quinta-feira, 23 de julho de 2015

A Chacina da Candelária

Na noite de 23 de julho de 1993, pouco antes da meia noite, seis menores de idade (o mais novo com 11 anos) e dois maiores em situação de rua foram assassinados e um número incerto foi ferido enquanto dormiam nos arredores da igreja da Candelária, no Rio de Janeiro.

As ruas do Centro do Rio são o lar de centenas de pessoas sem teto. São pessoas de todos os tipos, origens e índoles: indivíduos ou famílias de imigrantes, desafortunados que fogem ou são expulsos de casa, idosos senis, doentes mentais ou portadores de doenças incapacitantes e deficiências, viciados em drogas e bebidas (aos quais estão especialmente expostos), que trabalham em subempregos, em bicos, vivem de doações e esmolas ou dedicam-se a pequenos roubos. Durante o dia circulam pelas ruas ocupados em seus afazeres ou escondidos das autoridades. À noite, com as ruas vazias (o Centro do Rio tem uma população residente de cerca de 40 mil pessoas), reúnem-se sob as marquises dos prédios e praças em grupos onde protegem-se uns aos outros da chuva, do frio e de agressões. O grupo da Candelária era constituído de cerca de 70 pessoas, entre menores, homens e mulheres, com todo tipo de perfil.

Testemunhas disseram que, na manhã do dia 22, alguns menores do grupo que se abrigava perto da Candelária atiraram pedras em uma viatura da Polícia Militar enquanto um menor era apreendido, quebrando um vidro e atingindo um policial. Na época, a região da Candelária era um dos focos mais importantes de assaltos a pedestres no centro da cidade, e comerciantes, com seus negócios prejudicados, denunciavam constantemente as ações de menores e jovens baseados nas cercanias da igreja. O menor apreendido teria sido acusado de roubo.

Os policiais gritaram ameaças e se retiraram. Como os meninos eram constantemente ameaçados, não deram importância. Na noite do dia seguinte, quando a maior parte do grupo (entre 40 e 50 pessoas) já estava reunida para passar a noite, dois Chevettes (um taxi e outro carro amarelo descaracterizado) com placas cobertas pararam em frente à igreja. Seus ocupantes desceram, se aproximaram e abriram fogo. No primeiro momento, alguns tentaram fugir e foram baleados. Meia dúzia de garotos que dormiam sobre uma banca de jornal foram executados com tiros na cabeça

Antes da chacina propriamente dita, porém, os executores capturaram Wagner dos Santos, de 21 anos, e mais dois menores que vagavam pela Rua Acre, os jogaram para dentro do carro amarelo e os balearam (Wagner recebeu 4 tiros, incluindo um na nuca). Depois da execução, Wagner e os corpos das outras vítimas foram "desovados" perto do Museu de Arte Moderna. Wagner, de alguma forma, sobreviveu, e se tornou testemunha principal do caso. Por conta disso sofreu outro atentado quase um ano depois enquanto mendigava na estação Central do Brasil (recebendo mais quatro tiros), após o que recebeu atendimento do serviço de proteção à testemunha. Foi levado à Suíça onde, surdo, cego de um olho e debilitado pela intoxicação por chumbo devido aos projéteis, vive sob cuidados.

Outro sobrevivente da chacina, Sandro Rosa do Nascimento, escapou se fingindo de morto. Posteriormente foi acolhido por projetos sociais, mas desligado da família, com dificuldades de aprendizado e socialização e viciado em drogas, passou a viver na marginalidade. Sete anos depois ele protagonizou o sequestro de um ônibus da linha 174, no bairro do Jardim Botânico, que resultou na morte de uma refém (alvejada à queima roupa por um policial), e do próprio Sandro, estrangulado no interior da viatura após ser imobilizado e algemado.

A investigação sobre a Chacina da Candelária levou à acusação de participação direta de três policiais militares da ativa e um que já havia sido expulso da corporação. Este último, Maurício da Conceição, resistiu à prisão e foi morto durante o processo. Um quinto acusado foi condenado a dois anos de prisão por portar uma das armas usadas no crime, mas sua participação na chacina ainda não foi comprovada (hoje ele ainda aguarda julgamento). Outros três acusados foram inocentados. Um sobrevivente ainda reconheceu um nono elemento, e a perícia identificou um projétil retirado de uma das vítimas disparado pela arma do seu padrasto, mas ele não foi indiciado. Os três condenados à pena máxima, devido ao regime de progressão, estão soltos desde antes de completados 20 anos de reclusão. Um deles teve o indulto suspenso e é considerado foragido.

A Chacina da Candelária foi notícia no mundo inteiro, e despertou debates sobre a relação entre o modelo de desenvolvimento das economias emergentes e a marginalização de parte da sua população, e como as suas cidades lidam com este problema. Surgiram projetos sociais, inclusive ligados à Arquidiocese do Rio (cujo arcebispo na época, Don Eugênio Sales, praticamente exigiu dos fiéis que, enquanto crianças em situação de rua continuassem a ser mortas, ninguém se esquecesse daquela data) dedicados a resgatar e socializar jovens e adultos em situação de rua. Mesmo assim, daquele grupo de 70 moradores de rua da Candelária em julho de 1993, 44 foram assassinados nos últimos 22 anos por policiais, grupos de extermínio, justiceiros, ou em confrontos com traficantes de drogas e outros moradores de rua, e quase todos os demais tem paradeiro desconhecido. De janeiro a agosto de 2013, 195 moradores de rua foram assassinados no Brasil, e desses crimes, apenas 13 foram investigados.

terça-feira, 21 de julho de 2015

O gatilho mais rápido do oeste

Em 21 de julho de 1865, o pistoleiro James "Wild Bill" Hickok matou o cowboy Davis Tutt em um duelo. É o primeiro, e um dos poucos duelos documentados entre dois pistoleiros no estilo eternizado nos filmes sobre o Velho Oeste americano, em que os oponentes se encaram esperando o outro sacar a pistola.

Tanto Tutt quanto Hickok tiveram passados obscuros. Tutt sobreviveu a uma guerra entre os Tutt e os Everett no Arkansas. Hickok passou a juventude envolvido em brigas e praticando tiro com pisola. Tutt lutou pelo exército confederado durante a Guerra Civil americana, Hickok serviu com o exército da União. Como muitos soldados sem família naquele conflito, ambos ficaram à deriva com o fim da guerra (Hickok fugia para o oeste acreditando ter matado um homem durante uma bebedeira), e vieram a se fixar na pequena Springfield, em Missouri, onde se conheceram em jogos de cartas no saloon do Hotel Lyon (atualmente o Old Southern Hotel). De alguma forma acabaram tornando-se amigos.

Por amizade, Tutt fazia negócios desvantajosos e emprestava dinheiro a Hickok para suas apostas nas cartas. Uma rivalidade parece ter surgido entre os dois por conta de uma mulher, Susanna Moore (sem relação com a personagem da música "Oh Susanna, não chores por mim..."), que tinha uma relação com Hickok, mas despertava o interesse de Tutt. Wild Bill começou então a se recusar a jogar nas mesmas mesas que Tutt, que começou a se sentar ao lado de outros jogadores e financiá-los para ajudá-los a vencer o amigo e tirar-lhe todo o dinheiro, participando nos lucros.

Em certa ocasião, Hickok havia ganho numa mesa de poker 200 dólares contra jogadores para quem Tutt emprestara dinheiro (ou seja, os 200 dólares eram, em última análise, seus). Como os jogadores assistidos por Tutt perdiam repetidamente, ele resolveu no ato cobrar uma dívida de 40 dólares da venda de um cavalo a Hickok. Ele pagou a quantia, mas Tutt ainda exigiu outros 35 por um empréstimo em outro jogo. Hickok se recusou, alegando que a dívida era de 25 dólares. E continuou jogando.

Encorajado por amigos armados presentes no saloon, Tutt pegou o relógio de bolso de Hickok como garantia pelo pagamento de sua dívida. Vendo-se em desvantagem, Hickok engoliu a raiva e pediu calmamente que Tutt colocasse o relógio sobre a mesa, mas não foi atendido. Além da humilhação de confiscar sua propriedade, Tutt deixou o saloon dando a impressão, diante dos presentes, que Hickok era um viciado e um mal pagador. A entourage de Tutt continuou ali, provocando Hickok na esperança de que, num surto de raiva, ele sacasse sua pistola e criasse uma situação para que o matassem.

Essas provocações continuaram por vários dias. Certo dia, no saloon, alguém lhe disse que Tutt pretendia usar o seu relógio na praça central da cidade no dia seguinte. Hickok perdeu a paciência e respondeu: "Ele não deveria atravessar aquela praça a menos que homens mortos possam andar", e foi para o seu quarto limpar suas pistolas. Tutt ficou logo sabendo do desafio. Com sua reputação em jogo, ele não podia se dar ao luxo de ignorá-lo e demonstrar covardia. Na manhã seguinte, ele estava na praça, com o relógio pendurado no seu bolso. Hickok ouviu o que estava acontecendo e foi para lá. Os dois inicialmente discutiram a devolução do relógio, mas Tutt agora cobrava 45 dólares em dívidas de jogo, segurando o relógio pela corrente. Deliberadamente tentando manter o controle, Hickok disse que não queria briga, e que seria melhor os dois tomarem um drink juntos.

Ninguém sabe muito bem o que aconteceu durante aquele dia, mas ao por do sol, os dois deixaram o saloon do Hotel Lyon armados. Hickok caminhou para a extremidade sul da praça, deixando Tutt sozinho - e com o relógio ainda pendurado - na extremidade oposta, a 70 metros de distância. As pessoas que circulavam por ali correram para se proteger. "Dave, estou aqui", gritou Hickok, exibindo sua pistola, "Não venha aqui com esse relógio". Tutt permaneceu imóvel, com a mão na arma.

Os dois se olharam em silêncio por um tempo, os corpos posicionados de lado. Então Tutt fez o primeiro movimento para sacar a pistola. Wild Bill Hickok reagiu mais rápido, sacando e apoiando a mão sobre o outro antebraço. Os tiros foram disparados simultaneamente, mas o de Hickok atingiu o peito de Tutt, atravessando o coração. "Rapazes, estou morto!". Ele cambaleou e caiu na rua. Hickok foi até lá e pegou seu relógio de volta.

Wild Bill foi preso sob acusação de assassinato. No julgamento, foi levado em consideração que ele estava defendendo a honra após uma humilhação pública, e que, durante o confronto, Hickok apenas sacou quando Tutt havia feito o movimento para atirar, apesar de inúmeras chances de tê-lo feito primeiro. No final, ele foi declarado inocente. O caso despertou o interesse da imprensa. Um articulista da Harper's New Monthly Magazine, Coronel George Nichols, foi a Springfield entrevistar Hickok. Sua entrevista incluía exageros, contando como Hickok matara "centenas" (Hickok matara 5 pessoas em sua vida, uma acidentalmente) e passara por diversas aventuras inverossímeis. Os jornais que circulavam no Oeste passaram a reproduzir partes da história, lançando sobre Hickok uma aura de heroísmo que o tornaria um símbolo e um ideal do valente homem do oeste. Hickok até tentou capitalizar em cima da fama repentina (chegou a ser xerife, a trabalhar no espetáculo itinerante de Buffalo Bill Cody, e a se casar com a famosa pistoleira Jane Calamidade), mas em 1876, com a visão (e a mira) debilitada, voltou à obscuridade. Ele morreu baleado numa briga de bar naquele ano.

A lenda de Wild Bill Hickok foi retratada exaustivamente em todas as mídias. Ele é personagem fácil em qualquer representação do Velho Oeste, ora como personagem principal, ora como mera referência enquanto representação estereotipada do pistoleiro, sendo interpretado por nomes como Gary Cooper ("Jornadas Heroicas"), Charles Bronson ("O Grande Búfalo Branco"), Jeff Bridges ("Wild Bill"), Roy Rogers ("Jovem Bill Hickok"), e Moe, dos Três Patetas. O duelo de pistolas como entre Hickok e Tutt, em que os pistoleiros se encaram antes de sacarem também é um tema recorrente nas dramatizações do Velho Oeste, embora quase sempre os pistoleiros sejam retratados de frente um para o outro, e não de lado (diminuindo a área do "alvo") como foi o caso.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Rolo, o Andarilho

Em 20 de julho do anno Domini 911, Rolo, líder de um bando de vikings dinamarqueses, foi derrotado por barões franceses na batalha de Chartres. A presença de Rolo e seus vikings na França foi decisivo para o futuro daquela parte da Europa.

No século IX, toda a costa européia, da Alemanha até a Sicília, sofria ataques de vikings baseados na Noruega, na Dinamarca, e, em menor escala, na Suécia - os vikings suecos controlavam o Mar Báltico e faziam incursões na Finlândia e no interior da Rússia, comercializando com persas e árabes, e seus reis enviando embaixadas até Constantinopla. A própria Inglaterra e a Irlanda viveram sob o regime de senhores nórdicos que controlavam grande parte da Grã-Bretanha sob uma confederação conhecida como Danelaw, ou "Lei dos Dinamarqueses", também presente em muitas partes da Alemanha. A herança da presença dinamarquesa e norueguesa na Inglaterra é sentida até hoje, com nomes de cidades (Norwick, Holdenby, Durham), topônimos (Ravenscar, Rawcliffe, Melfort), sobrenomes (Hawksworth, Beckingham, Swansea) e vocabulário (newby, awesome, saga) de origem dinamarquesa. Dublin, capital da Irlanda, nasceu como um ancoradouro e povoado de vikings noruegueses.

O que impulsionou os vikings a atacarem a costa européia a partir do século IX ainda é nebuloso. Ao contrário das tribos germânicas na Europa Central, aparentemente não houve invasões forçando o deslocamento dos povos nórdicos em direção ao sul nessa época (movimento que os povos germânicos fizeram cerca de 1000 anos antes, por razões mais nebulosas ainda). Possivelmente uma explosão demográfica seguida de problemas climáticos ou outra crise sistêmica podem ter motivado os povos da Escandinávia a buscarem terras mais abundantes além-mar. No século IX, a Islândia e a Groenlândia (a "Terra Verde") eram muito mais propícias a atividades agropecuárias do que hoje, e lá se estabeleceram postos avançados da civilização escandinava - expedições partindo da Islândia, usando a Groenlândia como ponte, permitiram o breve estabelecimento de colônias na América do Norte. Com o correr dos anos e um breve resfriamento do clima (a Pequena Idade do Gelo antes do fim da Idade Média) levou ao fim das colônias na Groenlândia, mas a Islândia perdurou.

A pujança material das culturas europeias pós-romanas (especialmente os tesouros eclesiásticos) podem ter sido um chamariz para relações comerciais predatórias. Na costa francesa, os vikings ganharam temível reputação ao atacar aldeias e cidades, pilhando tudo que podiam carregar. Seus barcos longos e estreitos permitiam que eles navegassem rapidamente vários quilômetros rio acima, de maneira que o interior também estava vulnerável - houve incursões devastadoras ao longo dos rios Garonne, Loire e Sena, com pelo menos cinco ataques a Paris entre 845 e 886, chegando até a vila de Bèze, a mais de 350 km do litoral em linha reta. Os franceses chamavam indistintamente os vikings noruegueses e dinamarqueses de "normandos", "homens do norte" ("viking" é um autônimo que pode significar "navegantes" ou "remadores" e passou a ser usado de forma mais generalizada para circunscrever os povos escandinavos pré-cristãos somente a partir do século XIX). Por todo o século IX os franceses tiveram que conviver com os normandos, ora parceiros comerciais, ora destruidores de cidades e violadores de igrejas.

Em algum momento impreciso no fim do século IX, o guerreiro Rolo, um viking de origem incerta (norueguês ou dinamarquês), mas provavelmente nobre, chegou ao norte da França depois de muitas andanças pela Irlanda, Escócia e Bretanha - o que lhe rendeu a alcunha de "Ganger Hrolfr", ou "Rolo, o Andarilho", nas sagas islandesas. Os fatos da vida de Rolo e a forma como ele acabou liderando um bando de dezenas de milhares de dinamarqueses radicados na costa nordeste da França são tampouco confiáveis, uma vez que a primeira vez em que o seu nome aparece em crônicas francesas é pelo menos três décadas depois de assumir uma proeminência como líder viking, mas ainda pouco antes da sua morte. As crônicas posteriores, como não podiam deixar de ser, atribuem origens fantásticas e feitos extraordinários e contradizentes acerca de Rolo e suas andanças, mas nada disso é confiável. Algumas dessas fontes afirmam que Rolo já era um líder ativo no assalto a Rouen em 876, no cerco a Paris entre 885 e 886 e em toda a campanha do Sena naquele período. Num ataque a Bayeux, ele tomou Poppa, filha do conde de Rennes, como amante.

Em 911, Rolo comandou o cerco a Chartres. Naquela altura, Ricardo, duque da Burgundia, conseguiu organizar um pequeno exército para expulsar os normandos. Contudo, as suas forças talvez não chegassem à metade dos normandos. A batalha é mal documentada, mas conta a lenda que o bispo Gantelme trouxe para o campo de batalha o manto original que vestia a Virgem Maria, e isso teria inspirado os defensores e/ou afugentado os vikings pagãos. O fato é que Chartres não foi destruída - o lugar seria fortificado e sobreviveria para se tornar um importante centro religioso na França.

De qualquer forma, o rei da França, Carlos, o Simples, já estava considerando os normandos de Rolo formidáveis o suficiente para ter como seus aliados. A derrota em Chartres também pode ter incentivado Rolo, que já se aproximava dos 70 anos, a entrar em conversas com dignatários franceses. Algumas semanas depois de Chartres (no "outono" daquele ano), Rolo assinou o Tratado de Saint-Clair-sur-Epte, onde o rei lhe concedia todas as terras entre o rio Epte (um modesto afluente do Sena a meio caminho entre Paris e Rouen) e o mar. Em troca, Rolo e seus normandos tornariam a terra produtiva, contribuiriam com impostos à coroa, e se disponibilizariam a tomar parte em suas guerras. Carlos acrescentou uma cláusula que cedia aos normando a Bretanha, até então não conquistada pelos francos, cláusula que teria sido efetivada após a morte do rei bretão Alan I (mas anulada quando seu filho Alan II veio da Inglaterra e expulsou os normandos de lá). Aparentemente, Carlos e Rolo também entraram em termos como parte da preparação para uma invasão à Lotaríngia, reino-irmão da França na atual zona de fronteira entre o território normando, Alemanha e Países Baixos. Como demonstração de boa vontade, Rolo aceitou ser batizado e casou-se com Gisele, filha de Carlos.

O território cedido aos normandos, com acréscimos posteriores, ficaria conhecido como Normandia. O casamento de Rolo com Gisele, embora tenha se tornado tema de canções e trovas ao longo da Idade Média, não lhe deu filhos, mas de sua união com Poppa nasceu a linhagem de mandatários da Normandia (a partir de seu bisneto Ricardo II, eles seriam oficialmente duques). Na quinta geração depois de Rolo veio Guilherme, o Conquistador, que tomaria de assalto a Grã-Bretanha e daria fim aos reis anglo-saxões naquela ilha. A incursão de Guilherme também daria início a um imbróglio dinástico tremendo entre franceses e ingleses que suscitariam repetidas guerras por séculos - a rainha Elizabeth II ainda retém, informalmente, o título de "Duque" (apesar de mulher) da Normandia no território das Ilhas do Canal, possessões britânicas no Canal da Mancha próximas à costa francesa que faziam parte da Normandia nos tempos em que os reis ingleses também eram duques daquelas terras (os nativos a saúdam como "Duque"). Quanto a Rolo, se você ainda acha graça quando lê esse nome e tenta imaginar um viking poderoso, ele é a inspiração para outros nomes comuns hoje, como Rolf, Rodolfo e Raul (Hrolfr teria ainda sido batizado Roberto no ato da conversão). Uma versão anacrônica de Rolo o coloca como irmão do semi-lendário rei viking Ragnar Lodbrock no popular seriado Vikings, embora supostamente haja uma distância de algumas décadas entre a morte deste e as aventuras de Rolo na França.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

O estado de Maracaju

Em 10 de julho de 1932, a parte sul do antigo estado do Mato Grosso teria declarado sua emancipação, criando o estado de Maracaju, para apoiar São Paulo na Revolução Constitucionalista.

Em primeiro lugar, confesso a negligência com a data de 9 de julho, quando São Paulo declarou guerra a Getúlio Vargas, porque, por ser um conflito com alguns meses de duração, haveria pretexto em outras datas para falar dele e de aspectos específicos dele. Bom, aqui está.

A Revolução de 1932 é resultado de uma rede complexa de acontecimentos que se seguiram à crise econômica internacional de 1929. Na ocasião, o café era o principal produto de exportação do Brasil, a principal fonte de divisas para o estado de São Paulo, e a principal fonte de poder da política paulista durante todo o Império e a República Velha. Em aliança com os produtores de leite de Minas Gerais, os políticos paulistas e mineiros alternavam a indicação de candidatos à presidência da República (mesmo que esses candidatos fossem nativos de outros estados, como o macaense Washington Luís, radicado politicamente em São Paulo), invariavelmente vitoriosos, garantindo uma continuidade nas políticas de interesse de ambos os grupos (a Política do Café com Leite).

Durante a primeira parte do século XX, a prosperidade do café propiciou o processo de industrialização. Com a crise, o mercado internacional do café praticamente deixou de existir do dia para a noite, levando, além dos industriais, os grandes proprietários de terras e seus afilhados políticos à ruína. Mas um detalhe a mais seria determinante para a evolução dos eventos que culminariam com a Revolução: em 1929, antes da crise, o presidente Washington Luís nomeou, com vasto apoio de lideranças estaduais, para sua sucessão o paulista Júlio Prestes, preterindo um político alinhado com os mineiros. Neste momento, a bancada mineira no Congresso Nacional se uniu à bancadas gaúcha e paraibana (as três bancadas que se opuseram à indicação de Prestes), com Getúlio Vargas candidato à presidência.

Ter um candidato abertamente em oposição à situação política nunca assustou os conservadores. Com um processo eleitoral nebuloso, até hoje existem dúvidas acerca dos resultados oficiais dos pleitos durante a República Velha. Mas sua base política agora mergulhara no caos. Isto inflamou os discursos da Aliança Liberal contra o poder vigente abalado, ameaçando desde setembro de 1929 uma revolução em caso de derrota nas eleições. Os políticos ainda alinhados com os paulistas previam uma reação do estado em caso de agressão.

A eleição se deu em março de 1930 com larga vantagem de Prestes sobre Vargas (90% dos votos válidos para o paulista). Os mais radicais na Aliança Liberal, alegando fraude nas eleições, resolveram enfim pegar em armas após o assassinato do vice da chapa, João Pessoa (cuja morte não teve motivos políticos), em julho. Forças gaúchas e mineiras principalmente chegaram ao Rio de Janeiro a tempo de impedir a posse de Júlio Prestes. Eles derrubaram Washington Luís e empossaram Getúlio Vargas como "chefe do governo provisório" - que logo se tornaria efetivamente permanente quando Getúlio suspendeu a Constituição, dissolveu o Congresso Nacional e os congressos estaduais (que contavam com câmaras de deputados e senados independentes), e nomeou interventores para todos os estados, exceto Minas Gerais. Nomeou também membros dos movimentos tenentistas dos anos 20 - históricos opositores das oligarquias paulistas - para posições de comando do exército e da polícia militar, inclusive em São Paulo.

Vargas seguiu governando "provisoriamente" por decreto, dando ares óbvios de ditadura ao regime. Com o poder político centralizado e aliados fiéis em postos estratégicos onde poderia haver focos de resistência, fortaleceu também a posição central do governo federal no controle da economia, tentando insular o Brasil do efeito da especulação de capital. Isso também incluiu a intervenção no setor agrícola. Também baixou leis que davam benefícios aos trabalhadores às custas dos empregadores. Exílios, militarização e o controle da imprensa também foram empregados.

A situação em São Paulo começou a se deteriorar quando o minoritário Partido Democrático de São Paulo, que trabalhou na campanha de Getúlio, não conseguiu indicar um interventor para o estado. A administração provisória nos primeiros dias da revolução de 1930 ficou a cargo de um grupo liderado pelo tenente João Alberto. A ingerência de João Alberto precipitou uma crise econômica e política que levou a uma sucessão rápida de interventores no estado. A insatisfação popular, insuflada pela imprensa local e por discursos políticos inflamados contra Getúlio, denunciando a ditadura que se instalara no Brasil especificamente para esmagar São Paulo, levou o governo federal a indicar um paulista não alinhado com Vargas como interventor, Pedro de Toledo. Mesmo assim, 200 mil pessoas se reuniram em janeiro de 1932 na Praça da Sé, na capital paulista, para um comício contra Vargas. Outros grandes comícios ocorreram no estado nos meses seguintes. O teor do discurso era a ilegalidade do regime Vargas, o desrespeito à Constituição (a Constituição de 1891 fora suspensa mas ainda não substituída), e o achacamento proposital da economia do estado.. A principal demanda, uma nova Constituição que estabelecesse os limites entre os poderes e restaurasse a legalidade. O Partido Democrático de São Paulo passou para a oposição. A ele se juntaria o MMDC, grupo contrarrevolucionário criado após a morte de 5 jovens por partidários de Vargas, e sancionado pelo governo paulista.

Como Júlio Prestes havia sido indicado em 17 dos 20 estados da federação, e eleito com 90% dos votos, e como o pretexto para a agitação política era a necessidade de uma nova Constituição (cuja assembleia constituinte Vargas aceitou convocar semanas antes), os líderes paulistas supunham contar com a adesão de pelo menos uma boa parte do país na sua causa. Em 9 de julho foi proclamada uma convocação para os paulistas pegarem em armas contra o governo Vargas. O general matogrossense Bertoldo Klinger foi um dos que apoiaram a iniciativa, e arregimentou todas as tropas leais do seu estado. No dia 10, ele teria proclamado a independência do estado de Maracaju, e levou seus comandados para lutar em São Paulo.

A iniciativa paulista malogrou na medida em que Minas Gerais (cuja força política de maior expressão era o ex-presidente "café com leite" Artur Bernardes) e o Rio Grande do Sul (o estado mais bem armado) optaram por apoiar o governo federal (apenas a facção liderada por Borges de Medeiros se juntou aos paulistas). Paulistas e matogrossenses, basicamente soldados, policiais militares e recrutas não treinados e lutando com suas próprias armas, se dispuseram a atacar alvos do governo federal e do exército. As frentes de batalha se definiram entre o Vale do Paraíba, o sul e o leste de São Paulo. Os poucos gaúchos do lado da Revolução fustigavam colunas do exército regular do estado com táticas de guerrilha enquanto marchavam para o front. Mas o avanço das forças federais, muito mais numerosas e bem armadas, contando com veículos blindados, aviões de bombardeio e um serviço de propaganda e inteligência sofisticados, contiveram esse avanço. Com as fronteiras do estado fechadas (inclusive o porto de Santos) e seus paióis e fábricas de armas bombardeadas, a economia enfraquecida, logo os paulistas, apesar das contribuições de seus cidadãos, se viram limitados em seus armamentos, a ponto de, em certo momento, soldados usarem matracas para simular o som de metralhadoras em batalha. A derrota veio em 2 de outubro, véspera do aniversário de posse de Getúlio, com a rendição dos líderes constitucionalistas para o general getulista Góis Monteiro.

Quanto ao estado de Maracaju, sua existência oscila entre o fato e o imaginário. O fato é que o comandante do exército na cidade de Campo Grande, general Klinger, se solidarizava abertamente com o comandante de São Paulo, exonerado por Getúlio Vargas, e trabalhou para levar tropas matogrossenses leais à causa constitucionalista para lutar no front. Mas a instituição de Campo Grande como capital (provisória) do estado (de Mato Grosso, não de Maracaju) foi oficializada por decreto do interventor do estado, Vespasiano Martins, e publicada no Diário Oficial mais de duas semanas depois da suposta declaração de independência de Klinger. É possível mesmo que a mudança da capital de Cuiabá para Campo Grande tenha sido manobrado pelo governo federal para inibir os esforços de guerra na região sob influência de Bertoldo Klinger. O impasse está no fato de que Vespasiano era ao mesmo tempo o interventor do Mato Grosso nomeado pelo presidente, e governador do Mato Grosso (como um todo) pelos constitucionalistas. A existência "virtual" do estado de Maracaju se comprova pela fronteira fechada entre seu território e São Paulo, pois assim ocorreu porque o estado de Mato Grosso como um todo estava sujeito a Getúlio - teria sido providencial aos insurgentes que Maracaju tivesse existido de fato, possibilitando a importação de armamentos pela fronteira com o Paraguai.

Com a derrota em 2 de outubro, Klinger foi preso e exilado, e o que ele chamava de estado de Maracaju deixou de existir. De qualquer forma, o estado do Mato Grosso do Sul, emancipado em 1979, assumiu os contornos básicos do que teria sido o estado de Maracaju, e herdou a sua memória como parte da sua identidade histórica.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Terremoto de Sanriku de 869

No dia 9 de julho de 869, um potente terremoto de pelo menos 8,4 na escala de magnitude de momento perto da costa japonesa atingiu a região de Sanriku, a costa nordeste da ilha de Honshu onde fica hoje a cidade de Sendai. Foi o primeiro terremoto precisamente datado e registrado na História do Japão. Possivelmente o tremor tenha atingido 9,0 nessa escala, devido à extensão do estrago, semelhante ao tremor ocorrido na mesma região em 2011.

O arquipélago japonês é resultado do encontro de três placas tectônicas (as placas Eurasiática, de Okhotsk, e das Filipinas) e a direta influência de outra (do Pacífico). Da convergência e sobreposição das quatro placas, a crosta terrestre se elevou, erguendo o assoalho marinho até se tornar uma cadeia de montanhas. A zona de tensão também deu origem a vários vulcões (10% de todos os vulcões ativos do mundo), e a constante fricção e acomodação das placas tectônicas e a atividade vulcânica tornam o Japão altamente propício a terremotos e maremotos (cerca de 20% de toda a atividade sísmica do mundo é registrada no Japão anualmente). Nos 30 dias que precedem este post, foram registrados 36 tremores de terra no país com pelo menos 4,1 de magnitude (o de anteontem, 6,3 em Nemuro, na ilha de Hokkaido, e exatamente 5 horas atrás um outro de 5,1 no litoral da prefeitura de Iwate).

O litoral nordeste da ilha de Honshu é a região mais suscetível a terremotos e maremotos, porque é a parte do arquipélago que está em contato com a placa do Pacífico, cujo movimento de expansão em direção ao Japão é mais veloz do que movimento das demais placas da área. A placa do Pacífico é constituída basicamente de basalto mais denso do que as rochas graníticas da placa de Okhotsk (onde aquela parte de Honshu está localizada), então ela mergulha por baixo do Japão próximo ao litoral. Como consequência do impacto e do atrito, os sismos naquela região costumam ser mais potentes. E como eles costumam ocorrer no fundo do mar, maremotos são particularmente comuns ali. Os maremotos são os reflexos mais temíveis dos terremotos do nordeste do Japão, porque mesmo que você se proteja do tremor de terra ficando em lugares abertos ou construindo edifícios à prova de abalos, as ondas gigantes viajam a grande velocidade varrendo tudo à sua frente, carregando grandes objetos e árvores, que colidem com estruturas aumentando a extensão dos danos, e nem sempre você tem tempo para correr a algum local mais alto. O maremoto no Oceano Índico de 2004, com ondas de até 30 metros de altura atingindo em cheio o Sudeste Asiático e o Sri Lanka, e chegando tão longe quanto a África do Sul, foi uma das catástrofes naturais mais letais que já ocorreram no planeta.

O terremoto de 869 foi seguido de ondas gigantes que varreram a as planícies da atual Prefeitura de Miyagi por 4 quilômetros terra adentro. Na época não havia grandes concentrações de pessoas na região ou cidades importantes, de maneira que as fatalidades e os danos materiais foram bem baixos para a potência estimada do abalo - um relatório da época notifica mais de 1000 mortos e a perda de rebanhos e alguns templos, especialmente devido às ondas gigantes. Foi o primeiro sismo registrado no Japão com uma data precisa, mas depósitos sedimentares na planície de Sendai indicam uma periodicidade de 800-1100 anos para sismos dessa magnitude nos últimos 3000 anos

A cidade de Sendai, a principal da região atualmente, foi estabelecida em 1600 pelo daimyo Date Masamune (figura que se tornaria folclórica e facilmente reconhecível como um samurai com uma lua crescente fazendo as vezes de chifres no seu capacete) em território recentemente conquistado. A planície de Sendai lhe parecia um lugar mais apropriado do que seu antigo palácio em Iwadeyama, pois era mais central em relação às suas terras, e mais próximo de Edo (atual Tóquio), a capital do shogunato. A cidade foi planejada com avenidas e linhas retas, cujo plano se manteve até hoje, reproduzido nas cidades conurbadas na Prefeitura de Miyagi, em volta de Sendai. O advento de uma ferrovia no final do século XIX ligando a Tóquio proporcionou grande crescimento populacional. A região de Miyagi comporta hoje 2,3 milhões de habitantes, quase metade deles vivendo em Sendai (a cidade possui uma densidade média de 1300 habitantes/km², chegando a quase 7000 em algumas áreas).

À medida em que Sendai e as vilas vizinhas foram se desenvolvendo, os repetidos terremotos e maremotos se tornaram cada vez mais mortíferos. Em 1611 um maremoto causado por um abalo na zona de subdução da Placa do Pacífico devastou toda a costa de Sendai (vitimando ali mais de 1700 pessoas e 3000 cavalos) até a ilha de Hokkaido, atingindo em cheio a Prefeitura de Iwate, ao norte de Miyagi, com ondas de mais de 20 metros de altura. Aparentemente foi a primeira vez que a palavra "tsunami" foi usada para descrever as ondas gigantes. Um maremoto maior ainda, com ondas de 38 metros de altura, ceifou 22 mil vidas em 1896 (os pescadores deixaram a costa pela manhã e não sentiram as ondas em mar aberto, mas ao voltarem no dia seguinte se depararam em choque com suas vilas arrasadas e corpos despedaçados). Foi apenas após outro sismo semelhante ocorrido em 1933 (cujas ondas gigantes atingiram os 9 metros de altura no Hawaii) que o Japão começou a tomar medidas de prevenção a tsunamis.

Na década de 50, o governo japonês construiu um sistema de alerta de tsunamis com 300 sensores distribuídos ao redor do arquipélago. Centenas de abrigos anti-tsunami foram construídos, sobretudo na costa leste de Honshu. Em algumas áreas foram construídas barreiras ao longo da costa para dissipar ou frear o avanço de ondas gigantes. Em julho de 1978 um terremoto de 7,7 de magnitude com epicentro próximo a Sendai resultou na morte de 28 pessoas, apesar de danos materiais consideráveis. Para tornar as cidades estruturalmente mais seguras, o governo passou a regulamentar a construção de estruturas anti-terremoto, além de medidas de contingência com relação a transporte público e controle de massas, além de revisar o sistema de seguro contra terremotos. Outro tremor violento em Kobe, em 1995, que vitimou mais de 5 mil pessoas, contribuiu para o desenvolvimento de mais políticas de segurança.

A partir de 2003 ocorreram três eventos sísmicos importantes na planície de Sendai. O primeiro foi uma sequência de terremotos que culminaram com dois tremores acima dos 7 pontos de magnitude entre maio e julho de 2003, sem fatalidades. Em 2005, outro terremoto de 7,2 de magnitude causou o colapso de construções (houve mortes numa piscina coberta cujo telhado desabou). Nessa época Sendai estava testando um sistema de alerta preventivo de terremotos, e os habitantes da cidade foram avisados 16 segundos antes da primeira onda de choque atingir a cidade, possibilitando que a maioria se abrigasse em segurança. A vida retornou à normalidade no dia seguinte. Porém nada disso preparou o Japão para o terremoto seguido de tsunami de 2011. A onda gigante (quase 10 metros de altura) veio 50 minutos depois de um tremor de 9 pontos de magnitude (o quarto maior desde o início do século XX), venceu todas as barreiras anti-tsunami no litoral e penetrou 4 quilômetros terra adentro, vitimando mais de 15000 pessoas. A usina atômica de Fukushima ao sul ficou inabalada, mas as ondas gigantes invadiram os reatores, causando derretimento dos núcleos radioativos e a explosão de três dos reatores, provocando uma contaminação por radiação em larga escala (falhas na administração da usina tem sido apontados como causas cruciais para a crise). Até hoje o assentamento das placas após o movimento brusco de 2011 tem causado réplicas sensíveis na região, enquanto técnicos tentam controlar a radiação na usina

O sismo de 2011 está naquele intervalo de tempo previsto entre os grandes abalos nessa área, contando a partir do terremoto de 869.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

O Japão se abre para o mundo

Em 8 de julho de 1854, o comodoro Matthew Perry desembarca no Japão para entregar ao governo japonês um acordo para a abertura de relações com os Estados Unidos.

No começo da década de 1850, como toda economia industrializada do seu tempo, os EUA precisavam de mercado cada vez maior para os seus produtos. Os americanos já tinham uma ativa relação comercial com a China, mas havia fatores dificultando as coisas: as estações de abastecimento de carvão para navios a vapor na costa asiática eram quase todas francesas ou inglesas, o que encarecia o transporte. Havia, também, uma atividade considerável de baleeiros americanos caçando perto do Japão e sofrendo hostilidades, como veremos a seguir. Este país, em isolamento proposital havia 220 anos, era uma fronteira de mercado a ser explorada. O presidente Millward Fillmore, em 1852, autorizou uma expedição "diplomática" ao Japão, comandada por Perry, para propor ao governo local um tratado comercial. "Diplomática" entre aspas, porque a viagem seria feita em navios de guerra.

O Japão se isolou politicamente por meio de decretos assinados pelo shogun Tokugawa Iemitsu entre 1633 e 1639, proibindo estrangeiros de entrarem no Japão, e japoneses de saírem, sob pena de morte. Essas medidas foram uma reação à influência de missionários cristãos em terras japonesas (que fomentaram a rebelião armada de Shimabara contra o shogunato) e à influência europeia, sobretudo portuguesa e espanhola, nos negócios domésticos de maneira geral. Estabelecido o isolamento, apenas os holandeses, através de uma embaixada da Companhia das Índias Orientais Holandesas, tinham autorização para fazer negócios, sem, contudo, poder sair de sua ilha artificial na baía de Nagasaki. Outros quatro postos de comércio exterior, controlados por japoneses, mantinham o comércio ativo, embora de maneira naturalmente restrita, com a China, a Coreia, os Ainu (nativos do norte do Japão e territórios russos próximos), e o reino cliente insular de Ryukyu (hoje sob administração direta japonesa). Restringir e controlar o comércio exterior também fazia parte da estratégia de Tokugawa para manter o poder dos senhores locais (daimyo) em cheque e assegurar a supremacia do clã Tokugawa.

O comodoro Perry sabia bem que não seria apenas questão de desembarcar e discutir negócios com o shogun durante o chá. O Japão já respondera com hostilidade a tentativas estrangeiras de quebrar seu isolamento. Em 1647, uma frota de navios de guerra portugueses foi repelida em Nagasaki; uma comissão russa foi expulsa do país ao chegar ao mesmo porto em 1804; em 1811, um oficial russo foi preso ao desembarcar na ilha Kunashiri; em 1837, um comerciante americano na China tentou abrir relações com o Japão levando de volta três náufragos japoneses num navio de transporte, e ao chegar perto da costa, os japoneses responderam atirando, forçando-o a dar meia volta; em 1845, o capitão de um baleeiro americano resgatou 22 náufragos japoneses e os conduziu a Edo (atual Tóquio), e, apesar de ter conseguido se reunir com o governador local e oferecido presentes, foi convidado a nunca mais por os pés no país. Em 1848 o comandante americano James Glynn forçou a sua entrada pela baía de Nagasaki para pedir a libertação de 15 náufragos de um baleeiro americano feitos prisioneiros, alguns já mortos por maus tratos. Os holandeses interviram junto aos japoneses pela libertação dos sobreviventes. Este comandante Glynn recomendou ao governo dos Estados Unidos o uso da força para abrir relações diplomáticas e comerciais com o Japão.

A expedição de Perry contava com 8 navios armados para a guerra. O próprio Perry passou alguns meses lendo tudo que encontrou sobre o Japão, arregimentou diplomatas profissionais para aconselhá-lo, e contratou desterrados japoneses como intérpretes. Ele partiu da Virgínia e navegou para o leste. chegando a Ryukyu em maio de 1853, onde ostensivamente exibiu o poderio ofensivo de sua frota e sugeriu ameaças caso não fosse recebido pelo rei em pessoa. Ele sabia que suas ações seriam reportadas ao Japão (as ilhas eram dominadas politicamente pelo clã Satsuma, uma poderosa casa feudal japonesa), então sua diligência foi bem calculada. Dali ele levou 4 navios para o Japão.

Sua parada no Japão foi na baía de Edo, perto do porto de Uraga. Ele deliberadamente manobrou os navios e os alinhou com os canhões virados para a costa. Ele chegou a disparar com os canhões descarregados, alegando serem em comemoração ao Dia da Independência (mas claramente um sinal de intimidação). Barcos japoneses cercaram os navios, e um dignatário de Uraga entregou ao comodoro a ordem de que nenhuma embarcação estrangeira tinha permissão de aportar - Perry não o recebeu, permanecendo em sua cabine até ser recebido por uma autoridade à sua altura. Outro dignatário local contactou um dos capitães da frota para convencê-lo a levar os navios a Nagasaki, onde era feito o trabalho de diplomacia com estrangeiros, mas recebeu em retornou a ameaça de que Perry desembarcaria com tropas americanas para levar a carta do presidente dos Estados Unidos com o tratado pessoalmente ao palácio de Edo. Perry prosseguiu, mandando barcos a remo inspecionar as terras em volta, ameaçando abrir hostilidades caso os homens fossem perturbados.

Enquanto isso, o prefeito de Uraga mandou mensagem ao doente Tokugawa Ieyoshi, alertando que ele não teria como impedir um desembarque americano. O governo estava paralisado pela doença do shogun - em última análise, a única autoridade universalmente reconhecida no Japão - e pela ousadia dos americanos. Por fim, os autorizou a desembarcar na praia de Kurihama, o que Perry fez acompanhado de 250 marinheiros, sob uma salva de 13 tiros de canhão e hinos militares. Com o shogun impossibilitado, a carta do presidente Fillmore foi entregue a dois membros do conselho de anciãos, o corpo governante de fato na época. Perry se retirou no dia 17, prometendo retornar na primavera.

Depois do desembarque de Perry, o comando do shogunato entrou em parafuso. O velho Ieyoshi foi substituído pelo seu filho doente Iesada, de maneira que a administração continuou a cargo do conselho de anciãos. Contudo, não havia nesse conselho quem quisesse arriscar tomar uma atitude por conta própria. Eles consultaram (pela primeira vez) os daimyo para decidir o que fazer diante da ameaça americana, ao que metade respondeu que deveriam aceitar suas condições, e metade respondeu que não - mas todos concordaram que o Japão deveria fortalecer suas defesas no litoral. Essa demonstração de fraqueza e de indecisão para fazer valer a sua lei seriam cruciais para o futuro do shogunato Tokugawa mais à frente.

Perry retornou como prometido em fevereiro de 1854 com uma frota maior. Os japoneses estavam dispostos a aceitarem os termos da carta de Fillmore, mas se negavam a travar negociações em Edo, como Perry demandava. Depois de semanas neste impasse, em certo momento o comodoro ameaçou trazer 100 navios (mais do que os Estados Unidos possuíam na época) para destruir o Japão. Ele enfim desembarcou em Yokohama com 500 marinheiros e três bandas tocando o hino americano para assinar a Convenção de Kanagawa, que abria os portos de Shimoda e Hakodate aos navios americanos, garantia a segurança a náufragos americanos em terras japonesas, e o estabelecimento de um consulado. Os dois lados trocaram quinquilharias como presentes. Depois de uma nova parada em Ryukyu, Perry retornou triunfante aos Estados Unidos.

A princípio, as autoridades japonesas se escusaram alegando que o tratado não fora assinado pelo shogun, e que, portanto, não precisava ser obedecido, nem feria a soberania japonesa (embora ele tenha sido forçosamente ratificado mais tarde pelo próprio Imperador), e nem lhes trazia alguma desvantagem em particular. Mas a incapacidade do shogunato em fazer valer suas leis, ou sequer de impor sua autoridade sobre seus vassalos, levaria a um crescente descontentamento com o regime e o surgimento de vários movimentos nacionalistas, que planejavam restaurar o poder político do Imperador - por séculos uma figura meramente cerimonial, a quem os shoguns deviam reverência, mas ao mesmo tempo limitado pelas leis impostas pelos consecutivos shogunatos. Um tratado de 1858, em que os americanos, sob o argumento da agressividade bélica de britânicos e franceses nos seus negócios com a China, induziram o Japão a abrir mais concessões aos Estados Unidos, precipitou uma crise econômica (as transações eram feitas de maneira que os estrangeiros obtinham moedas de ouro japonesas a 1/3 do valor internacional, resultando numa rápida fuga de divisas), agitações populares, ataques a estrangeiros, e insurreições que levariam à conflagração de uma guerra civil. Em 1867, Yoshinobu, o último shogun Tokugawa, entregou seu cargo ao jovem imperador Meiji, líder espiritual da facção vencedora. Com sua liderança, o Japão, por tanto tempo isolado, entraria com força no cenário internacional.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Habemus panem

Em 7 de julho de 1928 o pão de forma fatiado e ensacado industrialmente foi introduzido no mercado americano.

O pão é uma pequena maravilha culinária que se faz misturando farinha de algum material vegetal rico em amido - grãos como trigo, cevada, painço, centeio, aveia, arroz, milho, ou raízes como mandioca, inhame, araruta - com água e assado ao fogo. Os pães mais antigos, possivelmente produzidos a partir de 30 mil anos atrás, eram basicamente grandes biscoitos achatados, crocantes e maciços feitos com material vegetal, especialmente rizomas de plantas silvestres ricos em amido. No Oriente Médio, sobretudo após a revolução agrícola do período neolítico, onde grãos como trigo e cevada eram as fontes de carboidratos mais comuns e facilmente cultiváveis, a receita do pão passava naturalmente pelo processo de fermentação, pois os próprios grãos continham esporos de fungos que entravam em atividade quando se misturava a farinha com a água, fazendo com que os pães fossem mais macios, mesmo os assados em formato achatado (o pão sírio ou árabe que conhecemos é um desenvolvimento desse método). Os judeus ritualisticamente preparam pães não fermentados durante a páscoa, assim como católicos na eucaristia. A "mágica" do fermento só foi decifrada em 1857, quando Louis Pasteur deduziu que o processo de fermentação ocorria através de atividade biológica de fungos associados à massa, e não por reações químicas espontâneas.

Como grãos, água e fogo eram recursos abundantes, o pão se tornou facilmente o alimento básico e principal fonte de carboidrato de praticamente toda sociedade agrária do mundo. Mesmo na Amazônia, onde grãos não podiam ser cultivados facilmente (embora o milho estivesse razoavelmente bem difundido), a farinha de mandioca supria essa carência, se tornando, inclusive, um produto importante de exportação, aquecendo a economia e possibilitando o intercâmbio cultural e tecnológico nas aldeias ao longo das rotas comerciais que iam do baixo Amazonas até o Equador. A tapioca, uma espécie de pãozinho chato assado sobre uma frigideira feito com uma farinha seca bem fina de mandioca, deixou de ser uma iguaria de cozinhas regionais do Norte e Nordeste do Brasil para ganhar as prateleiras de supermercado das capitais do Sudeste devido a um trabalho oportunista de publicidade - a mandioca é desprovida de glúten, proteína típica do trigo e presente na farinha branca cuja digestão difícil pode provocar gases e irritação no intestino. Eu nem precisei disso para me tornar um adepto!

O pão sempre figurou como fonte importante de alimento, e a adesão ao pão na dieta está geralmente ligada à disponibilidade geral de outras fontes de alimento, como carnes, raízes, e frutas. Em tempos de escassez, recorre-se ao pão. No Haiti, onde a escassez é generalizada e muito do solo do país já foi esgotado, as famílias mais pobres, nos piores momentos, tentam "simular" um pão usando cinzas no complemento à farinha. Houve casos em que a dependência do pão causou problemas. Na Europa central e mais ao norte, o centeio sempre foi um dos principais grãos cultivados e fonte de farinha para pães. Acontece que, ocasionalmente, as espigas do centeio são infestadas por um fungo da espécie Claviceps purpurea (conhecido em francês como "ergot"), rico em alcaloides e que aparece como uma coisa comprida e escura bastante conspícua que normalmente faz com que a espiga seja descartada. Em tempos de escassez, mesmo essas espigas contaminadas eram aproveitadas e moídas. Os alcaloides do fungo são preservados no cozimento da massa, e causam diversas reações: vasoconstrição (que pode levar a gangrena das extremidades, descamação da pele e feridas), associado a um quadro neurológico complexo, que inclui convulsões, espasmos, coceiras, comportamento psicótico, enjoos, delírio. O quadro, conhecido hoje como ergotismo, foi associado durante a Idade Média a interferência divina ou de santos (os delírios podiam ser interpretados como mensagens divinas), conhecida como "fogo de Santo Antônio", porque freis antoninos na França se tornaram especialistas no tratamento dos doentes.

Enfim, o pão de forma fatiado foi uma pequena revolução na indústria alimentícia. A receita não era nova. O "loaf of bread", a massa retangular de farinha de trigo macia e de casca fina assada dentro de uma forma retangular, que nós conhecemos como pão de forma, já era produzido nos Estados Unidos desde o começo do século XX (quando a farinha de trigo se tornou artigo popular no país). Quem produzia esse pão para o comércio, o vendia por peça, e ficava a cargo do consumidor cortar as fatias. Se alguém se lembra do filme Tempos Modernos (1936), há uma cena em que Carlitos sai do seu barraco para um mergulho (batendo a cabeça no fundo do "lago", que é pouco mais que uma poça d'água), enquanto sua companheira (Paulette Goddard) corta algumas fatias grossas de pão de forma, e com elas faz enormes sanduíches de presunto que eles mal conseguem morder. Quem assa pães de forma em casa sabe a dificuldade que é cortar as fatias manualmente com a precisão do pão de forma do supermercado.

O processo industrial para fatiar e ensacar o pão de forma havia sido inventado por Otto Frederick Rohwedder em 1912, mas o protótipo da máquina foi destruído num incêndio. Um primeiro modelo funcional foi vendido a uma empresa na pequena cidade de Chillicothe, que começou a vender o pão de forma fatiado. As fatias, finas e padronizadas, induziam o consumidor a consumir o pão mais rapidamente e com menos desperdícios. Também, como havia mais fatias disponíveis num pão do que se fosse cortado manualmente, todo a indústria de pastas, geleias, manteiga, recheios e coberturas diversas sentiu um "boom" nos negócios com a popularização desse tipo de pão. Hoje em dia o pão de forma fatiado industrialmente é popular em vários países do mundo e comercializado das mais diferentes maneiras - fatias mais grossas, mais finas, porções menores, maiores, com casca, sem casca, e inúmeras variações da receita básica e no tipo de farinha empregada, de acordo com as demandas de mercado.