Em 6 de julho de 640 d.C., um exército árabe liderado por Amr ibn al-A'as derrotou um exército bizantino mais numeroso perto de Heliópolis, no Egito.
No momento da morte de Maomé, os árabes muçulmanos já controlavam toda a Península Arábica, e seus sucessores, os califas Abu Bakr e Omar, expandiram as fronteiras para o norte, conquistando a Síria do Império Bizantino e tomando praticamente de assalto a Pérsia sassânida. Era o momento propício para os árabes recém unificados ampliarem seus territórios, porque seus vizinhos bizantinos e sassânidas haviam acabado de travar uma guerra de atrito por uma geração inteira, e estavam economicamente e militarmente exaustos. E o rico Egito, então sob controle bizantino, estava logo ali.
A invasão do Egito começou aparentemente despretensiosa - ou temerária. Amr partiu com apenas 4000 soldados recrutados de tribos árabes e alguns mercenários conversos para tomar a província economicamente mais importante do Império Bizantino. O califa Omar, ao saber da iniciativa, ordenou em carta encaminhada por um mensageiro o recuo do pequeno exército para esperar por reforços. Mas o comandante, desconfiando do teor da mensagem, convenceu o mensageiro (que não sabia do conteúdo da carta) a seguir com ele para o Egito. Quando ele, enfim, discutiu com seus homens as ordens do Califa, eles já estavam no Egito, e, portanto, deveriam seguir em frente. Quando recebeu alguma resposta, Omar não teve escolha a não ser arregimentar um novo exército em Medina para despachá-lo ao Egito.
A marcha pelo leste do Egito foi tranquila. Tomaram algumas vilas sem resistência. Reforçados por beduínos do Sinai, os árabes conquistaram a fortaleza de Pelusium sem muita luta. A resistência bizantina apareceu durante o cerco a Bilbeis, a um dia de marcha de Memphis. A resistência ali ocorreu quando os bizantinos rejeitaram os termos de Amr de se converterem, ou pagarem a jizya - a taxa cobrada pelos muçulmanos aos praticantes de outras religiões em seu território - a despeito das intenções do governador do Egito, Ciro, que se contentava em se render e pagar a Jizya. Bilbeis também caiu. Amr marchou então para a fortaleza de Babilônia, onde hoje fica o Cairo, e ali finalmente os árabes se viram num impasse - seus 4 mil homens eram incapazes de tomar o forte, e desmembrar o exército para desviar ou tomar outras posições era inviável. Em julho de 640, antes de al-A'as enviar um pedido de reforço ao califa, um contingente de 16 mil homens já estava a caminho.
Babilônia ficava a poucas horas de marcha de Heliópolis, um antigo centro cerimonial e cultural. Amr decidiu direcionar a maioria das suas forças com os novos reforços para tomar Heliópolis, enquanto um pequeno contingente mantinha Babilônia imobilizada. Teodoro, comandante bizantino no Egito, mobilizou 20 mil soldados para enfrentar os cerca de 15 mil árabes. Diante de Heliópolis, o comandante árabe, consciente da desvantagem numérica, organizou seu exército em três destacamentos que se deslocaram rapidamente, confundindo os bizantinos: um terço foi para o leste e se posicionou em uma colina fora das vistas do comandante inimigo; outro terço manteve posição, oferecendo combate; um último terço se deslocou para o sul, bloqueando a rota de fuga. Os bizantinos atacaram o centro reduzido dos árabes sem preocupações. Ou Teodoro não despachara batedores para avaliar as posições inimigas, ou não lhes deu ouvidos, porque imediatamente os árabes desceram as colinas e atacaram os bizantinos pelo flanco e retaguarda, causando grande confusão. Os que sobreviveram ao massacre foram aniquilados enquanto tentavam fugir pelo sul. A vitória foi quase completa - Teodoro e alguns poucos soldados conseguiram escapar com vida.
Bizantinos e árabes ainda se encontrariam algumas vezes até a queda de Alexandria, em novembro de 641. Mas a derrota em Heliópolis selou definitivamente o destino do Egito. Os gregos, que governavam Bizâncio, eram uma pequena elite no Egito, de maneira que o sucesso da invasão árabe acabou instigando um levante da maioria de egípcios nativos, sobretudo de cristãos monofisistas (cuja fé era herética para a ortodoxia bizantina), que consideraram que a Jizya e o governo islâmico seriam preferíveis aos impostos e à má vontade do governo bizantino. Os árabes conquistaram rapidamente o interior do país com a conivência dos nativos, e de fato o governo de Amr ibn al-A'as foi benevolente para com os cristãos, aplicando a lei islâmica estritamente de modo a isentá-los do serviço militar e várias outras obrigações civis e permitir seu culto, desde que pagassem a Jizya (em dinheiro ou espécie), Mais tarde, o Califado Omíada que se seguiu endureceu seus impostos, induzindo os egípcios em dificuldades a se converterem (espontaneamente, ou à força), determinando a supremacia islâmica e o arabismo sobre o cristianismo no país. O Império Bizantino, por sua vez, perdia a sua principal fonte de grãos e o controle inconteste do Mediterrâneo - havia séculos, transformado num "lago" romano. Abalado economicamente e sem forças para resistir, os gregos perderiam rapidamente o resto de seus territórios na África, possibilitando aos árabes chegarem tão longe quanto o sul da França (onde foram brecados pelos francos) e expandirem o Islã em poucas gerações a um território tão vasto quanto o cristianismo nos séculos anteriores.
segunda-feira, 6 de julho de 2015
sexta-feira, 3 de julho de 2015
Extinções
No dia 3 de julho de 1844, dois islandeses estrangularam e mataram as duas últimas grandes aucas, ou araus-grandes, aves marinhas que habitavam os rochedos do Atlântico Norte, selando a extinção da espécie.
As grandes aucas eram aves incapazes de voar, que andavam desajeitadamente em terra, onde se reproduziam e se abrigavam do frio do inverno, e nadavam com agilidade para caçar pequenos peixes. Tinham o tamanho, a forma aproximada, e as cores dos pinguins, porém com um bico mais robusto. Apesar da semelhança com essas aves marinhas do sul, pertencia à ordem das gaivotas.
Supõe-se que elas tenham tido seu habitat comprometido com o fim da última era glacial, ficando restritas a redutos muito isolados, fora do alcance de predadores como o urso polar e as focas. Em tempos históricos, homens caçaram esta ave pelas suas plumas, usadas para encher travesseiros. Essa caça adicional foi o impacto necessário para o declínio final da espécie. Sua raridade já no século XVI chamava tanta atenção que ela recebeu proteção oficial em 1553. Em St. John, no Canadá, pessoas flagradas transportando ovos ou penas de aucas recebiam castigos físicos em público. Apesar disso, seu habitat ficou tão restrito que o último local de procriação era o rochedo de Eldey, no sudoeste da Islândia, um monólito escarpado de 3000 m² e a 77 metros acima do mar, onde compartilhavam o habitat com outras aves marinhas. No final, os museus, antevendo a extinção das aves, começaram a encomendar a sua captura na ilha para adicionar os exemplares empalhados em suas coleções. Embora tenha sido descrita por Carl Linnaeus em 1753 (o nome científico é Pinguinum impennis), a espécie nunca chegou a ser observada na natureza ou descrita em seu habitat por um naturalista. De maneira que tudo que se sabe dela deriva da memória de caçadores e observadores casuais, e deduções com base na sua anatomia, especialmente nos tecidos preservados em líquido.
A história das grandes aucas é a história de todas as espécies animais que tiveram a desventura de ter no ser humano um inimigo natural inesperado. A caça além da necessidade de alimentação e abrigo, e a retração do seu habitat natural por conta da atividade humana colocou frente a frente com o ser humano espécies de animais que não evoluíram para se defender de nós ou suportar esta predação adicional. Isso ocorreu principalmente em ambientes insulares, onde os animais evoluíram em isolamento, mas também em ambientes continentais, onde espécies coevoluíram com o ser humano até que este se tornou a espécie dominante. Não faltam exemplos de animais extintos em tempos históricos especificamente por causa da interferência humana - ou caça, ou destruição de habitats, ou introdução antrópica de outras espécies mais agressivas. Aqui vão alguns:
1: O Palaeopropithecus era um gênero com três espécies de lêmures gigantes arborícolas desprovidos de cauda (por isso chamado às vezes de "lêmur-preguiça gigante") que habitavam o centro e o oeste de Madagascar. Conviveram com seres humanos por quase 2000 anos, e se extinguiram por volta do século XVI. Não se tem certeza porque este tipo de lêmur veio a desaparecer enquanto outros primatas da ilha sobrevivem até hoje, mas sabe-se que eles foram caçados para servir de alimento aos habitantes da ilha e seus ossos usados na fabricação de ferramentas. Possivelmente eram lentos, o que os teria tornado presas mais fáceis.
2: Ainda de Madagascar, o formidável Aepyornis (ou "ave-elefante"), gênero com talvez quatro espécies de aves gigantescas incapazes de voar. Aepyornis maximus podia atingir 3 metros de altura e 400 kg. Seus ovos podiam ter 34 centímetros de altura, 160 vezes mais volumoso do que o ovo de uma galinha. Quando os primeiros navegadores europeus passaram pela ilha e viram esses ovos, pensaram ser de um roc, uma espécie de água descomunal capaz de erguer um elefante com suas patas que Marco Polo descrevera em seus relatos sobre o oriente. Curiosamente, há poucos indícios de caça dessas aves por parte dos malgaxes. É possível que, inicialmente, os homens tenham competido com esses animais formidáveis por espaço, já que elas eram fortes e velozes o suficiente para matar um ser humano, e estavam amplamente distribuídas. Mas os ovos eram vulneráveis, e possivelmente usados como alimento (ou propositadamente destruídos). A introdução de aves domésticas ou comensais pode ter, também, colocado os Aepyornis em contato com doenças para as quais não possuía resistência. Ela se extinguiu por volta do ano 1000.
3: Meiolanis platyceps foi uma espécie de jabuti gigante que sobreviveu na ilha da Nova Caledônia até fins do século V a.C.. Tratava-se de um animal com 2,5 metros de comprimento (a segunda maior tartaruga terrestre de que se tem notícia), onde a cabeça, ornada com protuberâncias semelhantes a chifres, era tão grande que impedia que ela a recolhesse para dentro do casco. Ela sobreviveu apenas 300 anos à caça dos novos habitantes humanos da ilha, que se alimentavam da sua carne.
4: O elefante sírio (Elephas maximus sbsp. asurus) conviveu por dezenas de milhares de anos com a presença humana no Oriente Médio, que caçava o animal e usava suas presas para a confecção de objetos. Com o advento das civilizações e da intensificação das trocas comerciais, os objetos decorativos feitos com o marfim do elefante sírio se tornaram artigos de alto valor comercial, que os arameus exploraram avidamente. É possível que essa subspécie do elefante asiático tenha sido extinta por volta de 500 ou 400 a.C.. Contudo, houve um momento em que o Império Selêucida passou a importar elefantes da Índia e empregá-los para diversos fins (especialmente militares) por todo seu império, inclusive no Oriente Médio. É impossível distinguir exatamente se os elefantes na Síria, nessa época, eram da subspécie nativa, ou um elefante indiano selêucida, pois a diferença entre as duas subespécies estava na distribuição geográfica original, e numa ligeira diferença média de tamanho. Haníbal, o general cartaginês que invadiu a Itália durante a Segunda Guerra Púnica com uma coluna de elefantes de guerra entre suas tropas, adotara um elefante asiático imenso que ele batizou de Surus, ou "O Sírio". Talvez tenha sido um indiano selêucida formidável, mas se trava-se de um elefante sírio, pode ter sido o último.
5: Moa-nalo é o nome de uma série de espécies de patos nativos das ilhas havaianas. Eram descendentes de patos migratórios vindos provavelmente na América do Norte que se estabeleceram no arquipélago há mais de 3 milhões de anos e perderam a capacidade de voar. Eram grandes, possuíam grandes bicos serrilhados ou laminados semelhantes aos de tartarugas, e foram os maiores herbívoros do Hawaii (razão pela qual há diversas espécies vegetais de pequeno porte com espinhos ou tóxicas por lá). Quando os polinésios chegaram, as aves, dóceis, foram presas fáceis não apenas para humanos, como para animais domésticos, como porcos. Os últimos morreram na virada do primeiro milênio d.C..
6: A moa (várias espécies da família Dinornithiformes) e a água de Haast (Harpagornis moorei) eram os maiores animais da Nova Zelândia. As moas eram aves corredoras, desprovidas de asas que podiam alcançar até 3,5 metros de altura quando totalmente eretas. Eram herbívoras, e, a despeito do tamanho, tinham seu próprio inimigo natural: a águia de Haast tinha até três metros de envergadura. Porém a sua envergadura não diz sobre as suas dimensões gerais, porque, como uma caçadora de ambientes florestais, ela tinha asas proporcionalmente curtas para manobrar entre as árvores enquanto se abatia sobre a presa. Seu pé, aberto da ponta do tarso até a ponta do primeiro dedo, podia chegar a quase 50 cm de comprimento, e a mandíbula media quase 12 cm; ela mergulhava sobre as moas, cravava suas garras em suas costas ou seu pescoço derrubando-as no chão, e bicava em pontos vitais para abatê-las. Toda essa relação ecológica foi subitamente interrompida com a chegada dos Maori próximo a 1280. As moas foram caçadas até a extinção perto de 1400, e a água de Haast, sem a sua caça, também desapareceu.
7: O tilacino, ou lobo da Tasmânia, era um marsupial carnívoro restrito à ilha da Tasmânia, no sul da Austrália. Como um predador de topo de cadeia, sua população nunca foi muito numerosa na ilha, embora espécies aparentadas tenham vivido por toda a Austrália e Nova Guiné. Nesses dois lugares, a competição por caça e abrigo com homens e o dingo, um cão que chegou ao domínio australiano, levou ao seu fim, mas ainda assim ele subsistiu bem na Tasmânia até fins do século XIX. Os novos colonos europeus trouxeram consigo cães, gatos e raposas, que competiam com o lobo da Tasmânia por alimento e território. Além disso, os tilacinos foram deliberadamente caçados por fazendeiros, que os responsabilizava pela perda de galinhas, ovelhas, coelhos e outros animais de criação. O caso do tilacino é um dos mais célebres, porque trata-se de um caso de extinção que foi largamente monitorado por naturalistas e pela imprensa no começo do século XX (existe um registro em vídeo dos últimos tilacinos em cativeiro). O último exemplar morreu num zoológico australiano em 1936. Apenas dois meses depois o governo australiano decretou uma lei protegendo a espécie.
8: O rinoceronte negro ocidental (Diceros bicornis sbsp. longipes) foi muito caçado, principalmente entre o fim do século XIX e o início do século XX por causa do seu chifre, usado em misturas e poções mágicas, medicinais e afrodisíacas, confecção de instrumentos rituais, ou como troféu de caça. Sua população, contudo, se recuperou na década de 1930 com medidas para preservação, chegando a ser a subespécie mais comum de rinocerontes no mundo, com quase 850 mil indivíduos na natureza. Entre 1970 e 1995 a caça retomou um ritmo tão violento que, ao final do período, existiam apenas 2500 rinocerontes. Em 2006 o último foi avistado no seu território natural, no norte do Camarões, e em 2011 foi declarado extinto.
9: A vaca marinha de Steller (Hydrodamalis gigas) era um sirênio, parente do peixe-boi, que habitava o Pacífico norte. Era o maior da sua ordem, e o maior mamífero dos tempos modernos, fora as baleias, chegando a 9 metros de comprimento. Quando a vaca marinha foi avistada pela primeira vez por europeus em meados do século XVIII, sua população já era bem reduzida, e 27 anos depois ela estava extinta. As vacas marinhas foram caçadas por seu couro, sua gordura (um excelente combustível) e sua carne, mas as circunstâncias que a levaram à extinção podem ser mais complexas. A caça ostensiva de focas por nativos e europeus no Mar de Bering e arredores reduziu a população destas, que são as principais predadoras de ouriços do mar. Os ouriços, por sua vez, atacam os kelps, as algas gigantes das quais as vacas marinhas se alimentavam. Com menos focas, os ouriços proliferaram, as florestas de algas escassearam, e a breve caça adicional pôs fim a esta espécie.
10: O íbex dos Pireneus (Capra pyrenaica subsp. pyrenaica) era uma espécie de cabra de grandes chifres curvos e anelados, nativa das montanhas de mesmo nome entre a Espanha e a França. Seu habitat hostil à ocupação humana o manteve relativamente seguro até fins da Idade Média, escalando as montanhas na primavera, e descendo para pastar nas partes baixas no inverno. Porém, a caça combinada com a introdução de espécies domésticas reduziram sua população a 100 no começo do século XX. A espécie foi protegida e monitorada por muitos anos, mas o comprometimento do seu habitat, a disseminação de doenças e sua população criticamente reduzida impediram que ela se recuperasse, e o último indivíduo morreu em 2000 esmagado por uma árvore. A ciência tentou dar a sua contribuição: em 2003, o íbex dos pireneus foi escolhido para ser clonado, usando-se material coletado do último indivíduo vivo em 1999. O material genético foi introduzido em zigotos de cabras domésticas, e implantados em 208 fêmeas diferentes. Apenas uma gestação vingou. Em 2009 nasceu um filhote de íbex dos Pireneus, tornando-se o primeiro mamífero a ser "desextinto". Porém o filhote nasceu com má formação dos pulmões, e sobreviveu apenas por 7 minutos, causando a extinção da espécie pela segunda vez.
As grandes aucas eram aves incapazes de voar, que andavam desajeitadamente em terra, onde se reproduziam e se abrigavam do frio do inverno, e nadavam com agilidade para caçar pequenos peixes. Tinham o tamanho, a forma aproximada, e as cores dos pinguins, porém com um bico mais robusto. Apesar da semelhança com essas aves marinhas do sul, pertencia à ordem das gaivotas.
Supõe-se que elas tenham tido seu habitat comprometido com o fim da última era glacial, ficando restritas a redutos muito isolados, fora do alcance de predadores como o urso polar e as focas. Em tempos históricos, homens caçaram esta ave pelas suas plumas, usadas para encher travesseiros. Essa caça adicional foi o impacto necessário para o declínio final da espécie. Sua raridade já no século XVI chamava tanta atenção que ela recebeu proteção oficial em 1553. Em St. John, no Canadá, pessoas flagradas transportando ovos ou penas de aucas recebiam castigos físicos em público. Apesar disso, seu habitat ficou tão restrito que o último local de procriação era o rochedo de Eldey, no sudoeste da Islândia, um monólito escarpado de 3000 m² e a 77 metros acima do mar, onde compartilhavam o habitat com outras aves marinhas. No final, os museus, antevendo a extinção das aves, começaram a encomendar a sua captura na ilha para adicionar os exemplares empalhados em suas coleções. Embora tenha sido descrita por Carl Linnaeus em 1753 (o nome científico é Pinguinum impennis), a espécie nunca chegou a ser observada na natureza ou descrita em seu habitat por um naturalista. De maneira que tudo que se sabe dela deriva da memória de caçadores e observadores casuais, e deduções com base na sua anatomia, especialmente nos tecidos preservados em líquido.
A história das grandes aucas é a história de todas as espécies animais que tiveram a desventura de ter no ser humano um inimigo natural inesperado. A caça além da necessidade de alimentação e abrigo, e a retração do seu habitat natural por conta da atividade humana colocou frente a frente com o ser humano espécies de animais que não evoluíram para se defender de nós ou suportar esta predação adicional. Isso ocorreu principalmente em ambientes insulares, onde os animais evoluíram em isolamento, mas também em ambientes continentais, onde espécies coevoluíram com o ser humano até que este se tornou a espécie dominante. Não faltam exemplos de animais extintos em tempos históricos especificamente por causa da interferência humana - ou caça, ou destruição de habitats, ou introdução antrópica de outras espécies mais agressivas. Aqui vão alguns:
1: O Palaeopropithecus era um gênero com três espécies de lêmures gigantes arborícolas desprovidos de cauda (por isso chamado às vezes de "lêmur-preguiça gigante") que habitavam o centro e o oeste de Madagascar. Conviveram com seres humanos por quase 2000 anos, e se extinguiram por volta do século XVI. Não se tem certeza porque este tipo de lêmur veio a desaparecer enquanto outros primatas da ilha sobrevivem até hoje, mas sabe-se que eles foram caçados para servir de alimento aos habitantes da ilha e seus ossos usados na fabricação de ferramentas. Possivelmente eram lentos, o que os teria tornado presas mais fáceis.
2: Ainda de Madagascar, o formidável Aepyornis (ou "ave-elefante"), gênero com talvez quatro espécies de aves gigantescas incapazes de voar. Aepyornis maximus podia atingir 3 metros de altura e 400 kg. Seus ovos podiam ter 34 centímetros de altura, 160 vezes mais volumoso do que o ovo de uma galinha. Quando os primeiros navegadores europeus passaram pela ilha e viram esses ovos, pensaram ser de um roc, uma espécie de água descomunal capaz de erguer um elefante com suas patas que Marco Polo descrevera em seus relatos sobre o oriente. Curiosamente, há poucos indícios de caça dessas aves por parte dos malgaxes. É possível que, inicialmente, os homens tenham competido com esses animais formidáveis por espaço, já que elas eram fortes e velozes o suficiente para matar um ser humano, e estavam amplamente distribuídas. Mas os ovos eram vulneráveis, e possivelmente usados como alimento (ou propositadamente destruídos). A introdução de aves domésticas ou comensais pode ter, também, colocado os Aepyornis em contato com doenças para as quais não possuía resistência. Ela se extinguiu por volta do ano 1000.
3: Meiolanis platyceps foi uma espécie de jabuti gigante que sobreviveu na ilha da Nova Caledônia até fins do século V a.C.. Tratava-se de um animal com 2,5 metros de comprimento (a segunda maior tartaruga terrestre de que se tem notícia), onde a cabeça, ornada com protuberâncias semelhantes a chifres, era tão grande que impedia que ela a recolhesse para dentro do casco. Ela sobreviveu apenas 300 anos à caça dos novos habitantes humanos da ilha, que se alimentavam da sua carne.
4: O elefante sírio (Elephas maximus sbsp. asurus) conviveu por dezenas de milhares de anos com a presença humana no Oriente Médio, que caçava o animal e usava suas presas para a confecção de objetos. Com o advento das civilizações e da intensificação das trocas comerciais, os objetos decorativos feitos com o marfim do elefante sírio se tornaram artigos de alto valor comercial, que os arameus exploraram avidamente. É possível que essa subspécie do elefante asiático tenha sido extinta por volta de 500 ou 400 a.C.. Contudo, houve um momento em que o Império Selêucida passou a importar elefantes da Índia e empregá-los para diversos fins (especialmente militares) por todo seu império, inclusive no Oriente Médio. É impossível distinguir exatamente se os elefantes na Síria, nessa época, eram da subspécie nativa, ou um elefante indiano selêucida, pois a diferença entre as duas subespécies estava na distribuição geográfica original, e numa ligeira diferença média de tamanho. Haníbal, o general cartaginês que invadiu a Itália durante a Segunda Guerra Púnica com uma coluna de elefantes de guerra entre suas tropas, adotara um elefante asiático imenso que ele batizou de Surus, ou "O Sírio". Talvez tenha sido um indiano selêucida formidável, mas se trava-se de um elefante sírio, pode ter sido o último.
5: Moa-nalo é o nome de uma série de espécies de patos nativos das ilhas havaianas. Eram descendentes de patos migratórios vindos provavelmente na América do Norte que se estabeleceram no arquipélago há mais de 3 milhões de anos e perderam a capacidade de voar. Eram grandes, possuíam grandes bicos serrilhados ou laminados semelhantes aos de tartarugas, e foram os maiores herbívoros do Hawaii (razão pela qual há diversas espécies vegetais de pequeno porte com espinhos ou tóxicas por lá). Quando os polinésios chegaram, as aves, dóceis, foram presas fáceis não apenas para humanos, como para animais domésticos, como porcos. Os últimos morreram na virada do primeiro milênio d.C..
6: A moa (várias espécies da família Dinornithiformes) e a água de Haast (Harpagornis moorei) eram os maiores animais da Nova Zelândia. As moas eram aves corredoras, desprovidas de asas que podiam alcançar até 3,5 metros de altura quando totalmente eretas. Eram herbívoras, e, a despeito do tamanho, tinham seu próprio inimigo natural: a águia de Haast tinha até três metros de envergadura. Porém a sua envergadura não diz sobre as suas dimensões gerais, porque, como uma caçadora de ambientes florestais, ela tinha asas proporcionalmente curtas para manobrar entre as árvores enquanto se abatia sobre a presa. Seu pé, aberto da ponta do tarso até a ponta do primeiro dedo, podia chegar a quase 50 cm de comprimento, e a mandíbula media quase 12 cm; ela mergulhava sobre as moas, cravava suas garras em suas costas ou seu pescoço derrubando-as no chão, e bicava em pontos vitais para abatê-las. Toda essa relação ecológica foi subitamente interrompida com a chegada dos Maori próximo a 1280. As moas foram caçadas até a extinção perto de 1400, e a água de Haast, sem a sua caça, também desapareceu.
7: O tilacino, ou lobo da Tasmânia, era um marsupial carnívoro restrito à ilha da Tasmânia, no sul da Austrália. Como um predador de topo de cadeia, sua população nunca foi muito numerosa na ilha, embora espécies aparentadas tenham vivido por toda a Austrália e Nova Guiné. Nesses dois lugares, a competição por caça e abrigo com homens e o dingo, um cão que chegou ao domínio australiano, levou ao seu fim, mas ainda assim ele subsistiu bem na Tasmânia até fins do século XIX. Os novos colonos europeus trouxeram consigo cães, gatos e raposas, que competiam com o lobo da Tasmânia por alimento e território. Além disso, os tilacinos foram deliberadamente caçados por fazendeiros, que os responsabilizava pela perda de galinhas, ovelhas, coelhos e outros animais de criação. O caso do tilacino é um dos mais célebres, porque trata-se de um caso de extinção que foi largamente monitorado por naturalistas e pela imprensa no começo do século XX (existe um registro em vídeo dos últimos tilacinos em cativeiro). O último exemplar morreu num zoológico australiano em 1936. Apenas dois meses depois o governo australiano decretou uma lei protegendo a espécie.
8: O rinoceronte negro ocidental (Diceros bicornis sbsp. longipes) foi muito caçado, principalmente entre o fim do século XIX e o início do século XX por causa do seu chifre, usado em misturas e poções mágicas, medicinais e afrodisíacas, confecção de instrumentos rituais, ou como troféu de caça. Sua população, contudo, se recuperou na década de 1930 com medidas para preservação, chegando a ser a subespécie mais comum de rinocerontes no mundo, com quase 850 mil indivíduos na natureza. Entre 1970 e 1995 a caça retomou um ritmo tão violento que, ao final do período, existiam apenas 2500 rinocerontes. Em 2006 o último foi avistado no seu território natural, no norte do Camarões, e em 2011 foi declarado extinto.
9: A vaca marinha de Steller (Hydrodamalis gigas) era um sirênio, parente do peixe-boi, que habitava o Pacífico norte. Era o maior da sua ordem, e o maior mamífero dos tempos modernos, fora as baleias, chegando a 9 metros de comprimento. Quando a vaca marinha foi avistada pela primeira vez por europeus em meados do século XVIII, sua população já era bem reduzida, e 27 anos depois ela estava extinta. As vacas marinhas foram caçadas por seu couro, sua gordura (um excelente combustível) e sua carne, mas as circunstâncias que a levaram à extinção podem ser mais complexas. A caça ostensiva de focas por nativos e europeus no Mar de Bering e arredores reduziu a população destas, que são as principais predadoras de ouriços do mar. Os ouriços, por sua vez, atacam os kelps, as algas gigantes das quais as vacas marinhas se alimentavam. Com menos focas, os ouriços proliferaram, as florestas de algas escassearam, e a breve caça adicional pôs fim a esta espécie.
10: O íbex dos Pireneus (Capra pyrenaica subsp. pyrenaica) era uma espécie de cabra de grandes chifres curvos e anelados, nativa das montanhas de mesmo nome entre a Espanha e a França. Seu habitat hostil à ocupação humana o manteve relativamente seguro até fins da Idade Média, escalando as montanhas na primavera, e descendo para pastar nas partes baixas no inverno. Porém, a caça combinada com a introdução de espécies domésticas reduziram sua população a 100 no começo do século XX. A espécie foi protegida e monitorada por muitos anos, mas o comprometimento do seu habitat, a disseminação de doenças e sua população criticamente reduzida impediram que ela se recuperasse, e o último indivíduo morreu em 2000 esmagado por uma árvore. A ciência tentou dar a sua contribuição: em 2003, o íbex dos pireneus foi escolhido para ser clonado, usando-se material coletado do último indivíduo vivo em 1999. O material genético foi introduzido em zigotos de cabras domésticas, e implantados em 208 fêmeas diferentes. Apenas uma gestação vingou. Em 2009 nasceu um filhote de íbex dos Pireneus, tornando-se o primeiro mamífero a ser "desextinto". Porém o filhote nasceu com má formação dos pulmões, e sobreviveu apenas por 7 minutos, causando a extinção da espécie pela segunda vez.
quinta-feira, 2 de julho de 2015
A Noite das Facas Longas
Entre 30 de junho e 2 de julho de 1934, esquadrões da SS e da Gestapo levaram a cabo a Operação Colibri, mais tarde conhecida como a Noite das Facas Longas, um extenso expurgo de alas do Partido Nazista não alinhadas com Adolf Hitler e outros opositores. Foi o último passo da escalada nazista ao poder supremo na Alemanha.
Um dos ítens do Tratado de Versailles assinado pelos participantes da Primeira Guerra Mundial era a limitação do exército alemão em 100 mil homens. Ex militares descontentes, ou desorientados com sua nova vida civil, se organizaram em milícias irregulares de mercenários conhecidas como Freikorps, que permaneceram em atividade durante todo o regime de Weimar, engajando-se ativamente em ações violentas contra ou a favor do novo governo alemão e seus apoiadores. Como também atuavam contra núcleos marxistas, o próprio governo se omitia em reprimí-los (o Ministério da Defesa empregou Freikorpse para reprimir a formação de um Estado soviético na Bavária em 1918, e eliminar o levante comunista liderado por Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo em 1919).
Na Alemanha pós-guerra surgiu um conceito muito particular de socialismo, o "Socialismo Prussiano", moldado por um sentimento fortemente anti-britânico, que rejeitava o liberalismo e a democracia parlamentarista, e advogava um socialismo dissociado do marxismo (que era um socialismo "britânico"), onde a igualdade entre os alemães emergiria não de rupturas econômicas e sociais entre burgueses e proletários, ou seja, da luta de classes, mas de qualidades coletivas romanticamente inerentes ao povo alemão - criatividade, disciplina, produtividade, preocupação com o bem maior, e auto sacrifício. A revolução socialista não passaria pela coletivização da propriedade privada, mas pelo corporativismo e o senso de responsabilidade coletiva, unidade e orgulho nacional. O ideólogo dessa modalidade de socialismo, Oswald Spengler, declarou ipsis literis: "Marx ist tot", Marx está morto.
O Socialismo Prussiano como chamado ao ultranacionalismo caiu como uma luva na Alemanha derrotada, e foi o trilho que orientou a ideologia da grande maioria das Freikorpse e associações políticas baseadas nelas. Entre elas, o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. É extremamente comum ver pessoas associando os nazistas aos "comunistas" porque o nome do partido inclui a palavra "Socialista" e sua bandeira a cor vermelha, e também marxistas incautos embaraçados tentando contornar o assunto desastradamente, mas a verdade é que o Nacional Socialismo, contraído na palavra "nazismo", refere-se ao Socialismo Prussiano virulentamente anti comunista e ultranacionalista (o marxismo é profundamente transnacional). As diretrizes nazistas quanto à unidade racial ariana derivam diretamente dessa doutrina - a unidade nacional só seria possível com a eliminação, voluntária ou forçada, de elementos estranhos à "raça alemã", os judeus, ciganos, eslavos, africanos, deficientes físicos e mentais, homossexuais, e grupos insubmissos como Testemunhas de Jeová e opositores políticos, como os próprios comunistas.
Houve um incidente nos primórdios do Partido Nacional Socialista, quando era o Partido dos Trabalhadores Alemães. Um de seus fundadores, Gottfried Fedder, terminou seu discurso no comitê em Munique, quando um convidado, um certo professor Baumann, argumentou que o programa do partido não se opunha propriamente ao capitalismo e que a Bavária devia se separar da Prússia e tomar seu próprio caminho. Adolf Hitler, originalmente um militar bávaro infiltrado, o rebateu com sua veemência oratória que lhe seria característica, conquistando a maioria presente, e expulsando o professor da reunião. Hitler foi abordado por outro fundador do partido, Anton Drexler, um rábico nacionalista e antissemita, e convidado a integrar as suas linhas. Hitler se tornaria o principal porta-voz do partido, e um dos idealizadores do seu programa oficial, um programa fundamentalmente antissemítico, anticapitalista, antidemocrático, antimarxista e antiliberal, ao mesmo tempo. No mesmo dia em que Hitler expunha esse programa a uma platéia de 2000 pessoas, o partido mudou de nome. O programa agregava Freikorpse dominadas por ideologias similares, incluindo membros notórios dessas facções, como Ernst Röhm e Heinrich Himmler. O grupo de Himmler (o "Batalhão de Choque da Baixa Bavária") foi inteiramente absorvido pelos nazistas.
Hitler se tornou líder do partido em 1921, após ameaçar abandoná-lo se não fosse instituído como tal no lugar de Drexler (outros líderes menos simpáticos a Hitler também foram expulsos). Ao mesmo tempo, uma Freikorps interna surgia no partido, os Camisas Marrons, ou SA (de "Sturmabteilung"), liderada por Röhm, que fazia o "trabalho sujo" de recrutamento e intimidação, enquanto Hitler se encarregava da política. Em 1923 a França ocupou a região do Ruhr, largamente industrializada, como parte do acordo pelo não ressarcimento pelos danos da Primeira Guerra pelo governo alemão, causando caos econômico no país. Com esse cenário, e sentindo a robustez do partido, Hitler tentou um golpe a partir de Munique, mas foi "traído" pelos militares que não apoiaram a revolta (apesar de algumas promessas) e foi preso. Na cadeia, escreveu no Mein Kampf sua visão indissociável de que a soberania alemã dependia da eliminação dos judeus (que ele acreditava serem os operadores do liberalismo europeu e americano que esmagavam a economia alemã, e ao mesmo tempo engendradores do marxismo, essa "perversão judaica").
Ao sair da cadeia, Hitler reformulou o Partido Nazista em torno de si mesmo, decidindo entrar no jogo democrático do período de Weimar. Ainda assim, a SA continuou operando de maneira semi-independente a favor dos nazistas. A SS (a polícia interna do partido) surgiu como uma espécie de segurança pessoal de Hitler, e acabaria assumindo, no limite da legalidade, alguns papéis da SA, porém com membros exclusivamente afiliados ao partido. Embora sem muito sucesso nas primeiras eleições (nas quais contestava abertamente os resultados oficiais), em parte por conta da relativa estabilidade econômica de meados dos anos 1920, o partido crescia graças a um trabalho primoroso de propaganda e uma estrutura rigorosamente eficiente de recrutamento.
Gregor Strasser, um antigo membro de uma Freikorps de extrema direita e ex-SA, participante da tentativa de golpe de 1923, era o encarregado da propaganda. Com sua capacidade de organização, foi responsável direto pelo fortalecimento dos nazistas fora da Bavária, em regiões menos desenvolvidas no norte e no leste, bem como Alemanha afora. Mas houve um detalhe. Seu irmão Otto, também político e membro do partido, tinha inclinações mais à esquerda, com uma visão ligeiramente mais ortodoxa do socialismo, acreditando na intervenção do Estado em ações baseadas na luta de classes em favor dos trabalhadores. Os dois, juntos, trabalhavam num jornal do partido, e como Otto atuava como jornalista, o teor do Berliner Arbeiterzeitung (e posteriormente de outro jornal dos irmãos, o Nationaler Sozialist) estava mais à esquerda do que a direção do partido pretendia. Otto foi expulso em 1930 e Gregor permaneceu no cargo, gozando de grande prestígio no núcleo nazista de Berlim. O novo secretário de propaganda, porém, passaria a ser Joseph Goebbels, que baniria o jornal dos irmãos Strasser. Hitler, então, veio a público para se opor à corrente de esquerda de Gregor (academicamente conhecida como Strasserismo).
Com a crise econômica do começo dos anos 1930, os nazistas deixaram de ter apenas uma militância forte para ganhar o apoio da classe média. Com uma representatividade significativa no parlamento alemão, o chanceler Kurt von Schleicher ofereceu a Gregor Strasser a vice-chancelaria, na esperança de que, alimentando a corrente de esquerda, ele desarticularia o Partido Nazista. Hitler ordenou que ele recusasse. Pouco depois Strasser deixou o partido.
Em 1932 Hitler perdeu a eleição presidencial para o velho conservador Paul von Hindenburg, que compôs com ele um governo de coalizão. Quatro semanas depois da nomeação de Hitler ao cargo de Chanceler, ocorreu um incêncio do parlamento, causado, segundo apurado na época, por um solitário comunista holandês (as dúvidas de que ele teria conseguido agir sozinho joga uma luz na possibilidade dos nazistas terem orquestrado o ato). Foi o pretexto para Hitler declarar que havia um golpe comunista à vista. Ele convenceu Hindenburg a suspender liberdades civis e a ordenar a prisão de todos os membros do Partido Comunista da Alemanha, inclusive os seus parlamentares. Sem franca oposição, Hitler passou a governar com o parlamento dominado pelos nazistas. Contudo, havia ainda dois empecilhos para exercer o poder político total. Além do Strasserismo, irradiado entre opositores dentro e fora do partido, ainda havia a SA.
A SA continuava operando clandestinamente em conluio com os nazistas na repressão violenta a manifestações contrárias ao regime. Contudo, ainda assim ela mantinha autonomia, por exemplo, no recrutamento: um relatório de 1933 denunciava que 70% dos recrutas eram ex comunistas, além de um grande número de homossexuais (inclusive Röhm), o que contrastava com o rigor quanto à afiliação ao Partido Nazista. Essa independência também significava que não havia financiamento oficial à corporação, obtido por extorsão a comerciantes e pagamento de resgates. Ernst Röhm levava a sério a veia "socialista" do Nacional Socialismo, cobrava reformas genuinamente socialistas do regime, e dizia que a revolução havia apenas começado. Sua visão à esquerda preocupava os industriais que financiavam o partido, e a autonomia da SA, cada vez maior e melhor armada, punha Hitler em conflito com o exército regular (ainda limitado pelo Tratado de Versailles). Hindenburg, aliado incondicional das forças armadas, pressionou Hitler para dar um fim à SA, sob a ameaça dissolver a chancelaria e decretar lei marcial. Hitler hesitava em agir contra seu amigo Röhm, mas a pressão política era insustentável.
Para eliminar Röhm, Strasser e outros dissidentes, os nazistas contaram com a SS (ao contrário da SA, extremamente disciplinada e sob estrito controle do círculo mais próximo a Hitler) e a Gestapo, o serviço secreto que os nazistas haviam aparelhado, e também estava sob controle cerrado. No final de junho Hitler se encontrou com Röhm em um resort perto de Munique, e ordenou sua prisão. Com os principais membros da SA presos, Hitler telefonou para Hermann Goering em Berlim e disse o código: "Colibri". Imediatamente, esquadrões da SS e da Gestapo localizaram, prenderam e executaram pelo menos 85 opositores, entre membros da SA, associados de Strasser (incluindo Gregor), políticos conservadores e alguns desafetos pessoais de Hitler (como o delegado que ordenou a sua prisão em 1921). Röhm também foi executado em sua cela com três tiros no peito, após ter recusado o suicídio. Havia uma lista prévia com os nomes destas pessoas marcadas para morrer. Um oficial da Gestapo dizia ter visto Hitler, de volta a Berlim, recebendo essa lista e conferindo os nomes um a um, enquanto Goering e Himmler descreviam ao seu ouvido como cada um foi executado.
Estima-se que mais de 100 pessoas, alguns por acidente, outros por conveniência, tenham sido mortas nos ataques que ficariam conhecidos como a Noite das Facas Longas. Os nazistas se encarregaram de amenizar o horror e a publicidade inevitável das execuções sumárias divulgando boatos de conspirações comunistas, ou sobre um suposto financiamento francês a Röhm (cuja sexualidade, conhecida desde o início pelo comando nazista, fora intencionalmente exposta) para assassinar Hitler. Documentos sobre a organização do ataque foram queimados. No dia 13 de julho Hitler discursou em rede nacional, onde alegou ter agido rapidamente como "o juiz supremo do povo alemão" para eliminar traidores e "cauterizar até a carne as úlceras" da nação para trazer novamente a ordem e a segurança, e alertar a todos que os que levantassem a mão contra o Estado encontrariam a morte. Sem oposição política (Hindenburg recebeu em seu gabinete um memorando solicitando sua intervenção junto à Suprema Corte para investigar as ações de Hitler, que ele ignorou), com apoio efusivo do empresariado alemão e do exército, e a opinião pública inabalada, a Alemanha chegou a um ponto sem volta.
P.S.: Ontem faleceu Sir Nicholas Winton, corretor de ações britânico que visitou a turismo a Tchecoslováquia semanas antes da ocupação nazista em 1938. Alertado por um amigo residente em Praga do que os judeus estariam sujeitos naquele país sob o nazismo, ele sozinho organizou a fuga e a adoção por famílias britânicas (atendendo às exigências da lei britânica) de 669 crianças judias, Ele conseguiu chegar de trem e embarcar as crianças clandestinamente na Holanda, então fechada para imigrantes judeus. Um último trem com 250 crianças foi interceptado antes de sair de Praga, quando a guerra já estava declarada. A maioria dos pais daquelas crianças morreu em Auschwitz.
Um dos ítens do Tratado de Versailles assinado pelos participantes da Primeira Guerra Mundial era a limitação do exército alemão em 100 mil homens. Ex militares descontentes, ou desorientados com sua nova vida civil, se organizaram em milícias irregulares de mercenários conhecidas como Freikorps, que permaneceram em atividade durante todo o regime de Weimar, engajando-se ativamente em ações violentas contra ou a favor do novo governo alemão e seus apoiadores. Como também atuavam contra núcleos marxistas, o próprio governo se omitia em reprimí-los (o Ministério da Defesa empregou Freikorpse para reprimir a formação de um Estado soviético na Bavária em 1918, e eliminar o levante comunista liderado por Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo em 1919).
Na Alemanha pós-guerra surgiu um conceito muito particular de socialismo, o "Socialismo Prussiano", moldado por um sentimento fortemente anti-britânico, que rejeitava o liberalismo e a democracia parlamentarista, e advogava um socialismo dissociado do marxismo (que era um socialismo "britânico"), onde a igualdade entre os alemães emergiria não de rupturas econômicas e sociais entre burgueses e proletários, ou seja, da luta de classes, mas de qualidades coletivas romanticamente inerentes ao povo alemão - criatividade, disciplina, produtividade, preocupação com o bem maior, e auto sacrifício. A revolução socialista não passaria pela coletivização da propriedade privada, mas pelo corporativismo e o senso de responsabilidade coletiva, unidade e orgulho nacional. O ideólogo dessa modalidade de socialismo, Oswald Spengler, declarou ipsis literis: "Marx ist tot", Marx está morto.
O Socialismo Prussiano como chamado ao ultranacionalismo caiu como uma luva na Alemanha derrotada, e foi o trilho que orientou a ideologia da grande maioria das Freikorpse e associações políticas baseadas nelas. Entre elas, o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. É extremamente comum ver pessoas associando os nazistas aos "comunistas" porque o nome do partido inclui a palavra "Socialista" e sua bandeira a cor vermelha, e também marxistas incautos embaraçados tentando contornar o assunto desastradamente, mas a verdade é que o Nacional Socialismo, contraído na palavra "nazismo", refere-se ao Socialismo Prussiano virulentamente anti comunista e ultranacionalista (o marxismo é profundamente transnacional). As diretrizes nazistas quanto à unidade racial ariana derivam diretamente dessa doutrina - a unidade nacional só seria possível com a eliminação, voluntária ou forçada, de elementos estranhos à "raça alemã", os judeus, ciganos, eslavos, africanos, deficientes físicos e mentais, homossexuais, e grupos insubmissos como Testemunhas de Jeová e opositores políticos, como os próprios comunistas.
Houve um incidente nos primórdios do Partido Nacional Socialista, quando era o Partido dos Trabalhadores Alemães. Um de seus fundadores, Gottfried Fedder, terminou seu discurso no comitê em Munique, quando um convidado, um certo professor Baumann, argumentou que o programa do partido não se opunha propriamente ao capitalismo e que a Bavária devia se separar da Prússia e tomar seu próprio caminho. Adolf Hitler, originalmente um militar bávaro infiltrado, o rebateu com sua veemência oratória que lhe seria característica, conquistando a maioria presente, e expulsando o professor da reunião. Hitler foi abordado por outro fundador do partido, Anton Drexler, um rábico nacionalista e antissemita, e convidado a integrar as suas linhas. Hitler se tornaria o principal porta-voz do partido, e um dos idealizadores do seu programa oficial, um programa fundamentalmente antissemítico, anticapitalista, antidemocrático, antimarxista e antiliberal, ao mesmo tempo. No mesmo dia em que Hitler expunha esse programa a uma platéia de 2000 pessoas, o partido mudou de nome. O programa agregava Freikorpse dominadas por ideologias similares, incluindo membros notórios dessas facções, como Ernst Röhm e Heinrich Himmler. O grupo de Himmler (o "Batalhão de Choque da Baixa Bavária") foi inteiramente absorvido pelos nazistas.
Hitler se tornou líder do partido em 1921, após ameaçar abandoná-lo se não fosse instituído como tal no lugar de Drexler (outros líderes menos simpáticos a Hitler também foram expulsos). Ao mesmo tempo, uma Freikorps interna surgia no partido, os Camisas Marrons, ou SA (de "Sturmabteilung"), liderada por Röhm, que fazia o "trabalho sujo" de recrutamento e intimidação, enquanto Hitler se encarregava da política. Em 1923 a França ocupou a região do Ruhr, largamente industrializada, como parte do acordo pelo não ressarcimento pelos danos da Primeira Guerra pelo governo alemão, causando caos econômico no país. Com esse cenário, e sentindo a robustez do partido, Hitler tentou um golpe a partir de Munique, mas foi "traído" pelos militares que não apoiaram a revolta (apesar de algumas promessas) e foi preso. Na cadeia, escreveu no Mein Kampf sua visão indissociável de que a soberania alemã dependia da eliminação dos judeus (que ele acreditava serem os operadores do liberalismo europeu e americano que esmagavam a economia alemã, e ao mesmo tempo engendradores do marxismo, essa "perversão judaica").
Ao sair da cadeia, Hitler reformulou o Partido Nazista em torno de si mesmo, decidindo entrar no jogo democrático do período de Weimar. Ainda assim, a SA continuou operando de maneira semi-independente a favor dos nazistas. A SS (a polícia interna do partido) surgiu como uma espécie de segurança pessoal de Hitler, e acabaria assumindo, no limite da legalidade, alguns papéis da SA, porém com membros exclusivamente afiliados ao partido. Embora sem muito sucesso nas primeiras eleições (nas quais contestava abertamente os resultados oficiais), em parte por conta da relativa estabilidade econômica de meados dos anos 1920, o partido crescia graças a um trabalho primoroso de propaganda e uma estrutura rigorosamente eficiente de recrutamento.
Gregor Strasser, um antigo membro de uma Freikorps de extrema direita e ex-SA, participante da tentativa de golpe de 1923, era o encarregado da propaganda. Com sua capacidade de organização, foi responsável direto pelo fortalecimento dos nazistas fora da Bavária, em regiões menos desenvolvidas no norte e no leste, bem como Alemanha afora. Mas houve um detalhe. Seu irmão Otto, também político e membro do partido, tinha inclinações mais à esquerda, com uma visão ligeiramente mais ortodoxa do socialismo, acreditando na intervenção do Estado em ações baseadas na luta de classes em favor dos trabalhadores. Os dois, juntos, trabalhavam num jornal do partido, e como Otto atuava como jornalista, o teor do Berliner Arbeiterzeitung (e posteriormente de outro jornal dos irmãos, o Nationaler Sozialist) estava mais à esquerda do que a direção do partido pretendia. Otto foi expulso em 1930 e Gregor permaneceu no cargo, gozando de grande prestígio no núcleo nazista de Berlim. O novo secretário de propaganda, porém, passaria a ser Joseph Goebbels, que baniria o jornal dos irmãos Strasser. Hitler, então, veio a público para se opor à corrente de esquerda de Gregor (academicamente conhecida como Strasserismo).
Com a crise econômica do começo dos anos 1930, os nazistas deixaram de ter apenas uma militância forte para ganhar o apoio da classe média. Com uma representatividade significativa no parlamento alemão, o chanceler Kurt von Schleicher ofereceu a Gregor Strasser a vice-chancelaria, na esperança de que, alimentando a corrente de esquerda, ele desarticularia o Partido Nazista. Hitler ordenou que ele recusasse. Pouco depois Strasser deixou o partido.
Em 1932 Hitler perdeu a eleição presidencial para o velho conservador Paul von Hindenburg, que compôs com ele um governo de coalizão. Quatro semanas depois da nomeação de Hitler ao cargo de Chanceler, ocorreu um incêncio do parlamento, causado, segundo apurado na época, por um solitário comunista holandês (as dúvidas de que ele teria conseguido agir sozinho joga uma luz na possibilidade dos nazistas terem orquestrado o ato). Foi o pretexto para Hitler declarar que havia um golpe comunista à vista. Ele convenceu Hindenburg a suspender liberdades civis e a ordenar a prisão de todos os membros do Partido Comunista da Alemanha, inclusive os seus parlamentares. Sem franca oposição, Hitler passou a governar com o parlamento dominado pelos nazistas. Contudo, havia ainda dois empecilhos para exercer o poder político total. Além do Strasserismo, irradiado entre opositores dentro e fora do partido, ainda havia a SA.
A SA continuava operando clandestinamente em conluio com os nazistas na repressão violenta a manifestações contrárias ao regime. Contudo, ainda assim ela mantinha autonomia, por exemplo, no recrutamento: um relatório de 1933 denunciava que 70% dos recrutas eram ex comunistas, além de um grande número de homossexuais (inclusive Röhm), o que contrastava com o rigor quanto à afiliação ao Partido Nazista. Essa independência também significava que não havia financiamento oficial à corporação, obtido por extorsão a comerciantes e pagamento de resgates. Ernst Röhm levava a sério a veia "socialista" do Nacional Socialismo, cobrava reformas genuinamente socialistas do regime, e dizia que a revolução havia apenas começado. Sua visão à esquerda preocupava os industriais que financiavam o partido, e a autonomia da SA, cada vez maior e melhor armada, punha Hitler em conflito com o exército regular (ainda limitado pelo Tratado de Versailles). Hindenburg, aliado incondicional das forças armadas, pressionou Hitler para dar um fim à SA, sob a ameaça dissolver a chancelaria e decretar lei marcial. Hitler hesitava em agir contra seu amigo Röhm, mas a pressão política era insustentável.
Para eliminar Röhm, Strasser e outros dissidentes, os nazistas contaram com a SS (ao contrário da SA, extremamente disciplinada e sob estrito controle do círculo mais próximo a Hitler) e a Gestapo, o serviço secreto que os nazistas haviam aparelhado, e também estava sob controle cerrado. No final de junho Hitler se encontrou com Röhm em um resort perto de Munique, e ordenou sua prisão. Com os principais membros da SA presos, Hitler telefonou para Hermann Goering em Berlim e disse o código: "Colibri". Imediatamente, esquadrões da SS e da Gestapo localizaram, prenderam e executaram pelo menos 85 opositores, entre membros da SA, associados de Strasser (incluindo Gregor), políticos conservadores e alguns desafetos pessoais de Hitler (como o delegado que ordenou a sua prisão em 1921). Röhm também foi executado em sua cela com três tiros no peito, após ter recusado o suicídio. Havia uma lista prévia com os nomes destas pessoas marcadas para morrer. Um oficial da Gestapo dizia ter visto Hitler, de volta a Berlim, recebendo essa lista e conferindo os nomes um a um, enquanto Goering e Himmler descreviam ao seu ouvido como cada um foi executado.
Estima-se que mais de 100 pessoas, alguns por acidente, outros por conveniência, tenham sido mortas nos ataques que ficariam conhecidos como a Noite das Facas Longas. Os nazistas se encarregaram de amenizar o horror e a publicidade inevitável das execuções sumárias divulgando boatos de conspirações comunistas, ou sobre um suposto financiamento francês a Röhm (cuja sexualidade, conhecida desde o início pelo comando nazista, fora intencionalmente exposta) para assassinar Hitler. Documentos sobre a organização do ataque foram queimados. No dia 13 de julho Hitler discursou em rede nacional, onde alegou ter agido rapidamente como "o juiz supremo do povo alemão" para eliminar traidores e "cauterizar até a carne as úlceras" da nação para trazer novamente a ordem e a segurança, e alertar a todos que os que levantassem a mão contra o Estado encontrariam a morte. Sem oposição política (Hindenburg recebeu em seu gabinete um memorando solicitando sua intervenção junto à Suprema Corte para investigar as ações de Hitler, que ele ignorou), com apoio efusivo do empresariado alemão e do exército, e a opinião pública inabalada, a Alemanha chegou a um ponto sem volta.
P.S.: Ontem faleceu Sir Nicholas Winton, corretor de ações britânico que visitou a turismo a Tchecoslováquia semanas antes da ocupação nazista em 1938. Alertado por um amigo residente em Praga do que os judeus estariam sujeitos naquele país sob o nazismo, ele sozinho organizou a fuga e a adoção por famílias britânicas (atendendo às exigências da lei britânica) de 669 crianças judias, Ele conseguiu chegar de trem e embarcar as crianças clandestinamente na Holanda, então fechada para imigrantes judeus. Um último trem com 250 crianças foi interceptado antes de sair de Praga, quando a guerra já estava declarada. A maioria dos pais daquelas crianças morreu em Auschwitz.
quarta-feira, 1 de julho de 2015
Então eles vieram por mim
Em 01 de julho de 1937 o pastor luterano Martin Niemöller foi preso, acusado de "atividades contra o Estado" pelo regime nazista.
O reverendo Niemöller era um conservador e um nacionalista notório, como eram de maneira geral os líderes das igrejas luteranas alemãs. Diante da campanha ultranacionalista que levou o partido nazista ao poder em 1933, ele deu as boas vindas ao novo chanceler Adolph Hitler. Ele apoiava a perseguição aos comunistas (que ele via como promotores do ateísmo) e deixava transparecer opiniões antissemitas em seus sermões, embora ele discordasse das políticas racistas contra a etnia em si, protegendo judeus convertidos ou cristãos filhos de judeus na sua igreja.
O ponto de tensão entre Niemöller e o programa nazista veio desse detalhe. Niemöller, junto com outros pastores protestantes, se opunha à perseguição determinada por raça, uma vez que suas igrejas abrigavam fiéis de todas as etnias, inclusive de origem judaica. Em 1934 ele ajudou a fundar a Igreja Congregacional em resposta à pressão do governo em "nazificar" as igrejas protestantes. Essa exigência do governo batia de frente com uma promessa que Hitler lhe fez pessoalmente antes de se tornar chanceler de que protegeria a igreja e que não haveria aprisionamentos e confinamento de judeus na Alemanha. No entanto, até pelo menos 1935, o reverendo ainda atacava os judeus de fé, insinuando em pregações que eles estavam sofrendo um castigo merecido.
A sua atitude ambivalente, possivelmente uma aposta dupla em pretos e vermelhos, acabou dando errado. A sua resistência em levar para as igrejas o programa nazista acabou levando-o para a prisão. Depois de 8 meses encarcerado, ele foi condenado a 7 meses de prisão e multa. Como ele já havia cumprido o termo em prisão provisória, foi liberado imediatamente sob pagamento de multa. Mas ao deixar o tribunal, foi novamente preso por agentes da Gestapo e conduzido ao campo de concentração de Sachsenhausen.
Confinado junto a outros presos políticos cujas prisões ele apoiara antes, sujeito agora às mesmas privações, violências, e vendo suas vidas ceifadas sem qualquer piedade, Niemöller refletiu profundamente sobre suas atitudes e reconheceu o erro em apoiar Hitler. Eventualmente ele seria transferido para o campo de Dachau, e de lá, em 1945, seria transportado para a Áustria, mas o transporte foi abandonado pela SS em vista do crescente avanço aliado em direção à Alemanha. Ali ele foi libertado.
A partir de 1946, Niemöller passou a pedir perdão pela sua inação diante dos abusos dos nazistas contra determinados setores do povo alemão, admitindo sua própria culpa e exortando os demais alemães a fazerem o mesmo. Foi dele a iniciativa da Declaração de Stuttgart, em que as igrejas protestantes assumem a responsabilidade de não protegerem as pessoas da violência do Estado. O reverendo ainda se tornaria um ativista do pacifismo, a favor do desarmamento nuclear e contra a Guerra do Vietnã.
O reconhecimento da responsabilidade civil de proteger o direito do cidadão como o seu próprio é sintetizado no célebre poema de sua autoria, derivado das suas pregações, e que os usuários do facebook já devem ter lido com alguma autoria apócrifa, preferencialmente de Berthold Brecht... Esse não é o poema demagogo de algum "esquerdopata", nem uma modinha da "esquerda caviar" de se condoer por pessoas com quem realmente não se importam tanto assim. É a confissão de alguém que achava que estava por cima da carne seca e que não devia nada a ninguém, até que seus aliados se voltaram contra ele e lhe tiraram tudo, como ele mesmo havia permitido que fizessem com quem ele pensava que merecia:
"Primeiro eles vieram pelos socialistas, mas eu não me opus-
Porque eu não era um socialista.
Então eles vieram pelos sindicalistas, e eu não me opus-
Porque eu não era um sindicalista.
Então eles vieram pelos judeus, e eu não me opus-
Porque eu não era um judeu.
Então eles vieram por mim - e não havia mais ninguém para falar por mim."
O reverendo Niemöller era um conservador e um nacionalista notório, como eram de maneira geral os líderes das igrejas luteranas alemãs. Diante da campanha ultranacionalista que levou o partido nazista ao poder em 1933, ele deu as boas vindas ao novo chanceler Adolph Hitler. Ele apoiava a perseguição aos comunistas (que ele via como promotores do ateísmo) e deixava transparecer opiniões antissemitas em seus sermões, embora ele discordasse das políticas racistas contra a etnia em si, protegendo judeus convertidos ou cristãos filhos de judeus na sua igreja.
O ponto de tensão entre Niemöller e o programa nazista veio desse detalhe. Niemöller, junto com outros pastores protestantes, se opunha à perseguição determinada por raça, uma vez que suas igrejas abrigavam fiéis de todas as etnias, inclusive de origem judaica. Em 1934 ele ajudou a fundar a Igreja Congregacional em resposta à pressão do governo em "nazificar" as igrejas protestantes. Essa exigência do governo batia de frente com uma promessa que Hitler lhe fez pessoalmente antes de se tornar chanceler de que protegeria a igreja e que não haveria aprisionamentos e confinamento de judeus na Alemanha. No entanto, até pelo menos 1935, o reverendo ainda atacava os judeus de fé, insinuando em pregações que eles estavam sofrendo um castigo merecido.
A sua atitude ambivalente, possivelmente uma aposta dupla em pretos e vermelhos, acabou dando errado. A sua resistência em levar para as igrejas o programa nazista acabou levando-o para a prisão. Depois de 8 meses encarcerado, ele foi condenado a 7 meses de prisão e multa. Como ele já havia cumprido o termo em prisão provisória, foi liberado imediatamente sob pagamento de multa. Mas ao deixar o tribunal, foi novamente preso por agentes da Gestapo e conduzido ao campo de concentração de Sachsenhausen.
Confinado junto a outros presos políticos cujas prisões ele apoiara antes, sujeito agora às mesmas privações, violências, e vendo suas vidas ceifadas sem qualquer piedade, Niemöller refletiu profundamente sobre suas atitudes e reconheceu o erro em apoiar Hitler. Eventualmente ele seria transferido para o campo de Dachau, e de lá, em 1945, seria transportado para a Áustria, mas o transporte foi abandonado pela SS em vista do crescente avanço aliado em direção à Alemanha. Ali ele foi libertado.
A partir de 1946, Niemöller passou a pedir perdão pela sua inação diante dos abusos dos nazistas contra determinados setores do povo alemão, admitindo sua própria culpa e exortando os demais alemães a fazerem o mesmo. Foi dele a iniciativa da Declaração de Stuttgart, em que as igrejas protestantes assumem a responsabilidade de não protegerem as pessoas da violência do Estado. O reverendo ainda se tornaria um ativista do pacifismo, a favor do desarmamento nuclear e contra a Guerra do Vietnã.
O reconhecimento da responsabilidade civil de proteger o direito do cidadão como o seu próprio é sintetizado no célebre poema de sua autoria, derivado das suas pregações, e que os usuários do facebook já devem ter lido com alguma autoria apócrifa, preferencialmente de Berthold Brecht... Esse não é o poema demagogo de algum "esquerdopata", nem uma modinha da "esquerda caviar" de se condoer por pessoas com quem realmente não se importam tanto assim. É a confissão de alguém que achava que estava por cima da carne seca e que não devia nada a ninguém, até que seus aliados se voltaram contra ele e lhe tiraram tudo, como ele mesmo havia permitido que fizessem com quem ele pensava que merecia:
"Primeiro eles vieram pelos socialistas, mas eu não me opus-
Porque eu não era um socialista.
Então eles vieram pelos sindicalistas, e eu não me opus-
Porque eu não era um sindicalista.
Então eles vieram pelos judeus, e eu não me opus-
Porque eu não era um judeu.
Então eles vieram por mim - e não havia mais ninguém para falar por mim."
terça-feira, 30 de junho de 2015
A Teoria da Relatividade
No dia 30 de junho de 1905 Albert Einstein publicou seu artigo intitulado "Zur Elektrodynamik bewegter Körper", na décima sétima edição do periódico Annalen der Physik. Neste artigo Einstein expõe sua Teoria da Relatividade Especial.
A partir do último quartel do século XIX, a Física e a Química viram avanços estupendos. Começando em 1873, Maxwell lança as bases sobre o eletromagnetismo. Tubos catódicos, a descoberta do raio-X e da radioatividade, dos elétrons e um modelo atômico fluído (o "pudim com passas" de Thomson, sucedido depois pelo modelo nucleado de Rutherford), emissões de corpos negros, descoberta de novos elementos químicos. Tudo aconteceu muito rápido, e todas essas descobertas seriam fundamentais para os avanços técnicos e científicos alcançados do século XX até hoje. Nomes como Mendeleev, Maxwell, Planck, Lorentz e Curie eram celebridades globais.
Contudo, o olho humano só consegue focar numa coisa de cada vez. Wilhelm Röntgen, por exemplo, descobriu o raio-X sem saber que se tratava de uma emissão de energia de alta frequência desprendida de um núcleo atômico instável em decaimento - a emissão derivada da instabilidade do núcleo, e a própria noção de núcleo atômico ainda não estavam formadas. Marie Curie passou anos fazendo experiências com radiação sem saber dos seus efeitos nocivos sobre o DNA. Darwin lançou as sua teoria da evolução das espécies pouco antes de Gregory Mendel escrever sobre hereditariedade, e um nunca teve contato com o trabalho do outro. A ciência produzia uma avalanche de resultados de obervações experimentais em campo ou laboratório de fenômenos naturais que demandavam teorias para dar sentido a tudo, o que se tornaria o meio perfeito para a proliferação de teóricos como Einstein.
1905 é o "Ano Milagroso" da Física. Neste ano Albert Einstein publicaria quatro artigos que revolucionariam a ciência para sempre. Einstein ainda era um funcionário num escritório de patentes em Berna, e seu acesso aos trabalhos científicos mais recentes, bem como seu acesso aos círculos científicos era restrito, o que torna o advento das suas teorias algo espantoso.
No primeiro artigo, de março, sobre o efeito fotoelétrico, ele lança a ideia de que a luz não é uma onda que viaja a esmo pelo espaço e pode ser dissipada infinitamente, mas um feixe de fótons, unidades indivisíveis de energia. A incidência de um feixe de luz de alta energia sobre um corpo seria capaz de ceder energia suficiente aos elétrons na sua superfície para que eles escapem. A ideia do fóton e do quantum de energia seriam as bases para a Física Quântica, que, curiosamente, seria superficialmente vista como oposta ou antagonista do modelo relativístico de universo que Einstein estava prestes a teorizar. Foi seu trabalho com o efeito fotoelétrico que lhe rendeu um Prêmio Nobel de Física em 1921.
O segundo artigo do ano foi sobre os Movimentos Brownianos, submetido a publicação em maio. O botânico Robert Brown, décadas antes, descreveu o movimento errático de pequenas partículas suspensas em líquido enquanto observava grãos de pólen num microscópio. Esse movimento errático não podia ser explicado satisfatoriamente com a mecânica newtoniana, porque o movimento podia ser tanto descendente como ascendente. Einstein supõe que partículas muito pequenas podem ter sua trajetória influenciada pela interação e colisão de partículas ainda mais elementares (átomos e moléculas), além de estabelecer um arcabouço teórico para descrever esse movimento. Até então o átomo era apenas um modelo teórico útil, e a explicação de Einstein provava a sua existência.
No terceiro, Einstein considera as equações de Maxwell sobre eletromagnetismo - que produzem resultados distintos sobre a interação entre ímãs e condutores quando aplicadas do ponto de vista de um ou do outro, embora o resultado prático seja o mesmo. Einstein então postula que todo fenômeno físico (inclusive o tempo) só pode ser descrito a partir de um ponto referencial inercial, para o qual as leis da Física são constantes. E que a luz tem velocidade constante c (cerca de 300000 km/s) para o observador inercial independente da velocidade do seu emissor ou do seu receptor.
No quarto trabalho, de novembro, Einstein discute que todo corpo massivo possui uma energia de repouso, ou uma quantidade total de energia inerente à sua massa. Essa energia de repouso de um corpo pode ser calculada multiplicando-se a massa pela velocidade da luz ao quadrado, traduzido da famosa equação E=mc².
Assim que publicou a Teoria da Relatividade Especial, Einstein se deteve na questão da permanência das leis físicas sob um observador inercial e da constância da velocidade da luz, pensando em como a luz poderia manter a velocidade constante quando o observador está em movimento acelerado, e as consequências disso. Demorou 10 anos, mas ao final desse tempo ele viria com a Teoria da Relatividade Geral, lançando a noção do espaço-tempo, uma quarta dimensão do universo que é distorcida sob a influência de corpos massivos, complementando, assim, a teoria da gravitação universal de Newton, e as observações práticas de desvios de feixes de luz ao passar perto de estrelas, planetas e buracos negros, a decomposição gravitacional da luz, a dilatação gravitacional do tempo. A confirmação da sua tese do espaço-tempo e a confirmação experimental das suas equações de campo viriam depois, com a observação dos desvios da luz de estrelas conhecidas ao passar pelo sol durante eclipses solares.
Einstein produziu tantas novidades em tão pouco tempo, algumas estruturadas em equações dificílimas de seres resolvidas, outras que exigem um pensamento abstrato muito complexo para serem compreendidas, que até hoje mesmo os estudantes de Física e alguns professores precisam se esforçar para compreender. A Física Relativística, no entanto, tem uma limitação. Ela consegue explicar fenômenos físicos em grande escala. A distorção do espaço-tempo pode ser observada ao redor de objetos maiores do que planetas, mas para objetos menores, como o corpo humano ou o átomo, isso é insignificante. Especialmente do ponto de vista do átomo, os modelos da Física Quântica são os mais apropriados para entender os seus fenômenos, sua estruturação e propriedades. Físicos quânticos como Neils Bohr esperavam que existisse nos seus modelos uma brecha para explicar os fenômenos descritos por Einstein, assim como Einstein esperava que sua Física Relativística pudesse ser adequada para explicar o nano universo. Até hoje essa "Teoria de Tudo" ainda não foi elaborada com sucesso.
A partir do último quartel do século XIX, a Física e a Química viram avanços estupendos. Começando em 1873, Maxwell lança as bases sobre o eletromagnetismo. Tubos catódicos, a descoberta do raio-X e da radioatividade, dos elétrons e um modelo atômico fluído (o "pudim com passas" de Thomson, sucedido depois pelo modelo nucleado de Rutherford), emissões de corpos negros, descoberta de novos elementos químicos. Tudo aconteceu muito rápido, e todas essas descobertas seriam fundamentais para os avanços técnicos e científicos alcançados do século XX até hoje. Nomes como Mendeleev, Maxwell, Planck, Lorentz e Curie eram celebridades globais.
Contudo, o olho humano só consegue focar numa coisa de cada vez. Wilhelm Röntgen, por exemplo, descobriu o raio-X sem saber que se tratava de uma emissão de energia de alta frequência desprendida de um núcleo atômico instável em decaimento - a emissão derivada da instabilidade do núcleo, e a própria noção de núcleo atômico ainda não estavam formadas. Marie Curie passou anos fazendo experiências com radiação sem saber dos seus efeitos nocivos sobre o DNA. Darwin lançou as sua teoria da evolução das espécies pouco antes de Gregory Mendel escrever sobre hereditariedade, e um nunca teve contato com o trabalho do outro. A ciência produzia uma avalanche de resultados de obervações experimentais em campo ou laboratório de fenômenos naturais que demandavam teorias para dar sentido a tudo, o que se tornaria o meio perfeito para a proliferação de teóricos como Einstein.
1905 é o "Ano Milagroso" da Física. Neste ano Albert Einstein publicaria quatro artigos que revolucionariam a ciência para sempre. Einstein ainda era um funcionário num escritório de patentes em Berna, e seu acesso aos trabalhos científicos mais recentes, bem como seu acesso aos círculos científicos era restrito, o que torna o advento das suas teorias algo espantoso.
No primeiro artigo, de março, sobre o efeito fotoelétrico, ele lança a ideia de que a luz não é uma onda que viaja a esmo pelo espaço e pode ser dissipada infinitamente, mas um feixe de fótons, unidades indivisíveis de energia. A incidência de um feixe de luz de alta energia sobre um corpo seria capaz de ceder energia suficiente aos elétrons na sua superfície para que eles escapem. A ideia do fóton e do quantum de energia seriam as bases para a Física Quântica, que, curiosamente, seria superficialmente vista como oposta ou antagonista do modelo relativístico de universo que Einstein estava prestes a teorizar. Foi seu trabalho com o efeito fotoelétrico que lhe rendeu um Prêmio Nobel de Física em 1921.
O segundo artigo do ano foi sobre os Movimentos Brownianos, submetido a publicação em maio. O botânico Robert Brown, décadas antes, descreveu o movimento errático de pequenas partículas suspensas em líquido enquanto observava grãos de pólen num microscópio. Esse movimento errático não podia ser explicado satisfatoriamente com a mecânica newtoniana, porque o movimento podia ser tanto descendente como ascendente. Einstein supõe que partículas muito pequenas podem ter sua trajetória influenciada pela interação e colisão de partículas ainda mais elementares (átomos e moléculas), além de estabelecer um arcabouço teórico para descrever esse movimento. Até então o átomo era apenas um modelo teórico útil, e a explicação de Einstein provava a sua existência.
No terceiro, Einstein considera as equações de Maxwell sobre eletromagnetismo - que produzem resultados distintos sobre a interação entre ímãs e condutores quando aplicadas do ponto de vista de um ou do outro, embora o resultado prático seja o mesmo. Einstein então postula que todo fenômeno físico (inclusive o tempo) só pode ser descrito a partir de um ponto referencial inercial, para o qual as leis da Física são constantes. E que a luz tem velocidade constante c (cerca de 300000 km/s) para o observador inercial independente da velocidade do seu emissor ou do seu receptor.
No quarto trabalho, de novembro, Einstein discute que todo corpo massivo possui uma energia de repouso, ou uma quantidade total de energia inerente à sua massa. Essa energia de repouso de um corpo pode ser calculada multiplicando-se a massa pela velocidade da luz ao quadrado, traduzido da famosa equação E=mc².
Assim que publicou a Teoria da Relatividade Especial, Einstein se deteve na questão da permanência das leis físicas sob um observador inercial e da constância da velocidade da luz, pensando em como a luz poderia manter a velocidade constante quando o observador está em movimento acelerado, e as consequências disso. Demorou 10 anos, mas ao final desse tempo ele viria com a Teoria da Relatividade Geral, lançando a noção do espaço-tempo, uma quarta dimensão do universo que é distorcida sob a influência de corpos massivos, complementando, assim, a teoria da gravitação universal de Newton, e as observações práticas de desvios de feixes de luz ao passar perto de estrelas, planetas e buracos negros, a decomposição gravitacional da luz, a dilatação gravitacional do tempo. A confirmação da sua tese do espaço-tempo e a confirmação experimental das suas equações de campo viriam depois, com a observação dos desvios da luz de estrelas conhecidas ao passar pelo sol durante eclipses solares.
Einstein produziu tantas novidades em tão pouco tempo, algumas estruturadas em equações dificílimas de seres resolvidas, outras que exigem um pensamento abstrato muito complexo para serem compreendidas, que até hoje mesmo os estudantes de Física e alguns professores precisam se esforçar para compreender. A Física Relativística, no entanto, tem uma limitação. Ela consegue explicar fenômenos físicos em grande escala. A distorção do espaço-tempo pode ser observada ao redor de objetos maiores do que planetas, mas para objetos menores, como o corpo humano ou o átomo, isso é insignificante. Especialmente do ponto de vista do átomo, os modelos da Física Quântica são os mais apropriados para entender os seus fenômenos, sua estruturação e propriedades. Físicos quânticos como Neils Bohr esperavam que existisse nos seus modelos uma brecha para explicar os fenômenos descritos por Einstein, assim como Einstein esperava que sua Física Relativística pudesse ser adequada para explicar o nano universo. Até hoje essa "Teoria de Tudo" ainda não foi elaborada com sucesso.
segunda-feira, 29 de junho de 2015
As mortes de Rasputin
Em 29 de junho de 1914, uma moça chamada Khioniya Guseva, possivelmente com problemas mentais, tentou assassinar Grigori Rasputin na sua aldeia natal, na Sibéria. Mal sabia ela que o tal Rasputin era um sujeito difícil de se matar.
Rasputin surgiu na cena política da Rússia imperial logo após a derrota russa na guerra Russo-Japonesa de 1905. Com uma reputação de homem santo, Rasputin foi apresentado pela primeira vez ao Tsar Nicolau II. Em 1906 ele teria visitado a vida da filha do Primeiro Ministro, cujos filhos morreram num atentado recente, o que lhe teria trazido grande conforto. Em 1907, ganhou o favor do Tsar ao supostamente curar o príncipe Alexei da sua hemofilia com poderes espirituais (seja lá o que fez não o curou propriamente, mas o ajudou de alguma forma a superar várias crises que poderiam ter sido fatais). A partir de 1914 ele se tornaria a voz mais influente da corte imperial, e, com o Tsar à frente do exército contra a Alemanha, a posição de Rasputin se tornou mais central do que nunca. Ele era um camponês da Sibéria com pesado sotaque, que não cortava o cabelo, não fazia a barba, não tomava banho, e tinha a família imperial nas mãos. Isso suscitou muitas rivalidades.
O caso de Guseva foi pontual. Fascinada por figuras religiosas, ela teria se tornado seguidora do monge Iliodor, um inimigo público de Rasputin e uma das fontes que, por exemplo, sugeriam seu relacionamento amoroso com a Tsarina Alexandra. Guseva o teria seguido por alguns meses até localizá-lo na sua aldeia natal, onde visitava sua família. Ela o atacou enquanto estava lendo um telegrama do lado de fora de uma agência de correios, perfurando seu abdômen com uma lâmina de meio metro de comprimento. Embora ela tivesse gritado "Matei o Anticristo!", Rasputin conseguiu se recuperar e fugiu correndo, tendo ainda disposição para pegar um pedaço de pau e golpear o rosto da agressora. Embora as agências de notícia da época tenham-no dado como morto, ele foi operado naquela noite, se recuperando depois de alguns meses. O monge Iliodor, que nada teve a ver com o atentado, fugiu para a Noruega disfarçado de mulher.
As circunstâncias do assassinato de Rasputin em 1916 são nebulosas, já que a polícia foi praticamente impedida de investigá-lo, pois, aparentemente, pessoas importantes estavam envolvidas. Além disso, grande parte da documentação foi destruída pelos soviéticos. O que se sabe hoje é a coleção de estudos feitos ao longo dos anos baseado em depoimentos e reportagens de época, fotos do corpo e pesquisa de documentos. Mas tudo converge para uma sequência impressionante de acontecimentos:
Rasputin teria sido convidado em dezembro a visitar Felix Yusupov, marido da sobrinha do Tsar, em seu palácio em São Petersburgo. Eles chegaram lá depois da meia noite e se acomodaram em sua adega. Primeiro Rasputin teria tomado chá com um pedaço de bolo contendo cianeto. Após saborear o doce (sua filha duvidava que ele tivesse comido o bolo, pois ele evitava doces desde que fora ferido no estômago), ele teria discutido com Yusupov sobre ocultismo, espiritualidade e política. O cianeto, que devia sufocá-lo em minutos, não surtiu efeito.
Como, de qualquer forma, Rasputin não dava sinais de intoxicação, o anfitrião então lhe ofereceu uma seleção de vinhos doces, que Rasputin passara a apreciar avidamente depois do seu atentado. Quando percebeu que o místico estava embriagado, Yusupov subiu as escadas e retornou com o revólver de um colega escondido no andar de cima (haveria uma meia dúzia de conspiradores escondidos no palácio naquela noite). Ele atirou à queima roupa no peito, a bala perfurando estômago, fígado e saindo do lado direito do corpo. Rasputin caiu sobre um tapete de urso branco. Com o tiro, os conspiradores teriam saído de seu esconderijo escada acima e deveriam estar discutindo o que fazer com o corpo.
Mas Rasputin não estava morto! Ele abriu os olhos e se levantou, ciente de que havia caído numa armadilha, e tentou fugir. Ele galgou as mesmas escadas, tentando sair da adega em direção ao jardim. Alarmado pelo barulho, um dos conspiradores apareceu e o alvejou mais uma vez, desta vez a bala se alojando na sua espinha. Ele caiu sobre a neve e foi arrastado de volta para dentro do palácio. Yusupov, nervoso, ainda chutou seu rosto a ponto de estourar um olho. Como o corpo ainda se movesse, um terceiro conspirador encostou o cano do revólver na sua testa e disparou.
A essa altura a polícia já estava questionando o que acontecia, e os assassinos precisavam se desfazer do corpo rapidamente. Eles o vestiram com seu casaco de peles, botas e luvas e saíram do palácio abraçados até o carro, para dar a impressão de que Rasputin saiu tão bem como entrou. Eles amarraram punhos e tornozelos e atiraram o corpo de uma ponte, mas seu casaco se encheu de ar, impedindo que ele afundasse.
O corpo foi encontrado dois dias depois, congelado, com as mãos desamarradas. É possível que Rasputin ainda tivesse retido alguma consciência e tentado escapar, para, depois de envenenado, baleado três vezes (inclusive na cabeça), espancado, amarrado, e jogado de uma ponte num rio congelado, morrer de hipotermia.
Rasputin surgiu na cena política da Rússia imperial logo após a derrota russa na guerra Russo-Japonesa de 1905. Com uma reputação de homem santo, Rasputin foi apresentado pela primeira vez ao Tsar Nicolau II. Em 1906 ele teria visitado a vida da filha do Primeiro Ministro, cujos filhos morreram num atentado recente, o que lhe teria trazido grande conforto. Em 1907, ganhou o favor do Tsar ao supostamente curar o príncipe Alexei da sua hemofilia com poderes espirituais (seja lá o que fez não o curou propriamente, mas o ajudou de alguma forma a superar várias crises que poderiam ter sido fatais). A partir de 1914 ele se tornaria a voz mais influente da corte imperial, e, com o Tsar à frente do exército contra a Alemanha, a posição de Rasputin se tornou mais central do que nunca. Ele era um camponês da Sibéria com pesado sotaque, que não cortava o cabelo, não fazia a barba, não tomava banho, e tinha a família imperial nas mãos. Isso suscitou muitas rivalidades.
O caso de Guseva foi pontual. Fascinada por figuras religiosas, ela teria se tornado seguidora do monge Iliodor, um inimigo público de Rasputin e uma das fontes que, por exemplo, sugeriam seu relacionamento amoroso com a Tsarina Alexandra. Guseva o teria seguido por alguns meses até localizá-lo na sua aldeia natal, onde visitava sua família. Ela o atacou enquanto estava lendo um telegrama do lado de fora de uma agência de correios, perfurando seu abdômen com uma lâmina de meio metro de comprimento. Embora ela tivesse gritado "Matei o Anticristo!", Rasputin conseguiu se recuperar e fugiu correndo, tendo ainda disposição para pegar um pedaço de pau e golpear o rosto da agressora. Embora as agências de notícia da época tenham-no dado como morto, ele foi operado naquela noite, se recuperando depois de alguns meses. O monge Iliodor, que nada teve a ver com o atentado, fugiu para a Noruega disfarçado de mulher.
As circunstâncias do assassinato de Rasputin em 1916 são nebulosas, já que a polícia foi praticamente impedida de investigá-lo, pois, aparentemente, pessoas importantes estavam envolvidas. Além disso, grande parte da documentação foi destruída pelos soviéticos. O que se sabe hoje é a coleção de estudos feitos ao longo dos anos baseado em depoimentos e reportagens de época, fotos do corpo e pesquisa de documentos. Mas tudo converge para uma sequência impressionante de acontecimentos:
Rasputin teria sido convidado em dezembro a visitar Felix Yusupov, marido da sobrinha do Tsar, em seu palácio em São Petersburgo. Eles chegaram lá depois da meia noite e se acomodaram em sua adega. Primeiro Rasputin teria tomado chá com um pedaço de bolo contendo cianeto. Após saborear o doce (sua filha duvidava que ele tivesse comido o bolo, pois ele evitava doces desde que fora ferido no estômago), ele teria discutido com Yusupov sobre ocultismo, espiritualidade e política. O cianeto, que devia sufocá-lo em minutos, não surtiu efeito.
Como, de qualquer forma, Rasputin não dava sinais de intoxicação, o anfitrião então lhe ofereceu uma seleção de vinhos doces, que Rasputin passara a apreciar avidamente depois do seu atentado. Quando percebeu que o místico estava embriagado, Yusupov subiu as escadas e retornou com o revólver de um colega escondido no andar de cima (haveria uma meia dúzia de conspiradores escondidos no palácio naquela noite). Ele atirou à queima roupa no peito, a bala perfurando estômago, fígado e saindo do lado direito do corpo. Rasputin caiu sobre um tapete de urso branco. Com o tiro, os conspiradores teriam saído de seu esconderijo escada acima e deveriam estar discutindo o que fazer com o corpo.
Mas Rasputin não estava morto! Ele abriu os olhos e se levantou, ciente de que havia caído numa armadilha, e tentou fugir. Ele galgou as mesmas escadas, tentando sair da adega em direção ao jardim. Alarmado pelo barulho, um dos conspiradores apareceu e o alvejou mais uma vez, desta vez a bala se alojando na sua espinha. Ele caiu sobre a neve e foi arrastado de volta para dentro do palácio. Yusupov, nervoso, ainda chutou seu rosto a ponto de estourar um olho. Como o corpo ainda se movesse, um terceiro conspirador encostou o cano do revólver na sua testa e disparou.
A essa altura a polícia já estava questionando o que acontecia, e os assassinos precisavam se desfazer do corpo rapidamente. Eles o vestiram com seu casaco de peles, botas e luvas e saíram do palácio abraçados até o carro, para dar a impressão de que Rasputin saiu tão bem como entrou. Eles amarraram punhos e tornozelos e atiraram o corpo de uma ponte, mas seu casaco se encheu de ar, impedindo que ele afundasse.
O corpo foi encontrado dois dias depois, congelado, com as mãos desamarradas. É possível que Rasputin ainda tivesse retido alguma consciência e tentado escapar, para, depois de envenenado, baleado três vezes (inclusive na cabeça), espancado, amarrado, e jogado de uma ponte num rio congelado, morrer de hipotermia.
sexta-feira, 26 de junho de 2015
Guerras esdrúxulas
Em 26 de junho de 1740, cerca de trezentos espanhóis (muitos não eram soldados) derrotaram 170 britânicos que defendiam o Forte Mose, na Florida. Esta batalha foi parte da Guerra da Orelha de Jenkins.
É, a História é pontilhada de conflitos assim. Pode-se dizer que muitas guerras de larga escala tiveram as mesmas motivações das menores escaramuças, a diferença aparecendo na configuração das redes diplomáticas e interesses globais em cada momento.
A Guerra da Orelha de Jenkins veio na esteira de décadas de conflitos em que Espanha e Inglaterra estiveram em lados opostos, embora, em 1713, a Espanha tenha assegurado à Inglaterra o monopólio ("asiento") do tráfico de escravos para suas colônias na América, com o privilégio adicional de transportarem 500 toneladas de mercadorias por ano. Essa relação de morde-e-assopra entre os dois países veio ao fim quando, pressionado por um sentimento geral anti-hispânico, a Inglaterra moveu suas tropas para as Índias Ocidentais e Gibraltar. A Espanha exigiu reparação financeira, e como a Inglaterra se negou, o rei Filipe V da Espanha rasgou o contrato de asiento. Em outubro de 1739 veio a declaração de guerra. Eventualmente este conflito, onde a Espanha se saiu melhor, foi tolhido pela guerra generalizada na Europa pela sucessão do trono austríaco (onde os dois países novamente se colocaram em lados opostos).
O nome desse conflito específico deriva de um incidente em 1731, quando um barco espanhol abordou um navio inglês perto da Florida, e o comandante espanhol cortou a orelha do capitão Robert Jenkins, acusando-o de contrabando. Jenkins foi convocado em 1738 pelo Parlamento inglês a testemunhar sobre o caso, e exibiu a todos a própria orelha decepada. Com todos os problemas diplomáticos com a Espanha naquele momento, a orelha do capitão Jenkins teria sido a gota d'água para os ingleses.
Houve muitas guerras motivadas por motivos banais, e várias dessas acabaram conhecidas por nomes curiosos. Eu selecionei dez:
1: A Guerra do Cão Perdido entre Grécia e Bulgária em 1925 começou quando um cachorro fugiu e seu dono grego o perseguiu através da fronteira, sendo morto por soldados búlgaros. A Grécia exigiu reparação e chegou a tomar uma cidade fronteiriça da Bulgária, e precisou da Liga das Nações intervir para resolver o caso.
2: A Guerra da Lagosta foi travada entre Brasil e França 1961 e 1963, quando a marinha brasileira resolveu impedir que barcos franceses pescassem lagostas fora do espaço marítimo brasileiro, alegando que as lagostas migram, de maneira que os franceses estariam lesando os pescadores brasileiros. O Brasil, acreditem, nunca perdeu uma guerra, e saiu vitorioso desta, ampliando suas águas territoriais.
3: A Guerra do Banco de Ouro de 1900 aconteceu quando o imperador de Ashanti, já irritado pela presença britânica na região do atual Gana, se sentiu ultrajado quando a autoridade britânica exigiu que ele devolvesse o tal banco de ouro, que ele usava como trono e que fora presenteado ao seu país pelos europeus. O imperador declarou guerra, e Ashanti terminaria incorporado à colônia da Costa do Ouro. A comandante maior do exército ashante era a irmã do imperador.
4: A Guerra do Porco de 1859 começou quando um fazendeiro americano vivendo na ilha de San Juan, um território disputado na fronteira do Oregon com a Colúmbia Britânica, viu um porco comendo suas batatas e atirou nele. O dono do porco, um irlandês empregado de uma companhia britânica, foi tirar satisfação. Ele recusou a oferta de 10 dólares pelo porco morto. O fazendeiro, ultrajado, disse que o irlandês é quem tinha que pagar pela invasão do seu porco. Autoridades britânicas interviram para prender o fazendeiro, e colonos americanos pediram por uma ação militar. A única ação militar no conflito, que perdurou por 13 anos, foram as trocas de insultos entre os soldados dos dois países e nenhum morto (exceto o porco). Ao final os EUA ganharam os direitos sobre a ilha.
5: A Guerra das Laranjas foi travada entre Espanha e Portugal em 1801 quando quando a França, aliada da Espanha, que estava em paz com Portugal, exigiu que Portugal se aliasse a ela contra a Inglaterra, de quem Portugal também era aliado. A diplomacia portuguesa se atrapalhou toda (com razão). Um diplomata português foi enviado a Madri para acertar um acordo com a França sem saber que a Espanha estava declarando guerra (a Espanha, por sua vez, precisava decidir rápido se declarava guerra a Portugal ou se sujeitava a uma invasão francesa). O próprio governo português só ficou sabendo da declaração de guerra 10 dias depois da primeira invasão. A Espanha acabou ocupando (até hoje) a cidade de Olivença, enquanto portugueses tomaram parte do território espanhol na América, onde hoje é o oeste do Rio Grande do Sul e uma porção do Mato Grosso. Manuel de Godoy, ministro espanhol à frente do exército, ao chegar a Olivença pegou uma laranja de um pé e a enviou para a rainha da Espanha, com a mensagem de que marcharia para Lisboa. Quando a laranja chegou, um segundo diplomata português já tinha acertado um acordo de paz com espanhóis e franceses.
6: A Guerra dos 335 anos foi travada entre a Holanda e o minúsculo arquipélago inglês das Ilhas Scilly. Aconteceu que em 1651 os parlamentaristas completaram seu domínio sobre a Grã-Bretanha, e os monarquistas da Cornuália se refugiaram em Scilly. Os holandeses, por sua vez, ofereceram aliança à Inglaterra - porém, especificamente, aos parlamentaristas, que estavam vencendo a guerra civil. Como resultado, navios holandeses eram atacados por embarcações monarquistas baseadas em Scilly. Um almirante holandês foi tirar satisfação, e como os representantes de Scilly se recusassem a atendê-lo, ele declarou guerra contra o arquipélago. Com o tempo, os monarquistas voltariam ao poder, e a Holanda confirmaria sua aliança com a Inglaterra... esquecendo-se completamente das ilhas Scilly. Como um tratado de paz nunca foi formalizado, essa guerra, que não teve um tiro disparado, durou 335 anos.
7: A Guerra do Futebol começou numa partida de desempate pelas eliminatórias da Copa do Mundo em 1969 entre El Salvador e Honduras. Os dois países viviam em tensão por causa de imigrações ilegais do primeiro para o segundo, e reformas agrárias do segundo para controlar o primeiro, e o sentimento nacionalista era calculadamente inflamado pelos dois governos. O primeiro jogo, em Tegucigalpa, resultou em violência generalizada, pelo qual o governo salvadorenho exigiu uma retratação. Como ela não viesse, no segundo jogo, em San Salvador, houve mais quebra-quebra. Ao final do terceiro jogo, na Cidade do México, El Salvador alegou que a violência do primeiro jogo contra torcedores do seu país constituía genocídio e declarou guerra. O exército salvadorenho invadiu Honduras e por pouco não chegou à capital. A OTAN precisou intervir para provocar um cessar-fogo.
8: A Guerra de Lijar começou quando o rei Alfonso XII da Espanha foi agredido por populares numa visita a Paris. Embora o incidente não tivesse causado grandes problemas diplomáticos, por algum motivo o prefeito da cidade espanhola de Lijar se sentiu ultrajado, e declarou guerra à França. Nem os lijarenses marcharam os 800 km até a fronteira, nem a França deu bola, mas a declaração de guerra formal persistiu até que na década de 1970 o prefeito local, convencido das boas intenções da França após o tratamento cordial cedido ao novo rei Juan Carlos II em visita oficial, convidou o embaixador francês para selar a paz. Diz uma anedota que quando o Juan Carlos visitou Lijar, teriam lhe dito que "uma hora esses franceses iam desistir".
9: A Guerra do Barril de Carvalho ocorreu em 1325, depois de um longo período de rivalidade entre as cidades italianas de Modena e Bolonha, quando alguns soldados de Modena entraram em Bolonha e roubaram um balde de madeira que ficava num poço no centro da cidade. Os bolonheses formaram um exército de 32 mil homens (uma quantidade respeitável para os padrões da época) para atacar os vizinhos, que contavam com 7000 soldados. Mas, na única batalha travada, em Zappolino, Modena saiu vitoriosa. O tal balde está exposto na Torre da Ghirlandina, na Catedral de Modena. As facções rivais que controlavam as duas cidades só fariam as pazes definitivamente em 1529.
10: As Guerras do Bacalhau tiveram motivo semelhante à Guerra da Lagosta: embarcações inglesas que pescavam bacalhau foram abordadas pela guarda costeira da Islândia, que alegava estarem operando em águas suas por direito. A resposta britânica foi mais incisiva do que a francesa no caso anterior: em três episódios, a marinha inglesa moveu dezenas de navios de guerra para assegurar a segurança de seus pesqueiros contra meia dúzia de barcos de patrulha islandeses. Nenhum tiro foi disparado, e o atrito se resumia às embarcações dos dois países tomando posições de batalha, e chegando tão perto umas das outras quanto possível (a única vítima foi engenheiro islandês eletrocutado na casa de máquinas de seu barco quando este se chocou contra uma fragata britânica). A OTAN atuou persuadindo os britânicos a recuarem algumas vezes, mas a coisa ficou séria quando a Islândia ameaçou deixar a organização e comprar navios militares soviéticos para lidar com o problema. No final, a Islândia ampliou suas águas territoriais.
É, a História é pontilhada de conflitos assim. Pode-se dizer que muitas guerras de larga escala tiveram as mesmas motivações das menores escaramuças, a diferença aparecendo na configuração das redes diplomáticas e interesses globais em cada momento.
A Guerra da Orelha de Jenkins veio na esteira de décadas de conflitos em que Espanha e Inglaterra estiveram em lados opostos, embora, em 1713, a Espanha tenha assegurado à Inglaterra o monopólio ("asiento") do tráfico de escravos para suas colônias na América, com o privilégio adicional de transportarem 500 toneladas de mercadorias por ano. Essa relação de morde-e-assopra entre os dois países veio ao fim quando, pressionado por um sentimento geral anti-hispânico, a Inglaterra moveu suas tropas para as Índias Ocidentais e Gibraltar. A Espanha exigiu reparação financeira, e como a Inglaterra se negou, o rei Filipe V da Espanha rasgou o contrato de asiento. Em outubro de 1739 veio a declaração de guerra. Eventualmente este conflito, onde a Espanha se saiu melhor, foi tolhido pela guerra generalizada na Europa pela sucessão do trono austríaco (onde os dois países novamente se colocaram em lados opostos).
O nome desse conflito específico deriva de um incidente em 1731, quando um barco espanhol abordou um navio inglês perto da Florida, e o comandante espanhol cortou a orelha do capitão Robert Jenkins, acusando-o de contrabando. Jenkins foi convocado em 1738 pelo Parlamento inglês a testemunhar sobre o caso, e exibiu a todos a própria orelha decepada. Com todos os problemas diplomáticos com a Espanha naquele momento, a orelha do capitão Jenkins teria sido a gota d'água para os ingleses.
Houve muitas guerras motivadas por motivos banais, e várias dessas acabaram conhecidas por nomes curiosos. Eu selecionei dez:
1: A Guerra do Cão Perdido entre Grécia e Bulgária em 1925 começou quando um cachorro fugiu e seu dono grego o perseguiu através da fronteira, sendo morto por soldados búlgaros. A Grécia exigiu reparação e chegou a tomar uma cidade fronteiriça da Bulgária, e precisou da Liga das Nações intervir para resolver o caso.
2: A Guerra da Lagosta foi travada entre Brasil e França 1961 e 1963, quando a marinha brasileira resolveu impedir que barcos franceses pescassem lagostas fora do espaço marítimo brasileiro, alegando que as lagostas migram, de maneira que os franceses estariam lesando os pescadores brasileiros. O Brasil, acreditem, nunca perdeu uma guerra, e saiu vitorioso desta, ampliando suas águas territoriais.
3: A Guerra do Banco de Ouro de 1900 aconteceu quando o imperador de Ashanti, já irritado pela presença britânica na região do atual Gana, se sentiu ultrajado quando a autoridade britânica exigiu que ele devolvesse o tal banco de ouro, que ele usava como trono e que fora presenteado ao seu país pelos europeus. O imperador declarou guerra, e Ashanti terminaria incorporado à colônia da Costa do Ouro. A comandante maior do exército ashante era a irmã do imperador.
4: A Guerra do Porco de 1859 começou quando um fazendeiro americano vivendo na ilha de San Juan, um território disputado na fronteira do Oregon com a Colúmbia Britânica, viu um porco comendo suas batatas e atirou nele. O dono do porco, um irlandês empregado de uma companhia britânica, foi tirar satisfação. Ele recusou a oferta de 10 dólares pelo porco morto. O fazendeiro, ultrajado, disse que o irlandês é quem tinha que pagar pela invasão do seu porco. Autoridades britânicas interviram para prender o fazendeiro, e colonos americanos pediram por uma ação militar. A única ação militar no conflito, que perdurou por 13 anos, foram as trocas de insultos entre os soldados dos dois países e nenhum morto (exceto o porco). Ao final os EUA ganharam os direitos sobre a ilha.
5: A Guerra das Laranjas foi travada entre Espanha e Portugal em 1801 quando quando a França, aliada da Espanha, que estava em paz com Portugal, exigiu que Portugal se aliasse a ela contra a Inglaterra, de quem Portugal também era aliado. A diplomacia portuguesa se atrapalhou toda (com razão). Um diplomata português foi enviado a Madri para acertar um acordo com a França sem saber que a Espanha estava declarando guerra (a Espanha, por sua vez, precisava decidir rápido se declarava guerra a Portugal ou se sujeitava a uma invasão francesa). O próprio governo português só ficou sabendo da declaração de guerra 10 dias depois da primeira invasão. A Espanha acabou ocupando (até hoje) a cidade de Olivença, enquanto portugueses tomaram parte do território espanhol na América, onde hoje é o oeste do Rio Grande do Sul e uma porção do Mato Grosso. Manuel de Godoy, ministro espanhol à frente do exército, ao chegar a Olivença pegou uma laranja de um pé e a enviou para a rainha da Espanha, com a mensagem de que marcharia para Lisboa. Quando a laranja chegou, um segundo diplomata português já tinha acertado um acordo de paz com espanhóis e franceses.
6: A Guerra dos 335 anos foi travada entre a Holanda e o minúsculo arquipélago inglês das Ilhas Scilly. Aconteceu que em 1651 os parlamentaristas completaram seu domínio sobre a Grã-Bretanha, e os monarquistas da Cornuália se refugiaram em Scilly. Os holandeses, por sua vez, ofereceram aliança à Inglaterra - porém, especificamente, aos parlamentaristas, que estavam vencendo a guerra civil. Como resultado, navios holandeses eram atacados por embarcações monarquistas baseadas em Scilly. Um almirante holandês foi tirar satisfação, e como os representantes de Scilly se recusassem a atendê-lo, ele declarou guerra contra o arquipélago. Com o tempo, os monarquistas voltariam ao poder, e a Holanda confirmaria sua aliança com a Inglaterra... esquecendo-se completamente das ilhas Scilly. Como um tratado de paz nunca foi formalizado, essa guerra, que não teve um tiro disparado, durou 335 anos.
7: A Guerra do Futebol começou numa partida de desempate pelas eliminatórias da Copa do Mundo em 1969 entre El Salvador e Honduras. Os dois países viviam em tensão por causa de imigrações ilegais do primeiro para o segundo, e reformas agrárias do segundo para controlar o primeiro, e o sentimento nacionalista era calculadamente inflamado pelos dois governos. O primeiro jogo, em Tegucigalpa, resultou em violência generalizada, pelo qual o governo salvadorenho exigiu uma retratação. Como ela não viesse, no segundo jogo, em San Salvador, houve mais quebra-quebra. Ao final do terceiro jogo, na Cidade do México, El Salvador alegou que a violência do primeiro jogo contra torcedores do seu país constituía genocídio e declarou guerra. O exército salvadorenho invadiu Honduras e por pouco não chegou à capital. A OTAN precisou intervir para provocar um cessar-fogo.
8: A Guerra de Lijar começou quando o rei Alfonso XII da Espanha foi agredido por populares numa visita a Paris. Embora o incidente não tivesse causado grandes problemas diplomáticos, por algum motivo o prefeito da cidade espanhola de Lijar se sentiu ultrajado, e declarou guerra à França. Nem os lijarenses marcharam os 800 km até a fronteira, nem a França deu bola, mas a declaração de guerra formal persistiu até que na década de 1970 o prefeito local, convencido das boas intenções da França após o tratamento cordial cedido ao novo rei Juan Carlos II em visita oficial, convidou o embaixador francês para selar a paz. Diz uma anedota que quando o Juan Carlos visitou Lijar, teriam lhe dito que "uma hora esses franceses iam desistir".
9: A Guerra do Barril de Carvalho ocorreu em 1325, depois de um longo período de rivalidade entre as cidades italianas de Modena e Bolonha, quando alguns soldados de Modena entraram em Bolonha e roubaram um balde de madeira que ficava num poço no centro da cidade. Os bolonheses formaram um exército de 32 mil homens (uma quantidade respeitável para os padrões da época) para atacar os vizinhos, que contavam com 7000 soldados. Mas, na única batalha travada, em Zappolino, Modena saiu vitoriosa. O tal balde está exposto na Torre da Ghirlandina, na Catedral de Modena. As facções rivais que controlavam as duas cidades só fariam as pazes definitivamente em 1529.
10: As Guerras do Bacalhau tiveram motivo semelhante à Guerra da Lagosta: embarcações inglesas que pescavam bacalhau foram abordadas pela guarda costeira da Islândia, que alegava estarem operando em águas suas por direito. A resposta britânica foi mais incisiva do que a francesa no caso anterior: em três episódios, a marinha inglesa moveu dezenas de navios de guerra para assegurar a segurança de seus pesqueiros contra meia dúzia de barcos de patrulha islandeses. Nenhum tiro foi disparado, e o atrito se resumia às embarcações dos dois países tomando posições de batalha, e chegando tão perto umas das outras quanto possível (a única vítima foi engenheiro islandês eletrocutado na casa de máquinas de seu barco quando este se chocou contra uma fragata britânica). A OTAN atuou persuadindo os britânicos a recuarem algumas vezes, mas a coisa ficou séria quando a Islândia ameaçou deixar a organização e comprar navios militares soviéticos para lidar com o problema. No final, a Islândia ampliou suas águas territoriais.
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