Em 17 de agosto de 1498, Cesare Borgia renunciou ao cardinalato em Roma. Foi a primeira vez na História em que um cardeal renunciou espontaneamente ao cargo.
No século XV, o Papado era, como hoje, uma instituição religiosa, a liderança espiritual do catolicismo, cujo alcance e influência, em termos proporcionais, eram muito mais abrangentes do que a atualidade na Europa. Além disso, o Papado também era uma instituição política importante: como hoje, o Papa também é o chefe de Estado de uma monarquia eletiva, que hoje é a pequena cidade-estado do Vaticano, mas que, naquele tempo, compreendia uma faixa de terra que atravessava a Itália de costa a costa (e alguns enclaves feudais aqui e ali), com capital em Roma, os Estados Papais. Como senhor de terras, as relações seculares entre o Papa e os demais reis, duques, doges e etc. podia chegar facilmente às vias de fato, e não poucas vezes o Papa teve que liderar exércitos para defender seu território contra invasores, ou confirmar sua autoridade, sempre contra outros católicos.
A confusão entre as relações institucionais talvez tenha sido, se não a causa, um veículo para o estado de coisas em que o Papado se encontrava no final do século XV: membros do clero, a quem o celibato era obrigatório, tinham suas amantes e seus filhos, e essas relações pessoais e familiares influenciavam pesadamente na ordenação, na indicação de cargos, e na própria eleição do Papa - apenas 4 dos 27 cardeais aptos a votar no Conclave eram clérigos de carreira quando Alexandre VI foi eleito, sendo os demais indicados ao cardinalato por relações de parentesco, por indicação de algum nobre (ou eles mesmos nobres), ou em reconhecimento pelos serviços de suas famílias à Igreja. Além disso, uma grande parte da verba arrecadada com impostos sobre as atividades econômicas das terras submetidas ao Papado sustentava, como em qualquer outro reino europeu, luxos incompatíveis com o que se esperava dos mensageiros de Cristo. Reformistas se levantaram dentro da Igreja repetidas vezes, e estes foram alguns dos fatores que finalmente levaram ao movimento da Reforma Protestante.
Nesses meandros emergiu a família Borgia (originalmente, "Borja"), cujo patriarca, Alfonso, filho de um nobre espanhol, foi apoiador do Papa de Roma durante o Cisma da Igreja em 1429, sendo eleito mais tarde Papa Calixto III. Calixto era tio de Rodrigo Borgia, cuja carreira na Igreja avançou rapidamente após a eleição do tio, chegando a vice-chanceler apostólico aos 26 anos. Rodrigo também "herdara" o bispado de Valência, deixado vago por Alfonso, e poucos dias antes da morte de um de seus sucessores, Inocente VIII, ele conseguiu transformá-la em uma sé metropolitana, tornando-o arcebispo.
Rodrigo Borgia acabaria eleito Papa, sucedendo Inocente VIII como Alexandre VI em 1492. Acontecia que Alexandre, desde pelo menos 1470, quando já era cardeal, tinha um caso notório com Giovanna de Cattanei, com quem teve pelo menos 4 filhos (os quatro reconhecidos por Alexandre como seus). Cesare era o segundo deles, nascido em 1475. Apesar do escândalo (além de tudo, Giovanna era casada), Alexandre VI não tinha embaraços para lidar com o assunto. Ao ser eleito, ele criou 12 novos cardeais, nomeando seus filhos Giovanni (o mais velho) e Cesare, além de Alessandro Farnese, irmão de outra amante, Giulia, e futuro Papa Paulo III. Cesare tinha 18 anos. Assim mantinha a cúria sob controle, o que lhe foi de grande utilidade quando tanto Milão quanto a França ameaçaram intervir contra ele (ambos tinham outros candidatos a Papa em mente).
Cesare crescia à sobra do irmão Giovanni, nomeado Duque de Gandia e Condestável do reino de Nápoles, um jovem e capaz comandante militar. Cesare mesmo demonstrava potencial, de modo que cronistas contemporâneos e historiadores posteriores conjecturavam uma rivalidade entre os dois. Os dois compartilhavam da mesma amante, que também era esposa de seu irmão mais novo Gioffre. Um dia, Giovanni saiu para cavalgar, mas o cavalo retornou sozinho com um estribo cortado, e seu corpo foi resgatado do rio Tibre com a garganta cortada. Rumores insinuavam o envolvimento de Cesare, mas investigações na época indicavam roubo (embora uma bolsa com moedas de ouro tenha sido encontrada com o corpo). É mais provável que Gioffre tenha sido o mandante do crime. De qualquer maneira, com o caminho aberto para sua carreira militar, Cesare optou por renunciar ao cardinalato para servir no norte da Itália, no recém conquistado Ducado de Milão (o rei da França, seu aliado, lhe concedeu o título nobiliárquico de Duque de Valentinois, em referência à sua ascendência valenciana, embora isso não lhe concedesse direito a terras, já que Valência não pertencia à França). Ele atuou com muito sucesso em várias campanhas das guerras italianas do seu tempo, em Milão e em Nápoles. Seu prestígio atraiu os serviços de Leonardo da Vinci, de quem foi patrono durante alguns anos.
Cesare ainda se envolveria em outro caso de assassinato, desta vez de Perotto, um camarista, amante de sua irmã Lucrécia. Seu corpo também foi resgatado sem vida do rio Tibre depois que Cesare descobriu que ela estava grávida. Ele também teria planejado a morte por envenenamento do cardeal Adriano de Corneto, mas teria envenenado acidentalmente seu próprio pai, causando sua morte em 1503 (ele mesmo se envenenara na mesma ocasião, mas se recuperara meses depois). A morte de Alexandre e do seu sucessor Pio III (eleito enquanto mercenários leais a Cesare ocupavam o Conclave) tirou o apoio político do qual gozava. O Papa Júlio II e o rei Fernando II de Aragão conspiraram de todas as formas contra ele. Cesare foi preso, se tornou um fugitivo, e terminou morto em uma emboscada aos 29 anos.
Embora continuassem perseguidos pela nobreza italiana (que via os Borgia, de origem espanhola, com desdém e invejava sua influência) os Borgia continuariam, nominalmente, ou através de seus casamentos, parentes e afilhados, como membros da nobreza européia e atores da alta política e dos negócios durante todo o Renascimento e a Era dos Descobrimentos
segunda-feira, 17 de agosto de 2015
terça-feira, 11 de agosto de 2015
Tensão Brutal
Em 11 de agosto de 1965, uma abordagem policial a um motorista embriagado no bairro de Watts, no sul de Los Angeles, degenerou rapidamente em conflitos raciais que durariam quase uma semana.
Tudo começou quando o jovem negro Marquette Fryes foi parado por um patrulheiro enquanto dirigia aparentemente embriagado. Enquanto era autuado e o carro apreendido, seu irmão, Ronald, que vinha de carona, correu até a sua casa na vizinhança e trouxe sua mãe, Rena Price, proprietária do carro, para ver o que podia fazer. Rena repreendeu veementemente Marquette por dirigir alcoolizado. Mas neste momento, alguém (ninguém sabe precisar quem) empurrou Rena e golpeou Marquette. Rena reagiu pulando sobre um policial, enquanto outro sacou sua arma. Vários policiais chegaram para prender os três. Nisso, rumores na vizinhança de que policiais estavam agredindo Rena e uma outra mulher grávida fizeram com que os moradores locais, todos negros, se juntassem em volta. Alguns insultos foram seguidos de pedras e outros objetos jogados contra os policiais, evoluindo para confronto generalizado. Durante aquela noite, a polícia foi chamada várias vezes para conter a turba enfurecida. Ao longo dos 6 dias seguintes, cerca de 30 mil negros ocuparam as ruas em Watts, alguns depredando, queimando e saqueando estabelecimento de comerciantes brancos, além de seus carros (motoristas brancos eram parados, arrancados de seus carros e surrados na rua), causando destruição num raio de quase 120 km². Reuniões entre o governo e representantes da comunidade fracassaram. A Guarda Nacional enviou milhares de soldados para conter os tumultos. Foram 34 mortos, mais de mil feridos e 3400 presos.
O que gerou uma reação tão violenta, e racialmente direcionada (embora o ato da abordagem policial inicial, incidentemente de um oficial branco, tenha sido legítima) é debatido até hoje. Mas pelo menos um processo é fácil de distinguir: a segregação racial e social na cidade de Los Angeles desde pelo menos a década de 1920, gravemente acentuada por uma permissividade do poder público local quanto à ocupação urbana dos migrantes negros vindos do sul do país, e a tendência da polícia a atuar com violência contra minorias étnicas.
Em 1940, devido à II Guerra Mundial, muitos negros do sul dos Estados Unidos foram convocados e levados para o oeste do país para treinamento e embarque de tropas para o cenário do Pacífico, ou para trabalhar na indústria bélica (6 companhias de aviação tinham suas sedes na cidade). Los Angeles, que possuía pouco mais de 30 mil habitantes negros (num universo de quase 1,5 milhão de habitanteS), teve essa população quintuplicada em apenas uma geração.
Los Angeles era uma cidade majoriariamente branca, onde as minorias negra e latina viviam em regime de segregação por baixo dos panos: embora não existissem leis que proibissem negros ou latinos de usufruir dos mesmos espaços públicos, o poder público local se mantinha passivo quanto a atividade de gangues brancas intimidando e atacando outras etnias que estivessem circulando em áreas majoritariamente brancas.
O súbito influxo de imigrantes negros começou a despertar o interesse do mercado imobiliário. Inicialmente, os proprietários brancos se recusavam a vender ou alugar imóveis para negros, restringindo aos negros (e latinos e asiáticos) o acesso a no máximo 5% dos imóveis disponíveis na cidade, de maneira que os negros eram forçados a morarem em regiões subdesenvolvidas na periferia. A carência de serviços públicos, a insegurança e a insalubridade nessas comunidades eram notórias. Com a imigração nos anos 40, algumas empresas imobiliárias começaram a investir em bairros pouco populosos ocupados por brancos e construir casas e apartamentos abertos aos negros. Os vizinhos brancos, então, aceitavam vender suas propriedades abaixo do preço de mercado, que eram revendidas pelo valor mais alto possível, devido à alta procura, aumentando os lucros dessas imobiliárias, ao mesmo tempo em que alimentava um ressentimento entre brancos "que restringiam e oprimiam", e negros "que estavam tomando seu lugar". A parte sul de Los Angeles, onde essa tendência foi muito acentuada, ocorreram inúmeros casos de violência racial ao longo dos anos 50 - atentados a bomba, casas de negros incendiadas ou marcadas com cruzes em chamas em seus quintais. A polícia tendia a ser mais delicada em casos de violência perpetrados por moradores brancos do que negros ou latinos (em 1951, na noite de natal, cinco jovens latinos e dois amigos brancos foram presos e duramente espancados durante uma abordagem policial onde o grupo, acusado de beber ilegalmente, já havia provado aos policiais terem idade suficiente para isso).
Em 1963, foi aprovada uma lei proposta pelo deputado negro William Rumford pretendia proibir donos de imóveis brancos de recusarem a venda ou aluguel a clientes negros, latinos ou asiáticos. Porém, em 1964, durante um plebiscito que incluía entre os ítens a serem consultados junto à população uma proposição ("Proposição 14", devido à sua posição na cédula) que acrescentaria uma emenda à Constituição da Califórnia, impedindo que o estado ou qualquer órgão público, interferisse ou limitasse venda ou aluguel de propriedades no estado (incluindo aí critérios baseados em raça, estado civil, religião, orientação sexual e condição física, com base no princípio da liberdade de associação), neutralizando a lei anterior e restabelecendo a segregação de fato. Após os eventos em Watts, o governador Pat Brown apoiou junto à Suprema Corte do estado a revisão da Proposição 14. Ela foi julgada inconstitucional em 1966 - isso rendeu a Brown a derrota nas eleições seguintes para o conservador Ronald Reagan.
O que quer que possa ser apontado como a causa direta para a explosão de violência em Watts, o relatório de uma comissão liderada por um ex-diretor da CIA recomendou que, para evitar futuros problemas semelhantes, Los Angeles deveria resolver com urgência problemas de educação infantil, melhorar as relações entre polícia e a comunidade, investir em moradia para população de baixa renda, qualificação profissional, saúde, transporte público, além de parcerias com o setor privado no desenvolvimento econômico e no acesso a informação e com lideranças das próprias comunidades para a implementação de planos de melhoria locais.
As recomendações da comissão não foram seguidas imediatamente, nem em todos os seus pontos. Em 1992 Los Angeles, especificamente a parte sul da cidade, seria palco de outra explosão de violência racial, de maiores proporções. A senhora Price morreu em 2013 aos 97 anos sem nunca ter recuperado seu carro guinchado. Os eventos de Watts foram retratados sob a ótica de uma equipe de jornalistas no filme Tensão Brutal, de 1990, com James Earl Jones.
Tudo começou quando o jovem negro Marquette Fryes foi parado por um patrulheiro enquanto dirigia aparentemente embriagado. Enquanto era autuado e o carro apreendido, seu irmão, Ronald, que vinha de carona, correu até a sua casa na vizinhança e trouxe sua mãe, Rena Price, proprietária do carro, para ver o que podia fazer. Rena repreendeu veementemente Marquette por dirigir alcoolizado. Mas neste momento, alguém (ninguém sabe precisar quem) empurrou Rena e golpeou Marquette. Rena reagiu pulando sobre um policial, enquanto outro sacou sua arma. Vários policiais chegaram para prender os três. Nisso, rumores na vizinhança de que policiais estavam agredindo Rena e uma outra mulher grávida fizeram com que os moradores locais, todos negros, se juntassem em volta. Alguns insultos foram seguidos de pedras e outros objetos jogados contra os policiais, evoluindo para confronto generalizado. Durante aquela noite, a polícia foi chamada várias vezes para conter a turba enfurecida. Ao longo dos 6 dias seguintes, cerca de 30 mil negros ocuparam as ruas em Watts, alguns depredando, queimando e saqueando estabelecimento de comerciantes brancos, além de seus carros (motoristas brancos eram parados, arrancados de seus carros e surrados na rua), causando destruição num raio de quase 120 km². Reuniões entre o governo e representantes da comunidade fracassaram. A Guarda Nacional enviou milhares de soldados para conter os tumultos. Foram 34 mortos, mais de mil feridos e 3400 presos.
O que gerou uma reação tão violenta, e racialmente direcionada (embora o ato da abordagem policial inicial, incidentemente de um oficial branco, tenha sido legítima) é debatido até hoje. Mas pelo menos um processo é fácil de distinguir: a segregação racial e social na cidade de Los Angeles desde pelo menos a década de 1920, gravemente acentuada por uma permissividade do poder público local quanto à ocupação urbana dos migrantes negros vindos do sul do país, e a tendência da polícia a atuar com violência contra minorias étnicas.
Em 1940, devido à II Guerra Mundial, muitos negros do sul dos Estados Unidos foram convocados e levados para o oeste do país para treinamento e embarque de tropas para o cenário do Pacífico, ou para trabalhar na indústria bélica (6 companhias de aviação tinham suas sedes na cidade). Los Angeles, que possuía pouco mais de 30 mil habitantes negros (num universo de quase 1,5 milhão de habitanteS), teve essa população quintuplicada em apenas uma geração.
Los Angeles era uma cidade majoriariamente branca, onde as minorias negra e latina viviam em regime de segregação por baixo dos panos: embora não existissem leis que proibissem negros ou latinos de usufruir dos mesmos espaços públicos, o poder público local se mantinha passivo quanto a atividade de gangues brancas intimidando e atacando outras etnias que estivessem circulando em áreas majoritariamente brancas.
O súbito influxo de imigrantes negros começou a despertar o interesse do mercado imobiliário. Inicialmente, os proprietários brancos se recusavam a vender ou alugar imóveis para negros, restringindo aos negros (e latinos e asiáticos) o acesso a no máximo 5% dos imóveis disponíveis na cidade, de maneira que os negros eram forçados a morarem em regiões subdesenvolvidas na periferia. A carência de serviços públicos, a insegurança e a insalubridade nessas comunidades eram notórias. Com a imigração nos anos 40, algumas empresas imobiliárias começaram a investir em bairros pouco populosos ocupados por brancos e construir casas e apartamentos abertos aos negros. Os vizinhos brancos, então, aceitavam vender suas propriedades abaixo do preço de mercado, que eram revendidas pelo valor mais alto possível, devido à alta procura, aumentando os lucros dessas imobiliárias, ao mesmo tempo em que alimentava um ressentimento entre brancos "que restringiam e oprimiam", e negros "que estavam tomando seu lugar". A parte sul de Los Angeles, onde essa tendência foi muito acentuada, ocorreram inúmeros casos de violência racial ao longo dos anos 50 - atentados a bomba, casas de negros incendiadas ou marcadas com cruzes em chamas em seus quintais. A polícia tendia a ser mais delicada em casos de violência perpetrados por moradores brancos do que negros ou latinos (em 1951, na noite de natal, cinco jovens latinos e dois amigos brancos foram presos e duramente espancados durante uma abordagem policial onde o grupo, acusado de beber ilegalmente, já havia provado aos policiais terem idade suficiente para isso).
Em 1963, foi aprovada uma lei proposta pelo deputado negro William Rumford pretendia proibir donos de imóveis brancos de recusarem a venda ou aluguel a clientes negros, latinos ou asiáticos. Porém, em 1964, durante um plebiscito que incluía entre os ítens a serem consultados junto à população uma proposição ("Proposição 14", devido à sua posição na cédula) que acrescentaria uma emenda à Constituição da Califórnia, impedindo que o estado ou qualquer órgão público, interferisse ou limitasse venda ou aluguel de propriedades no estado (incluindo aí critérios baseados em raça, estado civil, religião, orientação sexual e condição física, com base no princípio da liberdade de associação), neutralizando a lei anterior e restabelecendo a segregação de fato. Após os eventos em Watts, o governador Pat Brown apoiou junto à Suprema Corte do estado a revisão da Proposição 14. Ela foi julgada inconstitucional em 1966 - isso rendeu a Brown a derrota nas eleições seguintes para o conservador Ronald Reagan.
O que quer que possa ser apontado como a causa direta para a explosão de violência em Watts, o relatório de uma comissão liderada por um ex-diretor da CIA recomendou que, para evitar futuros problemas semelhantes, Los Angeles deveria resolver com urgência problemas de educação infantil, melhorar as relações entre polícia e a comunidade, investir em moradia para população de baixa renda, qualificação profissional, saúde, transporte público, além de parcerias com o setor privado no desenvolvimento econômico e no acesso a informação e com lideranças das próprias comunidades para a implementação de planos de melhoria locais.
As recomendações da comissão não foram seguidas imediatamente, nem em todos os seus pontos. Em 1992 Los Angeles, especificamente a parte sul da cidade, seria palco de outra explosão de violência racial, de maiores proporções. A senhora Price morreu em 2013 aos 97 anos sem nunca ter recuperado seu carro guinchado. Os eventos de Watts foram retratados sob a ótica de uma equipe de jornalistas no filme Tensão Brutal, de 1990, com James Earl Jones.
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
Magyares
Em 10 de agosto de 955, uma confederação germânica sob a liderança do rei Oto I da Frância Oriental dispersou uma horda magyar na Batalha de Lechfeld, no sul da Alemanha.
O movimento constante de povos nômades sempre causaram enormes impactos na demografia nos continentes em que ocorreram. Nas Américas e na África, onde as ondas migratórias não foram registradas por escrito (exceto na Mesoamérica, cujo último movimento importante de povos é a descida dos Aztecas vindos do norte em direção ao centro do México), elas são conjecturadas com base em arqueologia e linguística. Mas na Europa, na Ásia, e no norte da África (sobretudo Egito), as sucessivas ondas migratórias foram registradas em profusão. Em alguns momentos, o choque entre povos nômades em movimento e civilizações foi tão violento que pareceu que o mundo que se conhecia estava para acabar - muitas vezes essa sensação de estar perto do fim era o que urgia os cronistas e historiadores a registrarem tudo que pudessem. Por isso as migrações dos povos eurasiáticos são mais bem compreendidas, embora suas causas primárias - o que motivou esses povos a saírem de suas terras e se baterem contra fortalezas e exércitos melhor armados e organizados - raramente sejam conhecidas.
No século IX, o Império Romano do Ocidente já não existia, e a Europa Ocidental era dominada por povos germânicos romanizados - os francos governavam uma confederação importante de povos germânicos na França e parte da Alemanha, e já impunham um limite à invasão moura na Espanha; uma outra confederação germânica convivia num reino derivado do Império de Carlos Magno, a Frância Oriental, onde hoje é a metade ocidental da Alemanha. O Império Romano do Oriente, ou Império Bizantino, ainda era relativamente saudável, ou pelo menos funcional, dominando terras na Itália, na Grécia e na Ásia, e tinha como principal preocupação os búlgaros empurrando suas fronteiras ao sul da do Danúbio. Esses búlgaros eram povos proto-eslávicos que se desprenderam do seu território original nas margens do Mar Negro e, ao longo do século VII assaltaram os Bizantinos e seus vizinhos ocidentais, até que um ramo fixou território no Danúbio e estabeleceu ali um êmulo do Império Bizantino - os khans búlgaros, designação para os chefes tribais de diversos povos eurasiáticos, governavam este Império Búlgaro como czares, "césares".
Os búlgaros, que se constituíam de várias tribos que compartilhavam da mesma língua, não estavam sozinhos. Acompanhando os búlgaros estava uma confederação distinta, de língua nem eslávica e nem sequer indo-européia, mas fino-úgrica, uma família linguística mais afim do turco e do mongol do que de qualquer outra língua europeia (exceto o suomi, ou finlandês, que compõe a família com o húngaro). Essas tribos viriam a ser conhecida no ocidente pelo nome da aldeia onde viviam, Onogur, na atual Bulgária - onogures, ongales, hunugures, unghrese (na Itália), ungar (na Alemanha), ungari, hungari (latim). Já o autônimo pelo qual se identificavam (e se identificam até hoje, a despeito desses exônimos em todas as línguas vizinhas) é magyar, nome de uma das tribos húngaras, possivelmente em uma referência obscura, talvez de um mito de formação nacional, a um certo Muaegris, um khan huno cuja tribo foi expulsa de território bizantino no século VI. Ao longo da história, o nacionalismo húngaro desenvolveu este mito para traçar a origem do povo magyar até Átila, o famoso khan dos hunos que desafiou o poder de Roma a partir da atual Hungria. Os bizaninos os chamavam em grego de "turcos".
Os magyares (ou magyarok, no plural em húngaro) viviam inicialmente subordinados ao Khaganato Kazar, um império turco ao norte do Cáucaso e na Rússia. A partir de 830 os kazares aparentemente sofriam uma crise econômica que gerou revoltas de diversos grupos étnicos e invasões estrangeiras. Entre os revoltosos estavam algumas tribos magyares, que, atacados por nômades turcos da tribo pechenegue, passaram para território búlgaro, através do qual entraram em contato com os reinos ocidentais. O acotovelamento entre os povos - pechenegues, búlgaros, avaros mais a oeste - a pujança material de Bizâncio e dos reinos germânicos, e a adequação das planícies na bacia dos Cárpatos para seus rebanhos direcionou os magyares para o centro da Europa. Por volta de 900, um certo Árpád liderou uma invasão em massa à quase desguarnecida antiga província romana da Panônia, então ocupada por pastores avaros e "romanos" (segundo a Gesta Hungarorum, do século XIII), e chegaram à "Cidade do Rei Átila", ou Aquincum, atual Budapest. Este Árpád é reverenciado como herói nacional, uma espécie de Moisés húngaro.
A exemplo dos hunos de Átila, a Hungria se tornou o centro de operações dos magyares, implementando ataques surpresas aos campos, cidades e castelos próximos na Grécia, Alemanha, na Itália e na França, com bandos alcançando até a Catalúnia, devastando e pilhando. Com uma cavalaria veloz e arqueiros montados sobre estribos, os ataques surpreendiam os exércitos europeus que, na alta Idade Média, eram uma mistura de infantaria leve composta de camponeses armados com o que podiam arranjar e nobres em pesadas armaduras, de maneira que os arqueiros montados húngaros, em ação coordenada, podiam massacrar rapidamente o inimigo mais lento. Com o centro da planície carpátia assegurado, os seguidos sucessos e os tesouros provenientes dos saques, subornos e tributos, permitiram uma expansão contínua das fronteiras húngaras em todas as direções por mais de 50 anos (os ataques ao Império Bizantino e aos territórios eslavos nos Bálcãs continuariam até pelo menos 971).
Em 955, Oto I, rei da Frância Oriental, soube de uma invasão de magyares na Bavária. Magyares já haviam atacado a Alemanha outras vezes, iniciando sempre a invasão do sudeste, fazendo uma curva na altura do Reno, passando pela França, virando ao sul para a Itália, e de lá regressando à Hungria antes que se pudesse reunir algum exército para lhes oferecer combate. Oto posicionou uma força a partir do Reno para forçar uma recuada da cavalaria húngara, enquanto movia outra força igual na sua perseguição, confrontando-os finalmente em Lechfeld, na Bavária. Com fileiras de veteranos pesadamente armados - as armaduras pesadas medievais se originaram de projetos básicos trazidos pelos alanos durante as invasões germânicas a Roma, desenvolvidos para suportar o ataque à distância de arqueiros montados - os germanos tentavam neutralizar sua desvantagem numérica. Com uma parede de metal e escudos, os saxões de Oto conseguiram encurtar a distância e provocar o combate corpo a corpo. Os magyares simularam uma fuga para induzir os germânicos a se dispersarem atrás deles, apenas para atacá-los em massa de volta, mas os defensores continuaram perseguindo-os em perfeita ordem. Os magyares debandaram, muitos tentaram se esconder em vilas e aldeias, mas os locais os massacraram. Vários líderes magyares morreram na batalha e durante a fuga. Embora as perdas de ambos os lados fossem proporcionais, a impossibilidade de vencer um exército naquele formato deve ter tido profundo impacto nas lideranças húngaras.
Foi a última vez que cavaleiros magyares tentaram invadir os reinos ocidentais. Também foi a última vez que uma tribo de nômades invadiu a Europa e se fixou por lá - os mongóis chegariam cerca de 3 séculos mais tarde, mas seriam gradualmente empurrados de volta para a Ásia pelos russos. Cerca de duas gerações depois da Batalha de Lechfeld, o rei Estevão I da Hungria se converteu ao catolicismo e recebeu a bênção do Papa (mais tarde seria canonizado). A Hungria gradualmente adotaria o estilo de vida das potências ocidentais, bem como sua tradição política, administrativa e militar - o exército, reunido sob duques e senhores feudais correspondentes, deixaria de contar com os arqueiros montados e adoraria a cavalaria pesada no seu lugar.
O movimento constante de povos nômades sempre causaram enormes impactos na demografia nos continentes em que ocorreram. Nas Américas e na África, onde as ondas migratórias não foram registradas por escrito (exceto na Mesoamérica, cujo último movimento importante de povos é a descida dos Aztecas vindos do norte em direção ao centro do México), elas são conjecturadas com base em arqueologia e linguística. Mas na Europa, na Ásia, e no norte da África (sobretudo Egito), as sucessivas ondas migratórias foram registradas em profusão. Em alguns momentos, o choque entre povos nômades em movimento e civilizações foi tão violento que pareceu que o mundo que se conhecia estava para acabar - muitas vezes essa sensação de estar perto do fim era o que urgia os cronistas e historiadores a registrarem tudo que pudessem. Por isso as migrações dos povos eurasiáticos são mais bem compreendidas, embora suas causas primárias - o que motivou esses povos a saírem de suas terras e se baterem contra fortalezas e exércitos melhor armados e organizados - raramente sejam conhecidas.
No século IX, o Império Romano do Ocidente já não existia, e a Europa Ocidental era dominada por povos germânicos romanizados - os francos governavam uma confederação importante de povos germânicos na França e parte da Alemanha, e já impunham um limite à invasão moura na Espanha; uma outra confederação germânica convivia num reino derivado do Império de Carlos Magno, a Frância Oriental, onde hoje é a metade ocidental da Alemanha. O Império Romano do Oriente, ou Império Bizantino, ainda era relativamente saudável, ou pelo menos funcional, dominando terras na Itália, na Grécia e na Ásia, e tinha como principal preocupação os búlgaros empurrando suas fronteiras ao sul da do Danúbio. Esses búlgaros eram povos proto-eslávicos que se desprenderam do seu território original nas margens do Mar Negro e, ao longo do século VII assaltaram os Bizantinos e seus vizinhos ocidentais, até que um ramo fixou território no Danúbio e estabeleceu ali um êmulo do Império Bizantino - os khans búlgaros, designação para os chefes tribais de diversos povos eurasiáticos, governavam este Império Búlgaro como czares, "césares".
Os búlgaros, que se constituíam de várias tribos que compartilhavam da mesma língua, não estavam sozinhos. Acompanhando os búlgaros estava uma confederação distinta, de língua nem eslávica e nem sequer indo-européia, mas fino-úgrica, uma família linguística mais afim do turco e do mongol do que de qualquer outra língua europeia (exceto o suomi, ou finlandês, que compõe a família com o húngaro). Essas tribos viriam a ser conhecida no ocidente pelo nome da aldeia onde viviam, Onogur, na atual Bulgária - onogures, ongales, hunugures, unghrese (na Itália), ungar (na Alemanha), ungari, hungari (latim). Já o autônimo pelo qual se identificavam (e se identificam até hoje, a despeito desses exônimos em todas as línguas vizinhas) é magyar, nome de uma das tribos húngaras, possivelmente em uma referência obscura, talvez de um mito de formação nacional, a um certo Muaegris, um khan huno cuja tribo foi expulsa de território bizantino no século VI. Ao longo da história, o nacionalismo húngaro desenvolveu este mito para traçar a origem do povo magyar até Átila, o famoso khan dos hunos que desafiou o poder de Roma a partir da atual Hungria. Os bizaninos os chamavam em grego de "turcos".
Os magyares (ou magyarok, no plural em húngaro) viviam inicialmente subordinados ao Khaganato Kazar, um império turco ao norte do Cáucaso e na Rússia. A partir de 830 os kazares aparentemente sofriam uma crise econômica que gerou revoltas de diversos grupos étnicos e invasões estrangeiras. Entre os revoltosos estavam algumas tribos magyares, que, atacados por nômades turcos da tribo pechenegue, passaram para território búlgaro, através do qual entraram em contato com os reinos ocidentais. O acotovelamento entre os povos - pechenegues, búlgaros, avaros mais a oeste - a pujança material de Bizâncio e dos reinos germânicos, e a adequação das planícies na bacia dos Cárpatos para seus rebanhos direcionou os magyares para o centro da Europa. Por volta de 900, um certo Árpád liderou uma invasão em massa à quase desguarnecida antiga província romana da Panônia, então ocupada por pastores avaros e "romanos" (segundo a Gesta Hungarorum, do século XIII), e chegaram à "Cidade do Rei Átila", ou Aquincum, atual Budapest. Este Árpád é reverenciado como herói nacional, uma espécie de Moisés húngaro.
A exemplo dos hunos de Átila, a Hungria se tornou o centro de operações dos magyares, implementando ataques surpresas aos campos, cidades e castelos próximos na Grécia, Alemanha, na Itália e na França, com bandos alcançando até a Catalúnia, devastando e pilhando. Com uma cavalaria veloz e arqueiros montados sobre estribos, os ataques surpreendiam os exércitos europeus que, na alta Idade Média, eram uma mistura de infantaria leve composta de camponeses armados com o que podiam arranjar e nobres em pesadas armaduras, de maneira que os arqueiros montados húngaros, em ação coordenada, podiam massacrar rapidamente o inimigo mais lento. Com o centro da planície carpátia assegurado, os seguidos sucessos e os tesouros provenientes dos saques, subornos e tributos, permitiram uma expansão contínua das fronteiras húngaras em todas as direções por mais de 50 anos (os ataques ao Império Bizantino e aos territórios eslavos nos Bálcãs continuariam até pelo menos 971).
Em 955, Oto I, rei da Frância Oriental, soube de uma invasão de magyares na Bavária. Magyares já haviam atacado a Alemanha outras vezes, iniciando sempre a invasão do sudeste, fazendo uma curva na altura do Reno, passando pela França, virando ao sul para a Itália, e de lá regressando à Hungria antes que se pudesse reunir algum exército para lhes oferecer combate. Oto posicionou uma força a partir do Reno para forçar uma recuada da cavalaria húngara, enquanto movia outra força igual na sua perseguição, confrontando-os finalmente em Lechfeld, na Bavária. Com fileiras de veteranos pesadamente armados - as armaduras pesadas medievais se originaram de projetos básicos trazidos pelos alanos durante as invasões germânicas a Roma, desenvolvidos para suportar o ataque à distância de arqueiros montados - os germanos tentavam neutralizar sua desvantagem numérica. Com uma parede de metal e escudos, os saxões de Oto conseguiram encurtar a distância e provocar o combate corpo a corpo. Os magyares simularam uma fuga para induzir os germânicos a se dispersarem atrás deles, apenas para atacá-los em massa de volta, mas os defensores continuaram perseguindo-os em perfeita ordem. Os magyares debandaram, muitos tentaram se esconder em vilas e aldeias, mas os locais os massacraram. Vários líderes magyares morreram na batalha e durante a fuga. Embora as perdas de ambos os lados fossem proporcionais, a impossibilidade de vencer um exército naquele formato deve ter tido profundo impacto nas lideranças húngaras.
Foi a última vez que cavaleiros magyares tentaram invadir os reinos ocidentais. Também foi a última vez que uma tribo de nômades invadiu a Europa e se fixou por lá - os mongóis chegariam cerca de 3 séculos mais tarde, mas seriam gradualmente empurrados de volta para a Ásia pelos russos. Cerca de duas gerações depois da Batalha de Lechfeld, o rei Estevão I da Hungria se converteu ao catolicismo e recebeu a bênção do Papa (mais tarde seria canonizado). A Hungria gradualmente adotaria o estilo de vida das potências ocidentais, bem como sua tradição política, administrativa e militar - o exército, reunido sob duques e senhores feudais correspondentes, deixaria de contar com os arqueiros montados e adoraria a cavalaria pesada no seu lugar.
sexta-feira, 7 de agosto de 2015
A expedição Kon-Tiki e a ciência aventureira
Em 7 de agosto de 1947, a expedição liderada pelo norueguês Thor Heyerdahl, terminou quando sua embarcação, a balsa Kon-Tiki, se chocou contra recifes no arquipélago de Tuamotu.
Um assunto tradicionalmente quente nas ciências humanas é a origem dos povos americanos. Sabendo, pelo registro fóssil e arqueológico, que o homem moderno surgiu na África e seguiu um caminho para a Europa, para a Ásia, e chegou na Austrália, a presença humana na América antes da chegada dos europeus sempre intrigou muita gente. Houve, e ainda há, correntes que defendem uma rota migratória vinda da Sibéria, passando pelo congelado Estreito de Bering no Alaska, e chegando à América do Sul vinda do norte; outra corrente defende uma ou mais ondas migratórias vindas das ilhas do Pacífico, chegando na costa oeste da América do Sul e/ou Central, e de lá se difundindo para o resto do continente; outra, mais recente, defende a chegada dos primeiros americanos vindos da África subsaariana pelo Oceano Atlântico; e há os que defendem duas ou mais teorias.
Enquanto escrevia um projeto sobre espécies vegetais usadas como alimento, me deparei com vários trabalhos etnobotânicos e arqueobotânicos que apontavam para uma convergência no uso de determinadas espécies na América, na Ásia e na Polinésia: espécies de Lagenaria, uma cabaceira, e de algodão cultivadas por indígenas americanos teriam mais semelhança genética com espécies dos mesmos gêneros cultivadas na Ásia do que das suas outras parentes americanas. De maneira semelhante, a presença da batata-doce, espécie nativa da América, na dieta dos ilhéus do Pacífico descrita por navegantes europeus do século XVII indicaria algum grau de contato entre essas regiões tão afastadas do globo. Eu também trabalhava no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, para onde o famoso fóssil de Luzia - um crânio caracteristicamente africano, o mais antigo fóssil humano do continente - era guardado e estudado. Então naquele período, enquanto tentava me concentrar na botânica, eu entrei em contato com as várias teorias sobre a ocupação humana na América.
A ciência tem avançado bastante rápido nos últimos 50 anos para responder essas e outras perguntas. Mas até que o conhecimento e as metodologias chegassem ao refinamento atual, a disputa era muito acirrada, as correntes teóricas eram pesadamente influenciadas por tendências políticas e etnocêntricas, e atraía a atenção de leigos e exploradores. Um desses exploradores era o biólogo e etnógrafo Thor Heyerdahl. Enquanto fazia faculdade de biologia, Heyerdahl se interessou nos polinésios, acessando vasta literatura acerca de suas culturas, suas línguas seus mitos, e suas relações com outros povos. Seu primeiro contato com eles foi na ilha de Fatu Hiva, nas Ilhas Marquesas, Polinésia Francesa. Sua estada na ilha foi publicada em livro - veículo pelo qual se tornaria uma celebridade ao longo do século XX.
Embora tivesse atingido um nível de erudição a respeito dos polinésios, Heyerdahl não teve formação acadêmica em antropologia (assim como eu não tenho de História), de maneira que seus métodos e teorias foram repetidamente considerados equivocados - uma crítica comum aos seus projetos é de que ele selecionava teorias que queria provar, e moldava seus métodos especificamente para prová-las, sem testar outras hipóteses possíveis. No final da vida, isso o levou a uma expedição arqueológica infrutífera no Azerbaijão, acreditando, por meio de evidências que ele mesmo escolheu, que ali havia sido a origem dos povos proto-germânicos (aceitando que o mito de Odim conduzindo seu povo da terra de Asir representava a memória de um líder tribal conduzindo uma migração a partir do lugar com o nome mais próximo possível que ele encontrou). Não obstante, sua pesquisa literária o ajudou a reproduzir, por exemplo, embarcações típicas usadas no Rio Nilo no Egito Faraônico, no litoral do Golfo Pérsico do período sumério, e, mais importante aqui, um barco tradicional polinésio, com as tecnologias disponíveis respectivamente. Com um navio feito de papiro, por exemplo, ele conseguiu atravessar o Atlântico partindo do Marrocos (algo que os Egípcios não tentaram, mas demonstrando que poderia ser possível).
Ao contrário do que a maioria das pesquisas em diversos campos apontava, Thor era adepto de uma teoria que atribuía aos povos do oeste da América do Sul a colonização da Ilha de Páscoa e um contato difuso e ativo com as ilhas polinésias - ou, quiçá, teriam sido os ancestrais dos atuais povos polinésios. Os argumentos dessa teoria estariam espalhados em mitos americanos, como o de homens brancos barbados que teriam sido derrotados pelos ancestrais dos povos andinos e ido embora pelo mar - ele descrevia os nativos remanescentes dos Rapanui de Páscoa como de "pele branca", muito diferente dos polinésios de pele mais escura; o estilo de escultura dos moais (as colossais cabeças de pedra espalhadas pela ilha) que lembrariam os estilos contemporâneos encontrados no Peru; e um mito local que fala sobre dois povos que entraram em guerra em determinado momento, precipitando o colapso da civilização na ilha (um desses povos seria de imigrantes americanos). Para tentar provar essa teoria, Heyerdahl construiu, com base em literatura e em suas próprias observações, o Kon-Tiki (nome que homenageia o deus inca Viracocha, que teria sido o líder dos tais homens brancos em sua fuga pelo mar), uma balsa rústica no modelo polinésio que poderia ter sido construída com tecnologia neolítica.
Com uma tripulação de 6 homens, o Kon-Tiki partiu de Callao, Peru, no final de abril, e navegou pelo Pacífico aproveitando a Corrente de Humboldt por 101 dias, até atingir Tuamotu, quase 7 mil quilômetros a oeste. Thor Heyerdahl celebrou o feito como a prova de que precisava para demonstrar que os povos antigos da América do Sul poderiam ter colonizado as ilhas do Pacífico.
Do ponto de vista científico, a expedição só prova que um homem com treinamento militar (Heyerdahl serviu na Segunda Guerra Mundial) e outros com conhecimentos especializados em engenharia e comunicações eram capazes de levar uma embarcação rústica através do oceano com suprimentos planejados. O único elemento fiel ao que hipotéticos navegantes sul-americanos poderiam ter a disposição era o barco. Além de tripulantes munidos de conhecimento moderno aplicável à expedição, o Kon-Tiki zarpou rebocado por um navio alguns quilômetros além da costa; viajou com mais de mil litros de água potável, parte dela armazenada em latas; conquanto levasse alimentos frescos a bordo, como frutas e tubérculos (além de peixes que se reuniam sob as tábuas da balsa), a tripulação recorria a comida enlatada provida por um navio militar americano, com o qual os tripulantes mantinham contato via rádio. O teste da capacidade de navegação em si pode ser questionado porque Heyerdahl e outros membros tinham relógios de pulso, um instrumento extremamente útil para calcular longitudes, além do óbvio conhecimento do que a Terra é mais ou menos esférica e existia terras esperando além mar. Heyerdahl passou boa parte da vida se defendendo de críticas assim (na expedição do Marrocos à América, ele tentou anular o efeito da tripulação munida de conhecimento moderno escalando para tanto pessoas de várias nacionalidades e ocupações não relacionadas com navegação oceânica).
Recentemente, um levantamento genético entre amostras dos Rapanui da Ilha de Páscoa revelou uma similaridade de 76% com o genótipo polinésio, com 8% de influência americana e 16% europeia. A análise mais minuciosa aponta que a carga genética europeia era relativamente recente e poderia se dever ao contato com navegantes europeus (embora o grupo teste tenha sido escolhido entre aqueles que afirmavam não ter ascendência europeia na família), enquanto a carga americana deva ter entrado na composição entre os séculos XIII e XVI - quando a ilha de Páscoa já havia sido colonizada. Se houve esse contato entre Rapanui e nativos americanos, então pelo menos isso a expedição Kon-Tiki parece corroborar.
Um assunto tradicionalmente quente nas ciências humanas é a origem dos povos americanos. Sabendo, pelo registro fóssil e arqueológico, que o homem moderno surgiu na África e seguiu um caminho para a Europa, para a Ásia, e chegou na Austrália, a presença humana na América antes da chegada dos europeus sempre intrigou muita gente. Houve, e ainda há, correntes que defendem uma rota migratória vinda da Sibéria, passando pelo congelado Estreito de Bering no Alaska, e chegando à América do Sul vinda do norte; outra corrente defende uma ou mais ondas migratórias vindas das ilhas do Pacífico, chegando na costa oeste da América do Sul e/ou Central, e de lá se difundindo para o resto do continente; outra, mais recente, defende a chegada dos primeiros americanos vindos da África subsaariana pelo Oceano Atlântico; e há os que defendem duas ou mais teorias.
Enquanto escrevia um projeto sobre espécies vegetais usadas como alimento, me deparei com vários trabalhos etnobotânicos e arqueobotânicos que apontavam para uma convergência no uso de determinadas espécies na América, na Ásia e na Polinésia: espécies de Lagenaria, uma cabaceira, e de algodão cultivadas por indígenas americanos teriam mais semelhança genética com espécies dos mesmos gêneros cultivadas na Ásia do que das suas outras parentes americanas. De maneira semelhante, a presença da batata-doce, espécie nativa da América, na dieta dos ilhéus do Pacífico descrita por navegantes europeus do século XVII indicaria algum grau de contato entre essas regiões tão afastadas do globo. Eu também trabalhava no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, para onde o famoso fóssil de Luzia - um crânio caracteristicamente africano, o mais antigo fóssil humano do continente - era guardado e estudado. Então naquele período, enquanto tentava me concentrar na botânica, eu entrei em contato com as várias teorias sobre a ocupação humana na América.
A ciência tem avançado bastante rápido nos últimos 50 anos para responder essas e outras perguntas. Mas até que o conhecimento e as metodologias chegassem ao refinamento atual, a disputa era muito acirrada, as correntes teóricas eram pesadamente influenciadas por tendências políticas e etnocêntricas, e atraía a atenção de leigos e exploradores. Um desses exploradores era o biólogo e etnógrafo Thor Heyerdahl. Enquanto fazia faculdade de biologia, Heyerdahl se interessou nos polinésios, acessando vasta literatura acerca de suas culturas, suas línguas seus mitos, e suas relações com outros povos. Seu primeiro contato com eles foi na ilha de Fatu Hiva, nas Ilhas Marquesas, Polinésia Francesa. Sua estada na ilha foi publicada em livro - veículo pelo qual se tornaria uma celebridade ao longo do século XX.
Embora tivesse atingido um nível de erudição a respeito dos polinésios, Heyerdahl não teve formação acadêmica em antropologia (assim como eu não tenho de História), de maneira que seus métodos e teorias foram repetidamente considerados equivocados - uma crítica comum aos seus projetos é de que ele selecionava teorias que queria provar, e moldava seus métodos especificamente para prová-las, sem testar outras hipóteses possíveis. No final da vida, isso o levou a uma expedição arqueológica infrutífera no Azerbaijão, acreditando, por meio de evidências que ele mesmo escolheu, que ali havia sido a origem dos povos proto-germânicos (aceitando que o mito de Odim conduzindo seu povo da terra de Asir representava a memória de um líder tribal conduzindo uma migração a partir do lugar com o nome mais próximo possível que ele encontrou). Não obstante, sua pesquisa literária o ajudou a reproduzir, por exemplo, embarcações típicas usadas no Rio Nilo no Egito Faraônico, no litoral do Golfo Pérsico do período sumério, e, mais importante aqui, um barco tradicional polinésio, com as tecnologias disponíveis respectivamente. Com um navio feito de papiro, por exemplo, ele conseguiu atravessar o Atlântico partindo do Marrocos (algo que os Egípcios não tentaram, mas demonstrando que poderia ser possível).
Ao contrário do que a maioria das pesquisas em diversos campos apontava, Thor era adepto de uma teoria que atribuía aos povos do oeste da América do Sul a colonização da Ilha de Páscoa e um contato difuso e ativo com as ilhas polinésias - ou, quiçá, teriam sido os ancestrais dos atuais povos polinésios. Os argumentos dessa teoria estariam espalhados em mitos americanos, como o de homens brancos barbados que teriam sido derrotados pelos ancestrais dos povos andinos e ido embora pelo mar - ele descrevia os nativos remanescentes dos Rapanui de Páscoa como de "pele branca", muito diferente dos polinésios de pele mais escura; o estilo de escultura dos moais (as colossais cabeças de pedra espalhadas pela ilha) que lembrariam os estilos contemporâneos encontrados no Peru; e um mito local que fala sobre dois povos que entraram em guerra em determinado momento, precipitando o colapso da civilização na ilha (um desses povos seria de imigrantes americanos). Para tentar provar essa teoria, Heyerdahl construiu, com base em literatura e em suas próprias observações, o Kon-Tiki (nome que homenageia o deus inca Viracocha, que teria sido o líder dos tais homens brancos em sua fuga pelo mar), uma balsa rústica no modelo polinésio que poderia ter sido construída com tecnologia neolítica.
Com uma tripulação de 6 homens, o Kon-Tiki partiu de Callao, Peru, no final de abril, e navegou pelo Pacífico aproveitando a Corrente de Humboldt por 101 dias, até atingir Tuamotu, quase 7 mil quilômetros a oeste. Thor Heyerdahl celebrou o feito como a prova de que precisava para demonstrar que os povos antigos da América do Sul poderiam ter colonizado as ilhas do Pacífico.
Do ponto de vista científico, a expedição só prova que um homem com treinamento militar (Heyerdahl serviu na Segunda Guerra Mundial) e outros com conhecimentos especializados em engenharia e comunicações eram capazes de levar uma embarcação rústica através do oceano com suprimentos planejados. O único elemento fiel ao que hipotéticos navegantes sul-americanos poderiam ter a disposição era o barco. Além de tripulantes munidos de conhecimento moderno aplicável à expedição, o Kon-Tiki zarpou rebocado por um navio alguns quilômetros além da costa; viajou com mais de mil litros de água potável, parte dela armazenada em latas; conquanto levasse alimentos frescos a bordo, como frutas e tubérculos (além de peixes que se reuniam sob as tábuas da balsa), a tripulação recorria a comida enlatada provida por um navio militar americano, com o qual os tripulantes mantinham contato via rádio. O teste da capacidade de navegação em si pode ser questionado porque Heyerdahl e outros membros tinham relógios de pulso, um instrumento extremamente útil para calcular longitudes, além do óbvio conhecimento do que a Terra é mais ou menos esférica e existia terras esperando além mar. Heyerdahl passou boa parte da vida se defendendo de críticas assim (na expedição do Marrocos à América, ele tentou anular o efeito da tripulação munida de conhecimento moderno escalando para tanto pessoas de várias nacionalidades e ocupações não relacionadas com navegação oceânica).
Recentemente, um levantamento genético entre amostras dos Rapanui da Ilha de Páscoa revelou uma similaridade de 76% com o genótipo polinésio, com 8% de influência americana e 16% europeia. A análise mais minuciosa aponta que a carga genética europeia era relativamente recente e poderia se dever ao contato com navegantes europeus (embora o grupo teste tenha sido escolhido entre aqueles que afirmavam não ter ascendência europeia na família), enquanto a carga americana deva ter entrado na composição entre os séculos XIII e XVI - quando a ilha de Páscoa já havia sido colonizada. Se houve esse contato entre Rapanui e nativos americanos, então pelo menos isso a expedição Kon-Tiki parece corroborar.
quarta-feira, 5 de agosto de 2015
A queda de Esparta
Em 5 de agosto de 371 a.C., Esparta sofreu um revés decisivo depois de se tornar o poder hegemônico do mundo helênico pós-Guerra do Peloponeso, ao ser derrotada por um exército tebano menos numeroso na Batalha de Leuctra.
A Guerra do Peloponeso foi uma guerra fratricida entre as ligas ateniense (Liga de Delos) e espartana (Liga do Peloponeso), rivalidade surgida durante a agressiva ascensão ateniense no Mediterrâneo na segunda metade do século V a.C., e alimentada com dinheiro persa que, vendo-se impossibilitado de conquistar a Grécia continental, procurou desestabilizar a região a seu favor apoiando Esparta. A guerra e eventos correlatos (como um surto de peste em Atenas em 430 a.C.) fragilizou a economia do mundo grego e as relações entre as metrópoles e suas colônias, especialmente na Itália e na França. Porém, com a vitória final de Esparta, dentro da Grécia propriamente dita aquela cidade-estado militarística se tornou o tênue núcleo de influência na política da região.
Tebas, por outro lado, manteve seu papel tradicional como a principal cidade da região da Beócia, o "antebraço" montanhoso de terra que liga tanto a Ática (a península onde se situa Atenas) e o Peloponeso (a península onde se localiza Esparta) ao resto da Europa. Durante as Guerras Pérsicas, Tebas se manteve pragmaticamente do lado dos invasores, vendo ali uma oportunidade de suplantar Atenas e Esparta como o poder máximo do mundo grego, com a bênção dos seus prováveis conquistadores. Os persas acabaram recuando, e Tebas viu a ascenção das duas cidades rivais. Com o advento da Guerra do Peloponeso, Tebas atuou do lado espartano em reconhecimento ao apoio destes quando Tebas deixou de presidir a confederação de cidades beócias, a Liga Beócia, em consequência da sua aliança com os persas.
Com o fim da guerra, Tebas começou a alterar as regras da Liga quanto à eleição de delegados para o conselho militar (os beotarcas), favorecendo a si mesma em detrimento das menores cidades federadas. Esparta insistia que todos os membros da Liga Beócia deveriam ter o mesmo tratamento, e atuou para dissolvê-la, chegando a ocupar Tebas com uma guarnição e designando delegados para administrar a cidade. Em 378 a.C. uma revolta resultou na expulsão dos espartanos e na deflagração de um conflito armado, inicialmente de proporções modestas. No primeiro momento, Esparta havia conseguido posicionar uma guarnição na cidade de Tespias, mas seu capitão, por conta própria, resolveu se aproveitar da situação para tentar um assalto ao porto ateniense do Pireu, trazendo Atenas para o conflito ao lado de Tebas.
As potências de Atenas e Esparta estavam novamente em guerra, enquanto Tebas lutava na Beócia para expulsar os espartanos e reconquistar sua influência na região. Em 373 Tebas reconquistou Plateia, pequena cidade beócia que teve papel importante na expulsão dos persas e era tida como aliada e em grande estima por Atenas. Por isso, muitos plateus se refugiaram lá, e suas queixas contra Tebas tiveram grande impacto na opinião pública. Logo Atenas procurou mediar um acordo de paz entre ela, Tebas e Esparta. No ato da assinatura, o general tebano Epaminondas alegou que ele deveria assinar por toda a Beócia, não apenas por Tebas. O rei espartano Agesilaus II resolveu o impasse excluindo Tebas do tratado, assinando a paz apenas com Atenas. Esparta entendia que precisava esmagar a rebeldia tebana para assegurar sua hegemonia. O estado de guerra continuaria entre as duas cidades, embora os combates fossem raros.
Esparta, que tradicionalmente possuía dois reis, enviou um exército de talvez 10 mil hoplitas de sua base avançada em Fócis, no sudoeste da Beócia, sob comando do rei Cleômbrotos. Os espartanos avançaram uma boa distância antes da notícia chegar a Tebas. Na ocasião, Tebas havia restaurado sua supremacia sobre a Liga Beócia, e eleito seus quatro beotarcas. Foi com a diferença de um voto entre eles que os beócios, sob comando de Epaminondas, relutantemente concordaram em mobilizar um exército para enfrentar Esparta.
Os dois exércitos se encontraram perto da vila de Leuctra, a pouco mais de 10 quilômetros de Tebas. O primeiro ataque, à distância, fez com que os tebanos que seguiam o exército (escudeiros, comerciantes, prestadores de serviço em geral) corressem para trás das filas. Os tebanos estavam em desvantagem numérica, e isso, incidentemente, fortaleceu as suas linhas. Um ataque da cavalaria espartana foi repelido, e o seu recuo causou uma certa confusão na linha espartana, impedindo um ataque direto. Epaminondas então tomou a ofensiva de uma maneira pouco ortodoxa para um exército grego - ao invés de compor as falanges como uma linha uniforme em largura e profundidade, com os melhores soldados à direita, ele concentrou suas forças no flanco esquerdo (colunas de 50 homens de profundidade, contra 12 do flanco espartano) sob liderança do colega beotarco Pelópidas, atacando em diagonal primeiramente por ali, quebrando o flanco direito espartano. Ali tombou Cleômbrotos, e começou a debandada do seu exército. A chegada de um reforço da Tessália persuadiu os espartanos a recuarem de volta à Lacedemônia, ao invés de reagrupar e tentar uma nova ofensiva.
A vitória em Leuctra permitiu a Tebas expandir sua influência inconteste não apenas na Beócia, mas em grande parte da Grécia, suplantando seus rivais históricos - a derrota desmitificou a superioridade militar de Esparta. O balanço de forças, contudo, continuou pendendo para um lado ou para o outro. Nove anos mais tarde, Tebas venceu novamente Esparta na Batalha de Mantineia (onde Epaminondas e Agesilaus se encontraram novamente), obliterando o controle espartano sobre o próprio Peloponeso, porém perdendo, por outro lado, o valioso Epaminondas. Com os dois lados enfraquecidos, haveria pouca resistência contra o avanço - pela habilidade militar e política - da Macedônia sobre a Grécia. Mais do que um novo equilíbrio de poderes, a batalha trouxe uma inovação para os exércitos gregos: a formação oblíqua de Epaminondas, que tornava seu exército muito mais flexível contra a rigidez formal da falange grega tradicional. Esse estilo de combate inspiraria Filipe II (que estudou em Tebas) e Alexandre, o Grande, e possibilitaria as suas contínuas vitórias contra gregos e persas e a consequente expansão do mundo grego sobre a Ásia e o Egito sob domínio macedônio.
A Guerra do Peloponeso foi uma guerra fratricida entre as ligas ateniense (Liga de Delos) e espartana (Liga do Peloponeso), rivalidade surgida durante a agressiva ascensão ateniense no Mediterrâneo na segunda metade do século V a.C., e alimentada com dinheiro persa que, vendo-se impossibilitado de conquistar a Grécia continental, procurou desestabilizar a região a seu favor apoiando Esparta. A guerra e eventos correlatos (como um surto de peste em Atenas em 430 a.C.) fragilizou a economia do mundo grego e as relações entre as metrópoles e suas colônias, especialmente na Itália e na França. Porém, com a vitória final de Esparta, dentro da Grécia propriamente dita aquela cidade-estado militarística se tornou o tênue núcleo de influência na política da região.
Tebas, por outro lado, manteve seu papel tradicional como a principal cidade da região da Beócia, o "antebraço" montanhoso de terra que liga tanto a Ática (a península onde se situa Atenas) e o Peloponeso (a península onde se localiza Esparta) ao resto da Europa. Durante as Guerras Pérsicas, Tebas se manteve pragmaticamente do lado dos invasores, vendo ali uma oportunidade de suplantar Atenas e Esparta como o poder máximo do mundo grego, com a bênção dos seus prováveis conquistadores. Os persas acabaram recuando, e Tebas viu a ascenção das duas cidades rivais. Com o advento da Guerra do Peloponeso, Tebas atuou do lado espartano em reconhecimento ao apoio destes quando Tebas deixou de presidir a confederação de cidades beócias, a Liga Beócia, em consequência da sua aliança com os persas.
Com o fim da guerra, Tebas começou a alterar as regras da Liga quanto à eleição de delegados para o conselho militar (os beotarcas), favorecendo a si mesma em detrimento das menores cidades federadas. Esparta insistia que todos os membros da Liga Beócia deveriam ter o mesmo tratamento, e atuou para dissolvê-la, chegando a ocupar Tebas com uma guarnição e designando delegados para administrar a cidade. Em 378 a.C. uma revolta resultou na expulsão dos espartanos e na deflagração de um conflito armado, inicialmente de proporções modestas. No primeiro momento, Esparta havia conseguido posicionar uma guarnição na cidade de Tespias, mas seu capitão, por conta própria, resolveu se aproveitar da situação para tentar um assalto ao porto ateniense do Pireu, trazendo Atenas para o conflito ao lado de Tebas.
As potências de Atenas e Esparta estavam novamente em guerra, enquanto Tebas lutava na Beócia para expulsar os espartanos e reconquistar sua influência na região. Em 373 Tebas reconquistou Plateia, pequena cidade beócia que teve papel importante na expulsão dos persas e era tida como aliada e em grande estima por Atenas. Por isso, muitos plateus se refugiaram lá, e suas queixas contra Tebas tiveram grande impacto na opinião pública. Logo Atenas procurou mediar um acordo de paz entre ela, Tebas e Esparta. No ato da assinatura, o general tebano Epaminondas alegou que ele deveria assinar por toda a Beócia, não apenas por Tebas. O rei espartano Agesilaus II resolveu o impasse excluindo Tebas do tratado, assinando a paz apenas com Atenas. Esparta entendia que precisava esmagar a rebeldia tebana para assegurar sua hegemonia. O estado de guerra continuaria entre as duas cidades, embora os combates fossem raros.
Esparta, que tradicionalmente possuía dois reis, enviou um exército de talvez 10 mil hoplitas de sua base avançada em Fócis, no sudoeste da Beócia, sob comando do rei Cleômbrotos. Os espartanos avançaram uma boa distância antes da notícia chegar a Tebas. Na ocasião, Tebas havia restaurado sua supremacia sobre a Liga Beócia, e eleito seus quatro beotarcas. Foi com a diferença de um voto entre eles que os beócios, sob comando de Epaminondas, relutantemente concordaram em mobilizar um exército para enfrentar Esparta.
Os dois exércitos se encontraram perto da vila de Leuctra, a pouco mais de 10 quilômetros de Tebas. O primeiro ataque, à distância, fez com que os tebanos que seguiam o exército (escudeiros, comerciantes, prestadores de serviço em geral) corressem para trás das filas. Os tebanos estavam em desvantagem numérica, e isso, incidentemente, fortaleceu as suas linhas. Um ataque da cavalaria espartana foi repelido, e o seu recuo causou uma certa confusão na linha espartana, impedindo um ataque direto. Epaminondas então tomou a ofensiva de uma maneira pouco ortodoxa para um exército grego - ao invés de compor as falanges como uma linha uniforme em largura e profundidade, com os melhores soldados à direita, ele concentrou suas forças no flanco esquerdo (colunas de 50 homens de profundidade, contra 12 do flanco espartano) sob liderança do colega beotarco Pelópidas, atacando em diagonal primeiramente por ali, quebrando o flanco direito espartano. Ali tombou Cleômbrotos, e começou a debandada do seu exército. A chegada de um reforço da Tessália persuadiu os espartanos a recuarem de volta à Lacedemônia, ao invés de reagrupar e tentar uma nova ofensiva.
A vitória em Leuctra permitiu a Tebas expandir sua influência inconteste não apenas na Beócia, mas em grande parte da Grécia, suplantando seus rivais históricos - a derrota desmitificou a superioridade militar de Esparta. O balanço de forças, contudo, continuou pendendo para um lado ou para o outro. Nove anos mais tarde, Tebas venceu novamente Esparta na Batalha de Mantineia (onde Epaminondas e Agesilaus se encontraram novamente), obliterando o controle espartano sobre o próprio Peloponeso, porém perdendo, por outro lado, o valioso Epaminondas. Com os dois lados enfraquecidos, haveria pouca resistência contra o avanço - pela habilidade militar e política - da Macedônia sobre a Grécia. Mais do que um novo equilíbrio de poderes, a batalha trouxe uma inovação para os exércitos gregos: a formação oblíqua de Epaminondas, que tornava seu exército muito mais flexível contra a rigidez formal da falange grega tradicional. Esse estilo de combate inspiraria Filipe II (que estudou em Tebas) e Alexandre, o Grande, e possibilitaria as suas contínuas vitórias contra gregos e persas e a consequente expansão do mundo grego sobre a Ásia e o Egito sob domínio macedônio.
terça-feira, 4 de agosto de 2015
Vida e lenda de Dom Sebastião
Em 4 de agosto de 1578, Dom Sebastião I de Portugal tombou na Batalha do Alcácer Quibir.
Sebastião ascendeu ao trono aos três anos de idade. Durante o período de regência de sua avó, a Imperatriz Catarina da Áustria, e do Cardeal Henrique de Évora, cunhado de Catarina, o Império Português interrompeu sua expansão colonial e entrou na defensiva. Com a proeminência do cardeal no governo, e a educação religiosa do jovem Sebastião entre os jesuítas, o governo português se deteve em assuntos religiosos ao invés de aprimorar a administração das suas colônias. Com Portugal na defensiva, outra potência marítima da época, o Império Otomano (que disputava o domínio do Mediterrâneo com Veneza, mas pouco se aventurava fora dele) arriscava ataques diretos, ou por meio de piratas, aos navios portugueses próximos à costa do Marrocos. Portugal já possuía algumas fortalezas na costa marroquina, porém era muito custoso mantê-las, já que as fontes de recursos mais próximas estavam de posse dos mouros.
Surgem aí, portanto, três motivos que convergiram para um plano geral de conquista do Marrocos - a expansão do cristianismo para o vizinho muçulmano mais próximo, a erradicação da pirataria muçulmana em águas portuguesas, e a viabilização da presença portuguesa já existente no norte da África. Dois eventos ainda estavam por vir que mergulhariam Portugal numa guerra afoita contra o reino africano.
Em 1562, uma enorme força marroquina liderada por Mulei Mohammed cercou a fortaleza portuguesa de Mazagão, na costa marroquina. Nos três meses de cerco, 25 mil soldados marroquinos pereceram, contra 17 defensores portugueses. A resistência insuflou a moral portuguesa e o ego de Sebastião, que ainda era uma criança.
O jovem rei, que assumiria o cargo em 1568 aos 14 anos, crescera convencido de que estava destinado a realizar grandes proezas como rei e em nome da cristandade. Ele advogava uma cruzada católica contra os mouros, e iniciou imediatamente preparativos para tal campanha. Ele próprio havia aceitado prontamente um pedido do Papa para uma cruzada contra os turcos no oriente (ele já havia mesmo articulado uma estratégia com seus aliados persas para um ataque em duas frentes), mas acabou sendo dissuadido com muito esforço. No entanto, por conta própria, acompanhado apenas por alguns fidalgos e poucos soldados, e sem qualquer planejamento, Sebastião navegou secretamente até as cidades marroquinas de Ceuta e Tânger (possessões portuguesas na época), com o espírito de usá-las como ponte para conquistar o país, fosse como fosse. Em Tânger, as defesas marroquinas, à visão do rei de Portugal em pessoa, recuaram pensando que ele estivesse acompanhado de um exército. Sebastião regressou frustrado, com a ideia fixa de conquistar o Marrocos. Contudo, para esta causa não encontrou apoio - Filipe II, rei da Espanha e seu primo, em conferência privada, não só não quis participar da campanha, como preferiu adiar o casamento de uma de suas filhas com o rei português, com medo de que ele realmente seguisse seu plano e a deixasse viúva.
Por fim, em 1576, o sultão Mulei Mohammed (o mesmo comandante do cerco a Mazagão) foi deposto por seu tio, com apoio de um exército turco, e fez um pedido de ajuda a Dom Sebastião, prometendo-lhe mais concessões de terras no seu país, entregando-lhe, de pronto, a fortaleza de Arzila, que o rei anterior, João III, abandonara. Foi o pretexto para o rei português lançar sua tão sonhada cruzada que vinha preparando havia pelo menos 10 anos - a despeito da reação negativa de toda sua côrte, seus ministros, do clero, e de sua avó. Suas reuniões com ministros, contudo, não eram sobre a viabilidade de uma expedição ao Marrocos, mas para resolver os detalhes de como realizá-la de maneira eficiente.
Dom Sebastião partiu à frente de uma grande frota, com mais de 23 mil soldados (12 mil portugueses, os demais estrangeiros comandados por amigos seus e mercenários) e 40 peças de artilharia. O exército desembarcou em Tânger, onde juntou-se a Mohammed e 6 mil mouros, e seguiu por terra, passando por Arzila, em direção a Alcácer Quibir. A costa marroquina é árida, e a marcha por terra desgastou as tropas. De fato, Sebastião não se dera ao trabalho de dar ouvidos aos conselhos do aliado marroquino, e não fazia sequer ideia do tamanho do exército do seu inimigo, o sultão Mulei el-Malek. Perto de Alcácer Quibir, el-Malek surgiu um exército pelo menos duas vezes maior. Embora conseguisse avançar pelo centro, as linhas portuguesas foram cercadas pelos flancos pela numerosa cavalaria moura, e em 4 horas a batalha terminou com metade do exército português morto, e a outra metade capturada (cujos resgates custaram a ruína econômica da coroa portuguesa). Mulei el-Malek, que estava doente, morreu enquanto tentava montar seu cavalo. Mulei Mohammed se afogou enquanto tentava fugir cruzando o rio. Já Dom Sebastião foi visto pela última vez com seus amigos avançando com a espada em punho em direção ao inimigo.
Cerca de 100 sobreviventes conseguiram regressar a Portugal. Nenhum deles, nem os soldados resgatados posteriormente, contudo, produziu algum relato confiável do paradeiro de Dom Sebastião. Seu desaparecimento deixou o trono português vago, pois não tinha filhos (seria sucedido pelo velho cardeal Henrique, antes de passar para Filipe II da Espanha, que promoveria a União Ibérica). Logo se espalhou o boato, na própria côrte, de que Sebastião estava vivo e retornaria para governar o país. Mesmo que isso demorasse, o boato, transformado em mito, se tornou um motivo nacionalista na população durante a União Ibérica (embora Filipe tenha tentado mitigar o movimento alegando ter recebido dos marroquinos os restos mortais de Sebastião e os enterrado no Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa). Os trovadores João de Castro e Gonçalo Annes Bandarra deram ares místicos ao retorno de Sebastião, como a profetização de um Messias. O personagem tomou contornos similares aos do Rei Arthur, o rei-herói que deixou a Inglaterra para a misteriosa ilha de Avalon, mas voltaria para salvar seu país. No fim da União Ibérica, quando João de Bragança aparecia como o favorito ao trono português, era corrente a crença de que ele lutaria com Dom Sebastião ao seu lado para livrar Portugal do domínio espanhol (se tornando efetivamente Dom João IV). Dom Sebastião seguiu até pelo menos o século XX como um símbolo patriótico português, presente na literatura e na música. No Brasil, o mito de que Dom Sebastião retornaria para reclamar a coroa inspirou os movimentos populares de Canudos (Antonio Conselheiro via na monarquia brasileira, a única forma de governo legítima pela vontade divina, e que Dom Sebastião viria para restaurá-la) e do Contestado (corria a lenda de que Dom Sebastião lutava entre os revoltosos). Mais recentemente, o mito de Dom Sebastião foi evocado na novela brasileira Mandacaru, como figura que legitima a pretensão meio louca do cangaceiro Zebedeu a tornar-se rei da cidade de Jatobá.
Sebastião ascendeu ao trono aos três anos de idade. Durante o período de regência de sua avó, a Imperatriz Catarina da Áustria, e do Cardeal Henrique de Évora, cunhado de Catarina, o Império Português interrompeu sua expansão colonial e entrou na defensiva. Com a proeminência do cardeal no governo, e a educação religiosa do jovem Sebastião entre os jesuítas, o governo português se deteve em assuntos religiosos ao invés de aprimorar a administração das suas colônias. Com Portugal na defensiva, outra potência marítima da época, o Império Otomano (que disputava o domínio do Mediterrâneo com Veneza, mas pouco se aventurava fora dele) arriscava ataques diretos, ou por meio de piratas, aos navios portugueses próximos à costa do Marrocos. Portugal já possuía algumas fortalezas na costa marroquina, porém era muito custoso mantê-las, já que as fontes de recursos mais próximas estavam de posse dos mouros.
Surgem aí, portanto, três motivos que convergiram para um plano geral de conquista do Marrocos - a expansão do cristianismo para o vizinho muçulmano mais próximo, a erradicação da pirataria muçulmana em águas portuguesas, e a viabilização da presença portuguesa já existente no norte da África. Dois eventos ainda estavam por vir que mergulhariam Portugal numa guerra afoita contra o reino africano.
Em 1562, uma enorme força marroquina liderada por Mulei Mohammed cercou a fortaleza portuguesa de Mazagão, na costa marroquina. Nos três meses de cerco, 25 mil soldados marroquinos pereceram, contra 17 defensores portugueses. A resistência insuflou a moral portuguesa e o ego de Sebastião, que ainda era uma criança.
O jovem rei, que assumiria o cargo em 1568 aos 14 anos, crescera convencido de que estava destinado a realizar grandes proezas como rei e em nome da cristandade. Ele advogava uma cruzada católica contra os mouros, e iniciou imediatamente preparativos para tal campanha. Ele próprio havia aceitado prontamente um pedido do Papa para uma cruzada contra os turcos no oriente (ele já havia mesmo articulado uma estratégia com seus aliados persas para um ataque em duas frentes), mas acabou sendo dissuadido com muito esforço. No entanto, por conta própria, acompanhado apenas por alguns fidalgos e poucos soldados, e sem qualquer planejamento, Sebastião navegou secretamente até as cidades marroquinas de Ceuta e Tânger (possessões portuguesas na época), com o espírito de usá-las como ponte para conquistar o país, fosse como fosse. Em Tânger, as defesas marroquinas, à visão do rei de Portugal em pessoa, recuaram pensando que ele estivesse acompanhado de um exército. Sebastião regressou frustrado, com a ideia fixa de conquistar o Marrocos. Contudo, para esta causa não encontrou apoio - Filipe II, rei da Espanha e seu primo, em conferência privada, não só não quis participar da campanha, como preferiu adiar o casamento de uma de suas filhas com o rei português, com medo de que ele realmente seguisse seu plano e a deixasse viúva.
Por fim, em 1576, o sultão Mulei Mohammed (o mesmo comandante do cerco a Mazagão) foi deposto por seu tio, com apoio de um exército turco, e fez um pedido de ajuda a Dom Sebastião, prometendo-lhe mais concessões de terras no seu país, entregando-lhe, de pronto, a fortaleza de Arzila, que o rei anterior, João III, abandonara. Foi o pretexto para o rei português lançar sua tão sonhada cruzada que vinha preparando havia pelo menos 10 anos - a despeito da reação negativa de toda sua côrte, seus ministros, do clero, e de sua avó. Suas reuniões com ministros, contudo, não eram sobre a viabilidade de uma expedição ao Marrocos, mas para resolver os detalhes de como realizá-la de maneira eficiente.
Dom Sebastião partiu à frente de uma grande frota, com mais de 23 mil soldados (12 mil portugueses, os demais estrangeiros comandados por amigos seus e mercenários) e 40 peças de artilharia. O exército desembarcou em Tânger, onde juntou-se a Mohammed e 6 mil mouros, e seguiu por terra, passando por Arzila, em direção a Alcácer Quibir. A costa marroquina é árida, e a marcha por terra desgastou as tropas. De fato, Sebastião não se dera ao trabalho de dar ouvidos aos conselhos do aliado marroquino, e não fazia sequer ideia do tamanho do exército do seu inimigo, o sultão Mulei el-Malek. Perto de Alcácer Quibir, el-Malek surgiu um exército pelo menos duas vezes maior. Embora conseguisse avançar pelo centro, as linhas portuguesas foram cercadas pelos flancos pela numerosa cavalaria moura, e em 4 horas a batalha terminou com metade do exército português morto, e a outra metade capturada (cujos resgates custaram a ruína econômica da coroa portuguesa). Mulei el-Malek, que estava doente, morreu enquanto tentava montar seu cavalo. Mulei Mohammed se afogou enquanto tentava fugir cruzando o rio. Já Dom Sebastião foi visto pela última vez com seus amigos avançando com a espada em punho em direção ao inimigo.
Cerca de 100 sobreviventes conseguiram regressar a Portugal. Nenhum deles, nem os soldados resgatados posteriormente, contudo, produziu algum relato confiável do paradeiro de Dom Sebastião. Seu desaparecimento deixou o trono português vago, pois não tinha filhos (seria sucedido pelo velho cardeal Henrique, antes de passar para Filipe II da Espanha, que promoveria a União Ibérica). Logo se espalhou o boato, na própria côrte, de que Sebastião estava vivo e retornaria para governar o país. Mesmo que isso demorasse, o boato, transformado em mito, se tornou um motivo nacionalista na população durante a União Ibérica (embora Filipe tenha tentado mitigar o movimento alegando ter recebido dos marroquinos os restos mortais de Sebastião e os enterrado no Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa). Os trovadores João de Castro e Gonçalo Annes Bandarra deram ares místicos ao retorno de Sebastião, como a profetização de um Messias. O personagem tomou contornos similares aos do Rei Arthur, o rei-herói que deixou a Inglaterra para a misteriosa ilha de Avalon, mas voltaria para salvar seu país. No fim da União Ibérica, quando João de Bragança aparecia como o favorito ao trono português, era corrente a crença de que ele lutaria com Dom Sebastião ao seu lado para livrar Portugal do domínio espanhol (se tornando efetivamente Dom João IV). Dom Sebastião seguiu até pelo menos o século XX como um símbolo patriótico português, presente na literatura e na música. No Brasil, o mito de que Dom Sebastião retornaria para reclamar a coroa inspirou os movimentos populares de Canudos (Antonio Conselheiro via na monarquia brasileira, a única forma de governo legítima pela vontade divina, e que Dom Sebastião viria para restaurá-la) e do Contestado (corria a lenda de que Dom Sebastião lutava entre os revoltosos). Mais recentemente, o mito de Dom Sebastião foi evocado na novela brasileira Mandacaru, como figura que legitima a pretensão meio louca do cangaceiro Zebedeu a tornar-se rei da cidade de Jatobá.
segunda-feira, 3 de agosto de 2015
Jesse Owens
Em 3 de agosto de 1936 Adolph Hitler assistia o atleta americano Jesse Owens vencer a competição dos 100 metros rasos nos Jogos Olímpicos de Berlim, o primeiro dos seus quatro triunfos naquela competição.
James Cleveland Owens, o mais novo de dez irmãos, ficou conhecido como "Jesse" quando, na escola, foi perguntado por um professor como se chamava, e ele respondeu "J.C." ("Jay Cee"). Começou a praticar atletismo no colégio, e conseguiu uma bolsa universitária para seguir treinando em alto nível.
Jesse, com 21 anos, chegava aos jogos com 4 recordes mundiais atingidos no ano anterior, num mesmo dia: nos 100 metros rasos (na verdade, igualando o recorde existente de 9,4 segundos), no salto em distância, e nas provas não olímpicas das 220 jardas (algo próximo dos 200 metros rasos), e 220 jardas com barreiras. Muitas crônicas posteriores o colocam como uma "zebra" nas Olimpíadas que venceu um adversário gigante, mas na verdade ele era o favorito em suas provas. Pouco antes das competições, ele recebeu a visita do empresário alemão Adi Dassler, fundador da Adidas, que, ciente do seu ótimo prospecto, ofereceu-lhe seus novos calçados para corridas, tornando-o um dos primeiros garotos-propaganda da marca.
A final dos 100 metros rasos (definida após três rodadas eliminatórias, na segunda das quais bateu o recorde olímpico com 10,3 segundos) contava com Owens, seu colega de faculdade e principal adversário Ralph Metcalfe, e seu colega de revezamento 4x100 metros, Frank Wykoff. O único alemão era Erich Borchmeyer, integrante do revezamento alemão medalhista de prata no 4x100 metros nas Olimpíadas de Los Angeles. Ele era a zebra. Owens correu novamente para 10,3 segundos, com Metcalfe em segundo um décimo atrás e o holandês Osendarp em terceiro, o alemão apenas em quinto. A análise aqui é fria e com base em dados oficiais conhecidos, a vantagem de se escrever em retrospectiva. Mas o Estádio Olímpico de Berlim, com capacidade para 100 mil pessoas, contagiada pela extensa propaganda nazista de exaltação da raça ariana, estava exultante esperando uma vitória alemã, e a vitória do atleta negro foi recebida com espanto.
A lenda segue. Diz-se que Hitler, furioso, teria se recusado a cumprimentar o vencedor e se retirou do estádio. Hitler, de fato, vinha comparecendo às premiações para cumprimentar apenas os atletas alemães. A organização dos Jogos advertiu que Hitler deveria cumprimentar todos os atletas no pódio, ou nenhum deles. Depois disso, o führer optou por não participar mais das cerimônias. O próprio Jesse Owens recorda que, após a sua prova, Hitler, de sua tribuna, e ele, na pista, trocaram olhares e acenos, e em seguida o líder alemão teria deixado o estádio seguindo sua agenda (ou, como supunha Jesse, por causa do mau tempo que se formava).
Owens tinha suas razões para ter outra impressão de Hitler, a ponto de, algumas vezes, procurar a imprensa para desmitificar sua relação com ele (nos anos 60 ele teria mostrado a um jornalista alemão uma foto dos dois apertando as mãos nos bastidores da premiação dos 100 metros, algo alegadamente testemunhado por uns poucos presentes). A família de Owens veio do Alabama, fugindo de um sistema fortemente segregacionista. Quando chegou na Alemanha nazista, ele e outros atletas negros tinham liberdade de circular nos mesmos lugares e se hospedaram nos mesmos hotéis que os brancos, mesmo alemães. Quando retornou aos Estados Unidos, depois de um desfile em carro aberto, ele teve que usar o elevador de serviço para chegar à recepção em sua homenagem no hotel Waldorf-Astoria, em Nova Iorque. Owens e algumas testemunhas alegavam que Hitler realmente o cumprimentara após os 100 metros rasos (ora à distância, ora com um aperto de mãos). O presidente Franklin Roosevelt nunca o convidou para a Casa Branca, ao contrário de outros medalhistas - em campanha pelo candidato à presidência Alf Landon, Owens ressaltava que Hitler não o havia esnobado, enquanto Roosevelt nem lhe enviara um telegrama. De qualquer forma, a contra-propaganda americana se aproveitou do momento para mitificar Jesse Owens, que por seus próprios méritos já deveria ter sido lembrado como um atleta extraordinário.
A competição seguiu. No dia seguinte, Jesse passara por uma eliminatória difícil no salto em distância. Seu principal adversário na prova, esta sim, era o alemão Luz Long, recordista europeu, com o japonês Naoto Tajima (recordista mundial no salto triplo) correndo por fora. Long quebrou o recorde olímpico nas preliminares, pressionando Owens por um bom resultado. O americano havia queimado duas tentativas e precisava saltar pelo menos 7,15 metros para seguir para a final e parecia desanimado. Long, que ansiava pelo duelo com Jesse, então teria se aproximado e recomendado que o adversário desse mais folga da tábua de salto na sua última passada, pois sua melhor marca era tão superior às dos concorrentes que ele poderia sacrificar alguns centímetros para se classificar se saltasse bem. Ele saltou para 7,64 metros. Na final, Long quebrou novamente o recorde olímpico no penúltimo salto, mas já ali fora superado por Owens em 7 centímetros. Pressionado, o alemão queimou o último salto, e Owens estabeleceu novo recorde olímpico com 8,07 metros. Assim que confirmou o ouro, Luz Long foi abraçá-lo e posar com o americano para fotos. Sua atitude desportiva foi reconhecida postumamente com a medalha Pierre de Coubertin.
No dia 5 Jesse conquistou o ouro com alguma facilidade nos 200 metros rasos. Ele quebrara o recorde olímpico nas duas primeiras etapas eliminatórias, e só viu seu domínio ameaçado pelo compatriota Mack Robinson, que baixou esse recorde nas semi finais. Na final Robinson repetiu o recorde, mas Owens quebrou a marca mundial de 20,7 segundos para ficar com o terceiro ouro.
Sua última participação foi no revezamento 4x100 metros. Naquela altura, o atletismo alemão, justamente no evento de maior visibilidade dos Jogos, vinha sendo o grande fracasso da delegação. Ao final dos Jogos, a Alemanha terminaria líder do quadro de medalhas com 33 de ouro contra 24 dos Estados Unidos. Mas no atletismo, foram apenas 5 conquistas em 29 eventos, contra 14 triunfos americanos. Albert Speer, oficial do alto escalão nazista, dizia que Hitler estava tão aborrecido pelas vitórias americanas (além de Jesse, havia outros atletas negros, que, segundo Hitler, tinham vantagens físicas por serem mais primitivos) que ele cogitava propor a proibição de negros nas próximas competições olímpicas. Aconteceu que o time de revezamento dos Estados Unidos, atual campeão olímpico, contava com dois atletas judeus, Marty Glickman e Sam Stoller. Na manhã anterior à competição, o técnico americano decidiu substituir os dois por Jesse Owens e Ralph Metcalfe. As razões para isso nunca foram esclarecidas, mas parece ter sido uma manobra para evitar problemas com as políticas agressivamente antissemitas o governo alemão (a justificativa exposta pelo técnico aos atletas era de que os alemães estavam poupando seus melhores velocistas para essa prova; Owens teria insistido para que a equipe original fosse mantida, porque ele já tinha 3 ouros e estava cansado, mas lhe deixaram claro que deveria fazer o que era mandado). De qualquer maneira, a equipe americana venceu com larga margem, quebrando o recorde mundial duas vezes. A Alemanha não conseguiu sequer defender a prata de 1932 e ficou em terceiro. Foi a quarta medalha de ouro de Owens.
Jesse Owens teve a carreira encerrada abruptamente pouco depois dos Jogos, quando recusou um convite para uma competição na Suécia junto com a delegação americana e retornou aos Estados Unidos para correr por dinheiro - tornando-se formalmente um profissional, e, portanto, não elegível para o esporte. Quando os jogos voltaram a ser disputados, em 1948, Owens, com 33 anos, já se aventurava como dirigente de baseball numa liga para jogadores negros, e participava de eventos promocionais - ficou célebre por correr contra, e vencer, cavalos de corrida em tiros de 100 metros. Em vários momentos incorporou seu papel como atleta negro e ofereceu declarações em prol das lutas pelos direitos civis dos negros americanos. Viciado em cigarros depois que parou de correr, morreu de câncer em 1980.
Neste dia também: Colombo parte de Palos de la Frontera em direção à América
James Cleveland Owens, o mais novo de dez irmãos, ficou conhecido como "Jesse" quando, na escola, foi perguntado por um professor como se chamava, e ele respondeu "J.C." ("Jay Cee"). Começou a praticar atletismo no colégio, e conseguiu uma bolsa universitária para seguir treinando em alto nível.
Jesse, com 21 anos, chegava aos jogos com 4 recordes mundiais atingidos no ano anterior, num mesmo dia: nos 100 metros rasos (na verdade, igualando o recorde existente de 9,4 segundos), no salto em distância, e nas provas não olímpicas das 220 jardas (algo próximo dos 200 metros rasos), e 220 jardas com barreiras. Muitas crônicas posteriores o colocam como uma "zebra" nas Olimpíadas que venceu um adversário gigante, mas na verdade ele era o favorito em suas provas. Pouco antes das competições, ele recebeu a visita do empresário alemão Adi Dassler, fundador da Adidas, que, ciente do seu ótimo prospecto, ofereceu-lhe seus novos calçados para corridas, tornando-o um dos primeiros garotos-propaganda da marca.
A final dos 100 metros rasos (definida após três rodadas eliminatórias, na segunda das quais bateu o recorde olímpico com 10,3 segundos) contava com Owens, seu colega de faculdade e principal adversário Ralph Metcalfe, e seu colega de revezamento 4x100 metros, Frank Wykoff. O único alemão era Erich Borchmeyer, integrante do revezamento alemão medalhista de prata no 4x100 metros nas Olimpíadas de Los Angeles. Ele era a zebra. Owens correu novamente para 10,3 segundos, com Metcalfe em segundo um décimo atrás e o holandês Osendarp em terceiro, o alemão apenas em quinto. A análise aqui é fria e com base em dados oficiais conhecidos, a vantagem de se escrever em retrospectiva. Mas o Estádio Olímpico de Berlim, com capacidade para 100 mil pessoas, contagiada pela extensa propaganda nazista de exaltação da raça ariana, estava exultante esperando uma vitória alemã, e a vitória do atleta negro foi recebida com espanto.
A lenda segue. Diz-se que Hitler, furioso, teria se recusado a cumprimentar o vencedor e se retirou do estádio. Hitler, de fato, vinha comparecendo às premiações para cumprimentar apenas os atletas alemães. A organização dos Jogos advertiu que Hitler deveria cumprimentar todos os atletas no pódio, ou nenhum deles. Depois disso, o führer optou por não participar mais das cerimônias. O próprio Jesse Owens recorda que, após a sua prova, Hitler, de sua tribuna, e ele, na pista, trocaram olhares e acenos, e em seguida o líder alemão teria deixado o estádio seguindo sua agenda (ou, como supunha Jesse, por causa do mau tempo que se formava).
Owens tinha suas razões para ter outra impressão de Hitler, a ponto de, algumas vezes, procurar a imprensa para desmitificar sua relação com ele (nos anos 60 ele teria mostrado a um jornalista alemão uma foto dos dois apertando as mãos nos bastidores da premiação dos 100 metros, algo alegadamente testemunhado por uns poucos presentes). A família de Owens veio do Alabama, fugindo de um sistema fortemente segregacionista. Quando chegou na Alemanha nazista, ele e outros atletas negros tinham liberdade de circular nos mesmos lugares e se hospedaram nos mesmos hotéis que os brancos, mesmo alemães. Quando retornou aos Estados Unidos, depois de um desfile em carro aberto, ele teve que usar o elevador de serviço para chegar à recepção em sua homenagem no hotel Waldorf-Astoria, em Nova Iorque. Owens e algumas testemunhas alegavam que Hitler realmente o cumprimentara após os 100 metros rasos (ora à distância, ora com um aperto de mãos). O presidente Franklin Roosevelt nunca o convidou para a Casa Branca, ao contrário de outros medalhistas - em campanha pelo candidato à presidência Alf Landon, Owens ressaltava que Hitler não o havia esnobado, enquanto Roosevelt nem lhe enviara um telegrama. De qualquer forma, a contra-propaganda americana se aproveitou do momento para mitificar Jesse Owens, que por seus próprios méritos já deveria ter sido lembrado como um atleta extraordinário.
A competição seguiu. No dia seguinte, Jesse passara por uma eliminatória difícil no salto em distância. Seu principal adversário na prova, esta sim, era o alemão Luz Long, recordista europeu, com o japonês Naoto Tajima (recordista mundial no salto triplo) correndo por fora. Long quebrou o recorde olímpico nas preliminares, pressionando Owens por um bom resultado. O americano havia queimado duas tentativas e precisava saltar pelo menos 7,15 metros para seguir para a final e parecia desanimado. Long, que ansiava pelo duelo com Jesse, então teria se aproximado e recomendado que o adversário desse mais folga da tábua de salto na sua última passada, pois sua melhor marca era tão superior às dos concorrentes que ele poderia sacrificar alguns centímetros para se classificar se saltasse bem. Ele saltou para 7,64 metros. Na final, Long quebrou novamente o recorde olímpico no penúltimo salto, mas já ali fora superado por Owens em 7 centímetros. Pressionado, o alemão queimou o último salto, e Owens estabeleceu novo recorde olímpico com 8,07 metros. Assim que confirmou o ouro, Luz Long foi abraçá-lo e posar com o americano para fotos. Sua atitude desportiva foi reconhecida postumamente com a medalha Pierre de Coubertin.
No dia 5 Jesse conquistou o ouro com alguma facilidade nos 200 metros rasos. Ele quebrara o recorde olímpico nas duas primeiras etapas eliminatórias, e só viu seu domínio ameaçado pelo compatriota Mack Robinson, que baixou esse recorde nas semi finais. Na final Robinson repetiu o recorde, mas Owens quebrou a marca mundial de 20,7 segundos para ficar com o terceiro ouro.
Sua última participação foi no revezamento 4x100 metros. Naquela altura, o atletismo alemão, justamente no evento de maior visibilidade dos Jogos, vinha sendo o grande fracasso da delegação. Ao final dos Jogos, a Alemanha terminaria líder do quadro de medalhas com 33 de ouro contra 24 dos Estados Unidos. Mas no atletismo, foram apenas 5 conquistas em 29 eventos, contra 14 triunfos americanos. Albert Speer, oficial do alto escalão nazista, dizia que Hitler estava tão aborrecido pelas vitórias americanas (além de Jesse, havia outros atletas negros, que, segundo Hitler, tinham vantagens físicas por serem mais primitivos) que ele cogitava propor a proibição de negros nas próximas competições olímpicas. Aconteceu que o time de revezamento dos Estados Unidos, atual campeão olímpico, contava com dois atletas judeus, Marty Glickman e Sam Stoller. Na manhã anterior à competição, o técnico americano decidiu substituir os dois por Jesse Owens e Ralph Metcalfe. As razões para isso nunca foram esclarecidas, mas parece ter sido uma manobra para evitar problemas com as políticas agressivamente antissemitas o governo alemão (a justificativa exposta pelo técnico aos atletas era de que os alemães estavam poupando seus melhores velocistas para essa prova; Owens teria insistido para que a equipe original fosse mantida, porque ele já tinha 3 ouros e estava cansado, mas lhe deixaram claro que deveria fazer o que era mandado). De qualquer maneira, a equipe americana venceu com larga margem, quebrando o recorde mundial duas vezes. A Alemanha não conseguiu sequer defender a prata de 1932 e ficou em terceiro. Foi a quarta medalha de ouro de Owens.
Jesse Owens teve a carreira encerrada abruptamente pouco depois dos Jogos, quando recusou um convite para uma competição na Suécia junto com a delegação americana e retornou aos Estados Unidos para correr por dinheiro - tornando-se formalmente um profissional, e, portanto, não elegível para o esporte. Quando os jogos voltaram a ser disputados, em 1948, Owens, com 33 anos, já se aventurava como dirigente de baseball numa liga para jogadores negros, e participava de eventos promocionais - ficou célebre por correr contra, e vencer, cavalos de corrida em tiros de 100 metros. Em vários momentos incorporou seu papel como atleta negro e ofereceu declarações em prol das lutas pelos direitos civis dos negros americanos. Viciado em cigarros depois que parou de correr, morreu de câncer em 1980.
Neste dia também: Colombo parte de Palos de la Frontera em direção à América
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