Em 9 de outubro de 1974 faleceu Oskar Schindler, empresário membro do Partido Nazista, responsável direto pela sobrevivência de 1200 judeus, muitos dos quais já haviam sido encaminhados para a morte na câmara de gás em Auschwitz.
A história de Oskar Schindler é uma das mais célebres do período da Segunda Guerra Mundial. Jovem problemático (expulso da escola, preso após bebedeiras, filhos fora do casamento), membro do Partido Alemão dos Sudetos (braço do Partido Nazista na Tchecoslováquia), espião da inteligência alemã na Tchecoslováquia e na Polônia (onde contribuiu com informações para as invasões alemãs a estes países), constituiu riqueza com o mercado negro de comida, bebida, cigarros e artigos de luxo, e investiu em uma indústria de armas e munições nesse país, a serviço da Wehrmacht. Na sua fábrica, empregava muitos judeus poloneses que trabalhavam quase de graça, dando-lhe lucros formidáveis.
Como esses mesmos judeus eram visados pela polícia polonesa e pelos agentes alemães, ele procurava escondê-los, ou intervia em seu favor, não porque se importasse particularmente com eles de início, mas porque sua mão de obra era muito mais barata do que as de operários poloneses não-judeus. Em muitos casos, essas intervenções vinham na forma de subornos (usando sua rede de mercado negro para oferecer produtos estrangeiros ou objetos de valor expropriados pelos nazistas). Em uma ocasião, um agente da SS veio buscar uma família de trabalhadores judeus com documentos falsos. Ele ordenou ao chefe da família que arriasse as calças e andasse por ali para a sua diversão. Schindler argumentou que aquilo quebrava a disciplina da fábrica e prejudicaria o andamento da produção. Quando o oficial apontou a arma para o homem, Schindler gritou "não atire, e eu lhe dou uma bebida!". Os dois entraram no escritório e saíram abraçados e bêbados. A importância estratégica do seu negócio para os alemães dava-lhe uma vantagem nas negociações em torno dos seus empregados judeus.
Com o tempo, Schindler começou a abrigar as famílias dos seus empregados, dando-lhes empregos de fachada (inclusive para as crianças), para colocá-los sob sua proteção. Também recorria a seus homens de confiança (também judeus, que trabalhavam na parte administrativa da fábrica) para lhe indicarem judeus em campos de concentração que pudessem ser empregados. Como Schindler tinha conhecimento do funcionamento da Wehrmacht pela sua experiência como espião, e pelos contratos da sua fábrica, ele deduziu em algum momento em 1943 que os judeus estavam sendo presos para trabalhar em campos de trabalhos forçados, e os que não tinham condições, estavam sendo enviados para campos de extermínio. Foi essa realização do que os nazistas estavam fazendo com os judeus que o fizeram virar a mesa e tomar uma atitude irredutível de proteção aos judeus. Os repetidos subornos de oficiais nazistas, o emprego de crianças e mulheres que, na verdade, pouco produziam, e a própria manutenção dos seus empregados (alimentados e medicados na própria fábrica) começaram a drenar seus recursos rapidamente. Em um dos casos, o diretor do campo de concentração de Plaszow, um oficial da SS chamado Amon Göth, com uma fama de sádico que mantinha seus internos nas piores condições possíveis e os executava aleatoriamente exigiu que as fábricas da região fossem transportadas para dentro do campo. Schindler teve que suborná-lo não apenas para manter suas operações fora do campo, mas também para convencê-lo a mandar 450 trabalhadores judeus das outras fábricas próximas para a sua. O caso lhe rendeu uma semana na prisão, em decorrência de uma investigação de abuso de poder e corrupção contra Goth.
Quando os soviéticos começaram a avançar pela fronteira polonesa, os nazistas começaram a recuar e a fechar as operações, inclusive dos campos de prisioneiros. Os internos passaram a ser transportados para outros campos convertidos para funcionarem como campos de extermínio. A fábrica de Schindler também estava fadada a ser fechada. Oskar conseguiu convencer Berlim a manter a fábrica funcionando na Tchecoslováquia, com um projeto de produção de munição anti-tanques, garantindo que os judeus sob sua jurisdição seriam poupados. Além dos cerca de 1000 funcionários que já abrigava, Schindler acrescentou mais 200 nomes (funcionários de uma fábrica de tecidos que seria fechada) à sua lista de judeus que seriam encaminhados às novas instalações em Brunnlitz. O transporte deste contingente seria feito pelos trens que levavam demais judeus aos campos de Auschwitz e Gross-Rosen (então operando como campos de extermínio). Trezentas mulheres da lista de Schindler acabaram encaminhadas para o extermínio em Auschwitz, e foi graças a um pesado suborno que ele conseguiu a sua liberação. Além delas, outras 3000 mulheres foram reencaminhadas para fábricas nos Sudetos. No inverno de 1945, um trem com 250 judeus doentes demais para trabalhar (havia 20 mortos nos vagões) chegou a Brunnlitz, e Emilie, a esposa de Oskar, os encaminhou à fábrica, onde lhes deu abrigo e cuidados. A fábrica em si não produzia coisa alguma, e as suspeitas de que os Schindler estavam apenas abrigando judeus (o que os colocava em risco de pena de morte) os obrigava a distribuir propinas regularmente para evitar a sua prisão.
Toda esta carreira é belissimamente retratada em filmes (A Lista de Schindler, para quem ainda não assistiu), mas ela geralmente para por aí. A sua biografia segue, e não tem um final muito feliz. Sua vida foi atribulada depois da guerra.
Com a rendição da Alemanha, os judeus sob os cuidados de Schindler estava relativamente a salvo. Porém, o próprio Schindler corria o risco de ser capturado pelos soviéticos, que ocupavam a Tchecoslováquia, e julgado por crimes de guerra pela sua atividade como espião. Vários dos judeus que trabalhavam para ele redigiram uma carta a ser apresentada aos americanos atestando o seu papel em salvar as suas vidas. Com a carta, os Schindler reuniram tudo que lhes restava e fugiram para o oeste. Oficiais russos no caminho confiscaram o seu carro (e ficaram com um diamante escondido sob o banco), e eles continuaram a pé até a cidade fronteiriça de Lenora. Através de um oficial judeu americano, conseguiram passar à Suíça. No final do ano, conseguiram retornar à Alemanha. Mas os gastos com a manutenção de funcionários judeus numa fábrica que não fabricava nada, e as constantes propinas os deixaram completamente falidos. Oskar passou a ser sustentado com a ajuda vinda de organizações judaicas (às vezes, a ajuda consistia apenas em alimentos e cigarros, mas Schindler se constrangia em pedir mais). Judeus americanos criaram um fundo para recompensar o patrimônio confiscado de judeus na Europa, e gastos empreendidos à assistência de judeus durante a Guerra, e através dele Schindler resgatou cerca de 15 mil dólares. Não era o suficiente para tentar um novo negócio, mas o suficiente para emigrar à Argentina e tentar uma nova vida criando galinhas e nútrias (roedores de grande porte valorizados pela sua pele). Em 1958, depois de se divorciar de Emilie, ele fechou sua fazenda. Retornou à Alemanha, onde tentou abrir novos negócios que também fracassaram.
Entre 1963 (quando recebeu do governo de Israel o título honorífico de "Justo entre as nações") e a sua morte em 1974, Oskar viveu exclusivamente do dinheiro vindo de doações angariadas pelos sobreviventes da sua fábrica, a maioria vivendo em Israel e nos Estados Unidos. Nos seus últimos dias, viveu de favor no apartamento do amigo Heinrich Staehr, carregando consigo apenas uma maleta com fotos, cartas e recordações do tempo da guerra, inclusive uma cópia da sua lista de 1200 nomes. Com a saúde fragilizada por conta de um infarto, faleceu aos 66 anos em Hildesheim, na Baixa Saxônia. Seu desejo era ser enterrado em Jerusalém, porque "meus filhos estão lá". É o único membro do Partido Nazista sepultado em Israel.
Antes de fugir da Tchecoslováquia, seus funcionários lhe confeccionaram um anel, feito de um dente de ouro, onde gravaram: "Aquele que salva uma vida, salva o mundo inteiro".
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sexta-feira, 9 de outubro de 2015
Justo entre as nações
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sexta-feira, 25 de setembro de 2015
O Açougueiro de Lyon
Em 25 de setembro de 1991, faleceu de leucemia Nikolaus "Klaus" Barbie, ex-agente da Gestapo e ex-colaborador da CIA, enquanto servia uma sentença de prisão perpétua em Lyon, na França.
Klaus Barbie era filho de um ex-combatente da Primeira Guerra Mundial, também chamado Nikolaus. Aparentemente, os combates na França, os ferimentos e a prisão do velho Nikolaus o deixaram transtornado, tornando-o violento e abusivo. Ele também era professor da escola onde estudava o jovem Klaus, submetendo-o a constrangimentos em público. Isso não está documentado, mas é possível que, inconscientemente, a imagem do pai transformado pela guerra na França tenha conduzido Klaus pelo caminho que o levou à chefia de inteligência da Gestapo em Lyon, e seus atos contra a resistência francesa (os Barbie aparentemente descendem de imigrantes franceses fugidos da Revolução).
Antes da guerra, depois de abandonar os estudos e desempregado, Klaus Barbie foi recrutado para trabalhar para o Partido Nazista, numa espécie de serviço civil compulsório (o Reichsarbeitsdienst), de onde, devidamente treinados na doutrina nazista, os jovens eram então enviados para servir nas forças armadas, até então um reduto tradicionalmente conservador e apartidário. Barbie acabaria se alistando no serviço de inteligência do partido vinculado à Gestapo, a SD, onde receberia treinamento de interrogatório, e, finalmente filiando-se ao Partido Nazista.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Barbie atuou na Holanda, localizando e prendendo judeus, maçons e emigrantes alemães (a maior parte procurada por crimes políticos). Um incidente entre um nazista holandês e um trabalhador do porto levou a SD a fazer uma operação de busca e apreensão no setor judeu de Amsterdam, resultando na prisão de 425 judeus. Barbie ficou encarregado da operação e dos interrogatórios conduzidos à base de torturas físicas. 389 deles foram enviados ao campo de concentração de Buchenwald (o destino dos restantes é nebuloso, podem ter sido soltos, ou podem nunca ter saído com vida de suas celas). Após um ataque da resistência holandesa a um clube de oficiais, Barbie jurou que os judeus pagariam por aquilo: ele foi ao Concelho Judaico de Amsterdam e convenceu os diretores a lhe fornecerem uma lista de 300 nomes de jovens judeus, com o pretexto de reuni-los e encaminhá-los para completar sua formação profissional. Todos os 300 foram presos e enviados ao campo de Concentração de Mauthausen, onde morreram meses depois. Um preso levou um tiro na cabeça ao pedir para ouvir música americana.
A Holanda e a França foram conquistadas por braços de uma operação conjunta, que se enraizavam num núcleo administrativo comum. Assim, Barbie foi realocado para o front francês em 1942. O norte da França acabara de cair sob domínio alemão, e a SD montou uma base de operações em Lyon, com o objetivo novamente de localizar e prender judeus, comunistas, e pessoas envolvidas na Resistência Francesa, guerrilha que impedia o avanço nazista mais ao sul. Em Lyon, operando no Hotel Terminus e na École de Sante Militaire, Barbie, aos 29 anos, chefiava um núcleo com 25 oficiais sob suas ordens.
Seu primeiro troféu foi a captura de Jean Moulin, um dos principais líderes da Resistência, em 1943. Barbie o espancou até cansar, colocou agulhas incandescentes sob suas unhas e fechou uma porta em seus dedos até se quebrarem todos. Seus punhos foram amarrados com correntes que eram apertadas até penetrarem na sua carne e quebrarem seus ossos. Quando o barbeiro da prisão foi cortar o seu cabelo, encontrou Moulin estirado num banco, semi-morto, com o rosto transformado em uma massa ensanguentada (perturbado, o barbeiro tomou o maior cuidado possível para fazer seu serviço sem tocar nas suas feridas). Morreu dias depois. Pela prisão de Jean Moulin, Barbie recebeu uma condecoração de Hitler.
Raymond Aubrac foi preso com outros sete membros da Resistência, mas sobreviveu às sessões de tortura de Barbie. O que o deixava mais confuso é que Barbie não fazia perguntas, nem sequer perguntara seu nome ou se era judeu, apenas o surrava incansavelmente com uma variedade de métodos e instrumentos. Aubrac foi salvo por uma operação de resgate liderada por Lucile, sua esposa grávida de seis meses. Alegando que a justiça francesa dava direito a um condenado à morte de contrair matrimônio na prisão com uma mulher que estivesse esperando filho seu, ela conseguiu entrar na prisão e alertar Raymond do ataque que seria feito ao caminhão que o transportaria para fora dali. Ela mesma conduziu a emboscada, que matou 5 oficiais e libertou 13 presos.
Outra vítima foi Lisa Lesevre, presa por supostamente conhecer um certo "Didier", membro da Resistência expecialista em cartas-bomba. Por dezenove dias ela foi torturada com castigos físicos enquanto estava acorrentada ao teto pelos pulsos por Barbie e quatro assistentes, inclusive um certo Gueule Tordue ("Boca Torta"), um homem corpulento e com a cabeça deformada por um acidente de carro digno de um filme de terror. Toda vez que ela desfalecia, um médico a reanimava, e ela encontrava seus torturadores bebendo e rindo, como se nada tivesse acontecido. E as torturas recomeçavam. Em certo momento, foi despida, acorrentada pelas pernas e mergulhada numa banheira de água gelada, e enquanto não falasse, a corrente era puxada e ela ficava presa debaixo d'água apenas tempo suficiente para não morrer afogada. Quando era deixada de lado, era forçada a assistir à tortura de outros presos, ou ver seus cadáveres (Barbie virava seus rostos para talvez tentar reconhecer algum judeu, e depois os esmagava com o salto de sua bota). Nos últimos dias, Lasevere foi amarrada no chão de bruços, enquanto Gueule Tordue (ou, segundo ela mesma dava a entender, o próprio Barbie) a golpeava com um mangual (uma bola de metal com espinhos preso a um bastão por uma corrente) até quebrar a sua espinha. Quando ela despertou mais uma vez, Barbie a felicitou por ter resistido tanto, "... mas no final, todo mundo fala.". Como ela resistia, a mandou para a execução em outra localidade. Ela acabou sendo levada por engano ao campo de concentração de Ravensbruck, de onde foi resgatada com vida no fim da guerra. Seu marido e seu filho adolescente, que não eram judeus ou comunistas, foram mortos em campos de concentração. Lasevere nunca denunciou a identidade de "Didier".
Simone LaGrange foi capturada com seus pais exatamente no dia D e trazida à presença de Barbie. Ele acariciava um gato em seu colo, e cumprimentou cada um dos LaGrange educadamente, dando um puxão carinhoso na bochecha de Simone. Sua mãe contou a Barbie que ela ainda tinha dois outros filhos, mas não sabia onde estavam. Então, ainda segurando o gato, ele golpeou a menina na frente dos pais, e ordenou a prisão dos três em celas separadas. Ele pessoalmente torturava cada um deles. Simone foi jogada no chão, esmurrada e chutada repetidamente (e nos sete dias seguintes, chutada nos lugares onde haviam feridas abertas), até entregar a identidade dos irmãos. Depois foi devolvida à mãe ("Isto é o que a senhora fez à sua filha"). A família LaGrange foi enviada a campos de concentração. Simone foi a única a sobreviver após um ano de trabalhos forçados - sua mãe foi morta numa câmara de gás, e o pai morto por um soldado com um tiro na cabeça bem à sua frente.
Outra vítima fatal, porém não confirmada por documentos oficiais, teria sido a de um líder da Resistência em Lyon, surrado, esfolado vivo e a cabeça descarnada mergulhada num balde de amônia. Morreu minutos depois.
Antes do desembarque aliado na Normandia e do abandono das bases nazistas na França, Klaus Barbie localizou um orfanato em Izieu que abrigava 44 crianças judias de 3 a 14 anos. Em carta ao quartel-general da Gestapo em Paris, Barbie escreveu que todas as crianças e os funcionários do orfanato (dez no total) foram presos, depois deportados para Auschwitz. Com a evacuação de Lyon, Barbie foi realocado para o front ocidental, mas fugiu dos combates de volta para a Alemanha. Escondido, ocultou sua identidade e se tornou um mendigo errante pelas estradas até ser preso e identificado por uma patrulha americana perto de Hohenlimburg.
Neste momento, o leitor mais otimista, acostumado com o destino dos vilões dos filmes, esperaria que Klaus Barbie fosse finalmente conduzido a julgamento e recebido punição condizente por seus crimes. Mas a História às vezes segue por caminhos sinistros.
Com o fim da Guerra e o avanço soviético sobre a Europa Oriental e parte da Alemanha, os Estados Unidos e o Reino Unido temiam que o comunismo se propagasse pela Europa Ocidental, especialmente na França, então sob controle da Resistência. Decididos a sabotar a ação de células comunistas, os americanos constituíram uma agência de contrainteligência (o CIC) para identificar seus membros. Um dos agentes contratados pela sua experiência em espionar comunistas na França, e que vinha trabalhando desde 1946 a serviço dos britânicos nessa função, foi ninguém menos que Klaus Barbie.
Não é o caso de Barbie estar usando uma identidade falsa, ou não ser suficientemente conhecido e contratado oportunamente sob disfarce, ou não se soubesse do que havia feito a serviço dos nazistas. Ele era bem conhecido, e os antigos Aliados sabiam de quem se tratava, da sua capacidade de trabalho e dos seus métodos. Outros nazistas que espionavam atividades comunistas, como Alois Brunner e Reinhard Gehlen, também trabalharam para o CIC. Tanto que a justiça francesa já o havia condenado à morte por uma série de crimes já confirmados in absentia. Quando os franceses o descobriram em 1950, a CIA providenciou a sua fuga para a Bolívia, possivelmente com a colaboração da mesma rede de ex-nazistas que ajudou nazistas notórios a fugirem no anonimato, como o próprio Brunner (foragido e possivelmente morto na Síria), Josef Mengele, Gustav Wagner e Aribert Heim (também foragido). Tendo permanecido oculto no país sob proteção da CIA (usava o nome de "Klaus Altmann"), foi contratado sob o codinome "Adler" pelo próprio serviço secreto da Alemanha Ocidental nos anos 1960 para espionar comunistas no exterior. Mesmo enquanto não estava em serviço, a identidade de Barbie era protegida para evitar o constrangimento para os Estados Unidos de tê-lo recrutado em algum momento, e Barbie capitalizou sobre esta situação.
Em 1964 um golpe militar apoiado pela CIA colocou no poder alguns nomes com quem Barbie havia estabelecido boas relações. A Bolívia havia passado por uma década de grandes reformas de tendência socialista (uma ampla reforma agrária e a nacionalização de minas de estanho), e o novo regime conservador as paralisou completamente. A aura "imperialista" sobre a Bolívia atraiu a atenção do guerrilheiro Ernesto "Che" Guevara. Che já havia se afastado da Revolução Cubana, e falhou em organizar uma milícia socialista no Congo. Na Bolívia, sob o pseudônimo de Adolfo Mena González, conseguiu arregimentar 69 guerrilheiros para iniciar um movimento para a derrubada do atual regime. A CIA realizou operações conjuntas com o governo boliviano para eliminar a guerrilha, mas Che continuava evasivo. Klaus Barbie, com sua experiência de inteligência contra-guerrilha, então entrou em ação para localizá-lo e organizar a caçada que resultou na sua morte, em 1967. "Este pobre homem", teria dito, "não teria sobrevivido se tivesse lutado na Segunda Guerra Mundial."
Enquanto isso, judeus sobreviventes da Guerra e filhos de vítimas do nazismo se organizavam em diferentes grupos de "caçadores de nazistas", levantando informações que levavam à localização de oficiais nazistas foragidos pelo mundo. Em 1971 surgiram indícios de que Barbie estava na Bolívia, e em 1973 ele escapou de uma tentativa de sequestro por antigos companheiros de Che, que pretendiam entregá-lo às autoridades chilenas, e de lá para a França (o grupo foi localizado e morto antes por forças bolivianas). Em 1980 ele teria tomado parte no golpe militar que levou o general Garcia Meza ao poder (num golpe apelidado posteriormente de "Golpe da Cocaína", porque teria sido financiado com dinheiro do tráfico de drogas). Barbie teria recrutado companheiros da Gestapo como mercenários a serviço da junta militar. Com o fracasso do golpe e o enfraquecimento do poder dos militares bolivianos, Siles Suazo, cujo partido havia obtido maioria antes do golpe de 1980 e esperava-se que assumisse a presidência então, foi efetivado em 1983. Sabendo das atividades de Barbie, mandou prendê-lo e extraditá-lo para a França.
Barbie (apresentando-se como Altmann) foi levado a julgamento em Lyon, certo de que, como Klaus Altmann, não haveria como provar as acusações de crimes de guerra. Mas as acareações com suas vítimas, como LaGrange, Aubrac, Lesevre (que obteve licença da côrte para testemunhar sentada devido à lesão na coluna, mas, aos 86 anos, fez questão de fazê-lo de pé), e outros, confirmaram sua identidade. Em 1987, aos 74 anos, foi considerado culpado em 341 acusações, e condenado à prisão perpétua. Estima-se que, pelas suas mãos ou por ordens diretas suas, algo entre 4 mil a 14 mil pessoas tenham sido mortas.
Se não fossem os caçadores de nazistas franceses desencadeando o processo, é possível que Klaus Barbie tivesse tido uma velhice tranquila, e talvez fosse lembrado (como Klaus Altmann) como um herói da civilização ocidental. Não como o "Açougueiro de Lyon".
Klaus Barbie era filho de um ex-combatente da Primeira Guerra Mundial, também chamado Nikolaus. Aparentemente, os combates na França, os ferimentos e a prisão do velho Nikolaus o deixaram transtornado, tornando-o violento e abusivo. Ele também era professor da escola onde estudava o jovem Klaus, submetendo-o a constrangimentos em público. Isso não está documentado, mas é possível que, inconscientemente, a imagem do pai transformado pela guerra na França tenha conduzido Klaus pelo caminho que o levou à chefia de inteligência da Gestapo em Lyon, e seus atos contra a resistência francesa (os Barbie aparentemente descendem de imigrantes franceses fugidos da Revolução).
Antes da guerra, depois de abandonar os estudos e desempregado, Klaus Barbie foi recrutado para trabalhar para o Partido Nazista, numa espécie de serviço civil compulsório (o Reichsarbeitsdienst), de onde, devidamente treinados na doutrina nazista, os jovens eram então enviados para servir nas forças armadas, até então um reduto tradicionalmente conservador e apartidário. Barbie acabaria se alistando no serviço de inteligência do partido vinculado à Gestapo, a SD, onde receberia treinamento de interrogatório, e, finalmente filiando-se ao Partido Nazista.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Barbie atuou na Holanda, localizando e prendendo judeus, maçons e emigrantes alemães (a maior parte procurada por crimes políticos). Um incidente entre um nazista holandês e um trabalhador do porto levou a SD a fazer uma operação de busca e apreensão no setor judeu de Amsterdam, resultando na prisão de 425 judeus. Barbie ficou encarregado da operação e dos interrogatórios conduzidos à base de torturas físicas. 389 deles foram enviados ao campo de concentração de Buchenwald (o destino dos restantes é nebuloso, podem ter sido soltos, ou podem nunca ter saído com vida de suas celas). Após um ataque da resistência holandesa a um clube de oficiais, Barbie jurou que os judeus pagariam por aquilo: ele foi ao Concelho Judaico de Amsterdam e convenceu os diretores a lhe fornecerem uma lista de 300 nomes de jovens judeus, com o pretexto de reuni-los e encaminhá-los para completar sua formação profissional. Todos os 300 foram presos e enviados ao campo de Concentração de Mauthausen, onde morreram meses depois. Um preso levou um tiro na cabeça ao pedir para ouvir música americana.
A Holanda e a França foram conquistadas por braços de uma operação conjunta, que se enraizavam num núcleo administrativo comum. Assim, Barbie foi realocado para o front francês em 1942. O norte da França acabara de cair sob domínio alemão, e a SD montou uma base de operações em Lyon, com o objetivo novamente de localizar e prender judeus, comunistas, e pessoas envolvidas na Resistência Francesa, guerrilha que impedia o avanço nazista mais ao sul. Em Lyon, operando no Hotel Terminus e na École de Sante Militaire, Barbie, aos 29 anos, chefiava um núcleo com 25 oficiais sob suas ordens.
Seu primeiro troféu foi a captura de Jean Moulin, um dos principais líderes da Resistência, em 1943. Barbie o espancou até cansar, colocou agulhas incandescentes sob suas unhas e fechou uma porta em seus dedos até se quebrarem todos. Seus punhos foram amarrados com correntes que eram apertadas até penetrarem na sua carne e quebrarem seus ossos. Quando o barbeiro da prisão foi cortar o seu cabelo, encontrou Moulin estirado num banco, semi-morto, com o rosto transformado em uma massa ensanguentada (perturbado, o barbeiro tomou o maior cuidado possível para fazer seu serviço sem tocar nas suas feridas). Morreu dias depois. Pela prisão de Jean Moulin, Barbie recebeu uma condecoração de Hitler.
Raymond Aubrac foi preso com outros sete membros da Resistência, mas sobreviveu às sessões de tortura de Barbie. O que o deixava mais confuso é que Barbie não fazia perguntas, nem sequer perguntara seu nome ou se era judeu, apenas o surrava incansavelmente com uma variedade de métodos e instrumentos. Aubrac foi salvo por uma operação de resgate liderada por Lucile, sua esposa grávida de seis meses. Alegando que a justiça francesa dava direito a um condenado à morte de contrair matrimônio na prisão com uma mulher que estivesse esperando filho seu, ela conseguiu entrar na prisão e alertar Raymond do ataque que seria feito ao caminhão que o transportaria para fora dali. Ela mesma conduziu a emboscada, que matou 5 oficiais e libertou 13 presos.
Outra vítima foi Lisa Lesevre, presa por supostamente conhecer um certo "Didier", membro da Resistência expecialista em cartas-bomba. Por dezenove dias ela foi torturada com castigos físicos enquanto estava acorrentada ao teto pelos pulsos por Barbie e quatro assistentes, inclusive um certo Gueule Tordue ("Boca Torta"), um homem corpulento e com a cabeça deformada por um acidente de carro digno de um filme de terror. Toda vez que ela desfalecia, um médico a reanimava, e ela encontrava seus torturadores bebendo e rindo, como se nada tivesse acontecido. E as torturas recomeçavam. Em certo momento, foi despida, acorrentada pelas pernas e mergulhada numa banheira de água gelada, e enquanto não falasse, a corrente era puxada e ela ficava presa debaixo d'água apenas tempo suficiente para não morrer afogada. Quando era deixada de lado, era forçada a assistir à tortura de outros presos, ou ver seus cadáveres (Barbie virava seus rostos para talvez tentar reconhecer algum judeu, e depois os esmagava com o salto de sua bota). Nos últimos dias, Lasevere foi amarrada no chão de bruços, enquanto Gueule Tordue (ou, segundo ela mesma dava a entender, o próprio Barbie) a golpeava com um mangual (uma bola de metal com espinhos preso a um bastão por uma corrente) até quebrar a sua espinha. Quando ela despertou mais uma vez, Barbie a felicitou por ter resistido tanto, "... mas no final, todo mundo fala.". Como ela resistia, a mandou para a execução em outra localidade. Ela acabou sendo levada por engano ao campo de concentração de Ravensbruck, de onde foi resgatada com vida no fim da guerra. Seu marido e seu filho adolescente, que não eram judeus ou comunistas, foram mortos em campos de concentração. Lasevere nunca denunciou a identidade de "Didier".
Simone LaGrange foi capturada com seus pais exatamente no dia D e trazida à presença de Barbie. Ele acariciava um gato em seu colo, e cumprimentou cada um dos LaGrange educadamente, dando um puxão carinhoso na bochecha de Simone. Sua mãe contou a Barbie que ela ainda tinha dois outros filhos, mas não sabia onde estavam. Então, ainda segurando o gato, ele golpeou a menina na frente dos pais, e ordenou a prisão dos três em celas separadas. Ele pessoalmente torturava cada um deles. Simone foi jogada no chão, esmurrada e chutada repetidamente (e nos sete dias seguintes, chutada nos lugares onde haviam feridas abertas), até entregar a identidade dos irmãos. Depois foi devolvida à mãe ("Isto é o que a senhora fez à sua filha"). A família LaGrange foi enviada a campos de concentração. Simone foi a única a sobreviver após um ano de trabalhos forçados - sua mãe foi morta numa câmara de gás, e o pai morto por um soldado com um tiro na cabeça bem à sua frente.
Outra vítima fatal, porém não confirmada por documentos oficiais, teria sido a de um líder da Resistência em Lyon, surrado, esfolado vivo e a cabeça descarnada mergulhada num balde de amônia. Morreu minutos depois.
Antes do desembarque aliado na Normandia e do abandono das bases nazistas na França, Klaus Barbie localizou um orfanato em Izieu que abrigava 44 crianças judias de 3 a 14 anos. Em carta ao quartel-general da Gestapo em Paris, Barbie escreveu que todas as crianças e os funcionários do orfanato (dez no total) foram presos, depois deportados para Auschwitz. Com a evacuação de Lyon, Barbie foi realocado para o front ocidental, mas fugiu dos combates de volta para a Alemanha. Escondido, ocultou sua identidade e se tornou um mendigo errante pelas estradas até ser preso e identificado por uma patrulha americana perto de Hohenlimburg.
Neste momento, o leitor mais otimista, acostumado com o destino dos vilões dos filmes, esperaria que Klaus Barbie fosse finalmente conduzido a julgamento e recebido punição condizente por seus crimes. Mas a História às vezes segue por caminhos sinistros.
Com o fim da Guerra e o avanço soviético sobre a Europa Oriental e parte da Alemanha, os Estados Unidos e o Reino Unido temiam que o comunismo se propagasse pela Europa Ocidental, especialmente na França, então sob controle da Resistência. Decididos a sabotar a ação de células comunistas, os americanos constituíram uma agência de contrainteligência (o CIC) para identificar seus membros. Um dos agentes contratados pela sua experiência em espionar comunistas na França, e que vinha trabalhando desde 1946 a serviço dos britânicos nessa função, foi ninguém menos que Klaus Barbie.
Não é o caso de Barbie estar usando uma identidade falsa, ou não ser suficientemente conhecido e contratado oportunamente sob disfarce, ou não se soubesse do que havia feito a serviço dos nazistas. Ele era bem conhecido, e os antigos Aliados sabiam de quem se tratava, da sua capacidade de trabalho e dos seus métodos. Outros nazistas que espionavam atividades comunistas, como Alois Brunner e Reinhard Gehlen, também trabalharam para o CIC. Tanto que a justiça francesa já o havia condenado à morte por uma série de crimes já confirmados in absentia. Quando os franceses o descobriram em 1950, a CIA providenciou a sua fuga para a Bolívia, possivelmente com a colaboração da mesma rede de ex-nazistas que ajudou nazistas notórios a fugirem no anonimato, como o próprio Brunner (foragido e possivelmente morto na Síria), Josef Mengele, Gustav Wagner e Aribert Heim (também foragido). Tendo permanecido oculto no país sob proteção da CIA (usava o nome de "Klaus Altmann"), foi contratado sob o codinome "Adler" pelo próprio serviço secreto da Alemanha Ocidental nos anos 1960 para espionar comunistas no exterior. Mesmo enquanto não estava em serviço, a identidade de Barbie era protegida para evitar o constrangimento para os Estados Unidos de tê-lo recrutado em algum momento, e Barbie capitalizou sobre esta situação.
Em 1964 um golpe militar apoiado pela CIA colocou no poder alguns nomes com quem Barbie havia estabelecido boas relações. A Bolívia havia passado por uma década de grandes reformas de tendência socialista (uma ampla reforma agrária e a nacionalização de minas de estanho), e o novo regime conservador as paralisou completamente. A aura "imperialista" sobre a Bolívia atraiu a atenção do guerrilheiro Ernesto "Che" Guevara. Che já havia se afastado da Revolução Cubana, e falhou em organizar uma milícia socialista no Congo. Na Bolívia, sob o pseudônimo de Adolfo Mena González, conseguiu arregimentar 69 guerrilheiros para iniciar um movimento para a derrubada do atual regime. A CIA realizou operações conjuntas com o governo boliviano para eliminar a guerrilha, mas Che continuava evasivo. Klaus Barbie, com sua experiência de inteligência contra-guerrilha, então entrou em ação para localizá-lo e organizar a caçada que resultou na sua morte, em 1967. "Este pobre homem", teria dito, "não teria sobrevivido se tivesse lutado na Segunda Guerra Mundial."
Enquanto isso, judeus sobreviventes da Guerra e filhos de vítimas do nazismo se organizavam em diferentes grupos de "caçadores de nazistas", levantando informações que levavam à localização de oficiais nazistas foragidos pelo mundo. Em 1971 surgiram indícios de que Barbie estava na Bolívia, e em 1973 ele escapou de uma tentativa de sequestro por antigos companheiros de Che, que pretendiam entregá-lo às autoridades chilenas, e de lá para a França (o grupo foi localizado e morto antes por forças bolivianas). Em 1980 ele teria tomado parte no golpe militar que levou o general Garcia Meza ao poder (num golpe apelidado posteriormente de "Golpe da Cocaína", porque teria sido financiado com dinheiro do tráfico de drogas). Barbie teria recrutado companheiros da Gestapo como mercenários a serviço da junta militar. Com o fracasso do golpe e o enfraquecimento do poder dos militares bolivianos, Siles Suazo, cujo partido havia obtido maioria antes do golpe de 1980 e esperava-se que assumisse a presidência então, foi efetivado em 1983. Sabendo das atividades de Barbie, mandou prendê-lo e extraditá-lo para a França.
Barbie (apresentando-se como Altmann) foi levado a julgamento em Lyon, certo de que, como Klaus Altmann, não haveria como provar as acusações de crimes de guerra. Mas as acareações com suas vítimas, como LaGrange, Aubrac, Lesevre (que obteve licença da côrte para testemunhar sentada devido à lesão na coluna, mas, aos 86 anos, fez questão de fazê-lo de pé), e outros, confirmaram sua identidade. Em 1987, aos 74 anos, foi considerado culpado em 341 acusações, e condenado à prisão perpétua. Estima-se que, pelas suas mãos ou por ordens diretas suas, algo entre 4 mil a 14 mil pessoas tenham sido mortas.
Se não fossem os caçadores de nazistas franceses desencadeando o processo, é possível que Klaus Barbie tivesse tido uma velhice tranquila, e talvez fosse lembrado (como Klaus Altmann) como um herói da civilização ocidental. Não como o "Açougueiro de Lyon".
terça-feira, 18 de agosto de 2015
O povo vai às ruas pelo Brasil
Em 18 de agosto de 1942, protestos em várias capitais brasileiras pediam a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial junto aos aliados.
Durante os anos 1930, Getúlio Vargas, inspirado pelo sucesso dos regimes fascistas na Europa, implantara de forma oficial sua própria ditadura no Brasil desde a instauração do Estado Novo em novembro de 1937. Tratava-se de um golpe de estado encabeçado pelo próprio Vargas que impedia o processo eleitoral previsto para 1938 com a justificativa da existência de um suposto plano comunista para tomar o poder, o Plano Cohen (um documento falsificado por um militar integralista, Olímpio Mourão Filho, insinuando ataques comunistas a membros do alto escalão do governo). Ali suspenderam-se direitos constitucionais, como o direito à greve e a liberdade de imprensa, extinguia a Justiça Federal de primeiro grau e o caráter federativo da nação (convenientemente, Vargas tinha uma nova Constituição pronta sobre a mesa para cimentar suas reformas). Instaurou-se um Estado de Guerra, que duraria até 1945.
A simpatia de Vargas pelo fascismo nunca foi disfarçada. Além de criar uma aparelhagem de propaganda nacionalista, perseguir comunistas e anarquistas e alimentar milícias (como os integralistas, que, contudo, logo sentiriam o peso da mão que os alimentava), Vargas tinha o cuidado de estabelecer relações diplomáticas amistosas com a Alemanha nazista, por exemplo - para onde extraditara a alemã, comunista, e de origem judaica Olga Benário, esposa do seu principal adversário político, Luis Carlos Prestes. O Brasil, contudo, tinha muito pouca autonomia no cenário internacional devido à fragilidade da sua infraestrutura, a indústria insipiente, a dependência do capital estrangeiro para alimentar uma economia baseada em comodities, o analfabetismo crônico da força de trabalho. Quando a guerra eclodiu em 1939, Vargas, que também era pragmático com relação à importância política e econômica dos aliados na Europa e dos Estados Unidos para o Brasil, declarou a neutralidade do país no conflito.
A despeito da relação de Vargas com o Eixo, submarinos alemães estabeleciam sua superioridade no Atlântico atacando navios militares ou das marinhas mercantes de quaisquer países não alinhados. Atacaram tão longe quanto o Rio da Prata. Entre 1939 e 1942, 14 embarcações brasileiras foram afundadas pelos alemães, matando 136 pessoas. A opinião pública a cada incidente se tornava cada vez mais intensa e exaltada. Natal era o porto brasileiro mais próximo da Europa e um dos alvos mais prováveis em caso de um ataque em terra contra o país, além de hospedar uma base militar aliada, de onde partiam os aviões americanos para a África e a Europa. A cidade organizava um esforço de guerra espontâneo de pré-recrutamentos, e do estabelecimento de uma economia de guerra local - racionamento de combustível, doações, divisões de trabalho entre civis para reforçar fortificações, etc. Em março de 1942, Vargas cedeu a pressões de todos os lados (inclusive dos americanos) e passou a vigiar de perto os imigrantes alemães, italianos e japoneses residentes no Brasil (uma rede de espionagem nazista foi desmantelada no Rio de Janeiro). Mas a neutralidade era mantida.
Quando chegou agosto, vários setores da sociedade civil, puxados pelas uniões de estudantes e alguns comunistas (em Natal, especificamente, um dos articuladores fora Vivaldo Vasconcelos, um dos organizadores da Intentona Comunista de 1935 naquela cidade), em várias partes do Brasil se mobilizaram em grandes atos públicos pela declaração de guerra contra a Alemanha. Foi a maior mobilização popular desde o início do Estado Novo.
Na semana que se seguiu, entre os dias 15 e 17, ocorreram mais seis ataques a navios ao largo da costa brasileira, todos operados pelo submarino alemão U-507. No dia 18 novamente a população ocupou as ruas, em número maior, exigindo a entrada do Brasil na guerra. No Rio de Janeiro, políticos de direita e esquerda, acadêmicos, jornalistas, líderes trabalhistas e populares ocuparam palanques e proclamaram seu repúdio à agressão nazista diante de dezenas de milhares de manifestantes. Enquanto isso, uns ou outros corriam as ruas convocando compatriotas a vingarem seu país. Colunistas de jornais insinuavam que os que ficassem em casa ou não deixassem seus postos estavam declarando seu apoio aos nazi-fascistas, e muitos, com receio do que ser considerado inimigo público podia acarretar naquele tempo, engrossaram a multidão. Assim, pelo menos em Belém e Porto Alegre (que eu tenha me informado, é provável ter ocorrido de forma mais generalizada), comerciantes que tentavam afastar a multidão de seus pontos acabavam agredidos e tendo suas lojas depredadas. Pessoas com sobrenomes alemães, inclusive judeus, também eram hostilizadas como "súditos do Eixo", mesmo em cidades onde grandes comunidades de imigrantes já estivesse integradas. Japoneses, que eram mais fáceis de serem reconhecidos, sofreram particularmente com agressões de nacionalistas exaltados. A facilidade com que o discurso nacionalista inflamava a população foi um resultado da retórica nacionalista historicamente empregada por Getúlio Vargas para mobilizar a população em torno de si contra "inimigos externos" (fossem quem fossem) para legitimar suas ações contra adversários políticos.
A resposta de Getúlio Vargas às agitações viria três dias depois, com o reconhecimento do estado de guerra entre o Brasil e os países do Eixo. Foi criada a Força Expedicionária Brasileira, que, contudo, só passaria a recrutar um ano depois (veteranos da FEB desdenhavam o ímpeto nacionalista dos estudantes que foram à rua no 18 de agosto, criticando o baixo número de voluntários durante o processo de recrutamento) e partiria para a Europa em 1944.
Contudo, foi menos a agressão alemã contra a marinha mercante, e menos a pressão popular, e mais a promessa de investimento americano no estabelecimento das instalações da Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda (de quem os aliados se comprometiam a comprar material para seu esforço de guerra), entre outras promessas de ajuda econômica, que levou o governo a tomar posição.
Durante os anos 1930, Getúlio Vargas, inspirado pelo sucesso dos regimes fascistas na Europa, implantara de forma oficial sua própria ditadura no Brasil desde a instauração do Estado Novo em novembro de 1937. Tratava-se de um golpe de estado encabeçado pelo próprio Vargas que impedia o processo eleitoral previsto para 1938 com a justificativa da existência de um suposto plano comunista para tomar o poder, o Plano Cohen (um documento falsificado por um militar integralista, Olímpio Mourão Filho, insinuando ataques comunistas a membros do alto escalão do governo). Ali suspenderam-se direitos constitucionais, como o direito à greve e a liberdade de imprensa, extinguia a Justiça Federal de primeiro grau e o caráter federativo da nação (convenientemente, Vargas tinha uma nova Constituição pronta sobre a mesa para cimentar suas reformas). Instaurou-se um Estado de Guerra, que duraria até 1945.
A simpatia de Vargas pelo fascismo nunca foi disfarçada. Além de criar uma aparelhagem de propaganda nacionalista, perseguir comunistas e anarquistas e alimentar milícias (como os integralistas, que, contudo, logo sentiriam o peso da mão que os alimentava), Vargas tinha o cuidado de estabelecer relações diplomáticas amistosas com a Alemanha nazista, por exemplo - para onde extraditara a alemã, comunista, e de origem judaica Olga Benário, esposa do seu principal adversário político, Luis Carlos Prestes. O Brasil, contudo, tinha muito pouca autonomia no cenário internacional devido à fragilidade da sua infraestrutura, a indústria insipiente, a dependência do capital estrangeiro para alimentar uma economia baseada em comodities, o analfabetismo crônico da força de trabalho. Quando a guerra eclodiu em 1939, Vargas, que também era pragmático com relação à importância política e econômica dos aliados na Europa e dos Estados Unidos para o Brasil, declarou a neutralidade do país no conflito.
A despeito da relação de Vargas com o Eixo, submarinos alemães estabeleciam sua superioridade no Atlântico atacando navios militares ou das marinhas mercantes de quaisquer países não alinhados. Atacaram tão longe quanto o Rio da Prata. Entre 1939 e 1942, 14 embarcações brasileiras foram afundadas pelos alemães, matando 136 pessoas. A opinião pública a cada incidente se tornava cada vez mais intensa e exaltada. Natal era o porto brasileiro mais próximo da Europa e um dos alvos mais prováveis em caso de um ataque em terra contra o país, além de hospedar uma base militar aliada, de onde partiam os aviões americanos para a África e a Europa. A cidade organizava um esforço de guerra espontâneo de pré-recrutamentos, e do estabelecimento de uma economia de guerra local - racionamento de combustível, doações, divisões de trabalho entre civis para reforçar fortificações, etc. Em março de 1942, Vargas cedeu a pressões de todos os lados (inclusive dos americanos) e passou a vigiar de perto os imigrantes alemães, italianos e japoneses residentes no Brasil (uma rede de espionagem nazista foi desmantelada no Rio de Janeiro). Mas a neutralidade era mantida.
Quando chegou agosto, vários setores da sociedade civil, puxados pelas uniões de estudantes e alguns comunistas (em Natal, especificamente, um dos articuladores fora Vivaldo Vasconcelos, um dos organizadores da Intentona Comunista de 1935 naquela cidade), em várias partes do Brasil se mobilizaram em grandes atos públicos pela declaração de guerra contra a Alemanha. Foi a maior mobilização popular desde o início do Estado Novo.
Na semana que se seguiu, entre os dias 15 e 17, ocorreram mais seis ataques a navios ao largo da costa brasileira, todos operados pelo submarino alemão U-507. No dia 18 novamente a população ocupou as ruas, em número maior, exigindo a entrada do Brasil na guerra. No Rio de Janeiro, políticos de direita e esquerda, acadêmicos, jornalistas, líderes trabalhistas e populares ocuparam palanques e proclamaram seu repúdio à agressão nazista diante de dezenas de milhares de manifestantes. Enquanto isso, uns ou outros corriam as ruas convocando compatriotas a vingarem seu país. Colunistas de jornais insinuavam que os que ficassem em casa ou não deixassem seus postos estavam declarando seu apoio aos nazi-fascistas, e muitos, com receio do que ser considerado inimigo público podia acarretar naquele tempo, engrossaram a multidão. Assim, pelo menos em Belém e Porto Alegre (que eu tenha me informado, é provável ter ocorrido de forma mais generalizada), comerciantes que tentavam afastar a multidão de seus pontos acabavam agredidos e tendo suas lojas depredadas. Pessoas com sobrenomes alemães, inclusive judeus, também eram hostilizadas como "súditos do Eixo", mesmo em cidades onde grandes comunidades de imigrantes já estivesse integradas. Japoneses, que eram mais fáceis de serem reconhecidos, sofreram particularmente com agressões de nacionalistas exaltados. A facilidade com que o discurso nacionalista inflamava a população foi um resultado da retórica nacionalista historicamente empregada por Getúlio Vargas para mobilizar a população em torno de si contra "inimigos externos" (fossem quem fossem) para legitimar suas ações contra adversários políticos.
A resposta de Getúlio Vargas às agitações viria três dias depois, com o reconhecimento do estado de guerra entre o Brasil e os países do Eixo. Foi criada a Força Expedicionária Brasileira, que, contudo, só passaria a recrutar um ano depois (veteranos da FEB desdenhavam o ímpeto nacionalista dos estudantes que foram à rua no 18 de agosto, criticando o baixo número de voluntários durante o processo de recrutamento) e partiria para a Europa em 1944.
Contudo, foi menos a agressão alemã contra a marinha mercante, e menos a pressão popular, e mais a promessa de investimento americano no estabelecimento das instalações da Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda (de quem os aliados se comprometiam a comprar material para seu esforço de guerra), entre outras promessas de ajuda econômica, que levou o governo a tomar posição.
quarta-feira, 3 de junho de 2015
O Projeto Madagascar
Em 3 de junho de 1940, o diplomata alemão Franz Rademacher expôs oficialmente um plano para a deportação de judeus em território nazista para a ilha de Madagascar.
Desde a ascensão nazista, em 1933, o "problema judaico" era um dos cernes das políticas raciais nazistas. Os judeus, acusados de controlar a economia alemã (apesar de sua grande maioria ser de proletários e profissionais liberais) e fomentar o Marxismo, "uma perversão judaica", tinham seus direitos cada vez mais cerceados: perdas progressivas de direitos civis, confinamento em bairros cercados e vigiados (guetos), confisco de bens, incentivos à emigração, depois vieram as deportações, o aprisionamento e confinamento em campos de concentração e trabalhos forçados. Mas mesmo aí os judeus continuavam sendo um "problema" para os nazistas, porque, em última análise, eles ainda tinham que mantê-los vivos de alguma forma.
O extermínio foi a "solução final", decidida em 1942 na Conferência de Wannsee, mas outras alternativas foram propostas anteriormente. Os incentivos à emigração não deram certo, porque poucos, mesmo com toda a repressão, queriam deixar voluntariamente seus lares (a guerra e o recrudescimento da repressão de fato aceleraram a emigração clandestina, sobretudo para a América). As deportações para campos de concentração no estrangeiro não eram tão úteis, porque esses campos ficavam em territórios controlados pelos alemães, e eles ainda teriam que manter os prisioneiros vivos - com a invasão da Polônia, por exemplo, a Alemanha se viu responsável pela vida de 3 milhões de judeus poloneses. Uma alternativa que foi levada a sério foi a deportação para Madagascar.
O Projeto Madagascar, ou as deportações forçadas para "longe", não eram exatamente uma novidade. A União Soviética criou, em 1934, um "Oblast" (região administrativa que corresponde a um estado) especificamente para os judeus soviéticos, onde poderiam exercer autogoverno, se expressar em sua língua (yiddish, não hebraico) e trabalhar livremente. Porém, nas regiões subdesenvolvidas próximas à fronteira com a Manchúria (a Região Autônoma Judaica ainda existe hoje, com o mesmo status, na Rússia, mas a população judaica residente não chega a 2 mil pessoas). Em 1937, o governo polonês estudou a possibilidade de reassentar seus judeus em Madagascar, mas o plano nunca foi adiante, porque os judeus presentes na comissão responsável pelo estudo estimaram que a ilha oferecia condições para menos de 1/10 da população pretendida. Em 1938, ideólogos nazistas examinavam essa possibilidade, e energia foi investida na elaboração do plano apresentado por Rademacher.
Madagascar ainda era uma colônia francesa subdesenvolvida, economicamente quase inerte, que, além de manter os judeus fora da Europa, impediria, por um longo tempo, que eles prosperassem. O plano de Rademacher incluía a transferência de Madagascar para a administração direta alemã como um dos termos de rendição da França, então sob ataque. Em seguida, Rademacher planejou a criação de um banco que usasse os fundos dos próprios correntistas judeus para custear o projeto. A segurança e organização seriam supervisionadas pela SS, de maneira que a colônia seria administrada como um Estado policial (proposta de Adolf Eichmann, contra um governo próprio judaico sob controle alemão pensado por Rademacher). A deportação seria feita em navios, com cerca de 1 milhão de judeus levados por ano durante 4 anos. Funções específicas foram distribuídas entre os ministérios alemães para viabilizar as diferentes etapas do projeto. A primeira providência prática foi a interrupção das deportações na Polônia e da construção do Gueto de Varsóvia, porque não teriam mais utilidade.
Porém, a derrota alemã na Batalha da Bretanha entre julho e outubro daquele ano, e a impossibilidade de conquista imediata da Inglaterra adiaram os planos. Os nazistas pretendiam usar a enorme marinha mercante britânica para realizar o transporte dos judeus para a África. Quando a batalha começou a pender para o lado inglês, em meados de agosto, o alto comando nazista começou a reconsiderar seus planos, e a construção de guetos e as deportações recomeçaram. O plano B, então, era a deportação em massa de judeus para a União Soviética através da Polônia (os soviéticos provavelmente se encarregariam ativamente de tornar as suas vidas o mais miseráveis possível, como eventualmente aconteceu fora do contexto da guerra), mas o fracasso do cerco a Moscou em 1941 levou os nazistas a se inclinarem sobre a possibilidade de extermínio sistemático nos campos de concentração instalados na Polônia.
Embora elaborado com a má intenção de isolar e dificultar ao máximo a vida dos judeus longe da Europa, empobrecidos ao extremo, em um lugar estranho e desprovido de infraestrutura, com a vigilância constante e restritiva da polícia nazista, e mesmo ainda com a possibilidade de mortes por inanição e doenças durante as longas viagens oceânicas, talvez os judeus europeus tivessem uma sorte melhor do que a que lhes aguardava até o fim da Segunda Guerra.
Desde a ascensão nazista, em 1933, o "problema judaico" era um dos cernes das políticas raciais nazistas. Os judeus, acusados de controlar a economia alemã (apesar de sua grande maioria ser de proletários e profissionais liberais) e fomentar o Marxismo, "uma perversão judaica", tinham seus direitos cada vez mais cerceados: perdas progressivas de direitos civis, confinamento em bairros cercados e vigiados (guetos), confisco de bens, incentivos à emigração, depois vieram as deportações, o aprisionamento e confinamento em campos de concentração e trabalhos forçados. Mas mesmo aí os judeus continuavam sendo um "problema" para os nazistas, porque, em última análise, eles ainda tinham que mantê-los vivos de alguma forma.
O extermínio foi a "solução final", decidida em 1942 na Conferência de Wannsee, mas outras alternativas foram propostas anteriormente. Os incentivos à emigração não deram certo, porque poucos, mesmo com toda a repressão, queriam deixar voluntariamente seus lares (a guerra e o recrudescimento da repressão de fato aceleraram a emigração clandestina, sobretudo para a América). As deportações para campos de concentração no estrangeiro não eram tão úteis, porque esses campos ficavam em territórios controlados pelos alemães, e eles ainda teriam que manter os prisioneiros vivos - com a invasão da Polônia, por exemplo, a Alemanha se viu responsável pela vida de 3 milhões de judeus poloneses. Uma alternativa que foi levada a sério foi a deportação para Madagascar.
O Projeto Madagascar, ou as deportações forçadas para "longe", não eram exatamente uma novidade. A União Soviética criou, em 1934, um "Oblast" (região administrativa que corresponde a um estado) especificamente para os judeus soviéticos, onde poderiam exercer autogoverno, se expressar em sua língua (yiddish, não hebraico) e trabalhar livremente. Porém, nas regiões subdesenvolvidas próximas à fronteira com a Manchúria (a Região Autônoma Judaica ainda existe hoje, com o mesmo status, na Rússia, mas a população judaica residente não chega a 2 mil pessoas). Em 1937, o governo polonês estudou a possibilidade de reassentar seus judeus em Madagascar, mas o plano nunca foi adiante, porque os judeus presentes na comissão responsável pelo estudo estimaram que a ilha oferecia condições para menos de 1/10 da população pretendida. Em 1938, ideólogos nazistas examinavam essa possibilidade, e energia foi investida na elaboração do plano apresentado por Rademacher.
Madagascar ainda era uma colônia francesa subdesenvolvida, economicamente quase inerte, que, além de manter os judeus fora da Europa, impediria, por um longo tempo, que eles prosperassem. O plano de Rademacher incluía a transferência de Madagascar para a administração direta alemã como um dos termos de rendição da França, então sob ataque. Em seguida, Rademacher planejou a criação de um banco que usasse os fundos dos próprios correntistas judeus para custear o projeto. A segurança e organização seriam supervisionadas pela SS, de maneira que a colônia seria administrada como um Estado policial (proposta de Adolf Eichmann, contra um governo próprio judaico sob controle alemão pensado por Rademacher). A deportação seria feita em navios, com cerca de 1 milhão de judeus levados por ano durante 4 anos. Funções específicas foram distribuídas entre os ministérios alemães para viabilizar as diferentes etapas do projeto. A primeira providência prática foi a interrupção das deportações na Polônia e da construção do Gueto de Varsóvia, porque não teriam mais utilidade.
Porém, a derrota alemã na Batalha da Bretanha entre julho e outubro daquele ano, e a impossibilidade de conquista imediata da Inglaterra adiaram os planos. Os nazistas pretendiam usar a enorme marinha mercante britânica para realizar o transporte dos judeus para a África. Quando a batalha começou a pender para o lado inglês, em meados de agosto, o alto comando nazista começou a reconsiderar seus planos, e a construção de guetos e as deportações recomeçaram. O plano B, então, era a deportação em massa de judeus para a União Soviética através da Polônia (os soviéticos provavelmente se encarregariam ativamente de tornar as suas vidas o mais miseráveis possível, como eventualmente aconteceu fora do contexto da guerra), mas o fracasso do cerco a Moscou em 1941 levou os nazistas a se inclinarem sobre a possibilidade de extermínio sistemático nos campos de concentração instalados na Polônia.
Embora elaborado com a má intenção de isolar e dificultar ao máximo a vida dos judeus longe da Europa, empobrecidos ao extremo, em um lugar estranho e desprovido de infraestrutura, com a vigilância constante e restritiva da polícia nazista, e mesmo ainda com a possibilidade de mortes por inanição e doenças durante as longas viagens oceânicas, talvez os judeus europeus tivessem uma sorte melhor do que a que lhes aguardava até o fim da Segunda Guerra.
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