Em 9 de setembro do ano 9 d.C., três legiões romanas foram aniquiladas por uma coalizão de tribos germânicas na Batalha de Teutoburgo.
Nos seus últimos anos, a República Romana avançou suas fronteiras sobre a Gália, atual França, estabelecendo uma nova linha de fronteira ao longo do rio Reno. A Gália havia muito era habitada por povos celtas, que viviam assentados em vilas e aldeias e cultivavam a terra, de maneira que aquele novo território se tornou prontamente uma valiosa aquisição para a economia romana, ao mesmo tempo em que o modo de vida romano não pareceria tão estranho aos povos nativos, que continuariam vivendo e produzindo mais ou menos como já vinham fazendo. A conquista da Gália rendeu ao seu comandante, Júlio César, prestígio suficiente para se tornar a figura mais influente de todo aquele império "republicano", desencadeando uma série de eventos que levaria à transformação de Roma em um império de fato, sob seu herdeiro Otaviano Augusto.
A nova fronteira se mostrou bastante prática. Era possível navegar em vias fluviais do Mediterrâneo até a foz do Reno, na Holanda, com curtas passagens por terra, evitando a longa e perigosa volta pelo Atlântico. Além disso, como a Gália já possuía uma infraestrutura de abastecimento de homens e víveres, as fortalezas fronteiriças poderiam ser sustentadas sem grandes dispêndios. A nascente do Reno, nos Alpes, fica a poucos quilômetros de terreno montanhoso da nascente do rio Danúbio, que os romanos também controlavam em todo o seu curso. A linha Reno-Danúbio era tão eficaz que sustentou a fronteira do império na Europa, a despeito de todos os seus problemas e crises internas, até meados do século V. Quando consolidada a conquista da Gália, os romanos dividiram as terras ao longo do Reno em duas províncias, a Germania Superior e a Germania Inferior.
O nome Germania derivava da designação genérica que os romanos davam aos povos que habitavam o norte da Europa. De fato, foi o próprio Júlio César quem primeiro reportou os povos "bárbaros" das florestas do norte como "germanos", mais especificamente Germani Cisrhenani ("germanos d'além Reno"). Além do Reno, várias tribos de uma mesma família linguística, que hoje conhecemos como germânica, vinham migrando do norte, da Escandinávia e do norte da Alemanha e da Polônia desde pelo menos o século VIII a.C., deslocando os povos célticos que ali habitavam em direção à Gália ou à Grã-Bretanha. Foi esse movimento migratório de tribos germânicas em direção ao sul e à Gália (a Bélgica já era ocupada por tribos germânicas) que motivou a campanha de César. Esses povos migrantes ainda estavam completando o período formativo de sua própria civilização, habitando aldeias esparsas e praticando a agricultura e pastoreio rústicos em torno de suas vilas, deixando a maior parte das florestas intocadas. A visão de um observador romano olhando para o leste da nova fronteira, na Bélgica, seria de uma região assombrosamente selvagem e primitiva, e seus habitantes igualmente selvagens. Essa região inóspita para o estilo de vida romano ficou conhecida como Germania Magna.
César advogava que os germanos, a contrário dos celtas, eram violentos e incivilizados, representavam um perigo para os romanos, e por isso precisavam ser conquistados. Durante o governo de Otaviano, Roma fortificou sua fronteira ao longo do Reno. Apesar de todas as vantagens, Otaviano via com bons olhos o avanço da fronteira sobre a porção de terras cobertas por florestas da Germania Magna até o rio Elba, que corta o centro da atual Alemanha, reduzindo significativamente a extensão de fronteira a ser defendida, e absorvendo um grande contingente de germanos para o seu império. Na virada do milênio, uma confederação de tribos germânicas mais próximas à fronteira romana, "march men", "homens da fronteira", ou marcomanos, vinham fustigando as posições romanas na Germania Superior. Essa força súbita dos marcomanos se devia ao movimento causado pela campanha bem sucedida de Nero Cláudio Druso (pai do futuro imperador Cláudio) em 9 a.C., e outra liderada por Tibério (outro futuro imperador), chegando a atravessar o rio Wesser, que atravessa a atual cidade de Bremen (cuja foz está a cerca de 50 km da foz do Elba), que levou esses marcomanos a entrar em território ocupado por outras tribos e estabelecer alianças. O rei eleito entre eles, Maroboduo, ainda teve que suportar uma campanha ainda maior, com mais de 80 mil soldados romanos Germania adentro, no ano 6 d.C.. Ele conseguiu se sustentar porque Tibério teve que recuar para atender a uma rebelião na Ilíria.
Com os marcomanos acuados, Otaviano lançou mão de Públio Quntículo Varo, administrador experiente e impiedoso, para consolidar a ocupação romana na Germania, onde já contavam com pelo menos dois fortes. A seu serviço, apenas três legiões, a XVII, a XVIII e a XIX (as três legiões com experiência contra os germanos na campanha anterior), enquanto outras estavam mobilizadas na Ilíria. Foi neste momento em que Armínio entrou em cena.
A campanha de Druso trouxe para Roma como refém Armínio, jovem de família nobre da tribo germânica dos queruscos. Armínio foi educado e treinado nas artes militares, chegando a conseguir cidadania romana e uma posição na classe dos equites ("cavaleiros", geralmente funcionários públicos, donos de negócios, algo que se poderia comparar com uma classe burguesa). Sua posição e nascimento lhe garantiam influência sobre outros germanos dentro do império, e assim ele liderou um destacamento de queruscos a serviço dos romanos durante a conquista da Panonia (atual Hungria). No ano 7 d.C., ele retornou à Germania além do Reno, conquistando a lealdade das tribos recém subjugadas por Roma, tribos anteriormente inimigas entre si, ganhando a confiança de Públio Varo. Mas logo ele começou a conspirar contra os romanos.
Em 9 d.C., Armínio procurou Varo para denunciar uma rebelião no norte da Germania. Com a orientação de Armínio, Varo conduziu suas três legiões em direção à foz do Wesser, em terreno desconhecido. Em um certo momento, o chefe germânico deixou o destacamento sob pretexto de arregimentar as tribos locais para dar suporte à expedição. Mas assim que saiu das vistas de Varo, Armínio começou a comandar uma série de ataques às guarnições romanas deixadas para trás, cortando comunicações e linhas de suprimentos. Os romanos não marchavam em formação de combate, e enfrentavam um temporal, com terreno encharcado e estreito, estendendo a linha de marcha em talvez 20 quilômetros. Varo não mandara nenhum batedor à frente confiando nas direções de Armínio. Em 7 de setembro, na floresta de Teutoburgo, perto de Onasbrück, os germanos comandados por Armínio saíram em torrentes das florestas ao redor para combater o exército desorganizado. A reação de Varo e seus comandantes foi imediata, mas o conhecimento militar de Armínio foi decisivo, direcionando seus homens para responder às manobras defensivas romanas, concentrando-os em pontos específicos da linha inimiga onde pudesse impor alguma superioridade numérica.
Os romanos sustentaram o ataque até a noite, quando montaram um acampamento fortificado perto da atual Ostercappeln, de onde tentaram uma retirada organizada na manhã seguinte. Muitos dos que tentaram deixar o acampamento, contudo, foram abatidos pelos germanos que inundavam as florestas ao redor. Os que escaparam deveram sua sorte à chuva, que inutilizava as cordas dos arcos e encharcava os escudos dos agressores posicionados para impedir sua fuga. Na noite seguinte, os romanos arriscaram uma marcha pela passagem estreita entre a floresta e a colina de Kalkriese, em Onnasbrück. Ali, os germanos cavaram uma trincheira bloqueando o caminho, e na margem da floresta levantaram uma barreira de terra. Na manhã de 9 de setembro, os romanos foram emboscados e aniquilados. Os que não tombaram pelas espadas e dardos germânicos, suicidaram-se à maneira considerada digna pelos militares romanos, atirando-se sobre suas próprias espadas para evitar serem capturados. Cerca de 20 mil dos 30 mil legionários romanos foram mortos. Armínio enviou a cabeça de Varo a Maroboduo, que àquela altura estava atacando o Danúbio. As águias de bronze, que vinham sobre os estandartes de cada legião, se tornaram tesouros para os germanos.
A derrota de Varo foi recebida com assombro em Roma. A Germania Magna foi abandonada, e as guarnições de fronteira voltaram a reforçar as defesas ao longo do Reno. Ela significou o fim da expansão romana no norte da Europa continental, embora os romanos, eventualmente, enviassem expedições punitivas contra germanos quando estes atacavam a fronteira. A mais importante dessas expedições, liderada por um filho de Druso, Germânico, já sob o governo de seu tio Tibério, resgatou duas das três águias imperiais em poder de Armínio, o que fez de Germânico um herói em Roma e arruinou o poder de Armínio entre seus aliados. Uma campanha em 41 d.C. recuperou a terceira águia, e uma última nove anos depois derrotou um bando da tribo dos catos na outra margem do Reno e resgatou alguns prisioneiros romanos das legiões de Varo, mantidos em cativeiro havia 40 anos. Apesar das campanhas punitivas bem sucedidas - a campanha de Germânico arrasou as tribos locais durante dois anos - os romanos nunca mais tentaram povoar a região. É possível que, com o tempo, a ideia de avançar a fronteira até o Elba tenha sido vista com mais reservas, devido às dificuldades logísticas - as rotas de abastecimento teriam que ser feitas por terra, ou por navegação oceânica. A numeração das três legiões perdidas nunca mais foi utilizada.
A derrota em Teutoburgo poderia ter sido mais trágica para Roma se não fosse uma rivalidade repentina surgida entre Armínio e Maroboduo - o rei marcomano, ao receber a cabeça de Varo com uma proposta de aliança, recusou-a e a enviou de volta a Otaviano em sinal de respeito, e quando Germânico marchou contra o querusco, Maroboduo se manteve neutro. A união entre os dois chefes germânicos, atacando simultaneamente em dois pontos da fronteira, poderia ter comprometido o domínio romano no Danúbio e na própria Gália. Ao invés disso, eles entraram em guerra em 17 d.C.. Uma manobra romana devolveu aos marcomanos um nobre local sob sua tutela, e Maroboduo fugiu para a Itália, onde morreu após 18 anos na prisão. Armínio morreu em 21 d.C., assassinado por rivais queruscos.
A Germania Magna, da qual os romanos abriram mão após Teutoburgo, continuou a ser o caldeirão onde as tribos germânicas se desenvolviam e se moviam, e apoiavam seus eventuais ataques às fronteiras. Um surto de movimentos migratórios em cadeia, originados pela migração dos hunos vindos do norte do Mar Negro no século IV, empurraria as tribos germânicas furiosamente contra as fronteiras do império até que elas não resistissem mais. Sob essa perspectiva, Teutoburgo poderia representar a primeira grande derrota do Império Romano, uma com consequências fatais a longo prazo. Os povos germânicos que furaram o bloqueio e estabeleceram-se em território romano, e os que permaneceram no centro e no norte da Europa, contribuíram para a formação étnico-linguística e a reorganização política e social do continente (e do mundo afora) até os dias de hoje.
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quarta-feira, 9 de setembro de 2015
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
O canto do cisne do Império Romano
O dia 4 de setembro de 476 é a data oficial da queda do Império Romano do Ocidente. Neste dia, o general Odoacer tomou Ravena, último bastião imperial na Itália, e depôs o jovem imperador Rômulo Augusto, proclamando a si mesmo Rei da Itália. Mas o que é tradicionalmente transmitido como marco de fronteira na linha histórica - o início da Idade Média - representou, na verdade, uma transição relativamente lenta e confusa.
Roma passou por um longo declínio que pode ser detectado a partir do século III, período de repetidas crises de produção, agitações sociais e tumultos políticos. Há quem diga que Roma não deixou de existir já naquela época porque, fora das suas fronteiras, os povos germânicos e o Império Parta também sofriam do mesmo mal (o século III também se manifestou em graves crises na China que levaram à dissolução do Império Han, fazendo crer que algum fator sistêmico afetou toda a Eurásia de alguma forma mais ou menos ao mesmo tempo). Sob a ampla reforma administrativa do Imperador Diocleciano, que dividiu a administração em Ocidente (centrado em Roma) e Oriente (com capital em Bizâncio/Constantinopla), o Império Romano conseguiu se reerguer por um tempo. Mas as crises não tardariam a enfraquecer o Império, sobretudo a metade ocidental, sob forte pressão de povos germânicos empurrados para suas fronteiras pelas hordas de hunos que vinham do leste. Os romanos cederam territórios para várias tribos germânicas, esperando conseguir incorporá-las a si mesmos e garantir sua pacificação.
O Império Romano que Rômulo Augusto herdou era meros fragmentos do que já fora um dia. Sob a autoridade imperial estavam apenas a Itália, a Dalmácia, a Sicília (nem toda), e a Neustria (grande parte do norte da Gália). Roma sequer era a capital administrativa do Império desde fins do século IV, tendo o imperador e o senado se transferido para Ravena. Em 476, a cidade de Roma era habitada por cerca de 50 mil habitantes, dez vezes menos do que fora 200 anos antes, ocupando esparsamente os edifícios mantidos em pé, cercados por ruínas, vinhas e praças abandonadas e cobertas de mato. O Império do Oriente, àquela altura, tratava o Ocidente como um Estado-cliente, cujos últimos imperadores haviam sido nomeados por Constantinopla. O pai de Rômulo, Orestes, que serviu entre os hunos como diplomata de Átila, foi nomeado comandante em chefe, Magister militum, pelo então imperador Júlio Nepos em 475, e logo depois comandou uma rebelião que capturou Ravena. Nepos fugiu para a Dalmácia. Orestes recusou o cargo para si, mas nomeou seu filho, de 14 anos, colocando-se como seu representante e guardião.
O exército romano estava sob o controle de antigos guerreiros germânicos. Odoacer, cuja origem étnica é incerta (poderia ser germânico, talvez huno ou proto-turco, mas certamente não era romano), era um general. O problema é que ele era leal a Júlio Nepos.
Quando Rômulo assumiu o trono, mercenários germânicos (foederati) exigiram que ele lhes entregasse um terço das terras da Itália. Com a recusa, esses foederati, liderador por Odoacer, capturaram e executaram Orestes em Piacenza, e marcharam para Ravena. Praticamente sem defesas, pois os soldados e guardas que restavam deviam pouca ou nenhuma lealdade a Rômulo, a cidade caiu com facilidade. Preso, o jovem imperador se vu forçado a entregar a coroa ao seu captor.
É neste ponto que os livros de História costumam terminar um capítulo. O problema todo é que Odoacer, ao contrário de tantos outros usurpadores antes dele, não queria ser Imperador.
O senado romano foi preservado. Odoacer não apenas o preservou, como também manteve ativas instituições senatoriais que há muito já não tinham função prática, como cargo de cônsul (há séculos uma relíquia da República Romana), e nomeava senadores romanos para este e outros cargos. Odoacer enviou senadores a Constantinopla para requisitar ao Imperador Zenon a unificação do Império ("Apenas um imperador basta para governar o mundo"). Talvez perplexo, Zenon concedeu a Odoacer o título de patrício (a classe mais alta da sociedade romana) e o governo da Itália, mas determinou que mantivesse sua lealdade a Júlio Nepos, que ainda estava vivo e governava uma boa faixa de terra na Dalmácia (onde hoje estão Croácia e Bósnia Herzegovina). Odoacer, contudo, não recolocou Nepos no trono e assumiu o reinado sobre a Itália, enquanto o imperador romano legítimo ainda governava uma das antigas províncias. Além deles, Flávio Siágrio, comandante militar da Gália, mantinha o que restava dela nominalmente sob controle romano, embora não necessariamente leal a Nepos. Na África, os mauros, povo nativo da Argélia e antigo cliente de Roma, mantinham um Estado organizado nos moldes romanos e independente do novo reino vândalo na região, e eventualmente solicitariam reconhecimento do Imperador bizantino Justiniano I como herdeiros legítimos do Império do Ocidente. O próprio Império Bizantino existiu como "Império Romano", tanto como autônimo, como também na diplomacia internacional, de maneira que, aos observadores medievais, o Império Romano, em última análise, nunca deixou de existir (de fato, "Império Bizantino" surge na literatura para se referir ao Império Romano do Oriente apenas no século XVI). Isso sem falar no Sacro Império Romano, que existiu desde o século X até o século XIX.
Quando Júlio Nepos foi assassinado em 480, Odoacer anexou a Dalmácia ao seu território enquanto perseguia os assassinos. Ninguém se importou em procurar Rômulo - cujo paradeiro depois de entregar a coroa a Odoacer é incerto, mas aparentemente foi mandado para seus parentes na Campânia - para suscitar uma rebelião contra o rei bárbaro. Nem sequer houve um movimento para restaurar Júlio Nepos enquanto este esteve vivo. De fato, Odoacer foi tão decidido e prático na administração da Itália, atento às demandas locais, que seu reinado pareceu satisfatório a quase todo ex-cidadão romano, cuja lembrança naquela altura era de imperadores fracos e vaidosos e de desleixo com a administração pública. Isso atraiu a atenção de Zenon, contra quem, aparentemente, Odoacer estaria conspirando.
Zenon convocou Teodorico, rei dos ostrogodos. Esses ostrogodos também eram empregados como foederati por Constantinopla, mas sua cultura guerreira e sua insubordinação estavam se tornando um problema. Zenon lhes prometeu a Itália em troca da cabeça de Odoacer. Durante cinco anos os ostrogodos arrasaram a península, mas não conseguiam chegar a Odoacer, e nem o rei conseguia expulsá-los. Em 493, enfim, Odoacer e Teodorico chegaram a um acordo em que reinariam conjuntamente. No banquete de celebração, os homens de Teodorico mataram Odoacer, e o próprio rei ostrogodo partiu seu corpo ao meio. Os ostrogodos estabeleceram seu poder na Itália, até que, na época de Justiniano, em 553, o Império Bizantino os esmagou. Roma, propriamente dita, voltou ao controle "romano", embora o poder na cidade fosse, na prática, exercido pela Igreja. Através de doações, o Papa se tornou o senhor de terras mais poderoso da Itália, e, à medida em que o poder bizantino na região foi diminuindo, estabeleceu para si um reino secular próprio, os Estados Papais (um corredor atravessando a península entre Roma e Ravena). O Estado do Vaticano é tudo que restou.
A queda de Rômulo (ironicamente, homônimo do fundador de Roma) não abalou o mundo como pode parecer. A passagem da Antiguidade para a Idade Média foi um processo mais prolongado, que começa bem antes e termina bem depois de 476, que passa por uma transformação organizacional e cultural do mundo romano para absorver o novo estrato germânico que se fixou no seu espaço. O longo declínio no padrão de vida e o estabelecimento do cristianismo como religião hegemônica começam no século III, a organização das cidades e a vida urbana - e a tendência à interiorização - também sofrem um gradual abandono a partir do século IV. A mudança de paradigmas para a organização dos exércitos (de corporações profissionais disciplinadas, organizadas em legiões numerosas com ênfase na infantaria, a corporações restritas a mercenários e nobres capazes de armar a si mesmos e a seus vassalos, com um núcleo de infantaria e cavalaria pesadas) começou no século III, com o aumento da importância da cavalaria, e no século seguinte, quando os alanos trouxeram as armaduras pesadas que eles desenvolveram para resistir aos arqueiros hunos. A fragmentação do poder começou no próprio Império Romano, com o enfraquecimento da figura do imperador e a ascensão dos senhores de terras (cada vez mais poderosos ao se apropriarem de propriedades de terceiros por causa de dívidas ou herança). A língua latina continuou a ser usada como língua dos documentos oficiais e da erudição fins do segundo milênio depois de Cristo (e a língua da liturgia católica até o século XX), mas ela já vinha se transformando inexoravelmente em cada região onde um povo bárbaro se estabelecesse dentro das antigas fronteiras. O quadro todo só vai se estabilizar bem mais adiante.
Por isso, para fins de classificação e organização do conhecimento, enquanto muitos marcam o fim do mundo antigo na queda do último imperador do ocidente, alguns avançam a data para a queda do Reino Ostrogodo, o advento do Islã no Oriente Médio, ou a coroação de Carlos Magno em Roma após derrotar os lombardos (como "Imperador Romano"!). É mais fácil pensar que, desde, talvez, Teodósio I, o último imperador romano a governar as duas metades do Império até 395, o Império Romano do Ocidente tenha se tornado um morto-vivo, cujo processo de decomposição foi muito longo, em que a queda do último imperador talvez nem tenha feito muita diferença.
Roma passou por um longo declínio que pode ser detectado a partir do século III, período de repetidas crises de produção, agitações sociais e tumultos políticos. Há quem diga que Roma não deixou de existir já naquela época porque, fora das suas fronteiras, os povos germânicos e o Império Parta também sofriam do mesmo mal (o século III também se manifestou em graves crises na China que levaram à dissolução do Império Han, fazendo crer que algum fator sistêmico afetou toda a Eurásia de alguma forma mais ou menos ao mesmo tempo). Sob a ampla reforma administrativa do Imperador Diocleciano, que dividiu a administração em Ocidente (centrado em Roma) e Oriente (com capital em Bizâncio/Constantinopla), o Império Romano conseguiu se reerguer por um tempo. Mas as crises não tardariam a enfraquecer o Império, sobretudo a metade ocidental, sob forte pressão de povos germânicos empurrados para suas fronteiras pelas hordas de hunos que vinham do leste. Os romanos cederam territórios para várias tribos germânicas, esperando conseguir incorporá-las a si mesmos e garantir sua pacificação.
O Império Romano que Rômulo Augusto herdou era meros fragmentos do que já fora um dia. Sob a autoridade imperial estavam apenas a Itália, a Dalmácia, a Sicília (nem toda), e a Neustria (grande parte do norte da Gália). Roma sequer era a capital administrativa do Império desde fins do século IV, tendo o imperador e o senado se transferido para Ravena. Em 476, a cidade de Roma era habitada por cerca de 50 mil habitantes, dez vezes menos do que fora 200 anos antes, ocupando esparsamente os edifícios mantidos em pé, cercados por ruínas, vinhas e praças abandonadas e cobertas de mato. O Império do Oriente, àquela altura, tratava o Ocidente como um Estado-cliente, cujos últimos imperadores haviam sido nomeados por Constantinopla. O pai de Rômulo, Orestes, que serviu entre os hunos como diplomata de Átila, foi nomeado comandante em chefe, Magister militum, pelo então imperador Júlio Nepos em 475, e logo depois comandou uma rebelião que capturou Ravena. Nepos fugiu para a Dalmácia. Orestes recusou o cargo para si, mas nomeou seu filho, de 14 anos, colocando-se como seu representante e guardião.
O exército romano estava sob o controle de antigos guerreiros germânicos. Odoacer, cuja origem étnica é incerta (poderia ser germânico, talvez huno ou proto-turco, mas certamente não era romano), era um general. O problema é que ele era leal a Júlio Nepos.
Quando Rômulo assumiu o trono, mercenários germânicos (foederati) exigiram que ele lhes entregasse um terço das terras da Itália. Com a recusa, esses foederati, liderador por Odoacer, capturaram e executaram Orestes em Piacenza, e marcharam para Ravena. Praticamente sem defesas, pois os soldados e guardas que restavam deviam pouca ou nenhuma lealdade a Rômulo, a cidade caiu com facilidade. Preso, o jovem imperador se vu forçado a entregar a coroa ao seu captor.
É neste ponto que os livros de História costumam terminar um capítulo. O problema todo é que Odoacer, ao contrário de tantos outros usurpadores antes dele, não queria ser Imperador.
O senado romano foi preservado. Odoacer não apenas o preservou, como também manteve ativas instituições senatoriais que há muito já não tinham função prática, como cargo de cônsul (há séculos uma relíquia da República Romana), e nomeava senadores romanos para este e outros cargos. Odoacer enviou senadores a Constantinopla para requisitar ao Imperador Zenon a unificação do Império ("Apenas um imperador basta para governar o mundo"). Talvez perplexo, Zenon concedeu a Odoacer o título de patrício (a classe mais alta da sociedade romana) e o governo da Itália, mas determinou que mantivesse sua lealdade a Júlio Nepos, que ainda estava vivo e governava uma boa faixa de terra na Dalmácia (onde hoje estão Croácia e Bósnia Herzegovina). Odoacer, contudo, não recolocou Nepos no trono e assumiu o reinado sobre a Itália, enquanto o imperador romano legítimo ainda governava uma das antigas províncias. Além deles, Flávio Siágrio, comandante militar da Gália, mantinha o que restava dela nominalmente sob controle romano, embora não necessariamente leal a Nepos. Na África, os mauros, povo nativo da Argélia e antigo cliente de Roma, mantinham um Estado organizado nos moldes romanos e independente do novo reino vândalo na região, e eventualmente solicitariam reconhecimento do Imperador bizantino Justiniano I como herdeiros legítimos do Império do Ocidente. O próprio Império Bizantino existiu como "Império Romano", tanto como autônimo, como também na diplomacia internacional, de maneira que, aos observadores medievais, o Império Romano, em última análise, nunca deixou de existir (de fato, "Império Bizantino" surge na literatura para se referir ao Império Romano do Oriente apenas no século XVI). Isso sem falar no Sacro Império Romano, que existiu desde o século X até o século XIX.
Quando Júlio Nepos foi assassinado em 480, Odoacer anexou a Dalmácia ao seu território enquanto perseguia os assassinos. Ninguém se importou em procurar Rômulo - cujo paradeiro depois de entregar a coroa a Odoacer é incerto, mas aparentemente foi mandado para seus parentes na Campânia - para suscitar uma rebelião contra o rei bárbaro. Nem sequer houve um movimento para restaurar Júlio Nepos enquanto este esteve vivo. De fato, Odoacer foi tão decidido e prático na administração da Itália, atento às demandas locais, que seu reinado pareceu satisfatório a quase todo ex-cidadão romano, cuja lembrança naquela altura era de imperadores fracos e vaidosos e de desleixo com a administração pública. Isso atraiu a atenção de Zenon, contra quem, aparentemente, Odoacer estaria conspirando.
Zenon convocou Teodorico, rei dos ostrogodos. Esses ostrogodos também eram empregados como foederati por Constantinopla, mas sua cultura guerreira e sua insubordinação estavam se tornando um problema. Zenon lhes prometeu a Itália em troca da cabeça de Odoacer. Durante cinco anos os ostrogodos arrasaram a península, mas não conseguiam chegar a Odoacer, e nem o rei conseguia expulsá-los. Em 493, enfim, Odoacer e Teodorico chegaram a um acordo em que reinariam conjuntamente. No banquete de celebração, os homens de Teodorico mataram Odoacer, e o próprio rei ostrogodo partiu seu corpo ao meio. Os ostrogodos estabeleceram seu poder na Itália, até que, na época de Justiniano, em 553, o Império Bizantino os esmagou. Roma, propriamente dita, voltou ao controle "romano", embora o poder na cidade fosse, na prática, exercido pela Igreja. Através de doações, o Papa se tornou o senhor de terras mais poderoso da Itália, e, à medida em que o poder bizantino na região foi diminuindo, estabeleceu para si um reino secular próprio, os Estados Papais (um corredor atravessando a península entre Roma e Ravena). O Estado do Vaticano é tudo que restou.
A queda de Rômulo (ironicamente, homônimo do fundador de Roma) não abalou o mundo como pode parecer. A passagem da Antiguidade para a Idade Média foi um processo mais prolongado, que começa bem antes e termina bem depois de 476, que passa por uma transformação organizacional e cultural do mundo romano para absorver o novo estrato germânico que se fixou no seu espaço. O longo declínio no padrão de vida e o estabelecimento do cristianismo como religião hegemônica começam no século III, a organização das cidades e a vida urbana - e a tendência à interiorização - também sofrem um gradual abandono a partir do século IV. A mudança de paradigmas para a organização dos exércitos (de corporações profissionais disciplinadas, organizadas em legiões numerosas com ênfase na infantaria, a corporações restritas a mercenários e nobres capazes de armar a si mesmos e a seus vassalos, com um núcleo de infantaria e cavalaria pesadas) começou no século III, com o aumento da importância da cavalaria, e no século seguinte, quando os alanos trouxeram as armaduras pesadas que eles desenvolveram para resistir aos arqueiros hunos. A fragmentação do poder começou no próprio Império Romano, com o enfraquecimento da figura do imperador e a ascensão dos senhores de terras (cada vez mais poderosos ao se apropriarem de propriedades de terceiros por causa de dívidas ou herança). A língua latina continuou a ser usada como língua dos documentos oficiais e da erudição fins do segundo milênio depois de Cristo (e a língua da liturgia católica até o século XX), mas ela já vinha se transformando inexoravelmente em cada região onde um povo bárbaro se estabelecesse dentro das antigas fronteiras. O quadro todo só vai se estabilizar bem mais adiante.
Por isso, para fins de classificação e organização do conhecimento, enquanto muitos marcam o fim do mundo antigo na queda do último imperador do ocidente, alguns avançam a data para a queda do Reino Ostrogodo, o advento do Islã no Oriente Médio, ou a coroação de Carlos Magno em Roma após derrotar os lombardos (como "Imperador Romano"!). É mais fácil pensar que, desde, talvez, Teodósio I, o último imperador romano a governar as duas metades do Império até 395, o Império Romano do Ocidente tenha se tornado um morto-vivo, cujo processo de decomposição foi muito longo, em que a queda do último imperador talvez nem tenha feito muita diferença.
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