Em 10 de agosto de 955, uma confederação germânica sob a liderança do rei Oto I da Frância Oriental dispersou uma horda magyar na Batalha de Lechfeld, no sul da Alemanha.
O movimento constante de povos nômades sempre causaram enormes impactos na demografia nos continentes em que ocorreram. Nas Américas e na África, onde as ondas migratórias não foram registradas por escrito (exceto na Mesoamérica, cujo último movimento importante de povos é a descida dos Aztecas vindos do norte em direção ao centro do México), elas são conjecturadas com base em arqueologia e linguística. Mas na Europa, na Ásia, e no norte da África (sobretudo Egito), as sucessivas ondas migratórias foram registradas em profusão. Em alguns momentos, o choque entre povos nômades em movimento e civilizações foi tão violento que pareceu que o mundo que se conhecia estava para acabar - muitas vezes essa sensação de estar perto do fim era o que urgia os cronistas e historiadores a registrarem tudo que pudessem. Por isso as migrações dos povos eurasiáticos são mais bem compreendidas, embora suas causas primárias - o que motivou esses povos a saírem de suas terras e se baterem contra fortalezas e exércitos melhor armados e organizados - raramente sejam conhecidas.
No século IX, o Império Romano do Ocidente já não existia, e a Europa Ocidental era dominada por povos germânicos romanizados - os francos governavam uma confederação importante de povos germânicos na França e parte da Alemanha, e já impunham um limite à invasão moura na Espanha; uma outra confederação germânica convivia num reino derivado do Império de Carlos Magno, a Frância Oriental, onde hoje é a metade ocidental da Alemanha. O Império Romano do Oriente, ou Império Bizantino, ainda era relativamente saudável, ou pelo menos funcional, dominando terras na Itália, na Grécia e na Ásia, e tinha como principal preocupação os búlgaros empurrando suas fronteiras ao sul da do Danúbio. Esses búlgaros eram povos proto-eslávicos que se desprenderam do seu território original nas margens do Mar Negro e, ao longo do século VII assaltaram os Bizantinos e seus vizinhos ocidentais, até que um ramo fixou território no Danúbio e estabeleceu ali um êmulo do Império Bizantino - os khans búlgaros, designação para os chefes tribais de diversos povos eurasiáticos, governavam este Império Búlgaro como czares, "césares".
Os búlgaros, que se constituíam de várias tribos que compartilhavam da mesma língua, não estavam sozinhos. Acompanhando os búlgaros estava uma confederação distinta, de língua nem eslávica e nem sequer indo-européia, mas fino-úgrica, uma família linguística mais afim do turco e do mongol do que de qualquer outra língua europeia (exceto o suomi, ou finlandês, que compõe a família com o húngaro). Essas tribos viriam a ser conhecida no ocidente pelo nome da aldeia onde viviam, Onogur, na atual Bulgária - onogures, ongales, hunugures, unghrese (na Itália), ungar (na Alemanha), ungari, hungari (latim). Já o autônimo pelo qual se identificavam (e se identificam até hoje, a despeito desses exônimos em todas as línguas vizinhas) é magyar, nome de uma das tribos húngaras, possivelmente em uma referência obscura, talvez de um mito de formação nacional, a um certo Muaegris, um khan huno cuja tribo foi expulsa de território bizantino no século VI. Ao longo da história, o nacionalismo húngaro desenvolveu este mito para traçar a origem do povo magyar até Átila, o famoso khan dos hunos que desafiou o poder de Roma a partir da atual Hungria. Os bizaninos os chamavam em grego de "turcos".
Os magyares (ou magyarok, no plural em húngaro) viviam inicialmente subordinados ao Khaganato Kazar, um império turco ao norte do Cáucaso e na Rússia. A partir de 830 os kazares aparentemente sofriam uma crise econômica que gerou revoltas de diversos grupos étnicos e invasões estrangeiras. Entre os revoltosos estavam algumas tribos magyares, que, atacados por nômades turcos da tribo pechenegue, passaram para território búlgaro, através do qual entraram em contato com os reinos ocidentais. O acotovelamento entre os povos - pechenegues, búlgaros, avaros mais a oeste - a pujança material de Bizâncio e dos reinos germânicos, e a adequação das planícies na bacia dos Cárpatos para seus rebanhos direcionou os magyares para o centro da Europa. Por volta de 900, um certo Árpád liderou uma invasão em massa à quase desguarnecida antiga província romana da Panônia, então ocupada por pastores avaros e "romanos" (segundo a Gesta Hungarorum, do século XIII), e chegaram à "Cidade do Rei Átila", ou Aquincum, atual Budapest. Este Árpád é reverenciado como herói nacional, uma espécie de Moisés húngaro.
A exemplo dos hunos de Átila, a Hungria se tornou o centro de operações dos magyares, implementando ataques surpresas aos campos, cidades e castelos próximos na Grécia, Alemanha, na Itália e na França, com bandos alcançando até a Catalúnia, devastando e pilhando. Com uma cavalaria veloz e arqueiros montados sobre estribos, os ataques surpreendiam os exércitos europeus que, na alta Idade Média, eram uma mistura de infantaria leve composta de camponeses armados com o que podiam arranjar e nobres em pesadas armaduras, de maneira que os arqueiros montados húngaros, em ação coordenada, podiam massacrar rapidamente o inimigo mais lento. Com o centro da planície carpátia assegurado, os seguidos sucessos e os tesouros provenientes dos saques, subornos e tributos, permitiram uma expansão contínua das fronteiras húngaras em todas as direções por mais de 50 anos (os ataques ao Império Bizantino e aos territórios eslavos nos Bálcãs continuariam até pelo menos 971).
Em 955, Oto I, rei da Frância Oriental, soube de uma invasão de magyares na Bavária. Magyares já haviam atacado a Alemanha outras vezes, iniciando sempre a invasão do sudeste, fazendo uma curva na altura do Reno, passando pela França, virando ao sul para a Itália, e de lá regressando à Hungria antes que se pudesse reunir algum exército para lhes oferecer combate. Oto posicionou uma força a partir do Reno para forçar uma recuada da cavalaria húngara, enquanto movia outra força igual na sua perseguição, confrontando-os finalmente em Lechfeld, na Bavária. Com fileiras de veteranos pesadamente armados - as armaduras pesadas medievais se originaram de projetos básicos trazidos pelos alanos durante as invasões germânicas a Roma, desenvolvidos para suportar o ataque à distância de arqueiros montados - os germanos tentavam neutralizar sua desvantagem numérica. Com uma parede de metal e escudos, os saxões de Oto conseguiram encurtar a distância e provocar o combate corpo a corpo. Os magyares simularam uma fuga para induzir os germânicos a se dispersarem atrás deles, apenas para atacá-los em massa de volta, mas os defensores continuaram perseguindo-os em perfeita ordem. Os magyares debandaram, muitos tentaram se esconder em vilas e aldeias, mas os locais os massacraram. Vários líderes magyares morreram na batalha e durante a fuga. Embora as perdas de ambos os lados fossem proporcionais, a impossibilidade de vencer um exército naquele formato deve ter tido profundo impacto nas lideranças húngaras.
Foi a última vez que cavaleiros magyares tentaram invadir os reinos ocidentais. Também foi a última vez que uma tribo de nômades invadiu a Europa e se fixou por lá - os mongóis chegariam cerca de 3 séculos mais tarde, mas seriam gradualmente empurrados de volta para a Ásia pelos russos. Cerca de duas gerações depois da Batalha de Lechfeld, o rei Estevão I da Hungria se converteu ao catolicismo e recebeu a bênção do Papa (mais tarde seria canonizado). A Hungria gradualmente adotaria o estilo de vida das potências ocidentais, bem como sua tradição política, administrativa e militar - o exército, reunido sob duques e senhores feudais correspondentes, deixaria de contar com os arqueiros montados e adoraria a cavalaria pesada no seu lugar.
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segunda-feira, 10 de agosto de 2015
segunda-feira, 20 de julho de 2015
Rolo, o Andarilho
Em 20 de julho do anno Domini 911, Rolo, líder de um bando de vikings dinamarqueses, foi derrotado por barões franceses na batalha de Chartres. A presença de Rolo e seus vikings na França foi decisivo para o futuro daquela parte da Europa.
No século IX, toda a costa européia, da Alemanha até a Sicília, sofria ataques de vikings baseados na Noruega, na Dinamarca, e, em menor escala, na Suécia - os vikings suecos controlavam o Mar Báltico e faziam incursões na Finlândia e no interior da Rússia, comercializando com persas e árabes, e seus reis enviando embaixadas até Constantinopla. A própria Inglaterra e a Irlanda viveram sob o regime de senhores nórdicos que controlavam grande parte da Grã-Bretanha sob uma confederação conhecida como Danelaw, ou "Lei dos Dinamarqueses", também presente em muitas partes da Alemanha. A herança da presença dinamarquesa e norueguesa na Inglaterra é sentida até hoje, com nomes de cidades (Norwick, Holdenby, Durham), topônimos (Ravenscar, Rawcliffe, Melfort), sobrenomes (Hawksworth, Beckingham, Swansea) e vocabulário (newby, awesome, saga) de origem dinamarquesa. Dublin, capital da Irlanda, nasceu como um ancoradouro e povoado de vikings noruegueses.
O que impulsionou os vikings a atacarem a costa européia a partir do século IX ainda é nebuloso. Ao contrário das tribos germânicas na Europa Central, aparentemente não houve invasões forçando o deslocamento dos povos nórdicos em direção ao sul nessa época (movimento que os povos germânicos fizeram cerca de 1000 anos antes, por razões mais nebulosas ainda). Possivelmente uma explosão demográfica seguida de problemas climáticos ou outra crise sistêmica podem ter motivado os povos da Escandinávia a buscarem terras mais abundantes além-mar. No século IX, a Islândia e a Groenlândia (a "Terra Verde") eram muito mais propícias a atividades agropecuárias do que hoje, e lá se estabeleceram postos avançados da civilização escandinava - expedições partindo da Islândia, usando a Groenlândia como ponte, permitiram o breve estabelecimento de colônias na América do Norte. Com o correr dos anos e um breve resfriamento do clima (a Pequena Idade do Gelo antes do fim da Idade Média) levou ao fim das colônias na Groenlândia, mas a Islândia perdurou.
A pujança material das culturas europeias pós-romanas (especialmente os tesouros eclesiásticos) podem ter sido um chamariz para relações comerciais predatórias. Na costa francesa, os vikings ganharam temível reputação ao atacar aldeias e cidades, pilhando tudo que podiam carregar. Seus barcos longos e estreitos permitiam que eles navegassem rapidamente vários quilômetros rio acima, de maneira que o interior também estava vulnerável - houve incursões devastadoras ao longo dos rios Garonne, Loire e Sena, com pelo menos cinco ataques a Paris entre 845 e 886, chegando até a vila de Bèze, a mais de 350 km do litoral em linha reta. Os franceses chamavam indistintamente os vikings noruegueses e dinamarqueses de "normandos", "homens do norte" ("viking" é um autônimo que pode significar "navegantes" ou "remadores" e passou a ser usado de forma mais generalizada para circunscrever os povos escandinavos pré-cristãos somente a partir do século XIX). Por todo o século IX os franceses tiveram que conviver com os normandos, ora parceiros comerciais, ora destruidores de cidades e violadores de igrejas.
Em algum momento impreciso no fim do século IX, o guerreiro Rolo, um viking de origem incerta (norueguês ou dinamarquês), mas provavelmente nobre, chegou ao norte da França depois de muitas andanças pela Irlanda, Escócia e Bretanha - o que lhe rendeu a alcunha de "Ganger Hrolfr", ou "Rolo, o Andarilho", nas sagas islandesas. Os fatos da vida de Rolo e a forma como ele acabou liderando um bando de dezenas de milhares de dinamarqueses radicados na costa nordeste da França são tampouco confiáveis, uma vez que a primeira vez em que o seu nome aparece em crônicas francesas é pelo menos três décadas depois de assumir uma proeminência como líder viking, mas ainda pouco antes da sua morte. As crônicas posteriores, como não podiam deixar de ser, atribuem origens fantásticas e feitos extraordinários e contradizentes acerca de Rolo e suas andanças, mas nada disso é confiável. Algumas dessas fontes afirmam que Rolo já era um líder ativo no assalto a Rouen em 876, no cerco a Paris entre 885 e 886 e em toda a campanha do Sena naquele período. Num ataque a Bayeux, ele tomou Poppa, filha do conde de Rennes, como amante.
Em 911, Rolo comandou o cerco a Chartres. Naquela altura, Ricardo, duque da Burgundia, conseguiu organizar um pequeno exército para expulsar os normandos. Contudo, as suas forças talvez não chegassem à metade dos normandos. A batalha é mal documentada, mas conta a lenda que o bispo Gantelme trouxe para o campo de batalha o manto original que vestia a Virgem Maria, e isso teria inspirado os defensores e/ou afugentado os vikings pagãos. O fato é que Chartres não foi destruída - o lugar seria fortificado e sobreviveria para se tornar um importante centro religioso na França.
De qualquer forma, o rei da França, Carlos, o Simples, já estava considerando os normandos de Rolo formidáveis o suficiente para ter como seus aliados. A derrota em Chartres também pode ter incentivado Rolo, que já se aproximava dos 70 anos, a entrar em conversas com dignatários franceses. Algumas semanas depois de Chartres (no "outono" daquele ano), Rolo assinou o Tratado de Saint-Clair-sur-Epte, onde o rei lhe concedia todas as terras entre o rio Epte (um modesto afluente do Sena a meio caminho entre Paris e Rouen) e o mar. Em troca, Rolo e seus normandos tornariam a terra produtiva, contribuiriam com impostos à coroa, e se disponibilizariam a tomar parte em suas guerras. Carlos acrescentou uma cláusula que cedia aos normando a Bretanha, até então não conquistada pelos francos, cláusula que teria sido efetivada após a morte do rei bretão Alan I (mas anulada quando seu filho Alan II veio da Inglaterra e expulsou os normandos de lá). Aparentemente, Carlos e Rolo também entraram em termos como parte da preparação para uma invasão à Lotaríngia, reino-irmão da França na atual zona de fronteira entre o território normando, Alemanha e Países Baixos. Como demonstração de boa vontade, Rolo aceitou ser batizado e casou-se com Gisele, filha de Carlos.
O território cedido aos normandos, com acréscimos posteriores, ficaria conhecido como Normandia. O casamento de Rolo com Gisele, embora tenha se tornado tema de canções e trovas ao longo da Idade Média, não lhe deu filhos, mas de sua união com Poppa nasceu a linhagem de mandatários da Normandia (a partir de seu bisneto Ricardo II, eles seriam oficialmente duques). Na quinta geração depois de Rolo veio Guilherme, o Conquistador, que tomaria de assalto a Grã-Bretanha e daria fim aos reis anglo-saxões naquela ilha. A incursão de Guilherme também daria início a um imbróglio dinástico tremendo entre franceses e ingleses que suscitariam repetidas guerras por séculos - a rainha Elizabeth II ainda retém, informalmente, o título de "Duque" (apesar de mulher) da Normandia no território das Ilhas do Canal, possessões britânicas no Canal da Mancha próximas à costa francesa que faziam parte da Normandia nos tempos em que os reis ingleses também eram duques daquelas terras (os nativos a saúdam como "Duque"). Quanto a Rolo, se você ainda acha graça quando lê esse nome e tenta imaginar um viking poderoso, ele é a inspiração para outros nomes comuns hoje, como Rolf, Rodolfo e Raul (Hrolfr teria ainda sido batizado Roberto no ato da conversão). Uma versão anacrônica de Rolo o coloca como irmão do semi-lendário rei viking Ragnar Lodbrock no popular seriado Vikings, embora supostamente haja uma distância de algumas décadas entre a morte deste e as aventuras de Rolo na França.
No século IX, toda a costa européia, da Alemanha até a Sicília, sofria ataques de vikings baseados na Noruega, na Dinamarca, e, em menor escala, na Suécia - os vikings suecos controlavam o Mar Báltico e faziam incursões na Finlândia e no interior da Rússia, comercializando com persas e árabes, e seus reis enviando embaixadas até Constantinopla. A própria Inglaterra e a Irlanda viveram sob o regime de senhores nórdicos que controlavam grande parte da Grã-Bretanha sob uma confederação conhecida como Danelaw, ou "Lei dos Dinamarqueses", também presente em muitas partes da Alemanha. A herança da presença dinamarquesa e norueguesa na Inglaterra é sentida até hoje, com nomes de cidades (Norwick, Holdenby, Durham), topônimos (Ravenscar, Rawcliffe, Melfort), sobrenomes (Hawksworth, Beckingham, Swansea) e vocabulário (newby, awesome, saga) de origem dinamarquesa. Dublin, capital da Irlanda, nasceu como um ancoradouro e povoado de vikings noruegueses.
O que impulsionou os vikings a atacarem a costa européia a partir do século IX ainda é nebuloso. Ao contrário das tribos germânicas na Europa Central, aparentemente não houve invasões forçando o deslocamento dos povos nórdicos em direção ao sul nessa época (movimento que os povos germânicos fizeram cerca de 1000 anos antes, por razões mais nebulosas ainda). Possivelmente uma explosão demográfica seguida de problemas climáticos ou outra crise sistêmica podem ter motivado os povos da Escandinávia a buscarem terras mais abundantes além-mar. No século IX, a Islândia e a Groenlândia (a "Terra Verde") eram muito mais propícias a atividades agropecuárias do que hoje, e lá se estabeleceram postos avançados da civilização escandinava - expedições partindo da Islândia, usando a Groenlândia como ponte, permitiram o breve estabelecimento de colônias na América do Norte. Com o correr dos anos e um breve resfriamento do clima (a Pequena Idade do Gelo antes do fim da Idade Média) levou ao fim das colônias na Groenlândia, mas a Islândia perdurou.
A pujança material das culturas europeias pós-romanas (especialmente os tesouros eclesiásticos) podem ter sido um chamariz para relações comerciais predatórias. Na costa francesa, os vikings ganharam temível reputação ao atacar aldeias e cidades, pilhando tudo que podiam carregar. Seus barcos longos e estreitos permitiam que eles navegassem rapidamente vários quilômetros rio acima, de maneira que o interior também estava vulnerável - houve incursões devastadoras ao longo dos rios Garonne, Loire e Sena, com pelo menos cinco ataques a Paris entre 845 e 886, chegando até a vila de Bèze, a mais de 350 km do litoral em linha reta. Os franceses chamavam indistintamente os vikings noruegueses e dinamarqueses de "normandos", "homens do norte" ("viking" é um autônimo que pode significar "navegantes" ou "remadores" e passou a ser usado de forma mais generalizada para circunscrever os povos escandinavos pré-cristãos somente a partir do século XIX). Por todo o século IX os franceses tiveram que conviver com os normandos, ora parceiros comerciais, ora destruidores de cidades e violadores de igrejas.
Em algum momento impreciso no fim do século IX, o guerreiro Rolo, um viking de origem incerta (norueguês ou dinamarquês), mas provavelmente nobre, chegou ao norte da França depois de muitas andanças pela Irlanda, Escócia e Bretanha - o que lhe rendeu a alcunha de "Ganger Hrolfr", ou "Rolo, o Andarilho", nas sagas islandesas. Os fatos da vida de Rolo e a forma como ele acabou liderando um bando de dezenas de milhares de dinamarqueses radicados na costa nordeste da França são tampouco confiáveis, uma vez que a primeira vez em que o seu nome aparece em crônicas francesas é pelo menos três décadas depois de assumir uma proeminência como líder viking, mas ainda pouco antes da sua morte. As crônicas posteriores, como não podiam deixar de ser, atribuem origens fantásticas e feitos extraordinários e contradizentes acerca de Rolo e suas andanças, mas nada disso é confiável. Algumas dessas fontes afirmam que Rolo já era um líder ativo no assalto a Rouen em 876, no cerco a Paris entre 885 e 886 e em toda a campanha do Sena naquele período. Num ataque a Bayeux, ele tomou Poppa, filha do conde de Rennes, como amante.
Em 911, Rolo comandou o cerco a Chartres. Naquela altura, Ricardo, duque da Burgundia, conseguiu organizar um pequeno exército para expulsar os normandos. Contudo, as suas forças talvez não chegassem à metade dos normandos. A batalha é mal documentada, mas conta a lenda que o bispo Gantelme trouxe para o campo de batalha o manto original que vestia a Virgem Maria, e isso teria inspirado os defensores e/ou afugentado os vikings pagãos. O fato é que Chartres não foi destruída - o lugar seria fortificado e sobreviveria para se tornar um importante centro religioso na França.
De qualquer forma, o rei da França, Carlos, o Simples, já estava considerando os normandos de Rolo formidáveis o suficiente para ter como seus aliados. A derrota em Chartres também pode ter incentivado Rolo, que já se aproximava dos 70 anos, a entrar em conversas com dignatários franceses. Algumas semanas depois de Chartres (no "outono" daquele ano), Rolo assinou o Tratado de Saint-Clair-sur-Epte, onde o rei lhe concedia todas as terras entre o rio Epte (um modesto afluente do Sena a meio caminho entre Paris e Rouen) e o mar. Em troca, Rolo e seus normandos tornariam a terra produtiva, contribuiriam com impostos à coroa, e se disponibilizariam a tomar parte em suas guerras. Carlos acrescentou uma cláusula que cedia aos normando a Bretanha, até então não conquistada pelos francos, cláusula que teria sido efetivada após a morte do rei bretão Alan I (mas anulada quando seu filho Alan II veio da Inglaterra e expulsou os normandos de lá). Aparentemente, Carlos e Rolo também entraram em termos como parte da preparação para uma invasão à Lotaríngia, reino-irmão da França na atual zona de fronteira entre o território normando, Alemanha e Países Baixos. Como demonstração de boa vontade, Rolo aceitou ser batizado e casou-se com Gisele, filha de Carlos.
O território cedido aos normandos, com acréscimos posteriores, ficaria conhecido como Normandia. O casamento de Rolo com Gisele, embora tenha se tornado tema de canções e trovas ao longo da Idade Média, não lhe deu filhos, mas de sua união com Poppa nasceu a linhagem de mandatários da Normandia (a partir de seu bisneto Ricardo II, eles seriam oficialmente duques). Na quinta geração depois de Rolo veio Guilherme, o Conquistador, que tomaria de assalto a Grã-Bretanha e daria fim aos reis anglo-saxões naquela ilha. A incursão de Guilherme também daria início a um imbróglio dinástico tremendo entre franceses e ingleses que suscitariam repetidas guerras por séculos - a rainha Elizabeth II ainda retém, informalmente, o título de "Duque" (apesar de mulher) da Normandia no território das Ilhas do Canal, possessões britânicas no Canal da Mancha próximas à costa francesa que faziam parte da Normandia nos tempos em que os reis ingleses também eram duques daquelas terras (os nativos a saúdam como "Duque"). Quanto a Rolo, se você ainda acha graça quando lê esse nome e tenta imaginar um viking poderoso, ele é a inspiração para outros nomes comuns hoje, como Rolf, Rodolfo e Raul (Hrolfr teria ainda sido batizado Roberto no ato da conversão). Uma versão anacrônica de Rolo o coloca como irmão do semi-lendário rei viking Ragnar Lodbrock no popular seriado Vikings, embora supostamente haja uma distância de algumas décadas entre a morte deste e as aventuras de Rolo na França.
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