Em 13 de janeiro de 1895, a Itália venceu a Batalha de Coatit, na Eritréia, contra forças leais ao Império da Etiópia. Foi a primeira batalha da Primeira Guerra da Abissínia, travada entre os dois países pelo controle daquela parte do Chifre da África.
A Primeira Guerra Ítalo-Etíope, ou Guerra da Abissínia, foi uma consequência do imperialismo do século XIX que culminaria na Partilha da África, e suas causas são bem convolutas: o Egito, protetorado do Império Otomano com alto grau de autonomia, começou a se mover para construir um império para si próprio na África, tomando partes do Sudão e conquistando a Eritreia. O Egito também tentou conquistar a Etiópia, mas fracassou. Uma grave crise econômica no último quartel do século XIX levou o Egito a abandonar a Eritreia, e em 1882 forças britânicas chegaram ao Cairo para uma intervenção no país - efetivamente colocando-o sob protetorado britânico.
Acontece que o Egito, desde as Guerras Revolucionárias, permaneceu na esfera política da França, e os franceses buscavam meios de remover os britânicos do país e restabelecer a sua influência local. Em 1869 foi concluído o Canal de Suez, o que tornava o Mar Vermelho o principal canal comercial entre Europa e Ásia, e a França passou a investir no estabelecimento de entrepostos, sobretudo em Djibuti, onde estava centrada a colônia da Somália Francesa - se a França conseguisse controle sobre o Mar Vermelho, o Canal de Suez e o Egito como um todo teria pouca valia aos britânicos. A Eritreia foi abandonada pelo Egito, e para evitar que a França assumisse controle do país, mas sem o ônus de estabelecer toda a administração colonial necessária, os britânicos manobravam diplomaticamente para que algum aliado assumisse a tarefa. Eles encorajavam o imperador etíope João IV, mas um tratado de 1884 já assegurava seu acesso ao porto eritreu de Massawa, e ele se dava por satisfeito. Então os britânicos voltaram-se para a Itália.
A palavra corrente na Itália no final do século era de ultraje pela anexação de Túnis pelos franceses. Túnis era possessão otomana, mas por questão de proximidade os italianos consideravam que, se a África devesse ser partilhada entre os países europeus, a Tunísia deveria estar sob a sua esfera de influência por questões geográficas e históricas. Além do sentimento anti-francês, havia uma expectativa na Itália de uma "virada" na sua história desde a sua unificação em 1861, porém pouco progresso podia ser sentido pois a maioria da população ainda vivia em situação de pobreza. Em 1885, a chegada de forças italianas em Massawa foi anunciada como o início de uma nova era.
A Etiópia fora a nação africana que sobreviveu às ondas expansionistas de árabes, turcos, e europeus, e mantivera continuadamente sua independência política. De fato, os etíopes conservavam o cristianismo ortodoxo como religião desde os seus primeiros séculos em meio a um mundo islâmico no seu entorno, e a nobreza etíope considerava-se herdeira direta do rei israelita Salomão através de sua amante Salomé (a bíblica "Rainha de Sabá"). Enquanto a Itália operava o porto de Massawa, Menelik II vencia uma guerra de sucessão contra o filho de João IV, Ras Mengesha (conquistando no caminho as regiões eritréias de Amara e Tigray, efetivamente conquistando a Eritreia) e era coroado Imperador da Etiópia. Logo em seguida ele assinou um tratado com o governo italiano em que cedia aos europeus o controle sobre a Eritreia em troca do reconhecimento de Menelik como soberano na Etiópia. Ou assim ele pensava.
Mas havia um porém: o texto em italiano e amárico não dizia a mesma coisa nas duas línguas. Em italiano, a Etiópia se tornava seu protetorado; em amárico, o mesmo trecho descrevia um dispositivo em que Menelik poderia negociar com qualquer nação européia por intermédio dos italianos. No frigir dos ovos, todas as nações europeias, com exceção do Império Otomano (que ainda se considerava o legítimo senhor da Eritreia) e da Rússia (que desaprovava o domínio de um país cristão ortodoxo por outro católico), reconheceram a versão italiana do tratado. Os apelos de Menelik à Grã-Bretanha e à Alemanha foram formalmente repelidos em respeito ao seu entendimento do tratado. Eventualmente Menelik, que não lia italiano (ao contrário do redator do tratado, o embaixador em Adis Abeba Pietro Antonelli, que era fluente em amárico) descobriu que havia sido enganado, o tratado foi cancelado unilateralmente.
Uma guerra entre a Itália (uma nação subdesenvolvida na época) contra a Etiópia na África poderia ter sido observada apenas superficialmente como curiosidade, ou como uma extravagância da jovem nação européia. Mas na realidade ela mexeu com antigas alianças e interesses geopolíticos maiores do que os dois países beligerantes. A Itália, por exemplo, que compunha uma Tríplice Aliança com Alemanha e Império Austro-Húngaro, fragilizou a composição dessa aliança ao aceitar a corte feita pela Grã-Bretanha, contra a qual a aliança se opunha. A França, que exigia uma posição de influência na Eritreia, negociava com a Itália a segurança da sua possessão na Tunísia, enquanto a Rússia, sua aliada, enviava armas e suprimentos para a Etiópia, esperando montar ali uma cabeça de ponte para uma possível expansão em direção à África - em 1894, foi a Rússia a primeira nação européia a denunciar o tratado.
As hostilidades começaram em 1893, quando Menelik repudiou o tratado. A Itália então moveu-se para assegurar territórios em volta das terras já ocupadas, tentando tomar Tigray com apoio de lideranças locais, rivais do imperador etíope, mas eles subestimaram o sentimento de unidade dos povos etíopes e eritreus em torno do seu imperador (ao qual preferiam em lugar de invasores europeus) - um deles, o próprio Ras Mengesha, filho e herdeiro natural do trono etíope, apareceu em Adis Abeba meses antes para manifestar sua submissão pública ao antigo rival.
O Primeiro Ministro italiano, Francesco Crispi, descrito como um sujeito presunçoso e tolo, acreditava que a nação africana, composta por "negros" (com a conotação negativa que isso podia ter), seria incapaz de se defender de uma máquina de guerra moderna. De fato, nos dois primeiros anos de guerra os italianos ocuparam a capital de Tigray, Adwa, e desbarataram as forças de Mengesha, se apropriando de armas e documentos estratégicos. A França ainda recusou o apoio pedido por Menelik e cortou relações com o país, deixando-o isolado. A vitória inicial em Coatit foi na verdade para repelir as forças de Mengesha, que invadiram a Eritreia - repelir o invasor elevou em grande medida a moral dos italianos.
As regiões de Tigray e Amara, ocupadas em rendidas pelos europeus, ficam na Eritreia: os etíopes propriamente ditos (um grande número de grupos étnicos unidos há milênios sob a figura do imperador) ainda não haviam sido testados. Menelik investiu toda a economia do país na mobilização de um exército, aproveitando-se das armas compradas aos russos (ou das que haviam chegado, pois os britânicos conseguiram impedir que um carregamento atravessasse a Eritreia até a Etiópia). Uma grande manifestação com quase 200 mil soldados recrutados de todas as partes do país em Adis Abeba teve enorme efeito motivador.
Em 1895 os italianos entraram no norte da Etiópia, mas foram expulsos de volta na batalha de Amba Alagi em dezembro. Menelik e sua esposa, a imperatriz Taytu Betul (diz-se que Menelik era um homem excessivamente diplomático, e ela lhe prestava o serviço de dizer "não" em situações difíceis) comandaram pessoalmente a contra-ofensiva etíope em Tigray. Em janeiro, após várias tentativas, conseguiram a rendição dos italianos no forte de Mekele, na fronteira com a Eritréia. Menelik permitiu que os soldados rendidos retornassem à sua base, sob comando do General Oreste Baratieri, cedendo mesmo a eles animais de carga. O gesto de generosidade teve outro objetivo: Baratieri esperaria os soldados retornarem para planejar o próximo passo, e isso daria tempo de Menelik encastelar-se nas montanhas perto de Adwa. Como resultado, Baratieri (cujo efetivo não chegava a 25 mil homens) ficou imóvel, relutando em avançar contra uma posição desvantajosa. Foi por pressão do primeiro ministro Crispi que o general decidiu agir.
Em 1 de março de 1896, cerca de 18 mil italianos e aliados nativos atacaram de madrugada os cerca de 100 mil etíopes em Adwa, esperando pegá-los ainda dormindo; mas os defensores acordavam cedo para os serviços religiosos, e estavam alertas e cientes do inimigo. Sucessivas ondas de etíopes esmagaram as brigadas italianas. Naquele dia, cerca de 12 mil soldados morreram de ambos os lados - perdas maiores do que qualquer batalha na Europa no século anterior. Os italianos presos pelos etíopes foram tratados da melhor maneira possível - já os presos eritreus que lutaram ao seu lado foram julgados traidores e tiveram as mãos decepadas.
Depois disso, Menelik negociou o tratado de Adis Abeba com a Itália e delimitou as fronteiras entre Etiópia e Eritréia, assegurando as posições italianas no país vizinho e forçando a Itália a reconhecer a independência da Etiópia. A vitória sobre um exército europeu fez com que ingleses e franceses reconhecessem o país como uma potência regional e negociassem seus próprios tratados com eles. O país africano permaneceria soberano até 1936, quando a Itália fascista novamente avançaria sobre a Etiópia, desta vez como uma forma de testar a máquina de guerra que empregaria três anos depois, na Segunda Guerra Mundial.
Neste dia também: Espanha visigótica
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sexta-feira, 13 de janeiro de 2017
terça-feira, 12 de janeiro de 2016
Guerra de Biafra
Em 12 de janeiro de 1970, o governo da república separatista de Biafra, no sudeste da Nigéria, entregou ao governo nigeriano um pedido de cessar fogo. Foi o último ato oficial da breve república, depois de quase 3 anos de uma guerra civil que ficaria registrada na memória mundial como uma das maiores tragédias humanitárias do século XX.
O que se chama hoje de Nigéria é um pedaço delimitado arbitrariamente das colônias britânicas na África equatorial, fatalmente englobando, sob uma mesma unidade geopolítica, centenas de grupos étnicos distintos. Desses grupos todos, três deles compunham a maioria da população da Nigéria colonial: os Yoruba no sudoeste (etnia que viria a ser bem representada no Brasil por causa dos escravos trazidos para cá, sobretudo no Nordeste), os Hausa-Fulani no norte, e Igbo no sudeste. Acontece dessas três etnias terem desenvolvido, em tempos pré-coloniais e posteriores, modos de vida fundamentalmente diferentes:
Os Hausa-Fulani eram muçulmanos e viviam em uma sociedade quase feudal, em que as relações sociais se baseavam na obediência a uma autoridade superior cujo direito ao cargo era inquestionável (pessoas comuns deviam obediência ao líder tribal, estes ao emir local, e os emires a um sultão). Os britânicos adotaram uma política menos intervencionista nessa parte da colônia para garantir a colaboração dos emires e da população sob o seu controle, e, futuramente, reproduziria este sistema nas demais regiões. A verticalização radical da sociedade Hausa-Fulani inibia a participação popular na política ao ponto das pessoas comuns rejeitarem modelos administrativos mais liberais propostos pelos britânicos como sacrílegos. Como consequência, as comunidades nortenhas permaneceram fechadas aos modelos de educação e desenvolvimento implementados em outras áreas, e o norte da Nigéria permaneceu praticamente estagnado;
Os Yoruba viviam em comunidades sob o domínio de monarcas, porém numa estrutura social sem a rigidez dos Hausa-Fulani. De fato, uma pessoa podia ascender na sociedade Yoruba com base nas suas posses e ganhos acumulados com seu trabalho ou por herança. Os Yoruba foram o primeiro grande grupo étnico da Nigéria a ser cristianizado e a adotar modelos ocidentais de administração da sua sociedade. Ao longo do século XX, a educação formal na região produziu entre os Yoruba uma mão de obra especializada para o setor terciário da economia que não tinha paralelo na África equatorial (com profissionais formados em administração pública, medicina, engenharia, direito, etc.);
Os Igbo, separados dos Yoruba pelo baixo curso do rio Niger, viviam tradicionalmente em comunidades auto-geridas com democracia direta: qualquer homem Igbo poderia participar das assembleias que decidiam, pelo voto, a adoção de políticas locais. Essa descentralização entre os Igbo dificultou a imposição da autoridade colonial britânica, tanto pela dificuldade de impor uma estrutura verticalizada, a partir de um ou mais líderes nativos, como pela tendência à insubordinação. Os Igbo, que foram bastante afetados pelo tráfico de escravos para a América, acabavam, pela sua tendência à autonomia e organização criativa, por desafiar o sistema escravagista (escravos Igbo ou descendentes deles lideraram revoltas em Barbados e Estados Unidos, e participaram do movimento de retorno à África com a fundação da República da Libéria). Quando finalmente foram "domados" pela imposição da presença de chefes nas comunidades já avançando no século XX, os Igbo adotaram avidamente o cristianismo e o sistema de educação ocidental às vezes às custas das suas próprias tradições.
Talvez, das três etnias, o modo de vida dos Igbo tenha sido o mais afetado por esse processo de ocidentalização. Como consequência, o sudeste da Nigéria se tornou o principal foco de desenvolvimento econômico da colônia (a despeito da distância da antiga capital Lagos, no sudoeste). Some-se a isso a descoberta de petróleo na região do delta do Niger, e a forte demanda pela matéria prima a partir da Segunda Guerra Mundial. O ritmo de desenvolvimento da Nigéria nesse período, desigual entre sul e norte, acentuou enormemente as diferenças entre os seus grupos étnicos predominantes, e junto com isso, a desconfiança mútua. Não obstante, em todas as regiões do país, as grandes cidades tinham sempre representantes de todas elas ocupando seus nichos e, de alguma forma, cooperando entre si.
A autoridade colonial dividiu a Nigéria em três distritos, que coincidiam com as áreas controladas pelas suas etnias majoritárias, e instituiu um sistema parlamentar representativo, uma espécie de regime federal, ainda que o governo central não fosse independente. Eventualmente, os três grupos e seus aliados mais próximos dividiram-se em três partidos, legislando cada um sobre seus interesses. Por causa do surgimento de uma classe intelectual ativa no sul, Yoruba e Igbo lideravam os movimentos de independência do país a partir da década de 1950. Mas ao mesmo tempo, articulavam-se para que a estrutura desse novo Estado neutralizasse uma possível influência do norte conservador e pró-britânico, onde se concentrava a maior parte da população, e, individualmente, constituía o partido com mais representantes no parlamento. Essa neutralização se daria pela pulverização da três regiões em estados menores, com a maior parte dessas novas regiões administrativas no sul. Os Hausa-Fulani condicionaram a sua adesão à luta pela independência à manutenção dos três distritos. Em nome da causa, líderes Igbo e Yoruba, que tinham suas próprias diferenças, aceitaram.
As diferenças entre Igbo e Yoruba, concerniam, entre outros pontos, o status da capital, Lagos, cidade predominantemente Yoruba. Os Igbo queriam que ela se tornasse um distrito federal, ou "terra de ninguém", o que infureceu o partido Yoruba ao ponto de ameaçar sua secessão. De fato, eles solicitaram a inclusão ao direito de secessão nas assembleias constituintes que precederam a independência. Os Igbo eram veementemente contra, com apoio da aliança do norte.
Com as rivalidades acirradas, os três partidos começaram a investir nas suas próprias forças internas. Os três distritos começaram a se armar, e conflitos apareciam aqui e ali, geralmente na forma de brigas de gangues ou agressões a pessoas e propriedades de minorias locais.
O governo britânico, seguindo acordos pré-acertados, concedeu independência à Nigéria em outubro de 1960. O norte, com maioria dos representantes no parlamento, nomeou seu representante, Tafawa Balewa, Primeiro-Ministro. Não demorou para que o governo central, controlado pelos Hausa-Fulani, começasse a minar as forças políticas do sul, acusando seus líderes de corrupção e promovendo prisões e julgamentos particularmente rápidos, para tirá-los do caminho. Um breve sinal de aliança entre o grupo de Balewa e os Yoruba foi o sinal para um golpe de Estado em 1966, que, sob a justificativa divulgada de acabar com a corrupção, levou um grupo de militares, a maioria Igbo, a controlar o governo central e o judiciário. No norte do país, em resposta, cidadãos Igbo, às dezenas de milhares, eram presos por autoridades locais e populares, enviados a campos de prisioneiros ou executados sumariamente. Não demorou muito para que outro grupo militar assassinasse o presidente em exercício, Johnson Ironsi, e tomasse a presidência. Lideranças Igbo, contando com um enorme afluxo de imigrantes Igbo fugidos do norte, então reuniram-se no sudoeste do país e decidiram pela proclamação da independência do seu distrito, criando a República de Biafra (em alusão ao Golfo de Biafra, nome alternativo do mar ao sul, parte do Golfo da Guiné), com capital na cidade industrial de Enugu. A consequência foi a guerra.
O governo central, agora compartilhado por Hausa-Fulani e Yoruba, contando com um exército três vezes maior, agiu imediatamente e, ao final de 1967 já tinha Biafra sitiada. O rio Niger estava bloqueado, assim como os portos e estradas e o acesso aos poços de petróleo. Biafra respondeu, chegando a avançar uma coluna até 200 km da capital nigeriana. Mas o abastecimento de alimentos ficou comprometido. Mesmo diante da tragédia humanitária, o governo de Lagos chegou ao extremo de impedir a entrada de corpos da Cruz Vermelha em Biafra. Das mais de 3 milhões de pessoas que viviam na região, dois milhões morreram de fome ou doenças provocadas pela desnutrição no decorrer dos 3 anos de conflito. O exército nigeriano queria evitar uma ação direta sobre uma região que pretendia governar em seguida, e deliberadamente deixou que o desabastecimento fragilizasse o inimigo. Para ataques diretos, os nigerianos empregavam mercenários estrangeiros, tática adotada também por Biafra.
O envolvimento internacional tornava a guerra mais confusa. Os britânicos tinham uma aliança com os nortenhos e tinham interesse em manter a ex-colônia coesa, principalmente por que Biafra contava com a simpatia (mas não o reconhecimento) da França e Israel. Soviéticos apoiavam o governo nigeriano. Todos esses atores forneciam armas aos dois lados do conflito (a França cedia a Biafra armamentos capturados aos alemães na Segunda Guerra Mundial, e oficialmente vendia novos ao governo nigeriano). O apoio franco a Biafra vinha dos únicos cinco países que reconheciam sua independência (Tanzânia, Gabão, Costa do Marfim, Zâmbia, e, único fora da África, o Haiti), que na prática não podiam prestar qualquer auxílio. Apenas a Costa do Marfim atuava como intermediário para a entrega de armas francesas a Biafra. Os Estados Unidos estavam apenas preocupados com a crise humanitária que chegava dramaticamente à grande imprensa local, causando impacto na opinião pública (o ativista Bruce Mayrock chegou ao extremo de atear fogo ao próprio corpo em protesto diante do prédio das Nações Unidas), mas agiu apenas para proteger seus investimentos na Nigéria.
Finalmente, em dezembro de 1969, com apoio britânico alimentando sua máquina de guerra, o governo nigeriano lançou uma ofensiva final por terra e pelo mar. O presidente de Biafra, Chukwuemeka Ojukwu, fugiu do país, e uma a uma as principais cidades capitularam aos invasores. Em 12 de janeiro o que restava da autoridade secessionista em Enugu entregou um pedido de cessar fogo ao general Yakubu Gowon. A guerra terminou três dias depois, com a ocupação militar de todo o distrito e sua reincorporação à Nigéria.
A guerra em Biafra causou mais danos humanitários do que materiais. Talvez um terço dos seus soldados, cerca de 10 mil, tenham morrido em ação. Grande parte da população civil pereceu pela fome. O comprometimento demográfico, e as sanções do governo central às lideranças e aos direitos civis na região retardaram a sua recuperação econômica, deixando os Igbo atualmente vulneráveis a perseguições políticas. As tensões étnicas se agravaram: o norte, mais pobre, porém mais populoso, continuaria sobre uma rígida estrutura hierárquica cimentada no Islã, permanentemente ressentido da predominância do sul nos negócios do Estado, até que, no começo do século XXI, um movimento especificamente contra a implementação de uma educação laica no modelo ocidental se convertesse numa milícia armada fundamentalmente islâmica, o Boko Haram, ainda em atividade. Os Yoruba, por sua vez, concederam em mover a capital para uma nova cidade, projetada e construída a partir dos anos 1970, no centro do país (Abuja) para contemplar as três etnias e tentar amenizar as tensões. Mas mesmo sob regime democrático desde 1999 e com uma economia que lidera toda a África equatorial, a Nigéria ainda não consegue conciliar os interesses dos grupos étnicos e religiosos sob seu governo, e, com a maior população da África e a maior reserva de petróleo do continente, é um grande barril de pólvora.
No Brasil, onde as tragédias não são levadas a sério, "Biafra" se tornou um apelido comum às pessoas mais magras (motivo pelo qual foi apelidado o cantor Byafra). No mundo, este episódio ficaria marcado como a mais chocante crise humanitária na África até o advento da crise na Etiópia no final dos anos 80. Em resposta à crise em Biafra e às restrições impostas pelo governo nigeriano ao envio de suprimentos e socorro médico à região, médicos franceses se infiltraram clandestinamente para prestar atendimento aos casos mais graves, associando-se no que se tornaria a organização não-governamental Médicos Sem Fronteiras.
Neste dia também: Queda de Caiena
O que se chama hoje de Nigéria é um pedaço delimitado arbitrariamente das colônias britânicas na África equatorial, fatalmente englobando, sob uma mesma unidade geopolítica, centenas de grupos étnicos distintos. Desses grupos todos, três deles compunham a maioria da população da Nigéria colonial: os Yoruba no sudoeste (etnia que viria a ser bem representada no Brasil por causa dos escravos trazidos para cá, sobretudo no Nordeste), os Hausa-Fulani no norte, e Igbo no sudeste. Acontece dessas três etnias terem desenvolvido, em tempos pré-coloniais e posteriores, modos de vida fundamentalmente diferentes:
Os Hausa-Fulani eram muçulmanos e viviam em uma sociedade quase feudal, em que as relações sociais se baseavam na obediência a uma autoridade superior cujo direito ao cargo era inquestionável (pessoas comuns deviam obediência ao líder tribal, estes ao emir local, e os emires a um sultão). Os britânicos adotaram uma política menos intervencionista nessa parte da colônia para garantir a colaboração dos emires e da população sob o seu controle, e, futuramente, reproduziria este sistema nas demais regiões. A verticalização radical da sociedade Hausa-Fulani inibia a participação popular na política ao ponto das pessoas comuns rejeitarem modelos administrativos mais liberais propostos pelos britânicos como sacrílegos. Como consequência, as comunidades nortenhas permaneceram fechadas aos modelos de educação e desenvolvimento implementados em outras áreas, e o norte da Nigéria permaneceu praticamente estagnado;
Os Yoruba viviam em comunidades sob o domínio de monarcas, porém numa estrutura social sem a rigidez dos Hausa-Fulani. De fato, uma pessoa podia ascender na sociedade Yoruba com base nas suas posses e ganhos acumulados com seu trabalho ou por herança. Os Yoruba foram o primeiro grande grupo étnico da Nigéria a ser cristianizado e a adotar modelos ocidentais de administração da sua sociedade. Ao longo do século XX, a educação formal na região produziu entre os Yoruba uma mão de obra especializada para o setor terciário da economia que não tinha paralelo na África equatorial (com profissionais formados em administração pública, medicina, engenharia, direito, etc.);
Os Igbo, separados dos Yoruba pelo baixo curso do rio Niger, viviam tradicionalmente em comunidades auto-geridas com democracia direta: qualquer homem Igbo poderia participar das assembleias que decidiam, pelo voto, a adoção de políticas locais. Essa descentralização entre os Igbo dificultou a imposição da autoridade colonial britânica, tanto pela dificuldade de impor uma estrutura verticalizada, a partir de um ou mais líderes nativos, como pela tendência à insubordinação. Os Igbo, que foram bastante afetados pelo tráfico de escravos para a América, acabavam, pela sua tendência à autonomia e organização criativa, por desafiar o sistema escravagista (escravos Igbo ou descendentes deles lideraram revoltas em Barbados e Estados Unidos, e participaram do movimento de retorno à África com a fundação da República da Libéria). Quando finalmente foram "domados" pela imposição da presença de chefes nas comunidades já avançando no século XX, os Igbo adotaram avidamente o cristianismo e o sistema de educação ocidental às vezes às custas das suas próprias tradições.
Talvez, das três etnias, o modo de vida dos Igbo tenha sido o mais afetado por esse processo de ocidentalização. Como consequência, o sudeste da Nigéria se tornou o principal foco de desenvolvimento econômico da colônia (a despeito da distância da antiga capital Lagos, no sudoeste). Some-se a isso a descoberta de petróleo na região do delta do Niger, e a forte demanda pela matéria prima a partir da Segunda Guerra Mundial. O ritmo de desenvolvimento da Nigéria nesse período, desigual entre sul e norte, acentuou enormemente as diferenças entre os seus grupos étnicos predominantes, e junto com isso, a desconfiança mútua. Não obstante, em todas as regiões do país, as grandes cidades tinham sempre representantes de todas elas ocupando seus nichos e, de alguma forma, cooperando entre si.
A autoridade colonial dividiu a Nigéria em três distritos, que coincidiam com as áreas controladas pelas suas etnias majoritárias, e instituiu um sistema parlamentar representativo, uma espécie de regime federal, ainda que o governo central não fosse independente. Eventualmente, os três grupos e seus aliados mais próximos dividiram-se em três partidos, legislando cada um sobre seus interesses. Por causa do surgimento de uma classe intelectual ativa no sul, Yoruba e Igbo lideravam os movimentos de independência do país a partir da década de 1950. Mas ao mesmo tempo, articulavam-se para que a estrutura desse novo Estado neutralizasse uma possível influência do norte conservador e pró-britânico, onde se concentrava a maior parte da população, e, individualmente, constituía o partido com mais representantes no parlamento. Essa neutralização se daria pela pulverização da três regiões em estados menores, com a maior parte dessas novas regiões administrativas no sul. Os Hausa-Fulani condicionaram a sua adesão à luta pela independência à manutenção dos três distritos. Em nome da causa, líderes Igbo e Yoruba, que tinham suas próprias diferenças, aceitaram.
As diferenças entre Igbo e Yoruba, concerniam, entre outros pontos, o status da capital, Lagos, cidade predominantemente Yoruba. Os Igbo queriam que ela se tornasse um distrito federal, ou "terra de ninguém", o que infureceu o partido Yoruba ao ponto de ameaçar sua secessão. De fato, eles solicitaram a inclusão ao direito de secessão nas assembleias constituintes que precederam a independência. Os Igbo eram veementemente contra, com apoio da aliança do norte.
Com as rivalidades acirradas, os três partidos começaram a investir nas suas próprias forças internas. Os três distritos começaram a se armar, e conflitos apareciam aqui e ali, geralmente na forma de brigas de gangues ou agressões a pessoas e propriedades de minorias locais.
O governo britânico, seguindo acordos pré-acertados, concedeu independência à Nigéria em outubro de 1960. O norte, com maioria dos representantes no parlamento, nomeou seu representante, Tafawa Balewa, Primeiro-Ministro. Não demorou para que o governo central, controlado pelos Hausa-Fulani, começasse a minar as forças políticas do sul, acusando seus líderes de corrupção e promovendo prisões e julgamentos particularmente rápidos, para tirá-los do caminho. Um breve sinal de aliança entre o grupo de Balewa e os Yoruba foi o sinal para um golpe de Estado em 1966, que, sob a justificativa divulgada de acabar com a corrupção, levou um grupo de militares, a maioria Igbo, a controlar o governo central e o judiciário. No norte do país, em resposta, cidadãos Igbo, às dezenas de milhares, eram presos por autoridades locais e populares, enviados a campos de prisioneiros ou executados sumariamente. Não demorou muito para que outro grupo militar assassinasse o presidente em exercício, Johnson Ironsi, e tomasse a presidência. Lideranças Igbo, contando com um enorme afluxo de imigrantes Igbo fugidos do norte, então reuniram-se no sudoeste do país e decidiram pela proclamação da independência do seu distrito, criando a República de Biafra (em alusão ao Golfo de Biafra, nome alternativo do mar ao sul, parte do Golfo da Guiné), com capital na cidade industrial de Enugu. A consequência foi a guerra.
O governo central, agora compartilhado por Hausa-Fulani e Yoruba, contando com um exército três vezes maior, agiu imediatamente e, ao final de 1967 já tinha Biafra sitiada. O rio Niger estava bloqueado, assim como os portos e estradas e o acesso aos poços de petróleo. Biafra respondeu, chegando a avançar uma coluna até 200 km da capital nigeriana. Mas o abastecimento de alimentos ficou comprometido. Mesmo diante da tragédia humanitária, o governo de Lagos chegou ao extremo de impedir a entrada de corpos da Cruz Vermelha em Biafra. Das mais de 3 milhões de pessoas que viviam na região, dois milhões morreram de fome ou doenças provocadas pela desnutrição no decorrer dos 3 anos de conflito. O exército nigeriano queria evitar uma ação direta sobre uma região que pretendia governar em seguida, e deliberadamente deixou que o desabastecimento fragilizasse o inimigo. Para ataques diretos, os nigerianos empregavam mercenários estrangeiros, tática adotada também por Biafra.
O envolvimento internacional tornava a guerra mais confusa. Os britânicos tinham uma aliança com os nortenhos e tinham interesse em manter a ex-colônia coesa, principalmente por que Biafra contava com a simpatia (mas não o reconhecimento) da França e Israel. Soviéticos apoiavam o governo nigeriano. Todos esses atores forneciam armas aos dois lados do conflito (a França cedia a Biafra armamentos capturados aos alemães na Segunda Guerra Mundial, e oficialmente vendia novos ao governo nigeriano). O apoio franco a Biafra vinha dos únicos cinco países que reconheciam sua independência (Tanzânia, Gabão, Costa do Marfim, Zâmbia, e, único fora da África, o Haiti), que na prática não podiam prestar qualquer auxílio. Apenas a Costa do Marfim atuava como intermediário para a entrega de armas francesas a Biafra. Os Estados Unidos estavam apenas preocupados com a crise humanitária que chegava dramaticamente à grande imprensa local, causando impacto na opinião pública (o ativista Bruce Mayrock chegou ao extremo de atear fogo ao próprio corpo em protesto diante do prédio das Nações Unidas), mas agiu apenas para proteger seus investimentos na Nigéria.
Finalmente, em dezembro de 1969, com apoio britânico alimentando sua máquina de guerra, o governo nigeriano lançou uma ofensiva final por terra e pelo mar. O presidente de Biafra, Chukwuemeka Ojukwu, fugiu do país, e uma a uma as principais cidades capitularam aos invasores. Em 12 de janeiro o que restava da autoridade secessionista em Enugu entregou um pedido de cessar fogo ao general Yakubu Gowon. A guerra terminou três dias depois, com a ocupação militar de todo o distrito e sua reincorporação à Nigéria.
A guerra em Biafra causou mais danos humanitários do que materiais. Talvez um terço dos seus soldados, cerca de 10 mil, tenham morrido em ação. Grande parte da população civil pereceu pela fome. O comprometimento demográfico, e as sanções do governo central às lideranças e aos direitos civis na região retardaram a sua recuperação econômica, deixando os Igbo atualmente vulneráveis a perseguições políticas. As tensões étnicas se agravaram: o norte, mais pobre, porém mais populoso, continuaria sobre uma rígida estrutura hierárquica cimentada no Islã, permanentemente ressentido da predominância do sul nos negócios do Estado, até que, no começo do século XXI, um movimento especificamente contra a implementação de uma educação laica no modelo ocidental se convertesse numa milícia armada fundamentalmente islâmica, o Boko Haram, ainda em atividade. Os Yoruba, por sua vez, concederam em mover a capital para uma nova cidade, projetada e construída a partir dos anos 1970, no centro do país (Abuja) para contemplar as três etnias e tentar amenizar as tensões. Mas mesmo sob regime democrático desde 1999 e com uma economia que lidera toda a África equatorial, a Nigéria ainda não consegue conciliar os interesses dos grupos étnicos e religiosos sob seu governo, e, com a maior população da África e a maior reserva de petróleo do continente, é um grande barril de pólvora.
No Brasil, onde as tragédias não são levadas a sério, "Biafra" se tornou um apelido comum às pessoas mais magras (motivo pelo qual foi apelidado o cantor Byafra). No mundo, este episódio ficaria marcado como a mais chocante crise humanitária na África até o advento da crise na Etiópia no final dos anos 80. Em resposta à crise em Biafra e às restrições impostas pelo governo nigeriano ao envio de suprimentos e socorro médico à região, médicos franceses se infiltraram clandestinamente para prestar atendimento aos casos mais graves, associando-se no que se tornaria a organização não-governamental Médicos Sem Fronteiras.
Neste dia também: Queda de Caiena
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
Unido pela partilha, partido pela união.
Em 2 de setembro de 1898, uma força anglo-egípcia derrotou um exército mais numeroso de guerreiros sudaneses na Batalha de Omdurman, perto de Cartum.
Antes de 1820, o que é hoje o Sudão era um território desprovido de governo central, repartido entre pequenos reinos, e habitado e disputado entre tribos locais. Nesse ano, o governador otomano do Egito, Muhammad Ali, ordenou a conquista e anexação deste vasto território, fonte de ouro (razão de prosperidade dos antigos reinos sudaneses e do próprio Egito faraônico, num passado distante) e escravos. Além disso, turcos mamelucos, que Ali expulsara do Egito, haviam fugido para o sul, e os reinos tributários que existiam num cinturão entre o Egito propriamente dito e o Sudão se recusavam a entregá-los, proporcionando uma justificativa diplomática para a campanha. Melhor organizados e armados, os egípcios enfrentaram resistência da principal tribo sudanesa, os Shaiqiya, até hoje um povo agrícola e cioso de suas terras às margens do Nilo. Porém, dentro de um ano a guerra estava decidida em favor do Egito. A recém fundada fortaleza de Cartum se tornou o centro administrativo do Sudão egípcio.
As reformas implementadas pelo Egito no Sudão passavam pela implantação de um sistema jurídico e um sistema educacional no modelo otomano. Contudo, o Egito favorecia modelos jurídicos e educacionais orientados por uma ortodoxia islâmica que os sudaneses rejeitavam, por entrar em conflito com o islã praticado pelas tribos, que incorporava práticas e crenças tradicionais locais. O tráfico de escravos do Sudão para o Egito também se tornou tão lucrativo que, na década de 1860 esta se tornou a principal atividade econômica do Sudão (mesmo com os esforços conjuntos com os britânicos para erradicar o tráfico de escravos, caravanas árabes de apresamento continuavam a fazer fortunas no Sudão). A privatização de terras e a monopolização de ramos importantes da economia sudanesa também se tornaram um problema. Na década de 1870, o governador Ismail I, afundado em dívidas por causa da construção do Canal de Suez, começou a ceder favores à Grã-Bretanha, e a nomear europeus para governar as províncias do Sudão, e favorecer o estabelecimento de empresas estrangeiras no país. Esse Ismail acabaria abdicando em favor de seu filho Tewfiq, gerando uma crise política duradoura que levaria a uma guerra civil e à efetiva ocupação do país pelo Reino Unido.
Ismail havia nomeado governador das províncias mais meridionais do Sudão o general britânico Charles Gordon, que enfrentou resistência de um certo chefe tribal local. Com a crise de sucessão, Gordon perdeu apoio do governo central, e, depois de sete anos de atritos, abandonou o cargo. O prolongado conflitou deixou na região um forte ressentimento contra o domínio estrangeiro - fosse britânico, egípcio, ou otomano, cujo sultão era considerado o califa, ou a autoridade máxima, do islã e que exercia forte influência sobre a administração egípcia - que, até então, era vista como massacrante pelos sudaneses.
No meio de tudo isso, um faquir sudanês chamado Muhammad Ahmad proclamou a si mesmo Mahdi (o "redentor do islã") e conclamou os sudaneses fiéis a recuperarem sua terra. A agitação crescente fez com que o governador do Sudão mandasse duas companhias para capturá-lo. As duas companhias acabaram se separando no caminho, e, ao se encontrarem, julgaram estar diante do inimigo, e começaram a atirar uma na outra. Os fiéis de Ahmad se aproveitaram da confusão para destruir ambas, elevando seu nome e sua moral pelo país. Em outro confronto, os rebeldes, famintos e armados apenas de paus e pedras, atacaram um acampamento de 4 mil soldados e se apropriaram das suas armas, uniformes e suprimentos. Em 1883, uma força de mais de 10 mil egípcios e britânicos marchou para o Sudão, e encontrou o Mahdi no controle da cidade de El Obeid, com 40 mil guerreiros tribais, armados e treinados, às suas ordens. Ahmad foi mais uma vez vitorioso. Após isso, o Egito começou a se retirar do Sudão. O general Gordon foi chamado de volta para coordenar a retirada.
Ao chegar em Cartum, Gordon se deu conta da complexidade da missão: os soldados, administradores e civis egípcios e britânicos estavam encastelados em cidades e fortalezas espalhadas pelo vasto território, três delas sitiadas, e tudo entre elas estava sob controle do Mahdi. Ele se recusava, contudo, a salvar apenas Cartum (cuja população não-sudanesa era mais numerosa do que a de todas as outras cidades juntas). Ele também se preocupava com a possibilidade do Mahdi, de posse do Sudão, atacar o Egito. Enquanto pensava em um plano, mahdistas ao norte cortaram os cabos telegráficos, e em alguns dias, 50 mil deles cercavam a cidade. Depois de quase um ano de cerco, sem receber reforços, a capital caiu nas mãos do Mahdi. A queda de Cartum repercutiu no próprio cenário político britânico - o partido do governo perdeu a eleição seguinte. O governo, contudo, continuou empreendendo esforços para retirar cidadãos e oficiais estrangeiros. Em 1889, uma operação para resgatar o governador do sul, o turco Mehmed Emin, saiu do Egito e contornou toda a África Central para chegar ao sul do Sudão sem passar pelo território sob o Mahdi.
Afinal, britânicos e egípcios conseguiram reagrupar suas forças. O exército egípcio foi treinado e armado pelos ingleses, visando uma campanha de reconquista do Sudão, que o Egito ainda considerava território seu, e cuja reivindicação os britânicos consideravam legítima. Nesse meio tempo, em 1885, Ahmad morreu e foi sucedido por outro Mahdi, Abdallahi ibn Muhammad, tão influente e competente quanto seu antecessor. O Mahdi impunha a sharia, o código de leis islâmico baseado no Alcorão - porém, dentro do contexto plural e tribalista do islã no Sudão, os mahdistas hostilizavam a ortodoxia a ponto de queimar livros islâmicos. O sistema de crenças islâmico foi adaptado para que a lealdade ao Mahdi fosse incluída como um dos pilares da verdadeira fé. O regime mahdista era menos religioso e mais personalista do que pareceria a um observador casual. Os cristãos copta, contudo, eram alvos fáceis de perseguição religiosa.
Missionários e políticos ingleses que fugiram do Sudão publicaram e relataram à imprensa a barbárie imposta pelos mahdistas, originando uma ampla campanha com apelo popular pela intervenção militar naquele país. Em 1896, depois da derrota italiana na guerra com a Etiópia (o imperador etíope Yohannes IV requisitou aliança ao Mahdi Muhammad, mas foi recusado por ser, Yohannes, cristão), os sudaneses ameaçaram retomar Kassala, na fronteira do país, então sob controle italiano. Foi a brecha para os britânicos tomarem a ofensiva.
A força anglo-egípcia avançou pelo norte, tomando o cuidado de fortificar posições e construir ferrovias para garantir linhas de suprimentos. Onze mil homens equipados com o que existia de mais moderno em armamentos, incluindo metralhadoras, peças de artilharia e canhoneiras subiram o rio Nilo. Os confrontos mais sérios foram travados em 1898, quando os britânicos e egípcios, em número ainda maior, enfrentaram os mahdistas, que já somavam um exército de mais de 60 mil guerreiros. Uma batalha travada perto do rio Atbara provou, contudo, a superioridade bélica europeia: em 45 minutos, 3 mil mahdistas foram mortos, contra 85 britânicos e egípcios.
O exército anglo-egípcio conseguiu alcançar Cartum. Na manhã de 2 de setembro, cerca de 26 mil soldados anglo-egípcios encontraram 52 mil mahdistas próximo ao distrito de Omdurman, na periferia da capital. A batalha foi confusa e particularmente sangrenta, com os mahdistas realizando um ataque frontal à curta distância (devido ao alcance de seus antigos rifles) contra canhões e metralhadoras. Depois desse primeiro momento, em que 4 mil sudaneses tombaram antes de disparar um tiro, os ingleses partiram em perseguição ordenada aos fugitivos. O Mahdi, contudo, teve tempo de reorganizar seus homens (30 mil guerreiros ainda estavam de pé) e tentou cercar os britânicos num movimento de pinça, com um dos destacamentos atacando a retaguarda. Mas, sob fogo pesado de uma defesa segura, outros 7 mil mahdistas foram mortos e tantos outros feridos (muitos deles, alegadamente, executados sob ordens britânicas quando a batalha já estava decidida; observadores viram cadáveres ajoelhados, como se estivessem orando no momento da execução). Menos de 50 britânicos e egípcios foram mortos. O Mahdi ainda escapou para liderar a resistência, esmagada em Umm Diwaykarat, no ano seguinte. O Império Britânico, que efetivamente ainda governava o Egito, garantiu assim a administração conjunta do Sudão.
A guerra no Sudão ocorreu no clímax das disputas coloniais na África. Em 1885, a Conferência de Berlim começou a oficializar, entre as potências europeias, a partilha do continente. A França tinha pretensões de estabelecer colônias numa faixa longitudinal que ia do Senegal até o Mar Vermelho. O Reino Unido pretendia uma faixa latitudinal, começando no Egito e chegando à África do Sul - as duas linhas se cruzavam no Sudão. Quando os mahdistas foram derrotados em Cartum, muitos fugiram para o sul, e os britânicos saíram em perseguição. No caminho, eles surpreenderam um pequeno exército francês vindo do Congo, perto da aldeia de Fashoda, no atual Sudão do Sul. Para a França, controlar o sul do Sudão significaria controlar o Nilo Branco, um afluente navegável do Nilo onde eles poderiam posicionar uma frota de guerra e persuadir os ingleses a deixarem o Egito rio abaixo. A superioridade inglesa na região persuadiu os franceses de abandonarem seu plano (além das forças em terra, havia uma flotilha de guerra britânica subindo o rio).
O Sudão permaneceu sob administração britânica e egípcia até 1955. O território, que incluía os atuais Sudão propriamente dito e o Sudão do Sul, sempre fora tratado como um país só, e a independência foi concedida a essa entidade geopolítica, sem levar em consideração as diferenças étnicas e econômicas marcantes entre as duas regiões. Desde então, o Sudão tem vivido episódios longos e intermitentes de guerras civis com vítimas estimadas em pelo menos 1,5 milhões de pessoas, até a independência do sul em 2011 (o Sudão do Sul, atualmente, vive sua própria guerra civil).
Winston Churchill, futuro Primeiro Ministro britânico durante a Segunda Guerra Mundial, era um dos membros da cavalaria presentes na Batalha de Omdurman. Seu livro The River War: An Historical Account of the Reconquest of the Soudan é uma das principais fontes sobre os acontecimentos da guerra anglo-sudanesa.
Antes de 1820, o que é hoje o Sudão era um território desprovido de governo central, repartido entre pequenos reinos, e habitado e disputado entre tribos locais. Nesse ano, o governador otomano do Egito, Muhammad Ali, ordenou a conquista e anexação deste vasto território, fonte de ouro (razão de prosperidade dos antigos reinos sudaneses e do próprio Egito faraônico, num passado distante) e escravos. Além disso, turcos mamelucos, que Ali expulsara do Egito, haviam fugido para o sul, e os reinos tributários que existiam num cinturão entre o Egito propriamente dito e o Sudão se recusavam a entregá-los, proporcionando uma justificativa diplomática para a campanha. Melhor organizados e armados, os egípcios enfrentaram resistência da principal tribo sudanesa, os Shaiqiya, até hoje um povo agrícola e cioso de suas terras às margens do Nilo. Porém, dentro de um ano a guerra estava decidida em favor do Egito. A recém fundada fortaleza de Cartum se tornou o centro administrativo do Sudão egípcio.
As reformas implementadas pelo Egito no Sudão passavam pela implantação de um sistema jurídico e um sistema educacional no modelo otomano. Contudo, o Egito favorecia modelos jurídicos e educacionais orientados por uma ortodoxia islâmica que os sudaneses rejeitavam, por entrar em conflito com o islã praticado pelas tribos, que incorporava práticas e crenças tradicionais locais. O tráfico de escravos do Sudão para o Egito também se tornou tão lucrativo que, na década de 1860 esta se tornou a principal atividade econômica do Sudão (mesmo com os esforços conjuntos com os britânicos para erradicar o tráfico de escravos, caravanas árabes de apresamento continuavam a fazer fortunas no Sudão). A privatização de terras e a monopolização de ramos importantes da economia sudanesa também se tornaram um problema. Na década de 1870, o governador Ismail I, afundado em dívidas por causa da construção do Canal de Suez, começou a ceder favores à Grã-Bretanha, e a nomear europeus para governar as províncias do Sudão, e favorecer o estabelecimento de empresas estrangeiras no país. Esse Ismail acabaria abdicando em favor de seu filho Tewfiq, gerando uma crise política duradoura que levaria a uma guerra civil e à efetiva ocupação do país pelo Reino Unido.
Ismail havia nomeado governador das províncias mais meridionais do Sudão o general britânico Charles Gordon, que enfrentou resistência de um certo chefe tribal local. Com a crise de sucessão, Gordon perdeu apoio do governo central, e, depois de sete anos de atritos, abandonou o cargo. O prolongado conflitou deixou na região um forte ressentimento contra o domínio estrangeiro - fosse britânico, egípcio, ou otomano, cujo sultão era considerado o califa, ou a autoridade máxima, do islã e que exercia forte influência sobre a administração egípcia - que, até então, era vista como massacrante pelos sudaneses.
No meio de tudo isso, um faquir sudanês chamado Muhammad Ahmad proclamou a si mesmo Mahdi (o "redentor do islã") e conclamou os sudaneses fiéis a recuperarem sua terra. A agitação crescente fez com que o governador do Sudão mandasse duas companhias para capturá-lo. As duas companhias acabaram se separando no caminho, e, ao se encontrarem, julgaram estar diante do inimigo, e começaram a atirar uma na outra. Os fiéis de Ahmad se aproveitaram da confusão para destruir ambas, elevando seu nome e sua moral pelo país. Em outro confronto, os rebeldes, famintos e armados apenas de paus e pedras, atacaram um acampamento de 4 mil soldados e se apropriaram das suas armas, uniformes e suprimentos. Em 1883, uma força de mais de 10 mil egípcios e britânicos marchou para o Sudão, e encontrou o Mahdi no controle da cidade de El Obeid, com 40 mil guerreiros tribais, armados e treinados, às suas ordens. Ahmad foi mais uma vez vitorioso. Após isso, o Egito começou a se retirar do Sudão. O general Gordon foi chamado de volta para coordenar a retirada.
Ao chegar em Cartum, Gordon se deu conta da complexidade da missão: os soldados, administradores e civis egípcios e britânicos estavam encastelados em cidades e fortalezas espalhadas pelo vasto território, três delas sitiadas, e tudo entre elas estava sob controle do Mahdi. Ele se recusava, contudo, a salvar apenas Cartum (cuja população não-sudanesa era mais numerosa do que a de todas as outras cidades juntas). Ele também se preocupava com a possibilidade do Mahdi, de posse do Sudão, atacar o Egito. Enquanto pensava em um plano, mahdistas ao norte cortaram os cabos telegráficos, e em alguns dias, 50 mil deles cercavam a cidade. Depois de quase um ano de cerco, sem receber reforços, a capital caiu nas mãos do Mahdi. A queda de Cartum repercutiu no próprio cenário político britânico - o partido do governo perdeu a eleição seguinte. O governo, contudo, continuou empreendendo esforços para retirar cidadãos e oficiais estrangeiros. Em 1889, uma operação para resgatar o governador do sul, o turco Mehmed Emin, saiu do Egito e contornou toda a África Central para chegar ao sul do Sudão sem passar pelo território sob o Mahdi.
Afinal, britânicos e egípcios conseguiram reagrupar suas forças. O exército egípcio foi treinado e armado pelos ingleses, visando uma campanha de reconquista do Sudão, que o Egito ainda considerava território seu, e cuja reivindicação os britânicos consideravam legítima. Nesse meio tempo, em 1885, Ahmad morreu e foi sucedido por outro Mahdi, Abdallahi ibn Muhammad, tão influente e competente quanto seu antecessor. O Mahdi impunha a sharia, o código de leis islâmico baseado no Alcorão - porém, dentro do contexto plural e tribalista do islã no Sudão, os mahdistas hostilizavam a ortodoxia a ponto de queimar livros islâmicos. O sistema de crenças islâmico foi adaptado para que a lealdade ao Mahdi fosse incluída como um dos pilares da verdadeira fé. O regime mahdista era menos religioso e mais personalista do que pareceria a um observador casual. Os cristãos copta, contudo, eram alvos fáceis de perseguição religiosa.
Missionários e políticos ingleses que fugiram do Sudão publicaram e relataram à imprensa a barbárie imposta pelos mahdistas, originando uma ampla campanha com apelo popular pela intervenção militar naquele país. Em 1896, depois da derrota italiana na guerra com a Etiópia (o imperador etíope Yohannes IV requisitou aliança ao Mahdi Muhammad, mas foi recusado por ser, Yohannes, cristão), os sudaneses ameaçaram retomar Kassala, na fronteira do país, então sob controle italiano. Foi a brecha para os britânicos tomarem a ofensiva.
A força anglo-egípcia avançou pelo norte, tomando o cuidado de fortificar posições e construir ferrovias para garantir linhas de suprimentos. Onze mil homens equipados com o que existia de mais moderno em armamentos, incluindo metralhadoras, peças de artilharia e canhoneiras subiram o rio Nilo. Os confrontos mais sérios foram travados em 1898, quando os britânicos e egípcios, em número ainda maior, enfrentaram os mahdistas, que já somavam um exército de mais de 60 mil guerreiros. Uma batalha travada perto do rio Atbara provou, contudo, a superioridade bélica europeia: em 45 minutos, 3 mil mahdistas foram mortos, contra 85 britânicos e egípcios.
O exército anglo-egípcio conseguiu alcançar Cartum. Na manhã de 2 de setembro, cerca de 26 mil soldados anglo-egípcios encontraram 52 mil mahdistas próximo ao distrito de Omdurman, na periferia da capital. A batalha foi confusa e particularmente sangrenta, com os mahdistas realizando um ataque frontal à curta distância (devido ao alcance de seus antigos rifles) contra canhões e metralhadoras. Depois desse primeiro momento, em que 4 mil sudaneses tombaram antes de disparar um tiro, os ingleses partiram em perseguição ordenada aos fugitivos. O Mahdi, contudo, teve tempo de reorganizar seus homens (30 mil guerreiros ainda estavam de pé) e tentou cercar os britânicos num movimento de pinça, com um dos destacamentos atacando a retaguarda. Mas, sob fogo pesado de uma defesa segura, outros 7 mil mahdistas foram mortos e tantos outros feridos (muitos deles, alegadamente, executados sob ordens britânicas quando a batalha já estava decidida; observadores viram cadáveres ajoelhados, como se estivessem orando no momento da execução). Menos de 50 britânicos e egípcios foram mortos. O Mahdi ainda escapou para liderar a resistência, esmagada em Umm Diwaykarat, no ano seguinte. O Império Britânico, que efetivamente ainda governava o Egito, garantiu assim a administração conjunta do Sudão.
A guerra no Sudão ocorreu no clímax das disputas coloniais na África. Em 1885, a Conferência de Berlim começou a oficializar, entre as potências europeias, a partilha do continente. A França tinha pretensões de estabelecer colônias numa faixa longitudinal que ia do Senegal até o Mar Vermelho. O Reino Unido pretendia uma faixa latitudinal, começando no Egito e chegando à África do Sul - as duas linhas se cruzavam no Sudão. Quando os mahdistas foram derrotados em Cartum, muitos fugiram para o sul, e os britânicos saíram em perseguição. No caminho, eles surpreenderam um pequeno exército francês vindo do Congo, perto da aldeia de Fashoda, no atual Sudão do Sul. Para a França, controlar o sul do Sudão significaria controlar o Nilo Branco, um afluente navegável do Nilo onde eles poderiam posicionar uma frota de guerra e persuadir os ingleses a deixarem o Egito rio abaixo. A superioridade inglesa na região persuadiu os franceses de abandonarem seu plano (além das forças em terra, havia uma flotilha de guerra britânica subindo o rio).
O Sudão permaneceu sob administração britânica e egípcia até 1955. O território, que incluía os atuais Sudão propriamente dito e o Sudão do Sul, sempre fora tratado como um país só, e a independência foi concedida a essa entidade geopolítica, sem levar em consideração as diferenças étnicas e econômicas marcantes entre as duas regiões. Desde então, o Sudão tem vivido episódios longos e intermitentes de guerras civis com vítimas estimadas em pelo menos 1,5 milhões de pessoas, até a independência do sul em 2011 (o Sudão do Sul, atualmente, vive sua própria guerra civil).
Winston Churchill, futuro Primeiro Ministro britânico durante a Segunda Guerra Mundial, era um dos membros da cavalaria presentes na Batalha de Omdurman. Seu livro The River War: An Historical Account of the Reconquest of the Soudan é uma das principais fontes sobre os acontecimentos da guerra anglo-sudanesa.
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