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quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Abalo nas fundações

Em 1 de novembro de 1755, um terremoto seguido de tsunami (e um incêndio só controlado 6 dias depois) devastou a capital portuguesa de Lisboa, causando dezenas de milhares de mortes e a destruição da maior parte da cidade. Este evento geológico seria o epicentro de mudanças radicais, desde a reformulação da estrutura urbana de Lisboa, à vida política portuguesa, e levando as principais mentes da Europa a questionarem o próprio mundo em que viviam.

Portugal está próximo à fronteira entre duas placas tectônicas, a Africana e a Eurasiana, fronteira esta que corre a partir da Dorsal Atlântica (ponto onde a atividade vulcânica fez emergir do oceano o arquipélago dos Açores) e atravessa o Mediterrâneo. Assim como Itália, Grécia, Turquia (onde a história recente registra sismos bastante destrutivos), é uma região suscetível a tremores de terra mais ou menos violentos. O primeiro deles a ser registrado naquela área ocorreu em 60 a.C., afetando a costa. Um terremoto na região de Lisboa, em 1531, seguido de um tsunami que resultou na morte de 30 mil pessoas provocou um recuo do projeto português de implantar colônias economicamente funcionais na América recém-descoberta enquanto investimentos eram direcionados para a reconstrução da cidade (religiosos responsabilizaram os cristãos-novos, judeus recém convertidos, pelo desastre). A violência do sismo de 1755 seria capaz de apagar da memória tamanha tragédia, a tal ponto que aquele só voltaria a ser estudado com a redescoberta de documentos de época no século XX.

Era uma manhã ensolarada do Dia de Todos os Santos. Os lisboetas acordaram cedo, e tomaram as ruas, em direção às igrejas, para as missas e festejos. A Lisboa de 1755 era uma Lisboa medieval que se expandira lentamente nos séculos anteriores a partir do seu núcleo primitivo às margens do Tejo em direção ao norte e ao oeste, com uma estrutura urbanística confusa que prezava a utilização máxima dos espaços para habitação. O resultado eram ruas estreitas e muradas por edifícios e casas, palácios e, particularmente, igrejas, que constituíam o centro de cada novo núcleo urbano agregado ao plano urbanístico anterior. Haviam poucos largos e praças, e as vias ficavam constantemente congestionadas por pessoas, animais, e carruagens. Naquela manhã, a maior parte de uma população estimada em 300 mil habitantes estava apertada entre paredes, acorrendo às suas paróquias.

Às 9:30 um violento tremor de terra (próximo de 9 de magnitude de momento, com epicentro no Atlântico), com pelo menos 3 minutos de duração (em outros lugares de Portugal, a terra tremeu por até duas horas), surpreendeu a população. No primeiro momento, houve desabamentos. Pessoas em fuga desordenada pisoteavam-se, enquanto feridos pediam socorro. Houve relatos de furtos no meio da confusão. Nas igrejas que continuaram em pé, ouvia-se o canto de músicas sacras contrastando com o lamento dos fiéis. Alguns procuravam por seus parentes desgarrados, outros os iam buscar nos escombros. Fissuras de até 5 metros de largura abriram-se no chão, no centro da cidade. Boatos de que o antigo Castelo de São Jorge estava em chamas, e que seu armazém de pólvora poderia explodir, levaram as pessoas a se afastarem do local, que fica numa colina. O medo de desabamentos, incêndios e explosões conduziu a massa para o cais do porto. Os cais Sodré, São Paulo, e Terreiro do Paço (onde ficava o palácio real), para onde desembocavam as ruas principais, ficaram apinhados de gente.

Ali no cais, o povo assistiu, confuso, o mar retroceder. Rochas, pedras de antigas construções, destroços de navios e cargas perdidas estavam expostas. Um tsunami não surge como uma parede de água que se quebra como uma onda na praia, mas como uma invasão rápida e contínua de água em alta velocidade, subindo rapidamente de nível e arrastando tudo que há no caminho, então os lisboetas não puderam antever a onda de até 20 metros (no Algarve, mais ao sul, a onda pode ter chegado a 30 metros) que se aproximava do porto. Muitos pressentiram o perigo e guiaram sobreviventes para lugares altos, mas cerca de 900 pessoas foram subitamente arrastadas pela onda. O que havia ficado em pé nas partes mais baixas da cidade foi demolido pela onda. E o que a onda não derrubou estava prestes a ser consumido pelo fogo.

A infraestrutura da cidade foi perdida. As chamas consumiam as casas e igrejas sem que houvesse uma resposta organizada para detê-las, de maneira que os incêndios persistiram por 6 dias. Nesta fase, a grandiosa Casa de Ópera, inaugurada naquele ano, foi consumida, e também ardeu o Hospital Real de Todos os Santos (vitimando os pacientes internados). O acervo da biblioteca na Torre do Tombo foi salvo (a torre mesmo colapsou pouco depois), mas as bibliotecas dos dominicanos e franciscanos foram perdidas. Ao final daquela semana, 85% da cidade fora destruída, e até 90 mil pessoas pereceram apenas em Lisboa (as estimativas não são precisas para os demais lugares em Portugal; em Fez, no Marrocos, que passou pelo mesmo tremor e tsunami, morreram cerca de 10 mil).

O rei José I escapou porque suas filhas pediram para passar o feriado em Belém, próximo à cidade. A destruição que testemunhara também ali, e a que assistiu ao retornar à capital, criou no rei uma claustrofobia, a ponto dele viver o resto da vida em amplas tendas erguidas na colina da Ajuda (onde construiu-se depois o Palácio Real da Ajuda). O futuro Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo, então ministro dos negócios estrangeiros, tomou para si o comando dos esforços para socorrer as vítimas, impedir novos acidentes, impor a lei e a ordem (para combater os saques, fez com que a cidade fosse patrulhada por trios compostos por um padre, um juiz, e um carrasco), e planejar a reconstrução da cidade. Para resolver o problema do que fazer com os mortos, ordenou que os corpos despedaçados fossem levados em barcaças e jogados no mar: "Deus lá no Céu saberá a que corpo pertencem". Questionado sobre a opção de refazer a parte baixa da cidade adotando ruas e avenidas largas, teria dito que "Ainda um dia as vão achar estreitas". O novo centro da cidade é conhecido até hoje como Baixa Pombalina. Sua atuação enérgica e objetiva lhe renderam a nomeação para o cargo de primeiro ministro, posição de que se aproveitou para promover uma reformulação de larga escala da capital e grandes reformas administrativas. Os altos custos foram cobertos com empréstimos à Inglaterra e um aumento de impostos sobre a colônia, atingindo de maneira mais dura a capitania de Minas Gerais, onde pelo menos duas insurreições tiveram que ser aplacadas por Pombal.

O engenheiro-mor Manuel da Maia conduziu a parte prática da reforma urbanística, que incluía o controle e fiscalização do governo à construção de novas edificações (inibindo as construções feitas pelos próprios moradores, e regulando a altura dos edifícios, e quanto de cada terreno deveria ser ocupado) e a adoção pioneira de métodos de construção anti-terremoto. Casas que ainda estivessem de pé e não estivessem conforme as novas normas deveriam ser demolidas. Grande parte das obras foi supervisionada pelo engenheiro húngaro Carlos Mardel, que assinou as grandiosas construções do Aqueduto das Águas Livres, do Palácio da Inquisição, e o Palácio do Marquês de Pombal.

As notícias de Lisboa chocaram a Europa. Na Inglaterra, na Áustria, na Alemanha, na França, na Itália, a devastação e a perda de vidas foram recebidas com horror. Lisboa era uma das principais capitais do catolicismo, se assim se poderia dizer: pontilhada de igrejas, com grande participação do clero na vida pública, e capital de um império colonial onde a questão religiosa era o pilar das novas sociedades. Entre muitos observadores, incluindo lisboetas, o fato do terremoto ter ocorrido no Dia de Todos os Santos, e ter devastado a cidade, especialmente as grandes catedrais não passou despercebido, e foi interpretado como uma punição divina. Filósofos contemporâneos foram além: Voltaire questionou a destruição de uma cidade católica e suas igrejas e a morte de tantos devotos em relação à noção de que o mundo seria regido o tempo todo por uma divindade fundamentalmente benevolente (ou de como um Deus bom permitiria a existência do mal, questão levantada anteriormente por Leibniz e Pope, que contudo defendiam que, seja como for, este é o melhor dos mundos). Jean-Jacques Rousseau (crítico dessa mesma ideia de Voltaire) atribuiu o grande número de fatalidades ao fato dos lisboetas viverem concentrados numa área urbana relativamente pequena, e usou este argumento para advogar um modo de vida mais naturalístico e menos urbano (um argumento na sua tese do "bom selvagem"). O corpo de ideias formuladas sobre as causas e consequências do terremoto de Lisboa deram musculatura ao Iluminismo.

O sedutor escritor veneziano Giacomo Casanova relatou ter sentido o tremor enquanto estava encarcerado no Piombi, a prisão que funcionava nos porões do Palácio do Doge, em Veneza. O tsnumai varreu os portos dos Açores e Madeira, atingiu da Finlândia ao Caribe, e chegou ao nordeste brasileiro: ondas de até 6 metros de altura invadiram o litoral nordestino e alcançaram quase 5 quilômetros terra adentro (um relato da capitania de Pernambuco nota o desaparecimento de uma mulher e uma criança perto da cidade de Tamandaré; em Salvador, a água chegou à base do cruzeiro situado em frente à Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, 3 metros acima do atual nível do mar, numa praia voltada para o interior da Baía de Todos os Santos). Um terremoto raro e inesperado, de média intensidade causando desabamento de telhados e chaminés, aconteceu ainda no dia 1 de novembro em Cape Ann, ao norte de Boston, uma região relativamente protegida, o que leva pesquisadores a tentarem associar o evento com o sismo de Lisboa.

Com 85% da Lisboa medieval e pré-moderna destruídos, há poucas estruturas na cidade anteriores a 1755. Uma delas, talvez a mais impressionante, seja o Convento do Carmo, templo neogótico erigido em 1389, cujo interior foi consumido pelo fogo, derrubando seus telhados e cúpulas. A estrutura básica é preservada e abriga um museu arqueológico.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Despedida de Portugal

Em 27 de novembro de 1807, a rainha de Portugal Maria I, o príncipe regente dom João, sua família, e toda a corte portuguesa, embarcaram no porto de Lisboa, de onde zarpariam dois dias depois em direção ao Brasil. A corte portuguesa fixaria residência no Rio de Janeiro até 1816.

A Revolução Francesa, que substituiu o Antigo Regime monárquico por algo semelhante a uma República burguesa, colocou a França no centro das atenções de todas as potências europeias. Todas monarquias mais ou menos absolutistas ou controladas por antigas oligarquias agrárias e mercantis, uma após a outra abriram hostilidades contra o movimento revolucionário no centro do continente (e vice-versa). Nesse rebuliço, Napoleão Bonaparte chegou ao comando da França Revolucionária, e iniciou um movimento expansionista em todas as direções.

A situação de Portugal no cenário pós-revolucionário já era delicada quando Napoleão entrou em cena. Sua relação com a França dependia da relação da França com a Inglaterra, de quem Portugal já era um antigo aliado. Portugal não abriria mão do poder inglês ao seu lado. Em 1801, a crise diplomática entre França e Inglaterra jogaram Portugal e Espanha (aliada da França) um contra o outro na atabalhoada Guerra das Laranjas, que resultou na incorporação da cidade portuguesa de Olivença pelos espanhóis, e ganhos significativos da colônia do Brasil sobre territórios da América Espanhola no Sul e no Mato Grosso.

João, que viria a ser coroado como rei João VI apenas em 1816, já era o regente desde 1799, devido à deterioração do estado mental de sua mãe. Ele manobrara rapidamente para evitar uma guerra destrutiva no episódio da Guerra das Laranjas (que durou apenas o tempo suficiente para um embaixador português sair de Lisboa e encontrar as autoridades espanholas e francesas para um acordo). Mas conforme os eventos na Europa central iam se desenvolvendo (Napoleão vencera em 1805 uma grande coalizão militar, conquistando os mais poderosos reinos da Itália, e causando a dissolução do Sacro Império Romano), estava ficando claro para Portugal que sua aliança com os ingleses, contra quem Napoleão se esforçava em subjugar no campo da economia com o Bloqueio Continental, iria lhe custar caro. Como Portugal não tinha poderio militar para fazer frente à França, João tentava ganhar tempo evitando enlaces diplomáticos que os colocassem em lados francamente opostos. Ele chegou mesmo a sugerir a George III da Inglaterra que os dois declarassem uma guerra fictícia. Mas como Portugal não obedecia ao Bloqueio Continental (a Inglaterra continuava exportando seus produtos para a Europa via Portugal), isso não adiantaria.

Em agosto Napoleão enviou uma carta com demandas a dom João, exigindo a adesão ao Bloqueio, a declaração de guerra à Inglaterra, a prisão de todos os ingleses no país e sequestro de seus bens. Às pressas reuniu-se o Conselho de Estado, cujos membros estavam divididos entre pró-ingleses e pró-franceses. Por um momento, esses últimos conseguiram formar uma maioria (com participação ativa do embaixador francês em Lisboa, general Jean Lannes), e apresentaram ao príncipe regente a carta aceitando parte dos termos exigidos, com exceção da prisão e sequestro de bens de cidadãos, por serem contra princípios cristãos (para os quais Napoleão e o que restava dos revolucionários franceses não davam a mínima). Porém, a decisão veio tarde demais.

Em meados de outubro de 1807, cerca de 28 mil soldados franceses sob o marechal Junot entraram na Espanha, ainda aliada da França. Este foi o sinal de alerta para dom João de que a guerra viria em sua direção. Antes de qualquer hostilidade, João acionou o embaixador português em Londres, Sousa Coutinho, para firmar um acordo secreto com a Coroa britânica para lhe fornecer proteção durante a transferência de Lisboa ao Rio de Janeiro, em caso de invasão estrangeira. O Conselho português já havia deliberado que, em caso de risco extremo, os filhos de João seriam transferidos para o Brasil. O novo acordo previa o transporte e a escolta para toda a família real e seus tesouros, o corpo de ministros, secretários, militares, religiosos, cortesões, suas respectivas famílias e serviçais. Para manter as aparências, no mesmo dia em que o tratado secreto era assinado em Londres, João ordenou o fechamento de seus portos aos ingleses, e o Conde da Barca, ministro da defesa, desviou parte do efetivo português para defender os portos contra uma invasão inglesa. Era a última cartada para testar a real intenção da aliança franco-espanhola.

A caricatura de dom João VI no Brasil é de um sujeito indolente e deselegante, mas quando exposto às adversidades, estava sempre um passo à frente: cinco dias depois da assinatura do tratado (esquivando-se da complacência do partido pró-francês, que ainda aguardava o desenrolar dos acontecimentos no país vizinho), França e Espanha assinaram um acordo de cooperação militar, cujo prêmio incluía a divisão do reino de Portugal entre seus signatários, prevendo, inclusive, a cessão do norte de Portugal ao extinto Reino da Etrúria, governado anteriormente pela filha do rei da Espanha e conquistado por Napoleão. João tomou conhecimento deste tratado através de um jornal francês que o publicara por ordem de Napoleão, expedido por Sousa Coutinho, de Londres (o imperador esperava que a publicação chegasse mais rápido ao marechal Junot, em marcha forçada, do que um decreto levado por um mensageiro). Ainda em outubro, a última esperança de resistência na Espanha, uma conspiração liberal arquitetada pelo príncipe Fernando (que mais tarde seria coroado Fernando VII) foi descoberta, e o príncipe preso. Era a guerra. Em meados de novembro, Junot estava cruzando a fronteira. Embora o exército português praticamente não tenha oferecido resistência, a marcha dos invasores não foi fácil: os camponeses e os proprietários de terras se retiraram com tudo que podiam carregar, deixando para trás suas terras queimadas, sua produção destruída, inclusive equipamentos e instalações, para que os franceses e espanhóis não pudessem tomar proveito de nada. Essa tática de terra arrasada seria repetida pelos russos em 1812.

No dia 23 de novembro chegou oficialmente a notícia da invasão francesa. O general Lecor, designado por João para observar o movimento do inimigo, mandava notícias alarmantes da velocidade de marcha de Junot. Imediatamente, o príncipe regente tomou as providências para a fuga de Lisboa. Nos três dias seguintes, a família real e seu séquito, somando cerca de 15 mil pessoas e seus pertences, embarcaram numa numerosa esquadra formada por grande parte da marinha portuguesa (16 navios de guerra no total, além de 21 navios mercantes com cargas e mantimentos). Um soturno dom João era visto subindo e descendo o porto com lágrimas nos olhos, evitando de falar ao povo que assistia à cena sobressaltado. No embarque, as pessoas aflitas se aproximavam tanto que o príncipe precisava afastá-los com as mãos; outros diziam que elas as beijavam. Dona Maria pediu ao cocheiro que a levasse calmamente até o porto, porque não estava fugindo.

Cinco nomes foram designados a permanecer no país e constituir uma Junta Governativa, a qual foi instruída a não oferecer resistência os franceses. Apenas alguns navios de linha (grandes embarcações armadas com canhões que recebiam este nome porque se destinavam a combater alinhadas paralelamente a outras embarcações ou alvos terrestres) foram mantidos ao largo da costa portuguesa e colocados, por força de tratado, à disposição da marinha inglesa. Uma flotilha de navios de guerra ingleses os escoltou até a Ilha da Madeira, passando com alguma dificuldade por uma tempestade que dispersou a frota, nas sem casualidades. De lá, uma parte das naus inglesas regressou, restando quatro navios para cruzar o oceano até Salvador.

A contrapartida portuguesa ao apoio inglês para a retirada da família real seria a abertura dos portos brasileiros ao comércio com os ingleses, privilégio até então exclusivo dos portugueses. João oficializou o acordo por um decreto assim que chegou ao porto de Salvador, em janeiro de 1808, abrindo os portos brasileiros "às nações amigas". Este detalhe, acertado em um anexo do acordo secreto (que também cedia aos ingleses o comando sobre os fortes portugueses ao longo do rio Tejo e da Ilha da Madeira), teria enorme impacto na história do Brasil dali para frente. O comércio com o Brasil era um canal de escoamento para os comerciantes ingleses, cuja entrada na Europa continental estava limitada pelo Bloqueio Continental (violado clandestinamente aqui ou ali), e se tornou mais importante ainda quando Inglaterra e Estados Unidos entraram em guerra em 1812. Para o Brasil, a movimentação de capital (agilizada com a fundação do Banco do Brasil) e intercâmbio técnico permitiu um rápido desenvolvimento da colônia a partir do Rio de Janeiro. A infraestrutura montada por dom João, com a instituição de correios, imprensa, instituições acadêmicas, academias militares, uma fábrica de pólvora (outra medida em que dom João se antecipava a Napoleão, tornando possível fabricar pólvora no Brasil sem depender do tráfego oceânico e de possíveis bloqueios franceses, além de armar a colônia contra uma possível invasão), etc., e uma relação comercial saudável com a Inglaterra, fez a colônia prosperar. Quando João retornou a Portugal em 1816 para enfrentar as crises políticas que ocorriam na metrópole após a morte da rainha Maria, deixou seu herdeiro Pedro de Alcântara no Rio de Janeiro, cercado por uma emergente elite liberal que o influenciaria a tomar para si as rédeas da parte economicamente mais importante do Império Português.

Quanto à campanha francesa na Península Ibérica, Junot chegou a Lisboa apenas 4 dias após o embarque da família real, dois após a sua partida. Ele ainda conseguia ver os últimos navios sumirem no horizonte. Com a rainha e seu príncipe regente governando o Império Português no Brasil (na única vez em que uma colônia sediou uma corte europeia), o plano de substituir a casa real portuguesa por monarcas títeres foi por água abaixo. Apesar do comando de João para não haver resistência por parte da administração deixada no país, os portugueses não se entregariam facilmente. De fato, Junot nem conseguiu efetivamente ocupar Portugal, restringindo sua presença a uma estreita faixa entre a fronteira e Lisboa. Enquanto isso, na Espanha, Napoleão foi além de mandar prender o príncipe Fernando; como suspeitasse de que o imperador francês planejava substituí-lo por algum parente seu (como vinha fazendo em outros lugares), um incidente que resultou na prisão do ministro pró-francês Manuel de Godoy resultou na abdicação do rei Carlos VII em favor de Fernando. Napoleão tentou resolver o assunto forçando a renúncia de ambos ao trono e a coroação de seu irmão José Bonaparte. A interferência direta na monarquia, além da própria invasão a Portugal, foram extremamente impopulares entre os espanhois. A tomada de Madri pelo general Murat foi a gota d'água para revoltas generalizadas estourarem por toda a Espanha, transformando uma campanha relativamente simples de tomada de Portugal numa longa e desgastante guerra de guerrilha por toda a península (a Guerra Peninsular, que se desenvolveria para uma guerra formal com a entrada da Inglaterra), que no final iria a custar a Napoleão sua própria coroa.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Vida e lenda de Dom Sebastião

Em 4 de agosto de 1578, Dom Sebastião I de Portugal tombou na Batalha do Alcácer Quibir.

Sebastião ascendeu ao trono aos três anos de idade. Durante o período de regência de sua avó, a Imperatriz Catarina da Áustria, e do Cardeal Henrique de Évora, cunhado de Catarina, o Império Português interrompeu sua expansão colonial e entrou na defensiva. Com a proeminência do cardeal no governo, e a educação religiosa do jovem Sebastião entre os jesuítas, o governo português se deteve em assuntos religiosos ao invés de aprimorar a administração das suas colônias. Com Portugal na defensiva, outra potência marítima da época, o Império Otomano (que disputava o domínio do Mediterrâneo com Veneza, mas pouco se aventurava fora dele) arriscava ataques diretos, ou por meio de piratas, aos navios portugueses próximos à costa do Marrocos. Portugal já possuía algumas fortalezas na costa marroquina, porém era muito custoso mantê-las, já que as fontes de recursos mais próximas estavam de posse dos mouros.

Surgem aí, portanto, três motivos que convergiram para um plano geral de conquista do Marrocos - a expansão do cristianismo para o vizinho muçulmano mais próximo, a erradicação da pirataria muçulmana em águas portuguesas, e a viabilização da presença portuguesa já existente no norte da África. Dois eventos ainda estavam por vir que mergulhariam Portugal numa guerra afoita contra o reino africano.

Em 1562, uma enorme força marroquina liderada por Mulei Mohammed cercou a fortaleza portuguesa de Mazagão, na costa marroquina. Nos três meses de cerco, 25 mil soldados marroquinos pereceram, contra 17 defensores portugueses. A resistência insuflou a moral portuguesa e o ego de Sebastião, que ainda era uma criança.

O jovem rei, que assumiria o cargo em 1568 aos 14 anos, crescera convencido de que estava destinado a realizar grandes proezas como rei e em nome da cristandade. Ele advogava uma cruzada católica contra os mouros, e iniciou imediatamente preparativos para tal campanha. Ele próprio havia aceitado prontamente um pedido do Papa para uma cruzada contra os turcos no oriente (ele já havia mesmo articulado uma estratégia com seus aliados persas para um ataque em duas frentes), mas acabou sendo dissuadido com muito esforço. No entanto, por conta própria, acompanhado apenas por alguns fidalgos e poucos soldados, e sem qualquer planejamento, Sebastião navegou secretamente até as cidades marroquinas de Ceuta e Tânger (possessões portuguesas na época), com o espírito de usá-las como ponte para conquistar o país, fosse como fosse. Em Tânger, as defesas marroquinas, à visão do rei de Portugal em pessoa, recuaram pensando que ele estivesse acompanhado de um exército. Sebastião regressou frustrado, com a ideia fixa de conquistar o Marrocos. Contudo, para esta causa não encontrou apoio - Filipe II, rei da Espanha e seu primo, em conferência privada, não só não quis participar da campanha, como preferiu adiar o casamento de uma de suas filhas com o rei português, com medo de que ele realmente seguisse seu plano e a deixasse viúva.

Por fim, em 1576, o sultão Mulei Mohammed (o mesmo comandante do cerco a Mazagão) foi deposto por seu tio, com apoio de um exército turco, e fez um pedido de ajuda a Dom Sebastião, prometendo-lhe mais concessões de terras no seu país, entregando-lhe, de pronto, a fortaleza de Arzila, que o rei anterior, João III, abandonara. Foi o pretexto para o rei português lançar sua tão sonhada cruzada que vinha preparando havia pelo menos 10 anos - a despeito da reação negativa de toda sua côrte, seus ministros, do clero, e de sua avó. Suas reuniões com ministros, contudo, não eram sobre a viabilidade de uma expedição ao Marrocos, mas para resolver os detalhes de como realizá-la de maneira eficiente.

Dom Sebastião partiu à frente de uma grande frota, com mais de 23 mil soldados (12 mil portugueses, os demais estrangeiros comandados por amigos seus e mercenários) e 40 peças de artilharia. O exército desembarcou em Tânger, onde juntou-se a Mohammed e 6 mil mouros, e seguiu por terra, passando por Arzila, em direção a Alcácer Quibir. A costa marroquina é árida, e a marcha por terra desgastou as tropas. De fato, Sebastião não se dera ao trabalho de dar ouvidos aos conselhos do aliado marroquino, e não fazia sequer ideia do tamanho do exército do seu inimigo, o sultão Mulei el-Malek. Perto de Alcácer Quibir, el-Malek surgiu um exército pelo menos duas vezes maior. Embora conseguisse avançar pelo centro, as linhas portuguesas foram cercadas pelos flancos pela numerosa cavalaria moura, e em 4 horas a batalha terminou com metade do exército português morto, e a outra metade capturada (cujos resgates custaram a ruína econômica da coroa portuguesa). Mulei el-Malek, que estava doente, morreu enquanto tentava montar seu cavalo. Mulei Mohammed se afogou enquanto tentava fugir cruzando o rio. Já Dom Sebastião foi visto pela última vez com seus amigos avançando com a espada em punho em direção ao inimigo.

Cerca de 100 sobreviventes conseguiram regressar a Portugal. Nenhum deles, nem os soldados resgatados posteriormente, contudo, produziu algum relato confiável do paradeiro de Dom Sebastião. Seu desaparecimento deixou o trono português vago, pois não tinha filhos (seria sucedido pelo velho cardeal Henrique, antes de passar para Filipe II da Espanha, que promoveria a União Ibérica). Logo se espalhou o boato, na própria côrte, de que Sebastião estava vivo e retornaria para governar o país. Mesmo que isso demorasse, o boato, transformado em mito, se tornou um motivo nacionalista na população durante a União Ibérica (embora Filipe tenha tentado mitigar o movimento alegando ter recebido dos marroquinos os restos mortais de Sebastião e os enterrado no Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa). Os trovadores João de Castro e Gonçalo Annes Bandarra deram ares místicos ao retorno de Sebastião, como a profetização de um Messias. O personagem tomou contornos similares aos do Rei Arthur, o rei-herói que deixou a Inglaterra para a misteriosa ilha de Avalon, mas voltaria para salvar seu país. No fim da União Ibérica, quando João de Bragança aparecia como o favorito ao trono português, era corrente a crença de que ele lutaria com Dom Sebastião ao seu lado para livrar Portugal do domínio espanhol (se tornando efetivamente Dom João IV). Dom Sebastião seguiu até pelo menos o século XX como um símbolo patriótico português, presente na literatura e na música. No Brasil, o mito de que Dom Sebastião retornaria para reclamar a coroa inspirou os movimentos populares de Canudos (Antonio Conselheiro via na monarquia brasileira, a única forma de governo legítima pela vontade divina, e que Dom Sebastião viria para restaurá-la) e do Contestado (corria a lenda de que Dom Sebastião lutava entre os revoltosos). Mais recentemente, o mito de Dom Sebastião foi evocado na novela brasileira Mandacaru, como figura que legitima a pretensão meio louca do cangaceiro Zebedeu a tornar-se rei da cidade de Jatobá.