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sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Justo entre as nações

Em 9 de outubro de 1974 faleceu Oskar Schindler, empresário membro do Partido Nazista, responsável direto pela sobrevivência de 1200 judeus, muitos dos quais já haviam sido encaminhados para a morte na câmara de gás em Auschwitz.

A história de Oskar Schindler é uma das mais célebres do período da Segunda Guerra Mundial. Jovem problemático (expulso da escola, preso após bebedeiras, filhos fora do casamento), membro do Partido Alemão dos Sudetos (braço do Partido Nazista na Tchecoslováquia), espião da inteligência alemã na Tchecoslováquia e na Polônia (onde contribuiu com informações para as invasões alemãs a estes países), constituiu riqueza com o mercado negro de comida, bebida, cigarros e artigos de luxo, e investiu em uma indústria de armas e munições nesse país, a serviço da Wehrmacht. Na sua fábrica, empregava muitos judeus poloneses que trabalhavam quase de graça, dando-lhe lucros formidáveis.

Como esses mesmos judeus eram visados pela polícia polonesa e pelos agentes alemães, ele procurava escondê-los, ou intervia em seu favor, não porque se importasse particularmente com eles de início, mas porque sua mão de obra era muito mais barata do que as de operários poloneses não-judeus. Em muitos casos, essas intervenções vinham na forma de subornos (usando sua rede de mercado negro para oferecer produtos estrangeiros ou objetos de valor expropriados pelos nazistas). Em uma ocasião, um agente da SS veio buscar uma família de trabalhadores judeus com documentos falsos. Ele ordenou ao chefe da família que arriasse as calças e andasse por ali para a sua diversão. Schindler argumentou que aquilo quebrava a disciplina da fábrica e prejudicaria o andamento da produção. Quando o oficial apontou a arma para o homem, Schindler gritou "não atire, e eu lhe dou uma bebida!". Os dois entraram no escritório e saíram abraçados e bêbados. A importância estratégica do seu negócio para os alemães dava-lhe uma vantagem nas negociações em torno dos seus empregados judeus.

Com o tempo, Schindler começou a abrigar as famílias dos seus empregados, dando-lhes empregos de fachada (inclusive para as crianças), para colocá-los sob sua proteção. Também recorria a seus homens de confiança (também judeus, que trabalhavam na parte administrativa da fábrica) para lhe indicarem judeus em campos de concentração que pudessem ser empregados. Como Schindler tinha conhecimento do funcionamento da Wehrmacht pela sua experiência como espião, e pelos contratos da sua fábrica, ele deduziu em algum momento em 1943 que os judeus estavam sendo presos para trabalhar em campos de trabalhos forçados, e os que não tinham condições, estavam sendo enviados para campos de extermínio. Foi essa realização do que os nazistas estavam fazendo com os judeus que o fizeram virar a mesa e tomar uma atitude irredutível de proteção aos judeus. Os repetidos subornos de oficiais nazistas, o emprego de crianças e mulheres que, na verdade, pouco produziam, e a própria manutenção dos seus empregados (alimentados e medicados na própria fábrica) começaram a drenar seus recursos rapidamente. Em um dos casos, o diretor do campo de concentração de Plaszow, um oficial da SS chamado Amon Göth, com uma fama de sádico que mantinha seus internos nas piores condições possíveis e os executava aleatoriamente exigiu que as fábricas da região fossem transportadas para dentro do campo. Schindler teve que suborná-lo não apenas para manter suas operações fora do campo, mas também para convencê-lo a mandar 450 trabalhadores judeus das outras fábricas próximas para a sua. O caso lhe rendeu uma semana na prisão, em decorrência de uma investigação de abuso de poder e corrupção contra Goth.

Quando os soviéticos começaram a avançar pela fronteira polonesa, os nazistas começaram a recuar e a fechar as operações, inclusive dos campos de prisioneiros. Os internos passaram a ser transportados para outros campos convertidos para funcionarem como campos de extermínio. A fábrica de Schindler também estava fadada a ser fechada. Oskar conseguiu convencer Berlim a manter a fábrica funcionando na Tchecoslováquia, com um projeto de produção de munição anti-tanques, garantindo que os judeus sob sua jurisdição seriam poupados. Além dos cerca de 1000 funcionários que já abrigava, Schindler acrescentou mais 200 nomes (funcionários de uma fábrica de tecidos que seria fechada) à sua lista de judeus que seriam encaminhados às novas instalações em Brunnlitz. O transporte deste contingente seria feito pelos trens que levavam demais judeus aos campos de Auschwitz e Gross-Rosen (então operando como campos de extermínio). Trezentas mulheres da lista de Schindler acabaram encaminhadas para o extermínio em Auschwitz, e foi graças a um pesado suborno que ele conseguiu a sua liberação. Além delas, outras 3000 mulheres foram reencaminhadas para fábricas nos Sudetos. No inverno de 1945, um trem com 250 judeus doentes demais para trabalhar (havia 20 mortos nos vagões) chegou a Brunnlitz, e Emilie, a esposa de Oskar, os encaminhou à fábrica, onde lhes deu abrigo e cuidados. A fábrica em si não produzia coisa alguma, e as suspeitas de que os Schindler estavam apenas abrigando judeus (o que os colocava em risco de pena de morte) os obrigava a distribuir propinas regularmente para evitar a sua prisão.

Toda esta carreira é belissimamente retratada em filmes (A Lista de Schindler, para quem ainda não assistiu), mas ela geralmente para por aí. A sua biografia segue, e não tem um final muito feliz. Sua vida foi atribulada depois da guerra.

Com a rendição da Alemanha, os judeus sob os cuidados de Schindler estava relativamente a salvo. Porém, o próprio Schindler corria o risco de ser capturado pelos soviéticos, que ocupavam a Tchecoslováquia, e julgado por crimes de guerra pela sua atividade como espião. Vários dos judeus que trabalhavam para ele redigiram uma carta a ser apresentada aos americanos atestando o seu papel em salvar as suas vidas. Com a carta, os Schindler reuniram tudo que lhes restava e fugiram para o oeste. Oficiais russos no caminho confiscaram o seu carro (e ficaram com um diamante escondido sob o banco), e eles continuaram a pé até a cidade fronteiriça de Lenora. Através de um oficial judeu americano, conseguiram passar à Suíça. No final do ano, conseguiram retornar à Alemanha. Mas os gastos com a manutenção de funcionários judeus numa fábrica que não fabricava nada, e as constantes propinas os deixaram completamente falidos. Oskar passou a ser sustentado com a ajuda vinda de organizações judaicas (às vezes, a ajuda consistia apenas em alimentos e cigarros, mas Schindler se constrangia em pedir mais). Judeus americanos criaram um fundo para recompensar o patrimônio confiscado de judeus na Europa, e gastos empreendidos à assistência de judeus durante a Guerra, e através dele Schindler resgatou cerca de 15 mil dólares. Não era o suficiente para tentar um novo negócio, mas o suficiente para emigrar à Argentina e tentar uma nova vida criando galinhas e nútrias (roedores de grande porte valorizados pela sua pele). Em 1958, depois de se divorciar de Emilie, ele fechou sua fazenda. Retornou à Alemanha, onde tentou abrir novos negócios que também fracassaram.

Entre 1963 (quando recebeu do governo de Israel o título honorífico de "Justo entre as nações") e a sua morte em 1974, Oskar viveu exclusivamente do dinheiro vindo de doações angariadas pelos sobreviventes da sua fábrica, a maioria vivendo em Israel e nos Estados Unidos. Nos seus últimos dias, viveu de favor no apartamento do amigo Heinrich Staehr, carregando consigo apenas uma maleta com fotos, cartas e recordações do tempo da guerra, inclusive uma cópia da sua lista de 1200 nomes. Com a saúde fragilizada por conta de um infarto, faleceu aos 66 anos em Hildesheim, na Baixa Saxônia. Seu desejo era ser enterrado em Jerusalém, porque "meus filhos estão lá". É o único membro do Partido Nazista sepultado em Israel.

Antes de fugir da Tchecoslováquia, seus funcionários lhe confeccionaram um anel, feito de um dente de ouro, onde gravaram: "Aquele que salva uma vida, salva o mundo inteiro".

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Águias perdidas na floresta de Teutoburgo

Em 9 de setembro do ano 9 d.C., três legiões romanas foram aniquiladas por uma coalizão de tribos germânicas na Batalha de Teutoburgo.

Nos seus últimos anos, a República Romana avançou suas fronteiras sobre a Gália, atual França, estabelecendo uma nova linha de fronteira ao longo do rio Reno. A Gália havia muito era habitada por povos celtas, que viviam assentados em vilas e aldeias e cultivavam a terra, de maneira que aquele novo território se tornou prontamente uma valiosa aquisição para a economia romana, ao mesmo tempo em que o modo de vida romano não pareceria tão estranho aos povos nativos, que continuariam vivendo e produzindo mais ou menos como já vinham fazendo. A conquista da Gália rendeu ao seu comandante, Júlio César, prestígio suficiente para se tornar a figura mais influente de todo aquele império "republicano", desencadeando uma série de eventos que levaria à transformação de Roma em um império de fato, sob seu herdeiro Otaviano Augusto.

A nova fronteira se mostrou bastante prática. Era possível navegar em vias fluviais do Mediterrâneo até a foz do Reno, na Holanda, com curtas passagens por terra, evitando a longa e perigosa volta pelo Atlântico. Além disso, como a Gália já possuía uma infraestrutura de abastecimento de homens e víveres, as fortalezas fronteiriças poderiam ser sustentadas sem grandes dispêndios. A nascente do Reno, nos Alpes, fica a poucos quilômetros de terreno montanhoso da nascente do rio Danúbio, que os romanos também controlavam em todo o seu curso. A linha Reno-Danúbio era tão eficaz que sustentou a fronteira do império na Europa, a despeito de todos os seus problemas e crises internas, até meados do século V. Quando consolidada a conquista da Gália, os romanos dividiram as terras ao longo do Reno em duas províncias, a Germania Superior e a Germania Inferior.

O nome Germania derivava da designação genérica que os romanos davam aos povos que habitavam o norte da Europa. De fato, foi o próprio Júlio César quem primeiro reportou os povos "bárbaros" das florestas do norte como "germanos", mais especificamente Germani Cisrhenani ("germanos d'além Reno"). Além do Reno, várias tribos de uma mesma família linguística, que hoje conhecemos como germânica, vinham migrando do norte, da Escandinávia e do norte da Alemanha e da Polônia desde pelo menos o século VIII a.C., deslocando os povos célticos que ali habitavam em direção à Gália ou à Grã-Bretanha. Foi esse movimento migratório de tribos germânicas em direção ao sul e à Gália (a Bélgica já era ocupada por tribos germânicas) que motivou a campanha de César. Esses povos migrantes ainda estavam completando o período formativo de sua própria civilização, habitando aldeias esparsas e praticando a agricultura e pastoreio rústicos em torno de suas vilas, deixando a maior parte das florestas intocadas. A visão de um observador romano olhando para o leste da nova fronteira, na Bélgica, seria de uma região assombrosamente selvagem e primitiva, e seus habitantes igualmente selvagens. Essa região inóspita para o estilo de vida romano ficou conhecida como Germania Magna.

César advogava que os germanos, a contrário dos celtas, eram violentos e incivilizados, representavam um perigo para os romanos, e por isso precisavam ser conquistados. Durante o governo de Otaviano, Roma fortificou sua fronteira ao longo do Reno. Apesar de todas as vantagens, Otaviano via com bons olhos o avanço da fronteira sobre a porção de terras cobertas por florestas da Germania Magna até o rio Elba, que corta o centro da atual Alemanha, reduzindo significativamente a extensão de fronteira a ser defendida, e absorvendo um grande contingente de germanos para o seu império. Na virada do milênio, uma confederação de tribos germânicas mais próximas à fronteira romana, "march men", "homens da fronteira", ou marcomanos, vinham fustigando as posições romanas na Germania Superior. Essa força súbita dos marcomanos se devia ao movimento causado pela campanha bem sucedida de Nero Cláudio Druso (pai do futuro imperador Cláudio) em 9 a.C., e outra liderada por Tibério (outro futuro imperador), chegando a atravessar o rio Wesser, que atravessa a atual cidade de Bremen (cuja foz está a cerca de 50 km da foz do Elba), que levou esses marcomanos a entrar em território ocupado por outras tribos e estabelecer alianças. O rei eleito entre eles, Maroboduo, ainda teve que suportar uma campanha ainda maior, com mais de 80 mil soldados romanos Germania adentro, no ano 6 d.C.. Ele conseguiu se sustentar porque Tibério teve que recuar para atender a uma rebelião na Ilíria.

Com os marcomanos acuados, Otaviano lançou mão de Públio Quntículo Varo, administrador experiente e impiedoso, para consolidar a ocupação romana na Germania, onde já contavam com pelo menos dois fortes. A seu serviço, apenas três legiões, a XVII, a XVIII e a XIX (as três legiões com experiência contra os germanos na campanha anterior), enquanto outras estavam mobilizadas na Ilíria. Foi neste momento em que Armínio entrou em cena.

A campanha de Druso trouxe para Roma como refém Armínio, jovem de família nobre da tribo germânica dos queruscos. Armínio foi educado e treinado nas artes militares, chegando a conseguir cidadania romana e uma posição na classe dos equites ("cavaleiros", geralmente funcionários públicos, donos de negócios, algo que se poderia comparar com uma classe burguesa). Sua posição e nascimento lhe garantiam influência sobre outros germanos dentro do império, e assim ele liderou um destacamento de queruscos a serviço dos romanos durante a conquista da Panonia (atual Hungria). No ano 7 d.C., ele retornou à Germania além do Reno, conquistando a lealdade das tribos recém subjugadas por Roma, tribos anteriormente inimigas entre si, ganhando a confiança de Públio Varo. Mas logo ele começou a conspirar contra os romanos.

Em 9 d.C., Armínio procurou Varo para denunciar uma rebelião no norte da Germania. Com a orientação de Armínio, Varo conduziu suas três legiões em direção à foz do Wesser, em terreno desconhecido. Em um certo momento, o chefe germânico deixou o destacamento sob pretexto de arregimentar as tribos locais para dar suporte à expedição. Mas assim que saiu das vistas de Varo, Armínio começou a comandar uma série de ataques às guarnições romanas deixadas para trás, cortando comunicações e linhas de suprimentos. Os romanos não marchavam em formação de combate, e enfrentavam um temporal, com terreno encharcado e estreito, estendendo a linha de marcha em talvez 20 quilômetros. Varo não mandara nenhum batedor à frente confiando nas direções de Armínio. Em 7 de setembro, na floresta de Teutoburgo, perto de Onasbrück, os germanos comandados por Armínio saíram em torrentes das florestas ao redor para combater o exército desorganizado. A reação de Varo e seus comandantes foi imediata, mas o conhecimento militar de Armínio foi decisivo, direcionando seus homens para responder às manobras defensivas romanas, concentrando-os em pontos específicos da linha inimiga onde pudesse impor alguma superioridade numérica.

Os romanos sustentaram o ataque até a noite, quando montaram um acampamento fortificado perto da atual Ostercappeln, de onde tentaram uma retirada organizada na manhã seguinte. Muitos dos que tentaram deixar o acampamento, contudo, foram abatidos pelos germanos que inundavam as florestas ao redor. Os que escaparam deveram sua sorte à chuva, que inutilizava as cordas dos arcos e encharcava os escudos dos agressores posicionados para impedir sua fuga. Na noite seguinte, os romanos arriscaram uma marcha pela passagem estreita entre a floresta e a colina de Kalkriese, em Onnasbrück. Ali, os germanos cavaram uma trincheira bloqueando o caminho, e na margem da floresta levantaram uma barreira de terra. Na manhã de 9 de setembro, os romanos foram emboscados e aniquilados. Os que não tombaram pelas espadas e dardos germânicos, suicidaram-se à maneira considerada digna pelos militares romanos, atirando-se sobre suas próprias espadas para evitar serem capturados. Cerca de 20 mil dos 30 mil legionários romanos foram mortos. Armínio enviou a cabeça de Varo a Maroboduo, que àquela altura estava atacando o Danúbio. As águias de bronze, que vinham sobre os estandartes de cada legião, se tornaram tesouros para os germanos.

A derrota de Varo foi recebida com assombro em Roma. A Germania Magna foi abandonada, e as guarnições de fronteira voltaram a reforçar as defesas ao longo do Reno. Ela significou o fim da expansão romana no norte da Europa continental, embora os romanos, eventualmente, enviassem expedições punitivas contra germanos quando estes atacavam a fronteira. A mais importante dessas expedições, liderada por um filho de Druso, Germânico, já sob o governo de seu tio Tibério, resgatou duas das três águias imperiais em poder de Armínio, o que fez de Germânico um herói em Roma e arruinou o poder de Armínio entre seus aliados. Uma campanha em 41 d.C. recuperou a terceira águia, e uma última nove anos depois derrotou um bando da tribo dos catos na outra margem do Reno e resgatou alguns prisioneiros romanos das legiões de Varo, mantidos em cativeiro havia 40 anos. Apesar das campanhas punitivas bem sucedidas - a campanha de Germânico arrasou as tribos locais durante dois anos - os romanos nunca mais tentaram povoar a região. É possível que, com o tempo, a ideia de avançar a fronteira até o Elba tenha sido vista com mais reservas, devido às dificuldades logísticas - as rotas de abastecimento teriam que ser feitas por terra, ou por navegação oceânica. A numeração das três legiões perdidas nunca mais foi utilizada.

A derrota em Teutoburgo poderia ter sido mais trágica para Roma se não fosse uma rivalidade repentina surgida entre Armínio e Maroboduo - o rei marcomano, ao receber a cabeça de Varo com uma proposta de aliança, recusou-a e a enviou de volta a Otaviano em sinal de respeito, e quando Germânico marchou contra o querusco, Maroboduo se manteve neutro. A união entre os dois chefes germânicos, atacando simultaneamente em dois pontos da fronteira, poderia ter comprometido o domínio romano no Danúbio e na própria Gália. Ao invés disso, eles entraram em guerra em 17 d.C.. Uma manobra romana devolveu aos marcomanos um nobre local sob sua tutela, e Maroboduo fugiu para a Itália, onde morreu após 18 anos na prisão. Armínio morreu em 21 d.C., assassinado por rivais queruscos.

A Germania Magna, da qual os romanos abriram mão após Teutoburgo, continuou a ser o caldeirão onde as tribos germânicas se desenvolviam e se moviam, e apoiavam seus eventuais ataques às fronteiras. Um surto de movimentos migratórios em cadeia, originados pela migração dos hunos vindos do norte do Mar Negro no século IV, empurraria as tribos germânicas furiosamente contra as fronteiras do império até que elas não resistissem mais. Sob essa perspectiva, Teutoburgo poderia representar a primeira grande derrota do Império Romano, uma com consequências fatais a longo prazo. Os povos germânicos que furaram o bloqueio e estabeleceram-se em território romano, e os que permaneceram no centro e no norte da Europa, contribuíram para a formação étnico-linguística e a reorganização política e social do continente (e do mundo afora) até os dias de hoje.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

A Noite das Facas Longas

Entre 30 de junho e 2 de julho de 1934, esquadrões da SS e da Gestapo levaram a cabo a Operação Colibri, mais tarde conhecida como a Noite das Facas Longas, um extenso expurgo de alas do Partido Nazista não alinhadas com Adolf Hitler e outros opositores. Foi o último passo da escalada nazista ao poder supremo na Alemanha.

Um dos ítens do Tratado de Versailles assinado pelos participantes da Primeira Guerra Mundial era a limitação do exército alemão em 100 mil homens. Ex militares descontentes, ou desorientados com sua nova vida civil, se organizaram em milícias irregulares de mercenários conhecidas como Freikorps, que permaneceram em atividade durante todo o regime de Weimar, engajando-se ativamente em ações violentas contra ou a favor do novo governo alemão e seus apoiadores. Como também atuavam contra núcleos marxistas, o próprio governo se omitia em reprimí-los (o Ministério da Defesa empregou Freikorpse para reprimir a formação de um Estado soviético na Bavária em 1918, e eliminar o levante comunista liderado por Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo em 1919).

Na Alemanha pós-guerra surgiu um conceito muito particular de socialismo, o "Socialismo Prussiano", moldado por um sentimento fortemente anti-britânico, que rejeitava o liberalismo e a democracia parlamentarista, e advogava um socialismo dissociado do marxismo (que era um socialismo "britânico"), onde a igualdade entre os alemães emergiria não de rupturas econômicas e sociais entre burgueses e proletários, ou seja, da luta de classes, mas de qualidades coletivas romanticamente inerentes ao povo alemão - criatividade, disciplina, produtividade, preocupação com o bem maior, e auto sacrifício. A revolução socialista não passaria pela coletivização da propriedade privada, mas pelo corporativismo e o senso de responsabilidade coletiva, unidade e orgulho nacional. O ideólogo dessa modalidade de socialismo, Oswald Spengler, declarou ipsis literis: "Marx ist tot", Marx está morto.

O Socialismo Prussiano como chamado ao ultranacionalismo caiu como uma luva na Alemanha derrotada, e foi o trilho que orientou a ideologia da grande maioria das Freikorpse e associações políticas baseadas nelas. Entre elas, o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. É extremamente comum ver pessoas associando os nazistas aos "comunistas" porque o nome do partido inclui a palavra "Socialista" e sua bandeira a cor vermelha, e também marxistas incautos embaraçados tentando contornar o assunto desastradamente, mas a verdade é que o Nacional Socialismo, contraído na palavra "nazismo", refere-se ao Socialismo Prussiano virulentamente anti comunista e ultranacionalista (o marxismo é profundamente transnacional). As diretrizes nazistas quanto à unidade racial ariana derivam diretamente dessa doutrina - a unidade nacional só seria possível com a eliminação, voluntária ou forçada, de elementos estranhos à "raça alemã", os judeus, ciganos, eslavos, africanos, deficientes físicos e mentais, homossexuais, e grupos insubmissos como Testemunhas de Jeová e opositores políticos, como os próprios comunistas.

Houve um incidente nos primórdios do Partido Nacional Socialista, quando era o Partido dos Trabalhadores Alemães. Um de seus fundadores, Gottfried Fedder, terminou seu discurso no comitê em Munique, quando um convidado, um certo professor Baumann, argumentou que o programa do partido não se opunha propriamente ao capitalismo e que a Bavária devia se separar da Prússia e tomar seu próprio caminho. Adolf Hitler, originalmente um militar bávaro infiltrado, o rebateu com sua veemência oratória que lhe seria característica, conquistando a maioria presente, e expulsando o professor da reunião. Hitler foi abordado por outro fundador do partido, Anton Drexler, um rábico nacionalista e antissemita, e convidado a integrar as suas linhas. Hitler se tornaria o principal porta-voz do partido, e um dos idealizadores do seu programa oficial, um programa fundamentalmente antissemítico, anticapitalista, antidemocrático, antimarxista e antiliberal, ao mesmo tempo. No mesmo dia em que Hitler expunha esse programa a uma platéia de 2000 pessoas, o partido mudou de nome. O programa agregava Freikorpse dominadas por ideologias similares, incluindo membros notórios dessas facções, como Ernst Röhm e Heinrich Himmler. O grupo de Himmler (o "Batalhão de Choque da Baixa Bavária") foi inteiramente absorvido pelos nazistas.

Hitler se tornou líder do partido em 1921, após ameaçar abandoná-lo se não fosse instituído como tal no lugar de Drexler (outros líderes menos simpáticos a Hitler também foram expulsos). Ao mesmo tempo, uma Freikorps interna surgia no partido, os Camisas Marrons, ou SA (de "Sturmabteilung"), liderada por Röhm, que fazia o "trabalho sujo" de recrutamento e intimidação, enquanto Hitler se encarregava da política. Em 1923 a França ocupou a região do Ruhr, largamente industrializada, como parte do acordo pelo não ressarcimento pelos danos da Primeira Guerra pelo governo alemão, causando caos econômico no país. Com esse cenário, e sentindo a robustez do partido, Hitler tentou um golpe a partir de Munique, mas foi "traído" pelos militares que não apoiaram a revolta (apesar de algumas promessas) e foi preso. Na cadeia, escreveu no Mein Kampf sua visão indissociável de que a soberania alemã dependia da eliminação dos judeus (que ele acreditava serem os operadores do liberalismo europeu e americano que esmagavam a economia alemã, e ao mesmo tempo engendradores do marxismo, essa "perversão judaica").

Ao sair da cadeia, Hitler reformulou o Partido Nazista em torno de si mesmo, decidindo entrar no jogo democrático do período de Weimar. Ainda assim, a SA continuou operando de maneira semi-independente a favor dos nazistas. A SS (a polícia interna do partido) surgiu como uma espécie de segurança pessoal de Hitler, e acabaria assumindo, no limite da legalidade, alguns papéis da SA, porém com membros exclusivamente afiliados ao partido. Embora sem muito sucesso nas primeiras eleições (nas quais contestava abertamente os resultados oficiais), em parte por conta da relativa estabilidade econômica de meados dos anos 1920, o partido crescia graças a um trabalho primoroso de propaganda e uma estrutura rigorosamente eficiente de recrutamento.

Gregor Strasser, um antigo membro de uma Freikorps de extrema direita e ex-SA, participante da tentativa de golpe de 1923, era o encarregado da propaganda. Com sua capacidade de organização, foi responsável direto pelo fortalecimento dos nazistas fora da Bavária, em regiões menos desenvolvidas no norte e no leste, bem como Alemanha afora. Mas houve um detalhe. Seu irmão Otto, também político e membro do partido, tinha inclinações mais à esquerda, com uma visão ligeiramente mais ortodoxa do socialismo, acreditando na intervenção do Estado em ações baseadas na luta de classes em favor dos trabalhadores. Os dois, juntos, trabalhavam num jornal do partido, e como Otto atuava como jornalista, o teor do Berliner Arbeiterzeitung (e posteriormente de outro jornal dos irmãos, o Nationaler Sozialist) estava mais à esquerda do que a direção do partido pretendia. Otto foi expulso em 1930 e Gregor permaneceu no cargo, gozando de grande prestígio no núcleo nazista de Berlim. O novo secretário de propaganda, porém, passaria a ser Joseph Goebbels, que baniria o jornal dos irmãos Strasser. Hitler, então, veio a público para se opor à corrente de esquerda de Gregor (academicamente conhecida como Strasserismo).

Com a crise econômica do começo dos anos 1930, os nazistas deixaram de ter apenas uma militância forte para ganhar o apoio da classe média. Com uma representatividade significativa no parlamento alemão, o chanceler Kurt von Schleicher ofereceu a Gregor Strasser a vice-chancelaria, na esperança de que, alimentando a corrente de esquerda, ele desarticularia o Partido Nazista. Hitler ordenou que ele recusasse. Pouco depois Strasser deixou o partido.

Em 1932 Hitler perdeu a eleição presidencial para o velho conservador Paul von Hindenburg, que compôs com ele um governo de coalizão. Quatro semanas depois da nomeação de Hitler ao cargo de Chanceler, ocorreu um incêncio do parlamento, causado, segundo apurado na época, por um solitário comunista holandês (as dúvidas de que ele teria conseguido agir sozinho joga uma luz na possibilidade dos nazistas terem orquestrado o ato). Foi o pretexto para Hitler declarar que havia um golpe comunista à vista. Ele convenceu Hindenburg a suspender liberdades civis e a ordenar a prisão de todos os membros do Partido Comunista da Alemanha, inclusive os seus parlamentares. Sem franca oposição, Hitler passou a governar com o parlamento dominado pelos nazistas. Contudo, havia ainda dois empecilhos para exercer o poder político total. Além do Strasserismo, irradiado entre opositores dentro e fora do partido, ainda havia a SA.

A SA continuava operando clandestinamente em conluio com os nazistas na repressão violenta a manifestações contrárias ao regime. Contudo, ainda assim ela mantinha autonomia, por exemplo, no recrutamento: um relatório de 1933 denunciava que 70% dos recrutas eram ex comunistas, além de um grande número de homossexuais (inclusive Röhm), o que contrastava com o rigor quanto à afiliação ao Partido Nazista. Essa independência também significava que não havia financiamento oficial à corporação, obtido por extorsão a comerciantes e pagamento de resgates. Ernst Röhm levava a sério a veia "socialista" do Nacional Socialismo, cobrava reformas genuinamente socialistas do regime, e dizia que a revolução havia apenas começado. Sua visão à esquerda preocupava os industriais que financiavam o partido, e a autonomia da SA, cada vez maior e melhor armada, punha Hitler em conflito com o exército regular (ainda limitado pelo Tratado de Versailles). Hindenburg, aliado incondicional das forças armadas, pressionou Hitler para dar um fim à SA, sob a ameaça dissolver a chancelaria e decretar lei marcial. Hitler hesitava em agir contra seu amigo Röhm, mas a pressão política era insustentável.

Para eliminar Röhm, Strasser e outros dissidentes, os nazistas contaram com a SS (ao contrário da SA, extremamente disciplinada e sob estrito controle do círculo mais próximo a Hitler) e a Gestapo, o serviço secreto que os nazistas haviam aparelhado, e também estava sob controle cerrado. No final de junho Hitler se encontrou com Röhm em um resort perto de Munique, e ordenou sua prisão. Com os principais membros da SA presos, Hitler telefonou para Hermann Goering em Berlim e disse o código: "Colibri". Imediatamente, esquadrões da SS e da Gestapo localizaram, prenderam e executaram pelo menos 85 opositores, entre membros da SA, associados de Strasser (incluindo Gregor), políticos conservadores e alguns desafetos pessoais de Hitler (como o delegado que ordenou a sua prisão em 1921). Röhm também foi executado em sua cela com três tiros no peito, após ter recusado o suicídio. Havia uma lista prévia com os nomes destas pessoas marcadas para morrer. Um oficial da Gestapo dizia ter visto Hitler, de volta a Berlim, recebendo essa lista e conferindo os nomes um a um, enquanto Goering e Himmler descreviam ao seu ouvido como cada um foi executado.

Estima-se que mais de 100 pessoas, alguns por acidente, outros por conveniência, tenham sido mortas nos ataques que ficariam conhecidos como a Noite das Facas Longas. Os nazistas se encarregaram de amenizar o horror e a publicidade inevitável das execuções sumárias divulgando boatos de conspirações comunistas, ou sobre um suposto financiamento francês a Röhm (cuja sexualidade, conhecida desde o início pelo comando nazista, fora intencionalmente exposta) para assassinar Hitler. Documentos sobre a organização do ataque foram queimados. No dia 13 de julho Hitler discursou em rede nacional, onde alegou ter agido rapidamente como "o juiz supremo do povo alemão" para eliminar traidores e "cauterizar até a carne as úlceras" da nação para trazer novamente a ordem e a segurança, e alertar a todos que os que levantassem a mão contra o Estado encontrariam a morte. Sem oposição política (Hindenburg recebeu em seu gabinete um memorando solicitando sua intervenção junto à Suprema Corte para investigar as ações de Hitler, que ele ignorou), com apoio efusivo do empresariado alemão e do exército, e a opinião pública inabalada, a Alemanha chegou a um ponto sem volta.

P.S.: Ontem faleceu Sir Nicholas Winton, corretor de ações britânico que visitou a turismo a Tchecoslováquia semanas antes da ocupação nazista em 1938. Alertado por um amigo residente em Praga do que os judeus estariam sujeitos naquele país sob o nazismo, ele sozinho organizou a fuga e a adoção por famílias britânicas (atendendo às exigências da lei britânica) de 669 crianças judias, Ele conseguiu chegar de trem e embarcar as crianças clandestinamente na Holanda, então fechada para imigrantes judeus. Um último trem com 250 crianças foi interceptado antes de sair de Praga, quando a guerra já estava declarada. A maioria dos pais daquelas crianças morreu em Auschwitz.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Então eles vieram por mim

Em 01 de julho de 1937 o pastor luterano Martin Niemöller foi preso, acusado de "atividades contra o Estado" pelo regime nazista.

O reverendo Niemöller era um conservador e um nacionalista notório, como eram de maneira geral os líderes das igrejas luteranas alemãs. Diante da campanha ultranacionalista que levou o partido nazista ao poder em 1933, ele deu as boas vindas ao novo chanceler Adolph Hitler. Ele apoiava a perseguição aos comunistas (que ele via como promotores do ateísmo) e deixava transparecer opiniões antissemitas em seus sermões, embora ele discordasse das políticas racistas contra a etnia em si, protegendo judeus convertidos ou cristãos filhos de judeus na sua igreja.

O ponto de tensão entre Niemöller e o programa nazista veio desse detalhe. Niemöller, junto com outros pastores protestantes, se opunha à perseguição determinada por raça, uma vez que suas igrejas abrigavam fiéis de todas as etnias, inclusive de origem judaica. Em 1934 ele ajudou a fundar a Igreja Congregacional em resposta à pressão do governo em "nazificar" as igrejas protestantes. Essa exigência do governo batia de frente com uma promessa que Hitler lhe fez pessoalmente antes de se tornar chanceler de que protegeria a igreja e que não haveria aprisionamentos e confinamento de judeus na Alemanha. No entanto, até pelo menos 1935, o reverendo ainda atacava os judeus de fé, insinuando em pregações que eles estavam sofrendo um castigo merecido.

A sua atitude ambivalente, possivelmente uma aposta dupla em pretos e vermelhos, acabou dando errado. A sua resistência em levar para as igrejas o programa nazista acabou levando-o para a prisão. Depois de 8 meses encarcerado, ele foi condenado a 7 meses de prisão e multa. Como ele já havia cumprido o termo em prisão provisória, foi liberado imediatamente sob pagamento de multa. Mas ao deixar o tribunal, foi novamente preso por agentes da Gestapo e conduzido ao campo de concentração de Sachsenhausen.

Confinado junto a outros presos políticos cujas prisões ele apoiara antes, sujeito agora às mesmas privações, violências, e vendo suas vidas ceifadas sem qualquer piedade, Niemöller refletiu profundamente sobre suas atitudes e reconheceu o erro em apoiar Hitler. Eventualmente ele seria transferido para o campo de Dachau, e de lá, em 1945, seria transportado para a Áustria, mas o transporte foi abandonado pela SS em vista do crescente avanço aliado em direção à Alemanha. Ali ele foi libertado.

A partir de 1946, Niemöller passou a pedir perdão pela sua inação diante dos abusos dos nazistas contra determinados setores do povo alemão, admitindo sua própria culpa e exortando os demais alemães a fazerem o mesmo. Foi dele a iniciativa da Declaração de Stuttgart, em que as igrejas protestantes assumem a responsabilidade de não protegerem as pessoas da violência do Estado. O reverendo ainda se tornaria um ativista do pacifismo, a favor do desarmamento nuclear e contra a Guerra do Vietnã.

O reconhecimento da responsabilidade civil de proteger o direito do cidadão como o seu próprio é sintetizado no célebre poema de sua autoria, derivado das suas pregações, e que os usuários do facebook já devem ter lido com alguma autoria apócrifa, preferencialmente de Berthold Brecht... Esse não é o poema demagogo de algum "esquerdopata", nem uma modinha da "esquerda caviar" de se condoer por pessoas com quem realmente não se importam tanto assim. É a confissão de alguém que achava que estava por cima da carne seca e que não devia nada a ninguém, até que seus aliados se voltaram contra ele e lhe tiraram tudo, como ele mesmo havia permitido que fizessem com quem ele pensava que merecia:

"Primeiro eles vieram pelos socialistas, mas eu não me opus-
Porque eu não era um socialista.

Então eles vieram pelos sindicalistas, e eu não me opus-
Porque eu não era um sindicalista.

Então eles vieram pelos judeus, e eu não me opus-
Porque eu não era um judeu.

Então eles vieram por mim - e não havia mais ninguém para falar por mim."

quarta-feira, 3 de junho de 2015

O Projeto Madagascar

Em 3 de junho de 1940, o diplomata alemão Franz Rademacher expôs oficialmente um plano para a deportação de judeus em território nazista para a ilha de Madagascar.

Desde a ascensão nazista, em 1933, o "problema judaico" era um dos cernes das políticas raciais nazistas. Os judeus, acusados de controlar a economia alemã (apesar de sua grande maioria ser de proletários e profissionais liberais) e fomentar o Marxismo, "uma perversão judaica", tinham seus direitos cada vez mais cerceados: perdas progressivas de direitos civis, confinamento em bairros cercados e vigiados (guetos), confisco de bens, incentivos à emigração, depois vieram as deportações, o aprisionamento e confinamento em campos de concentração e trabalhos forçados. Mas mesmo aí os judeus continuavam sendo um "problema" para os nazistas, porque, em última análise, eles ainda tinham que mantê-los vivos de alguma forma.

O extermínio foi a "solução final", decidida em 1942 na Conferência de Wannsee, mas outras alternativas foram propostas anteriormente. Os incentivos à emigração não deram certo, porque poucos, mesmo com toda a repressão, queriam deixar voluntariamente seus lares (a guerra e o recrudescimento da repressão de fato aceleraram a emigração clandestina, sobretudo para a América). As deportações para campos de concentração no estrangeiro não eram tão úteis, porque esses campos ficavam em territórios controlados pelos alemães, e eles ainda teriam que manter os prisioneiros vivos - com a invasão da Polônia, por exemplo, a Alemanha se viu responsável pela vida de 3 milhões de judeus poloneses. Uma alternativa que foi levada a sério foi a deportação para Madagascar.

O Projeto Madagascar, ou as deportações forçadas para "longe", não eram exatamente uma novidade. A União Soviética criou, em 1934, um "Oblast" (região administrativa que corresponde a um estado) especificamente para os judeus soviéticos, onde poderiam exercer autogoverno, se expressar em sua língua (yiddish, não hebraico) e trabalhar livremente. Porém, nas regiões subdesenvolvidas próximas à fronteira com a Manchúria (a Região Autônoma Judaica ainda existe hoje, com o mesmo status, na Rússia, mas a população judaica residente não chega a 2 mil pessoas). Em 1937, o governo polonês estudou a possibilidade de reassentar seus judeus em Madagascar, mas o plano nunca foi adiante, porque os judeus presentes na comissão responsável pelo estudo estimaram que a ilha oferecia condições para menos de 1/10 da população pretendida. Em 1938, ideólogos nazistas examinavam essa possibilidade, e energia foi investida na elaboração do plano apresentado por Rademacher.

Madagascar ainda era uma colônia francesa subdesenvolvida, economicamente quase inerte, que, além de manter os judeus fora da Europa, impediria, por um longo tempo, que eles prosperassem. O plano de Rademacher incluía a transferência de Madagascar para a administração direta alemã como um dos termos de rendição da França, então sob ataque. Em seguida, Rademacher planejou a criação de um banco que usasse os fundos dos próprios correntistas judeus para custear o projeto. A segurança e organização seriam supervisionadas pela SS, de maneira que a colônia seria administrada como um Estado policial (proposta de Adolf Eichmann, contra um governo próprio judaico sob controle alemão pensado por Rademacher). A deportação seria feita em navios, com cerca de 1 milhão de judeus levados por ano durante 4 anos. Funções específicas foram distribuídas entre os ministérios alemães para viabilizar as diferentes etapas do projeto. A primeira providência prática foi a interrupção das deportações na Polônia e da construção do Gueto de Varsóvia, porque não teriam mais utilidade.

Porém, a derrota alemã na Batalha da Bretanha entre julho e outubro daquele ano, e a impossibilidade de conquista imediata da Inglaterra adiaram os planos. Os nazistas pretendiam usar a enorme marinha mercante britânica para realizar o transporte dos judeus para a África. Quando a batalha começou a pender para o lado inglês, em meados de agosto, o alto comando nazista começou a reconsiderar seus planos, e a construção de guetos e as deportações recomeçaram. O plano B, então, era a deportação em massa de judeus para a União Soviética através da Polônia (os soviéticos provavelmente se encarregariam ativamente de tornar as suas vidas o mais miseráveis possível, como eventualmente aconteceu fora do contexto da guerra), mas o fracasso do cerco a Moscou em 1941 levou os nazistas a se inclinarem sobre a possibilidade de extermínio sistemático nos campos de concentração instalados na Polônia.

Embora elaborado com a má intenção de isolar e dificultar ao máximo a vida dos judeus longe da Europa, empobrecidos ao extremo, em um lugar estranho e desprovido de infraestrutura, com a vigilância constante e restritiva da polícia nazista, e mesmo ainda com a possibilidade de mortes por inanição e doenças durante as longas viagens oceânicas, talvez os judeus europeus tivessem uma sorte melhor do que a que lhes aguardava até o fim da Segunda Guerra.