Em 1 de dezembro de 1955, na cidade de Montgomery, Alabama, Rosa Parks se recusou a ceder o seu lugar num ônibus a um passageiro branco, e foi presa. Este evento deu início à escalada das lutas pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos nas décadas seguintes:
Nos Estados Unidos, a abolição da escravatura em 1867 não garantiu imediatamente aos negros a igualdade de direitos conferidos aos brancos. Como um país com um alto grau de federalização, mesmo que a Constituição fosse emendada para deixar claro que os cidadãos "de cor" deveriam ter assegurados os mesmos direitos dos demais, os estados e municípios precisam ratificar, independentemente, essas emendas para que sejam adotadas em suas Constituições estaduais, e se criem leis nas esferas estaduais e municipais que as regularizem. É um processo que, dependendo da vontade política local, pode atrasar em mais de um século a implementação de determinações da legislatura federal. A história da segregação racial no país é longa e pautada por tumultos violentos e casos pontuais de confrontamento no âmbito legal que, com a força de uma opinião pública cada vez mais esclarecida (reforçada por canais de mídia de massa mais liberais), induziram lentamente aos ajustes legais que garantiram aos negros direitos como o de frequentar as mesmas calçadas e estabelecimentos comerciais de brancos, a estabelecer residência onde quiserem, a benefícios trabalhistas, ao casamento interracial, à reunião e manifestação, ao voto, etc.. Ainda hoje, mesmo com um presidente negro, existe um abismo social que compromete a ascensão do negro na sociedade americana e vestígios de racismo que afloram constantemente em explosões de violência (2015 tem sido um ano particularmente violento nesse aspecto nos Estados Unidos), que motivam a continuação das suas lutas.
O incidente em Montgomery não foi inédito. Nas cidades onde a segregação era permitida (na forma de proteção da lei ao cidadão branco que se sentisse ofendido em qualquer sentido pelo negro, ou explicitamente na legislação), negros e brancos até podiam compartilhar do mesmo transporte público, mas havia um acordo velado (às vezes, expresso também na lei) que determinava que cada um se sentasse em determinados assentos. Em Fort Hood, no Texas, os negros deviam ocupar os lugares ao fundo dos coletivos; se um branco entrasse no ônibus e solicitasse um lugar mais à frente ocupado por um negro, ou se o motorista o fizesse, mesmo que houvesse lugares vazios, este deveria ceder o assento. Fort Hood tinha uma base militar, e os soldados e oficiais negros que serviam ali se queixavam desta situação havia tempos (também havia queixas de racismo por parte dos próprios militares). Aconteceu, em 1944, de um oficial negro do exército, Jackie Robinson (que se tornaria o primeiro jogador negro num time de baseball em uma liga não exclusiva para "pessoas de cor"), se recusar a ir para o fundo do ônibus a pedido do motorista. A discussão continuou até que, ao parar num ponto, um fiscal da empresa se envolveu, e, entre alguns transeuntes brancos que gritavam ofensas, apareceram policiais militares para conduzir Robinson para prestar esclarecimentos. Todo o tratamento já no quartel fez o tenente Robinson explodir e ameaçar "quebrar ao meio" qualquer um que o chamasse de "crioulo" novamente (nigger, uma palavra usada com forte carga pejorativa nos Estados Unidos). O caso foi à corte marcial, e Robinson foi inocentado de qualquer acusação (injúria, desordem, insubordinação), abrindo um precedente jurídico para o julgamento de outros casos semelhantes.
No mesmo ano Irene Morgan foi presa na Virgínia ao se recusar a ceder seu assento em um ônibus interestadual; o transporte interestadual era regulado por leis federais, mas ao entrar na Virgínia, o motorista mandou que se sentasse no fundo do veículo, e chamou um xerife local que a prendeu segundo as leis do seu estado. O caso foi levado adiante, até chegar à Suprema Corte, pelos advogados militantes da Associação Nacional pelo Avanço das Pessoas de Cor (NAACP), que encontraram uma brecha numa lei que regula o comércio interestadual para inocentar Morgan dois anos depois. Em novembro de 1955, após uma ação perpetrada pelo Corpo de Mulheres do Exército, a Suprema Corte "amarrou" as pontas ainda deixadas no caso Morgan e proibiu qualquer tipo de segregação imposta por motoristas ou proprietários de qualquer tipo de transporte em rotas interestaduais. Mas ainda deixou a critério dos estados adotarem ou não medidas semelhantes em viagens intermunicipais.
Mais cedo em Montgomery, em março de 1955, uma adolescente militante da ala jovem do NAACP, Claudette Colvin, de 15 anos, foi algemada e presa por se recusar a ceder seu lugar em um ônibus a um homem branco. Em Montgomery, a segregação nos ônibus, em vigor oficialmente desde 1900, se dava da seguinte maneira: passageiros brancos sentavam-se na parte da frente e preenchiam o ônibus em direção à traseira; passageiros negros faziam o contrário, e assim iam até encher o ônibus. As primeiras cinco fileiras eram exclusivas para os brancos, e negros não deveriam se sentar ali mesmo com o ônibus vazio. Se mais passageiros negros entrassem, eles deveriam ficar de pé; se mais passageiros brancos entrassem, não apenas um, mas todos os negros nos quatro assentos da fileira mais à frente deveriam ficar de pé, mesmo que apenas um branco fosse sentar ali. Quando o ônibus enchia, para que os negros não ficassem em pé perto dos brancos, eles entravam pela frente, pagavam a passagem ao motorista, desciam e entravam novamente por trás. Era comum os motoristas arrancarem com o veículo antes dos passageiros que pagaram subirem pela outra porta. Leve-se em consideração que cerca de 75% dos usuários de ônibus na cidade à época eram negros.
Rosa Parks era uma costureira por ofício que atuava na época como conselheira da ala jovem do movimento. Doze anos antes, ela mesma havia experimentado a indignidade de ter de entrar no ônibus novamente pela porta de trás para não passar pelos assentos ocupados por brancos, e ver o motorista partindo antes de subir (chovia na ocasião); ela marcou o motorista, James Blake, e decidiu nunca mais subir num ônibus dirigido por ele.
No dia 1 de dezembro, no fim do expediente, Rosa Parks embarcou num ônibus de volta para casa. Ela pagou sua passagem sentou-se num assento no corredor da sexta fileira. Os bancos à frente iam enchendo, e em determinado momento subiram mais passageiros brancos. O motorista (por pura coincidência, porque Parks não o reconhecera, o mesmo James Blake), vendo dois brancos em pé, ordenou aos quatro negros sentados mais à frente que cedessem seus lugares. Três deles se levantaram. Parks mudou de lugar, mas apenas para ocupar o assento deixado vago ao seu lado na janela. Mais tarde ela justificou que o fez não porque estava fisicamente cansada, ou mais cansada do que nos outros dias, mas estava cansada do status quo ao qual ela e todos os outros negros estavam submetidos. Blake insistiu que ela se levantasse, e ela respondeu apenas "eu não acho que deva me levantar". Um policial foi chamado, ela o esperou no seu lugar, e foi detida por violar a lei de segregação do município. A lei não previa especificamente que negros deveriam ceder lugar aos brancos em assentos reservados a negros, mas ela foi presa mesmo assim. A NAACP e um amigo pessoal de Parks pagaram a fiança e ela respondeu ao processo em liberdade. Ela se apresentaria para julgamento na semana seguinte.
Enquanto isso, a NAACP, sob a liderança de Edgar Nixon, se articulou com outros movimentos sociais e sindicatos em volta do caso Parks e decidiram convocar um boicote. Na visão da NAACP, Rosa Parks era a personagem perfeita para se tornar um símbolo popular de luta contra a desigualdade: mulher madura, casada, de temperamento suave, com emprego e boa reputação, tratada como criminosa por exigir um tratamento digno. Igrejas frequentadas por negros atuaram como veículos de divulgação em boca-a-boca do ato, e um jornal local reproduziu os folhetos impressos que eram distribuídos. A comunidade negra começou a se mobilizar, e no domingo seguinte, 4 de dezembro, em uma das igrejas, houve uma conferência onde, por unanimidade, os presentes se comprometeram com o boicote (mesmo que lhes custasse um dia de trabalho ou de aula), até que eles fossem tratados com o nível de cortesia que eles achavam devido, até que motoristas negros fossem empregados, e que os assentos fossem preenchidos por ordem de embarque. Aquela igreja era gerida por um pastor batista recém-chegado a Montgomery chamado Martin Luther King Jr..
Rosa Parks foi a julgamento numa corte local no dia seguinte por "conduta desordeira", julgada culpada e multada em 10 dólares, mais 4 em custos processuais. Uma multa irrisória, contra a qual Rosa Parks recorreu, desafiando formalmente a legalidade da segregação racial.
O boicote funcionou: apesar da chuva, nenhum morador negro em Montgomery usou o ônibus naquela segunda-feira. Alguns pegaram carona ou optaram por táxis dirigidos por negros (cobrando o valor da passagem de ônibus). Algumas mulheres brancas, sabendo o que acontecia, usaram seus carros para trazer e levar suas empregadas. A maioria foi ao trabalho ou à escola à pé. Alguns caminharam 32 quilômetros. O ato foi uma demonstração de que a comunidade estava disposta aos sacrifícios que fossem necessários dentro da lei para mudar o sistema. Desobediência civil e resistência pacífica em ação. À noite, ativistas dos movimentos envolvidos se reuniram, com a presença de Parks, para decidir pela continuação do boicote. Luther King foi nomeado para presidir a associação responsável pela organização do movimento. Quando Parks pediu a palavra, King pronunciou: "A senhora já nos falou o bastante." O boicote continuou.
A perda de 3/4 dos seus passageiros causou um impacto imediato nas operações da empresa de ônibus local. Seus advogados fizeram um acordo com a seguradora Lloyd's para anular o seguro dos carros usados no transporte de negros na cidade. Autoridades multaram taxistas que cobrassem passagem a menos de 45 cents (a passagem de ônibus era 10 cents). Chegou-se a cogitar uma reorganização nas linhas de ônibus de maneira a atender apenas os brancos (elas não passariam mais pelos distritos de maioria negra). O Conselho de Cidadãos Brancos da cidade (formado por supremacistas brancos em resposta à crescente articulação dos movimentos pelos direitos civis dos negros) dobrou de tamanho naquele mês. Alguns negros que caminhavam pelas calçadas (apinhadas de gente na hora do rush por causa do boicote) eram agredidos. A casa de Luther King, de outros líderes negros e igrejas foram atacadas com coquetéis molotov. Depois destes ataques, Martin Luther King discursou a 300 cidadãos negros enfurecidos, exortando-os a não responderem com violência, citando o verso bíblico: "Aquele que vive pela espada perecerá pela espada". Por causa da sua proeminência, Luther King também foi indiciado por interferir ativamente nos negócios da empresa de transporte (ele e outros indiciados se entregaram antes que oficiais de justiça viessem buscá-los em suas residências). Como Rosa Parks, ele optou por não pagar a multa imputada e ficou preso, atraindo atenção nacional ao movimento.
O boicote seguiu firme durante meses. Em novembro de 1956, uma ação de movimentos pelos direitos civis, que pedia a declaração de inconstitucionalidade da lei de segregação no estado do Alabama, subscrita por Claudette Corvin, pela dona de casa Aurelia Browder (cujo nome encabeçava a ação) e outras mulheres que passaram por situação semelhante à de Rosa Parks em Montgomery. chegou à esfera federal, que julgou a sua procedência. Em 20 de dezembro de 1956, 381 dias depois do início do boicote, o prefeito recebeu a notificação da Suprema Corte para anular a lei. Apesar de atos violentos em retaliação terem se seguido (atentados à vida de Luther King), a vitória em Montgomery foi a ignição de algo muito maior, protagonizado pelo recém-formado Movimento pelos Direitos Civis dos Afro-Americanos, que mobilizou o país nos anos 60 teve influência além da fronteira dos Estados Unidos (pela causa e pelo emprego de não-violência, Martin Luther King foi vigiado de perto pela CIA, recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1964 e foi assassinado em 1968).
Quanto a Rosa Parks, ela sofreu as sanções comuns aos demais ativistas políticos da época; ela e seu marido perderam o emprego e tiveram muita dificuldade em conseguir trabalho e em lidar com suas dívidas. Ela continuou se manifestando contra sinais de segregação racial, mesmo no norte do país, tido como progressista neste sentido (ela notou que Detroit, onde passou a viver, tinha distritos dominados por maiorias raciais, com os negros vivendo em piores condições que os brancos). Ela e Luther King ajudaram a eleger um deputado negro, John Conyers, pelo estado de Michigan, para quem trabalhou até se aposentar (Conyers cumpre hoje seu décimo terceiro mandato no Congresso). Com o passar dos anos, o reconhecimento do seu ato e de suas consequências lhe renderam diversas homenagens e convites para eventos comemorativos relacionados à igualdade racial (ela foi convocada para fazer parte do grupo que receberia Nelson Mandela na sua saída da prisão em 1990). Em 1995, a Ku Klux Klan, a mais notória organização supremacista branca dos Estados Unidos, resolveu patrocinar reformas na rodovia interestadual 55, no trecho do estado do Missouri, o que lhes dava o direito de exibir outdoors e placas informando que a rodovia era mantida pela organização. Como o estado não podia negar o patrocínio e suas consequências, a sua legislatura votou pela mudança de nome daquele trecho da rodovia para Autoestrada Rosa Parks. "É sempre bom ser lembrada". Quando morreu em 2005, a prefeitura de Montgomery decidiu marcar os assentos da frente dos ônibus municipais com uma tarja preta. Parks velada em Washington e Detroit com honras de um chefe de Estado.
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terça-feira, 1 de dezembro de 2015
segunda-feira, 3 de agosto de 2015
Jesse Owens
Em 3 de agosto de 1936 Adolph Hitler assistia o atleta americano Jesse Owens vencer a competição dos 100 metros rasos nos Jogos Olímpicos de Berlim, o primeiro dos seus quatro triunfos naquela competição.
James Cleveland Owens, o mais novo de dez irmãos, ficou conhecido como "Jesse" quando, na escola, foi perguntado por um professor como se chamava, e ele respondeu "J.C." ("Jay Cee"). Começou a praticar atletismo no colégio, e conseguiu uma bolsa universitária para seguir treinando em alto nível.
Jesse, com 21 anos, chegava aos jogos com 4 recordes mundiais atingidos no ano anterior, num mesmo dia: nos 100 metros rasos (na verdade, igualando o recorde existente de 9,4 segundos), no salto em distância, e nas provas não olímpicas das 220 jardas (algo próximo dos 200 metros rasos), e 220 jardas com barreiras. Muitas crônicas posteriores o colocam como uma "zebra" nas Olimpíadas que venceu um adversário gigante, mas na verdade ele era o favorito em suas provas. Pouco antes das competições, ele recebeu a visita do empresário alemão Adi Dassler, fundador da Adidas, que, ciente do seu ótimo prospecto, ofereceu-lhe seus novos calçados para corridas, tornando-o um dos primeiros garotos-propaganda da marca.
A final dos 100 metros rasos (definida após três rodadas eliminatórias, na segunda das quais bateu o recorde olímpico com 10,3 segundos) contava com Owens, seu colega de faculdade e principal adversário Ralph Metcalfe, e seu colega de revezamento 4x100 metros, Frank Wykoff. O único alemão era Erich Borchmeyer, integrante do revezamento alemão medalhista de prata no 4x100 metros nas Olimpíadas de Los Angeles. Ele era a zebra. Owens correu novamente para 10,3 segundos, com Metcalfe em segundo um décimo atrás e o holandês Osendarp em terceiro, o alemão apenas em quinto. A análise aqui é fria e com base em dados oficiais conhecidos, a vantagem de se escrever em retrospectiva. Mas o Estádio Olímpico de Berlim, com capacidade para 100 mil pessoas, contagiada pela extensa propaganda nazista de exaltação da raça ariana, estava exultante esperando uma vitória alemã, e a vitória do atleta negro foi recebida com espanto.
A lenda segue. Diz-se que Hitler, furioso, teria se recusado a cumprimentar o vencedor e se retirou do estádio. Hitler, de fato, vinha comparecendo às premiações para cumprimentar apenas os atletas alemães. A organização dos Jogos advertiu que Hitler deveria cumprimentar todos os atletas no pódio, ou nenhum deles. Depois disso, o führer optou por não participar mais das cerimônias. O próprio Jesse Owens recorda que, após a sua prova, Hitler, de sua tribuna, e ele, na pista, trocaram olhares e acenos, e em seguida o líder alemão teria deixado o estádio seguindo sua agenda (ou, como supunha Jesse, por causa do mau tempo que se formava).
Owens tinha suas razões para ter outra impressão de Hitler, a ponto de, algumas vezes, procurar a imprensa para desmitificar sua relação com ele (nos anos 60 ele teria mostrado a um jornalista alemão uma foto dos dois apertando as mãos nos bastidores da premiação dos 100 metros, algo alegadamente testemunhado por uns poucos presentes). A família de Owens veio do Alabama, fugindo de um sistema fortemente segregacionista. Quando chegou na Alemanha nazista, ele e outros atletas negros tinham liberdade de circular nos mesmos lugares e se hospedaram nos mesmos hotéis que os brancos, mesmo alemães. Quando retornou aos Estados Unidos, depois de um desfile em carro aberto, ele teve que usar o elevador de serviço para chegar à recepção em sua homenagem no hotel Waldorf-Astoria, em Nova Iorque. Owens e algumas testemunhas alegavam que Hitler realmente o cumprimentara após os 100 metros rasos (ora à distância, ora com um aperto de mãos). O presidente Franklin Roosevelt nunca o convidou para a Casa Branca, ao contrário de outros medalhistas - em campanha pelo candidato à presidência Alf Landon, Owens ressaltava que Hitler não o havia esnobado, enquanto Roosevelt nem lhe enviara um telegrama. De qualquer forma, a contra-propaganda americana se aproveitou do momento para mitificar Jesse Owens, que por seus próprios méritos já deveria ter sido lembrado como um atleta extraordinário.
A competição seguiu. No dia seguinte, Jesse passara por uma eliminatória difícil no salto em distância. Seu principal adversário na prova, esta sim, era o alemão Luz Long, recordista europeu, com o japonês Naoto Tajima (recordista mundial no salto triplo) correndo por fora. Long quebrou o recorde olímpico nas preliminares, pressionando Owens por um bom resultado. O americano havia queimado duas tentativas e precisava saltar pelo menos 7,15 metros para seguir para a final e parecia desanimado. Long, que ansiava pelo duelo com Jesse, então teria se aproximado e recomendado que o adversário desse mais folga da tábua de salto na sua última passada, pois sua melhor marca era tão superior às dos concorrentes que ele poderia sacrificar alguns centímetros para se classificar se saltasse bem. Ele saltou para 7,64 metros. Na final, Long quebrou novamente o recorde olímpico no penúltimo salto, mas já ali fora superado por Owens em 7 centímetros. Pressionado, o alemão queimou o último salto, e Owens estabeleceu novo recorde olímpico com 8,07 metros. Assim que confirmou o ouro, Luz Long foi abraçá-lo e posar com o americano para fotos. Sua atitude desportiva foi reconhecida postumamente com a medalha Pierre de Coubertin.
No dia 5 Jesse conquistou o ouro com alguma facilidade nos 200 metros rasos. Ele quebrara o recorde olímpico nas duas primeiras etapas eliminatórias, e só viu seu domínio ameaçado pelo compatriota Mack Robinson, que baixou esse recorde nas semi finais. Na final Robinson repetiu o recorde, mas Owens quebrou a marca mundial de 20,7 segundos para ficar com o terceiro ouro.
Sua última participação foi no revezamento 4x100 metros. Naquela altura, o atletismo alemão, justamente no evento de maior visibilidade dos Jogos, vinha sendo o grande fracasso da delegação. Ao final dos Jogos, a Alemanha terminaria líder do quadro de medalhas com 33 de ouro contra 24 dos Estados Unidos. Mas no atletismo, foram apenas 5 conquistas em 29 eventos, contra 14 triunfos americanos. Albert Speer, oficial do alto escalão nazista, dizia que Hitler estava tão aborrecido pelas vitórias americanas (além de Jesse, havia outros atletas negros, que, segundo Hitler, tinham vantagens físicas por serem mais primitivos) que ele cogitava propor a proibição de negros nas próximas competições olímpicas. Aconteceu que o time de revezamento dos Estados Unidos, atual campeão olímpico, contava com dois atletas judeus, Marty Glickman e Sam Stoller. Na manhã anterior à competição, o técnico americano decidiu substituir os dois por Jesse Owens e Ralph Metcalfe. As razões para isso nunca foram esclarecidas, mas parece ter sido uma manobra para evitar problemas com as políticas agressivamente antissemitas o governo alemão (a justificativa exposta pelo técnico aos atletas era de que os alemães estavam poupando seus melhores velocistas para essa prova; Owens teria insistido para que a equipe original fosse mantida, porque ele já tinha 3 ouros e estava cansado, mas lhe deixaram claro que deveria fazer o que era mandado). De qualquer maneira, a equipe americana venceu com larga margem, quebrando o recorde mundial duas vezes. A Alemanha não conseguiu sequer defender a prata de 1932 e ficou em terceiro. Foi a quarta medalha de ouro de Owens.
Jesse Owens teve a carreira encerrada abruptamente pouco depois dos Jogos, quando recusou um convite para uma competição na Suécia junto com a delegação americana e retornou aos Estados Unidos para correr por dinheiro - tornando-se formalmente um profissional, e, portanto, não elegível para o esporte. Quando os jogos voltaram a ser disputados, em 1948, Owens, com 33 anos, já se aventurava como dirigente de baseball numa liga para jogadores negros, e participava de eventos promocionais - ficou célebre por correr contra, e vencer, cavalos de corrida em tiros de 100 metros. Em vários momentos incorporou seu papel como atleta negro e ofereceu declarações em prol das lutas pelos direitos civis dos negros americanos. Viciado em cigarros depois que parou de correr, morreu de câncer em 1980.
Neste dia também: Colombo parte de Palos de la Frontera em direção à América
James Cleveland Owens, o mais novo de dez irmãos, ficou conhecido como "Jesse" quando, na escola, foi perguntado por um professor como se chamava, e ele respondeu "J.C." ("Jay Cee"). Começou a praticar atletismo no colégio, e conseguiu uma bolsa universitária para seguir treinando em alto nível.
Jesse, com 21 anos, chegava aos jogos com 4 recordes mundiais atingidos no ano anterior, num mesmo dia: nos 100 metros rasos (na verdade, igualando o recorde existente de 9,4 segundos), no salto em distância, e nas provas não olímpicas das 220 jardas (algo próximo dos 200 metros rasos), e 220 jardas com barreiras. Muitas crônicas posteriores o colocam como uma "zebra" nas Olimpíadas que venceu um adversário gigante, mas na verdade ele era o favorito em suas provas. Pouco antes das competições, ele recebeu a visita do empresário alemão Adi Dassler, fundador da Adidas, que, ciente do seu ótimo prospecto, ofereceu-lhe seus novos calçados para corridas, tornando-o um dos primeiros garotos-propaganda da marca.
A final dos 100 metros rasos (definida após três rodadas eliminatórias, na segunda das quais bateu o recorde olímpico com 10,3 segundos) contava com Owens, seu colega de faculdade e principal adversário Ralph Metcalfe, e seu colega de revezamento 4x100 metros, Frank Wykoff. O único alemão era Erich Borchmeyer, integrante do revezamento alemão medalhista de prata no 4x100 metros nas Olimpíadas de Los Angeles. Ele era a zebra. Owens correu novamente para 10,3 segundos, com Metcalfe em segundo um décimo atrás e o holandês Osendarp em terceiro, o alemão apenas em quinto. A análise aqui é fria e com base em dados oficiais conhecidos, a vantagem de se escrever em retrospectiva. Mas o Estádio Olímpico de Berlim, com capacidade para 100 mil pessoas, contagiada pela extensa propaganda nazista de exaltação da raça ariana, estava exultante esperando uma vitória alemã, e a vitória do atleta negro foi recebida com espanto.
A lenda segue. Diz-se que Hitler, furioso, teria se recusado a cumprimentar o vencedor e se retirou do estádio. Hitler, de fato, vinha comparecendo às premiações para cumprimentar apenas os atletas alemães. A organização dos Jogos advertiu que Hitler deveria cumprimentar todos os atletas no pódio, ou nenhum deles. Depois disso, o führer optou por não participar mais das cerimônias. O próprio Jesse Owens recorda que, após a sua prova, Hitler, de sua tribuna, e ele, na pista, trocaram olhares e acenos, e em seguida o líder alemão teria deixado o estádio seguindo sua agenda (ou, como supunha Jesse, por causa do mau tempo que se formava).
Owens tinha suas razões para ter outra impressão de Hitler, a ponto de, algumas vezes, procurar a imprensa para desmitificar sua relação com ele (nos anos 60 ele teria mostrado a um jornalista alemão uma foto dos dois apertando as mãos nos bastidores da premiação dos 100 metros, algo alegadamente testemunhado por uns poucos presentes). A família de Owens veio do Alabama, fugindo de um sistema fortemente segregacionista. Quando chegou na Alemanha nazista, ele e outros atletas negros tinham liberdade de circular nos mesmos lugares e se hospedaram nos mesmos hotéis que os brancos, mesmo alemães. Quando retornou aos Estados Unidos, depois de um desfile em carro aberto, ele teve que usar o elevador de serviço para chegar à recepção em sua homenagem no hotel Waldorf-Astoria, em Nova Iorque. Owens e algumas testemunhas alegavam que Hitler realmente o cumprimentara após os 100 metros rasos (ora à distância, ora com um aperto de mãos). O presidente Franklin Roosevelt nunca o convidou para a Casa Branca, ao contrário de outros medalhistas - em campanha pelo candidato à presidência Alf Landon, Owens ressaltava que Hitler não o havia esnobado, enquanto Roosevelt nem lhe enviara um telegrama. De qualquer forma, a contra-propaganda americana se aproveitou do momento para mitificar Jesse Owens, que por seus próprios méritos já deveria ter sido lembrado como um atleta extraordinário.
A competição seguiu. No dia seguinte, Jesse passara por uma eliminatória difícil no salto em distância. Seu principal adversário na prova, esta sim, era o alemão Luz Long, recordista europeu, com o japonês Naoto Tajima (recordista mundial no salto triplo) correndo por fora. Long quebrou o recorde olímpico nas preliminares, pressionando Owens por um bom resultado. O americano havia queimado duas tentativas e precisava saltar pelo menos 7,15 metros para seguir para a final e parecia desanimado. Long, que ansiava pelo duelo com Jesse, então teria se aproximado e recomendado que o adversário desse mais folga da tábua de salto na sua última passada, pois sua melhor marca era tão superior às dos concorrentes que ele poderia sacrificar alguns centímetros para se classificar se saltasse bem. Ele saltou para 7,64 metros. Na final, Long quebrou novamente o recorde olímpico no penúltimo salto, mas já ali fora superado por Owens em 7 centímetros. Pressionado, o alemão queimou o último salto, e Owens estabeleceu novo recorde olímpico com 8,07 metros. Assim que confirmou o ouro, Luz Long foi abraçá-lo e posar com o americano para fotos. Sua atitude desportiva foi reconhecida postumamente com a medalha Pierre de Coubertin.
No dia 5 Jesse conquistou o ouro com alguma facilidade nos 200 metros rasos. Ele quebrara o recorde olímpico nas duas primeiras etapas eliminatórias, e só viu seu domínio ameaçado pelo compatriota Mack Robinson, que baixou esse recorde nas semi finais. Na final Robinson repetiu o recorde, mas Owens quebrou a marca mundial de 20,7 segundos para ficar com o terceiro ouro.
Sua última participação foi no revezamento 4x100 metros. Naquela altura, o atletismo alemão, justamente no evento de maior visibilidade dos Jogos, vinha sendo o grande fracasso da delegação. Ao final dos Jogos, a Alemanha terminaria líder do quadro de medalhas com 33 de ouro contra 24 dos Estados Unidos. Mas no atletismo, foram apenas 5 conquistas em 29 eventos, contra 14 triunfos americanos. Albert Speer, oficial do alto escalão nazista, dizia que Hitler estava tão aborrecido pelas vitórias americanas (além de Jesse, havia outros atletas negros, que, segundo Hitler, tinham vantagens físicas por serem mais primitivos) que ele cogitava propor a proibição de negros nas próximas competições olímpicas. Aconteceu que o time de revezamento dos Estados Unidos, atual campeão olímpico, contava com dois atletas judeus, Marty Glickman e Sam Stoller. Na manhã anterior à competição, o técnico americano decidiu substituir os dois por Jesse Owens e Ralph Metcalfe. As razões para isso nunca foram esclarecidas, mas parece ter sido uma manobra para evitar problemas com as políticas agressivamente antissemitas o governo alemão (a justificativa exposta pelo técnico aos atletas era de que os alemães estavam poupando seus melhores velocistas para essa prova; Owens teria insistido para que a equipe original fosse mantida, porque ele já tinha 3 ouros e estava cansado, mas lhe deixaram claro que deveria fazer o que era mandado). De qualquer maneira, a equipe americana venceu com larga margem, quebrando o recorde mundial duas vezes. A Alemanha não conseguiu sequer defender a prata de 1932 e ficou em terceiro. Foi a quarta medalha de ouro de Owens.
Jesse Owens teve a carreira encerrada abruptamente pouco depois dos Jogos, quando recusou um convite para uma competição na Suécia junto com a delegação americana e retornou aos Estados Unidos para correr por dinheiro - tornando-se formalmente um profissional, e, portanto, não elegível para o esporte. Quando os jogos voltaram a ser disputados, em 1948, Owens, com 33 anos, já se aventurava como dirigente de baseball numa liga para jogadores negros, e participava de eventos promocionais - ficou célebre por correr contra, e vencer, cavalos de corrida em tiros de 100 metros. Em vários momentos incorporou seu papel como atleta negro e ofereceu declarações em prol das lutas pelos direitos civis dos negros americanos. Viciado em cigarros depois que parou de correr, morreu de câncer em 1980.
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