo e o Tesouro (pela sua participação na Ferme générale), de adulterar o tabaco vendido no país (acusado de tal crime pelo jornalista Jean Paul Marat, assassinado dez meses antes), e de ter repassado a estrangeiros grandes somas de dinheiro público (o apoio dado a pesquisadores estrangeiros fora e dentro da França). Todos os 28 acusados foram julgados e guilhotinados no mesmo dia.
Lavoisier deixou um legado volumoso para a ciência e a filosofia em muitos campos. Sua importância foi reconhecida ainda durante o período revolucionário, quando, um ano e meio depois da sua execução, seus pertences foram entregues a Marie-Anne, com uma nota que dizia "À viúva de Lavoisier, que fora falsamente condenado". Lagrange disse: "Bastou a eles um segundo para cortar sua cabeça, e cem anos não bastarão para produzir outro igual".
E, afinal, depois de mergulhar numa espiral de violência revolucionária pela queda da monarquia e a tomada do poder pelo povo, a França acabaria abraçando, 10 anos depois da morte de Lavoisier, um novo monarca, Napoleão Bonaparte. O que os revolucionários tentaram introduzir de novo acabou resultando em algo muito parecido (apenas aproveitando-se de uma estrutura administrativa mais moderna) com o que era antes. Nada se cria, tudo se transforma.
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segunda-feira, 8 de maio de 2017
quinta-feira, 12 de janeiro de 2017
Queda de Caiena
Em 12 de janeiro de 1809, uma força marinha conjunta do Império Português e da Inglaterra tomou o controle de Caiena, capital da Guiana Francesa, brevemente anexando-a ao império colonial português em represália à invasão de Portugal por Napoleão.
A vinda da família real portuguesa ao Brasil em 1808, junto com toda a estrutura administrativa do Império Português, foi uma medida preventiva do príncipe regente João diante da iminente invasão francesa a Portugal. Embora manobrasse no campo diplomático, as relações indissolúveis com a Inglaterra (João, preso aos ingleses por tratado, até cogitou com o rei George III que os dois países declarassem uma guerra de fantasia para evitar a hostilidade com a França) e a volatilidade com que Napoleão tratava aliados de ocasião convenceram o príncipe português de que o mais seguro seria mover a corte para um lugar onde não pudesse ser capturada - o Rio de Janeiro funcionava como capital do império, enquanto o general Junot marchava sobre a casca oca que era Portugal, impedindo efetivamente que o império inteiro caísse. Isso não significa que Don João, em seu santuário tropical, tenha se mantido alheio às Guerras Napoleônicas.
Como a guerra envolvesse as metrópoles de vastos impérios coloniais, como Portugal, Inglaterra, Espanha, Holanda, ela era travada também longe da Europa. Em 1802, Napoleão, então cônsul da França, enviou um exército para esmagar a Revolução Haitiana (onde ex-escravos conquistaram a independência do país), mas foi notavelmente derrotado. Os ingleses, que até 1808 adotavam uma postura passivo-agressiva diante da incapacidade de uma invasão por terra por parte dos franceses e buscava furar o Bloqueio Continental aqui e ali (o fluxo de comércio com os Estados Unidos e o Brasil anulavam os danos do bloqueio na Europa), na América investiram agressivamente contra as colônias francesas, procurando estrangular o império napoleônico e, ao mesmo tempo, assimilar novas possessões. Na América do Norte, onde os britânicos eram senhores de quase tudo que hoje é o Canadá e os franceses tinham controle sobre o Quebec e uma enorme faixa de terra a oeste do Mississipi (a colônia da Louisiania, que recuperaram das mãos dos espanhóis por meio de um tratado em 1800 e que venderam amigavelmente aos Estados Unidos para levantar fundos para a guerra). Ali, ambos os lados, quando se viam incapazes de guerrear com seus próprios exércitos, armavam tribos nativas para que pudessem atacar fortes e colônias e fustigar o inimigo. Os Estados Unidos tentavam se manter alheios, mas conforme a guerra prosseguia, eles se viam mais envolvidos, até entrar em guerra aberta com o Canadá britânico por questões de fronteira em 1812.
As principais bases de operação de Napoleão no oeste do Atlântico eram os portos fortificados no Caribe, mantidos em cheque pela superioridade naval da marinha britânica. Na América do Sul, a presença francesa estava na Guiana, "pequena" faixa de terra ao norte da Bacia Amazônica usada basicamente para o cultivo de cana-de-açúcar ("pequena" em relação ao Brasil, pois possui cerca de 15% da extensão territorial da França continental). Caiena, sua capital situada na costa, era uma dessas cidades fortificadas onde navios da marinha francesa, piratas e corsários poderiam encontrar acolhida.
A Inglaterra precisaria suprimir o controle francês sobre esse ponto se quisesse assegurar suas rotas comerciais com a América. A crise causada pela interferência britânica nas colônias francesas no Caribe fizeram com que vários de seus governadores enviassem à França pedidos de socorro, então os ingleses sabiam que era a hora de atacar. Contudo, com grande parte da sua marinha comprometida com a patrulha do litoral norte-americano e Caribe, além dos navios empregados na proteção do território na Europa, os ingleses apelaram para seu único aliado incondicional que poderia agir na América do Sul: Portugal.
A França invadira Portugal em 1808 e tomara Lisboa apenas dois dias depois da família real ter zarpado. O general Junot ainda podia ver os últimos navios da esquadra portuguesa sumindo no horizonte. Isso frustrou os planos de depor a rainha e coroar algum títere, como Napoleão vinha fazendo em outras partes da Europa. A própria ocupação do território português, embora tenha sido invadido praticamente sem resistência, ficou impossibilitada porque os camponeses no caminho de Junot foram removidos de suas propriedades e tudo que podia ser aproveitado pelo invasor fora queimado. Também havia resistência no campo e nas cidades, de maneira que a ocupação francesa nunca chegou a ser tranquila. Mesmo a Espanha, sua aliada, não permaneceria colaboracionista por muito tempo.
João, que partira de sua terra com enorme pesar, tomava providências para que a nova capital, no Rio de Janeiro, tivesse condições de proteger a coroa em caso de uma improvável invasão francesa, ou, ao menos, pudesse assegurar uma autonomia quanto ao acesso a recursos estratégicos caso as rotas oceânicas fossem bloqueadas. Entre suas providências, ordenou o estabelecimento de toda a cadeia de produção de pólvora, e a fundação de um jardim de aclimatação para o cultivo de especiarias, o atual Jardim Botânico do Rio de Janeiro.
A marinha portuguesa no Brasil era tímida; apenas quatro naus haviam deixado Portugal junto com a família real, e os navios aqui eram apenas usados para patrulha e transporte, muito poucos aptos para a guerra. Porém, como a Inglaterra também estava limitada, o almirante Sidney Smith solicitou ao governo português o envio dos navios de que podia dispor para atacar Caiena. Dom João viu ali uma oportunidade (e os ingleses sabiam que veria) de não apenas fustigar a França, mas também de jogar para a mesa de negociações a questão da fronteira entre a Guiana Francesa e aquela parte do Grão-Pará que seria conhecida em tempos coloniais como Guiana Brasileira (ou Portuguesa), e que hoje constitui o estado do Amapá: desde fins do século XVIII, a França conseguira, através de tratados, avançar a fronteira da Guiana para além do rio Oiapoque, tomando o que hoje é o oeste e o norte do Amapá. Portugal pretendia recuperar essas terras e firmar a fronteira ao longo do Oiapoque.
Dom João respondeu mobilizando quatro naus: o Voador, o Vingança (as duas embarcações munidas de canhões, sendo que a última tinha no seu histórico a captura de um navio pirata a serviço da França em 1801), o Infante Dom Pedro, e o Leão, carregando 550 soldados sob comando do tenente-coronel Manuel Marques. Eles comporiam uma esquadra sob o comando do almirante James Lucas Yeo. A esquadra partiu de Belém no começo de dezembro de 1808, e ainda naquele mês bombardeou as colônias costeiras de Oiapoque e Aprouague.
No dia 6 de janeiro de 1809, diante das fortificações de Caiena, o almirante Yeo optou por atacar por terra ancoradouros ao longo do rio Maruhy para atrair soldados franceses para uma batalha campal. Ingleses e portugueses no primeiro momento tomaram duas fortificações e renderam cerca de 90 soldados dos 450 que guardavam a cidade. À medida em que os invasores avançavam, tomando mais fortes ao longo do Maruhy, o governador de Caiena, Victor Hugues respondia de maneira desastrada, sem conhecimento da posição ou do tamanho do inimigo, ora oferecendo combate em desvantagem, ora superestimando e recuando diante de forças bem menores. No dia 9, o almirante Yeo liderou pessoalmente o ataque à residência do governador, e iniciou a marcha para a cidade propriamente dita. No dia 12, Hugues assinou sua rendição. Dezessete soldados morreram nos confrontos, apenas um deles do lado anglo-português.
A entrada das tropas na cidade estava programada para o dia 14, mas no dia 13, uma enorme fragata francesa, o Topaze, se aproximou do porto. Desfalcada do Infante Dom Pedro, a esquadra anglo-portuguesa só dispunha da canhoneira britânica Confiance em posição de defesa, porém com metade da capacidade de fogo e sem tripulação. Se o Topaze, com seus canhões e um reforço para a guarnição local aportasse, a operação seria um fracasso. O capitão do navio, George Yeo, irmão do almirante, rapidamente contratou negros libertos locais para tripular o navio e manobrá-lo audaciosamente para uma posição de combate. Como o Topaze estivesse carregando mais de mil barris de farinha, seu capitão recebera ordens de evitar combate se isso pusesse a carga em risco. Então ele deu meia volta e sumiu no horizonte - o Topaze foi afundado dez dias depois num confronto com ingleses perto da ilha de Guadalupe.
No dia 14, enfim, a cidade abriu os portões e se rendeu. Soldados foram presos e armas apreendidas, e a administração entregue por Hughes e Yeo ao Marquês de Queluz. Ao invés de integrada à colônia do Brasil, foi criada ali a colônia de Caiena e Guiana. A colônia existiu sob controle português até 1815, quando os termos da sua devolução e o estabelecimento da fronteira ao longo do Oiapoque foram acertados entre o rei Luis XVIII e o príncipe regente no Congresso de Viena. Apenas em 1817 uma delegação francesa chegou a Caiena para tomar posse da colônia.
A breve presença portuguesa na Guiana Francesa, além de resultar no estabelecimento da fronteira entre o território e o Brasil, teve como consequência curiosa o enriquecimento dos jardins botânicos no Brasil. Os franceses haviam investido no plantio de especiarias na Guiana, e perto de Caiena havia um complexo de jardins de plantas de interesse econômico e estratégico. De posse desses jardins, os portugueses providenciaram o transporte de mudas e sementes de craveiros, caneleiras, pimenteiras, palmeiras, noz-moscada, frutas-pão, abacateiros, além de uma variedade de cana-de-açúcar local superior à que se plantava no Brasil, a cana-caiena, totalizando 86 espécies inexistentes no Brasil que foram remetidas a Belém, e de lá ao novo Jardim Botânico do Rio de Janeiro.
Neste dia também: Guerra de Biafra
A vinda da família real portuguesa ao Brasil em 1808, junto com toda a estrutura administrativa do Império Português, foi uma medida preventiva do príncipe regente João diante da iminente invasão francesa a Portugal. Embora manobrasse no campo diplomático, as relações indissolúveis com a Inglaterra (João, preso aos ingleses por tratado, até cogitou com o rei George III que os dois países declarassem uma guerra de fantasia para evitar a hostilidade com a França) e a volatilidade com que Napoleão tratava aliados de ocasião convenceram o príncipe português de que o mais seguro seria mover a corte para um lugar onde não pudesse ser capturada - o Rio de Janeiro funcionava como capital do império, enquanto o general Junot marchava sobre a casca oca que era Portugal, impedindo efetivamente que o império inteiro caísse. Isso não significa que Don João, em seu santuário tropical, tenha se mantido alheio às Guerras Napoleônicas.
Como a guerra envolvesse as metrópoles de vastos impérios coloniais, como Portugal, Inglaterra, Espanha, Holanda, ela era travada também longe da Europa. Em 1802, Napoleão, então cônsul da França, enviou um exército para esmagar a Revolução Haitiana (onde ex-escravos conquistaram a independência do país), mas foi notavelmente derrotado. Os ingleses, que até 1808 adotavam uma postura passivo-agressiva diante da incapacidade de uma invasão por terra por parte dos franceses e buscava furar o Bloqueio Continental aqui e ali (o fluxo de comércio com os Estados Unidos e o Brasil anulavam os danos do bloqueio na Europa), na América investiram agressivamente contra as colônias francesas, procurando estrangular o império napoleônico e, ao mesmo tempo, assimilar novas possessões. Na América do Norte, onde os britânicos eram senhores de quase tudo que hoje é o Canadá e os franceses tinham controle sobre o Quebec e uma enorme faixa de terra a oeste do Mississipi (a colônia da Louisiania, que recuperaram das mãos dos espanhóis por meio de um tratado em 1800 e que venderam amigavelmente aos Estados Unidos para levantar fundos para a guerra). Ali, ambos os lados, quando se viam incapazes de guerrear com seus próprios exércitos, armavam tribos nativas para que pudessem atacar fortes e colônias e fustigar o inimigo. Os Estados Unidos tentavam se manter alheios, mas conforme a guerra prosseguia, eles se viam mais envolvidos, até entrar em guerra aberta com o Canadá britânico por questões de fronteira em 1812.
As principais bases de operação de Napoleão no oeste do Atlântico eram os portos fortificados no Caribe, mantidos em cheque pela superioridade naval da marinha britânica. Na América do Sul, a presença francesa estava na Guiana, "pequena" faixa de terra ao norte da Bacia Amazônica usada basicamente para o cultivo de cana-de-açúcar ("pequena" em relação ao Brasil, pois possui cerca de 15% da extensão territorial da França continental). Caiena, sua capital situada na costa, era uma dessas cidades fortificadas onde navios da marinha francesa, piratas e corsários poderiam encontrar acolhida.
A Inglaterra precisaria suprimir o controle francês sobre esse ponto se quisesse assegurar suas rotas comerciais com a América. A crise causada pela interferência britânica nas colônias francesas no Caribe fizeram com que vários de seus governadores enviassem à França pedidos de socorro, então os ingleses sabiam que era a hora de atacar. Contudo, com grande parte da sua marinha comprometida com a patrulha do litoral norte-americano e Caribe, além dos navios empregados na proteção do território na Europa, os ingleses apelaram para seu único aliado incondicional que poderia agir na América do Sul: Portugal.
A França invadira Portugal em 1808 e tomara Lisboa apenas dois dias depois da família real ter zarpado. O general Junot ainda podia ver os últimos navios da esquadra portuguesa sumindo no horizonte. Isso frustrou os planos de depor a rainha e coroar algum títere, como Napoleão vinha fazendo em outras partes da Europa. A própria ocupação do território português, embora tenha sido invadido praticamente sem resistência, ficou impossibilitada porque os camponeses no caminho de Junot foram removidos de suas propriedades e tudo que podia ser aproveitado pelo invasor fora queimado. Também havia resistência no campo e nas cidades, de maneira que a ocupação francesa nunca chegou a ser tranquila. Mesmo a Espanha, sua aliada, não permaneceria colaboracionista por muito tempo.
João, que partira de sua terra com enorme pesar, tomava providências para que a nova capital, no Rio de Janeiro, tivesse condições de proteger a coroa em caso de uma improvável invasão francesa, ou, ao menos, pudesse assegurar uma autonomia quanto ao acesso a recursos estratégicos caso as rotas oceânicas fossem bloqueadas. Entre suas providências, ordenou o estabelecimento de toda a cadeia de produção de pólvora, e a fundação de um jardim de aclimatação para o cultivo de especiarias, o atual Jardim Botânico do Rio de Janeiro.
A marinha portuguesa no Brasil era tímida; apenas quatro naus haviam deixado Portugal junto com a família real, e os navios aqui eram apenas usados para patrulha e transporte, muito poucos aptos para a guerra. Porém, como a Inglaterra também estava limitada, o almirante Sidney Smith solicitou ao governo português o envio dos navios de que podia dispor para atacar Caiena. Dom João viu ali uma oportunidade (e os ingleses sabiam que veria) de não apenas fustigar a França, mas também de jogar para a mesa de negociações a questão da fronteira entre a Guiana Francesa e aquela parte do Grão-Pará que seria conhecida em tempos coloniais como Guiana Brasileira (ou Portuguesa), e que hoje constitui o estado do Amapá: desde fins do século XVIII, a França conseguira, através de tratados, avançar a fronteira da Guiana para além do rio Oiapoque, tomando o que hoje é o oeste e o norte do Amapá. Portugal pretendia recuperar essas terras e firmar a fronteira ao longo do Oiapoque.
Dom João respondeu mobilizando quatro naus: o Voador, o Vingança (as duas embarcações munidas de canhões, sendo que a última tinha no seu histórico a captura de um navio pirata a serviço da França em 1801), o Infante Dom Pedro, e o Leão, carregando 550 soldados sob comando do tenente-coronel Manuel Marques. Eles comporiam uma esquadra sob o comando do almirante James Lucas Yeo. A esquadra partiu de Belém no começo de dezembro de 1808, e ainda naquele mês bombardeou as colônias costeiras de Oiapoque e Aprouague.
No dia 6 de janeiro de 1809, diante das fortificações de Caiena, o almirante Yeo optou por atacar por terra ancoradouros ao longo do rio Maruhy para atrair soldados franceses para uma batalha campal. Ingleses e portugueses no primeiro momento tomaram duas fortificações e renderam cerca de 90 soldados dos 450 que guardavam a cidade. À medida em que os invasores avançavam, tomando mais fortes ao longo do Maruhy, o governador de Caiena, Victor Hugues respondia de maneira desastrada, sem conhecimento da posição ou do tamanho do inimigo, ora oferecendo combate em desvantagem, ora superestimando e recuando diante de forças bem menores. No dia 9, o almirante Yeo liderou pessoalmente o ataque à residência do governador, e iniciou a marcha para a cidade propriamente dita. No dia 12, Hugues assinou sua rendição. Dezessete soldados morreram nos confrontos, apenas um deles do lado anglo-português.
A entrada das tropas na cidade estava programada para o dia 14, mas no dia 13, uma enorme fragata francesa, o Topaze, se aproximou do porto. Desfalcada do Infante Dom Pedro, a esquadra anglo-portuguesa só dispunha da canhoneira britânica Confiance em posição de defesa, porém com metade da capacidade de fogo e sem tripulação. Se o Topaze, com seus canhões e um reforço para a guarnição local aportasse, a operação seria um fracasso. O capitão do navio, George Yeo, irmão do almirante, rapidamente contratou negros libertos locais para tripular o navio e manobrá-lo audaciosamente para uma posição de combate. Como o Topaze estivesse carregando mais de mil barris de farinha, seu capitão recebera ordens de evitar combate se isso pusesse a carga em risco. Então ele deu meia volta e sumiu no horizonte - o Topaze foi afundado dez dias depois num confronto com ingleses perto da ilha de Guadalupe.
No dia 14, enfim, a cidade abriu os portões e se rendeu. Soldados foram presos e armas apreendidas, e a administração entregue por Hughes e Yeo ao Marquês de Queluz. Ao invés de integrada à colônia do Brasil, foi criada ali a colônia de Caiena e Guiana. A colônia existiu sob controle português até 1815, quando os termos da sua devolução e o estabelecimento da fronteira ao longo do Oiapoque foram acertados entre o rei Luis XVIII e o príncipe regente no Congresso de Viena. Apenas em 1817 uma delegação francesa chegou a Caiena para tomar posse da colônia.
A breve presença portuguesa na Guiana Francesa, além de resultar no estabelecimento da fronteira entre o território e o Brasil, teve como consequência curiosa o enriquecimento dos jardins botânicos no Brasil. Os franceses haviam investido no plantio de especiarias na Guiana, e perto de Caiena havia um complexo de jardins de plantas de interesse econômico e estratégico. De posse desses jardins, os portugueses providenciaram o transporte de mudas e sementes de craveiros, caneleiras, pimenteiras, palmeiras, noz-moscada, frutas-pão, abacateiros, além de uma variedade de cana-de-açúcar local superior à que se plantava no Brasil, a cana-caiena, totalizando 86 espécies inexistentes no Brasil que foram remetidas a Belém, e de lá ao novo Jardim Botânico do Rio de Janeiro.
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sexta-feira, 25 de setembro de 2015
O Açougueiro de Lyon
Em 25 de setembro de 1991, faleceu de leucemia Nikolaus "Klaus" Barbie, ex-agente da Gestapo e ex-colaborador da CIA, enquanto servia uma sentença de prisão perpétua em Lyon, na França.
Klaus Barbie era filho de um ex-combatente da Primeira Guerra Mundial, também chamado Nikolaus. Aparentemente, os combates na França, os ferimentos e a prisão do velho Nikolaus o deixaram transtornado, tornando-o violento e abusivo. Ele também era professor da escola onde estudava o jovem Klaus, submetendo-o a constrangimentos em público. Isso não está documentado, mas é possível que, inconscientemente, a imagem do pai transformado pela guerra na França tenha conduzido Klaus pelo caminho que o levou à chefia de inteligência da Gestapo em Lyon, e seus atos contra a resistência francesa (os Barbie aparentemente descendem de imigrantes franceses fugidos da Revolução).
Antes da guerra, depois de abandonar os estudos e desempregado, Klaus Barbie foi recrutado para trabalhar para o Partido Nazista, numa espécie de serviço civil compulsório (o Reichsarbeitsdienst), de onde, devidamente treinados na doutrina nazista, os jovens eram então enviados para servir nas forças armadas, até então um reduto tradicionalmente conservador e apartidário. Barbie acabaria se alistando no serviço de inteligência do partido vinculado à Gestapo, a SD, onde receberia treinamento de interrogatório, e, finalmente filiando-se ao Partido Nazista.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Barbie atuou na Holanda, localizando e prendendo judeus, maçons e emigrantes alemães (a maior parte procurada por crimes políticos). Um incidente entre um nazista holandês e um trabalhador do porto levou a SD a fazer uma operação de busca e apreensão no setor judeu de Amsterdam, resultando na prisão de 425 judeus. Barbie ficou encarregado da operação e dos interrogatórios conduzidos à base de torturas físicas. 389 deles foram enviados ao campo de concentração de Buchenwald (o destino dos restantes é nebuloso, podem ter sido soltos, ou podem nunca ter saído com vida de suas celas). Após um ataque da resistência holandesa a um clube de oficiais, Barbie jurou que os judeus pagariam por aquilo: ele foi ao Concelho Judaico de Amsterdam e convenceu os diretores a lhe fornecerem uma lista de 300 nomes de jovens judeus, com o pretexto de reuni-los e encaminhá-los para completar sua formação profissional. Todos os 300 foram presos e enviados ao campo de Concentração de Mauthausen, onde morreram meses depois. Um preso levou um tiro na cabeça ao pedir para ouvir música americana.
A Holanda e a França foram conquistadas por braços de uma operação conjunta, que se enraizavam num núcleo administrativo comum. Assim, Barbie foi realocado para o front francês em 1942. O norte da França acabara de cair sob domínio alemão, e a SD montou uma base de operações em Lyon, com o objetivo novamente de localizar e prender judeus, comunistas, e pessoas envolvidas na Resistência Francesa, guerrilha que impedia o avanço nazista mais ao sul. Em Lyon, operando no Hotel Terminus e na École de Sante Militaire, Barbie, aos 29 anos, chefiava um núcleo com 25 oficiais sob suas ordens.
Seu primeiro troféu foi a captura de Jean Moulin, um dos principais líderes da Resistência, em 1943. Barbie o espancou até cansar, colocou agulhas incandescentes sob suas unhas e fechou uma porta em seus dedos até se quebrarem todos. Seus punhos foram amarrados com correntes que eram apertadas até penetrarem na sua carne e quebrarem seus ossos. Quando o barbeiro da prisão foi cortar o seu cabelo, encontrou Moulin estirado num banco, semi-morto, com o rosto transformado em uma massa ensanguentada (perturbado, o barbeiro tomou o maior cuidado possível para fazer seu serviço sem tocar nas suas feridas). Morreu dias depois. Pela prisão de Jean Moulin, Barbie recebeu uma condecoração de Hitler.
Raymond Aubrac foi preso com outros sete membros da Resistência, mas sobreviveu às sessões de tortura de Barbie. O que o deixava mais confuso é que Barbie não fazia perguntas, nem sequer perguntara seu nome ou se era judeu, apenas o surrava incansavelmente com uma variedade de métodos e instrumentos. Aubrac foi salvo por uma operação de resgate liderada por Lucile, sua esposa grávida de seis meses. Alegando que a justiça francesa dava direito a um condenado à morte de contrair matrimônio na prisão com uma mulher que estivesse esperando filho seu, ela conseguiu entrar na prisão e alertar Raymond do ataque que seria feito ao caminhão que o transportaria para fora dali. Ela mesma conduziu a emboscada, que matou 5 oficiais e libertou 13 presos.
Outra vítima foi Lisa Lesevre, presa por supostamente conhecer um certo "Didier", membro da Resistência expecialista em cartas-bomba. Por dezenove dias ela foi torturada com castigos físicos enquanto estava acorrentada ao teto pelos pulsos por Barbie e quatro assistentes, inclusive um certo Gueule Tordue ("Boca Torta"), um homem corpulento e com a cabeça deformada por um acidente de carro digno de um filme de terror. Toda vez que ela desfalecia, um médico a reanimava, e ela encontrava seus torturadores bebendo e rindo, como se nada tivesse acontecido. E as torturas recomeçavam. Em certo momento, foi despida, acorrentada pelas pernas e mergulhada numa banheira de água gelada, e enquanto não falasse, a corrente era puxada e ela ficava presa debaixo d'água apenas tempo suficiente para não morrer afogada. Quando era deixada de lado, era forçada a assistir à tortura de outros presos, ou ver seus cadáveres (Barbie virava seus rostos para talvez tentar reconhecer algum judeu, e depois os esmagava com o salto de sua bota). Nos últimos dias, Lasevere foi amarrada no chão de bruços, enquanto Gueule Tordue (ou, segundo ela mesma dava a entender, o próprio Barbie) a golpeava com um mangual (uma bola de metal com espinhos preso a um bastão por uma corrente) até quebrar a sua espinha. Quando ela despertou mais uma vez, Barbie a felicitou por ter resistido tanto, "... mas no final, todo mundo fala.". Como ela resistia, a mandou para a execução em outra localidade. Ela acabou sendo levada por engano ao campo de concentração de Ravensbruck, de onde foi resgatada com vida no fim da guerra. Seu marido e seu filho adolescente, que não eram judeus ou comunistas, foram mortos em campos de concentração. Lasevere nunca denunciou a identidade de "Didier".
Simone LaGrange foi capturada com seus pais exatamente no dia D e trazida à presença de Barbie. Ele acariciava um gato em seu colo, e cumprimentou cada um dos LaGrange educadamente, dando um puxão carinhoso na bochecha de Simone. Sua mãe contou a Barbie que ela ainda tinha dois outros filhos, mas não sabia onde estavam. Então, ainda segurando o gato, ele golpeou a menina na frente dos pais, e ordenou a prisão dos três em celas separadas. Ele pessoalmente torturava cada um deles. Simone foi jogada no chão, esmurrada e chutada repetidamente (e nos sete dias seguintes, chutada nos lugares onde haviam feridas abertas), até entregar a identidade dos irmãos. Depois foi devolvida à mãe ("Isto é o que a senhora fez à sua filha"). A família LaGrange foi enviada a campos de concentração. Simone foi a única a sobreviver após um ano de trabalhos forçados - sua mãe foi morta numa câmara de gás, e o pai morto por um soldado com um tiro na cabeça bem à sua frente.
Outra vítima fatal, porém não confirmada por documentos oficiais, teria sido a de um líder da Resistência em Lyon, surrado, esfolado vivo e a cabeça descarnada mergulhada num balde de amônia. Morreu minutos depois.
Antes do desembarque aliado na Normandia e do abandono das bases nazistas na França, Klaus Barbie localizou um orfanato em Izieu que abrigava 44 crianças judias de 3 a 14 anos. Em carta ao quartel-general da Gestapo em Paris, Barbie escreveu que todas as crianças e os funcionários do orfanato (dez no total) foram presos, depois deportados para Auschwitz. Com a evacuação de Lyon, Barbie foi realocado para o front ocidental, mas fugiu dos combates de volta para a Alemanha. Escondido, ocultou sua identidade e se tornou um mendigo errante pelas estradas até ser preso e identificado por uma patrulha americana perto de Hohenlimburg.
Neste momento, o leitor mais otimista, acostumado com o destino dos vilões dos filmes, esperaria que Klaus Barbie fosse finalmente conduzido a julgamento e recebido punição condizente por seus crimes. Mas a História às vezes segue por caminhos sinistros.
Com o fim da Guerra e o avanço soviético sobre a Europa Oriental e parte da Alemanha, os Estados Unidos e o Reino Unido temiam que o comunismo se propagasse pela Europa Ocidental, especialmente na França, então sob controle da Resistência. Decididos a sabotar a ação de células comunistas, os americanos constituíram uma agência de contrainteligência (o CIC) para identificar seus membros. Um dos agentes contratados pela sua experiência em espionar comunistas na França, e que vinha trabalhando desde 1946 a serviço dos britânicos nessa função, foi ninguém menos que Klaus Barbie.
Não é o caso de Barbie estar usando uma identidade falsa, ou não ser suficientemente conhecido e contratado oportunamente sob disfarce, ou não se soubesse do que havia feito a serviço dos nazistas. Ele era bem conhecido, e os antigos Aliados sabiam de quem se tratava, da sua capacidade de trabalho e dos seus métodos. Outros nazistas que espionavam atividades comunistas, como Alois Brunner e Reinhard Gehlen, também trabalharam para o CIC. Tanto que a justiça francesa já o havia condenado à morte por uma série de crimes já confirmados in absentia. Quando os franceses o descobriram em 1950, a CIA providenciou a sua fuga para a Bolívia, possivelmente com a colaboração da mesma rede de ex-nazistas que ajudou nazistas notórios a fugirem no anonimato, como o próprio Brunner (foragido e possivelmente morto na Síria), Josef Mengele, Gustav Wagner e Aribert Heim (também foragido). Tendo permanecido oculto no país sob proteção da CIA (usava o nome de "Klaus Altmann"), foi contratado sob o codinome "Adler" pelo próprio serviço secreto da Alemanha Ocidental nos anos 1960 para espionar comunistas no exterior. Mesmo enquanto não estava em serviço, a identidade de Barbie era protegida para evitar o constrangimento para os Estados Unidos de tê-lo recrutado em algum momento, e Barbie capitalizou sobre esta situação.
Em 1964 um golpe militar apoiado pela CIA colocou no poder alguns nomes com quem Barbie havia estabelecido boas relações. A Bolívia havia passado por uma década de grandes reformas de tendência socialista (uma ampla reforma agrária e a nacionalização de minas de estanho), e o novo regime conservador as paralisou completamente. A aura "imperialista" sobre a Bolívia atraiu a atenção do guerrilheiro Ernesto "Che" Guevara. Che já havia se afastado da Revolução Cubana, e falhou em organizar uma milícia socialista no Congo. Na Bolívia, sob o pseudônimo de Adolfo Mena González, conseguiu arregimentar 69 guerrilheiros para iniciar um movimento para a derrubada do atual regime. A CIA realizou operações conjuntas com o governo boliviano para eliminar a guerrilha, mas Che continuava evasivo. Klaus Barbie, com sua experiência de inteligência contra-guerrilha, então entrou em ação para localizá-lo e organizar a caçada que resultou na sua morte, em 1967. "Este pobre homem", teria dito, "não teria sobrevivido se tivesse lutado na Segunda Guerra Mundial."
Enquanto isso, judeus sobreviventes da Guerra e filhos de vítimas do nazismo se organizavam em diferentes grupos de "caçadores de nazistas", levantando informações que levavam à localização de oficiais nazistas foragidos pelo mundo. Em 1971 surgiram indícios de que Barbie estava na Bolívia, e em 1973 ele escapou de uma tentativa de sequestro por antigos companheiros de Che, que pretendiam entregá-lo às autoridades chilenas, e de lá para a França (o grupo foi localizado e morto antes por forças bolivianas). Em 1980 ele teria tomado parte no golpe militar que levou o general Garcia Meza ao poder (num golpe apelidado posteriormente de "Golpe da Cocaína", porque teria sido financiado com dinheiro do tráfico de drogas). Barbie teria recrutado companheiros da Gestapo como mercenários a serviço da junta militar. Com o fracasso do golpe e o enfraquecimento do poder dos militares bolivianos, Siles Suazo, cujo partido havia obtido maioria antes do golpe de 1980 e esperava-se que assumisse a presidência então, foi efetivado em 1983. Sabendo das atividades de Barbie, mandou prendê-lo e extraditá-lo para a França.
Barbie (apresentando-se como Altmann) foi levado a julgamento em Lyon, certo de que, como Klaus Altmann, não haveria como provar as acusações de crimes de guerra. Mas as acareações com suas vítimas, como LaGrange, Aubrac, Lesevre (que obteve licença da côrte para testemunhar sentada devido à lesão na coluna, mas, aos 86 anos, fez questão de fazê-lo de pé), e outros, confirmaram sua identidade. Em 1987, aos 74 anos, foi considerado culpado em 341 acusações, e condenado à prisão perpétua. Estima-se que, pelas suas mãos ou por ordens diretas suas, algo entre 4 mil a 14 mil pessoas tenham sido mortas.
Se não fossem os caçadores de nazistas franceses desencadeando o processo, é possível que Klaus Barbie tivesse tido uma velhice tranquila, e talvez fosse lembrado (como Klaus Altmann) como um herói da civilização ocidental. Não como o "Açougueiro de Lyon".
Klaus Barbie era filho de um ex-combatente da Primeira Guerra Mundial, também chamado Nikolaus. Aparentemente, os combates na França, os ferimentos e a prisão do velho Nikolaus o deixaram transtornado, tornando-o violento e abusivo. Ele também era professor da escola onde estudava o jovem Klaus, submetendo-o a constrangimentos em público. Isso não está documentado, mas é possível que, inconscientemente, a imagem do pai transformado pela guerra na França tenha conduzido Klaus pelo caminho que o levou à chefia de inteligência da Gestapo em Lyon, e seus atos contra a resistência francesa (os Barbie aparentemente descendem de imigrantes franceses fugidos da Revolução).
Antes da guerra, depois de abandonar os estudos e desempregado, Klaus Barbie foi recrutado para trabalhar para o Partido Nazista, numa espécie de serviço civil compulsório (o Reichsarbeitsdienst), de onde, devidamente treinados na doutrina nazista, os jovens eram então enviados para servir nas forças armadas, até então um reduto tradicionalmente conservador e apartidário. Barbie acabaria se alistando no serviço de inteligência do partido vinculado à Gestapo, a SD, onde receberia treinamento de interrogatório, e, finalmente filiando-se ao Partido Nazista.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Barbie atuou na Holanda, localizando e prendendo judeus, maçons e emigrantes alemães (a maior parte procurada por crimes políticos). Um incidente entre um nazista holandês e um trabalhador do porto levou a SD a fazer uma operação de busca e apreensão no setor judeu de Amsterdam, resultando na prisão de 425 judeus. Barbie ficou encarregado da operação e dos interrogatórios conduzidos à base de torturas físicas. 389 deles foram enviados ao campo de concentração de Buchenwald (o destino dos restantes é nebuloso, podem ter sido soltos, ou podem nunca ter saído com vida de suas celas). Após um ataque da resistência holandesa a um clube de oficiais, Barbie jurou que os judeus pagariam por aquilo: ele foi ao Concelho Judaico de Amsterdam e convenceu os diretores a lhe fornecerem uma lista de 300 nomes de jovens judeus, com o pretexto de reuni-los e encaminhá-los para completar sua formação profissional. Todos os 300 foram presos e enviados ao campo de Concentração de Mauthausen, onde morreram meses depois. Um preso levou um tiro na cabeça ao pedir para ouvir música americana.
A Holanda e a França foram conquistadas por braços de uma operação conjunta, que se enraizavam num núcleo administrativo comum. Assim, Barbie foi realocado para o front francês em 1942. O norte da França acabara de cair sob domínio alemão, e a SD montou uma base de operações em Lyon, com o objetivo novamente de localizar e prender judeus, comunistas, e pessoas envolvidas na Resistência Francesa, guerrilha que impedia o avanço nazista mais ao sul. Em Lyon, operando no Hotel Terminus e na École de Sante Militaire, Barbie, aos 29 anos, chefiava um núcleo com 25 oficiais sob suas ordens.
Seu primeiro troféu foi a captura de Jean Moulin, um dos principais líderes da Resistência, em 1943. Barbie o espancou até cansar, colocou agulhas incandescentes sob suas unhas e fechou uma porta em seus dedos até se quebrarem todos. Seus punhos foram amarrados com correntes que eram apertadas até penetrarem na sua carne e quebrarem seus ossos. Quando o barbeiro da prisão foi cortar o seu cabelo, encontrou Moulin estirado num banco, semi-morto, com o rosto transformado em uma massa ensanguentada (perturbado, o barbeiro tomou o maior cuidado possível para fazer seu serviço sem tocar nas suas feridas). Morreu dias depois. Pela prisão de Jean Moulin, Barbie recebeu uma condecoração de Hitler.
Raymond Aubrac foi preso com outros sete membros da Resistência, mas sobreviveu às sessões de tortura de Barbie. O que o deixava mais confuso é que Barbie não fazia perguntas, nem sequer perguntara seu nome ou se era judeu, apenas o surrava incansavelmente com uma variedade de métodos e instrumentos. Aubrac foi salvo por uma operação de resgate liderada por Lucile, sua esposa grávida de seis meses. Alegando que a justiça francesa dava direito a um condenado à morte de contrair matrimônio na prisão com uma mulher que estivesse esperando filho seu, ela conseguiu entrar na prisão e alertar Raymond do ataque que seria feito ao caminhão que o transportaria para fora dali. Ela mesma conduziu a emboscada, que matou 5 oficiais e libertou 13 presos.
Outra vítima foi Lisa Lesevre, presa por supostamente conhecer um certo "Didier", membro da Resistência expecialista em cartas-bomba. Por dezenove dias ela foi torturada com castigos físicos enquanto estava acorrentada ao teto pelos pulsos por Barbie e quatro assistentes, inclusive um certo Gueule Tordue ("Boca Torta"), um homem corpulento e com a cabeça deformada por um acidente de carro digno de um filme de terror. Toda vez que ela desfalecia, um médico a reanimava, e ela encontrava seus torturadores bebendo e rindo, como se nada tivesse acontecido. E as torturas recomeçavam. Em certo momento, foi despida, acorrentada pelas pernas e mergulhada numa banheira de água gelada, e enquanto não falasse, a corrente era puxada e ela ficava presa debaixo d'água apenas tempo suficiente para não morrer afogada. Quando era deixada de lado, era forçada a assistir à tortura de outros presos, ou ver seus cadáveres (Barbie virava seus rostos para talvez tentar reconhecer algum judeu, e depois os esmagava com o salto de sua bota). Nos últimos dias, Lasevere foi amarrada no chão de bruços, enquanto Gueule Tordue (ou, segundo ela mesma dava a entender, o próprio Barbie) a golpeava com um mangual (uma bola de metal com espinhos preso a um bastão por uma corrente) até quebrar a sua espinha. Quando ela despertou mais uma vez, Barbie a felicitou por ter resistido tanto, "... mas no final, todo mundo fala.". Como ela resistia, a mandou para a execução em outra localidade. Ela acabou sendo levada por engano ao campo de concentração de Ravensbruck, de onde foi resgatada com vida no fim da guerra. Seu marido e seu filho adolescente, que não eram judeus ou comunistas, foram mortos em campos de concentração. Lasevere nunca denunciou a identidade de "Didier".
Simone LaGrange foi capturada com seus pais exatamente no dia D e trazida à presença de Barbie. Ele acariciava um gato em seu colo, e cumprimentou cada um dos LaGrange educadamente, dando um puxão carinhoso na bochecha de Simone. Sua mãe contou a Barbie que ela ainda tinha dois outros filhos, mas não sabia onde estavam. Então, ainda segurando o gato, ele golpeou a menina na frente dos pais, e ordenou a prisão dos três em celas separadas. Ele pessoalmente torturava cada um deles. Simone foi jogada no chão, esmurrada e chutada repetidamente (e nos sete dias seguintes, chutada nos lugares onde haviam feridas abertas), até entregar a identidade dos irmãos. Depois foi devolvida à mãe ("Isto é o que a senhora fez à sua filha"). A família LaGrange foi enviada a campos de concentração. Simone foi a única a sobreviver após um ano de trabalhos forçados - sua mãe foi morta numa câmara de gás, e o pai morto por um soldado com um tiro na cabeça bem à sua frente.
Outra vítima fatal, porém não confirmada por documentos oficiais, teria sido a de um líder da Resistência em Lyon, surrado, esfolado vivo e a cabeça descarnada mergulhada num balde de amônia. Morreu minutos depois.
Antes do desembarque aliado na Normandia e do abandono das bases nazistas na França, Klaus Barbie localizou um orfanato em Izieu que abrigava 44 crianças judias de 3 a 14 anos. Em carta ao quartel-general da Gestapo em Paris, Barbie escreveu que todas as crianças e os funcionários do orfanato (dez no total) foram presos, depois deportados para Auschwitz. Com a evacuação de Lyon, Barbie foi realocado para o front ocidental, mas fugiu dos combates de volta para a Alemanha. Escondido, ocultou sua identidade e se tornou um mendigo errante pelas estradas até ser preso e identificado por uma patrulha americana perto de Hohenlimburg.
Neste momento, o leitor mais otimista, acostumado com o destino dos vilões dos filmes, esperaria que Klaus Barbie fosse finalmente conduzido a julgamento e recebido punição condizente por seus crimes. Mas a História às vezes segue por caminhos sinistros.
Com o fim da Guerra e o avanço soviético sobre a Europa Oriental e parte da Alemanha, os Estados Unidos e o Reino Unido temiam que o comunismo se propagasse pela Europa Ocidental, especialmente na França, então sob controle da Resistência. Decididos a sabotar a ação de células comunistas, os americanos constituíram uma agência de contrainteligência (o CIC) para identificar seus membros. Um dos agentes contratados pela sua experiência em espionar comunistas na França, e que vinha trabalhando desde 1946 a serviço dos britânicos nessa função, foi ninguém menos que Klaus Barbie.
Não é o caso de Barbie estar usando uma identidade falsa, ou não ser suficientemente conhecido e contratado oportunamente sob disfarce, ou não se soubesse do que havia feito a serviço dos nazistas. Ele era bem conhecido, e os antigos Aliados sabiam de quem se tratava, da sua capacidade de trabalho e dos seus métodos. Outros nazistas que espionavam atividades comunistas, como Alois Brunner e Reinhard Gehlen, também trabalharam para o CIC. Tanto que a justiça francesa já o havia condenado à morte por uma série de crimes já confirmados in absentia. Quando os franceses o descobriram em 1950, a CIA providenciou a sua fuga para a Bolívia, possivelmente com a colaboração da mesma rede de ex-nazistas que ajudou nazistas notórios a fugirem no anonimato, como o próprio Brunner (foragido e possivelmente morto na Síria), Josef Mengele, Gustav Wagner e Aribert Heim (também foragido). Tendo permanecido oculto no país sob proteção da CIA (usava o nome de "Klaus Altmann"), foi contratado sob o codinome "Adler" pelo próprio serviço secreto da Alemanha Ocidental nos anos 1960 para espionar comunistas no exterior. Mesmo enquanto não estava em serviço, a identidade de Barbie era protegida para evitar o constrangimento para os Estados Unidos de tê-lo recrutado em algum momento, e Barbie capitalizou sobre esta situação.
Em 1964 um golpe militar apoiado pela CIA colocou no poder alguns nomes com quem Barbie havia estabelecido boas relações. A Bolívia havia passado por uma década de grandes reformas de tendência socialista (uma ampla reforma agrária e a nacionalização de minas de estanho), e o novo regime conservador as paralisou completamente. A aura "imperialista" sobre a Bolívia atraiu a atenção do guerrilheiro Ernesto "Che" Guevara. Che já havia se afastado da Revolução Cubana, e falhou em organizar uma milícia socialista no Congo. Na Bolívia, sob o pseudônimo de Adolfo Mena González, conseguiu arregimentar 69 guerrilheiros para iniciar um movimento para a derrubada do atual regime. A CIA realizou operações conjuntas com o governo boliviano para eliminar a guerrilha, mas Che continuava evasivo. Klaus Barbie, com sua experiência de inteligência contra-guerrilha, então entrou em ação para localizá-lo e organizar a caçada que resultou na sua morte, em 1967. "Este pobre homem", teria dito, "não teria sobrevivido se tivesse lutado na Segunda Guerra Mundial."
Enquanto isso, judeus sobreviventes da Guerra e filhos de vítimas do nazismo se organizavam em diferentes grupos de "caçadores de nazistas", levantando informações que levavam à localização de oficiais nazistas foragidos pelo mundo. Em 1971 surgiram indícios de que Barbie estava na Bolívia, e em 1973 ele escapou de uma tentativa de sequestro por antigos companheiros de Che, que pretendiam entregá-lo às autoridades chilenas, e de lá para a França (o grupo foi localizado e morto antes por forças bolivianas). Em 1980 ele teria tomado parte no golpe militar que levou o general Garcia Meza ao poder (num golpe apelidado posteriormente de "Golpe da Cocaína", porque teria sido financiado com dinheiro do tráfico de drogas). Barbie teria recrutado companheiros da Gestapo como mercenários a serviço da junta militar. Com o fracasso do golpe e o enfraquecimento do poder dos militares bolivianos, Siles Suazo, cujo partido havia obtido maioria antes do golpe de 1980 e esperava-se que assumisse a presidência então, foi efetivado em 1983. Sabendo das atividades de Barbie, mandou prendê-lo e extraditá-lo para a França.
Barbie (apresentando-se como Altmann) foi levado a julgamento em Lyon, certo de que, como Klaus Altmann, não haveria como provar as acusações de crimes de guerra. Mas as acareações com suas vítimas, como LaGrange, Aubrac, Lesevre (que obteve licença da côrte para testemunhar sentada devido à lesão na coluna, mas, aos 86 anos, fez questão de fazê-lo de pé), e outros, confirmaram sua identidade. Em 1987, aos 74 anos, foi considerado culpado em 341 acusações, e condenado à prisão perpétua. Estima-se que, pelas suas mãos ou por ordens diretas suas, algo entre 4 mil a 14 mil pessoas tenham sido mortas.
Se não fossem os caçadores de nazistas franceses desencadeando o processo, é possível que Klaus Barbie tivesse tido uma velhice tranquila, e talvez fosse lembrado (como Klaus Altmann) como um herói da civilização ocidental. Não como o "Açougueiro de Lyon".
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
Terra arrasada
Em 16 de setembro de 1812 Moscou ardia em chamas, num incêndio que destruiria 80% da cidade, mas que, de certa forma, salvaria toda a Rússia das garras de Napoleão.
A invasão da Rússia, iniciada em junho daquele ano, tinha um objetivo bem específico: Napoleão pretendia pressionar o Czar Alexandre I a desistir do comércio com a Inglaterra, estrangulando a economia do seu principal rival. A França já estava desde 1806 apertando o cinto dos ingleses com o Bloqueio Continental, onde as nações europeias se viam compelidas a não negociar com ingleses, sob ameaça de intervenção militar. Era assim que Napoleão via a possibilidade de arruinar a Inglaterra, uma nação insular e militarmente poderosa, praticamente impossível de ser tomada por uma invasão pelo mar naquele momento. Não obstante, a Rússia continuava a realizar comércio regular com a Inglaterra.
Em 1809, Napoleão tinha o governo efetivo da França, da Bélgica e de 1/4 da Itália (onde foi coroado cerimonialmente com a Coroa de Ferro da Lombardia), e mantinha sob controle, ou pela indicação de parentes seus como governantes, ou por alianças firmadas por interesse ou sob ameaça, quase toda a Europa Ocidental e Central, com exceção de Portugal (cuja aliança com a Inglaterra, especificamente, existe até hoje, e é a aliança entre dois países mais antiga ainda em vigência) e dos reinos independentes da Sicília e da Sardenha. Fora do seu alcance estavam os Bálcãs, sob domínio otomano, e a Rússia. A guerra contra a Inglaterra pela supremacia econômica do continente se espalhou para as colônias na África e na América.
Na Europa, a série de conquistas iniciada em 1803 só viu resistência na desgastante Guerra Peninsular, travada na Espanha apoiada pela Inglaterra e reforçada por portugueses, que resultou numa vitória custosa para Napoleão. Seus aliados já não eram tão leais, e sua popularidade na França vinha em queda, e mesmo com o continente quase todo sob controle, seu inimigo direto continuava a prosperar graças às colônias na América, na Ásia e na África subsaariana. De fato, a Inglaterra só sentiria um impacto significativo na sua economia com o fim das relações com os Estados Unidos na Guerra de 1812.
O Embargo Continental não estava se mostrando eficiente. E em alguns lugares, como na Holanda e em algumas cidades portuárias na própria França, a ausência de agentes comerciais britânicos esfriaram a economia (a crise holandesa foi particularmente forte, e o país só se manteve sob controle porque Napoleão nomeara seu irmão Luis Bonaparte como rei). A indústria têxtil da Bélgica prosperou como nunca sem a concorrência inglesa, mas como os produtos ingleses eram produzidos a custos menores, o consumidor comum na Europa continental sentiu o aumento dos preços. A França não tinha condições práticas para impedir o tráfego de navios ingleses na maioria dos portos, impedir o contrabando no continente, nem de promover um bloqueio efetivo no Atlântico. Mesmo Portugal, que se colocou fora do alcance francês transferindo toda a sua administração imperial para o Brasil (e que a França não conseguiu abocanhar com a Guerra Peninsular), continuou a ser um parceiro comercial dos ingleses na Europa sem grandes impedimentos. A ineficiência do Bloqueio ficou clara quando Napoleão abriu alguns portos ao comércio limitado com os britânicos em 1810.
Enquanto isso, a Rússia formalmente cooperava com Napoleão. As repetidas vitórias de Napoleão sobre a Áustria e a Prússia, em operação conjunta com os russos, persuadiram Alexandre I a se retirar da guerra em 1807. Era uma das forças políticas que pressionavam a Dinamarca (declarada neutra no primeiro momento das Guerras Napoleônicas) a ceder sua numerosa marinha para a França, e sua captura pelos ingleses levou os russos a irem à guerra contra seu antigo aliado. Em 1808, invadiu a Finlândia, na época pertencente à Suécia que se recusava a aderir ao Bloqueio Continental. Como o Bloqueio também não se revelou tão vantajoso para a Rússia, os russos começaram a fura-lo, aproveitando-se da rota marítima pelo Báltico assegurada pela captura, pelos britânicos, da marinha dinamarquesa. Em 1810, a Inglaterra tinha uma relação comercial bastante saudável com os russos, mesmo com o estado de guerra entre os dois países.
Existe uma linha bastante explorada que supõe que a saúde de Napoleão, naquela altura, já estava se deteriorando. Obeso e propenso a atitudes extravagantes, é possível que a sua saúde mental também estivesse em declínio, e isso poderia estar afetando as suas decisões. Ao saber que os russos não estavam respeitando o Bloqueio Continental, as relações entre Napoleão e Alexandre começaram a se deteriorar. Um dos pontos de conflito que ganharam mais ênfase na disputa diplomática que se seguiu foi a posse da Polônia, que ambos queriam como um Estado-satélite sob sua tutela (a França havia "libertado" a Polônia em 1807, então repartida entre Rússia, Prússia e Áustria, e se achava no direito de ditar a sua política). De fato, a Rússia assumiu uma postura agressiva, preparando uma invasão à Polônia depois de 1811. Napoleão reagiu com a invasão à Rússia, uma opção que a História mostrou fatal para a sua carreira, e à de outros aspirantes a conquistadores do continente.
Napoleão reuniu mais de 680 mil soldados do exército francês, reforçado por contingentes de todas as partes do seu império e aliados da ocasião, além de insuflar os poloneses com algum sentimento nacionalista, anunciando que a guerra viria novamente para sua terra, mas que, com sua ajuda, os franceses a levariam para os "agressores" russos. Da Espanha até a Polônia, Napoleão contava com uma infraestrutura de transporte e abastecimento que permitia o rápido deslocamento de um número enorme de soldados, equipamentos e suprimentos para o front. Ele esperava uma guerra de atrito a partir da fronteira ao longo do rio Niemen (que atravessou em Junho após uma última oferta de paz rechaçada pelos russos), e seus generais e suas tropas, veteranos de mais de uma década de guerras ininterruptas, estavam bem preparados para isso. Os russos, contudo, tinham seus próprios planos.
Tendo enfrentado o exército de Napoleão em batalha no passado, os russos entendiam a sua superioridade, e a vastidão do seu território tornava a sua defesa extremamente complicada. Num cenário como este, o agressor daria as cartas, e restaria aos russos tentar contra-atacar onde o inimigo pudesse ser achado, torcendo para que este, um passo à frente, não tenha tomado alguma posição estrategicamente crucial. A outra alternativa foi recuar. Recuar e devastar tudo atrás de si, para impedir que o inimigo se apossasse efetivamente do seu território. Isso havia sido feito com relativo sucesso por Vlad Tepes, contra uma invasão otomana na Transilvânia, e com notável êxito pelos portugueses na Guerra Peninsular.
Russos e franceses, nas primeiras semanas, se encontraram em batalha esporadicamente. Como não oferecessem muita resistência, os franceses avançavam rapidamente. Avançar muito rápido com um exército numeroso significa alongar demais as linhas de suprimentos, e atrasar o seu abastecimento. Em agosto, os russos encontraram um exército de 200 mil comandado por Napoleão em pessoa em Smolensk. Apesar de perdas equivalentes em ambos os lados, os russos bateram em retirada. Naquela altura, as tropas de Napoleão já racionavam comida e munição. Ao cruzar o Dnieper, os marechais russos ordenaram a destruição de tudo que pudesse servir ao inimigo: plantações e gado, florestas onde se pudesse obter madeira, casas ou qualquer lugar que pudesse servir de abrigo. A população era conduzida o mais rapidamente possível para o interior, e tudo que não pudesse ser carregado deveria ser destruído para não servir ao inimigo. A fortaleza de Smolensk, capturada pelos franceses, não lhes oferecia nada útil.
Os russos prosseguiram recuando e queimando tudo pelo caminho. A tática de terra arrasada pareceu aos franceses um caminho aberto e sem resistência ao coração da Rússia, e eles avançaram muito rapidamente. Napoleão em pessoa já havia tomado Vilnius, na Lituânia, nos primeiros dias de guerra, comprometendo o acesso da Rússia ao litoral báltico, e estava confiante de que sua marcha em direção a Moscou levaria a Rússia ao colapso. No entanto, como os franceses, na prática, não capturavam nada das terras por onde passavam, logo ficou evidente que, se não vencessem rapidamente a guerra, teriam que dar a meia volta, ou morrer de fome.
Logo em setembro os franceses alcançaram os arredores de Moscou. Uma batalha no dia 8 manteve os franceses estacionados na planície, dando tempo ao prefeito da cidade, seguindo orientações superiores, coordenar a sua evacuação. Aparentemente, foi ele quem planejou o incêndio: suas ordens eram de que tudo deveria ser incendiado, inclusive as igrejas. Quando os franceses entraram em Moscou, no dia 14, encontraram a cidade quase deserta e ardendo em chamas, ocupada apenas por estrangeiros residentes, servos, criminosos (as prisões foram deliberadamente abertas) e pessoas incapazes de fugir. No dia 15, Napoleão entrou no Kremlin, esperando que o ato simbólico de tomar controle da capital induzisse Alexandre a se render. De fato, como os russos abandonaram a cidade, as formalidades de guerra que os generais esperavam no ato de conquista de uma cidade importante - serem recebidos por representantes do governo local, que se encarregariam de abrigar e alimentar os soldados - não aconteceram, deixando Napoleão bastante desorientado. No dia 16, como o fogo se aproximasse do palácio, o Imperador foi removido às pressas para outro, na periferia da cidade, correndo temerariamente pela rua Arbat, que ardia dos dois lados. Em outubro, com suprimentos perigosamente escassos, sem sinal de que Alexandre se renderia nem da presença do exército russo, os franceses deixaram a cidade, planejando chegar à Polônia o mais rápido possível, antes do inverno.
Os russos haviam se retirado para o sul. Recebendo notícias de que Napoleão começara a se mover, os russos organizaram seus ataques a partir do sul, de maneira a orientar a marcha francesa pelo mesmo caminho até Smolensk, passando por centenas de quilômetros de terra arrasada novamente. Cavaleiros cossacos atacavam com rapidez quebrando a linha de marcha e dispersando unidades do corpo principal do exército. Os cavalos franceses, sem pasto, começaram a morrer de fome, e os que ainda resistiam eram mortos para alimentar os soldados, efetivamente dissolvendo o seu corpo de cavalaria. As carroças puxadas pelos animais, com armas, equipamentos, e peças de reposição, foram abandonadas. O frio crescente matava milhares, pois os franceses partiram em campanha em trajes de verão (os russos consideraram aquele inverno relativamente "ameno"). Tropas russas continuaram fustigando os franceses até a Batalha de Berezina, na Bielorrússia, onde eles os encurralaram na travessia do rio Berezina. Napoleão escapou com apenas metade do seu contingente (sua sorte foi o General Eblé ter desobedecido as ordens do Imperador de deixar para trás material para a construção de pontes). Em dezembro, apenas 22 mil soldados do exército napoleônico cruzaram de volta a fronteira com a Polônia. A perda de vidas durante a campanha a coloca entre as mais letais da História.
Napoleão retornou rapidamente à França após notícias de um golpe de Estado fracassado em novembro. O fiasco da invasão russa estremeceu sua reputação e a rede de alianças que mantinha o seu Império coeso. A Confederação do Reno, a Prússia, a Áustria e a Rússia renovaram a aliança com a Inglaterra e iniciaram uma contra-ofensiva que levaria à capitulação de Napoleão em 1815. A queda de Napoleão, e os subsequentes movimentos nacionalistas na Europa Central deram espaço à unificação da Alemanha e da Itália, e o estabelecimento das fronteiras e de um novo balanço de forças na Europa Ocidental. A Rússia (que reverencia a invasão napoleônica com o título de "Guerra Patriótica de 1812") repetiria a tática de terra arrasada quando Adolph Hitler ordenou a sua invasão em 1941. Hitler, para evitar a manobra defensiva que possibilitou aos russos encurralarem Napoleão na rota arruinada de Smolensk, ordenou a invasão em várias frentes da Ucrância até o Ártico, com o centro em direção a Moscou. A resistência russa durou o suficiente até o inverno, e os alemães perderam mais de 4 milhões de soldados até a sua total retirada, mudando, assim como aconteceu com Napoleão, o rumo da História.
A invasão da Rússia, iniciada em junho daquele ano, tinha um objetivo bem específico: Napoleão pretendia pressionar o Czar Alexandre I a desistir do comércio com a Inglaterra, estrangulando a economia do seu principal rival. A França já estava desde 1806 apertando o cinto dos ingleses com o Bloqueio Continental, onde as nações europeias se viam compelidas a não negociar com ingleses, sob ameaça de intervenção militar. Era assim que Napoleão via a possibilidade de arruinar a Inglaterra, uma nação insular e militarmente poderosa, praticamente impossível de ser tomada por uma invasão pelo mar naquele momento. Não obstante, a Rússia continuava a realizar comércio regular com a Inglaterra.
Em 1809, Napoleão tinha o governo efetivo da França, da Bélgica e de 1/4 da Itália (onde foi coroado cerimonialmente com a Coroa de Ferro da Lombardia), e mantinha sob controle, ou pela indicação de parentes seus como governantes, ou por alianças firmadas por interesse ou sob ameaça, quase toda a Europa Ocidental e Central, com exceção de Portugal (cuja aliança com a Inglaterra, especificamente, existe até hoje, e é a aliança entre dois países mais antiga ainda em vigência) e dos reinos independentes da Sicília e da Sardenha. Fora do seu alcance estavam os Bálcãs, sob domínio otomano, e a Rússia. A guerra contra a Inglaterra pela supremacia econômica do continente se espalhou para as colônias na África e na América.
Na Europa, a série de conquistas iniciada em 1803 só viu resistência na desgastante Guerra Peninsular, travada na Espanha apoiada pela Inglaterra e reforçada por portugueses, que resultou numa vitória custosa para Napoleão. Seus aliados já não eram tão leais, e sua popularidade na França vinha em queda, e mesmo com o continente quase todo sob controle, seu inimigo direto continuava a prosperar graças às colônias na América, na Ásia e na África subsaariana. De fato, a Inglaterra só sentiria um impacto significativo na sua economia com o fim das relações com os Estados Unidos na Guerra de 1812.
O Embargo Continental não estava se mostrando eficiente. E em alguns lugares, como na Holanda e em algumas cidades portuárias na própria França, a ausência de agentes comerciais britânicos esfriaram a economia (a crise holandesa foi particularmente forte, e o país só se manteve sob controle porque Napoleão nomeara seu irmão Luis Bonaparte como rei). A indústria têxtil da Bélgica prosperou como nunca sem a concorrência inglesa, mas como os produtos ingleses eram produzidos a custos menores, o consumidor comum na Europa continental sentiu o aumento dos preços. A França não tinha condições práticas para impedir o tráfego de navios ingleses na maioria dos portos, impedir o contrabando no continente, nem de promover um bloqueio efetivo no Atlântico. Mesmo Portugal, que se colocou fora do alcance francês transferindo toda a sua administração imperial para o Brasil (e que a França não conseguiu abocanhar com a Guerra Peninsular), continuou a ser um parceiro comercial dos ingleses na Europa sem grandes impedimentos. A ineficiência do Bloqueio ficou clara quando Napoleão abriu alguns portos ao comércio limitado com os britânicos em 1810.
Enquanto isso, a Rússia formalmente cooperava com Napoleão. As repetidas vitórias de Napoleão sobre a Áustria e a Prússia, em operação conjunta com os russos, persuadiram Alexandre I a se retirar da guerra em 1807. Era uma das forças políticas que pressionavam a Dinamarca (declarada neutra no primeiro momento das Guerras Napoleônicas) a ceder sua numerosa marinha para a França, e sua captura pelos ingleses levou os russos a irem à guerra contra seu antigo aliado. Em 1808, invadiu a Finlândia, na época pertencente à Suécia que se recusava a aderir ao Bloqueio Continental. Como o Bloqueio também não se revelou tão vantajoso para a Rússia, os russos começaram a fura-lo, aproveitando-se da rota marítima pelo Báltico assegurada pela captura, pelos britânicos, da marinha dinamarquesa. Em 1810, a Inglaterra tinha uma relação comercial bastante saudável com os russos, mesmo com o estado de guerra entre os dois países.
Existe uma linha bastante explorada que supõe que a saúde de Napoleão, naquela altura, já estava se deteriorando. Obeso e propenso a atitudes extravagantes, é possível que a sua saúde mental também estivesse em declínio, e isso poderia estar afetando as suas decisões. Ao saber que os russos não estavam respeitando o Bloqueio Continental, as relações entre Napoleão e Alexandre começaram a se deteriorar. Um dos pontos de conflito que ganharam mais ênfase na disputa diplomática que se seguiu foi a posse da Polônia, que ambos queriam como um Estado-satélite sob sua tutela (a França havia "libertado" a Polônia em 1807, então repartida entre Rússia, Prússia e Áustria, e se achava no direito de ditar a sua política). De fato, a Rússia assumiu uma postura agressiva, preparando uma invasão à Polônia depois de 1811. Napoleão reagiu com a invasão à Rússia, uma opção que a História mostrou fatal para a sua carreira, e à de outros aspirantes a conquistadores do continente.
Napoleão reuniu mais de 680 mil soldados do exército francês, reforçado por contingentes de todas as partes do seu império e aliados da ocasião, além de insuflar os poloneses com algum sentimento nacionalista, anunciando que a guerra viria novamente para sua terra, mas que, com sua ajuda, os franceses a levariam para os "agressores" russos. Da Espanha até a Polônia, Napoleão contava com uma infraestrutura de transporte e abastecimento que permitia o rápido deslocamento de um número enorme de soldados, equipamentos e suprimentos para o front. Ele esperava uma guerra de atrito a partir da fronteira ao longo do rio Niemen (que atravessou em Junho após uma última oferta de paz rechaçada pelos russos), e seus generais e suas tropas, veteranos de mais de uma década de guerras ininterruptas, estavam bem preparados para isso. Os russos, contudo, tinham seus próprios planos.
Tendo enfrentado o exército de Napoleão em batalha no passado, os russos entendiam a sua superioridade, e a vastidão do seu território tornava a sua defesa extremamente complicada. Num cenário como este, o agressor daria as cartas, e restaria aos russos tentar contra-atacar onde o inimigo pudesse ser achado, torcendo para que este, um passo à frente, não tenha tomado alguma posição estrategicamente crucial. A outra alternativa foi recuar. Recuar e devastar tudo atrás de si, para impedir que o inimigo se apossasse efetivamente do seu território. Isso havia sido feito com relativo sucesso por Vlad Tepes, contra uma invasão otomana na Transilvânia, e com notável êxito pelos portugueses na Guerra Peninsular.
Russos e franceses, nas primeiras semanas, se encontraram em batalha esporadicamente. Como não oferecessem muita resistência, os franceses avançavam rapidamente. Avançar muito rápido com um exército numeroso significa alongar demais as linhas de suprimentos, e atrasar o seu abastecimento. Em agosto, os russos encontraram um exército de 200 mil comandado por Napoleão em pessoa em Smolensk. Apesar de perdas equivalentes em ambos os lados, os russos bateram em retirada. Naquela altura, as tropas de Napoleão já racionavam comida e munição. Ao cruzar o Dnieper, os marechais russos ordenaram a destruição de tudo que pudesse servir ao inimigo: plantações e gado, florestas onde se pudesse obter madeira, casas ou qualquer lugar que pudesse servir de abrigo. A população era conduzida o mais rapidamente possível para o interior, e tudo que não pudesse ser carregado deveria ser destruído para não servir ao inimigo. A fortaleza de Smolensk, capturada pelos franceses, não lhes oferecia nada útil.
Os russos prosseguiram recuando e queimando tudo pelo caminho. A tática de terra arrasada pareceu aos franceses um caminho aberto e sem resistência ao coração da Rússia, e eles avançaram muito rapidamente. Napoleão em pessoa já havia tomado Vilnius, na Lituânia, nos primeiros dias de guerra, comprometendo o acesso da Rússia ao litoral báltico, e estava confiante de que sua marcha em direção a Moscou levaria a Rússia ao colapso. No entanto, como os franceses, na prática, não capturavam nada das terras por onde passavam, logo ficou evidente que, se não vencessem rapidamente a guerra, teriam que dar a meia volta, ou morrer de fome.
Logo em setembro os franceses alcançaram os arredores de Moscou. Uma batalha no dia 8 manteve os franceses estacionados na planície, dando tempo ao prefeito da cidade, seguindo orientações superiores, coordenar a sua evacuação. Aparentemente, foi ele quem planejou o incêndio: suas ordens eram de que tudo deveria ser incendiado, inclusive as igrejas. Quando os franceses entraram em Moscou, no dia 14, encontraram a cidade quase deserta e ardendo em chamas, ocupada apenas por estrangeiros residentes, servos, criminosos (as prisões foram deliberadamente abertas) e pessoas incapazes de fugir. No dia 15, Napoleão entrou no Kremlin, esperando que o ato simbólico de tomar controle da capital induzisse Alexandre a se render. De fato, como os russos abandonaram a cidade, as formalidades de guerra que os generais esperavam no ato de conquista de uma cidade importante - serem recebidos por representantes do governo local, que se encarregariam de abrigar e alimentar os soldados - não aconteceram, deixando Napoleão bastante desorientado. No dia 16, como o fogo se aproximasse do palácio, o Imperador foi removido às pressas para outro, na periferia da cidade, correndo temerariamente pela rua Arbat, que ardia dos dois lados. Em outubro, com suprimentos perigosamente escassos, sem sinal de que Alexandre se renderia nem da presença do exército russo, os franceses deixaram a cidade, planejando chegar à Polônia o mais rápido possível, antes do inverno.
Os russos haviam se retirado para o sul. Recebendo notícias de que Napoleão começara a se mover, os russos organizaram seus ataques a partir do sul, de maneira a orientar a marcha francesa pelo mesmo caminho até Smolensk, passando por centenas de quilômetros de terra arrasada novamente. Cavaleiros cossacos atacavam com rapidez quebrando a linha de marcha e dispersando unidades do corpo principal do exército. Os cavalos franceses, sem pasto, começaram a morrer de fome, e os que ainda resistiam eram mortos para alimentar os soldados, efetivamente dissolvendo o seu corpo de cavalaria. As carroças puxadas pelos animais, com armas, equipamentos, e peças de reposição, foram abandonadas. O frio crescente matava milhares, pois os franceses partiram em campanha em trajes de verão (os russos consideraram aquele inverno relativamente "ameno"). Tropas russas continuaram fustigando os franceses até a Batalha de Berezina, na Bielorrússia, onde eles os encurralaram na travessia do rio Berezina. Napoleão escapou com apenas metade do seu contingente (sua sorte foi o General Eblé ter desobedecido as ordens do Imperador de deixar para trás material para a construção de pontes). Em dezembro, apenas 22 mil soldados do exército napoleônico cruzaram de volta a fronteira com a Polônia. A perda de vidas durante a campanha a coloca entre as mais letais da História.
Napoleão retornou rapidamente à França após notícias de um golpe de Estado fracassado em novembro. O fiasco da invasão russa estremeceu sua reputação e a rede de alianças que mantinha o seu Império coeso. A Confederação do Reno, a Prússia, a Áustria e a Rússia renovaram a aliança com a Inglaterra e iniciaram uma contra-ofensiva que levaria à capitulação de Napoleão em 1815. A queda de Napoleão, e os subsequentes movimentos nacionalistas na Europa Central deram espaço à unificação da Alemanha e da Itália, e o estabelecimento das fronteiras e de um novo balanço de forças na Europa Ocidental. A Rússia (que reverencia a invasão napoleônica com o título de "Guerra Patriótica de 1812") repetiria a tática de terra arrasada quando Adolph Hitler ordenou a sua invasão em 1941. Hitler, para evitar a manobra defensiva que possibilitou aos russos encurralarem Napoleão na rota arruinada de Smolensk, ordenou a invasão em várias frentes da Ucrância até o Ártico, com o centro em direção a Moscou. A resistência russa durou o suficiente até o inverno, e os alemães perderam mais de 4 milhões de soldados até a sua total retirada, mudando, assim como aconteceu com Napoleão, o rumo da História.
segunda-feira, 20 de julho de 2015
Rolo, o Andarilho
Em 20 de julho do anno Domini 911, Rolo, líder de um bando de vikings dinamarqueses, foi derrotado por barões franceses na batalha de Chartres. A presença de Rolo e seus vikings na França foi decisivo para o futuro daquela parte da Europa.
No século IX, toda a costa européia, da Alemanha até a Sicília, sofria ataques de vikings baseados na Noruega, na Dinamarca, e, em menor escala, na Suécia - os vikings suecos controlavam o Mar Báltico e faziam incursões na Finlândia e no interior da Rússia, comercializando com persas e árabes, e seus reis enviando embaixadas até Constantinopla. A própria Inglaterra e a Irlanda viveram sob o regime de senhores nórdicos que controlavam grande parte da Grã-Bretanha sob uma confederação conhecida como Danelaw, ou "Lei dos Dinamarqueses", também presente em muitas partes da Alemanha. A herança da presença dinamarquesa e norueguesa na Inglaterra é sentida até hoje, com nomes de cidades (Norwick, Holdenby, Durham), topônimos (Ravenscar, Rawcliffe, Melfort), sobrenomes (Hawksworth, Beckingham, Swansea) e vocabulário (newby, awesome, saga) de origem dinamarquesa. Dublin, capital da Irlanda, nasceu como um ancoradouro e povoado de vikings noruegueses.
O que impulsionou os vikings a atacarem a costa européia a partir do século IX ainda é nebuloso. Ao contrário das tribos germânicas na Europa Central, aparentemente não houve invasões forçando o deslocamento dos povos nórdicos em direção ao sul nessa época (movimento que os povos germânicos fizeram cerca de 1000 anos antes, por razões mais nebulosas ainda). Possivelmente uma explosão demográfica seguida de problemas climáticos ou outra crise sistêmica podem ter motivado os povos da Escandinávia a buscarem terras mais abundantes além-mar. No século IX, a Islândia e a Groenlândia (a "Terra Verde") eram muito mais propícias a atividades agropecuárias do que hoje, e lá se estabeleceram postos avançados da civilização escandinava - expedições partindo da Islândia, usando a Groenlândia como ponte, permitiram o breve estabelecimento de colônias na América do Norte. Com o correr dos anos e um breve resfriamento do clima (a Pequena Idade do Gelo antes do fim da Idade Média) levou ao fim das colônias na Groenlândia, mas a Islândia perdurou.
A pujança material das culturas europeias pós-romanas (especialmente os tesouros eclesiásticos) podem ter sido um chamariz para relações comerciais predatórias. Na costa francesa, os vikings ganharam temível reputação ao atacar aldeias e cidades, pilhando tudo que podiam carregar. Seus barcos longos e estreitos permitiam que eles navegassem rapidamente vários quilômetros rio acima, de maneira que o interior também estava vulnerável - houve incursões devastadoras ao longo dos rios Garonne, Loire e Sena, com pelo menos cinco ataques a Paris entre 845 e 886, chegando até a vila de Bèze, a mais de 350 km do litoral em linha reta. Os franceses chamavam indistintamente os vikings noruegueses e dinamarqueses de "normandos", "homens do norte" ("viking" é um autônimo que pode significar "navegantes" ou "remadores" e passou a ser usado de forma mais generalizada para circunscrever os povos escandinavos pré-cristãos somente a partir do século XIX). Por todo o século IX os franceses tiveram que conviver com os normandos, ora parceiros comerciais, ora destruidores de cidades e violadores de igrejas.
Em algum momento impreciso no fim do século IX, o guerreiro Rolo, um viking de origem incerta (norueguês ou dinamarquês), mas provavelmente nobre, chegou ao norte da França depois de muitas andanças pela Irlanda, Escócia e Bretanha - o que lhe rendeu a alcunha de "Ganger Hrolfr", ou "Rolo, o Andarilho", nas sagas islandesas. Os fatos da vida de Rolo e a forma como ele acabou liderando um bando de dezenas de milhares de dinamarqueses radicados na costa nordeste da França são tampouco confiáveis, uma vez que a primeira vez em que o seu nome aparece em crônicas francesas é pelo menos três décadas depois de assumir uma proeminência como líder viking, mas ainda pouco antes da sua morte. As crônicas posteriores, como não podiam deixar de ser, atribuem origens fantásticas e feitos extraordinários e contradizentes acerca de Rolo e suas andanças, mas nada disso é confiável. Algumas dessas fontes afirmam que Rolo já era um líder ativo no assalto a Rouen em 876, no cerco a Paris entre 885 e 886 e em toda a campanha do Sena naquele período. Num ataque a Bayeux, ele tomou Poppa, filha do conde de Rennes, como amante.
Em 911, Rolo comandou o cerco a Chartres. Naquela altura, Ricardo, duque da Burgundia, conseguiu organizar um pequeno exército para expulsar os normandos. Contudo, as suas forças talvez não chegassem à metade dos normandos. A batalha é mal documentada, mas conta a lenda que o bispo Gantelme trouxe para o campo de batalha o manto original que vestia a Virgem Maria, e isso teria inspirado os defensores e/ou afugentado os vikings pagãos. O fato é que Chartres não foi destruída - o lugar seria fortificado e sobreviveria para se tornar um importante centro religioso na França.
De qualquer forma, o rei da França, Carlos, o Simples, já estava considerando os normandos de Rolo formidáveis o suficiente para ter como seus aliados. A derrota em Chartres também pode ter incentivado Rolo, que já se aproximava dos 70 anos, a entrar em conversas com dignatários franceses. Algumas semanas depois de Chartres (no "outono" daquele ano), Rolo assinou o Tratado de Saint-Clair-sur-Epte, onde o rei lhe concedia todas as terras entre o rio Epte (um modesto afluente do Sena a meio caminho entre Paris e Rouen) e o mar. Em troca, Rolo e seus normandos tornariam a terra produtiva, contribuiriam com impostos à coroa, e se disponibilizariam a tomar parte em suas guerras. Carlos acrescentou uma cláusula que cedia aos normando a Bretanha, até então não conquistada pelos francos, cláusula que teria sido efetivada após a morte do rei bretão Alan I (mas anulada quando seu filho Alan II veio da Inglaterra e expulsou os normandos de lá). Aparentemente, Carlos e Rolo também entraram em termos como parte da preparação para uma invasão à Lotaríngia, reino-irmão da França na atual zona de fronteira entre o território normando, Alemanha e Países Baixos. Como demonstração de boa vontade, Rolo aceitou ser batizado e casou-se com Gisele, filha de Carlos.
O território cedido aos normandos, com acréscimos posteriores, ficaria conhecido como Normandia. O casamento de Rolo com Gisele, embora tenha se tornado tema de canções e trovas ao longo da Idade Média, não lhe deu filhos, mas de sua união com Poppa nasceu a linhagem de mandatários da Normandia (a partir de seu bisneto Ricardo II, eles seriam oficialmente duques). Na quinta geração depois de Rolo veio Guilherme, o Conquistador, que tomaria de assalto a Grã-Bretanha e daria fim aos reis anglo-saxões naquela ilha. A incursão de Guilherme também daria início a um imbróglio dinástico tremendo entre franceses e ingleses que suscitariam repetidas guerras por séculos - a rainha Elizabeth II ainda retém, informalmente, o título de "Duque" (apesar de mulher) da Normandia no território das Ilhas do Canal, possessões britânicas no Canal da Mancha próximas à costa francesa que faziam parte da Normandia nos tempos em que os reis ingleses também eram duques daquelas terras (os nativos a saúdam como "Duque"). Quanto a Rolo, se você ainda acha graça quando lê esse nome e tenta imaginar um viking poderoso, ele é a inspiração para outros nomes comuns hoje, como Rolf, Rodolfo e Raul (Hrolfr teria ainda sido batizado Roberto no ato da conversão). Uma versão anacrônica de Rolo o coloca como irmão do semi-lendário rei viking Ragnar Lodbrock no popular seriado Vikings, embora supostamente haja uma distância de algumas décadas entre a morte deste e as aventuras de Rolo na França.
No século IX, toda a costa européia, da Alemanha até a Sicília, sofria ataques de vikings baseados na Noruega, na Dinamarca, e, em menor escala, na Suécia - os vikings suecos controlavam o Mar Báltico e faziam incursões na Finlândia e no interior da Rússia, comercializando com persas e árabes, e seus reis enviando embaixadas até Constantinopla. A própria Inglaterra e a Irlanda viveram sob o regime de senhores nórdicos que controlavam grande parte da Grã-Bretanha sob uma confederação conhecida como Danelaw, ou "Lei dos Dinamarqueses", também presente em muitas partes da Alemanha. A herança da presença dinamarquesa e norueguesa na Inglaterra é sentida até hoje, com nomes de cidades (Norwick, Holdenby, Durham), topônimos (Ravenscar, Rawcliffe, Melfort), sobrenomes (Hawksworth, Beckingham, Swansea) e vocabulário (newby, awesome, saga) de origem dinamarquesa. Dublin, capital da Irlanda, nasceu como um ancoradouro e povoado de vikings noruegueses.
O que impulsionou os vikings a atacarem a costa européia a partir do século IX ainda é nebuloso. Ao contrário das tribos germânicas na Europa Central, aparentemente não houve invasões forçando o deslocamento dos povos nórdicos em direção ao sul nessa época (movimento que os povos germânicos fizeram cerca de 1000 anos antes, por razões mais nebulosas ainda). Possivelmente uma explosão demográfica seguida de problemas climáticos ou outra crise sistêmica podem ter motivado os povos da Escandinávia a buscarem terras mais abundantes além-mar. No século IX, a Islândia e a Groenlândia (a "Terra Verde") eram muito mais propícias a atividades agropecuárias do que hoje, e lá se estabeleceram postos avançados da civilização escandinava - expedições partindo da Islândia, usando a Groenlândia como ponte, permitiram o breve estabelecimento de colônias na América do Norte. Com o correr dos anos e um breve resfriamento do clima (a Pequena Idade do Gelo antes do fim da Idade Média) levou ao fim das colônias na Groenlândia, mas a Islândia perdurou.
A pujança material das culturas europeias pós-romanas (especialmente os tesouros eclesiásticos) podem ter sido um chamariz para relações comerciais predatórias. Na costa francesa, os vikings ganharam temível reputação ao atacar aldeias e cidades, pilhando tudo que podiam carregar. Seus barcos longos e estreitos permitiam que eles navegassem rapidamente vários quilômetros rio acima, de maneira que o interior também estava vulnerável - houve incursões devastadoras ao longo dos rios Garonne, Loire e Sena, com pelo menos cinco ataques a Paris entre 845 e 886, chegando até a vila de Bèze, a mais de 350 km do litoral em linha reta. Os franceses chamavam indistintamente os vikings noruegueses e dinamarqueses de "normandos", "homens do norte" ("viking" é um autônimo que pode significar "navegantes" ou "remadores" e passou a ser usado de forma mais generalizada para circunscrever os povos escandinavos pré-cristãos somente a partir do século XIX). Por todo o século IX os franceses tiveram que conviver com os normandos, ora parceiros comerciais, ora destruidores de cidades e violadores de igrejas.
Em algum momento impreciso no fim do século IX, o guerreiro Rolo, um viking de origem incerta (norueguês ou dinamarquês), mas provavelmente nobre, chegou ao norte da França depois de muitas andanças pela Irlanda, Escócia e Bretanha - o que lhe rendeu a alcunha de "Ganger Hrolfr", ou "Rolo, o Andarilho", nas sagas islandesas. Os fatos da vida de Rolo e a forma como ele acabou liderando um bando de dezenas de milhares de dinamarqueses radicados na costa nordeste da França são tampouco confiáveis, uma vez que a primeira vez em que o seu nome aparece em crônicas francesas é pelo menos três décadas depois de assumir uma proeminência como líder viking, mas ainda pouco antes da sua morte. As crônicas posteriores, como não podiam deixar de ser, atribuem origens fantásticas e feitos extraordinários e contradizentes acerca de Rolo e suas andanças, mas nada disso é confiável. Algumas dessas fontes afirmam que Rolo já era um líder ativo no assalto a Rouen em 876, no cerco a Paris entre 885 e 886 e em toda a campanha do Sena naquele período. Num ataque a Bayeux, ele tomou Poppa, filha do conde de Rennes, como amante.
Em 911, Rolo comandou o cerco a Chartres. Naquela altura, Ricardo, duque da Burgundia, conseguiu organizar um pequeno exército para expulsar os normandos. Contudo, as suas forças talvez não chegassem à metade dos normandos. A batalha é mal documentada, mas conta a lenda que o bispo Gantelme trouxe para o campo de batalha o manto original que vestia a Virgem Maria, e isso teria inspirado os defensores e/ou afugentado os vikings pagãos. O fato é que Chartres não foi destruída - o lugar seria fortificado e sobreviveria para se tornar um importante centro religioso na França.
De qualquer forma, o rei da França, Carlos, o Simples, já estava considerando os normandos de Rolo formidáveis o suficiente para ter como seus aliados. A derrota em Chartres também pode ter incentivado Rolo, que já se aproximava dos 70 anos, a entrar em conversas com dignatários franceses. Algumas semanas depois de Chartres (no "outono" daquele ano), Rolo assinou o Tratado de Saint-Clair-sur-Epte, onde o rei lhe concedia todas as terras entre o rio Epte (um modesto afluente do Sena a meio caminho entre Paris e Rouen) e o mar. Em troca, Rolo e seus normandos tornariam a terra produtiva, contribuiriam com impostos à coroa, e se disponibilizariam a tomar parte em suas guerras. Carlos acrescentou uma cláusula que cedia aos normando a Bretanha, até então não conquistada pelos francos, cláusula que teria sido efetivada após a morte do rei bretão Alan I (mas anulada quando seu filho Alan II veio da Inglaterra e expulsou os normandos de lá). Aparentemente, Carlos e Rolo também entraram em termos como parte da preparação para uma invasão à Lotaríngia, reino-irmão da França na atual zona de fronteira entre o território normando, Alemanha e Países Baixos. Como demonstração de boa vontade, Rolo aceitou ser batizado e casou-se com Gisele, filha de Carlos.
O território cedido aos normandos, com acréscimos posteriores, ficaria conhecido como Normandia. O casamento de Rolo com Gisele, embora tenha se tornado tema de canções e trovas ao longo da Idade Média, não lhe deu filhos, mas de sua união com Poppa nasceu a linhagem de mandatários da Normandia (a partir de seu bisneto Ricardo II, eles seriam oficialmente duques). Na quinta geração depois de Rolo veio Guilherme, o Conquistador, que tomaria de assalto a Grã-Bretanha e daria fim aos reis anglo-saxões naquela ilha. A incursão de Guilherme também daria início a um imbróglio dinástico tremendo entre franceses e ingleses que suscitariam repetidas guerras por séculos - a rainha Elizabeth II ainda retém, informalmente, o título de "Duque" (apesar de mulher) da Normandia no território das Ilhas do Canal, possessões britânicas no Canal da Mancha próximas à costa francesa que faziam parte da Normandia nos tempos em que os reis ingleses também eram duques daquelas terras (os nativos a saúdam como "Duque"). Quanto a Rolo, se você ainda acha graça quando lê esse nome e tenta imaginar um viking poderoso, ele é a inspiração para outros nomes comuns hoje, como Rolf, Rodolfo e Raul (Hrolfr teria ainda sido batizado Roberto no ato da conversão). Uma versão anacrônica de Rolo o coloca como irmão do semi-lendário rei viking Ragnar Lodbrock no popular seriado Vikings, embora supostamente haja uma distância de algumas décadas entre a morte deste e as aventuras de Rolo na França.
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