Em 8 de maio de 1794, o químico Antoine Lavoisier e mais 27 acusados foram condenados e executados em Paris por atividades anti-revolucionárias.
Lavoisier nasceu em 1743 no seio de uma família nobre, e aos 16 anos começou a estudar ferozmente vários campos das ciências naturais e da matemática. A despeito de ter se formado advogado como seu pai (embora nunca tenha exercito a função), Lavoisier seguiu assistindo aulas e palestras sobre ciências naturais, e associando-se a pesquisadores proeminentes. Evidentemente sua posição social lhe abriu muitas portas (a ponto de, aos 23 anos ser condecorado com uma medalha de ouro pelo rei Luís XV por um trabalho sobre a iluminação das ruas de Paris), mas seu talento o fez aproveitar ao máximo cada oportunidade.
A contribuição mais notável de Lavoisier para a ciência foi na compreensão do fenômeno da combustão. Ele percebeu que a combustão e calcinação (ou seja, a transformação, após a queima, de um sólido em outro sólido) de uma substância em estado puro resultava no acréscimo de peso do mesmo elemento, embora o sistema total mantivesse sua massa constante. Após realizar experimentos com diferentes elementos, e agregando trabalhos feitos por colegas britânicos, ele enfim deduziu que a combustão era o processo pelo qual uma substância reagia com outras presentes no ar, que eram agregadas à substância original durante a queima com liberação de energia. Ele ainda não conhecia a composição química da atmosfera nem o papel do oxigênio na promoção da combustão - ele deduziria mais tarde a existência do oxigênio e do hidrogênio. Suas aferições precisas de massa, e a precisão dos resultados produzidos com essa metodologia, seriam incorporadas à metodologia de todos os trabalhos em química no futuro. Lavoisier também seria um dos que defenderia o estabelecimento do sistema métrico decimal em substituição à miríade de sistemas de medidas adotadas anteriormente, além de um sistema nomenclatural para a química semelhante ao proposto por Carl Linnaeus para a biologia. Suas observações sobre as reações químicas, e a verificação de que a massa total dos reagentes é igual à massa total dos produtos, o levou a cunhar a famosa frase: "Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma".
Graças aos seus trabalhos sobre combustão, em 1775 Lavoisier foi nomeado para a Comissão da Pólvora, órgão governamental que substituiria uma empresa particular no suprimento de pólvora para a França, e sua enorme capacidade de organização de fato fez com que o suprimento e a qualidade da pólvora entregue ao governo superasse em muito o que se tinha antes, a ponto de gerar receita para o Tesouro. A Comissão lhe forneceu uma casa e um laboratório no Arsenal Real, onde viveu e trabalhou até 1792.
Lavoisier, enquanto cientista, foi um produto do Iluminismo, corrente filosófica que estimulava a investigação metódica do mundo natural e humano, confrontando visões dogmáticas (de ordem religiosa ou qualquer outra) sobre a construção do mundo e da sociedade. O Iluminismo estava impregnado no sistema educacional no qual Lavoisier se formou. Contudo, o químico nunca questionou a natureza da legitimidade do poder político e da ordem social, ou ao menos nunca percebeu a profundidade do abismo que separavam as classes sociais na França, e o que disso viria a resultar - o que lhe custaria a vida mais adiante.
Aos 26 anos, Lavoisier adquiriu parte da Ferme générale (ou "Fazenda Geral"), uma companhia a serviço do governo que estimava quanto de imposto seria arrecadado ao longo do ano, antecipando o repasse desta quantia ao governo francês, em troca do direito de executar, por conta própria, o recolhimento dos impostos da população ("Fazenda", no caso, tinha o duplo sentido de ter sua origem e principal função o recolhimento de impostos das propriedades rurais, e ser ela mesmo uma "fazenda de impostos" para o governo). Lavoisier chegou mesmo a se casar com Marie-Anne Paulze, filha de um dos membros da Ferme générale (Marie-Anne, apesar de ter apenas 13 anos quando se casou, era excepcionalmente culta, e não só auxiliava o marido no laboratório, mas produzia ilustrações, e traduzia trabalhos científicos do inglês para o francês, bem como sua correspondência, especialmente com Joseph Priestley, químico que também descobrira paralelamente o oxigênio). Na Ferme générale, Lavoisier bancou a construção de um muro em torno de Paris, direcionando as saídas da cidade para que a companhia pudesse posicionar guarnições nestes locais específicos e recolher impostos sobre qualquer produto que entrasse ou saísse da cidade, evitando sobremaneira a evasão e o contrabando na capital.
Como tivesse a prerrogativa de recolher os impostos, a Ferme générale era, naturalmente, mal vista pela população. Mas além da função ingrata, agravada pelo complicado sistema tributário francês, a truculência com que tratava sonegadores e contrabandistas (que podiam ser punidos com mais rigor do que criminosos mais violentos), bem como a enorme riqueza acumulada pelos seus diretores, saltavam aos olhos. Quando eclodiu a Revolução Francesa em 1789, um dos elementos que mais inflamavam as opiniões era a questão dos impostos, a maneira como eram recolhidos, e o seu destino. No plenário da assembleia nacional, os fazendeiros-gerais eram abertamente chamados de "predadores". O novo governo revolucionário dissolveu a empresa em 1791, destituindo seus diretores (entre eles Lavoisier) e funcionários.
Lavoisier escapou da ira revolucionária neste primeiro momento, mas foi forçado a deixar seu posto na Comissão da Pólvora. Ele reconhecia que o sistema de governo era falho e precisava de profundas reformas; quando foi encarregado por Luis XVI para avaliar a possibilidade de introdução de novas culturas e tipos de gado nas fazendas francesas, ele concluiu que seria inútil introduzir qualquer novidade no campo, pois os camponeses estavam tão empobrecidos e pressionados pela carga tributária que eles não podiam investir em nada além do que já estavam adaptados a cultivar. Já destituído de cargos, apresentou um projeto de reforma da educação ao Congresso, acreditando poder reformar o sistema de dentro para fora com o poder da razão. Porém, a Revolução evoluía a despeito dos esforços - de revolucionários moderados e conservadores - para contê-la, e rumava para sua fase mais sinistra, conhecida como "Reino do Terror".
Maximilien de Robespierre encabeçava a cúpula revolucionária que assumira a administração pública a partir da queda de Luís XVI. À medida em que o novo governo tomava corpo, a jovem burguesia francesa que atropelara os velhos oligarcas dava espaço a soluções moderadas ou conservadoras às reivindicações em pauta que agradassem a ambos. Robespierre, por outro lado, mantinha sua veia radical ao permitir a interferência dos "sans culottes", como as classes mais baixas eram conhecidas, e sua popularidade crescia à medida em que se posicionava contra as instituições tradicionais de poder. A França também fora desafiada pelos seus vizinhos absolutistas na Guerra da Primeira Coalizão, e a capacidade de mobilizar a população era vital para conter o conflito e manter a estabilidade interna. A primeira vítima ilustre dessa radicalização do movimento revolucionário foi o próprio Luís XVI, a cujo perdão ou punição simbólica Robespierre se opunha. O governo começou a perseguir e cortar as cabeças de membros do parlamento, antigos políticos, e, eventualmente, qualquer um que representasse ou mesmo defendesse de alguma forma o poder monárquico.
A partir de 1793, a Revolução voltou-se contra as sociedades científicas. Sob pedido do Abade Gregório, congressista católico e nacionalista rábico que influenciou a nova política de língua única na França (que tradicionalmente compunha-se do francês falado em grande parte do país, mais 33 dialetos diferentes), a Academia de Ciências, da qual faziam parte Lavoisier e nomes ilustres, como o matemático Pierre Laplace e o estrangeiro Joseph Louis Lagrange (a favor de quem Lavoisier interferiu para que lhe poupasse a vida e os bens) foi fechada. Por fim, em novembro de 1793, Lavoisier, junto com outros 27 diretores da antiga Ferme générale foram presos. Sua defesa apelou ao juiz Jean Baptiste Coffinhal, alegando serem os trabalhos e experimentos de Lavoisier úteis ao país, ao que o juiz teria respondido: "A República não precisa de cientistas e químicos". Ele seria considerado culpado das acusações de roubar o povo e o Tesouro (pela sua participação na Ferme générale), de adulterar o tabaco vendido no país (acusado de tal crime pelo jornalista Jean Paul Marat, assassinado dez meses antes), e de ter repassado a estrangeiros grandes somas de dinheiro público (o apoio dado a pesquisadores estrangeiros fora e dentro da França). Todos os 28 acusados foram julgados e guilhotinados no mesmo dia.
Lavoisier deixou um legado volumoso para a ciência e a filosofia em muitos campos. Sua importância foi reconhecida ainda durante o período revolucionário, quando, um ano e meio depois da sua execução, seus pertences foram entregues a Marie-Anne, com uma nota que dizia "À viúva de Lavoisier, que fora falsamente condenado". Lagrange disse: "Bastou a eles um segundo para cortar sua cabeça, e cem anos não bastarão para produzir outro igual".
E, afinal, depois de mergulhar numa espiral de violência revolucionária pela queda da monarquia e a tomada do poder pelo povo, a França acabaria abraçando, 10 anos depois da morte de Lavoisier, um novo monarca, Napoleão Bonaparte. O que os revolucionários tentaram introduzir de novo acabou resultando em algo muito parecido (apenas aproveitando-se de uma estrutura administrativa mais moderna) com o que era antes. Nada se cria, tudo se transforma.
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segunda-feira, 8 de maio de 2017
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
Phillibert e Jeanne
Em 18 de novembro de 1727 nasceu Phillibert Commerson (ou Commerçon) em Châtillon les Dombes, na França, na base dos Alpes. Ele seria um dos primeiros botânicos europeus a se aventurar numa viagem de volta ao mundo, e suas coletas no Brasil são alguns dos exemplares mais antigos da flora brasileira a serem amostrados e conservados em herbários até hoje.
Filho de um notário a serviço de um nobre local, seu pai esperava que ele aprendesse apenas a ler e escrever para seguir a sua profissão. Mas na escola, um professor o levou a um passeio no campo, despertando seu entusiasmo pela botânica. Estudou medicina e botânica (duas ciências que frequentemente andavam juntas, alternadamente com a farmácia e a química) em Montpellier, até hoje um dos principais centros universitários daquele país. Sua fixação por botânica o levava a coletar amostras clandestinamente no jardim botânico local, até o ponto de ser proibido de entrar nele. Entre 1754 e 1758 dedicou-se à coleta de plantas no Languedoc francês e à composição de jardins botânicos. Neste período conheceu o filósofo Voltaire, que, encantado com a acuidade do pensamento do jovem botânico, o convidou a ser seu assistente. Commerson recusou, alegando depois ter tido a impressão de que Voltaire era um velhaco, propenso a terrores noturnos (não obstante, sua carreira seria guiada pelos princípios do Iluminismo).
Nessa mesma época, Carl von Linnaeus estava trabalhando a pleno vapor nos seus novos sistemas de classificação dos seres vivos, e a ele interessava todo tipo de trabalho em ciências naturais que lhe fornecesse descrições precisas de espécies conhecidas com as quais pudesse posicionar os organismos em seus reinos, classes e ordens e formalizar seus nomes para uso de toda a comunidade científica. A Commerson ele encomendou uma monografia sobre peixes do Mediterrâneo. Commerson coletou e escreveu profusamente, mas nunca chegou a publicá-la (sua coleção de peixes ainda está preservada no Museu de Estocolmo).
Em 1760 ele se casou com Antoinette Beau e abriu um consultório médico numa aldeia. Sua vida parecia estabelecida, quando Antoinette faleceu enquanto dava à luz o filho do casal, François. Arrasado, Commerson caiu em depressão, e passou a se dedicar obcecadamente ao trabalho. Seu irmão, também François, dizia que Phillibert passara vários anos seguidos coletando plantas e insetos nos Alpes e nos Pirineus, subindo e descendo as mesmas montanhas várias vezes, vivendo de pão, leite e queijo que comprava de pastores locais e dormindo como hóspede em suas choupanas. Um amigo seu de infância, o astrônomo Jerôme Lalande, alertado pelo irmão de Phillibert, o convenceu a ir a Paris para expandir a mente, deixando o pequeno François aos cuidados de um tio, que era padre.
Em Paris, enquanto Commerson se entrosava com os principais nomes da botânica do seu tempo, como os irmãos Jussieu (Antoine, Bernard e Joseph) e Michel Adanson, quem tomava conta da sua casa era uma jovem órfã da Burgundia chamada Jeanne Barret (ou Baré). Com seus novos contatos, Commerson acabaria sendo recomendado ao almirante Louis Antoine de Boungainville como cirurgião-naturalista do seu navio, o Etoile, com o qual realizaria a primeira expedição francesa de circunavegação do globo, e a primeira expedição científica ultramarina da França.
Bougainville era um capitão experiente. Havia participado da Guerra Franco-Indígena na América do Norte. Em seguida, comandou o projeto colonial francês nas Ilhas Malvinas. O próprio Bougainville, às suas custas, levou colonos canadenses ao arquipélago para que a França o reclamasse formalmente à Espanha, que o deixara vago até então. Porém, por razões diplomáticas e econômicas, o rei Luis XV achou por bem devolver as Malvinas aos espanhóis (vendê-las, na verdade), ordenando a evacuação da colônia. Bougainville foi indenizado em 700 mil francos. Com esse dinheiro e a permissão do rei, ele armou dois navios, o Boudese e o Etoile, e contratou uma grande equipe de cientistas, entre geólogos, físicos, historiadores, cartógrafos, meteorologistas, botânicos, zoólogos e linguistas, que somavam, com a tripulação, 330 pessoas. Commerson estava entre eles, e fez questão de trazer a bordo Jeanne Barret, supostamente para auxiliá-lo com suas coletas. Porém, era comum que marinheiros se recusassem a trabalhar a bordo com uma mulher na tripulação. Na marinha francesa, o emprego de mulheres era expressamente proibido. Sabendo disso, Jeanne se apresentou ao capitão do Etoile como Jean, vestida como um rapaz. Commerson fez questão de viajar no Etoile, que era o menor dos navios, porque, com menos gente por perto, as chances de se descobrir o sexo de sua assistente seriam menores. O próprio comandante do navio, capitão Giraudais, cedeu sua cabine (que convenientemente tinha um banheiro exclusivo) para os dois acomodarem-se e a e seus equipamentos.
A missão de Bougainville zarpou de Nantes em novembro de 1766 e chegou ao Rio de Janeiro em 1767. Foi a primeira expedição científica européia a aportar na colônia portuguesa. Porém, o Rio não era a vistosa capital imperial inspirada em Lisboa ou Paris do século XIX, mas ainda uma cidade portuária provinciana e perigosa (o capelão do Etoile foi assassinado enquanto o navio esteve ancorado), então Commerson nunca se arriscou muito longe do porto, coletando espécimes na cidade e arredores, enquanto os seus colegas realizavam todo tipo de experimento científico. A taxonomia era uma ciência que ainda estava em seu período formativo (Linnaeus ainda era vivo), e como nada havia sido coletado ainda no Brasil com o objetivo de ser classificado e entrar na coleção de um herbário como testemunho, praticamente tudo era novidade. Commerson coletou e produziu descrições (nunca publicadas) de centenas de novas espécies. Uma planta ornamental, que já era muito conhecida e cultivada por aqui mas ainda era desconhecida da ciência européia, recebeu de Commerson o nome de Bougainvillea spectabilis Willd. (alguns a conhecerão como "primavera" ou "buganvílea"), em homenagem ao almirante, que também era fascinado pelas ciências naturais. As coletas de Commerson, que duraram até julho de 1767 (com uma pausa entre fevereiro e junho, quando Bougainville seguiu para as Malvinas para formalizar a entrega da colônia à Espanha), são as mais antigas que se tem notícia no Brasil, ainda preservadas em herbários europeus como o do Jardim Botânico Real, em Kew, e do Museu Nacional de História Natural, em Paris.
Commerson tinha uma ferida na perna, que nunca cicatrizava, adquiria possivelmente nas suas andanças pelas montanhas na Europa. A bordo, Jeanne cuidava dele, e em terra, o auxiliava em suas coletas (as coletas no Rio de Janeiro talvez tenham sido feitas quase todas por ela, e na Patagônia, seu vigor no campo foi elogiado pelo próprio Bougainville em seu diário). Sua proximidade era evidente. François Vives, cirurgião do Etoile que não gostava do colega, insinuava em seu diário que os dois eram gays, especulando que Barret era um eunuco. A expedição seguiu para Montevideo, descendo pela Patagônia, e, do Estreito de Magalhães, partiu para o Taiti. Bougainville acreditava ter descoberto aquele arquipélago (reclamando a ilha de Otaheite para a França), tendo notícia apenas mais tarde de que o inglês Samuel Wallis havia passado por ali meses antes. Apenas no Taiti, em abril de 1768, um ano e meio depois do início da viagem, o disfarce de Jeanne foi descoberto: aparentemente Jeanne teria sido apontada inequivocadamente por um taitiano trazido a bordo como uma mulher (ou um travesti). A história seria reproduzida pelos taitianos quando o capitão James Cook chegou nas ilhas no ano seguinte, dando a entender que eles sabiam do seu sexo, mas que os europeus ainda nem desconfiavam. Depois que a tripulação finalmente descobriu (aparentemente atacando e despindo-a à força), Jeanne foi levada à presença de Bougainville, que se divertiu com a história e decidiu não punir nem a ela, nem a Commerson.
A expedição foi atacada por nativos na ilha da Nova Irlanda, a nordeste da Nova Guiné, e fez uma parada na colônia holandesa da Batávia (atual Jacarta, na Indonésia) para reabastecer. De lá seguiu pelo Oceano Índico até as Ilhas Maurício. Commerson ficou surpreso e satisfeito ao saber que um amigo seu, o também botânico Pierre Poivre, servia como governador daquela colônia francesa. Como Poivre o convidou a se hospedar em sua casa (possivelmente, também, a conselho de Boungainville, para evitar complicações com a lei francesa), Commerson e Jeanne se despediram da expedição, que seguiu de volta para a França. Commerson usou Maurício como base para uma expedição em Madagascar, mas a sua saúde se deteriorava. Sua sorte também virou: Poivre foi chamado de volta à França em 1772, e o novo governador retirou os privilégios e a própria hospedagem da dupla, deixando Commerson e Jeanne em situação precária. Commerson faleceu em 13 de março de 1773. Sem suporte na ilha Maurício, Jeanne regressou à França (tornando-se a primeira mulher a circunavegar o planeta), onde reclamou uma modesta herança deixada pelo seu patrão (e possível amante), levando consigo todo o material coletado ao longo dos últimos anos, e que Commerson não tivera tempo de organizar. Coube a Jussieu (Antoine Laurent, sobrinho dos Jussieu que Commerson conheceu em Paris) e a Pierre Lamarck descrever e publicar formalmente as espécies descobertas pelo colega.
Filho de um notário a serviço de um nobre local, seu pai esperava que ele aprendesse apenas a ler e escrever para seguir a sua profissão. Mas na escola, um professor o levou a um passeio no campo, despertando seu entusiasmo pela botânica. Estudou medicina e botânica (duas ciências que frequentemente andavam juntas, alternadamente com a farmácia e a química) em Montpellier, até hoje um dos principais centros universitários daquele país. Sua fixação por botânica o levava a coletar amostras clandestinamente no jardim botânico local, até o ponto de ser proibido de entrar nele. Entre 1754 e 1758 dedicou-se à coleta de plantas no Languedoc francês e à composição de jardins botânicos. Neste período conheceu o filósofo Voltaire, que, encantado com a acuidade do pensamento do jovem botânico, o convidou a ser seu assistente. Commerson recusou, alegando depois ter tido a impressão de que Voltaire era um velhaco, propenso a terrores noturnos (não obstante, sua carreira seria guiada pelos princípios do Iluminismo).
Nessa mesma época, Carl von Linnaeus estava trabalhando a pleno vapor nos seus novos sistemas de classificação dos seres vivos, e a ele interessava todo tipo de trabalho em ciências naturais que lhe fornecesse descrições precisas de espécies conhecidas com as quais pudesse posicionar os organismos em seus reinos, classes e ordens e formalizar seus nomes para uso de toda a comunidade científica. A Commerson ele encomendou uma monografia sobre peixes do Mediterrâneo. Commerson coletou e escreveu profusamente, mas nunca chegou a publicá-la (sua coleção de peixes ainda está preservada no Museu de Estocolmo).
Em 1760 ele se casou com Antoinette Beau e abriu um consultório médico numa aldeia. Sua vida parecia estabelecida, quando Antoinette faleceu enquanto dava à luz o filho do casal, François. Arrasado, Commerson caiu em depressão, e passou a se dedicar obcecadamente ao trabalho. Seu irmão, também François, dizia que Phillibert passara vários anos seguidos coletando plantas e insetos nos Alpes e nos Pirineus, subindo e descendo as mesmas montanhas várias vezes, vivendo de pão, leite e queijo que comprava de pastores locais e dormindo como hóspede em suas choupanas. Um amigo seu de infância, o astrônomo Jerôme Lalande, alertado pelo irmão de Phillibert, o convenceu a ir a Paris para expandir a mente, deixando o pequeno François aos cuidados de um tio, que era padre.
Em Paris, enquanto Commerson se entrosava com os principais nomes da botânica do seu tempo, como os irmãos Jussieu (Antoine, Bernard e Joseph) e Michel Adanson, quem tomava conta da sua casa era uma jovem órfã da Burgundia chamada Jeanne Barret (ou Baré). Com seus novos contatos, Commerson acabaria sendo recomendado ao almirante Louis Antoine de Boungainville como cirurgião-naturalista do seu navio, o Etoile, com o qual realizaria a primeira expedição francesa de circunavegação do globo, e a primeira expedição científica ultramarina da França.
Bougainville era um capitão experiente. Havia participado da Guerra Franco-Indígena na América do Norte. Em seguida, comandou o projeto colonial francês nas Ilhas Malvinas. O próprio Bougainville, às suas custas, levou colonos canadenses ao arquipélago para que a França o reclamasse formalmente à Espanha, que o deixara vago até então. Porém, por razões diplomáticas e econômicas, o rei Luis XV achou por bem devolver as Malvinas aos espanhóis (vendê-las, na verdade), ordenando a evacuação da colônia. Bougainville foi indenizado em 700 mil francos. Com esse dinheiro e a permissão do rei, ele armou dois navios, o Boudese e o Etoile, e contratou uma grande equipe de cientistas, entre geólogos, físicos, historiadores, cartógrafos, meteorologistas, botânicos, zoólogos e linguistas, que somavam, com a tripulação, 330 pessoas. Commerson estava entre eles, e fez questão de trazer a bordo Jeanne Barret, supostamente para auxiliá-lo com suas coletas. Porém, era comum que marinheiros se recusassem a trabalhar a bordo com uma mulher na tripulação. Na marinha francesa, o emprego de mulheres era expressamente proibido. Sabendo disso, Jeanne se apresentou ao capitão do Etoile como Jean, vestida como um rapaz. Commerson fez questão de viajar no Etoile, que era o menor dos navios, porque, com menos gente por perto, as chances de se descobrir o sexo de sua assistente seriam menores. O próprio comandante do navio, capitão Giraudais, cedeu sua cabine (que convenientemente tinha um banheiro exclusivo) para os dois acomodarem-se e a e seus equipamentos.
A missão de Bougainville zarpou de Nantes em novembro de 1766 e chegou ao Rio de Janeiro em 1767. Foi a primeira expedição científica européia a aportar na colônia portuguesa. Porém, o Rio não era a vistosa capital imperial inspirada em Lisboa ou Paris do século XIX, mas ainda uma cidade portuária provinciana e perigosa (o capelão do Etoile foi assassinado enquanto o navio esteve ancorado), então Commerson nunca se arriscou muito longe do porto, coletando espécimes na cidade e arredores, enquanto os seus colegas realizavam todo tipo de experimento científico. A taxonomia era uma ciência que ainda estava em seu período formativo (Linnaeus ainda era vivo), e como nada havia sido coletado ainda no Brasil com o objetivo de ser classificado e entrar na coleção de um herbário como testemunho, praticamente tudo era novidade. Commerson coletou e produziu descrições (nunca publicadas) de centenas de novas espécies. Uma planta ornamental, que já era muito conhecida e cultivada por aqui mas ainda era desconhecida da ciência européia, recebeu de Commerson o nome de Bougainvillea spectabilis Willd. (alguns a conhecerão como "primavera" ou "buganvílea"), em homenagem ao almirante, que também era fascinado pelas ciências naturais. As coletas de Commerson, que duraram até julho de 1767 (com uma pausa entre fevereiro e junho, quando Bougainville seguiu para as Malvinas para formalizar a entrega da colônia à Espanha), são as mais antigas que se tem notícia no Brasil, ainda preservadas em herbários europeus como o do Jardim Botânico Real, em Kew, e do Museu Nacional de História Natural, em Paris.
Commerson tinha uma ferida na perna, que nunca cicatrizava, adquiria possivelmente nas suas andanças pelas montanhas na Europa. A bordo, Jeanne cuidava dele, e em terra, o auxiliava em suas coletas (as coletas no Rio de Janeiro talvez tenham sido feitas quase todas por ela, e na Patagônia, seu vigor no campo foi elogiado pelo próprio Bougainville em seu diário). Sua proximidade era evidente. François Vives, cirurgião do Etoile que não gostava do colega, insinuava em seu diário que os dois eram gays, especulando que Barret era um eunuco. A expedição seguiu para Montevideo, descendo pela Patagônia, e, do Estreito de Magalhães, partiu para o Taiti. Bougainville acreditava ter descoberto aquele arquipélago (reclamando a ilha de Otaheite para a França), tendo notícia apenas mais tarde de que o inglês Samuel Wallis havia passado por ali meses antes. Apenas no Taiti, em abril de 1768, um ano e meio depois do início da viagem, o disfarce de Jeanne foi descoberto: aparentemente Jeanne teria sido apontada inequivocadamente por um taitiano trazido a bordo como uma mulher (ou um travesti). A história seria reproduzida pelos taitianos quando o capitão James Cook chegou nas ilhas no ano seguinte, dando a entender que eles sabiam do seu sexo, mas que os europeus ainda nem desconfiavam. Depois que a tripulação finalmente descobriu (aparentemente atacando e despindo-a à força), Jeanne foi levada à presença de Bougainville, que se divertiu com a história e decidiu não punir nem a ela, nem a Commerson.
A expedição foi atacada por nativos na ilha da Nova Irlanda, a nordeste da Nova Guiné, e fez uma parada na colônia holandesa da Batávia (atual Jacarta, na Indonésia) para reabastecer. De lá seguiu pelo Oceano Índico até as Ilhas Maurício. Commerson ficou surpreso e satisfeito ao saber que um amigo seu, o também botânico Pierre Poivre, servia como governador daquela colônia francesa. Como Poivre o convidou a se hospedar em sua casa (possivelmente, também, a conselho de Boungainville, para evitar complicações com a lei francesa), Commerson e Jeanne se despediram da expedição, que seguiu de volta para a França. Commerson usou Maurício como base para uma expedição em Madagascar, mas a sua saúde se deteriorava. Sua sorte também virou: Poivre foi chamado de volta à França em 1772, e o novo governador retirou os privilégios e a própria hospedagem da dupla, deixando Commerson e Jeanne em situação precária. Commerson faleceu em 13 de março de 1773. Sem suporte na ilha Maurício, Jeanne regressou à França (tornando-se a primeira mulher a circunavegar o planeta), onde reclamou uma modesta herança deixada pelo seu patrão (e possível amante), levando consigo todo o material coletado ao longo dos últimos anos, e que Commerson não tivera tempo de organizar. Coube a Jussieu (Antoine Laurent, sobrinho dos Jussieu que Commerson conheceu em Paris) e a Pierre Lamarck descrever e publicar formalmente as espécies descobertas pelo colega.
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
Rapidinhas, ou "Somos todos Plutarco"
Dia 23 de setembro é data de nascimento de dois formadores de impérios, Otaviano Augusto, de Roma (63 a.C.) e Kublai Khan, da China (1215).
Eu não sou Plutarco e não vou me atrever a escrever algo na linha de seu Vidas Paralelas. A ascenção de Otaviano ao poder tomou vias incrivelmente convolutas, que envolveu casamentos feitos e desfeitos, conquistas e assassinatos de seu patrono e "pai adotivo" Júlio César (possivelmente, alguma adulteração do seu testamento também), uma guerra civil que começou com uma aliança com seu maior rival, e terminou com a morte deste, e, uma vez no poder, a transformação gradual do seu status para se tornar o primeiro imperador de Roma. Kublai Khan, por outro lado, era neto de Genghis Khan, conquistador que espalhou o domínio mongol por toda a Eurásia. Após a sua morte, seus herdeiros mais capazes foram eleitos para o seu lugar, e Kublai, educado por chineses, foi o último Grande Khan reconhecido universalmente por 1/5 de todas as terras do planeta - às quais ele adicionaria o norte e o sul da China, fundando a dinastia Yuan. O império de Augusto durou mais tempo do que a dinastia Yuan.
Qualquer um dos dois personagens oferece uma vastíssima gama de assuntos que poderiam ser tratados, e eu realmente não tenho tido muito tempo para me dedicar com profundidade a temas tão abertos. Por essa razão, eu evitei escrever sobre Marco Polo em duas oportunidades nas últimas semanas, quando chegaram as datas em que ele ditou suas aventuras na prisão, e a de sua morte - as vidas de Marco Polo e de Kublai Khan se cruzaram de maneira indelével na sua estada na China, trazendo para o Ocidente as primeiras notícias detalhadas do extremo oriente. É muita história para ser escrita durante um dia, nos intervalos do trabalho.
Mas isso não é desculpa para inatividade! Então aí vão outras rapidinhas... no irresistível estilo de Plutarco:
Por coincidência, 23 de setembro também é a data em que Noruega e Suécia se tornaram países independentes de maneira pacífica em 1905 (anteriormente unidos sob a coroa sueca), e a data oficial de incorporação dos reinos árabes de Nejd e Hijaz (conquistado na década anterior) em 1932, sob o sultão Abdulaziz ibn Saud, de Nejd, formando a Arábia Saudita.
É o dia em que um negro americano é condenado vai a julgamento (e será o único condenado dos oito acusados) por atos de vandalismo e incitação à violência em um protesto contra a Guerra do Vietnã em Chicago (Bobby Seale, em 1969), e o dia em que um branco se torna o primeiro boxeador africano a se tornar campeão mundial dos pesos pesados (Gerrie Coetzee, em 1983, vencendo Michael Dokes).
É a data em que falecem o criador da psicanálise Sigmund Freud (1939), o poeta chileno Pablo Neruda (1973).
Edward Lee Howard, agente da CIA, é preso como espião na União Soviética em 1985, enquanto, durante a Revolução Americana, foi o militar britânico John André que os revolucionários prenderam por espionagem em 1779.
Em 1911, o americano Earle Ovington, pilotando um Blériot XI, conseguiu entregar a primeira encomenda aérea da História, e em 1999, a NASA perdeu contato com a sonda Mars Climate Orbiter, projetada para se tornar um satélite meteorológico no planeta vermelho e destruída durante uma entrada acidental em sua atmosfera.
De acordo com alguns teoristas, o dia 23 de setembro também é o dia em que o mundo será destruído por um evento cataclísmico global. Ou ao menos é em que acredita o ministro do exterior da França, monsieur Laurent Fabius.
Então, até amanhã.
Eu não sou Plutarco e não vou me atrever a escrever algo na linha de seu Vidas Paralelas. A ascenção de Otaviano ao poder tomou vias incrivelmente convolutas, que envolveu casamentos feitos e desfeitos, conquistas e assassinatos de seu patrono e "pai adotivo" Júlio César (possivelmente, alguma adulteração do seu testamento também), uma guerra civil que começou com uma aliança com seu maior rival, e terminou com a morte deste, e, uma vez no poder, a transformação gradual do seu status para se tornar o primeiro imperador de Roma. Kublai Khan, por outro lado, era neto de Genghis Khan, conquistador que espalhou o domínio mongol por toda a Eurásia. Após a sua morte, seus herdeiros mais capazes foram eleitos para o seu lugar, e Kublai, educado por chineses, foi o último Grande Khan reconhecido universalmente por 1/5 de todas as terras do planeta - às quais ele adicionaria o norte e o sul da China, fundando a dinastia Yuan. O império de Augusto durou mais tempo do que a dinastia Yuan.
Qualquer um dos dois personagens oferece uma vastíssima gama de assuntos que poderiam ser tratados, e eu realmente não tenho tido muito tempo para me dedicar com profundidade a temas tão abertos. Por essa razão, eu evitei escrever sobre Marco Polo em duas oportunidades nas últimas semanas, quando chegaram as datas em que ele ditou suas aventuras na prisão, e a de sua morte - as vidas de Marco Polo e de Kublai Khan se cruzaram de maneira indelével na sua estada na China, trazendo para o Ocidente as primeiras notícias detalhadas do extremo oriente. É muita história para ser escrita durante um dia, nos intervalos do trabalho.
Mas isso não é desculpa para inatividade! Então aí vão outras rapidinhas... no irresistível estilo de Plutarco:
Por coincidência, 23 de setembro também é a data em que Noruega e Suécia se tornaram países independentes de maneira pacífica em 1905 (anteriormente unidos sob a coroa sueca), e a data oficial de incorporação dos reinos árabes de Nejd e Hijaz (conquistado na década anterior) em 1932, sob o sultão Abdulaziz ibn Saud, de Nejd, formando a Arábia Saudita.
É o dia em que um negro americano é condenado vai a julgamento (e será o único condenado dos oito acusados) por atos de vandalismo e incitação à violência em um protesto contra a Guerra do Vietnã em Chicago (Bobby Seale, em 1969), e o dia em que um branco se torna o primeiro boxeador africano a se tornar campeão mundial dos pesos pesados (Gerrie Coetzee, em 1983, vencendo Michael Dokes).
É a data em que falecem o criador da psicanálise Sigmund Freud (1939), o poeta chileno Pablo Neruda (1973).
Edward Lee Howard, agente da CIA, é preso como espião na União Soviética em 1985, enquanto, durante a Revolução Americana, foi o militar britânico John André que os revolucionários prenderam por espionagem em 1779.
Em 1911, o americano Earle Ovington, pilotando um Blériot XI, conseguiu entregar a primeira encomenda aérea da História, e em 1999, a NASA perdeu contato com a sonda Mars Climate Orbiter, projetada para se tornar um satélite meteorológico no planeta vermelho e destruída durante uma entrada acidental em sua atmosfera.
De acordo com alguns teoristas, o dia 23 de setembro também é o dia em que o mundo será destruído por um evento cataclísmico global. Ou ao menos é em que acredita o ministro do exterior da França, monsieur Laurent Fabius.
Então, até amanhã.
quinta-feira, 17 de setembro de 2015
Mundo microscópico revelado
Em 17 de setembro de 1683, o comerciante holandês Antonie van Leeuwenhoek ("Lêuehuk", se você, como eu, verbaliza o texto mentalmente enquanto lê) escreveu uma nota à Royal Society fornecendo a primeira notícia para a ciência da existência de pequenos animais se locomovendo na água - protozoários - observados em um de seus microscópios.
Antonie van Leeuwenhoek nasceu de uma família modesta em Delft, na Holanda, em 1632. Sua educação foi breve, e aos 16 anos estava trabalhando como aprendiz em um armarinho. Pouco depois ele abriria seu próprio negócio no ramo. Enquanto era dono do seu armarinho, Leeuwenhoek usava lentes de aumento para avaliar a qualidade da trama dos tecidos que comprava e vendia. Sua atenção pelos pormenores dos tecidos e da estrutura dos fios desviou seu interesse para a fabricação de lentes. Com algum conhecimento em vidraria, ele desenvolveu um conjunto de pequenas lentes que aumentavam as imagens assombrosamente. Ele passou a observar, além de fios e linhas, tudo que fosse pequeno demais para a vista humanas: insetos, ácaros, estruturas vegetais, animais e minerais, investigava amostras de solo, gotas de água, fluidos corporais e secreções, descrevendo-as e ilustrando-as.
Sem contato com o meio acadêmico, Leeuwenhoek mostrou seu trabalho a um médico, Reinier de Graaf. Foi ele quem escreveu à Royal Society, em Londres, recomendando a qualidade dos microscópios construídos por Leeuwenhoek. Ele então passou a se corresponder com a comunidade científica, mas foi após alguma insistência que suas descobertas foram reveladas para a ciência (ele via a si mesmo como um comerciante sem conhecimento científico ou artístico dignos, e só passou a divulgar suas descobertas após os 40 anos, apenas em comunicações pessoais à Royal Society, e sempre em holandês). Algumas delas espantaram a ciência: a descoberta de "animáculos" que se moviam na água (a primeira descrição de protozoários), pequenos seres que habitavam a saliva humana (que mais tarde seriam classificados como bactérias), a descrição dos arranjos em feixes das fibras musculares, a presença de pequenos seres no esperma (os espermatozoides). Além de descrever a estrutura interna de um grão de café, ele percebeu que os animáculos da saliva (as bactérias) desapareciam das amostras retiradas depois que ele tomava café. Ele ainda sugeriu que os microrganismos se multiplicavam por reprodução, como os animais macroscópicos, ao contrário do consenso da época de que surgiriam espontaneamente das impurezas do meio.
Um contemporâneo seu, Robert Hooke, um naturalista e polímata que também explorava o mundo em seus próprios microscópios e havia descrito as células como unidades formadoras de todo ser vivo conhecido com base na sua observação de uma lâmina de cortiça, se ressentia do crescente prestígio do comerciante de tecidos (e depois camareiro oficial da Câmara Municipal e encarregado de controlar a qualidade de vinhos de Delft) no meio acadêmico. É possível que o holandês não desse muita atenção às críticas de Hooke, reconhecido no meio como ranzinza e propenso a disputas ideológicas com seus pares (ele entrou em conflito com outro gênio de temperamento difícil, Isaac Newton, pela autoria da teoria da gravidade). De fato, Leeuwenhoek obteve fama e prestígio suficientes para receber a visita de várias autoridades internacionais, entre as quais o Czar da Rússia Pedro, o Grande (a quem presenteou com uma lente de aumento e demonstrou a circulação sanguínea de uma enguia), o filósofo e matemático Gottfried Leibniz, os príncipes de Orange e a Rainha Ana do Reino Unido. A esses visitantes curiosos, Leeuwenhoek mostrava apenas suas lentes de mais baixa qualidade, mas suficiente para impressioná-los. Como bom comerciante, temia que sua técnica para a fabricação de lentes pequenas, que era incrivelmente simples (ele derretia finíssimos tubos de vidro em pequenas gotas que apenas esperava se solidificarem, ao invés de polir peças maiores até ficarem pequenas o suficiente e com o formato e curvatura ideais), fosse descoberta por observadores mais sagazes. Poucos dos seus aparelhos óticos sobreviveram aos dias atuais. Estima-se pela qualidade das suas ilustrações que seus melhores microscópios podiam produzir imagens aumentadas 500 vezes com apenas uma lente. Os microscópios óticos atuais possuem pelo menos um par de lentes, tipicamente dois pares, chegando a aumentos de até 1000 vezes, embora o aumento de um microscópio comum ou um estereoscópico, com um par de lentes, normalmente chegue a apenas de 50 a 100 vezes, suficiente para ver com algum detalhe o corpo de uma pulga, o formato geral de grãos de pólen, ou o movimento de alguns protozoários maiores.
As descobertas de Leeuwenhoek abriram um leque grande de novos conhecimentos a serem explorados que tem impacto no conhecimento produzido mesmo neste exato momento - das inovações técnicas na confecção de lentes cada vez mais precisas e nítidas, ao advento dos microscópios eletrônicos atuais capazes de detectar com nitidez ultraestruturas em nível molecular, à evolução do conhecimento das interações entre microrganismos e vírus (descobertos no final do século XIX e "invisíveis" até meados do século XX) e o corpo humano, a identificação de agentes infecciosos e comensais, o desenvolvimento de vacinas, antibióticos, sintetização e transformação de substâncias com atividades biológicas diversas direcionadas a funções e tratamentos específicos, seu subsequente uso na genética, na agricultura, na fermentação, na produção de vitaminas, na remediação ecológica. A inclusão de um mundo invisível ao olho nu ao universo do pensamento humano proporcionou uma nova noção de escala O universo microscópico, antes desconhecido, deu à humanidade os subsídios para os avanços meteóricos da medicina, da anatomia e da microbiologia nos séculos seguintes.
Antonie van Leeuwenhoek nasceu de uma família modesta em Delft, na Holanda, em 1632. Sua educação foi breve, e aos 16 anos estava trabalhando como aprendiz em um armarinho. Pouco depois ele abriria seu próprio negócio no ramo. Enquanto era dono do seu armarinho, Leeuwenhoek usava lentes de aumento para avaliar a qualidade da trama dos tecidos que comprava e vendia. Sua atenção pelos pormenores dos tecidos e da estrutura dos fios desviou seu interesse para a fabricação de lentes. Com algum conhecimento em vidraria, ele desenvolveu um conjunto de pequenas lentes que aumentavam as imagens assombrosamente. Ele passou a observar, além de fios e linhas, tudo que fosse pequeno demais para a vista humanas: insetos, ácaros, estruturas vegetais, animais e minerais, investigava amostras de solo, gotas de água, fluidos corporais e secreções, descrevendo-as e ilustrando-as.
Sem contato com o meio acadêmico, Leeuwenhoek mostrou seu trabalho a um médico, Reinier de Graaf. Foi ele quem escreveu à Royal Society, em Londres, recomendando a qualidade dos microscópios construídos por Leeuwenhoek. Ele então passou a se corresponder com a comunidade científica, mas foi após alguma insistência que suas descobertas foram reveladas para a ciência (ele via a si mesmo como um comerciante sem conhecimento científico ou artístico dignos, e só passou a divulgar suas descobertas após os 40 anos, apenas em comunicações pessoais à Royal Society, e sempre em holandês). Algumas delas espantaram a ciência: a descoberta de "animáculos" que se moviam na água (a primeira descrição de protozoários), pequenos seres que habitavam a saliva humana (que mais tarde seriam classificados como bactérias), a descrição dos arranjos em feixes das fibras musculares, a presença de pequenos seres no esperma (os espermatozoides). Além de descrever a estrutura interna de um grão de café, ele percebeu que os animáculos da saliva (as bactérias) desapareciam das amostras retiradas depois que ele tomava café. Ele ainda sugeriu que os microrganismos se multiplicavam por reprodução, como os animais macroscópicos, ao contrário do consenso da época de que surgiriam espontaneamente das impurezas do meio.
Um contemporâneo seu, Robert Hooke, um naturalista e polímata que também explorava o mundo em seus próprios microscópios e havia descrito as células como unidades formadoras de todo ser vivo conhecido com base na sua observação de uma lâmina de cortiça, se ressentia do crescente prestígio do comerciante de tecidos (e depois camareiro oficial da Câmara Municipal e encarregado de controlar a qualidade de vinhos de Delft) no meio acadêmico. É possível que o holandês não desse muita atenção às críticas de Hooke, reconhecido no meio como ranzinza e propenso a disputas ideológicas com seus pares (ele entrou em conflito com outro gênio de temperamento difícil, Isaac Newton, pela autoria da teoria da gravidade). De fato, Leeuwenhoek obteve fama e prestígio suficientes para receber a visita de várias autoridades internacionais, entre as quais o Czar da Rússia Pedro, o Grande (a quem presenteou com uma lente de aumento e demonstrou a circulação sanguínea de uma enguia), o filósofo e matemático Gottfried Leibniz, os príncipes de Orange e a Rainha Ana do Reino Unido. A esses visitantes curiosos, Leeuwenhoek mostrava apenas suas lentes de mais baixa qualidade, mas suficiente para impressioná-los. Como bom comerciante, temia que sua técnica para a fabricação de lentes pequenas, que era incrivelmente simples (ele derretia finíssimos tubos de vidro em pequenas gotas que apenas esperava se solidificarem, ao invés de polir peças maiores até ficarem pequenas o suficiente e com o formato e curvatura ideais), fosse descoberta por observadores mais sagazes. Poucos dos seus aparelhos óticos sobreviveram aos dias atuais. Estima-se pela qualidade das suas ilustrações que seus melhores microscópios podiam produzir imagens aumentadas 500 vezes com apenas uma lente. Os microscópios óticos atuais possuem pelo menos um par de lentes, tipicamente dois pares, chegando a aumentos de até 1000 vezes, embora o aumento de um microscópio comum ou um estereoscópico, com um par de lentes, normalmente chegue a apenas de 50 a 100 vezes, suficiente para ver com algum detalhe o corpo de uma pulga, o formato geral de grãos de pólen, ou o movimento de alguns protozoários maiores.
As descobertas de Leeuwenhoek abriram um leque grande de novos conhecimentos a serem explorados que tem impacto no conhecimento produzido mesmo neste exato momento - das inovações técnicas na confecção de lentes cada vez mais precisas e nítidas, ao advento dos microscópios eletrônicos atuais capazes de detectar com nitidez ultraestruturas em nível molecular, à evolução do conhecimento das interações entre microrganismos e vírus (descobertos no final do século XIX e "invisíveis" até meados do século XX) e o corpo humano, a identificação de agentes infecciosos e comensais, o desenvolvimento de vacinas, antibióticos, sintetização e transformação de substâncias com atividades biológicas diversas direcionadas a funções e tratamentos específicos, seu subsequente uso na genética, na agricultura, na fermentação, na produção de vitaminas, na remediação ecológica. A inclusão de um mundo invisível ao olho nu ao universo do pensamento humano proporcionou uma nova noção de escala O universo microscópico, antes desconhecido, deu à humanidade os subsídios para os avanços meteóricos da medicina, da anatomia e da microbiologia nos séculos seguintes.
sexta-feira, 28 de agosto de 2015
A AIDS vem a público
Em 28 de agosto de 1981 o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos publicou uma nota reconhecendo a alta incidência de infecções pulmonares de origem fúngica (pneumocistose) e de sarcomas de Kaposi (uma espécie de tumor hipodérmico causado por um tipo de vírus da herpes), doenças então muito raras, em pacientes homossexuais e usuários de drogas injetáveis.
A ocorrência dessas doenças chamava a atenção, porque são mais comuns em pacientes imunodeprimidos, e porque o aumento súbito da sua ocorrência se dava em pacientes dessas categorias especificamente. Os cientistas ficaram perdidos tentando associar o grupo com as doenças e o que poderia estar possivelmente causando a imunodepressão nessas pessoas. O primeiro grupo de estudos do governo americano a acompanhar o surto o designava como "Sarcoma de Karposi e infecções oportunistas", por falta de conhecimento sobre o quadro. Além da pneumocistose e do sarcoma de Karposi, os pacientes também apresentavam nódulos linfáticos inchados, fraqueza generalizada, dores musculares, falta de apetite, perda de peso, e propensão a outras infecções raras típicas de imunodepressão.
Refinando os dados sobre os pacientes, identificaram que, além de homossexuais e usuários de drogas injetáveis (sobretudo heroína), também estavam vulneráveis hemofílicos e haitianos. A imprensa começou a divulgar a nova síndrome como "deficiência imunológica relacionada aos gays". A imprensa brasileira enfatizava que essa nova doença parecia estar surgindo especificamente no seio das comunidades gays.
Com todos os dados que se conhecia, em 1982 fixou-se um nome mais abrangente: Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, cuja sigla em inglês é AIDS.
Foi apenas em 1983 que dois grupos de estudo identificaram um retrovírus presente no sangue de pacientes de AIDS capaz de atacar especificamente linfócitos do tipo T, que são linfócitos que sinalizam às demais células do sistema imunológico a presença de agentes infecciosos no sangue. De alguma forma, esse vírus desativava as células T sem destruí-las, impossibilitando a reação do sistema imunológico. Os dois grupos acreditavam ter identificado vírus diferentes, mas em 1986 concluiu-se que eles eram o mesmo, o vírus da imunodeficiência humana, ou HIV.
Entre 1981 e 1986, o HIV se espalhou rapidamente, devido ao desconhecimento sobre a sua causa, e as suas formas de contágio. Desde o primeiro momento, parecia claro que, fosse o que fosse, poderia ser transmissível pelo sangue. Como não se conhecia o vírus nem outra maneira de se detectar a doença pelo sangue apenas, muitos hemofílicos e pessoas submetidas a transfusões de sangue acabaram infectadas. Sem um tratamento adequado, os pacientes de AIDS definhavam rapidamente, e podiam morrer de doenças banais como um resfriado em poucos meses. A persistência da síndrome em homossexuais continuava chamando a atenção. Não tardou para que religiosos atribuíssem a AIDS a algum tipo de punição divina contra a sodomia e outros comportamentos ímpios (apesar de tudo, ainda há hoje quem defenda esta tese, negando mesmo a própria existência do HIV).
Cientistas suspeitavam de trocas de fluidos corporais, especificamente sêmen. Informações desencontradas e uma imprensa que vendia o pânico, fizeram com que os pacientes de AIDS fossem estigmatizados, excluídos do convívio social, mesmo hostilizados - "agora aguenta". Havia medo de contágio pelo toque, pela saliva, pelo ar. Isso também prejudicou gravemente as condições dos pacientes em tratamento. Eu sou uma pessoa que cresceu nos anos 80, e lembro da histeria que que se criou em torno da AIDS, e do temor constante entre as crianças da minha idade de "pegar AIDS" de objetos enferrujados (o que evitava que pegássemos tétano, na verdade) ou por contato físico, e que, se você se distraísse e "pegasse", era uma sentença de humilhação e morte certas. Nomes de grande notoriedade midiática - artistas, principalmente - sucumbiram à doença, conferindo-lhe notoriedade extraordinária e contribuindo para um pânico generalizado naquele primeiro momento.
Tão logo o HIV foi identificado como a causa da AIDS (e, na verdade, de um processo do qual a AIDS, ou o quadro de imunodepressão, é a etapa mais avançada), e ficou estabelecido que o contágio só é possível através de troca de sangue e sêmen, irrestrito aos antigos "grupos de risco" (homossexuais e usuários de drogas injetáveis), os veículos de comunicação passaram a exibir mensagens de governos e organizações não governamentais alertando para o uso estrito de agulhas e seringas descartáveis (eu passei a infância fazendo exames de sangue pelo menos uma vez por ano, e só a partir da segunda metade dos anos 80 as enfermeiras obedeciam ao ritual de abrir as novas agulhas na minha frente para mostrar que eram novas) e camisinhas nas relações sexuais, mesmo sem penetração vaginal. Os bancos de sangue passaram a ter um controle cada vez mais estrito (ainda assim, em 1986 o sociólogo Herbert de Souza, hemofílico, contraiu o HIV em uma transfusão), assim como a assepsia de materiais cirúrgicos e do seu descarte. Em 1987 entrou no mercado a azidotimidina, ou o AZT, um anti-retroviral que freava a reprodução do HIV no organismo e retardava o seu progresso. O AZT permitiu um aumento significativo na sobrevida dos portadores do vírus, porém não seria a cura; sua dose máxima é limitada pelo seu efeito tóxico sobre as mitocôndrias e outros efeitos colaterais no metabolismo humano, possibilitando ainda a reprodução do vírus em taxas menores.
De qualquer forma, o vírus HIV, transmissível por relações sexuais, transformou radicalmente o comportamento da geração que cresceu nos anos 70 sob a cultura da liberdade sexual. O "amor livre" foi sepultado por motivo de saúde pública. A geração que cresceu com medo da AIDS se tornou sexualmente mais conservadora, no que diz respeito à franqueza com que lida com o sexo e assuntos relacionados - não necessariamente à sua prática na intimidade. Essa falta de abertura quanto ao sexo vitimou principalmente mulheres, cujos parceiros sexuais mantinham seus casos com terceiras(os) em sigilo e praticavam sexo sem proteção em casa, disseminando o vírus para um grupo que, no começo da epidemia, parecia bastante "seguro". No continente africano, onde supõe-se que o HIV tenha evoluído de um vírus imunodepressor similar típico de outras espécies de primatas, a falta de informação e as crenças populares levaram ao mito de que o sexo com uma virgem poderia purificar um homem da doença. Atualmente, quase 5% dos adultos entre 15 e 49 anos na África subsaariana são portadores de HIV (chegando a um pico de 26% de toda a população adulta da África do Sul).
Com o correr dos anos, o conhecimento sobre o HIV e suas variedades, e sobre o próprio metabolismo humano permitiu o desenvolvimento de novas drogas que, combinadas, permitem aos portadores de HIV uma sobrevida longa e produtiva, sem o característico definhamento físico que estigmatizava os "aidéticos" até meados dos anos 1990 (alguns pacientes morrem de velhice ou doenças não relacionadas com a imunodepressão após 15, 20 anos com o vírus). Com isso, a geração que nasceu nos anos 90, e a geração do "amor livre" dos anos 70, perderam o medo da AIDS. Isso se reflete num aumento na transmissão do HIV entre adolescentes (que, segundo a análise de Drauzio Varella, "acham que ninguém mais morre de AIDS", e que caso aconteça é só tomar uns remédios distribuídos gratuitamente pelo SUS), e adultos acima dos 50 anos (cuja vida sexual é prolongada com o uso de medicamentos estimulantes, e se iniciaram sexualmente numa época em que não existia um hábito de se usar camisinhas, necessárias, na sua visão, apenas quando existia o risco de gravidez). Tudo isso a despeito das outras doenças sexualmente transmissíveis com efeitos nocivos, como herpes, gonorreia, hepatite C e sífilis, para as quais o tratamento não é simples. Isso se traduz nos dados de pesquisas sobre novos infectados no Brasil: um acentuado declínio entre meados dos anos 1990 e 2001, e um novo aumento contínuo a partir de 2005 até 2015. Homens heterossexuais acima de 13 anos de idade compõe atualmente a maior proporção de portadores de HIV no país por gênero/idade/orientação sexual.
Há em torno de 734 mil soropositivos no Brasil, e cerca de 400 mil destes recebem do Sistema Único de Saúde o coquetel anti-retroviral e por ele realizam exames periódicos. Cerca de 5,7 óbitos para cada 100 mil habitantes em 2013 eram em decorrência da AIDS, proporção que vem decrescendo nos últimos 10 anos. Ainda não existe um remédio que elimine o HIV, ou neutralize o seu efeito imunodepressor.
A ocorrência dessas doenças chamava a atenção, porque são mais comuns em pacientes imunodeprimidos, e porque o aumento súbito da sua ocorrência se dava em pacientes dessas categorias especificamente. Os cientistas ficaram perdidos tentando associar o grupo com as doenças e o que poderia estar possivelmente causando a imunodepressão nessas pessoas. O primeiro grupo de estudos do governo americano a acompanhar o surto o designava como "Sarcoma de Karposi e infecções oportunistas", por falta de conhecimento sobre o quadro. Além da pneumocistose e do sarcoma de Karposi, os pacientes também apresentavam nódulos linfáticos inchados, fraqueza generalizada, dores musculares, falta de apetite, perda de peso, e propensão a outras infecções raras típicas de imunodepressão.
Refinando os dados sobre os pacientes, identificaram que, além de homossexuais e usuários de drogas injetáveis (sobretudo heroína), também estavam vulneráveis hemofílicos e haitianos. A imprensa começou a divulgar a nova síndrome como "deficiência imunológica relacionada aos gays". A imprensa brasileira enfatizava que essa nova doença parecia estar surgindo especificamente no seio das comunidades gays.
Com todos os dados que se conhecia, em 1982 fixou-se um nome mais abrangente: Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, cuja sigla em inglês é AIDS.
Foi apenas em 1983 que dois grupos de estudo identificaram um retrovírus presente no sangue de pacientes de AIDS capaz de atacar especificamente linfócitos do tipo T, que são linfócitos que sinalizam às demais células do sistema imunológico a presença de agentes infecciosos no sangue. De alguma forma, esse vírus desativava as células T sem destruí-las, impossibilitando a reação do sistema imunológico. Os dois grupos acreditavam ter identificado vírus diferentes, mas em 1986 concluiu-se que eles eram o mesmo, o vírus da imunodeficiência humana, ou HIV.
Entre 1981 e 1986, o HIV se espalhou rapidamente, devido ao desconhecimento sobre a sua causa, e as suas formas de contágio. Desde o primeiro momento, parecia claro que, fosse o que fosse, poderia ser transmissível pelo sangue. Como não se conhecia o vírus nem outra maneira de se detectar a doença pelo sangue apenas, muitos hemofílicos e pessoas submetidas a transfusões de sangue acabaram infectadas. Sem um tratamento adequado, os pacientes de AIDS definhavam rapidamente, e podiam morrer de doenças banais como um resfriado em poucos meses. A persistência da síndrome em homossexuais continuava chamando a atenção. Não tardou para que religiosos atribuíssem a AIDS a algum tipo de punição divina contra a sodomia e outros comportamentos ímpios (apesar de tudo, ainda há hoje quem defenda esta tese, negando mesmo a própria existência do HIV).
Cientistas suspeitavam de trocas de fluidos corporais, especificamente sêmen. Informações desencontradas e uma imprensa que vendia o pânico, fizeram com que os pacientes de AIDS fossem estigmatizados, excluídos do convívio social, mesmo hostilizados - "agora aguenta". Havia medo de contágio pelo toque, pela saliva, pelo ar. Isso também prejudicou gravemente as condições dos pacientes em tratamento. Eu sou uma pessoa que cresceu nos anos 80, e lembro da histeria que que se criou em torno da AIDS, e do temor constante entre as crianças da minha idade de "pegar AIDS" de objetos enferrujados (o que evitava que pegássemos tétano, na verdade) ou por contato físico, e que, se você se distraísse e "pegasse", era uma sentença de humilhação e morte certas. Nomes de grande notoriedade midiática - artistas, principalmente - sucumbiram à doença, conferindo-lhe notoriedade extraordinária e contribuindo para um pânico generalizado naquele primeiro momento.
Tão logo o HIV foi identificado como a causa da AIDS (e, na verdade, de um processo do qual a AIDS, ou o quadro de imunodepressão, é a etapa mais avançada), e ficou estabelecido que o contágio só é possível através de troca de sangue e sêmen, irrestrito aos antigos "grupos de risco" (homossexuais e usuários de drogas injetáveis), os veículos de comunicação passaram a exibir mensagens de governos e organizações não governamentais alertando para o uso estrito de agulhas e seringas descartáveis (eu passei a infância fazendo exames de sangue pelo menos uma vez por ano, e só a partir da segunda metade dos anos 80 as enfermeiras obedeciam ao ritual de abrir as novas agulhas na minha frente para mostrar que eram novas) e camisinhas nas relações sexuais, mesmo sem penetração vaginal. Os bancos de sangue passaram a ter um controle cada vez mais estrito (ainda assim, em 1986 o sociólogo Herbert de Souza, hemofílico, contraiu o HIV em uma transfusão), assim como a assepsia de materiais cirúrgicos e do seu descarte. Em 1987 entrou no mercado a azidotimidina, ou o AZT, um anti-retroviral que freava a reprodução do HIV no organismo e retardava o seu progresso. O AZT permitiu um aumento significativo na sobrevida dos portadores do vírus, porém não seria a cura; sua dose máxima é limitada pelo seu efeito tóxico sobre as mitocôndrias e outros efeitos colaterais no metabolismo humano, possibilitando ainda a reprodução do vírus em taxas menores.
De qualquer forma, o vírus HIV, transmissível por relações sexuais, transformou radicalmente o comportamento da geração que cresceu nos anos 70 sob a cultura da liberdade sexual. O "amor livre" foi sepultado por motivo de saúde pública. A geração que cresceu com medo da AIDS se tornou sexualmente mais conservadora, no que diz respeito à franqueza com que lida com o sexo e assuntos relacionados - não necessariamente à sua prática na intimidade. Essa falta de abertura quanto ao sexo vitimou principalmente mulheres, cujos parceiros sexuais mantinham seus casos com terceiras(os) em sigilo e praticavam sexo sem proteção em casa, disseminando o vírus para um grupo que, no começo da epidemia, parecia bastante "seguro". No continente africano, onde supõe-se que o HIV tenha evoluído de um vírus imunodepressor similar típico de outras espécies de primatas, a falta de informação e as crenças populares levaram ao mito de que o sexo com uma virgem poderia purificar um homem da doença. Atualmente, quase 5% dos adultos entre 15 e 49 anos na África subsaariana são portadores de HIV (chegando a um pico de 26% de toda a população adulta da África do Sul).
Com o correr dos anos, o conhecimento sobre o HIV e suas variedades, e sobre o próprio metabolismo humano permitiu o desenvolvimento de novas drogas que, combinadas, permitem aos portadores de HIV uma sobrevida longa e produtiva, sem o característico definhamento físico que estigmatizava os "aidéticos" até meados dos anos 1990 (alguns pacientes morrem de velhice ou doenças não relacionadas com a imunodepressão após 15, 20 anos com o vírus). Com isso, a geração que nasceu nos anos 90, e a geração do "amor livre" dos anos 70, perderam o medo da AIDS. Isso se reflete num aumento na transmissão do HIV entre adolescentes (que, segundo a análise de Drauzio Varella, "acham que ninguém mais morre de AIDS", e que caso aconteça é só tomar uns remédios distribuídos gratuitamente pelo SUS), e adultos acima dos 50 anos (cuja vida sexual é prolongada com o uso de medicamentos estimulantes, e se iniciaram sexualmente numa época em que não existia um hábito de se usar camisinhas, necessárias, na sua visão, apenas quando existia o risco de gravidez). Tudo isso a despeito das outras doenças sexualmente transmissíveis com efeitos nocivos, como herpes, gonorreia, hepatite C e sífilis, para as quais o tratamento não é simples. Isso se traduz nos dados de pesquisas sobre novos infectados no Brasil: um acentuado declínio entre meados dos anos 1990 e 2001, e um novo aumento contínuo a partir de 2005 até 2015. Homens heterossexuais acima de 13 anos de idade compõe atualmente a maior proporção de portadores de HIV no país por gênero/idade/orientação sexual.
Há em torno de 734 mil soropositivos no Brasil, e cerca de 400 mil destes recebem do Sistema Único de Saúde o coquetel anti-retroviral e por ele realizam exames periódicos. Cerca de 5,7 óbitos para cada 100 mil habitantes em 2013 eram em decorrência da AIDS, proporção que vem decrescendo nos últimos 10 anos. Ainda não existe um remédio que elimine o HIV, ou neutralize o seu efeito imunodepressor.
sexta-feira, 21 de agosto de 2015
O homem sem sombra
Em 21 de agosto de 1838 faleceu de tuberculose Adelbert von Chamisso, escritor e naturalista franco-alemão que viria a ser bem sucedido nas duas carreiras.
Chamisso nasceu na França (seu sobrenome era grafado originalmente "Chamissot"), mas devido à Revolução, sua família emigrou para Berlim. Seguindo carreira militar na Prússia, ele permaneceu ali quando sua família recebeu permissão para retornar à França. Enquanto servia, estudava ciências naturais e arriscava uns versos. Dispensado do exército em 1807 e desempregado, recusou um emprego como professor para seguir Madame de Staël, uma socialite francesa, patrocinadora de escritores e poetas diversos, para seu exílio na Suíça. Convivia permanentemente com a dualidade de ser um francês em terra alemã (e em 1810, em visita a Paris, um alemão em terra francesa), tendo que lidar com o idioma alemão escrito enquanto pensava em francês e sonhava com as terras de seus pais. Sua dualidade também era vivida nos seus campos de interesse: simultaneamente a literatura e a botânica. Aos 35 anos embarcou numa expedição científica russa de volta ao mundo, onde coletou abundantemente espécimes minerais, vegetais e animais, realizou observações geológicas, meteorológicas e etnológicas. Se tornou um naturalista altamente respeitável. Além de um poeta de renome.
Sua vida e sua carreira foram estranhamente sumarizadas de forma profética no seu primeiro livro, Peter Schlemihl, de 1813.
O personagem-título era um infeliz (Chamisso o descrevia como alguém que é capaz de cair de costas e fraturar o nariz) que encontra o Diabo. O Diabo estava de posse de uma bolsa, a Bolsa de Fortunato, uma bolsa sem fundo de onde sempre se podia tirar dinheiro. Em troca dela, ele queria a sua sombra. Peter gostou da barganha e fez a troca. O Diabo prometeu que retornaria dentro de um ano. Embora agora se tornasse fabulosamente rico, o fato de não ter uma sombra alarmava as pessoas. Ele era visto pelas costas, excluído dos círculos sociais, destratado até por quem não tinha nada. Ele foge com dois empregados para uma pequena cidade, onde ele procura cativar os locais com demonstrações de generosidade, tomando cuidado para não revelar seu segredo. Ele se apaixona por Minna, filha de um notável local. Um dia antes de pedir sua mão em casamento, um dos seus empregados ameaça contar seu segredo (ou o segredo que ele acredita saber, que Schlemihl seria na verdade um rei... mas Peter não sabe disso, e a ameaça o deixa desesperado). Neste momento surge novamente o Diabo, que se oferece para devolver sua sombra em troca de sua alma. Ele lhe oferece uma visão do pai de Minna se recusando a dar a mão da filha a um homem sem sombra. Com seu segredo de fato revelado, Peter resiste e decide fugir novamente (deixando grande quantidade de ouro para o outro criado que lhe foi fiel).
O Diabo insiste em persegui-lo e assediá-lo, mas Peter resiste obstinadamente, até que ele joga a bolsa mágica num precipício e abre mão do benefício do primeiro contrato. O vínculo é desfeito e o Diabo desaparece. Perambulando sozinho até gastarem-se completamente as suas botas, ele acaba comprando um par de "botas de sete léguas", que lhe permitem viajar rapidamente, transpor montanhas e mares, e atravessar oceanos e continentes. Escolhendo o Egito como morada, ele decide aproveitar a nova habilidade para estudar a flora e a fauna de todo o mundo. Durante uma longa travessia, caiu doente no mar da Noruega, e despertou num hospital. Ele repara que o hospital levava o seu nome, e descobre que o seu fundador é o seu antigo criado fiel e sua antiga noiva, agora viúva, passa seus dias cuidando dos doentes. Nenhum deles sabe que Peter está internado ali. Ele entreouve uma conversa entre os dois, em que falam da infelicidade e da redenção e que, como eles, seu "velho amigo" devia também estar vivendo dias melhores. Quando se recupera, ele retorna ao Egito, deixando uma carta de agradecimento no seu leito: "Seu velho amigo está vivendo dias melhores do que antes, e embora ele tenha que pagar um preço, é o preço da conciliação".
"Schlemihl" provém do ídiche, quer dizer algo como "azarado", ou "tolo" no sentido de alguém que faz um mal negócio. Peter se livra da sua sombra, de algo inerente à sua existência física, em troca de riquezas infinitas, e a ausência dessa sombra torna o homem, mesmo rico, um estranho onde quer que vá. Chamisso deixara a França quando criança, mas nunca se sentira totalmente integrado à sociedade alemã (alguns dos seus primeiros poemas foram criticados pelo uso rude da língua alemã, que ele ainda estava tentando aprender), tampouco se sentia à vontade no seu país natal, vivendo como um alemão. Peter é o Eu de Chamisso, em cujos momentos de fraqueza surge um diabo para tentá-lo, cede às ânsias de um ego inflado e de uma carência afetiva que nunca é suprida - seus dois criados são o seu "bom" e o seu "mal", e ambos, a seu tempo, assumem o papel de uma figura paterna, terna e temida (Chamisso mal conheceu seu pai, mas projetava esse papel em seus mentores, como Humboldt e seu amigo Julius Hitzig). A melancolia do personagem solitário, e a própria melancolia que assombrava o naturalista/poeta refletem, segundo Sigmund Freud, a idealização da infância, do passado (com sombra), do tempo que o narcisismo infantil considerava perfeito - o mesmo narcisismo que levou Peter a trocar a sombra por riqueza infinita. E em um momento de confusão total, foge, corre o mundo até encontrar a paz, curiosamente rodando o mundo, estudando sua natureza, como viria a fazer no futuro - o livro é de 1813, e a expedição russa zarpou em 1815.
Peter Schlemihl foi traduzido para o francês e se tornou por um longo período um dos livros mais populares da Europa. Ele foi comentado por diversos autores (como Freud), e sobreviveu no século XX em peças de teatro e filmes (um deles estrelado por DeForest Kelley, o Doutor McCoy de Jornada nas Estrelas) em várias línguas. O tema também inspirou a obra de autores como Hans Christian Andersen. Frauenliebe und -liebe, uma coletânea de poemas líricos de Chamisso, foi musicado pelos compositores alemães contemporâneos Schumann, Loewe e Lachner. O legado do naturalista está em seus tratados minunciosamente bem escritos sobre floras locais e as descrições de suas espécies, bem como exemplares preservados em herbários do mundo, e inúmeras espécies e dois gêneros batizados em sua homenagem. Uma ilha no Alaska, descoberta durante a expedição russa, é conhecida como Ilha Chamisso.
Chamisso nasceu na França (seu sobrenome era grafado originalmente "Chamissot"), mas devido à Revolução, sua família emigrou para Berlim. Seguindo carreira militar na Prússia, ele permaneceu ali quando sua família recebeu permissão para retornar à França. Enquanto servia, estudava ciências naturais e arriscava uns versos. Dispensado do exército em 1807 e desempregado, recusou um emprego como professor para seguir Madame de Staël, uma socialite francesa, patrocinadora de escritores e poetas diversos, para seu exílio na Suíça. Convivia permanentemente com a dualidade de ser um francês em terra alemã (e em 1810, em visita a Paris, um alemão em terra francesa), tendo que lidar com o idioma alemão escrito enquanto pensava em francês e sonhava com as terras de seus pais. Sua dualidade também era vivida nos seus campos de interesse: simultaneamente a literatura e a botânica. Aos 35 anos embarcou numa expedição científica russa de volta ao mundo, onde coletou abundantemente espécimes minerais, vegetais e animais, realizou observações geológicas, meteorológicas e etnológicas. Se tornou um naturalista altamente respeitável. Além de um poeta de renome.
Sua vida e sua carreira foram estranhamente sumarizadas de forma profética no seu primeiro livro, Peter Schlemihl, de 1813.
O personagem-título era um infeliz (Chamisso o descrevia como alguém que é capaz de cair de costas e fraturar o nariz) que encontra o Diabo. O Diabo estava de posse de uma bolsa, a Bolsa de Fortunato, uma bolsa sem fundo de onde sempre se podia tirar dinheiro. Em troca dela, ele queria a sua sombra. Peter gostou da barganha e fez a troca. O Diabo prometeu que retornaria dentro de um ano. Embora agora se tornasse fabulosamente rico, o fato de não ter uma sombra alarmava as pessoas. Ele era visto pelas costas, excluído dos círculos sociais, destratado até por quem não tinha nada. Ele foge com dois empregados para uma pequena cidade, onde ele procura cativar os locais com demonstrações de generosidade, tomando cuidado para não revelar seu segredo. Ele se apaixona por Minna, filha de um notável local. Um dia antes de pedir sua mão em casamento, um dos seus empregados ameaça contar seu segredo (ou o segredo que ele acredita saber, que Schlemihl seria na verdade um rei... mas Peter não sabe disso, e a ameaça o deixa desesperado). Neste momento surge novamente o Diabo, que se oferece para devolver sua sombra em troca de sua alma. Ele lhe oferece uma visão do pai de Minna se recusando a dar a mão da filha a um homem sem sombra. Com seu segredo de fato revelado, Peter resiste e decide fugir novamente (deixando grande quantidade de ouro para o outro criado que lhe foi fiel).
O Diabo insiste em persegui-lo e assediá-lo, mas Peter resiste obstinadamente, até que ele joga a bolsa mágica num precipício e abre mão do benefício do primeiro contrato. O vínculo é desfeito e o Diabo desaparece. Perambulando sozinho até gastarem-se completamente as suas botas, ele acaba comprando um par de "botas de sete léguas", que lhe permitem viajar rapidamente, transpor montanhas e mares, e atravessar oceanos e continentes. Escolhendo o Egito como morada, ele decide aproveitar a nova habilidade para estudar a flora e a fauna de todo o mundo. Durante uma longa travessia, caiu doente no mar da Noruega, e despertou num hospital. Ele repara que o hospital levava o seu nome, e descobre que o seu fundador é o seu antigo criado fiel e sua antiga noiva, agora viúva, passa seus dias cuidando dos doentes. Nenhum deles sabe que Peter está internado ali. Ele entreouve uma conversa entre os dois, em que falam da infelicidade e da redenção e que, como eles, seu "velho amigo" devia também estar vivendo dias melhores. Quando se recupera, ele retorna ao Egito, deixando uma carta de agradecimento no seu leito: "Seu velho amigo está vivendo dias melhores do que antes, e embora ele tenha que pagar um preço, é o preço da conciliação".
"Schlemihl" provém do ídiche, quer dizer algo como "azarado", ou "tolo" no sentido de alguém que faz um mal negócio. Peter se livra da sua sombra, de algo inerente à sua existência física, em troca de riquezas infinitas, e a ausência dessa sombra torna o homem, mesmo rico, um estranho onde quer que vá. Chamisso deixara a França quando criança, mas nunca se sentira totalmente integrado à sociedade alemã (alguns dos seus primeiros poemas foram criticados pelo uso rude da língua alemã, que ele ainda estava tentando aprender), tampouco se sentia à vontade no seu país natal, vivendo como um alemão. Peter é o Eu de Chamisso, em cujos momentos de fraqueza surge um diabo para tentá-lo, cede às ânsias de um ego inflado e de uma carência afetiva que nunca é suprida - seus dois criados são o seu "bom" e o seu "mal", e ambos, a seu tempo, assumem o papel de uma figura paterna, terna e temida (Chamisso mal conheceu seu pai, mas projetava esse papel em seus mentores, como Humboldt e seu amigo Julius Hitzig). A melancolia do personagem solitário, e a própria melancolia que assombrava o naturalista/poeta refletem, segundo Sigmund Freud, a idealização da infância, do passado (com sombra), do tempo que o narcisismo infantil considerava perfeito - o mesmo narcisismo que levou Peter a trocar a sombra por riqueza infinita. E em um momento de confusão total, foge, corre o mundo até encontrar a paz, curiosamente rodando o mundo, estudando sua natureza, como viria a fazer no futuro - o livro é de 1813, e a expedição russa zarpou em 1815.
Peter Schlemihl foi traduzido para o francês e se tornou por um longo período um dos livros mais populares da Europa. Ele foi comentado por diversos autores (como Freud), e sobreviveu no século XX em peças de teatro e filmes (um deles estrelado por DeForest Kelley, o Doutor McCoy de Jornada nas Estrelas) em várias línguas. O tema também inspirou a obra de autores como Hans Christian Andersen. Frauenliebe und -liebe, uma coletânea de poemas líricos de Chamisso, foi musicado pelos compositores alemães contemporâneos Schumann, Loewe e Lachner. O legado do naturalista está em seus tratados minunciosamente bem escritos sobre floras locais e as descrições de suas espécies, bem como exemplares preservados em herbários do mundo, e inúmeras espécies e dois gêneros batizados em sua homenagem. Uma ilha no Alaska, descoberta durante a expedição russa, é conhecida como Ilha Chamisso.
terça-feira, 30 de junho de 2015
A Teoria da Relatividade
No dia 30 de junho de 1905 Albert Einstein publicou seu artigo intitulado "Zur Elektrodynamik bewegter Körper", na décima sétima edição do periódico Annalen der Physik. Neste artigo Einstein expõe sua Teoria da Relatividade Especial.
A partir do último quartel do século XIX, a Física e a Química viram avanços estupendos. Começando em 1873, Maxwell lança as bases sobre o eletromagnetismo. Tubos catódicos, a descoberta do raio-X e da radioatividade, dos elétrons e um modelo atômico fluído (o "pudim com passas" de Thomson, sucedido depois pelo modelo nucleado de Rutherford), emissões de corpos negros, descoberta de novos elementos químicos. Tudo aconteceu muito rápido, e todas essas descobertas seriam fundamentais para os avanços técnicos e científicos alcançados do século XX até hoje. Nomes como Mendeleev, Maxwell, Planck, Lorentz e Curie eram celebridades globais.
Contudo, o olho humano só consegue focar numa coisa de cada vez. Wilhelm Röntgen, por exemplo, descobriu o raio-X sem saber que se tratava de uma emissão de energia de alta frequência desprendida de um núcleo atômico instável em decaimento - a emissão derivada da instabilidade do núcleo, e a própria noção de núcleo atômico ainda não estavam formadas. Marie Curie passou anos fazendo experiências com radiação sem saber dos seus efeitos nocivos sobre o DNA. Darwin lançou as sua teoria da evolução das espécies pouco antes de Gregory Mendel escrever sobre hereditariedade, e um nunca teve contato com o trabalho do outro. A ciência produzia uma avalanche de resultados de obervações experimentais em campo ou laboratório de fenômenos naturais que demandavam teorias para dar sentido a tudo, o que se tornaria o meio perfeito para a proliferação de teóricos como Einstein.
1905 é o "Ano Milagroso" da Física. Neste ano Albert Einstein publicaria quatro artigos que revolucionariam a ciência para sempre. Einstein ainda era um funcionário num escritório de patentes em Berna, e seu acesso aos trabalhos científicos mais recentes, bem como seu acesso aos círculos científicos era restrito, o que torna o advento das suas teorias algo espantoso.
No primeiro artigo, de março, sobre o efeito fotoelétrico, ele lança a ideia de que a luz não é uma onda que viaja a esmo pelo espaço e pode ser dissipada infinitamente, mas um feixe de fótons, unidades indivisíveis de energia. A incidência de um feixe de luz de alta energia sobre um corpo seria capaz de ceder energia suficiente aos elétrons na sua superfície para que eles escapem. A ideia do fóton e do quantum de energia seriam as bases para a Física Quântica, que, curiosamente, seria superficialmente vista como oposta ou antagonista do modelo relativístico de universo que Einstein estava prestes a teorizar. Foi seu trabalho com o efeito fotoelétrico que lhe rendeu um Prêmio Nobel de Física em 1921.
O segundo artigo do ano foi sobre os Movimentos Brownianos, submetido a publicação em maio. O botânico Robert Brown, décadas antes, descreveu o movimento errático de pequenas partículas suspensas em líquido enquanto observava grãos de pólen num microscópio. Esse movimento errático não podia ser explicado satisfatoriamente com a mecânica newtoniana, porque o movimento podia ser tanto descendente como ascendente. Einstein supõe que partículas muito pequenas podem ter sua trajetória influenciada pela interação e colisão de partículas ainda mais elementares (átomos e moléculas), além de estabelecer um arcabouço teórico para descrever esse movimento. Até então o átomo era apenas um modelo teórico útil, e a explicação de Einstein provava a sua existência.
No terceiro, Einstein considera as equações de Maxwell sobre eletromagnetismo - que produzem resultados distintos sobre a interação entre ímãs e condutores quando aplicadas do ponto de vista de um ou do outro, embora o resultado prático seja o mesmo. Einstein então postula que todo fenômeno físico (inclusive o tempo) só pode ser descrito a partir de um ponto referencial inercial, para o qual as leis da Física são constantes. E que a luz tem velocidade constante c (cerca de 300000 km/s) para o observador inercial independente da velocidade do seu emissor ou do seu receptor.
No quarto trabalho, de novembro, Einstein discute que todo corpo massivo possui uma energia de repouso, ou uma quantidade total de energia inerente à sua massa. Essa energia de repouso de um corpo pode ser calculada multiplicando-se a massa pela velocidade da luz ao quadrado, traduzido da famosa equação E=mc².
Assim que publicou a Teoria da Relatividade Especial, Einstein se deteve na questão da permanência das leis físicas sob um observador inercial e da constância da velocidade da luz, pensando em como a luz poderia manter a velocidade constante quando o observador está em movimento acelerado, e as consequências disso. Demorou 10 anos, mas ao final desse tempo ele viria com a Teoria da Relatividade Geral, lançando a noção do espaço-tempo, uma quarta dimensão do universo que é distorcida sob a influência de corpos massivos, complementando, assim, a teoria da gravitação universal de Newton, e as observações práticas de desvios de feixes de luz ao passar perto de estrelas, planetas e buracos negros, a decomposição gravitacional da luz, a dilatação gravitacional do tempo. A confirmação da sua tese do espaço-tempo e a confirmação experimental das suas equações de campo viriam depois, com a observação dos desvios da luz de estrelas conhecidas ao passar pelo sol durante eclipses solares.
Einstein produziu tantas novidades em tão pouco tempo, algumas estruturadas em equações dificílimas de seres resolvidas, outras que exigem um pensamento abstrato muito complexo para serem compreendidas, que até hoje mesmo os estudantes de Física e alguns professores precisam se esforçar para compreender. A Física Relativística, no entanto, tem uma limitação. Ela consegue explicar fenômenos físicos em grande escala. A distorção do espaço-tempo pode ser observada ao redor de objetos maiores do que planetas, mas para objetos menores, como o corpo humano ou o átomo, isso é insignificante. Especialmente do ponto de vista do átomo, os modelos da Física Quântica são os mais apropriados para entender os seus fenômenos, sua estruturação e propriedades. Físicos quânticos como Neils Bohr esperavam que existisse nos seus modelos uma brecha para explicar os fenômenos descritos por Einstein, assim como Einstein esperava que sua Física Relativística pudesse ser adequada para explicar o nano universo. Até hoje essa "Teoria de Tudo" ainda não foi elaborada com sucesso.
A partir do último quartel do século XIX, a Física e a Química viram avanços estupendos. Começando em 1873, Maxwell lança as bases sobre o eletromagnetismo. Tubos catódicos, a descoberta do raio-X e da radioatividade, dos elétrons e um modelo atômico fluído (o "pudim com passas" de Thomson, sucedido depois pelo modelo nucleado de Rutherford), emissões de corpos negros, descoberta de novos elementos químicos. Tudo aconteceu muito rápido, e todas essas descobertas seriam fundamentais para os avanços técnicos e científicos alcançados do século XX até hoje. Nomes como Mendeleev, Maxwell, Planck, Lorentz e Curie eram celebridades globais.
Contudo, o olho humano só consegue focar numa coisa de cada vez. Wilhelm Röntgen, por exemplo, descobriu o raio-X sem saber que se tratava de uma emissão de energia de alta frequência desprendida de um núcleo atômico instável em decaimento - a emissão derivada da instabilidade do núcleo, e a própria noção de núcleo atômico ainda não estavam formadas. Marie Curie passou anos fazendo experiências com radiação sem saber dos seus efeitos nocivos sobre o DNA. Darwin lançou as sua teoria da evolução das espécies pouco antes de Gregory Mendel escrever sobre hereditariedade, e um nunca teve contato com o trabalho do outro. A ciência produzia uma avalanche de resultados de obervações experimentais em campo ou laboratório de fenômenos naturais que demandavam teorias para dar sentido a tudo, o que se tornaria o meio perfeito para a proliferação de teóricos como Einstein.
1905 é o "Ano Milagroso" da Física. Neste ano Albert Einstein publicaria quatro artigos que revolucionariam a ciência para sempre. Einstein ainda era um funcionário num escritório de patentes em Berna, e seu acesso aos trabalhos científicos mais recentes, bem como seu acesso aos círculos científicos era restrito, o que torna o advento das suas teorias algo espantoso.
No primeiro artigo, de março, sobre o efeito fotoelétrico, ele lança a ideia de que a luz não é uma onda que viaja a esmo pelo espaço e pode ser dissipada infinitamente, mas um feixe de fótons, unidades indivisíveis de energia. A incidência de um feixe de luz de alta energia sobre um corpo seria capaz de ceder energia suficiente aos elétrons na sua superfície para que eles escapem. A ideia do fóton e do quantum de energia seriam as bases para a Física Quântica, que, curiosamente, seria superficialmente vista como oposta ou antagonista do modelo relativístico de universo que Einstein estava prestes a teorizar. Foi seu trabalho com o efeito fotoelétrico que lhe rendeu um Prêmio Nobel de Física em 1921.
O segundo artigo do ano foi sobre os Movimentos Brownianos, submetido a publicação em maio. O botânico Robert Brown, décadas antes, descreveu o movimento errático de pequenas partículas suspensas em líquido enquanto observava grãos de pólen num microscópio. Esse movimento errático não podia ser explicado satisfatoriamente com a mecânica newtoniana, porque o movimento podia ser tanto descendente como ascendente. Einstein supõe que partículas muito pequenas podem ter sua trajetória influenciada pela interação e colisão de partículas ainda mais elementares (átomos e moléculas), além de estabelecer um arcabouço teórico para descrever esse movimento. Até então o átomo era apenas um modelo teórico útil, e a explicação de Einstein provava a sua existência.
No terceiro, Einstein considera as equações de Maxwell sobre eletromagnetismo - que produzem resultados distintos sobre a interação entre ímãs e condutores quando aplicadas do ponto de vista de um ou do outro, embora o resultado prático seja o mesmo. Einstein então postula que todo fenômeno físico (inclusive o tempo) só pode ser descrito a partir de um ponto referencial inercial, para o qual as leis da Física são constantes. E que a luz tem velocidade constante c (cerca de 300000 km/s) para o observador inercial independente da velocidade do seu emissor ou do seu receptor.
No quarto trabalho, de novembro, Einstein discute que todo corpo massivo possui uma energia de repouso, ou uma quantidade total de energia inerente à sua massa. Essa energia de repouso de um corpo pode ser calculada multiplicando-se a massa pela velocidade da luz ao quadrado, traduzido da famosa equação E=mc².
Assim que publicou a Teoria da Relatividade Especial, Einstein se deteve na questão da permanência das leis físicas sob um observador inercial e da constância da velocidade da luz, pensando em como a luz poderia manter a velocidade constante quando o observador está em movimento acelerado, e as consequências disso. Demorou 10 anos, mas ao final desse tempo ele viria com a Teoria da Relatividade Geral, lançando a noção do espaço-tempo, uma quarta dimensão do universo que é distorcida sob a influência de corpos massivos, complementando, assim, a teoria da gravitação universal de Newton, e as observações práticas de desvios de feixes de luz ao passar perto de estrelas, planetas e buracos negros, a decomposição gravitacional da luz, a dilatação gravitacional do tempo. A confirmação da sua tese do espaço-tempo e a confirmação experimental das suas equações de campo viriam depois, com a observação dos desvios da luz de estrelas conhecidas ao passar pelo sol durante eclipses solares.
Einstein produziu tantas novidades em tão pouco tempo, algumas estruturadas em equações dificílimas de seres resolvidas, outras que exigem um pensamento abstrato muito complexo para serem compreendidas, que até hoje mesmo os estudantes de Física e alguns professores precisam se esforçar para compreender. A Física Relativística, no entanto, tem uma limitação. Ela consegue explicar fenômenos físicos em grande escala. A distorção do espaço-tempo pode ser observada ao redor de objetos maiores do que planetas, mas para objetos menores, como o corpo humano ou o átomo, isso é insignificante. Especialmente do ponto de vista do átomo, os modelos da Física Quântica são os mais apropriados para entender os seus fenômenos, sua estruturação e propriedades. Físicos quânticos como Neils Bohr esperavam que existisse nos seus modelos uma brecha para explicar os fenômenos descritos por Einstein, assim como Einstein esperava que sua Física Relativística pudesse ser adequada para explicar o nano universo. Até hoje essa "Teoria de Tudo" ainda não foi elaborada com sucesso.
segunda-feira, 22 de junho de 2015
"Não obstante, ela se move"
Em 22 de junho de 1633, Galileu Galilei recebeu sua condenação da Santa Inquisição por causa da sua defesa da tese de que a Terra gira em torno do sol.
Durante a Renascença, a Europa viveu um período de rápido desenvolvimento filosófico, técnico e científico. Em parte graças à redescoberta de obras e autores gregos (além de Aristóteles, cujo conhecimento enciclopédico, porém engessado por convicções sem bases experimentais, sobreviveu muito bem durante a Idade Média), árabes, e ao intercâmbio comercial e intelectual com a Índia e a China. As navegações transoceânicas literalmente aumentaram o tamanho do mundo para o intelectual europeu - que, com o advento da imprensa, tinha agora à sua disposição muito mais literatura disponível do que jamais poderia ter na era dos manuscritos - e pensadores de todas as áreas se apressaram em investigar o que havia ainda a ser descoberto. Até fins do século XVII, autores europeus haviam conseguido avanços notáveis em ciências, como a matemática, a cartografia, a botânica, e a astronomia.
A astronomia deve muito a Nicolau Copérnico, cujas observações o levaram a concluir que o sol estava no centro de um sistema, em torno do qual os planetas, incluindo a Terra, gravitavam em órbitas mais ou menos constantemente concêntricas. Sua tese foi exposta minunciosamente, e em toda sua tecnicalidade, no seu livro Da Revolução dos Orbes Celestes, de 1543. Num mundo moldado em torno da crença de que o homem era o centro do universo, e a Terra o seu cenário permanente, a alegação de que a Terra era apenas mais um dentre vários mundos girando em torno do sol era uma ameaça franca à credibilidade da Igreja e ao status quo montado sobre ela - embora, fora do mundo cristão, e mesmo muito antes dele, muitos suspeitassem de que as coisas transcorriam de outra maneira. Com o recrudescimento da Santa Inquisição como parte da Contra-Reforma católica, em 1616 a Igreja moveu o Da Revolução para seu índice de livros proibidos.
Galileu teve acesso ao Da Revolução anos antes, e teria dado a entender que concordava com sua tese em carta a Johann Kepler enquanto lecionava matemática em Pádua. Em 1609, ele construiu seu próprio telescópio baseado nas descrições do telescópio inventado no ano anterior por Hans Lippershey, e além de passar usar o projeto geral para construir telescópios de boa qualidade para a venda (o que lhe rendeu alguma riqueza), com ele passou a observar mais intimamente as estrelas e os planetas que até então só podiam ser vistos a olho nu. Galileu observou luas em Júpiter (Ganimede, Calisto, Io e Europa, conhecidas hoje como "satélites galileanos"), o que por si só rompia com a cosmologia de Aristóteles, que não acreditava ser possível que "planetas" orbitassem outros planetas. Ele também avistou os anéis de Saturno, e o planeta Netuno, que ele não chegou a reconhecer como tal, devido à sua dificuldade em segui-lo o suficiente para caracterizar seu movimento como o dos outros planetas. Viu manchas solares, cometas, e descreveu crateras na Lua, que se achava ser, antes, uma esfera translúcida e perfeita.
Sua observação de Vênus o levou a confirmar a tese heliocêntrica de Copérnico. Em Vênus ele viu claramente a ocorrência de fases, como as da lua. Como o movimento de Vênus não era ao redor, e nem dependente, da Terra, ele provava experimentalmente que aquele planeta girava em torno do sol, e a existência do movimento de translação. Tycho Brahe, antes dele, propôs um sistema em que o Sol era orbitado por Mercúrio e Vênus, e esse pequeno "sistema solar" orbitava em torno da Terra, junto com os outros planetas conhecidos, o que Galileu e outros cientistas consideravam "insatisfatório". Em 1615, em um ensaio, Galileu cautelosamente propôs que a teoria heliocêntrica não se opunha à Bíblia (cujo salmo 104, por exemplo, explicitamente diz que "O Senhor colocou a Terra sobre suas fundações; ela não pode ser movida"), pois certos trechos do texto sagrado deviam ser lido como poesia ou alegorias. No ano em que Da Revolução foi proibido, Galileu foi intimado a renunciar à tese heliocêntrica pela Inquisição.
Galileu formalmente acatou a decisão da Inquisição, mas continuou trabalhando sobre suas observações e os cálculos deixados por Copérnico e outros que continuaram trabalhando em outros campos da astronomia. Ele dizia estar trabalhando num livro sobre a mudança das marés. Mas na realidade estava compondo uma tese na forma de um debate de quatro dias (em que cada dia ele se concentra em um assunto) entre um filósofo a favor do heliocentrismo, outro a favor das cosmologias ptolomaicas e aristotélicas, e um leigo neutro. Ali ele expõe as contradições dos resultados obtidos pela observação e experimentação contra o empirismo filosófico. Esse formato foi uma sugestão do próprio Papa Urbano VIII, um progressista que testemunhou a favor da obra de Copérnico em 1616, e seu amigo. O personagem leigo afinal inclina-se a favor do heliocentrista, indicando a posição de Galileu sobre o assunto. O aristotélico, Simplício (que em italiano também pode significar "simplório"), também não é dos mais brilhantes, e é uma espécie de crítica ao obscurantismo eclesiástico.
Diálogos Sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo foi publicado em 1632. Em 1633 Galileu se apresentou diante do Santo Ofício. A Inquisição o acusava de heresia ao defender o copernicismo. O Papa particularmente não deve ter ficado feliz de encontrar suas próprias teorias astronômicas na voz de Simplício. Por quatro meses a Inquisição interrogou Galileu, que defendeu-se alegando que, desde 1616, não advogara mais publicamente a tese de Copérnico. Mas ao final desse período, doente e sob ameaça de tortura, Galileu cedeu. Além de uma pena de prisão perpétua, alterada para prisão domiciliar, e da proibição da publicação do Diálogos, o astrônomo foi obrigado a renunciar, negar, e depreciar publicamente a tese heliocêntrica. Contudo, uma anedota popular que corria ainda quando Galileu era vivo dizia que, ao final de sua exposição contra o seu modelo de sistema solar, ele teria dito a famosa frase em desafio:
"E pur si muove". "Não obstante, ela (a Terra) se move".
Durante a Renascença, a Europa viveu um período de rápido desenvolvimento filosófico, técnico e científico. Em parte graças à redescoberta de obras e autores gregos (além de Aristóteles, cujo conhecimento enciclopédico, porém engessado por convicções sem bases experimentais, sobreviveu muito bem durante a Idade Média), árabes, e ao intercâmbio comercial e intelectual com a Índia e a China. As navegações transoceânicas literalmente aumentaram o tamanho do mundo para o intelectual europeu - que, com o advento da imprensa, tinha agora à sua disposição muito mais literatura disponível do que jamais poderia ter na era dos manuscritos - e pensadores de todas as áreas se apressaram em investigar o que havia ainda a ser descoberto. Até fins do século XVII, autores europeus haviam conseguido avanços notáveis em ciências, como a matemática, a cartografia, a botânica, e a astronomia.
A astronomia deve muito a Nicolau Copérnico, cujas observações o levaram a concluir que o sol estava no centro de um sistema, em torno do qual os planetas, incluindo a Terra, gravitavam em órbitas mais ou menos constantemente concêntricas. Sua tese foi exposta minunciosamente, e em toda sua tecnicalidade, no seu livro Da Revolução dos Orbes Celestes, de 1543. Num mundo moldado em torno da crença de que o homem era o centro do universo, e a Terra o seu cenário permanente, a alegação de que a Terra era apenas mais um dentre vários mundos girando em torno do sol era uma ameaça franca à credibilidade da Igreja e ao status quo montado sobre ela - embora, fora do mundo cristão, e mesmo muito antes dele, muitos suspeitassem de que as coisas transcorriam de outra maneira. Com o recrudescimento da Santa Inquisição como parte da Contra-Reforma católica, em 1616 a Igreja moveu o Da Revolução para seu índice de livros proibidos.
Galileu teve acesso ao Da Revolução anos antes, e teria dado a entender que concordava com sua tese em carta a Johann Kepler enquanto lecionava matemática em Pádua. Em 1609, ele construiu seu próprio telescópio baseado nas descrições do telescópio inventado no ano anterior por Hans Lippershey, e além de passar usar o projeto geral para construir telescópios de boa qualidade para a venda (o que lhe rendeu alguma riqueza), com ele passou a observar mais intimamente as estrelas e os planetas que até então só podiam ser vistos a olho nu. Galileu observou luas em Júpiter (Ganimede, Calisto, Io e Europa, conhecidas hoje como "satélites galileanos"), o que por si só rompia com a cosmologia de Aristóteles, que não acreditava ser possível que "planetas" orbitassem outros planetas. Ele também avistou os anéis de Saturno, e o planeta Netuno, que ele não chegou a reconhecer como tal, devido à sua dificuldade em segui-lo o suficiente para caracterizar seu movimento como o dos outros planetas. Viu manchas solares, cometas, e descreveu crateras na Lua, que se achava ser, antes, uma esfera translúcida e perfeita.
Sua observação de Vênus o levou a confirmar a tese heliocêntrica de Copérnico. Em Vênus ele viu claramente a ocorrência de fases, como as da lua. Como o movimento de Vênus não era ao redor, e nem dependente, da Terra, ele provava experimentalmente que aquele planeta girava em torno do sol, e a existência do movimento de translação. Tycho Brahe, antes dele, propôs um sistema em que o Sol era orbitado por Mercúrio e Vênus, e esse pequeno "sistema solar" orbitava em torno da Terra, junto com os outros planetas conhecidos, o que Galileu e outros cientistas consideravam "insatisfatório". Em 1615, em um ensaio, Galileu cautelosamente propôs que a teoria heliocêntrica não se opunha à Bíblia (cujo salmo 104, por exemplo, explicitamente diz que "O Senhor colocou a Terra sobre suas fundações; ela não pode ser movida"), pois certos trechos do texto sagrado deviam ser lido como poesia ou alegorias. No ano em que Da Revolução foi proibido, Galileu foi intimado a renunciar à tese heliocêntrica pela Inquisição.
Galileu formalmente acatou a decisão da Inquisição, mas continuou trabalhando sobre suas observações e os cálculos deixados por Copérnico e outros que continuaram trabalhando em outros campos da astronomia. Ele dizia estar trabalhando num livro sobre a mudança das marés. Mas na realidade estava compondo uma tese na forma de um debate de quatro dias (em que cada dia ele se concentra em um assunto) entre um filósofo a favor do heliocentrismo, outro a favor das cosmologias ptolomaicas e aristotélicas, e um leigo neutro. Ali ele expõe as contradições dos resultados obtidos pela observação e experimentação contra o empirismo filosófico. Esse formato foi uma sugestão do próprio Papa Urbano VIII, um progressista que testemunhou a favor da obra de Copérnico em 1616, e seu amigo. O personagem leigo afinal inclina-se a favor do heliocentrista, indicando a posição de Galileu sobre o assunto. O aristotélico, Simplício (que em italiano também pode significar "simplório"), também não é dos mais brilhantes, e é uma espécie de crítica ao obscurantismo eclesiástico.
Diálogos Sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo foi publicado em 1632. Em 1633 Galileu se apresentou diante do Santo Ofício. A Inquisição o acusava de heresia ao defender o copernicismo. O Papa particularmente não deve ter ficado feliz de encontrar suas próprias teorias astronômicas na voz de Simplício. Por quatro meses a Inquisição interrogou Galileu, que defendeu-se alegando que, desde 1616, não advogara mais publicamente a tese de Copérnico. Mas ao final desse período, doente e sob ameaça de tortura, Galileu cedeu. Além de uma pena de prisão perpétua, alterada para prisão domiciliar, e da proibição da publicação do Diálogos, o astrônomo foi obrigado a renunciar, negar, e depreciar publicamente a tese heliocêntrica. Contudo, uma anedota popular que corria ainda quando Galileu era vivo dizia que, ao final de sua exposição contra o seu modelo de sistema solar, ele teria dito a famosa frase em desafio:
"E pur si muove". "Não obstante, ela (a Terra) se move".
quinta-feira, 28 de maio de 2015
O eclipse de Tales
Em 28 de maio de 585 a.C., um eclipse solar interrompeu a Batalha de Halys entre os reis Ciaxares, da Média, e Aliates, da Lídia, levando-os a concordarem com uma trégua. Embora os antigos considerassem o eclipse um sinal de mal agouro - o que teria levado os dois exércitos a desistirem da batalha - este eclipse teria sido predito com precisão e antecedência por Tales de Mileto, possivelmente a primeira previsão de um eclipse na História.
A importância do registro dos eclipses solares na antiguidade, quando cada pedacinho do mundo possuía seu próprio critério de contagem do tempo em meses e anos (geralmente medido segundo os anos de reinado de alguém, ou em ciclos olímpicos, ou ancorado em alguma outra data importante de um acontecimento anterior real ou mitológico, e não raro alterados, substituídos ou "zerados" sem aviso) é crucial para se precisar as datas de acontecimentos naqueles tempos, pois, sabendo-se a velocidade do movimento dos astros, seus ciclos e a periodicidade em que ocorrem os alinhamentos, é possível determinar até os minutos em que um eclipse ocorreu em dada época e lugar. Este eclipse solar, por exemplo, ocorreu no final da tarde sobre o sul da Anatólia, local da batalha. Com todo nosso arcabouço teórico moderno isso é relativamente simples, mas como Tales de Mileto fez para prever o tal fenômeno é um mistério, já que a observação sistemática de eclipses solares só tomou ares científicos lá pelo século XVIII.
Heródoto, o primeiro historiador no sentido estrito, é a fonte sobre a batalha e o eclipse que teria ocorrido. Há quem argumente que talvez, por Heródoto estar escrevendo sobre um evento que não presenciou, tenha confundido os fatos ou negligenciado fontes (como ele costumava fazer conforme a sua narrativa se afastava do seu tempo presente ou do seu conhecimento prático) e o eclipse relatado tenha sido um eclipse lunar, que teria aterrorizado os exércitos se eles estivessem se preparando para lutar sob a lua cheia que deveria estar brilhando naquela noite. Os eclipses lunares também podem servir como pontos de referência para a marcação de datas, o que levaria a data em que ocorreu a batalha para poucos anos antes ou depois.
De qualquer forma, outros eclipses ajudam os historiadores a compreenderem a datação de eventos passados. Por exemplo, Heródoto registra o que era ponto pacífico no seu tempo sobre a partida da expedição de Xerxes da cidade lídia de Sardis contra a Grécia. Ela teria sido marcada por um eclipse solar. Um eclipse parcial ocorreu na Pérsia (distante de Sardis, mas poderia ter sido um sinal que seria transmitido ao rei pelo estupendo sistema de comunicação do Império Persa) em 2 de outubro de 480 a.C.. Os gregos posteriormente se referem à partida de Xerxes, ou datas com referências a ela (a travessia do Bósforo, a chegada à Macedônia, as batalhas das Guerras Pérsicas, etc.), para marcar seu tempo, eventualmente cruzando-as com seus próprios sistemas de medidas (com base nos anos de realização dos seus jogos em Olímpia, Delfos, Nemeia, ou Corinto), e por isso é relativamente fácil lidar com a cronologia da História helênica, depois romana, e por fim dar alguma precisão ao calendário cristão (embora aí até mesmo teólogos cristãos discordem sobre o nascimento de Jesus em cerca de 7 anos).
Outro eclipse registrado na Antiguidade que nos oferece uma âncora para entender a cronologia dos eventos, desta vez no Oriente Médio, é o eclipse de 15 de julho de 763 a.C. observado na Assíria, no "nono ano" do reinado de Assurdam III. Como se sabe que o eclipse ocorreu em julho, e o registro diz que ocorreu no mês "SIMANU", tem-se aí também a ferramenta para se fazer a correspondência entre os meses do calendário assírio e os do calendário gregoriano e interpretá-los com alguma precisão toda vez que aparecerem. Esse eclipse é citado numa lista de reis assírios, e com ele é possível localizar todos os seus reinados com bastante precisão.
Da mesma forma, os hititas - cuja civilização era quase legendária até ser redescoberta arqueologicamente no século XIX - têm a sua cronologia baseada na informação de um eclipse solar sobre Hatti, no centro da Turquia, durante o "décimo ano" do reinado de Mursilis II, o que, com todos os cruzamentos possíveis, situa o evento depois do meio dia de 24 de junho de 1312, ou em 13 de abril de 1308, datas relativamente próximas. Porém, na segunda data, a região de Hatti teria ficado apenas na penumbra, e isso durante as primeiras horas da manhã, e seria pouco notado. Assumindo a primeira data como a mais provável, sabe-se quando Mursilis começou a reinar, e quando reinaram seus antecessores, sucessores, e todas as campanhas militares promovidas pelos hititas, inclusive seus confrontos com os egípcios.
Quanto a Ciaxares e Aliates, o eclipse interrompeu a longa guerra entre seus dois reinos. Ciaxares morreu logo depois. Seu bisneto pela linhagem materna seria Ciro II, rei da Pérsia, e ele se encarregaria de dominar a Lídia cerca de 40 anos mais tarde.
A importância do registro dos eclipses solares na antiguidade, quando cada pedacinho do mundo possuía seu próprio critério de contagem do tempo em meses e anos (geralmente medido segundo os anos de reinado de alguém, ou em ciclos olímpicos, ou ancorado em alguma outra data importante de um acontecimento anterior real ou mitológico, e não raro alterados, substituídos ou "zerados" sem aviso) é crucial para se precisar as datas de acontecimentos naqueles tempos, pois, sabendo-se a velocidade do movimento dos astros, seus ciclos e a periodicidade em que ocorrem os alinhamentos, é possível determinar até os minutos em que um eclipse ocorreu em dada época e lugar. Este eclipse solar, por exemplo, ocorreu no final da tarde sobre o sul da Anatólia, local da batalha. Com todo nosso arcabouço teórico moderno isso é relativamente simples, mas como Tales de Mileto fez para prever o tal fenômeno é um mistério, já que a observação sistemática de eclipses solares só tomou ares científicos lá pelo século XVIII.
Heródoto, o primeiro historiador no sentido estrito, é a fonte sobre a batalha e o eclipse que teria ocorrido. Há quem argumente que talvez, por Heródoto estar escrevendo sobre um evento que não presenciou, tenha confundido os fatos ou negligenciado fontes (como ele costumava fazer conforme a sua narrativa se afastava do seu tempo presente ou do seu conhecimento prático) e o eclipse relatado tenha sido um eclipse lunar, que teria aterrorizado os exércitos se eles estivessem se preparando para lutar sob a lua cheia que deveria estar brilhando naquela noite. Os eclipses lunares também podem servir como pontos de referência para a marcação de datas, o que levaria a data em que ocorreu a batalha para poucos anos antes ou depois.
De qualquer forma, outros eclipses ajudam os historiadores a compreenderem a datação de eventos passados. Por exemplo, Heródoto registra o que era ponto pacífico no seu tempo sobre a partida da expedição de Xerxes da cidade lídia de Sardis contra a Grécia. Ela teria sido marcada por um eclipse solar. Um eclipse parcial ocorreu na Pérsia (distante de Sardis, mas poderia ter sido um sinal que seria transmitido ao rei pelo estupendo sistema de comunicação do Império Persa) em 2 de outubro de 480 a.C.. Os gregos posteriormente se referem à partida de Xerxes, ou datas com referências a ela (a travessia do Bósforo, a chegada à Macedônia, as batalhas das Guerras Pérsicas, etc.), para marcar seu tempo, eventualmente cruzando-as com seus próprios sistemas de medidas (com base nos anos de realização dos seus jogos em Olímpia, Delfos, Nemeia, ou Corinto), e por isso é relativamente fácil lidar com a cronologia da História helênica, depois romana, e por fim dar alguma precisão ao calendário cristão (embora aí até mesmo teólogos cristãos discordem sobre o nascimento de Jesus em cerca de 7 anos).
Outro eclipse registrado na Antiguidade que nos oferece uma âncora para entender a cronologia dos eventos, desta vez no Oriente Médio, é o eclipse de 15 de julho de 763 a.C. observado na Assíria, no "nono ano" do reinado de Assurdam III. Como se sabe que o eclipse ocorreu em julho, e o registro diz que ocorreu no mês "SIMANU", tem-se aí também a ferramenta para se fazer a correspondência entre os meses do calendário assírio e os do calendário gregoriano e interpretá-los com alguma precisão toda vez que aparecerem. Esse eclipse é citado numa lista de reis assírios, e com ele é possível localizar todos os seus reinados com bastante precisão.
Da mesma forma, os hititas - cuja civilização era quase legendária até ser redescoberta arqueologicamente no século XIX - têm a sua cronologia baseada na informação de um eclipse solar sobre Hatti, no centro da Turquia, durante o "décimo ano" do reinado de Mursilis II, o que, com todos os cruzamentos possíveis, situa o evento depois do meio dia de 24 de junho de 1312, ou em 13 de abril de 1308, datas relativamente próximas. Porém, na segunda data, a região de Hatti teria ficado apenas na penumbra, e isso durante as primeiras horas da manhã, e seria pouco notado. Assumindo a primeira data como a mais provável, sabe-se quando Mursilis começou a reinar, e quando reinaram seus antecessores, sucessores, e todas as campanhas militares promovidas pelos hititas, inclusive seus confrontos com os egípcios.
Quanto a Ciaxares e Aliates, o eclipse interrompeu a longa guerra entre seus dois reinos. Ciaxares morreu logo depois. Seu bisneto pela linhagem materna seria Ciro II, rei da Pérsia, e ele se encarregaria de dominar a Lídia cerca de 40 anos mais tarde.
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